segunda-feira, 27 de junho de 2011
SABEDORIA ANTIGA, 22
As cidades invisíveis
Alexandra Pinto Rebelo
Lembro-me da primeira vez que li As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, e da surpresa que senti.
A história conta-se em poucas palavras por ser simples. Marco Polo descreve a Kublai Kan as cidades que visitou nas suas missões. O imperador escuta-o com mais atenção do que a qualquer outro dos seus enviados. São cidades quase sempre improváveis mas verosímeis num qualquer recanto do nosso mecanismo humano.
Com todos estes postais sem precedentes somos levados a questionar-nos sobre o que é, de facto, uma cidade. Compreendemos que uma cidade pode ser milhões de rascunhos diferentes, por estar ali, em vocação suspensa para ser sentida.
Da mesma forma, nos poderemos nós sentir Kublai Kan, escutando, não Marco Polo, mas Dalila Pereira da Costa. Num dos seus relatos: “Em Braga, na Rua do Gaio, junto ao centro da cidade actual, persiste, ainda, nos nossos dias, o mais arcaico e intacto santuário pagão de todo o território português e ainda da Península. Embora seu testemunho escultórico e epigráfico date da época romana, na sua origem ele recuará a tempos muito remotos, da pré-história: celtas e mesmo pré-celtas. Local detentor da Potência, a do sagrado, e que ainda hoje nele será sensível aos homens, por uma certa vibração aí sentida, o Quintal do Ídolo em si marcará um dos pontos altos da geografia sagrada de Portugal. Com todos os sinais peculiares do santuário pagão, na sua presença conjunta de pedras, águas e árvores- assim ainda hoje, nos seus testemunhos, ele se mostrará a nós em todo o seu perturbante mistério. E é ainda sua água sacralizada, há dois, há três ou mais milénios, a mesma que vemos correr no seu leito de pedra e ouvimos no seu doce murmúrio.”¨(1)
A Braga pagã desvelada pela leitura de quem a consegue sentir é, também ela, uma Cidade Invisível. Não será uma cidade construída em literatura, mas também ela é um lugar onde podemos descansar, sentindo-nos em casa por sermos humanos.
Voltando a Calvino, ou a Marco Polo, sabemos que “Finalmente a viagem conduz à cidade de Tamara. Entra-se nela por ruas pejadas de letreiros que sobressaem das paredes. Os olhos não vêem coisas mas sim figuras de coisas que significam outras coisas (...)”. (2)
E não serão estas ruas uma boa metáfora urbana de tudo o que aqui foi dito?
(1) Costa, Dalila L. Pereira da, "Corografia Sagrada", Porto, Lello & Irmãos Editores, 1993
(2) Calvino, Italo, "As Cidades Invisíveis", Lisboa, Editorial Teorema, 1993
sexta-feira, 24 de junho de 2011
ALQUIMIA, 1
Cynthia Guimarães Taveira
Lembra-se de passar tardes infinitas na sua sala. Estantes altas trepavam pelas paredes. Livros como estratosferas de ideias em camadas que pendiam sobre a sua pequena cabeça. Pela altura só chegava às estantes mais baixas. Livro pequeno herdado do pai morto cedo de mais. “O ocultismo” destacava-se dos outros pela pintura da capa, de Hyeronimus Bosch. Um pássaro engolia uma pessoa. Estranhava o estranho e o estranho, ainda não o sabia, puxava-o para si como se soubesse serem da mesma natureza. Abria o livro vezes sem fim. Lá dentro imagens carregadas de símbolos: mãos escritas, tabelas, fotografias, pinturas. Parecia um livro mágico que quando se abria o fazia entrar num outro mundo mas agora estranhamente familiar. Fixava os olhos nas imagens e pontos de interrogação abstractos circulavam na sua cabeça numa dança. O lado misterioso da vida existiria ou seria vontade dos homens? Aquele lado oculto que se revelava parecia-lhe sério. Mais até do que sério. Importante. Essencial. Se era fantasia, esta era essencial. Só assim a vida poderia ter sentido. O sentido oculto das coisas era o único sentido porque criava e desfazia ilusões. Porque avançava em metamorfoses pelo espaço e pelo tempo. Porque ia ao fundo dos tempos e resgatava as primitivas mensagens ainda acessíveis aos homens. Porque Ovídio era um pequeno deus numa casa de bonecas, num microcosmos. Brincadeira preferida: fingir ser um animal. Abelha, tigre, cão. Ou imaginar um palco com bailarinos. Fechar os olhos e vê-los dançar com coreografias que apareciam já feitas.
