(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O CAMINHO DO CAMINHO, 18














Leituras…
Cynthia Guimarães Taveira

Em conversa com o Pedro Martins relativamente ao novo livro dele, “O Segredo de Grão Vasco”, dizia-lhe que tinha gostado muito do livro. Independentemente das teses que nele eram defendidas, aquilo que havia de melhor nessa obra eram as pistas, os indícios que ele havia deixado no rasto da sua análise. Pistas, indícios de quê?

Para dar a resposta a esta pergunta teremos que começar por analisar alguma da literatura que por aí se vai fazendo e falo apenas no caso português.

Não sem entusiasmo há quem se lance na aventura simbólica. Sim, é um momento importante aquele em que se descobre que os edifícios de pedra antigos estavam pejados de símbolos, alguns mesmo de mensagens elaboradas, que alguma pintura também, que certos textos eram afinal cifras, que as religiões têm muitos deuses e são muito antigas. É o chamado momento do mergulho no dicionário dos símbolos no qual se navega pescando alegremente sem se perceber que se está a apanhar apenas um único peixe que contém apenas uma parte de um problema suficientemente grande para uma vida só não o conseguir resolver.

Aparecem textos estranhos, com associações ainda mais estranhas, e perdoem-me falar num nome, mas para que haja a noção da loucura a que se chega será mesmo necessário citar um excerto apanhado na Internet, transcrito entusiasticamente por Vitor Manuel Adrião que
diz, a dada passagem (para a qual é necessária toda a paciência que puderem arranjar):

“Sobre o assunto, respigo umas quantas linhas a um texto teúrgico reservado:

«Foi durante a transição da 3.ª para a 4.ª Sub-Raça que veio firmar-se decisivamente em Bhumi (a Terra) a estrutura da GRANDE FRATERNIDADE BRANCA com SANAT KUMARA à testa, faz cerca de 18 milhões e meio de anos, por altura da Grande Iniciação Colectiva do Género Humano conferida pelos SENHORES DE VÉNUS, os PITRIS KUMARAS FLAMEJANTES provenientes de Vénus (ou Shukra), alter-ego da Terra e uma Cadeia adiante desta.

Isso correspondeu à acção empreendida por ARABEL (o 5.º Luzeiro) e sua Corte de MAKARAS e ASSURAS de coadjuvarem A Evolução Humana, pelos motivos kármicos suscitados por LUZBEL (o 3.º Luzeiro) na anterior Cadeia Lunar.

A formação de uma Grande Loja de Deuses humanizados na Terra, os quais vieram a iniciar os humanos mais adiantados da Raça Lemuriana e que adentraram a Raça seguinte, a Atlante, já como Adeptos Perfeitos, viria muito mais tarde, durante a 5.ª Raça Mãe Ariana, essa formação ou estruturação a ser designada pelos Adeptos e Iniciados da Soberana ORDEM DE MARIZ de PRAMANTHA ou CRUZEIRO MÁGICO A LUZIR.

Diz a Tradição das Idades que 888 deuses humanizados advieram sobre a Terra acompanhando o divino SANAT KUMARA, tendo sido então que Ele se entroncou decisivamente aos destinos deste 4.º Globo tornando-se o 4.º REI DO MUNDO, MELKITSEDEK, ROTAN, CHAKRAVARTI ou PLANETÁRIO DA RONDA. Coadjuvaram-no na manifestação avatárica sobre a Terra, ocupando o Animal Esfingético que AKBEL lhe cedeu, os seus 3 Irmãos Kumaras das 3 Rondas anteriores de Bhumi. Sanat Kumara, por seu turno, era na época um Avatara de ARABEL – LUZEIRO DE VÉNUS.

Foi Ele quem deu início à Grande Loja Branca dos Mestres Justos e Perfeitos, essa que na Índia é chamada de SUDHA-DHARMA-MANDALAM, “Excelsa Fraternidade Branca”, no Tibete de Confraria dos BHANTE-JAULS, “Irmãos de Pureza”, distinguidos pelas suas roupagens e faixas amarelas-azuis, e que a Igreja Cristã cognomina poeticamente de COMUNHÃO DOS SANTO e
SÁBIOS.”»
A pergunta que faço é: Mas o que é isto? Que confusão é esta? Esta gente julga que não é humana? Não vão ao supermercado dia sim, dia não? Não têm frio no Inverno? Não fazem uma simples digestão, quer em termos literais quer em termos simbólicos? O que pensarão os seus animais de estimação desta verborreia? Parece que o caminho da poesia é muito mais seguro.

Isto mostra como o mundo do simbólico pode ser um caldeirão para o qual se atiram símbolos de qualquer maneira, procurando apenas uma compensação em forma de grandeza para a pequenez que efectivamente somos.

Mas há outro modo de encarar a questão e passa por um dia lançarmos, do alto de uma ponte, o dicionário de Símbolos ao rio, e vê-lo cair devagar, e vê-lo mergulhar, quase em câmara lenta, nas águas que passam. Nesse momento, o nosso olhar está efectivamente nas águas que passam. E essas águas que passam são, de facto, o verdadeiro símbolo.

É frequente ouvir que teremos que distinguir o “fantástico” da “imaginação”, esta última como produto do mundo imaginal, no entanto, no campo da literatura e das artes, o fantástico, como construção fantasiosa obedecendo a um discurso vindo directamente de um quase-inconsciente (digo-o desta forma porque me parece mais correcta a definição de René Guénon quando afirma não existir inconsciente, mas sim, vários níveis de consciência), toca, por vezes, esse mundo imaginal uma vez que este é um mundo arquetipal. Dou o exemplo de “O Senhor dos Anéis”, na ficção cientifica da “Guerra das Estrelas”, e mais recentemente do excelente filme “Avatar”. O problema é que para se reconhecer a verdade de alguma fantasia tem de se conhecer antes alguma parte desse mundo imaginal, pois é dele que tudo parte.

Só em sonhos consegui entender as “Mansões Filosofais” de Fulcanelli. Lembro-me de, durante algumas tardes e noites, adormecer depois de lidas algumas passagens e, por uma estranha forma e fórmula que ainda hoje não entendo, sempre que adormecia sonhava com as passagens que havia lido e, em sonhos, tudo fazia sentido. Acordava com a noção de um sentimento de “completo”, sendo esta a palavra que mais se aproxima dessas experiências.

Não entendendo nada de química, aquele modo de escrever chamava-me para aquilo que hoje compreendo serem universos sobrepostos, uma espécie de astros que se alinham, se conjugam e que vão do mais alto ao mais baixo. E o que fazia sentido em termos simbólicos teria de fazer sentido também num plano material. Exactamente o mesmo sentido. A alegoria alquímica não era alegoria alguma, era somente alegoria dela própria. A procura do ouro era algo tão palpável e simultâneo como a procura da santidade. E para que tal acontecesse os astros tinham se estar alinhados e os deuses estarem de acordo com o alquimista e com os seus passos escondidos no jardim (para citar a ideia de Rémi Boyer quando fala do alquimista como um jardineiro que se esconde).

Daqui que se possa concluir que quem mergulha no mundo como símbolo mergulhe na própria vida, tal qual ela é, com todos os seus planos sobrepostos, numa tentativa de “alinhamento”, de harmonia, em busca do centro. Não é em vão que o símbolo do ouro seja uma circunferência com um centro ao meio.

Para quem tem dúvidas do que afirmo comece por ler este excerto das «Mansões Filosofais», e, a partir dele, inicie um processo de associações, com a sua própria vida, com a vida de outros, com uma obra literária, com a física quântica, com um jogo de crianças, enfim, associe com o que quiser, e verá que dentro desses voos redundantemente voláteis alguma coisa de fixo, de verdadeiro, se encontra. Principiemos:

“Assim se vê como seria vão trabalhar com ouro, porque este nada tem, não pode evidentemente dar coisa nenhuma. É, pois, à pedra bruta e vil que precisamos de nos dirigir, sem repugnância pelo seu miserável aspecto, pelo seu infecto odor, pela sua coloração negra, pelos seus sórdidos andrajos. Pois são precisamente estes caracteres pouco sedutores que permitem reconhecê-la e fazem com que, em todos os tempos, ela seja considerada uma substância primitiva, provinda do Caos original, e que Deus, nas alturas da Criação e da organização do universo, terá reservado para os seus servidores e para os seus eleitos. Tirada do Não-Ser, ela traz a marca dele e dele recebe o nome: Nada. Mas os filósofos descobriram que na sua natureza elementar e desordenada, feita de trevas e de luz, de mau e de bom reunidos na maior confusão, este Nada continha Tudo o que eles podiam desejar." (Ed. 70, 1989, pag. 338)

A diferença entre os dois textos transcritos é simples, o primeiro é falso, o segundo é verdadeiro e eterno, pois fazia sentido no Antigo Egipto, tal como faz hoje. E mais, o primeiro não conduz a nada, o segundo é um apelo total à operatividade na própria vida, gesto e corpo. O primeiro está cheio de vaidade, o segundo de humildade. O primeiro é uma associação de símbolos desenfreados, o segundo respira poesia e amor pelos factos da vida. O primeiro vive num mundo de fantasia onde todos começam por ser Adeptos Perfeitos, no segundo, pela imaginação, o leitor é erguido num apelo para se transcender, a começar pelo princípio verdadeiro, o facto de ser imperfeito. O primeiro fala de uma Fraternidade Branca, o segundo fala de um miserável aspecto, do seu infecto odor, da sua coloração negra e sórdidos andrajos.

Os vários níveis de leitura são impressionantes e quando essa leitura se torna vida, os vários níveis de vida são ainda mais impressionantes.

