(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O CAMINHO DO CAMINHO, 23









Enigmas no Caminho: Animais totémicos

Cynthia Guimarães Taveira
 
Diz um textinho alquímico (do qual não me lembro bem, nem qual é, nem aonde li, porque são muitos) que o homem contém em si todos os animais. De facto, conseguimos imitar todos os animais mas o contrário não se passa. Duas mãos projectadas em sombra sobre uma parede são suficientes para fazer nascer uma águia, um coelho, o que quer que seja.

António Telmo não gostava nada de insectos porque, dizia, eram animais diabólicos. Para ele a simetria dos insectos correspondia a uma perversidade que facilmente se poderia projectar no ser humano. De facto, as sociedades totalitárias aproximam-se muito da simetria. Basta ver a arquitectura dos fascismos e dos comunismos para se constatar essa ideia de simetria um pouco claustrofóbica, bem como a simetria das marchas dos exércitos dessas sociedades, e ainda a simetria nas hierarquias que sempre se impõem mesmo quando é uma sociedade socialista. A mecanização do homem anda a par com a forma como algumas colónias de insectos se organizam. Um centro (uma rainha), para a qual todos trabalham de maneira a manter um esquema social extremamente viciado.. São sociedades fechadas sobre si próprias que, no fenómeno humano, acabam sempre por se abater sobre si próprias. No entanto, pela minha parte, gosto de observar os insectos e a sua variedade quando me afasto um pouco deste olhar mais geral de António Telmo. A variedade de insectos é extraordinária. Assim como a variedade dos restantes animais.

Muito comum é noção de totem. Uma pessoa ou um grupo, adoptam um animal totémico (ligado à sua mitologia) e, a partir daí, tabus e adorações giram em torno desse animal.

Os novos grupos neo-pagãos também têm tendência para a identificação com determinados animais, quer em termos gerais (alguns deles vindos da mitologia e folclore europeus), quer em termos particulares, ao ponto até, de nesses novos rituais, só poderem entrar pessoas que já tenham descoberto qual o seu animal totémico. Equipara-se uma pessoa a um animal, o que, na minha perspectiva é um pouco redutor, até porque a minha experiência diz-me o contrário: são os animais que nos adoptam a nós. Que nos escolhem como um espécie de “totem”, que nos adoram, que nos protegem. Nós temos que fazer o mesmo que os deuses fazem connosco: protegê-los, escutá-los, encaminhá-los para serem mais humanos, assim como os deuses nos encaminham para sermos mais divinos.

Digo isto por causa da minha estranha relação com os gatos, foram eles que me explicaram por a + b como é que as coisas se faziam e de como o totemismo era de alguma forma uma inversão das relações hierárquicas na natureza. Passo a explicar (sei que vou chocar neo-pagãos, mas paciência).

Sempre gostei de cães. Em criança, as minhas tardes eram passadas com cães. Com o cão pai, com a cadela mãe e com os cães filhos, todos pertencentes a uma vizinha. Foi essa paixão, aliás, que me abriu portas para uma linguagem invisível, só possível com o coração. Nunca liguei muito a gatos em criança, no entanto, eles vinham atrás de mim. Onde quer que eu estivesse, fora da minha zona de conforto (expressão que agora se usa muito) aparecia um gato. Nunca os enxotei mas tembém não lhe ligava grande coisa, mas eles pareciam fixados em me acompanhar, apesar da minha falta de jeito para lidar com eles.

Um dia fui ao Egipto, e entre muitas coisas esquisitas que se passaram, sonhei que três gatos cinzentos me mordiam as mãos. Mordiam com tal força e ternura que acordei encharcada em suor, eles estavam a matar-me pela dor! Na altura não entendi o significado de tal sonho. Anos mais tarde, a após algumas perseguições por parte de gatos, eis-me por vias do acaso rodeada em casa de gatos adoptados. Continuam fixados em mim, num diálogo muito próprio, muitas das vezes ligado à justiça pura: com eles não posso ser injusta, pois imediatamente a seguir ou tropeço, ou me magoo “sem querer”, demasiadas vezes “sem querer” para não achar aí um denominador comum. Os gatos, pelo menos os meus, exigem-me a máxima atenção e, em troca, veneram-me, ao ponto de ter chegado à conclusão que o que se passava era o contrário: eu era o humano totémico deles e a nossa relação, era ao invés -- venerando-me, seguindo-me, olhando fixamente os meus olhos, eu, hierarquicamente acima, só tinha que os respeitar, amar, encaminhar, tornando-os os melhores gatos possível, humaniza-los, puxar por eles. Em troca, havia uma relação de “vasos” comunicantes com proporções justas, de causas e efeitos. A justiça e a misericórdia eram rigorosamente aplicadas para ambos, os gatos por vias estranhas também geravam castigos e recompensas, assim como eu gerava o mesmo.

Os cães, que continuo a adorar, vão ter de esperar porque neste momento tenho uma relação estranha com os gatos. A mesma que temos com os deuses, com os anjos, com o divino. A natureza ensina e nós ensinamos a natureza, em espirais de conhecimento e amor. Pã, aparece sempre nas encruzilhadas e, numa linguagem dúbia, propõe-nos que adivinhemos o segredo da enigmática resposta ao enigma da esfinge.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

PARA SORRIR












"Quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque menos depende da minha subjectividade."

Fernando Pessoa

Livro do Desassossego

O CAMINHO DO CAMINHO, 22



















"Nudas Veritas" de Klimt

Esquemas III

Cynthia Guimarães Taveira

Klimt pintou este quadro ao qual chamou “Nuda Veritas”, nele colocou uma citação de Schiller: “Se não podes agradar a todos com a tua arte, agrada a alguns. Agradar a todos é mau.”

No mundo esotérico, não será diferente, mas muitas vezes o que acontece é exactamente o oposto.

Quando D. Afonso Henriques, segundo a lenda, teve uma visão em Ourique na qual Cristo lhe apareceu, o nosso Rei teve uma reacção absolutamente improvável. Lembro-me de a ouvir relatada pelo Dr. Abel Lacerda num almoço de convívio e as palavras deste relato ficaram-me gravadas: “Quando Cristo apareceu a D. Afonso Henriques, o Rei, interrogou-o desta maneira: - Então Tu mostras-te a mim que acredito em Ti? Tu devias aparecer àqueles que em ti não crêem!”

Em primeiro lugar estas palavras gravadas na lenda revelam uma intimidade com o divino surpreendente. Na tradição judaica, também Deus é tratado por Tu. No musical “O Violino do Telhado”, aquele pobre pai tem conversas com Deus no qual Este é interpelado quase “de igual para igual”, num equilíbrio de forças invulgar. O mesmo se passou com o nosso rei.

Em segundo lugar, a indignação do rei, mostra acima de tudo uma imensa humildade. Porquê? Porque afinal ele encara a aparição de Cristo como algo muito natural.

No mundo do esoterismo, muitas vezes, passa-se o contrário. Os mundos paralelos tocam-se muitas vezes, muitas mais até do que aquelas das quais nos damos conta, mas frequentemente um acontecimento, ainda muito menos importante do que a aparição de Cristo, é logo motivo para o desencadear de muitas e variadas reacções por parte daqueles a quem o divino foi manifestado (isto quando foi, de facto, o divino a ser manifestado e não se trata de simples ilusão…).

Por uma voz que se ouve, por uma luz que se vê, por uma imagem que surge, imediatamente uma reacção megalómana é desencadeada. Surge uma seita, surge uma igreja, surge um guru, surge um “mestre espiritual”, surge uma “nova via”, um novo sistema filosófico, um novo livro, novos discípulos girando em torno de algo que, se calhar, no início, era apenas pontual e importante somente para a pessoa que viveu tal experiência. Daí a proliferação de seitas, de crenças, de sistemas vários que, ao invés de “acordarem”, “adormecem”, pois tornam os homens submissos a um falso centro.

Outra força adjuvante ao aumento da megalomania e ao equivalente adormecimento tem a ver com os graus adquiridos nas ordens ditas iniciáticas. Há que ter em atenção que as ordens iniciáticas são recentes, aquilo que ensina a tradição é que a sabedoria era passada de Mestre para Discípulo. Como isso se perdeu no Ocidente, surgem muitas ordens com um conjunto de símbolos e e rituais, evocando uma tradição arcaica. Já René Guénon pôs o dedo na ferida questionando se haveria, ou não, influências espirituais em tais ordens. Para quem detém os graus adquiridos a pergunta: “Sofri ou não influência espiritual?” deveria estar sempre presente, de maneira a não confundir o dedo que aponta a árvore com a floresta inteira, porque aqui o risco de megalomania interior é muito intenso, para não dizer quase mortífero, pois no exibicionismo de tais graus, degraus, voltas na espiral, andares, escadarias, etc, dá-se o arrastamento dos outros, normalmente muitos: “Se ele ou ela tem tal grau, então é sábio/sábia, é importante e, sobretudo tem influência”. Entre um grau e a baixa magia, às vezes, não há muita diferença. A pior megalomania é a interior, aquela verdadeiramente secreta em que, tal como a rainha má da Branca de Neve, no segredo dos seus aposentos, olha o espelho e diz: “Espelho meu, espelho meu, existe alguém mais iniciado do que eu?” Porque essa arrasta multidões em jogos de influências que pouco ou nada têm de espiritual.