A virtude era entender que a vida era uma constante potência. A revelação uma eterna verdade da actualização dessa potência. A Alquimia vivia entre estes dois entendimentos. Sim, numa casa de bonecas, porque não?
quarta-feira, 22 de junho de 2011
É JÁ NO PRÓXIMO SÁBADO...
Congeminações - I Ciclo de estudos em homenagem a António Telmosubordinado ao tema "Ortodoxia e livre-pensamento" continua no próximo sábado, 25, pelas 15 horas, na Biblioteca Municipal de Sesimbra, estendendo-se até Novembro.
O programa de sábado é o seguinte:
- Apresentação do livro Sesimbra, o lugar onde se não morre, de António Telmo .
Este livro foi organizado por Pedro Martins e por Luís Paixão, conta com um notável prefácio do António Reis Marques e um belíssimo desenho do Carlos Aurélio, e reúne os escritos sesimbrenses de António Telmo, nele se incluindo quatro inéditos e alguns dispersos hoje de difícil acesso.
A apresentação será feita por Manuel José Pereira, que foi aluno de António Telmo em Sesimbra. A edição é da Câmara Municipal de Sesimbra e a concepção gráfica de Sandra Veríssimo.
- Colóquio António Telmo e as afinidades sesimbrenses
com a participação de:
Pedro Martins – António Telmo e Rafael Monteiro,
Elísio Gala – António Telmo e Orlando Vitorino e
Carlos Aurélio – António Telmo e Agostinho da Silva
segunda-feira, 20 de junho de 2011
RAZÃO POÉTICA
No ponto mais alto
Cumpre-se o limite,
Ardente declinação.
No arco maior
Inverte-se a dança,
Na luz por amor:
Suprema aliança,
Nervuras da criação.
Cá em baixo roda a vida
Nas fogueiras de S. João.
20-06-2011
Eduardo Aroso
terça-feira, 14 de junho de 2011
SABEDORIA ANTIGA, 21
A Verdade Única
Alexandra Pinto Rebelo
Os portugueses têm, habitualmente, um terrível tique de pensamento. Esse tique, ou mau princípio, prende-se com o facto de, segundo pensam, existir uma verdade única para tudo.
Esta verdade única, em termos teóricos, não seria má de todo. Trata-se de uma economia de processos. Quem conhecesse alguns princípios únicos saberia como funciona o mundo. E conhecer é, também, dominar.
São conhecidos os confrontos entre “sábios” do nosso cantinho. Tudo serve para esgrimir, com espadinhas de pau, em favor desta ou daquela ideia. Há “duelos” sobre a existência ou não de celtas em Portugal, sobre a “verdadeira” interpretação simbólica da Quinta da Regaleira, sobre a influência templária em Portugal.
Escolha-se um tema, pegue-se numa lupa, e lá encontraremos “sábios” lutando com outros pela “verdadeira Jerusalém”. Estes “sábios” são geralmente acompanhados por pessoas que os incentivam nas suas teses exclusivistas, urrando os seus comentários de apoio. Trata-se de pequenas cortes, com o “príncipe-sábio” no centro que, a terem cor, seriam escarlates, claro.
Em Portugal, pois, com raras excepções, não existe um processo fluido de conhecimento. O que existe é uma anomalia do corpo-pátria semelhante a varicela.
Não acredito que exista uma verdade única para as coisas. Acredito que os objectos e fenómenos são verdadeiros em si mesmos, são Tat, querendo isso dizer tudo e nada. Porém, isso não quer dizer que não possam existir tentativas para serem interpretados. A vivência do amor é diferente do escrever-se sobre o assunto. Mas quer Romeu e Julieta, quer Penélope tecendo de dia e destruindo à noite, são óptimas tentativas para nos aproximarmos do assunto. Não há uma única forma de amar pois isso constituiria um processo mecânico, não sendo, então, amor.