Iniciei este texto por causa dos indícios que uma boa obra sempre deixa e não poderei deixar de referir o papel dos “lemas” ou “emblemas” espalhados por aqui e ali nas «Mansões Filosofais». Estando apenas a procurar a fórmula do ouro, tais emblemas não fazem sentido, estando à procura da transcendência, tais emblemas só fazem sentido e são eles a raiz de todo o bem, belo e vero, uma verdadeira bíblia paralela cuja linguagem é a poética. Deixo alguns como exemplo e vou dá-los apenas como palavras sem imagem (com imagem ainda se tornam mais ricos, complexos e susceptíveis de associações):

“ A prudência é a guardiã das coisas”
“Não tu, mas nada sem ti"
“Agora, em verdade sei”
“A verdade vitoriosa”
“Enquanto o fogo durar”
“Antes a morte do que a mancha”
“Se os destinos aí te chamam"
“Morro pelas minhas próprias penas"

Recentemente estive no Colóquio Internacional Carvalho Monteiro, Vida, Imaginário e Legado, brilhantemente conduzido por João Cruz Alves e Manuel J. Gandra. Digo que foi brilhantemente conduzido (houve de facto uma condução até um determinado ponto) porque no final de tudo, após dias a revirar a vida do senhor, a analisar os seus passos, a sua biblioteca, os seus interesses, surpreendentemente, como que a brilhar na noite, foram revelados os lemas que este usava ao peito, mesmo junto ao coração, pendurados num fio. Deixo-os, também sem imagem mas são suficientes:

Relativamente ao Fogo: “Não desço nunca
Que tudo me consuma contando que agrade”
“Dá o teu fruto sem o prometer”
“Serpenteio mas não me desvio"
Relativamente ao Leão: “Quem ousará atacá-lo?”
“Nada espero senão de mim mesmo"
Relativamente ao Sol: “Privado de ti, eu morro”

Boas leituras!

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 24

















Na imagem, Auto-retrato de Almada Negreiros

A grande falácia

Alexandra Pinto Rebelo

Muitas páginas têm sido escritas tentando justificar a arte contemporânea. O engraçado destes discursos é que não argumentam a favor deste ou daquele tema, deste ou daquele material. Sabem que calcanhar têm de proteger, indo logo directos ao assunto. Afinal o que esses textos pretendem é provar-nos que aqueles objectos são mesmo arte e não uma outra coisa qualquer. Nós é que não o conseguimos compreender.

Um dos argumentos mais utilizados é, absolutamente, delicioso. E resume-se no seguinte: o mercado dos coleccionadores de arte está mais ávido do que nunca de produtos culturais cada vez mais complexos. Daí estes produtos, os objectos de arte, terem tendência a tornar-se mais herméticos para o público comum. Aquilo que, no fundo, nos estão a dizer é que as obras de arte contemporâneas exigem tanto do observador em termos cognitivos que são raros os possuídores de tais capacidades, imprescindíveis, para os avaliar. Simplificando ainda mais, aquilo que nos juram é uma coisa absolutamente simples: só os ignorantes não vêem que aquilo é, obviamente, arte.

Este argumento lembra fortemente aquele utilizado por Hans Christian Andersen no seu conto As Roupas Novas do Imperador. Os “grandes tecelões” recém chegados à cidade, conseguiam fazer um tecido mágico só visível para aqueles com uma super capacidade cognitiva, semelhante em tudo à requerida aos bons observadores actuais da arte contemporânea. Já que ninguém quer dar parte fraca, todos garantem ver o tecido. Por esta analogia de processos, teria neste momento de ir buscar o testemunho de uma criança que, perante um objecto de arte contemporânea, tivesse dito: “isto não é arte”. Não há crianças assim e, a haver, meteriam um certo medo. Nem tão pouco a sua afirmação teria algum peso neste campo da Teoria da Arte.

O que eu proponho é seguirmos um caminho mais simples, confrontando um objecto específico com a sua suposta complexidade. Peguemos no sapato de Joana de Vasconcelos, construído com tachos e tampas dos mesmos. Através da sua observação, guardamos três pontos fundamentais na sua mensagem- mulheres, cozinha e glamour. Agora, basta-nos formar sentidos lógicos com estes pontos. “As mulheres estão sempre divididas entre a cozinha e o glamour”; “As mulheres deixaram a cozinha e transformaram-se em glamour”; “Por muito que as mulheres tentem ser só glamour, têm sempre implícita a sua função ancestral na cozinha”. Qualquer destes argumentos de interpretação é válido.

Isto é complexo? Não me parece. Poder-se-á, no máximo, escrever um livro pequenino à volta do assunto, esgotando-o no final das primeiras páginas. A obra Las Meninas, de Velázquez, não foi feita para ser um objecto de arte complexo e, no entanto, já levou a que, sobre si, se escrevessem bibliotecas inteiras. O mesmo se poderá dizer, reduzindo o número de textos escritos, dos nossos Painéis de São Vicente.

Almada Negreiros escreveu uma frase que aqui faz todo o sentido: “As pessoas que eu mais admiro são aquelas que nunca se acabam.” De alguma forma, a complexidade das obras de arte faz lembrar esta afirmação. As mais admiráveis são aquelas que nunca se acabam. São aquelas que permitem sempre leituras inovadoras, sabendo manter-se como um conjunto aberto de interpretações. Como fazer isso é um dos mistérios da arte, da verdadeira.


POEMA INEXPLICÁVEL



















O breve início / O longo indício

Cynthia Guimarães Taveira

Disseste:

- A vida passa como um espelho
espelhando apenas um lado
Os dedos tocam o fruto
e, do outro lado do espelho
tocam o sol.

Digo-te em segredo, agora:

Os olhares cruzam-se indiferentes
Na noite em que tudo se passa
e, do outro lado, há um mergulho
No espelho das águas das almas

Vi-te chegar numa corrida
Assim de negro, branco e vermelho
Pausa no tempo das cores
Ouço atentamente os seus dons

O olhar pára atento
Pausa no tempo, sem dúvida
Fixos os olhos não param
Voando dentro uns dos outros

Param os momentos em aproximação
Parados por um sorriso que se passa
Tremendo nesse lado do espelho
Cedo, cedo o sorriso te devolve o real

Perguntas se irás para a morte
Sim, irás e depressa
Pausa no tempo em que és alto
Foge depressa para o mar

Perguntas inocente no mar:
Mas o que se passa afinal?
Pausa no tempo da tua voz a fugir
Consolo breve na paisagem

Perguntas se te juntas a todos
Respondes que nada te interessa
Voas abaixo da montanha
Voas guiado afinal

Giras em torno do monte
Em espirais que são só caminhos
Pausa no tempo do centro
Em olhares de gatos que te adivinham

Sobes acima devagar
O outro lado do espelho
É  a resposta afinal
Espanto dos espantos depois
De anos e anos em espera

Pausa no tempo dos dias
Em atenção aos movimentos
Teu coração é depois erguido
Em dor, mistério e saudação.

Salvé.

domingo, 4 de dezembro de 2011

FIDELI D'AMORE, AINDA OS HÁ?


“…«Dama» e «Amor» têm um carácter simbólico, ainda mais saliente e manifesto que as várias damas e rainhas dos textos do Graal e da literatura propriamente cavaleiresca, tornando-se o centro de todas as aventuras. Só que neste caso, o simbolismo não exclui também um aspecto concreto, ligado a uma via divergente especial, de realização espiritual, em que os sentimentos, a exaltação e o desejo suscitados por uma mulher real, mas todavia concebida e vivida, através duma espécie de processo evocatório, como a encarnação de uma força vivificante e transfiguradora, transcendendo a sua pessoa, podiam ter o seu papel, como base, ou ponto de partida. (…) Alguns exemplos: a um dado ponto, o amor de Dante revela-se o amor pela «Santa Sabedoria». A sua «dama» Beatriz confere-lhe liberdade iniciática - não só a alma de Dante é, por seu intermédio, «destacada do corpo», como também, no Paraíso, o «sol dela» ofusca o «sol de Cristo»."

Evola, Julius, O Mistério do Graal, Edições Vega, 1993, pág. 201

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

TEMPOS DE HOJE...