Quando Klimt apresentou as suas obras num concurso para o mundo académico, com temáticas da justiça, da medicina, etc, foram recusadas. Não foi aceite. Mas as obras permaneceram e, ainda há pouco, passados mais de cem anos, cá em casa, estivemos a admirar um bonito livro onde estavam essas imagens recusadas. Parámos na “Nuda Veritas”. Meditámos sobre a tradução de Schiller. A matéria prima com a qual podemos trabalhar a nossa alma está dentro e fora. Está nela própria e está em tudo o que nos rodeia. Não nascemos livres, mas podemos voar para longe de todas as ilusões e a influência espiritual está, muitas vezes, onde menos se espera…

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

POEMAS DE EDUARDO AROSO













CICLICIDADE
Regressar ao musgo do tempo
Onde a vida se agarra
Intensa e firme dádiva.
Voltar à palavra, arado de esperança,
Sulcando a feminina madrugada.
Limpar a terra pelo relento virgem,
Recompondo os braços, purificando os olhos,
Na luz benigna da origem.
Entre a noite e o dia
No frio deserto do mundo,
Crepita a fogueira
Ou a flor da alegria.


Natal, 2011

Eduardo Aroso

O CAMINHO DO CAMINHO, 21












Transgressão e Transmutação

Cynthia Guimarães Taveira

Transgredirias? Transgredirias nu? Não estás sempre nu? Conseguirás estar sempre nu? Genuinamente nu, sem ritos, nem ideias, nem abismos, nem alturas. Assim sujeito como um menino num berço lançado ao rio. Nascendo duas vezes a cada instante. Há tantas transgressões mas só algumas são escutadas. Só algumas são actos de amor genuíno. Amor genuíno, despido, entregue,
vertical. Como um beijo no qual se projecta a alma toda. Como um abraço que é um vôo de liberdade.



No filme “Indiana Jones e a Grande Cruzada” de Spielberg, a fotogramas tantos, o herói é confrontado com um abismo. Entre ele e o Graal, um imenso vazio se estende para baixo. Perante a dúvida, e pensando rapidamente, o herói tem a atitude mais surpreendente e lança-se sobre ele. Surpreendentemente, uma ponte de luz aparece para o suportar. Nos seus movimentos interiores voláteis o herói associou o salto no abismo à fé e, em última análise, a transgressão é um acto de fé como se esta fosse a sua essência.

Porque nada acontece por acaso, no outro dia, dei-me conta de que nada sabia sobre esse Santo a quem foi dado o nome de S. Valentim. Vim a constatar que existiam dois prováveis mas que, no entanto, a lenda girava em torno do amor e da transgressão. Eis uma versão da lenda e suas origens romanas:

A história do Dia de São Valentim remonta a um obscuro dia de jejum tido em homenagem a São Valentim. A associação com o amor romântico chega depois do final da Idade Média, durante o qual o conceito de amor romântico foi formulado.
O bispo Valentim lutou contra as ordens do imperador Cláudio II, que havia proibido o casamento durante as guerras, acreditando que os solteiros eram melhores combatentes. O bispo continuou a celebrar casamentos apesar da proibição do imperador. A prática foi descoberta e Valentim foi preso e condenado à morte. Enquanto estava preso, muitos jovens enviaram-lhe flores e bilhetes dizendo que ainda acreditavam no amor e, durante esse período na prisão, apaixonou-se pela filha cega de um carcereiro devolvendo-lhe a visão milagrosamente. Antes da execução, Valentim escreveu uma mensagem de adeus para a sua amada, na qual assinava como “Seu Namorado” ou “De seu Valentim”. Considerado mártir pela Igreja Católica, a data de sua morte - 14 de Fevereiro - também marca a véspera das lupercais, festas anuais celebradas na Roma Antiga em honra de Juno (deusa da mulher e do matrimónio) e de Pan (deus da natureza). Um dos rituais desse festival era a passeata da fertilidade, em que os sacerdotes caminhavam pela cidade batendo em todas as mulheres com correias de couro de cabra para assegurar a fecundidade.

Esta última parte parece muito violenta mas ela faz parte de uma associação entre a terra e a mulher por parte dos agricultores. Antigamente, era também costume bater-se na terra de maneira a que esta despertasse e se tornasse fértil. Não é violência doméstica…

Bem, mas o que têm em comum estas duas histórias, a do Indiana Jones e a de S. Valentim? A transgressão. Lembremos que é também, por alturas de Fevereiro/Março que é celebrado o Carnaval, lugar de todas as transgressões, herança de festas pagãs. Antes da ordem, da fertilidade, da Primavera, da abundância, parece haver necessidade de se celebrar o fim de um ciclo e a inversão de todas as coisas (homens vestidos de mulher, escravos que se tornam reis, etc.), é a marca de um fim de ciclo: esta conversa é muito parecida com a descrição do fim do mundo moderno de René Guénon, mas neste caso não é isso que interessa. O que interessa é o valor da transgressão e quando é que ela é efectivamente válida.


Se observarmos a vida de alguns Santos, constatamos que, surpreendentemente, muitos deles foram transgressores, só que a sua transgressão não era nula, ou seja: não partia do nada em direcção ao nada. A sua transgressão era sempre feita em nome de um ideal: ou de pureza, ou de amor, ou de sabedoria .A transgressão era uma necessidade. No filme referido, o herói tem três provações: a humildade, o nome de Deus (sabedoria) e a fé (sempre muito ligada ao amor, à morte e à vida), e embora a transgressão esteja presente em todas elas, é na última que esta está mais evidente: nesse salto no vazio. Não é um salto do vazio para o vazio, mas é um salto pelo vazio, o que é diferente, e é essa a confusão que se faz muitas vezes.

Os jovens rebeldes adoram transgredir, e transgridem muito, só que há uma diferença de vazios. A maior parte salta de um vazio para o outro. Estão vazios em casa, vão para o carro, transgridem os limites de velocidade, e encontram o vazio da morte do outro lado. É a chamada transgressão inútil.

Depois também há a falsa transgressão, por exemplo, roubar para seu próprio deleite. É a chamada transgressão para benefício próprio. O transgressor é aquele que retira prazer imediato da transgressão.

E no, fim, há a verdadeira, aquela que, normalmente, numa primeira fase tem consequências nefastas para o transgressor mas que, depois, se torna símbolo da sua própria santidade. Relembro aqui o poema que Eduardo Aroso publicou há pouco neste blogue: “Verás que os punhais de fora/Dentro são um Hino de amor.”

Transgredir por Amor, normalmente, leva a que setas ou pedras sejam atiradas contra o transgressor, mas a lógica do divino e do amor inverte mais tarde as coisas.

Transgredir por transgredir é inútil. Transgredir por Amor, é transmutar. Amor com A grande. O amor nada tem a ver com o fanatismo. Mas tem tudo a ver com o conhecimento… já dizia o Camões.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O CAMINHO DO CAMINHO, 20


Esquemas II
Cynthia Guimarães Taveira
 
Por caminhos tortos e incompreensíveis (agora, finalmente, talvez mais compreensíveis), quis o destino que fosse parar ao curso de Antropologia. Foi bom nuns aspectos, foi mau noutros. O aspecto bom tem, sobretudo, a ver com aquilo a que chamo o “complexo” de Atena. Aí vem ela, acabada de nascer, soltando um grito e erguendo um machado de guerra e eis que o desfere na cabeça dos pobres alunos. É um fim de um mundo. Não mais a nossa cultura, o nosso modo de viver, de pensar, vai ser o único. Pergunta um professor numa aula, em jeito de provocação, “Se num templo hindu vos fosse dito que para lá entrar teriam de se cobrir com bosta de vaca, que fariam?” Todos vão respondendo, trémulos, uns que sim, outros que não. No fundo, é como o livro de Woody Allen, acaba-se de vez com a nossa exclusiva cultura e, nesse fim, nascem em simultâneo todas as outras, uma reviravolta quase ontológica, apreendida e aprendida com dúvidas que se iam levantando sobre nós e sobre os outros.
Lado menos bom: os esquemas, as grelhas. Como se podem tornar Catedráticos distintos, como podem formar Escola, como se podem destacar neste mundo do conhecimento? Só há um caminho: criem uma grelha de interpretação cultural. Se tiverem um esquema que possa ser desenhado, ainda melhor. Não sigam nenhuma Escola, conheçam-nas todas, mas não sigam nenhuma, criem uma só vossa a quem alunos, mais tarde, possam recorrer para fazer os seus trabalhos, ficando assim “limpos” e “escudados” quando forem avaliados. Estarão assim protegidos contra as críticas porque, ao serem criticados, estará também um conceituado nome a ser criticado e a isso muito poucos críticos se atrevem. Foi assim que nasceu o Funcionalismo, o Estruturalismo, etc. Nasceram da necessidade de criação de um lugar de destaque no mundo universitário. Chocante? Nem por isso. É a vida.
Mas será a vida?
Aquilo que há de mais engraçado na literatura alquímica é a variedade. É tão variada, tão variada, que parece não fazer sentido nenhum. Porque é que para a mesma coisa são utilizados tantos símbolos diferentes? Se é a mesma coisa, e é dita ser um conhecimento tradicional, deveria usar sempre os mesmos símbolos. A cada coisa seu símbolo específico. Mas isso não acontece porque… é a vida. E é mesmo a Vida. Com V grande.
Já vi esquemas alquímicos desenhados, assim muito certinhos, muito direitinhos, muito higiénicos, muito científicos. Tudo no seu lugar, excepto uma coisa: quem os desenhou não conseguiu o corpo de glória, nem o elixir da juventude, nem sequer o ouro. Porquê? Porque é a vida…
Daí que qualquer interpretação que se faça de uma obra alquímica tenha de ter em consideração a Vida. Ela vai fazer toda a diferença e derruba os esquemas com um simples sopro de espírito… Porque só assim aprendemos, de facto, qualquer coisa de jeito, qualquer coisa que seja útil para nós e para os outros. E, mesmo assim, alguma coisa nos vai escapar sempre. Muito poucos foram, de facto, abençoados pela santidade verdadeira. Mas alguns conseguiram ser especiais e fazer alguma diferença humanamente qualitativa numa era que se desagrega a olhos vistos.
Por isso, quando se lê essa literatura, teremos sempre de nos lembrar das palavras de Camões: “um saber de experiência feito”, e essa experiência é a própria vida do alquimista que escreve. Daí o paradoxo apontado por Julius Evola, no final do seu livro A Tradição Hermética, (ed. 70, 1979, pag. 219): «A qualidade hermética segundo a qual, no dizer dos alquimistas, os seus textos são como se tivessem sido escritos só para eles, teremos de referi-la em maior grau à sua própria pessoa ou obra.»
Escrevendo em intima ligação à sua experiência, escrevem, em simultâneo, em intima ligação com uma sabedoria tradicional. Daí que seja muito complicado elaborar uma grelha de interpretação. O mundo alquímico não é o mundo académico. Mercúrio está sempre a voar.