O que eu pretendo dizer é que existem muitas variantes de aproximação às coisas, existem muitas variantes da sua interpretação. O século XX, apesar de toda a destruição que conseguiu deixar nos livros de história, também conseguiu alcançar coisas muito boas. Geralmente é mostrado o desenvolvimento inegável da ciência. No entanto, todas as áreas ligadas ao conhecimento das artes, da cultura, da religião, do conhecimento humanístico, também alcançaram resultados igualmente extraordinários.
O que nós aprendemos com todas essas ideias é que não existe, de facto, uma verdade única para a interpretação das coisas. A terem uma verdade única, essa só poderá ser interpretada através do “silêncio cheio”. Estaremos nós preparados para isso enquanto civilização? Parece-me que não.
Por isso, alegremo-nos por termos Romeus e Julietas, Penélopes e Ulisses e tudo o mais que venha para nos ajudar a interpretarmo-nos como espécie, sabendo que, mais do que um monólito de pedra cerrada, somos uma torre imensa cheia de moinhos de papel, cada um de sua cor.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
13 DE JUNHO
Fernando Pessoa
Alexandra Pinto Rebelo
Fernando Pessoa foi o grande poeta do século XX. Esta minha afirmação, não pode deixar de ser um pouco injusta para todas as outras excelentes páginas de poesia escritas no século passado. Porém, é uma afirmação inteiramente justa para o próprio Pessoa e para a história da nossa literatura.
Depois de Camões nunca a poesia tinha alcançado tanto, assumindo-se o poeta como transmissor entre mundos, sabendo, ao mesmo tempo, elevar a poética a uma prática devocional comum entre os antigos, nunca esquecendo que, ao mesmo tempo, era moderno.
Este religar entre tempos parece um lugar comum, tornando pálido este texto, mas não o é (o texto, a ser pálido, sê-lo-á por outros motivos). Pessoa, na sua certeza de querer ser tudo, soube também ser passado e presente a um tempo. A maior parte dos poetas, não querendo abdicar de si, fogem a esta necessidade. Ou são só do seu tempo, o que é estranho, ou são só antigos, o que é absurdo.
A maior parte da poesia de Pessoa é oracular. Pessoa é o veículo sublimado, aquele que transmite e que sabe que transmite. Tem consciência do processo, envolvendo-se nele, conseguindo ser testemunha do que se passa, transmutando-se com isso. É o alquimista completo, expondo-nos o mundo em palavras entendíveis.
A poesia torna-se assim, um trabalho em êxtase de pasmo e medo. Silencia quando observa, retoma o seu labor quando tal é possível, fingindo sempre, que é como quem diz, passando pelo escrutínio da razão tudo o que foi sentido.
Escolhi um pequeno poema para ilustrar esta poética alquímica. Trata-se da “Ascenção de Vasco da Gama”. Aí, os antigos deuses gregos param a sua luta. No vale por onde se ascende aos céus, os deuses assistem à transmutação das formas que estão a receber, em ascese, a alma de Vasco da Gama. O pastor é o poeta-símbolo, a flauta, o seu instrumento de comunicação, ou seja, a escrita. O poeta está na terra, mas num local fronteira que lhe permite ver o céu abrir o seu abismo à alma do Argonauta. A sua flauta caí, em êxtase, a poesia não é possível nesse momento, só havendo lugar para o divino. Mas a poesia é retomada mais tarde, dando origem a este poema, falando daquilo de que seria impensável falar. O poeta, tomando Delfos como exemplo, é o oráculo e aquele que lhe coloca a questão, a pitonisa e o sacerdote que interpreta as comunicações em verso. Sendo todos os processos, o que é ele, senão o poeta-alquimista?
Ascensão de Vasco da Gama
Os deuses da tormenta e os gigantes da terra
Suspendem de repente o ódio da sua guerra
E pasmam. Pelo vale onde se ascende aos céus
Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus,
Primeiro um movimento e depois um assombro.
Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro,
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões.
Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta
Cai-lhe, e em êxtase vê, à luz de mil trovões,
O céu abrir o abismo à alma do Argonauta.
In Pessoa, Fernando, Mensagem, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007
domingo, 12 de junho de 2011
LANCES E RELANCES, 6
JORGE DE LIMA – EXPOENTE DA POESIA BRASILEIRA DO SÉC. XX
Por Eduardo Aroso
Jorge de Lima (1893-1953) nasceu em União, no Estado de Alagoas. Viveu em várias cidades, como Salvador, Maceió e Rio de Janeiro, para onde rumou, após perseguição política. Formou-se em Medicina, tendo recebido o grau de doutor, e exerceu cargos de carácter cívico. Em 1925 aderiu ao modernismo brasileiro.