Os “Pontos” e os “is” da Arte

Cynthia Guimarães Taveira

Mais do que aquilo que vestimos ou deixamos de vestir, o espaço que nos rodeia contribui para a formação das nossas cabeças. A roupa é a máscara, a persona, distante do nosso verdadeiro ser. A máscara que nos oferece todas as possibilidades de ser o que somos e não somos, o véu que nos oculta ou desvenda, enfim um produto, sobretudo, do tempo e dos humores. O espaço, por seu lado, é fundamental, diria em tom metafórico, para a formação dos ossos. Pedra e osso andam lado a lado na sua função e, em termos simbólicos, estão ligados à estrutura e, consequentemente, à nossa estrutura. Daí que a Arquitectura seja entendida, em tempos arcaicos, como a mãe de todas as artes, o eixo fundamental sobre o qual todos nós nos vamos desenvolvendo. As implicações da edificação de uma simples casa são tão profundas como os alicerces de problemas antropológicos do género “o valor da palavra” ou, a “casa dos homens”, lugar iniciático de muitas culturas arcaicas.
O osso é o que nos ergue, algo que vai crescendo em nós, o suporte de toda a carne, de toda a nossa aparência, os ossos são as consoantes da língua (tronco e os ramos), a carne , as vogais (as folhas). É o osso que fica depois da nossa morte, é a pedra erguida que se mantém depois da passagem das civilizações. É a paisagem que nos influencia os pensamentos e, muitas vezes, nos dita as acções, os caminhos escolhidos, a sensibilidade perante as coisas. A “contemplação dos ossos”, feita em modalidades do Ioga, é também, a contemplação da nossa paisagem interior, dos resíduos embutidos nos socalcos da memória, é o que resta depois do acrescento da pedra-cálcio, depois do acrescento da nossa vida ao nosso corpo.
Por tudo isto, a Arquitectura tem um papel fundamental na actividade do homem. É ela que nos aproxima ou desvia do real, nos aconchega ou nos expulsa do mundo. A Arquitectura é a construção de edifícios e é também muito mais que isso, por sinal, é a construção de tudo.
Entendida como uma arte sagrada, esteve, nos primórdios, ligada ao primeiro sinal no homem do transcendente: o céu. Mesmo retirando toda a carga religiosa e simbólica que o céu possa conter, a realidade é que um homem, olhando para esse vasto universo de estrelas, esse labirinto sem sentido, nocturno e caótico, sente a tontura de algo que o transcende e aquilo que o transcende tem, de alguma forma, de fazer sentido. A primeira construção do homem é o ordenamento das estrelas, dos astros. É a procura da ordem nesse abismo que se estende para cima. Dar um sentido às estrelas, ordená-las, perceber quando aparecem e quando desaparecem e dar-lhes, enfim, uma história, um enredo que se pareça com a sua vivência corporal e sentida, com seus ciclos, suas noites e dias, a sua marcha, a sua orientação. É quando o universo começa a fazer sentido que a construção deixa de ser apenas um abrigo do frio e do calor para se tornar uma arte. É quando se dá a união entre terra e céu que começa o trabalho da pedra em função dupla de ordenar o território e de o sacralizar face ao céu. Da construção como necessidade passa-se à construção como arte, das necessidades básicas passa-se àquilo que Oscar Wilde disse: ”O supérfluo é absolutamente essencial”, e a arte é, afinal, absolutamente essencial tanto para a manutenção do homem no mundo como para o seu crescimento, alargamento de fronteiras interiores. A arte, por vezes, suprime, no caso da espécie humana, os impulsos mais animalescos, aqueles que se esperam essenciais, pois não é verdade que em Auschwitz se trocavam rações por histórias? A fome do homem, como ser com tendências transcendentes, pode suprimir a fome de pão pela fome, ou sede, de sagrado e é aí que entra a arte e a construção, e o papel do homem no meio deste vasto universo, suplicando ordem e invenção. Se o místico espera, em jeito de oração (sua forma de arte), desapego, renúncia e contemplação que o céu interior, de alguma forma desça até ele, ao homem comum só lhe resta construir, reconstruir, passo a passo, esse céu na terra, na acção, na entrega, no gesto.
É no impulso construtivo que residem as tendências artísticas e deveria ser nas tendências artísticas que deveriam residir as tendências construtivas (o que não é verdade hoje em dia, infelizmente). Mesmo na desconstrução do mundo, tema recorrente na actual arte, o propósito último da obra deveria emergir da sua raiz: a construção de um novo mundo, sagrado, perto da perfeição das rotas das estrelas, perto das histórias ecoadas pelos astros, perto da música das esferas. Daí que Lima de Freitas tenha dito a frase radical: “A arte ou é sagrada ou não é arte”.
Infelizmente a desconstrução actual parece não ter como propósito último esta sacralidade, mas sim o alongar do súplicio de uma civilização em agonia, uma tradução ipsis verbis da fealdade, da ignorância e da falta de graça do mundo contemporâneo. E uma tradução não é uma criação ou, quanto muito, a ideia não se deve ao seu tradutor.
Viaja-se para se conhecer novos povos, novas paisagens, novas línguas, mas também novas construções. Os monumentos têm à sua roda toda a espécie de turistas, de óculos, binóculos, câmaras manuais, digitais, de fotografia, de vídeo. Ver, a obsessão de ver para crer, para acreditar, para sentir, enfim para viver, dizer que se viveu, lembrar que se viveu. Este acto impulsivo e compulsivo do turista reside na intuição profunda de que a construção está intimamente ligada à nossa vida, e mais do que isso, nos influencia profundamente. A paisagem, o clima, moldam os povos, a arquitectura feita pelas mãos do homem molda-nos face à atitude que temos para com o sagrado. Porque é essa a sua origem. O impulso mórbido pela desconstrução e desfragmentação contemporâneas tem o seu desejo último na destruição completa, como a palavra final de um processo incessante e está traduzido nos filmes-catástrofe, em que os edifícios nos aparecem violentados, os canos, como entranhas, partidos, gotejando, os fumos de uma purificação pelo fogo atravessando as ruas, a noite cinzenta como a cor principal, o cheiro triste, quase sentido vindo do ecrã. Este tipo de visões apocalípticas é a de um futuro-mais-que-ruinoso (as ruínas têm alguma dignidade), porque a acção da destruição não se deu num tempo lento, mas sim num tempo súbito, inesperado, violento e sem piedade e demonstra a má relação que o homem tem com a sua Arquitectura. Há um desejo obscuro de tudo destruir porque, no fundo, não se ama nem respeita esta Arquitectura nascida na época pós-guerra do Bauhaus, nascida das necessidades de um mundo ainda acocorado pelo medo da morte. A nova Arquitectura e, por inerência, a nova arte, “pós-pós-tudo”, traz em si o germe da desordem da própria guerra e a sua projecção no futuro só pode ser a sua própria destruição. Hoje há uma má relação do homem com a Arquitectura que o rodeia e, consequentemente, há uma má relação com o sagrado ou vice-versa.
A natureza é fértil em modelos ordenados. A geometria está presente num grão de areia ou numa gota de chuva. E, segundo a teoria do caos, mesmo em dinâmicas aleatórias há padrões que se vão estabelecendo e desenvolvendo. Há alguns anos fez-se a seguinte experiência com bebés em idade de gatinhar: desenhou-se no chão dois tipos de desenho - num o desenho era confuso, caótico, noutro o desenho era geométrico, harmonioso. Todos os bebés escolheram dirigir-se para a ordem. Preferiam um ambiente mais “estável”, apesar de tudo.
Lévi-Strauss desenvolveu o conceito de sociedades quentes e frias, sendo as frias as mais apegadas às suas tradições, e as quentes mais instáveis e abertas às mudanças. Ao lermos René Guénon ficamos com a sensação de que este nos vai descrevendo (mesmo pela negação das sociedades actuais) uma Idade de Ouro perfeitamente tradicional. Esta Idade de Ouro, assim vista pelo olhar binário e estruturalista Lévi-Strauss, seria uma sociedade congelada, encerrada na sua perfeição. Uma sociedade perfeitamente apolínea e nada dionisíaca, segundo outra interpretação, de Ruth Benedict. Onde está a abertura necessária para o engenho e a arte na Idade de Ouro? Será que o papel da arte não é também ele o da desconstrução para a construção de outro mundo? Como não cair num fundamentalismo teórico ainda que com raízes na Tradição? E como não cair na total irresponsabilidade face ao vamos construindo? E porque chamavam os gregos à arte “imitação”? À pergunta “quais os limites da arte?” vem agarrada uma outra, tão importante e fundamental: “quais os limites do homem?”. Tão confusos estamos devido à nossa sociedade escaldante que já nem sabemos a resposta. Se se é tradicionalista, é-se reaccionário e o perigo é o do fanatismo (porta fechada por dentro), se se é liberal, já não se reage a nada e as portas acabam todas fechadas por fora sem que possamos sair para lado nenhum. É o que se passa hoje com a Arquitectura e com a arte em geral. Na Arquitectura isso tende a deixar de ser apenas simbólico com a construção de condomínios fechados, dos quais não se deve sair.
Os edifícios babilónicos tendem naturalmente para o abismo, e aqueles que nada têm a ver com orientações sagradas, tradicionais ou, simplesmente, respeitadoras da natureza envolvente, tendem a cercar o homem em prisões que nada têm de virtuais. E o homem é o espelho do que constrói. A imagem que imagina é a imagem que projecta, a imagem projectada é a base, a fonte da imagem seguinte a ser imaginada, e assim por diante. A palavra que se escreve é a chave da próxima, isto numa ordem simples, isto até dentro da desordem e do surrealismo. Daí que a Arte mais elevada, a Arquitectura, tenha uma profunda influência no pensamento.
A facilidade com que se aprende a trabalhar com um computador tem como causa o facto de este ter sido possível a partir de uma estrutura muito simples, o “zero” e o “um”, e ninguém, pelo menos por enquanto, chama “inteligente” a um computador. As escalas musicais, a paleta das cores, as formas geométricas, em suma, tudo aquilo que não é criação do homem, parece ter como base estruturas formadas a partir da variedade e da complexidade dos elementos estruturantes, não binários. A “imitação” no sentido grego parece ser trabalho para uma vida. A desfragmentação e consequente desumanização da arte é, no fundo, a incapacidade crescente para imitar. É mais fácil destruir o que está criado (neste caso, os modelos naturais), do que ser demiurgo no sentido em que se ama e se descobre o que se vai criando ou imitando. E não se trata de ser o macaco de Deus, a imitação é a da sua criação, não do Deus em si, porque a Ele ninguém O conhece e, por isso, ninguém O pode imitar, muito menos um macaco…A arte contemporânea toma a destruição nas mãos como se se tratasse de criação, o que é um verdadeiro paradoxo. E isso é tão grave como uma fábrica que produza sistematicamente a morte. Acabo de ler a notícia de um alemão, Gregor Schneider (que se distinguiu por ter colocado um bigode a Mona Lisa, um destruidor, portanto, e não um criador) que quer transformar a morte numa performance convidando moribundos a morrer perante um “público”. Este auto denominado artista deve lamentar imenso não terem existido câmaras nos campos de extermínio com transmissões em directo que mostrassem ao mundo a “beleza” da morte. Os artistas contemporâneos que fazem “instalações”, borrões em cinco minutos ou edifícios frios, erectos e distantes estão a matar o mundo e são tão eficazes nisso como o capitalismo exacerbado que os mantém. Peço desculpa mas não há teoria da arte que justifique a barbárie.
Hieronymos Bosch, no Jardim das Delícias, oferece-nos, no painel esquerdo, um paraíso, onde na aparência está tudo bem. Mas, olhando em pormenor, os animais, nesse painel, caçam-se e devoram-se uns aos outros. É um paraíso terrestre, demasiado terrestre e por isso com o sabor a desmembramento, a morte, a desconstrução. Na ordem aparente da natureza existe o movimento contrário, pendular, Kali destruidora, compensadora e fonte deste equilíbrio frágil universal. Se a arte é imitação, e se os modelos são as criações ou a criação já existente, também há espaço para a descontrução, aliás como para a crítica social, para um olhar mais caótico que o próprio caos que nos rodeia, para os fantasmas e as sombras da condição humana. Claro que sim. Aquele olhar realista que nos aponta o defeito para nos lembrar a virtude, a noite para nos lembrar o dia. O problema é que, hoje, a linguagem metafórica dominou as artes plásticas. Todo este lixo contemporâneo é sempre apresentado como uma metáfora de qualquer coisa (nem na Bíblia encontramos tanta obsessão pela metáfora) e as metáforas sobrepostas, aleatórias e mal feitas acabam por desembocar numa linguagem tão esotérica que apenas o próprio artista a compreende, ou, como está na moda dizer, meia dúzia de iniciados na arte contemporânea que praticam uma espécie de esperanto artístico, sem princípio, sem origens, sem raízes, sem pai nem mãe, ou seja, uma linguagem orfã de significante e significado naquilo que uma língua pode ter de mais íntimo e sagrado. Por outro lado, é necessário saber fazer metáforas: quando não são bem feitas e não usam códigos comuns ao observador a história metafórica acaba por ser o único real. Daí que a empregada de limpeza da Tate Gallery tenha deitado fora uma peça que lhe pareceu lixo…
A metáfora abate-se sobre si própria e fica apenas o lado de fora dela, e os lírios do campo já nada têm a ver connosco, são apenas lírios no campo, não chegando esses lírios sequer ao despojamento anunciado por Alberto Caeiro, mas sim a um outro despojamento, o despojamento do olhar que nada mais vê senão uma forma no campo sem nome e sem sentido, (uma miopia semântica) ou seja, destituído de palavra, destituído de Verbo e, por consequência, de Luz. Fica-se só com a parte e deixa-se de fora o Todo. Fica-se apenas com o tempo da moda e seus humores e põe-se definitivamente de lado a eternidade. E os artistas são os bonecos de ventríloquos mudos por falta de ideias, de amor, de admiração pelo que os rodeia.
A primeira vítima desta estranha forma de criar é o próprio arquitecto ou artista. Porque está e permanece só. Só e com a sua assinatura, a sua única razão para continuar a existir. E a arte, no seu princípio, não é um acto solitário. É um diálogo permanente com Deus ou com esse outro, interior, perto da nossa alma.
Esta solidão do artista chegou a tal ponto que já foi inventado um robot pintor. É o robot que pinta, não o artista, este passou definitivamente para o lado do observador e já não tem mais função no mundo. Assim como a arquitectura, hoje impossível sem o auxílio da máquina. A mão que agarra o lápis e desenha a cúpula imita-a muito mais na perfeição, pois no mundo não há esferas perfeitas, só um computador é capaz de tal coisa. O computador imita mal a natureza, é um péssimo artista e talvez o seja por ter nascido do zero e do um e não da diversidade maravilhosa dos elementos. Quando o artista se ausenta do mundo regressamos à animalidade, e Arquitectura deixa, de novo, de existir, para nos limitarmos a ter abrigos, como as bolsas dos cangurus, sem sequer conseguirmos ver que até os pássaros possuem o impulso genético de construir um ninho, pauzinho a pauzinho. Assim nunca sairemos da proximidade do ventre…
Gilbert Durand chama-nos a atenção para a noção de “bacia semântica” e dá um exemplo para explicar esta noção: a bacia é talhada pelas ondas da maré e, por sua vez, é o relevo da bacia que vai influenciar as ondas, na sua, forma, força e frequência, e talhando estas, de novo, a bacia. Bacia e maré criam-se e recriam-se ao longo do tempo e cada uma é consequência da outra. Esta metáfora é uma metáfora arquitectónica. Ter jardins, casas cuidadas, formas que de alguma forma sejam um prolongamento da natureza tocando os céus, é termos esses jardins dentro de nós, essas casas cuidadas e essa formas no templo interior que tocam outros céus. Chegam lá por sintonia, por serem da mesma origem. O problema da criação há-de ser sempre um problema face ao sagrado. Ou se está dentro dele ou fora dele, ou se cria ou se destrói. E quando se tem dúvidas sobre de que lado se está já se é mistíco, de alguma forma…
Ou se é mais e se consegue “contemplar o céu do fundo da sarjeta”, como tão bem disse Óscar Wilde, ou se é menos e se vive nela, num submundo demasiado perto dos infernos. E aí já não há ossos nem ruínas para contemplar, apenas cinzas, esse pó que fica depois das estrelas.
Francisco de Holanda, um artista muito antigo, oferece três lições fundamentais sobre a arte e que resumem as possibilidades de se (re)criar a partir do que nos foi dado (ninguém se torna artista, nasce-se artista, daí a maldição da imposição, semelhante àquela dos reis que não escolhem ser reis).
A primeira activa a imaginação: ao criar, conhecendo o mundo, saindo de si, participando na criação pela imitação, o homem volta a si com mais conhecimento de si próprio.
A segunda activa a humildade: os dons são dádivas vindos de fontes longínquas e desconhecidas e a forma de agradecer é aperfeiçoar este mundo.
A terceira activa a curiosidade: o artista deve ser pluridisciplinar e interessar-se por muitas matérias, porque tudo neste mundo está ligado.
Se olharmos para estes princípios apontados por este homem muito antigo, vemos subitamente inscritas numa coluna de mármore as três perguntas fundamentais: Quem sou? Donde vim? Para onde vou? E não será essa a coluna vertebral de qualquer artista? A arte sem Verbo não é arte.