sábado, 17 de dezembro de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 25



A sacra câmara dos tesouros

Alexandra Pinto Rebelo


Habituámo-nos a festejar o Natal com os adereços que vimos usar a pais e avós. Todos eles nos fazem sentido. Quanto mais não seja, um sentido étnico, ao nível da imagem. O presépio, em forma de cabana, manjedoura ou gruta, fica mesmo bem perto da árvore de Natal, com as suas fitas coloridas enroladas, as filas de luzes intermitentes, bolas brilhantes penduradas, encimadas por uma estrela radiante. A ceia tem um clima diferente de todas as ceias do ano. A um tempo, é plena de solenidade, alegria, transcendência. Será a última ceia do nosso calendário solar, celebrada entre os “nossos”. Por isso, não causa estranheza lembrarmos de uma forma muito vívida aqueles que deixaram de estar presentes.
Todo este cenário lembra as Câmaras de Curiosidades do barroco. Salas onde se juntavam peças coleccionadas por pessoas ricas, fragmentos de tempos não coincidentes.
A árvore de Natal pode ser entendida como sendo um axis mundi, o eixo de ligação da terra aos céus, mas também aos níveis inferiores, ctónicos. O presépio-gruta costuma ser colocado, precisamente, junto ao tonco inferior, passagem para o mundo onde as sementes se dissolvem durante parte do ano, germinando em seguida. A árvore, sempre de folha perene, eleva-se, assistindo a esta metamorfose mistérica. As folhas sao povoadas de coisas brilhantes, bolas, fitas, adquirindo, aos poucos, uma linguagem cada vez mais abstrata. As fitas orientam-se em espirais, estreitando-se em direcção ao topo. Numa vista aérea, teremos uma configuração muito próxima de alguns percursos místicos de certos templos circulares gregos. Por elas, ainda não teremos a verdadeira revelaçao, como nos lembram as luzes intermitentes. A epifania será simbolizada no cume da árvore, no lugar mais perto dos mundos superiores, sendo uma epifania da Luz.
Maria, Mãe de Deus, mostra o seu Menino, aquele que nasceu sem intervenção terrena. Estamos num nível de semi-deuses, contacto reactualizado anualmente, aqui no final do calendário solar, correspondendo, por proximidade, ao solstício de Inverno. O Menino Jesus abrirá essa noite, entretanto tornada mais escura do que nunca, revelando o seu avesso no sol do nosso Verão. Morrerá, entretanto, pela Páscoa, sabemo-lo, ressuscitando em seguida, deixando a João, seu primo, a responsabilidade de voltar a fechar este ciclo de escuridão/luminosidade, em Junho.
Em todos os Natais, em nossa casa, temos um mecanismo simbólico completamente desconhecido, mas absolutamente actuante. Foi através deste mecanismo simbólico que o mundo foi recriado, vezes sem conta pelos nossos antepassados. É por ele que, ainda hoje, temos Mundo e as gerações futuras o hão-de recriar outras tantas vezes sem conta. Por isso nos juntamos todos, na refeição ritual. Todos aqueles que já existiram e existem, observando em Mistério a belíssima actualização do Mundo. E que connosco estejam todos, Maria, Jesus, José, o Homem Verde, Ishtar-Inanna, Ceres, Perséfone, os nossos mortos, os nossos vivos. Todos, independentemente da particularidade que tomaram depois de Babel.
Só todos juntos seremos os suficientes para saborear o travo único da Luz.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O CAMINHO DO CAMINHO, 19

Esquemas


Cynthia Guimarães Taveira

Já vi escrito (e dito) por um nome conceituado do nosso esoterismo que o misticismo é fonte de engano, não por estas palavras mas sim com um ligeiro desprezo no tom (um desprezo quase inaudível, só possível de nos apercebermos dele em máxima atenção) como se o caminho alquímico fosse o mais seguro (o que não é verdade porque nesse caminho o perigo aumenta exponencialmente). Ora convém lembrar os três caminhos apontados pela lucidez de Fernando Pessoa: o caminho poético, místico e alquímico. Cada um deles se dirige ao mesmo (no caso da alquimia não podemos ser suficientemente ingénuos e pensar que os alquimistas apenas procuram o elixir da longa vida de maneira a arrastarem a sua existência por este planeta por mais anos, o que procuram é o corpo de glória, um corpo transcendente, tal qual o corpo de Cristo após a transfiguração e isto implica, naturalmente, transcendência). Procuram os três caminhos, portanto, a transcendência e, cada um deles, sem excepções, possui os seus perigos. Cada um deles, acrescentaria, nas suas voltas e reviravoltas toca os outros, exactamente como aquilo que se passa com a arte. A pintura está carregada de musicalidade e de palavras, a literatura carregada de imagens e de musicalidade e a música carregada está de palavras e imagens. As artes contém-se umas às outras assim como os caminhos não são exclusivos mas sim inclusivos. O problema é a grande tentação de esquematizar as coisas pelo contágio, é certo, de uma mentalidade simplória cientifica no sentido actual do termo, disfarçada de um pragmatismo teórico. Duvidemos sempre dos “esquemas”, duvidemos sempre de uma literatura esotérica que se apresenta acompanhada com um desenho esquemático, organizado, geométrico, aprisionando na forma a substancia. A geometria, na sua essência, não aprisiona a substancia, nasce da substancia, o que é diferente. É apenas uma parte de um todo, não é o todo. Existe sempre a tentação de a ver como síntese, esquecendo que o mundo das formas de Platão não era apenas geométrico. A luz não é geométrica e, porém ilumina tudo, assim como o rio bravo não deixa de correr. As formas sucederem-se, a substância vai sendo. Daí a tradução errada da bíblia que diz, nas palavras de Deus: “Eu sou o que Sou”, quando a a verdadeira tradução é: “Eu serei o que Serei”. Do presente para o futuro vai uma grande distancia tal como do pragmatismo teórico à realidade existe uma diferença qualitativa. Esquecer a poesia, em qualquer caminho, é esquecer essa diferença fundamental.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

PALAVRAS SÁBIAS














Senhoras e Senhores, Vinícius de Moraes:

"A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre."

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

POEMAS DE EDUARDO AROSO



ADVENTO
Não receies que as estrelas
Ardam na tua mão.
Tens a epiderme alada
Em movimento perpétuo.
Deixa-te atravessar pela luz
Lentamente como nasce uma flor;
Verás que os punhais de fora
Dentro são um hino de amor.


12-12-2011
Eduardo Aroso


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

ANTÓNIO TELMO, SEMPRE













As periferias e os centros

Cynthia Guimarães Taveira

Os povos têm alma e, como tal, esta é uma mistura de adjectivos, uns bons, uns maus, uns assim-assim. A Alemanha tem uma alma e nela, por vezes, o maniqueísmo toma proporções gigantescas. Tão gigantescas que podem assumir a forma de  um Hölderlin ou de um Goethe. Podem também assumir, por outro lado, a forma de um Kant. A Alemanha vive entre dois pólos: o amor à natureza e o ódio à natureza. A raiz da crise é só esta. Não são os mercados, os euros, as dívidas. A génese está no posicionamento face ao jardim que é o mundo. A Alemanha quando ama a natureza dilui-se na Europa, ninguém dá por ela, faz parte de um todo, acompanha os ritmos sazonais e dança na Primavera em torno do eixo do mundo. Disse, dança na Primavera em torno do eixo do mundo, não disse que é o eixo do mundo. A Alemanha quando odeia a natureza é o eixo do mundo. Portugal quando ama a natureza é o eixo do mundo e nunca, na sua alma, chega a odiar a natureza porque tende mais a ser ela. Apenas se esquece dela, dorme longe dela. Sempre que a Alemanha centra as atenções sobre si própria é porque, nesse momento, está em guerra com a natureza. Por isso faz ondas e agita os restantes países. Agita os homens mais humildes dentro das suas casas mesmo que estes estejam situados numa ilha isolada no centro do Mediterrâneo. O problema da Europa é então, hoje, estranhamente, um problema de amor. Deixo-vos um textinho do Mestre António Telmo situado na História Secreta de Portugal (Ed Veja,1977, pag. 126):
“O desenvolvimento do pensamento alemão oferece, frequentes vezes, o aspecto do ódio à natureza: grandes máquinas mentais, perfuradoras, tractores, guindastes, que parecem insectos ampliados pelo microscópio. Os grandes sistemas de filosofia germânica zumbem com um grande ruído sintático e sinfónico no espaço da mente e abatem-se de súbito sobre a terra, abrindo minas, escavando, rasgando, torturando a carne da natureza.

Tal ódio assume em Kant a forma de repulsa: «Falam-me da beleza de um céu estrelado. Lembra-me um rosto coberto de bexigas». Ouça-se, comparando, o nosso Carlos Queiroz:

Anoitece.
Faz frio pensar na vida.
E a natureza parece
Dizer em voz comovida
Que o homem não a merece.»

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O CAMINHO DO CAMINHO, 18














Leituras…
Cynthia Guimarães Taveira

Em conversa com o Pedro Martins relativamente ao novo livro dele, “O Segredo de Grão Vasco”, dizia-lhe que tinha gostado muito do livro. Independentemente das teses que nele eram defendidas, aquilo que havia de melhor nessa obra eram as pistas, os indícios que ele havia deixado no rasto da sua análise. Pistas, indícios de quê?