A poesia completa de Jorge de Lima encontra-se reunida num único volume da Editora Nova Aguilar. Para além dos poemas, há todo um recheio precioso de textos como «Jorge de Lima visto por Jorge de Lima», onde abundam depoimentos e reflexões pessoais de vária índole, bem como panoramas sobre a poesia mundial.
«Aliás, parece que o que há, no Brasil, com os escritores, é um inexplicável medo de ser “eles mesmos”, sem premeditações nem compromissos. Muitos são os espécimes de homens de letras que traem a si mesmos, não tendo coragem de enfrentar a crítica, preferindo realizar coisas impessoais e informes» (…) «O poeta de ontem, de hoje e de amanhã é sempre revolucionário; o que não lhe impede de ser memorialista e transcender a própria memória».
Poeta, que conheceu Agostinho da Silva, do seu pendor religioso ele próprio nos diz da « … desejada renovação, já havendo compreendido que o plano mais elevado para isso seria uma poesia que se restaurasse em Cristo, que é a mais alta Poesia, a mais alta verdade».
Nestes dias de Pentecostes, é mister reler este belíssimo poema, a propósito do qual não posso, com saudade, deixar de aqui relatar este meu pormenor pessoal. Foi com grande regozijo que o li em Estremoz, na tarde de 18 de Maio de 2002, na ilustre presença de António Telmo e de sua esposa D. Maria Antónia, dos companheiros Raul Traveira e Manuela Azevedo, do Gresfoz, e dos amigos João M. Lopes Tavares e Roque N. Brás de Oliveira.
ESPÍRITO PARÁCLITO
Queima-me Língua de Fogo!
Sopra depois sobre as achas incendiadas
e espalha-as pelo mundo
para que a tua chama se propague!
Transforma-me em tuas brasas
para que eu queime também como tu queimas,
para que eu marque também como tu marcas!
Esfacela-me com tua tempestade,
Espírito violento e dulcíssimo,
e recompõe-me quando quiseres,
e cega-me para que os prodígios de Deus se realizem,
e ilumina-me para que tua glória se irradie!
Espírito, tu que és a boca de todas as sentenças,
toca-me para que os meus irmãos desconhecidos e
[longínquos e estranhos,
compreendam a minha fala para todos os ouvidos que criares!
Exceder-me-ei em meus limites,
crescerei em todas as distâncias,
serei a palavra transcendente, a profecia, a revelação e as
[realidades!
Devora-me, renova-me, ressurge-me em tua vontade criadora
diante da morte e diante do nada!
Aguça a minha intuição,
descansa em minhas pupilas,
agita a minha lentidão,
faze-me numeroso como tu,
cobre todo o meu corpo de pálpebras que espreitem todas as
[latitudes e longitudes
e expectativas e anunciações e partos e concepções
e gerações e séculos de séculos!
Ressurgirei de todos os ventres
e voarei no sentido da perpetuidade sobre as águas e sobre
[as terras!
Desata-me Espírito Paráclito! Corta os meus laços,
sopra a terra que há sobre a minha sepultura!
Enche-me de tua verdade e sagra-me teu moderno apóstolo!
Amo como poeta a forma com que te apresentaste
à assembleia do Cenáculo!
E sinto a tua presença,
a tua aproximação, a tua unção sobre a minha alma!
Dá-me tua fecundidade sobrenatural,
tua heroicidade e tua luz!
Unge-me teu sacerdote,
teu soldado, teu vinho, teu pão,
tua semente, tuas perspectivas!
Espírito Paráclito, dedo da direita do Pai,
soergue as minhas pálpebras descidas e sopra sobre
[elas o teu hálito e tua essência!
Espírito Paráclito, amo-te, com os meus cinco sentidos,
com a minha imaginação,
com a minha memória e com os outros dons poéticos
[e proféticos e reconstituidores
que ultrapassam minha espessa matéria e meu espírito
[translúcido!
Sou teu ramo de oliveira que trazes dos dilúvios constantes
da [humanidade
e cujo óleo ungirá os meus iguais e os desiguais do meu
[tamanho!