Lisboa, Outubro 2008

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

NO PRÓXIMO SÁBADO...














Vale a pena ir à Casa do Fauno em Sintra no próximo Sábado. Porquê?

- Porque está bom tempo
- Porque a Casa e o espaço envolvente  são belos
- Porque nessa casa há boa gente que ama a natureza, os livros e a música
- Porque é fácil lá chegar a partir da Quinta da Regaleira (ver indicações na página da Casa do Fauno)
- Porque experimentando a Filosofia Portuguesa se fica diferente pois um novo mundo se abre
- Porque andamos todos à procura de sermos outros, diferentes, destemidos e apaixonados
- Porque o programa é uma jóia do pensamento português, ora reparem:

Encontro: Congeminações em Sintra - O Legado de António Telmo

Sábado, 3 de Dezembro às 15:00

Um encontro único em Sintra dedicado à memória de António Telmo, Filósofo do Espírito e representante maior da Filosofia Portuguesa.

Programa:

Apresentação do livro: "O Segredo do Grão Vasco – de Coimbra a Viseu, o 515 de Dante" de Pedro Martins com ANTÓNIO CARLOS CARVALHO

Apresentação do livro: "A Aventura Maçónica – Viagens à Volta de um Tapete" de António Telmo com LUÍS PAIXÃO

Apresentação das revistas: "António Telmo, 3.º volume dos Cadernos de Filosofia Extravagante" e 8º número da "Nova Águia" – O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa com PEDRO MARTINS e RENATO EPIFÂNIO

Entrada Livre

Anotações Pessoais, 54

 
Por António Carlos Carvalho

Fernando Pessoa fez questão de pôr à venda a sua «Mensagem» no dia 1 de Dezembro de 1934. Era um gesto simbólico, para salientar o seu desejo de que Portugal retomasse novamente o seu destino nas mãos. Era, naturalmente, o reconhecimento, óbvio para Pessoa e para os seus contemporâneos, da importância da data: a Restauração da Independência do País, em 1640.

Mais tarde, nos meus tempos de criança, o Hino da Restauração ainda era ensinado nas escolas. «Portugueses celebremos / O dia da Redenção…» Pelo menos, havia isso.

Mas agora é tudo diferente, pelos vistos: «Restauração», nesta Novilíngua que se impôs, diz só respeito aos restaurantes, pastelarias e ofícios correlativos… de onde devemos deduzir que os verdadeiros Restauradores são os «chefs» de cozinha que fazem aqueles pratos insípidos mas muito decorativos -- e não os que estão representados no monumento erguido na Praça dos Restauradores ou na sala das batalhas do Palácio Fronteira, aqui em Lisboa. Proponho, aliás, por uma questão de coerência, que se substituam as armaduras por aventais e lenços ao pescoço…

E até parece que o feriado de 1 de Dezembro está condenado a desaparecer, por vontade da nova deusa Austeridade. O que também não tem importância nenhuma, vendo bem as coisas, porque um feriado é hoje apenas um dia de descanso, um simples pretexto para não fazer nada, e não mais um dia comemorativo, vivido no seu significado verdadeiro.

Aliás, que «independência» é que temos hoje, enquanto país ou enquanto cidadãos ou até mesmo enquanto seres humanos? Não será a dependência a regra única deste jogo em que se tornou a História?

«Mensagem» não perdeu nada do seu apelo, digam o que disserem os «pessoanos» incomodados com este livro que consideram «menor» na obra do poeta.

Nós é que podemos não ser dignos desse apelo ao despertar -- perdidos, como estamos, em «restaurar» forças sentados à mesa, neste «fulgor baço da terra / que é Portugal a entristecer.»

«Ninguém conhece que alma tem».

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

(RE)CANTOS DE SINTRA

Hoje, dia em que se lembra o aniversário da morte do nosso poeta/bardo Fernando Pessoa, voador entre mundos, iniciado e iniciador pelas palavras, estreamos a nova fase da lua com as palavras de Alexandre Gabriel, que veio de Sintra, que está em Sintra e faz parte dela. De um dos seus recantos, solta-se então o seu canto:



DA INICIAÇÃO
Ruptura, Despertar e Absoluto
Alexandre Gabriel

A Rémi Boyer

“A Filosofia sem Iniciação não conduz a nada,

 A Iniciação sem Filosofia conduz à estupidez.”

Ibn Arabi


A INICIAÇÃO É RUPTURA

Sem Ruptura não há Iniciação. Quando há Iniciação sem Ruptura, não é Iniciação, é uma concepção mental da mesma.
Ruptura com o nosso ego – que mais não é do que um eu ilusório, um falso eu, no qual procuramos uma cómoda e irrealista sensação de segurança no sempre mutável mundo da manifestação.
O ego é tão frágil quanto a concepção meramente racionalista e mental da Realidade. O ego é um guardião do umbral, nele se projectam todos os nossos piores receios. É verdadeiramente o nosso pior e único inimigo real. É um obstáculo à Iniciação, mas pode também ser um impulsionador da mesma. Para tal, o ego deve ser considerado como aquilo que é, nem mais, nem menos. Ele pode ser um excelente servo, mas quantas vezes é um terrível senhor!...
O ego tem medo de perder algo. E quanto mais tenta prender com as suas garras aquilo que não pode ser preso, tudo lhe foge.
O eu não tem medo de perder o que quer que seja. Em primeiro lugar, porque nada lhe pertence. Em segundo, porque é tudo.
A Iniciação que é conferida ritualmente numa Ordem Iniciática autêntica transmite uma semente àquele que busca. Porém, assim como um terreno deve ser fértil e estar lavrado para abraçar e fazer crescer essa semente, o iniciável deve romper com o passado, romper com as falsas concepções que tem acerca de si próprio, romper com tudo aquilo que não é verdadeiro. Só quando deixar de pensar a Iniciação é que se tornará naquilo que já era mas não sabia, um Iniciado. É preciso ir para além de pensar a Iniciação. É preciso vivê-la, senti-la e pressenti-la. Por melhor que seja a semente, quando esta é plantada num mau solo, ou quando não é regada, ela jamais crescerá. Será uma semente morta, inútil, desperdiçada. Por isso existe o adágio místico: “Muitos são os chamados, pouco são os escolhidos."
Receber a semente é o mais fácil. É no preparar o solo e no cuidar da semente que está a chave da realização da Grande Obra. E aí percebemos que a semente nunca nos foi verdadeiramente “dada”, ela já existia em nós, mas estava adormecida.
Na Iniciação, a transmissão é 1% do trabalho, a inspiração é também 1%. Os outros 98% são transpiração. Iniciação sem transpiração é teatro. Iniciação sem transpiração é não-vivência da mesma.
Por isso, bem mais importante do que o grau recebido numa iniciação, é trabalharmos no nosso laboratório-oratório interior para atingir o estado correspondente a esse mesmo grau. Porque, para quem o recebe ou transmite, o grau não implica ter atingido esse estado. O estado não se transmite, conquista-se.