Para dar a resposta a esta pergunta teremos que começar por analisar alguma da literatura que por aí se vai fazendo e falo apenas no caso português.

Não sem entusiasmo há quem se lance na aventura simbólica. Sim, é um momento importante aquele em que se descobre que os edifícios de pedra antigos estavam pejados de símbolos, alguns mesmo de mensagens elaboradas, que alguma pintura também, que certos textos eram afinal cifras, que as religiões têm muitos deuses e são muito antigas. É o chamado momento do mergulho no dicionário dos símbolos no qual se navega pescando alegremente sem se perceber que se está a apanhar apenas um único peixe que contém apenas uma parte de um problema suficientemente grande para uma vida só não o conseguir resolver.

Aparecem textos estranhos, com associações ainda mais estranhas, e perdoem-me falar num nome, mas para que haja a noção da loucura a que se chega será mesmo necessário citar um excerto apanhado na Internet, transcrito entusiasticamente por Vitor Manuel Adrião que
diz, a dada passagem (para a qual é necessária toda a paciência que puderem arranjar):

“Sobre o assunto, respigo umas quantas linhas a um texto teúrgico reservado:

«Foi durante a transição da 3.ª para a 4.ª Sub-Raça que veio firmar-se decisivamente em Bhumi (a Terra) a estrutura da GRANDE FRATERNIDADE BRANCA com SANAT KUMARA à testa, faz cerca de 18 milhões e meio de anos, por altura da Grande Iniciação Colectiva do Género Humano conferida pelos SENHORES DE VÉNUS, os PITRIS KUMARAS FLAMEJANTES provenientes de Vénus (ou Shukra), alter-ego da Terra e uma Cadeia adiante desta.

Isso correspondeu à acção empreendida por ARABEL (o 5.º Luzeiro) e sua Corte de MAKARAS e ASSURAS de coadjuvarem A Evolução Humana, pelos motivos kármicos suscitados por LUZBEL (o 3.º Luzeiro) na anterior Cadeia Lunar.

A formação de uma Grande Loja de Deuses humanizados na Terra, os quais vieram a iniciar os humanos mais adiantados da Raça Lemuriana e que adentraram a Raça seguinte, a Atlante, já como Adeptos Perfeitos, viria muito mais tarde, durante a 5.ª Raça Mãe Ariana, essa formação ou estruturação a ser designada pelos Adeptos e Iniciados da Soberana ORDEM DE MARIZ de PRAMANTHA ou CRUZEIRO MÁGICO A LUZIR.

Diz a Tradição das Idades que 888 deuses humanizados advieram sobre a Terra acompanhando o divino SANAT KUMARA, tendo sido então que Ele se entroncou decisivamente aos destinos deste 4.º Globo tornando-se o 4.º REI DO MUNDO, MELKITSEDEK, ROTAN, CHAKRAVARTI ou PLANETÁRIO DA RONDA. Coadjuvaram-no na manifestação avatárica sobre a Terra, ocupando o Animal Esfingético que AKBEL lhe cedeu, os seus 3 Irmãos Kumaras das 3 Rondas anteriores de Bhumi. Sanat Kumara, por seu turno, era na época um Avatara de ARABEL – LUZEIRO DE VÉNUS.

Foi Ele quem deu início à Grande Loja Branca dos Mestres Justos e Perfeitos, essa que na Índia é chamada de SUDHA-DHARMA-MANDALAM, “Excelsa Fraternidade Branca”, no Tibete de Confraria dos BHANTE-JAULS, “Irmãos de Pureza”, distinguidos pelas suas roupagens e faixas amarelas-azuis, e que a Igreja Cristã cognomina poeticamente de COMUNHÃO DOS SANTO e
SÁBIOS.”»
A pergunta que faço é: Mas o que é isto? Que confusão é esta? Esta gente julga que não é humana? Não vão ao supermercado dia sim, dia não? Não têm frio no Inverno? Não fazem uma simples digestão, quer em termos literais quer em termos simbólicos? O que pensarão os seus animais de estimação desta verborreia? Parece que o caminho da poesia é muito mais seguro.

Isto mostra como o mundo do simbólico pode ser um caldeirão para o qual se atiram símbolos de qualquer maneira, procurando apenas uma compensação em forma de grandeza para a pequenez que efectivamente somos.

Mas há outro modo de encarar a questão e passa por um dia lançarmos, do alto de uma ponte, o dicionário de Símbolos ao rio, e vê-lo cair devagar, e vê-lo mergulhar, quase em câmara lenta, nas águas que passam. Nesse momento, o nosso olhar está efectivamente nas águas que passam. E essas águas que passam são, de facto, o verdadeiro símbolo.

É frequente ouvir que teremos que distinguir o “fantástico” da “imaginação”, esta última como produto do mundo imaginal, no entanto, no campo da literatura e das artes, o fantástico, como construção fantasiosa obedecendo a um discurso vindo directamente de um quase-inconsciente (digo-o desta forma porque me parece mais correcta a definição de René Guénon quando afirma não existir inconsciente, mas sim, vários níveis de consciência), toca, por vezes, esse mundo imaginal uma vez que este é um mundo arquetipal. Dou o exemplo de “O Senhor dos Anéis”, na ficção cientifica da “Guerra das Estrelas”, e mais recentemente do excelente filme “Avatar”. O problema é que para se reconhecer a verdade de alguma fantasia tem de se conhecer antes alguma parte desse mundo imaginal, pois é dele que tudo parte.

Só em sonhos consegui entender as “Mansões Filosofais” de Fulcanelli. Lembro-me de, durante algumas tardes e noites, adormecer depois de lidas algumas passagens e, por uma estranha forma e fórmula que ainda hoje não entendo, sempre que adormecia sonhava com as passagens que havia lido e, em sonhos, tudo fazia sentido. Acordava com a noção de um sentimento de “completo”, sendo esta a palavra que mais se aproxima dessas experiências.

Não entendendo nada de química, aquele modo de escrever chamava-me para aquilo que hoje compreendo serem universos sobrepostos, uma espécie de astros que se alinham, se conjugam e que vão do mais alto ao mais baixo. E o que fazia sentido em termos simbólicos teria de fazer sentido também num plano material. Exactamente o mesmo sentido. A alegoria alquímica não era alegoria alguma, era somente alegoria dela própria. A procura do ouro era algo tão palpável e simultâneo como a procura da santidade. E para que tal acontecesse os astros tinham se estar alinhados e os deuses estarem de acordo com o alquimista e com os seus passos escondidos no jardim (para citar a ideia de Rémi Boyer quando fala do alquimista como um jardineiro que se esconde).

Daqui que se possa concluir que quem mergulha no mundo como símbolo mergulhe na própria vida, tal qual ela é, com todos os seus planos sobrepostos, numa tentativa de “alinhamento”, de harmonia, em busca do centro. Não é em vão que o símbolo do ouro seja uma circunferência com um centro ao meio.

Para quem tem dúvidas do que afirmo comece por ler este excerto das «Mansões Filosofais», e, a partir dele, inicie um processo de associações, com a sua própria vida, com a vida de outros, com uma obra literária, com a física quântica, com um jogo de crianças, enfim, associe com o que quiser, e verá que dentro desses voos redundantemente voláteis alguma coisa de fixo, de verdadeiro, se encontra. Principiemos:

“Assim se vê como seria vão trabalhar com ouro, porque este nada tem, não pode evidentemente dar coisa nenhuma. É, pois, à pedra bruta e vil que precisamos de nos dirigir, sem repugnância pelo seu miserável aspecto, pelo seu infecto odor, pela sua coloração negra, pelos seus sórdidos andrajos. Pois são precisamente estes caracteres pouco sedutores que permitem reconhecê-la e fazem com que, em todos os tempos, ela seja considerada uma substância primitiva, provinda do Caos original, e que Deus, nas alturas da Criação e da organização do universo, terá reservado para os seus servidores e para os seus eleitos. Tirada do Não-Ser, ela traz a marca dele e dele recebe o nome: Nada. Mas os filósofos descobriram que na sua natureza elementar e desordenada, feita de trevas e de luz, de mau e de bom reunidos na maior confusão, este Nada continha Tudo o que eles podiam desejar." (Ed. 70, 1989, pag. 338)

A diferença entre os dois textos transcritos é simples, o primeiro é falso, o segundo é verdadeiro e eterno, pois fazia sentido no Antigo Egipto, tal como faz hoje. E mais, o primeiro não conduz a nada, o segundo é um apelo total à operatividade na própria vida, gesto e corpo. O primeiro está cheio de vaidade, o segundo de humildade. O primeiro é uma associação de símbolos desenfreados, o segundo respira poesia e amor pelos factos da vida. O primeiro vive num mundo de fantasia onde todos começam por ser Adeptos Perfeitos, no segundo, pela imaginação, o leitor é erguido num apelo para se transcender, a começar pelo princípio verdadeiro, o facto de ser imperfeito. O primeiro fala de uma Fraternidade Branca, o segundo fala de um miserável aspecto, do seu infecto odor, da sua coloração negra e sórdidos andrajos.

Os vários níveis de leitura são impressionantes e quando essa leitura se torna vida, os vários níveis de vida são ainda mais impressionantes.