Espírito Paráclito, tu que és o único pássaro que desce sobre
[mim na minha noite untuosa,
fura os meus olhos para que eu veja mais,
para que eu penetre a unidade que tu és,
a liberdade que tu és,
a multiplicidade que tu és,
para eu subir da minha pequenez e me abater em ti!
JORGE DE LIMA (A Túnica Inconsútil)
sexta-feira, 10 de junho de 2011
EXTRAVAGÂNCIAS, 134
O dia 10 de Junho não é só de vez em quando
Cynthia Guimarães Taveira
Ouvi dizer que o Eng. José Sócrates tenciona ir para França durante um ano para estudar, imaginem, Filosofia. Agora? Só agora? Ainda por cima para França! Fiquei deveras espantada, o homem é, de facto, um desastre ambulante. Talvez volte de lá um ser bastante perigoso. Metade tecnocrata, metade positivista, e talvez, quem sabe, cheio de força e armas teóricas para prosseguir com o seu propósito final: ser um elemento empenhado em destruir qualquer indício, qualquer intenção, qualquer desejo que Portugal demonstre em continuar a sua Iniciação. E neste jogo de forças, vale tudo, até estudar filosofia! Primeiro, faz um curso de Engenheiro às três pancadas apenas pela pressa de continuar a sua carreira política e, no fim, depois de desgovernar toda a gente, medita sobre o seu próprio nome e entende que há algo de filosófico nele próprio.
Mas tudo isto levanta um problema fundamental da nossa classe política. Haverá algum político que conheça a matéria-prima com a qual trabalha? Com que matéria-prima trabalha um político? Resposta: com um povo. Há então algum político que conheça o seu povo? Que o conheça a sério pela voz daqueles que reflectem sobre ele?
Serei, porventura, bastante radical, mas um dia imaginei ser muito rica e, imaginei que, com esse Euromilhões gigante, compraria um palacete antigo. E, nesse palacete, instituiria uma Fundação dedicada aos estudos sobre Portugal: uma espécie de escola aberta mas com regras muito apertadas no que se refere a quem dirigiria tal Fundação. Essa Fundação teria como condição de existência, para lá da minha morte, a elaboração de vários núcleos de saber em diferentes partes do país e do mundo e teria, a parte mais difícil, uma exigência deixada no meu testamento: só poderia ser Presidente dessa Fundação alguém que passasse num teste escrito onde fosse avaliado o conhecimento de determinadas matérias sobre o nosso povo e sobre o nosso país.
Parei. Parei ainda mais. O que desejava, no fundo, é que quem nos governasse fosse assim. Tão simples, afinal.
Que político leu, sentiu e interiorizou as páginas que abaixo transcrevo de Dalila Pereira da Costa? Calculo que quase nenhum. São políticos das suas próprias ideias, se é que as têm, mas não são políticos ao serviço do seu povo porque nem o conhecem. Nem se conhecem a si próprios como o demonstra este acto final, radical e estrangeirado de Sócrates.
Deixo este texto de Dalila Pereira da Costa apenas como exemplo de uma meditação, muitos outros há, de muitos outros autores, e, como são muitos, levariam muito tempo a ser lidos, muitos 10 de Junho espalhados pelo ano inteiro… Desculpem o excerto ser grande, mas penso ser, este também, um grande dia.
Sobre as raízes que os povos celtas deixaram em Portugal, diz então Dalila:
“Entre essas raízes, apontemos primeiramente as que nos surgirão como de força negativa, como os seus defeitos particulares (e por herança directa, também dos portugueses); entre outras demais, a vaidade, ela como tendência à vanglória, ou fanfarronice e o gosto imoderado da sumptuosidade e ostentação; a preguiça; um entrega a estados prolongados de sono ou torpor, sobretudo depois de uma frustração ou derrota sofrida, que ela, nunca é aceite em humildade e coragem; um movimento na acção, em qualquer empresa ou luta, que se exerce somente em toda sua energia no primeiro momento, logo decaindo ou sendo abandonada, por falta de constância ou disciplina; gosto imoderado e prolongado de festas, banquetes, tomando formas extremas de orgia, gosto de longos discursos em retórica empolada e vazia; mas acima de tudo, porque de força máxima destruidora, essa tendência à anarquia, por dispersão de energias incontroladas, ela vinda desse exclusivo sentimento de individualidade, negando todo ou qualquer acatamento de autoridade estranho ao individuo ou grupo social, outrora como tribo; autoridade que agiria como força unificante de organização e coesão, levando a uma concepção de comunidade mais alta ou lata, como nação. E que entre os portugueses ao longo da sua história, seria efectuada pelos seus heróis. Tal no começo, a do rei Fundador, depois numa revolução, do santo, D. Nuno Álvares Pereira, ou nos Descobrimentos iniciada por outro seu herói, o Infante D. Henrique.