A INICIAÇÃO É O DESPERTAR

Enquanto não despertarmos somos homens da torrente, seres adormecidos, inconscientes da sua verdadeira condição.
Aquele que Desperta nasce para uma nova realidade. Ele não nega o “Jogo do Mundo”, conhecido entre os hindus como Lyla, o mundo da manifestação visível e da aparência, de natureza fenoménica, fruto do mundo real e invisível, do incriado, de natureza numénica. 
Não negando o Jogo do Mundo, aquele que Desperta aceita-o, porque sabe que faz parte da Máquina do Mundo. Mas aceita-o sem o tomar pela realidade. Aceita-o como ilusão. Ele está no mundo, mas não é do mundo, porém, vive no mundo. A sua pátria verdadeira é a das estrelas.
Aquele que Desperta reconhece o mundo que vive como um sonho. 
Aquele que Desperta reconhece o mundo que sonha como uma realidade.
Aquele que Desperta, acorda e, assim, tudo lhe é revelado. Pois tudo está em si e Ele é tudo.
Ele é Aquele que É.

A INICIAÇÃO É O ABSOLUTO

A Iniciação está para além de quaisquer palavras. O segredo da sua eficácia apenas diz respeito àquele que a vive. Querer defini-la é negá-la.
As técnicas iniciáticas e as ordens iniciáticas devem conduzir o iniciado à Via. Quando não o fazem, não são iniciáticas, são estruturas temporais. A iniciação não é confinável ao mundo da temporalidade. O seu reino é outro, inefável e intocável. A iniciação está para além do tempo e das concepções dos homens.
Sem o Silêncio não se chega ao Mistério.
Sem o Mistério não se chega à Iniciação.
Sem a Iniciação não se chega ao Absoluto.
O Absoluto é o abandono ao ser em si. É o não-fazer e o não-ser: a Não-Via.
A Não-Via não exclui as vias, antes integra-as, potencializando-as como facetas particulares da expressão do Real. 
As nossas concepções da Realidade não passam disso mesmo, concepções. E, sendo nossas, nunca poderiam deixar de ser limitadas. Para abraçarmos o Absoluto temos de nos entregar, abandonando-nos ao Vazio. Aí nós somos aquilo que somos e não aquilo que pensamos que somos.
Vazio de mim, eu sou uma taça-receptáculo para o Divino, um Graal cujas facetas são a expressão do múltiplo que é uno.
Três Avisos :
Se eu recusar a iniciação, serei um eterno adormecido, presa da temível fatalidade.
Se, iniciado, eu recusar a ruptura, serei uma infeliz vítima do meu ego.
Se, tendo vivido a ruptura, a negar, mergulharei na noite negra da alma e no limbo dos mundos.
Três Luzes :
A Iniciação leva à Ruptura.
A Ruptura provoca o Despertar.
O Despertar conduz ao Absoluto.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

RENASCER....


Este Blogue tem estado sob o signo da Lua pelo que sofreu um período de ocultação, mas, a pouco e pouco, o Sol cumpre o seu papel. Uma nesga de prata espreita já no céu. Iniciamos amanhã com um texto solar de Alexandre Gabriel. Amanhã, à mesma hora.

terça-feira, 5 de julho de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 23














Postais católicos

Alexandra Pinto Rebelo

O catolicismo tem provocado reacções extremas desde a sua origem. A maior parte delas são mais do que justas. Ainda há poucos anos João Paulo II pedia desculpa pelos pecados da igreja. Foi um pedido simpático, vindo de um Papa simpático. O documento “Memória e Reconciliação: a Igreja e as Culpas do Passado” inumerava alguns itens de mea culpa: as cruzadas e a Inquisição (pecados cometidos em nome da Verdade); os grandes cismas dentro do cristianismo; campanhas de depreciação contra o povo judeu; o não respeito pela diversidade religiosa e cultural.

Se pensarmos bem nalguns destes pecados percebemos que, sem eles, a Igreja católica seria hoje, na melhor das hipóteses, uma religião praticada por poucos; na pior das hipóteses, seria uma religião acabada, praticada por ninguém.

Refiro-me muitas vezes, nas minhas conversas, à violência extrema da conversão forçada dos europeus. O mundo antigo viu-se despojado dos seus locais de culto, muitas vezes milenares, dos seus rituais, dos seus deuses. No paganismo não existia uma relação intelectualizada com o divino. Os rituais apelavam à intensidade dos sentidos, à projecção física no contacto com o sagrado, à comoção pelo mistério que daí vinha. Nesse sentido era um tecido religioso mais completo do que o cristianismo.

Há uns dias entrei na igreja da Senhora da Saúde, no Martim Moniz, em Lisboa. Nunca lá tinha estado, não sei muito bem porquê. As pessoas entravam e saíam, não como espectadores desinteressados, mas como quem sabia o que queria. No altar em frente da porta, muitos vasos com plantas substituíam as usuais imagens de santos. Parecia que um deus da vegetação tinha invadido o principal local de culto, recebendo as orações e as dádivas dos devotos. No lado direito do altar, estava uma escultura enorme da Senhora da Saúde sobre um suporte que me pareceu um andor. A igreja, de dimensões muito reduzidas, fazia com que a imagem parecesse maior, dominando toda a sala onde indianos, africanos, portugueses lhe pediam, decerto, algo em troca do seu culto (o Martim Moniz voltou a ter esta saudável mistura de povos que caracterizavam, na antiguidade, as principais cidades do Mediterrâneo). Havia ali qualquer coisa de antigo. Mais. Havia ali qualquer coisa de profundamente pagão como se os alicerces mais profundos pertencessem à antiga religião e as imagens apenas tivessem sido actualizadas para o cristianismo latino. A estátua da Senhora da Saúde tem cabeleiras postiças que vão sendo trocadas, tem roupas faustosas, como qualquer deusa, usadas consoante a ocasião, o seu andor já a terá levado pelos limites do seu território, em procissão, tal como outros transportaram a imagem de Artemisa, em Éfeso. Aquela estátua, por mais que a queiram tornar apenas numa mnemónica de Maria, é bem mais do que isso. É uma estátua “viva”, de alguma forma. Uma estátua mágica incorporando em si o divino, cumprindo a sua função enquanto tal.

Quem, como eu, advoga a liberdade de culto, não pode deixar de sentir uma emoção em reverência, pela religião antiga, pagã (a religião dos campos, mas também das cidades), resistente a tudo, metamorfoseada em santos e templos, mas ainda viva (tão viva quanto os seus ídolos) respondendo às necessidades mais íntimas dos seres humanos.

Quando se fala em pecados da Igreja deve-se nomear quem os praticou. A maior parte dos crentes, que apenas querem comunicar com os seus “deuses”, poucas culpas terão disso. Possuem um impulso religioso particular, cuja origem se perde nos tempos, não constituindo isso crime algum só por si. À parte disso, pretendem somente viver em paz, como a maior parte dos crentes de todas as religiões.

Por uma vocação monoteísta, muitos dos estudiosos sempre evocaram a influência judaica, cristã e muçulmana na cultura portuguesa. Poucos tiveram a ousadia de colocar o paganismo como o outro elemento para a formação da nossa cultura (talvez o mais forte, por ter sido o primeiro). Sejamos nós, tal como eles, suficientemente audazes para, também por aí, dirigirmos os nossos estudos. Ou, pelo menos, a nossa curiosidade.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 22

As cidades invisíveis

Alexandra Pinto Rebelo

Lembro-me da primeira vez que li As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, e da surpresa que senti.
A história conta-se em poucas palavras por ser simples. Marco Polo descreve a Kublai Kan as cidades que visitou nas suas missões. O imperador escuta-o com mais atenção do que a qualquer outro dos seus enviados. São cidades quase sempre improváveis mas verosímeis num qualquer recanto do nosso mecanismo humano.
Com todos estes postais sem precedentes somos levados a questionar-nos sobre o que é, de facto, uma cidade. Compreendemos que uma cidade pode ser milhões de rascunhos diferentes, por estar ali, em vocação suspensa para ser sentida.
Da mesma forma, nos poderemos nós sentir Kublai Kan, escutando, não Marco Polo, mas Dalila Pereira da Costa. Num dos seus relatos: “Em Braga, na Rua do Gaio, junto ao centro da cidade actual, persiste, ainda, nos nossos dias, o mais arcaico e intacto santuário pagão de todo o território português e ainda da Península. Embora seu testemunho escultórico e epigráfico date da época romana, na sua origem ele recuará a tempos muito remotos, da pré-história: celtas e mesmo pré-celtas. Local detentor da Potência, a do sagrado, e que ainda hoje nele será sensível aos homens, por uma certa vibração aí sentida, o Quintal do Ídolo em si marcará um dos pontos altos da geografia sagrada de Portugal. Com todos os sinais peculiares do santuário pagão, na sua presença conjunta de pedras, águas e árvores- assim ainda hoje, nos seus testemunhos, ele se mostrará a nós em todo o seu perturbante mistério. E é ainda sua água sacralizada, há dois, há três ou mais milénios, a mesma que vemos correr no seu leito de pedra e ouvimos no seu doce murmúrio.”¨(1)
A Braga pagã desvelada pela leitura de quem a consegue sentir é, também ela, uma Cidade Invisível. Não será uma cidade construída em literatura, mas também ela é um lugar onde podemos descansar, sentindo-nos em casa por sermos humanos.
Voltando a Calvino, ou a Marco Polo, sabemos que “Finalmente a viagem conduz à cidade de Tamara. Entra-se nela por ruas pejadas de letreiros que sobressaem das paredes. Os olhos não vêem coisas mas sim figuras de coisas que significam outras coisas (...)”. (2)
E não serão estas ruas uma boa metáfora urbana de tudo o que aqui foi dito?