Iniciei este texto por causa dos indícios que uma boa obra sempre deixa e não poderei deixar de referir o papel dos “lemas” ou “emblemas” espalhados por aqui e ali nas «Mansões Filosofais». Estando apenas a procurar a fórmula do ouro, tais emblemas não fazem sentido, estando à procura da transcendência, tais emblemas só fazem sentido e são eles a raiz de todo o bem, belo e vero, uma verdadeira bíblia paralela cuja linguagem é a poética. Deixo alguns como exemplo e vou dá-los apenas como palavras sem imagem (com imagem ainda se tornam mais ricos, complexos e susceptíveis de associações):

“ A prudência é a guardiã das coisas”
“Não tu, mas nada sem ti"
“Agora, em verdade sei”
“A verdade vitoriosa”
“Enquanto o fogo durar”
“Antes a morte do que a mancha”
“Se os destinos aí te chamam"
“Morro pelas minhas próprias penas"

Recentemente estive no Colóquio Internacional Carvalho Monteiro, Vida, Imaginário e Legado, brilhantemente conduzido por João Cruz Alves e Manuel J. Gandra. Digo que foi brilhantemente conduzido (houve de facto uma condução até um determinado ponto) porque no final de tudo, após dias a revirar a vida do senhor, a analisar os seus passos, a sua biblioteca, os seus interesses, surpreendentemente, como que a brilhar na noite, foram revelados os lemas que este usava ao peito, mesmo junto ao coração, pendurados num fio. Deixo-os, também sem imagem mas são suficientes:

Relativamente ao Fogo: “Não desço nunca
Que tudo me consuma contando que agrade”
“Dá o teu fruto sem o prometer”
“Serpenteio mas não me desvio"
Relativamente ao Leão: “Quem ousará atacá-lo?”
“Nada espero senão de mim mesmo"
Relativamente ao Sol: “Privado de ti, eu morro”

Boas leituras!

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 24

















Na imagem, Auto-retrato de Almada Negreiros

A grande falácia

Alexandra Pinto Rebelo

Muitas páginas têm sido escritas tentando justificar a arte contemporânea. O engraçado destes discursos é que não argumentam a favor deste ou daquele tema, deste ou daquele material. Sabem que calcanhar têm de proteger, indo logo directos ao assunto. Afinal o que esses textos pretendem é provar-nos que aqueles objectos são mesmo arte e não uma outra coisa qualquer. Nós é que não o conseguimos compreender.

Um dos argumentos mais utilizados é, absolutamente, delicioso. E resume-se no seguinte: o mercado dos coleccionadores de arte está mais ávido do que nunca de produtos culturais cada vez mais complexos. Daí estes produtos, os objectos de arte, terem tendência a tornar-se mais herméticos para o público comum. Aquilo que, no fundo, nos estão a dizer é que as obras de arte contemporâneas exigem tanto do observador em termos cognitivos que são raros os possuídores de tais capacidades, imprescindíveis, para os avaliar. Simplificando ainda mais, aquilo que nos juram é uma coisa absolutamente simples: só os ignorantes não vêem que aquilo é, obviamente, arte.

Este argumento lembra fortemente aquele utilizado por Hans Christian Andersen no seu conto As Roupas Novas do Imperador. Os “grandes tecelões” recém chegados à cidade, conseguiam fazer um tecido mágico só visível para aqueles com uma super capacidade cognitiva, semelhante em tudo à requerida aos bons observadores actuais da arte contemporânea. Já que ninguém quer dar parte fraca, todos garantem ver o tecido. Por esta analogia de processos, teria neste momento de ir buscar o testemunho de uma criança que, perante um objecto de arte contemporânea, tivesse dito: “isto não é arte”. Não há crianças assim e, a haver, meteriam um certo medo. Nem tão pouco a sua afirmação teria algum peso neste campo da Teoria da Arte.

O que eu proponho é seguirmos um caminho mais simples, confrontando um objecto específico com a sua suposta complexidade. Peguemos no sapato de Joana de Vasconcelos, construído com tachos e tampas dos mesmos. Através da sua observação, guardamos três pontos fundamentais na sua mensagem- mulheres, cozinha e glamour. Agora, basta-nos formar sentidos lógicos com estes pontos. “As mulheres estão sempre divididas entre a cozinha e o glamour”; “As mulheres deixaram a cozinha e transformaram-se em glamour”; “Por muito que as mulheres tentem ser só glamour, têm sempre implícita a sua função ancestral na cozinha”. Qualquer destes argumentos de interpretação é válido.

Isto é complexo? Não me parece. Poder-se-á, no máximo, escrever um livro pequenino à volta do assunto, esgotando-o no final das primeiras páginas. A obra Las Meninas, de Velázquez, não foi feita para ser um objecto de arte complexo e, no entanto, já levou a que, sobre si, se escrevessem bibliotecas inteiras. O mesmo se poderá dizer, reduzindo o número de textos escritos, dos nossos Painéis de São Vicente.

Almada Negreiros escreveu uma frase que aqui faz todo o sentido: “As pessoas que eu mais admiro são aquelas que nunca se acabam.” De alguma forma, a complexidade das obras de arte faz lembrar esta afirmação. As mais admiráveis são aquelas que nunca se acabam. São aquelas que permitem sempre leituras inovadoras, sabendo manter-se como um conjunto aberto de interpretações. Como fazer isso é um dos mistérios da arte, da verdadeira.


POEMA INEXPLICÁVEL



















O breve início / O longo indício

Cynthia Guimarães Taveira

Disseste:

- A vida passa como um espelho
espelhando apenas um lado
Os dedos tocam o fruto
e, do outro lado do espelho
tocam o sol.

Digo-te em segredo, agora:

Os olhares cruzam-se indiferentes
Na noite em que tudo se passa
e, do outro lado, há um mergulho
No espelho das águas das almas

Vi-te chegar numa corrida
Assim de negro, branco e vermelho
Pausa no tempo das cores
Ouço atentamente os seus dons

O olhar pára atento
Pausa no tempo, sem dúvida
Fixos os olhos não param
Voando dentro uns dos outros

Param os momentos em aproximação
Parados por um sorriso que se passa
Tremendo nesse lado do espelho
Cedo, cedo o sorriso te devolve o real

Perguntas se irás para a morte
Sim, irás e depressa
Pausa no tempo em que és alto
Foge depressa para o mar

Perguntas inocente no mar:
Mas o que se passa afinal?
Pausa no tempo da tua voz a fugir
Consolo breve na paisagem

Perguntas se te juntas a todos
Respondes que nada te interessa
Voas abaixo da montanha
Voas guiado afinal

Giras em torno do monte
Em espirais que são só caminhos
Pausa no tempo do centro
Em olhares de gatos que te adivinham

Sobes acima devagar
O outro lado do espelho
É  a resposta afinal
Espanto dos espantos depois
De anos e anos em espera

Pausa no tempo dos dias
Em atenção aos movimentos
Teu coração é depois erguido
Em dor, mistério e saudação.

Salvé.

domingo, 4 de dezembro de 2011

FIDELI D'AMORE, AINDA OS HÁ?


“…«Dama» e «Amor» têm um carácter simbólico, ainda mais saliente e manifesto que as várias damas e rainhas dos textos do Graal e da literatura propriamente cavaleiresca, tornando-se o centro de todas as aventuras. Só que neste caso, o simbolismo não exclui também um aspecto concreto, ligado a uma via divergente especial, de realização espiritual, em que os sentimentos, a exaltação e o desejo suscitados por uma mulher real, mas todavia concebida e vivida, através duma espécie de processo evocatório, como a encarnação de uma força vivificante e transfiguradora, transcendendo a sua pessoa, podiam ter o seu papel, como base, ou ponto de partida. (…) Alguns exemplos: a um dado ponto, o amor de Dante revela-se o amor pela «Santa Sabedoria». A sua «dama» Beatriz confere-lhe liberdade iniciática - não só a alma de Dante é, por seu intermédio, «destacada do corpo», como também, no Paraíso, o «sol dela» ofusca o «sol de Cristo»."

Evola, Julius, O Mistério do Graal, Edições Vega, 1993, pág. 201

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

TEMPOS DE HOJE...