Anarquia que, como mal endémico dos celtas, os levou à derrota pelos romanos; e depois nos portugueses, à sua auto-derrota nestes dois últimos séculos e notadamente a partir das Lutas Liberais: como estado de desunião, com perda constante de energias, porque não disciplinadas e organizadas para um único fim em eficiente acção: o serviço da nação. Estado introduzido em imagem psíquica de dissociação de personalidade ou em imagem cósmica de caos primordial.
Entre essas outras raízes da alma dos celtas, que nos surgirão como de força positiva e benéfica, e que esperarão ser assumidas e desenvolvidas até às sua máximas possibilidades pelos portugueses, usando-as no seu ser e estar no mundo, em trânsito histórico e integrando-as assim na sua missão no mundo, como seu dever transcendente a eles particularmente incumbido, intransmissível e justificador da sua vida neste mundo - apontemos antes de mais o seu profundo sentido de liberdade e independência. (…) Seu profundo sentido de liberdade, levando-os outrora em momentos de luta contra esses inimigos, ameaçando essa liberdade, a sacrificarem sua própria vida e de seus parentes,(…) vida vista sem valor se caída em escravidão. (…)
A coragem e desprendimento perante a morte física de seu corpo, advindo aos celtas de sua concepção positiva da morte, como imortalidade da alma; morte vista assim, não como um aniquilamento, um fim da vida mas uma sua continuação noutro mundo, como sua outra fase: esta sendo de posse e usufruição eterna para cada homem. Sentido da morte, que por ela, marcará sua religião dessa dimensão inseparável escatológica; a morte sendo aceite no seu pleno sentido e meditada em confiança, como fase de perfeita realização da vida; esta, una, em metamorfose incessante, recriando-se ciclicamente, sempre em novas formas, de dinamismo por transmutação e regeneração.
Assim, também, o sentido que a morte terá unida ao amor, na cultura dos celtas, e que virá expressada no seu romance de Tristão e Isolda, e ainda na Menina e Moça, dos portugueses, ou em D. Pedro e D. Inês. (…)
E assim, também, o sentido do Outro Mundo, visto e vivido como paralelo, coetâneo e inseparável a este quotidiano e sensível. Este mundo e o outro, esta vida e a outra, fazendo parte duma única realidade a ser vivida em paixão exultante pelo homem; ser ainda este sentido unificante, a um tempo jubiloso e pânico, que marcará a relação do homem com a Natureza; realidade onde se sente imerso, conjuntamente com as plantas, os animais, os rios, as pedras, montes… em união tomando a forma dum incessante diálogo, ou monólogo numa projecção no Outro, e em metamorfoses, esta indo até ao extremo escatológico de metempsicose. (…)
Se ainda e finalmente apontamos esta força da imaginação, como uma das qualidades positivas e benéficas do povo celta, e sua possibilidade de por si apresentar e unir mundos aparentemente opostos, ou no apresentar e mostrar o transcendente e sobretudo o universo como todo vivente, dinâmico -, será para tornar bem presente o contraste da mundividência deste povo e nela a sua arte, com a nossa actual, criada e vivida existencial e teoricamente pelo Ocidente moderno: ela, toda abstracta e fria, unicamente imanente e estática, como expressão dum universo morto, cadavérico”.
Resumindo, o Eng. Sócrates devia ficar cá a aprender.