(1) Costa, Dalila L. Pereira da, "Corografia Sagrada", Porto, Lello & Irmãos Editores, 1993
(2) Calvino, Italo, "As Cidades Invisíveis", Lisboa, Editorial Teorema, 1993

sexta-feira, 24 de junho de 2011

ALQUIMIA, 1




Cynthia Guimarães Taveira

Lembra-se de passar tardes infinitas na sua sala. Estantes altas trepavam pelas paredes. Livros como estratosferas de ideias em camadas que pendiam sobre a sua pequena cabeça. Pela altura só chegava às estantes mais baixas. Livro pequeno herdado do pai morto cedo de mais. “O ocultismo” destacava-se dos outros pela pintura da capa, de Hyeronimus Bosch. Um pássaro engolia uma pessoa. Estranhava o estranho e o estranho, ainda não o sabia, puxava-o para si como se soubesse serem da mesma natureza. Abria o livro vezes sem fim. Lá dentro imagens carregadas de símbolos: mãos escritas, tabelas, fotografias, pinturas. Parecia um livro mágico que quando se abria o fazia entrar num outro mundo mas agora estranhamente familiar. Fixava os olhos nas imagens e pontos de interrogação abstractos circulavam na sua cabeça numa dança. O lado misterioso da vida existiria ou seria vontade dos homens? Aquele lado oculto que se revelava parecia-lhe sério. Mais até do que sério. Importante. Essencial. Se era fantasia, esta era essencial. Só assim a vida poderia ter sentido. O sentido oculto das coisas era o único sentido porque criava e desfazia ilusões. Porque avançava em metamorfoses pelo espaço e pelo tempo. Porque ia ao fundo dos tempos e resgatava as primitivas mensagens ainda acessíveis aos homens. Porque Ovídio era um pequeno deus numa casa de bonecas, num microcosmos. Brincadeira preferida: fingir ser um animal. Abelha, tigre, cão. Ou imaginar um palco com bailarinos. Fechar os olhos e vê-los dançar com coreografias que apareciam já feitas.

A virtude era entender que a vida era uma constante potência. A revelação uma eterna verdade da actualização dessa potência. A Alquimia vivia entre estes dois entendimentos. Sim, numa casa de bonecas, porque não?

NOVAS CARTAS

Em

http://as101cartas.wordpress.com./

Publicadas por Pedro Sinde

quarta-feira, 22 de junho de 2011

É JÁ NO PRÓXIMO SÁBADO...



















Congeminações - I Ciclo de estudos em homenagem a António Telmosubordinado ao tema "Ortodoxia e livre-pensamento" continua no próximo sábado, 25, pelas 15 horas, na Biblioteca Municipal de Sesimbra, estendendo-se até Novembro.

O programa de sábado é o seguinte:

- Apresentação do livro Sesimbra, o lugar onde se não morre, de António Telmo .
Este livro foi organizado por Pedro Martins e por Luís Paixão, conta com um notável prefácio do António Reis Marques e um belíssimo desenho do Carlos Aurélio, e reúne os escritos sesimbrenses de António Telmo, nele se incluindo quatro inéditos e alguns dispersos hoje de difícil acesso.

A apresentação será feita por Manuel José Pereira, que foi aluno de António Telmo em Sesimbra. A edição é da Câmara Municipal de Sesimbra e a concepção gráfica de Sandra Veríssimo.

- Colóquio António Telmo e as afinidades sesimbrenses

com a participação de:

Pedro Martins – António Telmo e Rafael Monteiro,

Elísio Gala – António Telmo e Orlando Vitorino e

Carlos Aurélio – António Telmo e Agostinho da Silva

segunda-feira, 20 de junho de 2011

RAZÃO POÉTICA

SOLSTÍCIO

No ponto mais alto
Cumpre-se o limite,
Ardente declinação.
No arco maior
Inverte-se a dança,
Na luz por amor:
Suprema aliança,
Nervuras da criação.
Cá em baixo roda a vida
Nas fogueiras de S. João.

20-06-2011
Eduardo Aroso

terça-feira, 14 de junho de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 21















A Verdade Única

Alexandra Pinto Rebelo

Os portugueses têm, habitualmente, um terrível tique de pensamento. Esse tique, ou mau princípio, prende-se com o facto de, segundo pensam, existir uma verdade única para tudo.
Esta verdade única, em termos teóricos, não seria má de todo. Trata-se de uma economia de processos. Quem conhecesse alguns princípios únicos saberia como funciona o mundo. E conhecer é, também, dominar.
São conhecidos os confrontos entre “sábios” do nosso cantinho. Tudo serve para esgrimir, com espadinhas de pau, em favor desta ou daquela ideia. Há “duelos” sobre a existência ou não de celtas em Portugal, sobre a “verdadeira” interpretação simbólica da Quinta da Regaleira, sobre a influência templária em Portugal.
Escolha-se um tema, pegue-se numa lupa, e lá encontraremos “sábios” lutando com outros pela “verdadeira Jerusalém”. Estes “sábios” são geralmente acompanhados por pessoas que os incentivam nas suas teses exclusivistas, urrando os seus comentários de apoio. Trata-se de pequenas cortes, com o “príncipe-sábio” no centro que, a terem cor, seriam escarlates, claro.
Em Portugal, pois, com raras excepções, não existe um processo fluido de conhecimento. O que existe é uma anomalia do corpo-pátria semelhante a varicela.
Não acredito que exista uma verdade única para as coisas. Acredito que os objectos e fenómenos são verdadeiros em si mesmos, são Tat, querendo isso dizer tudo e nada. Porém, isso não quer dizer que não possam existir tentativas para serem interpretados. A vivência do amor é diferente do escrever-se sobre o assunto. Mas quer Romeu e Julieta, quer Penélope tecendo de dia e destruindo à noite, são óptimas tentativas para nos aproximarmos do assunto. Não há uma única forma de amar pois isso constituiria um processo mecânico, não sendo, então, amor.
O que eu pretendo dizer é que existem muitas variantes de aproximação às coisas, existem muitas variantes da sua interpretação. O século XX, apesar de toda a destruição que conseguiu deixar nos livros de história, também conseguiu alcançar coisas muito boas. Geralmente é mostrado o desenvolvimento inegável da ciência. No entanto, todas as áreas ligadas ao conhecimento das artes, da cultura, da religião, do conhecimento humanístico, também alcançaram resultados igualmente extraordinários.
O que nós aprendemos com todas essas ideias é que não existe, de facto, uma verdade única para a interpretação das coisas. A terem uma verdade única, essa só poderá ser interpretada através do “silêncio cheio”. Estaremos nós preparados para isso enquanto civilização? Parece-me que não.
Por isso, alegremo-nos por termos Romeus e Julietas, Penélopes e Ulisses e tudo o mais que venha para nos ajudar a interpretarmo-nos como espécie, sabendo que, mais do que um monólito de pedra cerrada, somos uma torre imensa cheia de moinhos de papel, cada um de sua cor.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

13 DE JUNHO


Fernando Pessoa

Alexandra Pinto Rebelo

Fernando Pessoa foi o grande poeta do século XX. Esta minha afirmação, não pode deixar de ser um pouco injusta para todas as outras excelentes páginas de poesia escritas no século passado. Porém, é uma afirmação inteiramente justa para o próprio Pessoa e para a história da nossa literatura.
Depois de Camões nunca a poesia tinha alcançado tanto, assumindo-se o poeta como transmissor entre mundos, sabendo, ao mesmo tempo, elevar a poética a uma prática devocional comum entre os antigos, nunca esquecendo que, ao mesmo tempo, era moderno.
Este religar entre tempos parece um lugar comum, tornando pálido este texto, mas não o é (o texto, a ser pálido, sê-lo-á por outros motivos). Pessoa, na sua certeza de querer ser tudo, soube também ser passado e presente a um tempo. A maior parte dos poetas, não querendo abdicar de si, fogem a esta necessidade. Ou são só do seu tempo, o que é estranho, ou são só antigos, o que é absurdo.
A maior parte da poesia de Pessoa é oracular. Pessoa é o veículo sublimado, aquele que transmite e que sabe que transmite. Tem consciência do processo, envolvendo-se nele, conseguindo ser testemunha do que se passa, transmutando-se com isso. É o alquimista completo, expondo-nos o mundo em palavras entendíveis.
A poesia torna-se assim, um trabalho em êxtase de pasmo e medo. Silencia quando observa, retoma o seu labor quando tal é possível, fingindo sempre, que é como quem diz, passando pelo escrutínio da razão tudo o que foi sentido.
Escolhi um pequeno poema para ilustrar esta poética alquímica. Trata-se da “Ascenção de Vasco da Gama”. Aí, os antigos deuses gregos param a sua luta. No vale por onde se ascende aos céus, os deuses assistem à transmutação das formas que estão a receber, em ascese, a alma de Vasco da Gama. O pastor é o poeta-símbolo, a flauta, o seu instrumento de comunicação, ou seja, a escrita. O poeta está na terra, mas num local fronteira que lhe permite ver o céu abrir o seu abismo à alma do Argonauta. A sua flauta caí, em êxtase, a poesia não é possível nesse momento, só havendo lugar para o divino. Mas a poesia é retomada mais tarde, dando origem a este poema, falando daquilo de que seria impensável falar. O poeta, tomando Delfos como exemplo, é o oráculo e aquele que lhe coloca a questão, a pitonisa e o sacerdote que interpreta as comunicações em verso. Sendo todos os processos, o que é ele, senão o poeta-alquimista?

Ascensão de Vasco da Gama

Os deuses da tormenta e os gigantes da terra
Suspendem de repente o ódio da sua guerra
E pasmam. Pelo vale onde se ascende aos céus
Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus,
Primeiro um movimento e depois um assombro.
Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro,
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões.

Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta
Cai-lhe, e em êxtase vê, à luz de mil trovões,
O céu abrir o abismo à alma do Argonauta.


In Pessoa, Fernando, Mensagem, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007

domingo, 12 de junho de 2011

LANCES E RELANCES, 6




















JORGE DE LIMA – EXPOENTE DA POESIA BRASILEIRA DO SÉC. XX

Por Eduardo Aroso


Jorge de Lima (1893-1953) nasceu em União, no Estado de Alagoas. Viveu em várias cidades, como Salvador, Maceió e Rio de Janeiro, para onde rumou, após perseguição política. Formou-se em Medicina, tendo recebido o grau de doutor, e exerceu cargos de carácter cívico. Em 1925 aderiu ao modernismo brasileiro.

A poesia completa de Jorge de Lima encontra-se reunida num único volume da Editora Nova Aguilar. Para além dos poemas, há todo um recheio precioso de textos como «Jorge de Lima visto por Jorge de Lima», onde abundam depoimentos e reflexões pessoais de vária índole, bem como panoramas sobre a poesia mundial.

«Aliás, parece que o que há, no Brasil, com os escritores, é um inexplicável medo de ser “eles mesmos”, sem premeditações nem compromissos. Muitos são os espécimes de homens de letras que traem a si mesmos, não tendo coragem de enfrentar a crítica, preferindo realizar coisas impessoais e informes» (…) «O poeta de ontem, de hoje e de amanhã é sempre revolucionário; o que não lhe impede de ser memorialista e transcender a própria memória».