Os “Pontos” e os “is” da Arte

Cynthia Guimarães Taveira

Mais do que aquilo que vestimos ou deixamos de vestir, o espaço que nos rodeia contribui para a formação das nossas cabeças. A roupa é a máscara, a persona, distante do nosso verdadeiro ser. A máscara que nos oferece todas as possibilidades de ser o que somos e não somos, o véu que nos oculta ou desvenda, enfim um produto, sobretudo, do tempo e dos humores. O espaço, por seu lado, é fundamental, diria em tom metafórico, para a formação dos ossos. Pedra e osso andam lado a lado na sua função e, em termos simbólicos, estão ligados à estrutura e, consequentemente, à nossa estrutura. Daí que a Arquitectura seja entendida, em tempos arcaicos, como a mãe de todas as artes, o eixo fundamental sobre o qual todos nós nos vamos desenvolvendo. As implicações da edificação de uma simples casa são tão profundas como os alicerces de problemas antropológicos do género “o valor da palavra” ou, a “casa dos homens”, lugar iniciático de muitas culturas arcaicas.
O osso é o que nos ergue, algo que vai crescendo em nós, o suporte de toda a carne, de toda a nossa aparência, os ossos são as consoantes da língua (tronco e os ramos), a carne , as vogais (as folhas). É o osso que fica depois da nossa morte, é a pedra erguida que se mantém depois da passagem das civilizações. É a paisagem que nos influencia os pensamentos e, muitas vezes, nos dita as acções, os caminhos escolhidos, a sensibilidade perante as coisas. A “contemplação dos ossos”, feita em modalidades do Ioga, é também, a contemplação da nossa paisagem interior, dos resíduos embutidos nos socalcos da memória, é o que resta depois do acrescento da pedra-cálcio, depois do acrescento da nossa vida ao nosso corpo.
Por tudo isto, a Arquitectura tem um papel fundamental na actividade do homem. É ela que nos aproxima ou desvia do real, nos aconchega ou nos expulsa do mundo. A Arquitectura é a construção de edifícios e é também muito mais que isso, por sinal, é a construção de tudo.
Entendida como uma arte sagrada, esteve, nos primórdios, ligada ao primeiro sinal no homem do transcendente: o céu. Mesmo retirando toda a carga religiosa e simbólica que o céu possa conter, a realidade é que um homem, olhando para esse vasto universo de estrelas, esse labirinto sem sentido, nocturno e caótico, sente a tontura de algo que o transcende e aquilo que o transcende tem, de alguma forma, de fazer sentido. A primeira construção do homem é o ordenamento das estrelas, dos astros. É a procura da ordem nesse abismo que se estende para cima. Dar um sentido às estrelas, ordená-las, perceber quando aparecem e quando desaparecem e dar-lhes, enfim, uma história, um enredo que se pareça com a sua vivência corporal e sentida, com seus ciclos, suas noites e dias, a sua marcha, a sua orientação. É quando o universo começa a fazer sentido que a construção deixa de ser apenas um abrigo do frio e do calor para se tornar uma arte. É quando se dá a união entre terra e céu que começa o trabalho da pedra em função dupla de ordenar o território e de o sacralizar face ao céu. Da construção como necessidade passa-se à construção como arte, das necessidades básicas passa-se àquilo que Oscar Wilde disse: ”O supérfluo é absolutamente essencial”, e a arte é, afinal, absolutamente essencial tanto para a manutenção do homem no mundo como para o seu crescimento, alargamento de fronteiras interiores. A arte, por vezes, suprime, no caso da espécie humana, os impulsos mais animalescos, aqueles que se esperam essenciais, pois não é verdade que em Auschwitz se trocavam rações por histórias? A fome do homem, como ser com tendências transcendentes, pode suprimir a fome de pão pela fome, ou sede, de sagrado e é aí que entra a arte e a construção, e o papel do homem no meio deste vasto universo, suplicando ordem e invenção. Se o místico espera, em jeito de oração (sua forma de arte), desapego, renúncia e contemplação que o céu interior, de alguma forma desça até ele, ao homem comum só lhe resta construir, reconstruir, passo a passo, esse céu na terra, na acção, na entrega, no gesto.
É no impulso construtivo que residem as tendências artísticas e deveria ser nas tendências artísticas que deveriam residir as tendências construtivas (o que não é verdade hoje em dia, infelizmente). Mesmo na desconstrução do mundo, tema recorrente na actual arte, o propósito último da obra deveria emergir da sua raiz: a construção de um novo mundo, sagrado, perto da perfeição das rotas das estrelas, perto das histórias ecoadas pelos astros, perto da música das esferas. Daí que Lima de Freitas tenha dito a frase radical: “A arte ou é sagrada ou não é arte”.
Infelizmente a desconstrução actual parece não ter como propósito último esta sacralidade, mas sim o alongar do súplicio de uma civilização em agonia, uma tradução ipsis verbis da fealdade, da ignorância e da falta de graça do mundo contemporâneo. E uma tradução não é uma criação ou, quanto muito, a ideia não se deve ao seu tradutor.
Viaja-se para se conhecer novos povos, novas paisagens, novas línguas, mas também novas construções. Os monumentos têm à sua roda toda a espécie de turistas, de óculos, binóculos, câmaras manuais, digitais, de fotografia, de vídeo. Ver, a obsessão de ver para crer, para acreditar, para sentir, enfim para viver, dizer que se viveu, lembrar que se viveu. Este acto impulsivo e compulsivo do turista reside na intuição profunda de que a construção está intimamente ligada à nossa vida, e mais do que isso, nos influencia profundamente. A paisagem, o clima, moldam os povos, a arquitectura feita pelas mãos do homem molda-nos face à atitude que temos para com o sagrado. Porque é essa a sua origem. O impulso mórbido pela desconstrução e desfragmentação contemporâneas tem o seu desejo último na destruição completa, como a palavra final de um processo incessante e está traduzido nos filmes-catástrofe, em que os edifícios nos aparecem violentados, os canos, como entranhas, partidos, gotejando, os fumos de uma purificação pelo fogo atravessando as ruas, a noite cinzenta como a cor principal, o cheiro triste, quase sentido vindo do ecrã. Este tipo de visões apocalípticas é a de um futuro-mais-que-ruinoso (as ruínas têm alguma dignidade), porque a acção da destruição não se deu num tempo lento, mas sim num tempo súbito, inesperado, violento e sem piedade e demonstra a má relação que o homem tem com a sua Arquitectura. Há um desejo obscuro de tudo destruir porque, no fundo, não se ama nem respeita esta Arquitectura nascida na época pós-guerra do Bauhaus, nascida das necessidades de um mundo ainda acocorado pelo medo da morte. A nova Arquitectura e, por inerência, a nova arte, “pós-pós-tudo”, traz em si o germe da desordem da própria guerra e a sua projecção no futuro só pode ser a sua própria destruição. Hoje há uma má relação do homem com a Arquitectura que o rodeia e, consequentemente, há uma má relação com o sagrado ou vice-versa.
A natureza é fértil em modelos ordenados. A geometria está presente num grão de areia ou numa gota de chuva. E, segundo a teoria do caos, mesmo em dinâmicas aleatórias há padrões que se vão estabelecendo e desenvolvendo. Há alguns anos fez-se a seguinte experiência com bebés em idade de gatinhar: desenhou-se no chão dois tipos de desenho - num o desenho era confuso, caótico, noutro o desenho era geométrico, harmonioso. Todos os bebés escolheram dirigir-se para a ordem. Preferiam um ambiente mais “estável”, apesar de tudo.
Lévi-Strauss desenvolveu o conceito de sociedades quentes e frias, sendo as frias as mais apegadas às suas tradições, e as quentes mais instáveis e abertas às mudanças. Ao lermos René Guénon ficamos com a sensação de que este nos vai descrevendo (mesmo pela negação das sociedades actuais) uma Idade de Ouro perfeitamente tradicional. Esta Idade de Ouro, assim vista pelo olhar binário e estruturalista Lévi-Strauss, seria uma sociedade congelada, encerrada na sua perfeição. Uma sociedade perfeitamente apolínea e nada dionisíaca, segundo outra interpretação, de Ruth Benedict. Onde está a abertura necessária para o engenho e a arte na Idade de Ouro? Será que o papel da arte não é também ele o da desconstrução para a construção de outro mundo? Como não cair num fundamentalismo teórico ainda que com raízes na Tradição? E como não cair na total irresponsabilidade face ao vamos construindo? E porque chamavam os gregos à arte “imitação”? À pergunta “quais os limites da arte?” vem agarrada uma outra, tão importante e fundamental: “quais os limites do homem?”. Tão confusos estamos devido à nossa sociedade escaldante que já nem sabemos a resposta. Se se é tradicionalista, é-se reaccionário e o perigo é o do fanatismo (porta fechada por dentro), se se é liberal, já não se reage a nada e as portas acabam todas fechadas por fora sem que possamos sair para lado nenhum. É o que se passa hoje com a Arquitectura e com a arte em geral. Na Arquitectura isso tende a deixar de ser apenas simbólico com a construção de condomínios fechados, dos quais não se deve sair.
Os edifícios babilónicos tendem naturalmente para o abismo, e aqueles que nada têm a ver com orientações sagradas, tradicionais ou, simplesmente, respeitadoras da natureza envolvente, tendem a cercar o homem em prisões que nada têm de virtuais. E o homem é o espelho do que constrói. A imagem que imagina é a imagem que projecta, a imagem projectada é a base, a fonte da imagem seguinte a ser imaginada, e assim por diante. A palavra que se escreve é a chave da próxima, isto numa ordem simples, isto até dentro da desordem e do surrealismo. Daí que a Arte mais elevada, a Arquitectura, tenha uma profunda influência no pensamento.
A facilidade com que se aprende a trabalhar com um computador tem como causa o facto de este ter sido possível a partir de uma estrutura muito simples, o “zero” e o “um”, e ninguém, pelo menos por enquanto, chama “inteligente” a um computador. As escalas musicais, a paleta das cores, as formas geométricas, em suma, tudo aquilo que não é criação do homem, parece ter como base estruturas formadas a partir da variedade e da complexidade dos elementos estruturantes, não binários. A “imitação” no sentido grego parece ser trabalho para uma vida. A desfragmentação e consequente desumanização da arte é, no fundo, a incapacidade crescente para imitar. É mais fácil destruir o que está criado (neste caso, os modelos naturais), do que ser demiurgo no sentido em que se ama e se descobre o que se vai criando ou imitando. E não se trata de ser o macaco de Deus, a imitação é a da sua criação, não do Deus em si, porque a Ele ninguém O conhece e, por isso, ninguém O pode imitar, muito menos um macaco…A arte contemporânea toma a destruição nas mãos como se se tratasse de criação, o que é um verdadeiro paradoxo. E isso é tão grave como uma fábrica que produza sistematicamente a morte. Acabo de ler a notícia de um alemão, Gregor Schneider (que se distinguiu por ter colocado um bigode a Mona Lisa, um destruidor, portanto, e não um criador) que quer transformar a morte numa performance convidando moribundos a morrer perante um “público”. Este auto denominado artista deve lamentar imenso não terem existido câmaras nos campos de extermínio com transmissões em directo que mostrassem ao mundo a “beleza” da morte. Os artistas contemporâneos que fazem “instalações”, borrões em cinco minutos ou edifícios frios, erectos e distantes estão a matar o mundo e são tão eficazes nisso como o capitalismo exacerbado que os mantém. Peço desculpa mas não há teoria da arte que justifique a barbárie.
Hieronymos Bosch, no Jardim das Delícias, oferece-nos, no painel esquerdo, um paraíso, onde na aparência está tudo bem. Mas, olhando em pormenor, os animais, nesse painel, caçam-se e devoram-se uns aos outros. É um paraíso terrestre, demasiado terrestre e por isso com o sabor a desmembramento, a morte, a desconstrução. Na ordem aparente da natureza existe o movimento contrário, pendular, Kali destruidora, compensadora e fonte deste equilíbrio frágil universal. Se a arte é imitação, e se os modelos são as criações ou a criação já existente, também há espaço para a descontrução, aliás como para a crítica social, para um olhar mais caótico que o próprio caos que nos rodeia, para os fantasmas e as sombras da condição humana. Claro que sim. Aquele olhar realista que nos aponta o defeito para nos lembrar a virtude, a noite para nos lembrar o dia. O problema é que, hoje, a linguagem metafórica dominou as artes plásticas. Todo este lixo contemporâneo é sempre apresentado como uma metáfora de qualquer coisa (nem na Bíblia encontramos tanta obsessão pela metáfora) e as metáforas sobrepostas, aleatórias e mal feitas acabam por desembocar numa linguagem tão esotérica que apenas o próprio artista a compreende, ou, como está na moda dizer, meia dúzia de iniciados na arte contemporânea que praticam uma espécie de esperanto artístico, sem princípio, sem origens, sem raízes, sem pai nem mãe, ou seja, uma linguagem orfã de significante e significado naquilo que uma língua pode ter de mais íntimo e sagrado. Por outro lado, é necessário saber fazer metáforas: quando não são bem feitas e não usam códigos comuns ao observador a história metafórica acaba por ser o único real. Daí que a empregada de limpeza da Tate Gallery tenha deitado fora uma peça que lhe pareceu lixo…
A metáfora abate-se sobre si própria e fica apenas o lado de fora dela, e os lírios do campo já nada têm a ver connosco, são apenas lírios no campo, não chegando esses lírios sequer ao despojamento anunciado por Alberto Caeiro, mas sim a um outro despojamento, o despojamento do olhar que nada mais vê senão uma forma no campo sem nome e sem sentido, (uma miopia semântica) ou seja, destituído de palavra, destituído de Verbo e, por consequência, de Luz. Fica-se só com a parte e deixa-se de fora o Todo. Fica-se apenas com o tempo da moda e seus humores e põe-se definitivamente de lado a eternidade. E os artistas são os bonecos de ventríloquos mudos por falta de ideias, de amor, de admiração pelo que os rodeia.
A primeira vítima desta estranha forma de criar é o próprio arquitecto ou artista. Porque está e permanece só. Só e com a sua assinatura, a sua única razão para continuar a existir. E a arte, no seu princípio, não é um acto solitário. É um diálogo permanente com Deus ou com esse outro, interior, perto da nossa alma.
Esta solidão do artista chegou a tal ponto que já foi inventado um robot pintor. É o robot que pinta, não o artista, este passou definitivamente para o lado do observador e já não tem mais função no mundo. Assim como a arquitectura, hoje impossível sem o auxílio da máquina. A mão que agarra o lápis e desenha a cúpula imita-a muito mais na perfeição, pois no mundo não há esferas perfeitas, só um computador é capaz de tal coisa. O computador imita mal a natureza, é um péssimo artista e talvez o seja por ter nascido do zero e do um e não da diversidade maravilhosa dos elementos. Quando o artista se ausenta do mundo regressamos à animalidade, e Arquitectura deixa, de novo, de existir, para nos limitarmos a ter abrigos, como as bolsas dos cangurus, sem sequer conseguirmos ver que até os pássaros possuem o impulso genético de construir um ninho, pauzinho a pauzinho. Assim nunca sairemos da proximidade do ventre…
Gilbert Durand chama-nos a atenção para a noção de “bacia semântica” e dá um exemplo para explicar esta noção: a bacia é talhada pelas ondas da maré e, por sua vez, é o relevo da bacia que vai influenciar as ondas, na sua, forma, força e frequência, e talhando estas, de novo, a bacia. Bacia e maré criam-se e recriam-se ao longo do tempo e cada uma é consequência da outra. Esta metáfora é uma metáfora arquitectónica. Ter jardins, casas cuidadas, formas que de alguma forma sejam um prolongamento da natureza tocando os céus, é termos esses jardins dentro de nós, essas casas cuidadas e essa formas no templo interior que tocam outros céus. Chegam lá por sintonia, por serem da mesma origem. O problema da criação há-de ser sempre um problema face ao sagrado. Ou se está dentro dele ou fora dele, ou se cria ou se destrói. E quando se tem dúvidas sobre de que lado se está já se é mistíco, de alguma forma…
Ou se é mais e se consegue “contemplar o céu do fundo da sarjeta”, como tão bem disse Óscar Wilde, ou se é menos e se vive nela, num submundo demasiado perto dos infernos. E aí já não há ossos nem ruínas para contemplar, apenas cinzas, esse pó que fica depois das estrelas.
Francisco de Holanda, um artista muito antigo, oferece três lições fundamentais sobre a arte e que resumem as possibilidades de se (re)criar a partir do que nos foi dado (ninguém se torna artista, nasce-se artista, daí a maldição da imposição, semelhante àquela dos reis que não escolhem ser reis).
A primeira activa a imaginação: ao criar, conhecendo o mundo, saindo de si, participando na criação pela imitação, o homem volta a si com mais conhecimento de si próprio.
A segunda activa a humildade: os dons são dádivas vindos de fontes longínquas e desconhecidas e a forma de agradecer é aperfeiçoar este mundo.
A terceira activa a curiosidade: o artista deve ser pluridisciplinar e interessar-se por muitas matérias, porque tudo neste mundo está ligado.
Se olharmos para estes princípios apontados por este homem muito antigo, vemos subitamente inscritas numa coluna de mármore as três perguntas fundamentais: Quem sou? Donde vim? Para onde vou? E não será essa a coluna vertebral de qualquer artista? A arte sem Verbo não é arte.