Dalila Pereira da Costa, “Corografia Sagrada”, Lello & Irmão - Editores, 1993, pág. 194 e seguintes.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
D. SEBASTIÃO
Veio do sul esse perfume
Dessa moura de véu alado
Veio do sul com a andorinha
Veio em nuvens no céu dado
Na praia do grande mar
Essa nuvem transbordou
Para cima e para baixo
Para o sonho não esperado
Peguei em armas pequei em ferros
Com um salto desvairado
Meti o freio nos dentes
Ao meu cavalo de pêlo raro
Voei por cima das montanhas
Voei por debaixo do mar
Voei longe e enfeitiçado
Só para a poder encontrar
Essa moura de alto porte
Era a guerra desejada
Eram terras de má sorte
Era a vida por um nada
Já fui rei em céu aberto
Já fui quem todos esperavam
Já fui morto em terra negra
Já sou sonho desbravado
Desbravado no futuro
É o meu corpo que há-de vir
Já sem nome, já sem espada
Apenas eu e o sol a luzir
E as faces que me esperam
Serão espelhos a brilhar
Serão luz no tempo eterno
Serão Deus a gargalhar
E a alegria será tanta
Que mais nada se ouvirá
Apenas os poetas a escrever
Esse riso que Deus dará
6-6-2011
Cynthia Guimarães Taveira
sábado, 4 de junho de 2011
SABEDORIA ANTIGA, 20
Cristianismo e Paganismo
Alexandra Pinto Rebelo
Nos primeiros tempos de cristianismo, o império romano assistiu a um conflito crescente entre a nova religião e as outras praticadas um pouco por toda a parte. A nova religião tomava para si o estatuto de ser a única verdadeira, tal como tinha acontecido antes com o judaísmo. Mas, se o judaísmo tinha conseguido manter-se como uma reserva religiosa, sem pretensões de se impôr fortemente fosse a quem fosse, o cristianismo tentava aquilo que parecia impossível: aniquilar o pensamento pagão fazendo aquilo que pensava ser uma prova constante da sua falácia.
Para os pagãos, o cristianismo, era uma visão a um tempo nova e abominável do mundo. Essas primeiras tentativas de evangelizar, eram semelhantes a um terrorismo religioso a que o mundo nunca tinha assistido. Era absurdo uma religião assumir-se como a única verdadeira, tomando todas as outras como falsas, acusando-as publicamente dessa falsidade. Para um pagão, a questão da verdade religiosa não se colocava. Todas as religiões eram verdadeiras, bastando-lhes para isso existir. Só os crentes poderiam avaliar os bons resultados da sua própria religião.
Os cristãos primitivos, à semelhança do que fazem hoje as Testemunhas de Jeová, levavam a Boa Nova aos lares romanos. Conhecemos o seu modo de operar através de vários relatos de romanos desesperados. Os cristãos esperavam que o dono da casa saísse para os seus afazeres, e então batiam à porta. Falavam com as mulheres romanas, com os seus filhos menores, com os escravos. Quando eram escutados, faziam com que a paz do lar fosse corrompida para sempre. Vários romanos proibiram que os seus abrissem a porta ou falassem com tais seres instigadores da desordem familiar.
Este conflito entre dois mundos tão distintos, não terminava entre os devotos de uma ou outra religião. Existia igualmente entre os cristãos recentemente convertidos ao cristianismo. Refiro-me, também, aos seus conflitos interiores, sendo por um lado cristão devotos e, por outro, seres humanos oriundos de uma cultura pagã. É que, por mais que a sua comunidade os apoiasse no seu caminho exclusivista, essa via impunha-lhes pôr de parte todos os dados culturais com os quais se tinham norteado até aí. Se algumas coisas eram relativamente fáceis, como o não adorar imagens, ou entrar em templos pagãos, outras eram por demais difíceis como, por exemplo, pôr de parte Homero, Platão, Cícero e toda uma cultura literária que sabiam ser excepcional.
Jerónimo dá-nos um testemunho de tal conflito. Sendo cristão, sabia que não podia haver nada de certo na literatura antiga. No entanto, os textos cristãos eram bem inferiores, em termos literários, aos escritos da literatura que ele tinha como obrigação de colocar de parte. Quando não resistia e pegava em Cícero ou Plauto, jejuava por penitência, chorando entre parágrafos, por se sentir completamente dividido. O seu sentimento de culpa cresceu de tal forma que Jerónima adoeceu, tomado por uma febre que lhe ia tirando a vida. O mesmo Jerónimo nos conta que, num sonho em delírio, sentiu-se invadido em êxtase e transportado diante do tribunal do juiz. Tendo sido interrogado sobre a sua profissão de fé, respondeu ser cristão ao que o juiz, severo, respondeu: “Mentes, tu és de Cícero e não cristão: onde está o teu tesouro, está também o teu coração.”*
In Rougier, Louis, O conflito entre o cristianismo primitivo e a civilização antiga, Lisboa, Vega, 1995
quinta-feira, 2 de junho de 2011
SOBRE OS CONTOS DE FADAS...