Poeta, que conheceu Agostinho da Silva, do seu pendor religioso ele próprio nos diz da « … desejada renovação, já havendo compreendido que o plano mais elevado para isso seria uma poesia que se restaurasse em Cristo, que é a mais alta Poesia, a mais alta verdade».

Nestes dias de Pentecostes, é mister reler este belíssimo poema, a propósito do qual não posso, com saudade, deixar de aqui relatar este meu pormenor pessoal. Foi com grande regozijo que o li em Estremoz, na tarde de 18 de Maio de 2002, na ilustre presença de António Telmo e de sua esposa D. Maria Antónia, dos companheiros Raul Traveira e Manuela Azevedo, do Gresfoz, e dos amigos João M. Lopes Tavares e Roque N. Brás de Oliveira.



ESPÍRITO PARÁCLITO


Queima-me Língua de Fogo!
Sopra depois sobre as achas incendiadas
e espalha-as pelo mundo
para que a tua chama se propague!
Transforma-me em tuas brasas
para que eu queime também como tu queimas,
para que eu marque também como tu marcas!
Esfacela-me com tua tempestade,
Espírito violento e dulcíssimo,
e recompõe-me quando quiseres,
e cega-me para que os prodígios de Deus se realizem,
e ilumina-me para que tua glória se irradie!
Espírito, tu que és a boca de todas as sentenças,
toca-me para que os meus irmãos desconhecidos e
                                          [longínquos e estranhos,
compreendam a minha fala para todos os ouvidos que criares!
Exceder-me-ei em meus limites,
crescerei em todas as distâncias,
serei a palavra transcendente, a profecia, a revelação e as
                                                                      [realidades!
Devora-me, renova-me, ressurge-me em tua vontade criadora
diante da morte e diante do nada!
Aguça a minha intuição,
descansa em minhas pupilas,
agita a minha lentidão,
faze-me numeroso como tu,
cobre todo o meu corpo de pálpebras que espreitem todas as
                                                             [latitudes e longitudes
e expectativas e anunciações e partos e concepções
e gerações e séculos de séculos!
Ressurgirei de todos os ventres
e voarei no sentido da perpetuidade sobre as águas e sobre
                                                                           [as terras!
Desata-me Espírito Paráclito! Corta os meus laços,
sopra a terra que há sobre a minha sepultura!
Enche-me de tua verdade e sagra-me teu moderno apóstolo!
Amo como poeta a forma com que te apresentaste
à assembleia do Cenáculo!
E sinto a tua presença,
a tua aproximação, a tua unção sobre a minha alma!
Dá-me tua fecundidade sobrenatural,
tua heroicidade e tua luz!
Unge-me teu sacerdote,
teu soldado, teu vinho, teu pão,
tua semente, tuas perspectivas!
Espírito Paráclito, dedo da direita do Pai,
soergue as minhas pálpebras descidas e sopra sobre
                               [elas o teu hálito e tua essência!
Espírito Paráclito, amo-te, com os meus cinco sentidos,
com a minha imaginação,
com a minha memória e com os outros dons poéticos
                                  [e proféticos e reconstituidores
que ultrapassam minha espessa matéria e meu espírito
                                                              [translúcido!
Sou teu ramo de oliveira que trazes dos dilúvios constantes
                                                                da [humanidade
e cujo óleo ungirá os meus iguais e os desiguais do meu
                                                                     [tamanho!
Espírito Paráclito, tu que és o único pássaro que desce sobre
                                                 [mim na minha noite untuosa,
fura os meus olhos para que eu veja mais,
para que eu penetre a unidade que tu és,
a liberdade que tu és,
a multiplicidade que tu és,
para eu subir da minha pequenez e me abater em ti!

JORGE DE LIMA (A Túnica Inconsútil)



sexta-feira, 10 de junho de 2011

EXTRAVAGÂNCIAS, 134



O dia 10 de Junho não é só de vez em quando

Cynthia Guimarães Taveira

Ouvi dizer que o Eng. José Sócrates tenciona ir para França durante um ano para estudar, imaginem, Filosofia. Agora? Só agora? Ainda por cima para França! Fiquei deveras espantada, o homem é, de facto, um desastre ambulante. Talvez volte de lá um ser bastante perigoso. Metade tecnocrata, metade positivista, e talvez, quem sabe, cheio de força e armas teóricas para prosseguir com o seu propósito final: ser um elemento empenhado em destruir qualquer indício, qualquer intenção, qualquer desejo que Portugal demonstre em continuar a sua Iniciação. E neste jogo de forças, vale tudo, até estudar filosofia! Primeiro, faz um curso de Engenheiro às três pancadas apenas pela pressa de continuar a sua carreira política e, no fim, depois de desgovernar toda a gente, medita sobre o seu próprio nome e entende que há algo de filosófico nele próprio.

Mas tudo isto levanta um problema fundamental da nossa classe política. Haverá algum político que conheça a matéria-prima com a qual trabalha? Com que matéria-prima trabalha um político? Resposta: com um povo. Há então algum político que conheça o seu povo? Que o conheça a sério pela voz daqueles que reflectem sobre ele?

Serei, porventura, bastante radical, mas um dia imaginei ser muito rica e, imaginei que, com esse Euromilhões gigante, compraria um palacete antigo. E, nesse palacete, instituiria uma Fundação dedicada aos estudos sobre Portugal: uma espécie de escola aberta mas com regras muito apertadas no que se refere a quem dirigiria tal Fundação. Essa Fundação teria como condição de existência, para lá da minha morte, a elaboração de vários núcleos de saber em diferentes partes do país e do mundo e teria, a parte mais difícil, uma exigência deixada no meu testamento: só poderia ser Presidente dessa Fundação alguém que passasse num teste escrito onde fosse avaliado o conhecimento de determinadas matérias sobre o nosso povo e sobre o nosso país.

Parei. Parei ainda mais. O que desejava, no fundo, é que quem nos governasse fosse assim. Tão simples, afinal.

Que político leu, sentiu e interiorizou as páginas que abaixo transcrevo de Dalila Pereira da Costa? Calculo que quase nenhum. São políticos das suas próprias ideias, se é que as têm, mas não são políticos ao serviço do seu povo porque nem o conhecem. Nem se conhecem a si próprios como o demonstra este acto final, radical e estrangeirado de Sócrates.
Deixo este texto de Dalila Pereira da Costa apenas como exemplo de uma meditação, muitos outros há, de muitos outros autores, e, como são muitos, levariam muito tempo a ser lidos, muitos 10 de Junho espalhados pelo ano inteiro… Desculpem o excerto ser grande, mas penso ser, este também, um grande dia.
Sobre as raízes que os povos celtas deixaram em Portugal, diz então Dalila:

“Entre essas raízes, apontemos primeiramente as que nos surgirão como de força negativa, como os seus defeitos particulares (e por herança directa, também dos portugueses); entre outras demais, a vaidade, ela como tendência à vanglória, ou fanfarronice e o gosto imoderado da sumptuosidade e ostentação; a preguiça; um entrega a estados prolongados de sono ou torpor, sobretudo depois de uma frustração ou derrota sofrida, que ela, nunca é aceite em humildade e coragem; um movimento na acção, em qualquer empresa ou luta, que se exerce somente em toda sua energia no primeiro momento, logo decaindo ou sendo abandonada, por falta de constância ou disciplina; gosto imoderado e prolongado de festas, banquetes, tomando formas extremas de orgia, gosto de longos discursos em retórica empolada e vazia; mas acima de tudo, porque de força máxima destruidora, essa tendência à anarquia, por dispersão de energias incontroladas, ela vinda desse exclusivo sentimento de individualidade, negando todo ou qualquer acatamento de autoridade estranho ao individuo ou grupo social, outrora como tribo; autoridade que agiria como força unificante de organização e coesão, levando a uma concepção de comunidade mais alta ou lata, como nação. E que entre os portugueses ao longo da sua história, seria efectuada pelos seus heróis. Tal no começo, a do rei Fundador, depois numa revolução, do santo, D. Nuno Álvares Pereira, ou nos Descobrimentos iniciada por outro seu herói, o Infante D. Henrique.

Anarquia que, como mal endémico dos celtas, os levou à derrota pelos romanos; e depois nos portugueses, à sua auto-derrota nestes dois últimos séculos e notadamente a partir das Lutas Liberais: como estado de desunião, com perda constante de energias, porque não disciplinadas e organizadas para um único fim em eficiente acção: o serviço da nação. Estado introduzido em imagem psíquica de dissociação de personalidade ou em imagem cósmica de caos primordial.

Entre essas outras raízes da alma dos celtas, que nos surgirão como de força positiva e benéfica, e que esperarão ser assumidas e desenvolvidas até às sua máximas possibilidades pelos portugueses, usando-as no seu ser e estar no mundo, em trânsito histórico e integrando-as assim na sua missão no mundo, como seu dever transcendente a eles particularmente incumbido, intransmissível e justificador da sua vida neste mundo - apontemos antes de mais o seu profundo sentido de liberdade e independência. (…) Seu profundo sentido de liberdade, levando-os outrora em momentos de luta contra esses inimigos, ameaçando essa liberdade, a sacrificarem sua própria vida e de seus parentes,(…) vida vista sem valor se caída em escravidão. (…)

A coragem e desprendimento perante a morte física de seu corpo, advindo aos celtas de sua concepção positiva da morte, como imortalidade da alma; morte vista assim, não como um aniquilamento, um fim da vida mas uma sua continuação noutro mundo, como sua outra fase: esta sendo de posse e usufruição eterna para cada homem. Sentido da morte, que por ela, marcará sua religião dessa dimensão inseparável escatológica; a morte sendo aceite no seu pleno sentido e meditada em confiança, como fase de perfeita realização da vida; esta, una, em metamorfose incessante, recriando-se ciclicamente, sempre em novas formas, de dinamismo por transmutação e regeneração.