Lisboa, Outubro 2008

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

NO PRÓXIMO SÁBADO...














Vale a pena ir à Casa do Fauno em Sintra no próximo Sábado. Porquê?

- Porque está bom tempo
- Porque a Casa e o espaço envolvente  são belos
- Porque nessa casa há boa gente que ama a natureza, os livros e a música
- Porque é fácil lá chegar a partir da Quinta da Regaleira (ver indicações na página da Casa do Fauno)
- Porque experimentando a Filosofia Portuguesa se fica diferente pois um novo mundo se abre
- Porque andamos todos à procura de sermos outros, diferentes, destemidos e apaixonados
- Porque o programa é uma jóia do pensamento português, ora reparem:

Encontro: Congeminações em Sintra - O Legado de António Telmo

Sábado, 3 de Dezembro às 15:00

Um encontro único em Sintra dedicado à memória de António Telmo, Filósofo do Espírito e representante maior da Filosofia Portuguesa.

Programa:

Apresentação do livro: "O Segredo do Grão Vasco – de Coimbra a Viseu, o 515 de Dante" de Pedro Martins com ANTÓNIO CARLOS CARVALHO

Apresentação do livro: "A Aventura Maçónica – Viagens à Volta de um Tapete" de António Telmo com LUÍS PAIXÃO

Apresentação das revistas: "António Telmo, 3.º volume dos Cadernos de Filosofia Extravagante" e 8º número da "Nova Águia" – O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa com PEDRO MARTINS e RENATO EPIFÂNIO

Entrada Livre

Anotações Pessoais, 54

 
Por António Carlos Carvalho

Fernando Pessoa fez questão de pôr à venda a sua «Mensagem» no dia 1 de Dezembro de 1934. Era um gesto simbólico, para salientar o seu desejo de que Portugal retomasse novamente o seu destino nas mãos. Era, naturalmente, o reconhecimento, óbvio para Pessoa e para os seus contemporâneos, da importância da data: a Restauração da Independência do País, em 1640.

Mais tarde, nos meus tempos de criança, o Hino da Restauração ainda era ensinado nas escolas. «Portugueses celebremos / O dia da Redenção…» Pelo menos, havia isso.

Mas agora é tudo diferente, pelos vistos: «Restauração», nesta Novilíngua que se impôs, diz só respeito aos restaurantes, pastelarias e ofícios correlativos… de onde devemos deduzir que os verdadeiros Restauradores são os «chefs» de cozinha que fazem aqueles pratos insípidos mas muito decorativos -- e não os que estão representados no monumento erguido na Praça dos Restauradores ou na sala das batalhas do Palácio Fronteira, aqui em Lisboa. Proponho, aliás, por uma questão de coerência, que se substituam as armaduras por aventais e lenços ao pescoço…

E até parece que o feriado de 1 de Dezembro está condenado a desaparecer, por vontade da nova deusa Austeridade. O que também não tem importância nenhuma, vendo bem as coisas, porque um feriado é hoje apenas um dia de descanso, um simples pretexto para não fazer nada, e não mais um dia comemorativo, vivido no seu significado verdadeiro.

Aliás, que «independência» é que temos hoje, enquanto país ou enquanto cidadãos ou até mesmo enquanto seres humanos? Não será a dependência a regra única deste jogo em que se tornou a História?

«Mensagem» não perdeu nada do seu apelo, digam o que disserem os «pessoanos» incomodados com este livro que consideram «menor» na obra do poeta.

Nós é que podemos não ser dignos desse apelo ao despertar -- perdidos, como estamos, em «restaurar» forças sentados à mesa, neste «fulgor baço da terra / que é Portugal a entristecer.»

«Ninguém conhece que alma tem».

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

(RE)CANTOS DE SINTRA

Hoje, dia em que se lembra o aniversário da morte do nosso poeta/bardo Fernando Pessoa, voador entre mundos, iniciado e iniciador pelas palavras, estreamos a nova fase da lua com as palavras de Alexandre Gabriel, que veio de Sintra, que está em Sintra e faz parte dela. De um dos seus recantos, solta-se então o seu canto:



DA INICIAÇÃO
Ruptura, Despertar e Absoluto
Alexandre Gabriel

A Rémi Boyer

“A Filosofia sem Iniciação não conduz a nada,

 A Iniciação sem Filosofia conduz à estupidez.”

Ibn Arabi


A INICIAÇÃO É RUPTURA

Sem Ruptura não há Iniciação. Quando há Iniciação sem Ruptura, não é Iniciação, é uma concepção mental da mesma.
Ruptura com o nosso ego – que mais não é do que um eu ilusório, um falso eu, no qual procuramos uma cómoda e irrealista sensação de segurança no sempre mutável mundo da manifestação.
O ego é tão frágil quanto a concepção meramente racionalista e mental da Realidade. O ego é um guardião do umbral, nele se projectam todos os nossos piores receios. É verdadeiramente o nosso pior e único inimigo real. É um obstáculo à Iniciação, mas pode também ser um impulsionador da mesma. Para tal, o ego deve ser considerado como aquilo que é, nem mais, nem menos. Ele pode ser um excelente servo, mas quantas vezes é um terrível senhor!...
O ego tem medo de perder algo. E quanto mais tenta prender com as suas garras aquilo que não pode ser preso, tudo lhe foge.
O eu não tem medo de perder o que quer que seja. Em primeiro lugar, porque nada lhe pertence. Em segundo, porque é tudo.
A Iniciação que é conferida ritualmente numa Ordem Iniciática autêntica transmite uma semente àquele que busca. Porém, assim como um terreno deve ser fértil e estar lavrado para abraçar e fazer crescer essa semente, o iniciável deve romper com o passado, romper com as falsas concepções que tem acerca de si próprio, romper com tudo aquilo que não é verdadeiro. Só quando deixar de pensar a Iniciação é que se tornará naquilo que já era mas não sabia, um Iniciado. É preciso ir para além de pensar a Iniciação. É preciso vivê-la, senti-la e pressenti-la. Por melhor que seja a semente, quando esta é plantada num mau solo, ou quando não é regada, ela jamais crescerá. Será uma semente morta, inútil, desperdiçada. Por isso existe o adágio místico: “Muitos são os chamados, pouco são os escolhidos."
Receber a semente é o mais fácil. É no preparar o solo e no cuidar da semente que está a chave da realização da Grande Obra. E aí percebemos que a semente nunca nos foi verdadeiramente “dada”, ela já existia em nós, mas estava adormecida.
Na Iniciação, a transmissão é 1% do trabalho, a inspiração é também 1%. Os outros 98% são transpiração. Iniciação sem transpiração é teatro. Iniciação sem transpiração é não-vivência da mesma.
Por isso, bem mais importante do que o grau recebido numa iniciação, é trabalharmos no nosso laboratório-oratório interior para atingir o estado correspondente a esse mesmo grau. Porque, para quem o recebe ou transmite, o grau não implica ter atingido esse estado. O estado não se transmite, conquista-se.

A INICIAÇÃO É O DESPERTAR

Enquanto não despertarmos somos homens da torrente, seres adormecidos, inconscientes da sua verdadeira condição.
Aquele que Desperta nasce para uma nova realidade. Ele não nega o “Jogo do Mundo”, conhecido entre os hindus como Lyla, o mundo da manifestação visível e da aparência, de natureza fenoménica, fruto do mundo real e invisível, do incriado, de natureza numénica. 
Não negando o Jogo do Mundo, aquele que Desperta aceita-o, porque sabe que faz parte da Máquina do Mundo. Mas aceita-o sem o tomar pela realidade. Aceita-o como ilusão. Ele está no mundo, mas não é do mundo, porém, vive no mundo. A sua pátria verdadeira é a das estrelas.
Aquele que Desperta reconhece o mundo que vive como um sonho. 
Aquele que Desperta reconhece o mundo que sonha como uma realidade.
Aquele que Desperta, acorda e, assim, tudo lhe é revelado. Pois tudo está em si e Ele é tudo.
Ele é Aquele que É.

A INICIAÇÃO É O ABSOLUTO

A Iniciação está para além de quaisquer palavras. O segredo da sua eficácia apenas diz respeito àquele que a vive. Querer defini-la é negá-la.
As técnicas iniciáticas e as ordens iniciáticas devem conduzir o iniciado à Via. Quando não o fazem, não são iniciáticas, são estruturas temporais. A iniciação não é confinável ao mundo da temporalidade. O seu reino é outro, inefável e intocável. A iniciação está para além do tempo e das concepções dos homens.
Sem o Silêncio não se chega ao Mistério.
Sem o Mistério não se chega à Iniciação.
Sem a Iniciação não se chega ao Absoluto.
O Absoluto é o abandono ao ser em si. É o não-fazer e o não-ser: a Não-Via.
A Não-Via não exclui as vias, antes integra-as, potencializando-as como facetas particulares da expressão do Real. 
As nossas concepções da Realidade não passam disso mesmo, concepções. E, sendo nossas, nunca poderiam deixar de ser limitadas. Para abraçarmos o Absoluto temos de nos entregar, abandonando-nos ao Vazio. Aí nós somos aquilo que somos e não aquilo que pensamos que somos.
Vazio de mim, eu sou uma taça-receptáculo para o Divino, um Graal cujas facetas são a expressão do múltiplo que é uno.
Três Avisos :
Se eu recusar a iniciação, serei um eterno adormecido, presa da temível fatalidade.
Se, iniciado, eu recusar a ruptura, serei uma infeliz vítima do meu ego.
Se, tendo vivido a ruptura, a negar, mergulharei na noite negra da alma e no limbo dos mundos.
Três Luzes :
A Iniciação leva à Ruptura.
A Ruptura provoca o Despertar.
O Despertar conduz ao Absoluto.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

RENASCER....


Este Blogue tem estado sob o signo da Lua pelo que sofreu um período de ocultação, mas, a pouco e pouco, o Sol cumpre o seu papel. Uma nesga de prata espreita já no céu. Iniciamos amanhã com um texto solar de Alexandre Gabriel. Amanhã, à mesma hora.

terça-feira, 5 de julho de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 23














Postais católicos

Alexandra Pinto Rebelo

O catolicismo tem provocado reacções extremas desde a sua origem. A maior parte delas são mais do que justas. Ainda há poucos anos João Paulo II pedia desculpa pelos pecados da igreja. Foi um pedido simpático, vindo de um Papa simpático. O documento “Memória e Reconciliação: a Igreja e as Culpas do Passado” inumerava alguns itens de mea culpa: as cruzadas e a Inquisição (pecados cometidos em nome da Verdade); os grandes cismas dentro do cristianismo; campanhas de depreciação contra o povo judeu; o não respeito pela diversidade religiosa e cultural.

Se pensarmos bem nalguns destes pecados percebemos que, sem eles, a Igreja católica seria hoje, na melhor das hipóteses, uma religião praticada por poucos; na pior das hipóteses, seria uma religião acabada, praticada por ninguém.

Refiro-me muitas vezes, nas minhas conversas, à violência extrema da conversão forçada dos europeus. O mundo antigo viu-se despojado dos seus locais de culto, muitas vezes milenares, dos seus rituais, dos seus deuses. No paganismo não existia uma relação intelectualizada com o divino. Os rituais apelavam à intensidade dos sentidos, à projecção física no contacto com o sagrado, à comoção pelo mistério que daí vinha. Nesse sentido era um tecido religioso mais completo do que o cristianismo.

Há uns dias entrei na igreja da Senhora da Saúde, no Martim Moniz, em Lisboa. Nunca lá tinha estado, não sei muito bem porquê. As pessoas entravam e saíam, não como espectadores desinteressados, mas como quem sabia o que queria. No altar em frente da porta, muitos vasos com plantas substituíam as usuais imagens de santos. Parecia que um deus da vegetação tinha invadido o principal local de culto, recebendo as orações e as dádivas dos devotos. No lado direito do altar, estava uma escultura enorme da Senhora da Saúde sobre um suporte que me pareceu um andor. A igreja, de dimensões muito reduzidas, fazia com que a imagem parecesse maior, dominando toda a sala onde indianos, africanos, portugueses lhe pediam, decerto, algo em troca do seu culto (o Martim Moniz voltou a ter esta saudável mistura de povos que caracterizavam, na antiguidade, as principais cidades do Mediterrâneo). Havia ali qualquer coisa de antigo. Mais. Havia ali qualquer coisa de profundamente pagão como se os alicerces mais profundos pertencessem à antiga religião e as imagens apenas tivessem sido actualizadas para o cristianismo latino. A estátua da Senhora da Saúde tem cabeleiras postiças que vão sendo trocadas, tem roupas faustosas, como qualquer deusa, usadas consoante a ocasião, o seu andor já a terá levado pelos limites do seu território, em procissão, tal como outros transportaram a imagem de Artemisa, em Éfeso. Aquela estátua, por mais que a queiram tornar apenas numa mnemónica de Maria, é bem mais do que isso. É uma estátua “viva”, de alguma forma. Uma estátua mágica incorporando em si o divino, cumprindo a sua função enquanto tal.

Quem, como eu, advoga a liberdade de culto, não pode deixar de sentir uma emoção em reverência, pela religião antiga, pagã (a religião dos campos, mas também das cidades), resistente a tudo, metamorfoseada em santos e templos, mas ainda viva (tão viva quanto os seus ídolos) respondendo às necessidades mais íntimas dos seres humanos.

Quando se fala em pecados da Igreja deve-se nomear quem os praticou. A maior parte dos crentes, que apenas querem comunicar com os seus “deuses”, poucas culpas terão disso. Possuem um impulso religioso particular, cuja origem se perde nos tempos, não constituindo isso crime algum só por si. À parte disso, pretendem somente viver em paz, como a maior parte dos crentes de todas as religiões.

Por uma vocação monoteísta, muitos dos estudiosos sempre evocaram a influência judaica, cristã e muçulmana na cultura portuguesa. Poucos tiveram a ousadia de colocar o paganismo como o outro elemento para a formação da nossa cultura (talvez o mais forte, por ter sido o primeiro). Sejamos nós, tal como eles, suficientemente audazes para, também por aí, dirigirmos os nossos estudos. Ou, pelo menos, a nossa curiosidade.