Assim, também, o sentido que a morte terá unida ao amor, na cultura dos celtas, e que virá expressada no seu romance de Tristão e Isolda, e ainda na Menina e Moça, dos portugueses, ou em D. Pedro e D. Inês. (…)

E assim, também, o sentido do Outro Mundo, visto e vivido como paralelo, coetâneo e inseparável a este quotidiano e sensível. Este mundo e o outro, esta vida e a outra, fazendo parte duma única realidade a ser vivida em paixão exultante pelo homem; ser ainda este sentido unificante, a um tempo jubiloso e pânico, que marcará a relação do homem com a Natureza; realidade onde se sente imerso, conjuntamente com as plantas, os animais, os rios, as pedras, montes… em união tomando a forma dum incessante diálogo, ou monólogo numa projecção no Outro, e em metamorfoses, esta indo até ao extremo escatológico de metempsicose. (…)

Se ainda e finalmente apontamos esta força da imaginação, como uma das qualidades positivas e benéficas do povo celta, e sua possibilidade de por si apresentar e unir mundos aparentemente opostos, ou no apresentar e mostrar o transcendente e sobretudo o universo como todo vivente, dinâmico -, será para tornar bem presente o contraste da mundividência deste povo e nela a sua arte, com a nossa actual, criada e vivida existencial e teoricamente pelo Ocidente moderno: ela, toda abstracta e fria, unicamente imanente e estática, como expressão dum universo morto, cadavérico”.

Resumindo, o Eng. Sócrates devia ficar cá a aprender.

Dalila Pereira da Costa, “Corografia Sagrada”, Lello & Irmão - Editores, 1993, pág. 194 e seguintes.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

D. SEBASTIÃO



















Veio do sul esse perfume
Dessa moura de véu alado
Veio do sul com a andorinha
Veio em nuvens no céu dado

Na praia do grande mar
Essa nuvem transbordou
Para cima e para baixo
Para o sonho não esperado

Peguei em armas pequei em ferros
Com um salto desvairado
Meti o freio nos dentes
Ao meu cavalo de pêlo raro

Voei por cima das montanhas
Voei por debaixo do mar
Voei longe e enfeitiçado
Só para a poder encontrar

Essa moura de alto porte
Era a guerra desejada
Eram terras de má sorte
Era a vida por um nada

Já fui rei em céu aberto
Já fui quem todos esperavam
Já fui morto em terra negra
Já sou sonho desbravado

Desbravado no futuro
É o meu corpo que há-de vir
Já sem nome, já sem espada
Apenas eu e o sol a luzir

E as faces que me esperam
Serão espelhos a brilhar
Serão luz no tempo eterno
Serão Deus a gargalhar

E a alegria será tanta
Que mais nada se ouvirá
Apenas os poetas a escrever
Esse riso que Deus dará

6-6-2011
Cynthia Guimarães Taveira

sábado, 4 de junho de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 20















Cristianismo e Paganismo

Alexandra Pinto Rebelo

Nos primeiros tempos de cristianismo, o império romano assistiu a um conflito crescente entre a nova religião e as outras praticadas um pouco por toda a parte. A nova religião tomava para si o estatuto de ser a única verdadeira, tal como tinha acontecido antes com o judaísmo. Mas, se o judaísmo tinha conseguido manter-se como uma reserva religiosa, sem pretensões de se impôr fortemente fosse a quem fosse, o cristianismo tentava aquilo que parecia impossível: aniquilar o pensamento pagão fazendo aquilo que pensava ser uma prova constante da sua falácia.

Para os pagãos, o cristianismo, era uma visão a um tempo nova e abominável do mundo. Essas primeiras tentativas de evangelizar, eram semelhantes a um terrorismo religioso a que o mundo nunca tinha assistido. Era absurdo uma religião assumir-se como a única verdadeira, tomando todas as outras como falsas, acusando-as publicamente dessa falsidade. Para um pagão, a questão da verdade religiosa não se colocava. Todas as religiões eram verdadeiras, bastando-lhes para isso existir. Só os crentes poderiam avaliar os bons resultados da sua própria religião.

Os cristãos primitivos, à semelhança do que fazem hoje as Testemunhas de Jeová, levavam a Boa Nova aos lares romanos. Conhecemos o seu modo de operar através de vários relatos de romanos desesperados. Os cristãos esperavam que o dono da casa saísse para os seus afazeres, e então batiam à porta. Falavam com as mulheres romanas, com os seus filhos menores, com os escravos. Quando eram escutados, faziam com que a paz do lar fosse corrompida para sempre. Vários romanos proibiram que os seus abrissem a porta ou falassem com tais seres instigadores da desordem familiar.

Este conflito entre dois mundos tão distintos, não terminava entre os devotos de uma ou outra religião. Existia igualmente entre os cristãos recentemente convertidos ao cristianismo. Refiro-me, também, aos seus conflitos interiores, sendo por um lado cristão devotos e, por outro, seres humanos oriundos de uma cultura pagã. É que, por mais que a sua comunidade os apoiasse no seu caminho exclusivista, essa via impunha-lhes pôr de parte todos os dados culturais com os quais se tinham norteado até aí. Se algumas coisas eram relativamente fáceis, como o não adorar imagens, ou entrar em templos pagãos, outras eram por demais difíceis como, por exemplo, pôr de parte Homero, Platão, Cícero e toda uma cultura literária que sabiam ser excepcional.

Jerónimo dá-nos um testemunho de tal conflito. Sendo cristão, sabia que não podia haver nada de certo na literatura antiga. No entanto, os textos cristãos eram bem inferiores, em termos literários, aos escritos da literatura que ele tinha como obrigação de colocar de parte. Quando não resistia e pegava em Cícero ou Plauto, jejuava por penitência, chorando entre parágrafos, por se sentir completamente dividido. O seu sentimento de culpa cresceu de tal forma que Jerónima adoeceu, tomado por uma febre que lhe ia tirando a vida. O mesmo Jerónimo nos conta que, num sonho em delírio, sentiu-se invadido em êxtase e transportado diante do tribunal do juiz. Tendo sido interrogado sobre a sua profissão de fé, respondeu ser cristão ao que o juiz, severo, respondeu: “Mentes, tu és de Cícero e não cristão: onde está o teu tesouro, está também o teu coração.”*

In Rougier, Louis, O conflito entre o cristianismo primitivo e a civilização antiga, Lisboa, Vega, 1995

quinta-feira, 2 de junho de 2011

SOBRE OS CONTOS DE FADAS...

“Um dos autores que mais exaustivamente estudou estes problemas, Mircea Eliade [em Aspects do Mythe, cap. «Les mythes et les contes de fées»], considera que as versões populares dos contos maravilhosos, não são na realidade dessacralizantes. Tratam-se de «versões camufladas», que mantém os motivos míticos e iniciáticos arcaicos, muito embora disfarçando-os, mascarando-os, conservando as suas verdades profanas, mas ocultadas em vestes enganadoras.

Esta «camuflagem» foi necessária devido à aparição ou à preponderância de novas religiões, nomeadamente do cristianismo, cioso da sua ortodoxia ou do seu catecismo. Realizou-se, aliás, de forma inconsciente, lentamente (e daí as sucessivas versões). O mitema, sublinhamos por nossa parte, enriqueceu-se, aliás, com os novos motivos do espírito cavaleiresco e cristão, produzindo-se uma síntese que nos transmite como que a memória da humanidade. Naturalmente pedagógica é esta transmissão gratuita e aliciante de um milenária sabedoria, caldeada de perdidas experiências ou de esquecidas revelações, vozes, descobertas, imagens simbólicas.

«Se os deuses não intervêm nos contos de fadas sob os seus próprios nomes», escreve Mircea Eliade, «os seus perfis distinguem-se ainda nas figuras dos protectores, dos adversários e dos companheiros dos heróis. Estão ‘camuflados’ ou, se quiserem, decaídos, mas continuam a desempenhar a sua função.»

A função a que se refere Eliade é rigorosamente iniciática, é constituída por uma série de provas que o protagonista deve vencer, e que o leitor ou o ouvinte acompanha simbolicamente, interiorizando-as. Função de extraordinária influência formativa sobre as crianças porque a transmissão penetra no psiquismo infantil por via inconsciente, unindo-se à disposição aperceptiva ou intuitiva da alma e despertando esse estrato enigmático a que C. G. Jung chamou inconsciente colectivo ou arcaico.
(…)

Sem dar por isso, o homem beneficia dessa iniciação imaginária, conservada nos contos de fadas, esta simbólica «passagem da nesciência da imaturidade à idade espiritual do adulto». O alcance pedagógico e até analógico do conto maravilhoso é pois diríamos que infinito - porque não se lhe pode opor um limite.

Álvaro Ribeiro foi o pensador que, entre nós, melhor e mais profundamente se apercebeu de tal alcance, em termos de difícil superação. Escreveu o filósofo (em A Razão Animada) que na educação das crianças «a imaginação deve preceder a intelecção». E logo a seguir: «A faculdade fabulatriz da alma da criança exerce-se pela produção de imagens fantasiosas, de vivências que se tornam narrativas para serem ludicamente representadas ou agidas.» Tal faculdade deve ser estimulada. «A cultura da imaginação é um factor psicoterápico muito indicado contra o medo, a agressividade e a vingança e portanto um nobre processo de promover nas crianças a maturidade emocional.»

Infelizmente, «a didáctica positivista, eliminando a imaginação tem por efeito inibir as formas de intelecção mais apropriadas ao estudo das humanidades, porque o adolescente sem abertura de alma para o fantástico, o prodigioso e o milagroso dificilmente realizará compreensão simpática da mentalidade dos outros povos, e mais dificilmente entenderá a gradativa alteração das culturas ao longo da história. A motivação dos actos humanos parecer-lhe-á em muito casos absurda, inverosímil, invenção de escritor, apenas porque não cabe nos quadros rígidos da antropologia positivista».

Para Álvaro Ribeiro, enfim, «o conto caracteriza-se pela presença colaborante ou neutralizante de seres sobrenaturais». E mesmo que os autores se vejam obrigados, ao escrever para adultos, a excluir «da narrativa literária o elemento mitológico, representado pelos anjos, pelas musas, pelas fadas, conforme as tradições, ou ainda pelas ideias platónicas, de mais livre curso em filosofia», hão-de «pelo menos aludir ao motor secreto da acção narrada usando de palavras adequadamente escolhidas para representar os conceitos humanos da necessidade, destino ou fado».

Em suma, o valor de todo o conto maravilhoso, «camuflagem» de um mito (Mircea Eliade) ou velada alusão a uma transcendente energia espiritual (Álvaro Ribeiro), é o de uma educação da psique, quer como caminho de maturidade e de saúde mental, quer como estímulo à imaginação, a uma imaginação que abre o acesso para verdades transcendentes à positividade do mundo sensível.”

António Quadros, “Memórias das Origens, Saudades do Futuro”, Publicações Europa-América, 1992, pág 100