“Um dos autores que mais exaustivamente estudou estes problemas, Mircea Eliade [em Aspects do Mythe, cap. «Les mythes et les contes de fées»], considera que as versões populares dos contos maravilhosos, não são na realidade dessacralizantes. Tratam-se de «versões camufladas», que mantém os motivos míticos e iniciáticos arcaicos, muito embora disfarçando-os, mascarando-os, conservando as suas verdades profanas, mas ocultadas em vestes enganadoras.Esta «camuflagem» foi necessária devido à aparição ou à preponderância de novas religiões, nomeadamente do cristianismo, cioso da sua ortodoxia ou do seu catecismo. Realizou-se, aliás, de forma inconsciente, lentamente (e daí as sucessivas versões). O mitema, sublinhamos por nossa parte, enriqueceu-se, aliás, com os novos motivos do espírito cavaleiresco e cristão, produzindo-se uma síntese que nos transmite como que a memória da humanidade. Naturalmente pedagógica é esta transmissão gratuita e aliciante de um milenária sabedoria, caldeada de perdidas experiências ou de esquecidas revelações, vozes, descobertas, imagens simbólicas.
«Se os deuses não intervêm nos contos de fadas sob os seus próprios nomes», escreve Mircea Eliade, «os seus perfis distinguem-se ainda nas figuras dos protectores, dos adversários e dos companheiros dos heróis. Estão ‘camuflados’ ou, se quiserem, decaídos, mas continuam a desempenhar a sua função.»
A função a que se refere Eliade é rigorosamente iniciática, é constituída por uma série de provas que o protagonista deve vencer, e que o leitor ou o ouvinte acompanha simbolicamente, interiorizando-as. Função de extraordinária influência formativa sobre as crianças porque a transmissão penetra no psiquismo infantil por via inconsciente, unindo-se à disposição aperceptiva ou intuitiva da alma e despertando esse estrato enigmático a que C. G. Jung chamou inconsciente colectivo ou arcaico.
(…)
Sem dar por isso, o homem beneficia dessa iniciação imaginária, conservada nos contos de fadas, esta simbólica «passagem da nesciência da imaturidade à idade espiritual do adulto». O alcance pedagógico e até analógico do conto maravilhoso é pois diríamos que infinito - porque não se lhe pode opor um limite.
Álvaro Ribeiro foi o pensador que, entre nós, melhor e mais profundamente se apercebeu de tal alcance, em termos de difícil superação. Escreveu o filósofo (em A Razão Animada) que na educação das crianças «a imaginação deve preceder a intelecção». E logo a seguir: «A faculdade fabulatriz da alma da criança exerce-se pela produção de imagens fantasiosas, de vivências que se tornam narrativas para serem ludicamente representadas ou agidas.» Tal faculdade deve ser estimulada. «A cultura da imaginação é um factor psicoterápico muito indicado contra o medo, a agressividade e a vingança e portanto um nobre processo de promover nas crianças a maturidade emocional.»
Infelizmente, «a didáctica positivista, eliminando a imaginação tem por efeito inibir as formas de intelecção mais apropriadas ao estudo das humanidades, porque o adolescente sem abertura de alma para o fantástico, o prodigioso e o milagroso dificilmente realizará compreensão simpática da mentalidade dos outros povos, e mais dificilmente entenderá a gradativa alteração das culturas ao longo da história. A motivação dos actos humanos parecer-lhe-á em muito casos absurda, inverosímil, invenção de escritor, apenas porque não cabe nos quadros rígidos da antropologia positivista».
Para Álvaro Ribeiro, enfim, «o conto caracteriza-se pela presença colaborante ou neutralizante de seres sobrenaturais». E mesmo que os autores se vejam obrigados, ao escrever para adultos, a excluir «da narrativa literária o elemento mitológico, representado pelos anjos, pelas musas, pelas fadas, conforme as tradições, ou ainda pelas ideias platónicas, de mais livre curso em filosofia», hão-de «pelo menos aludir ao motor secreto da acção narrada usando de palavras adequadamente escolhidas para representar os conceitos humanos da necessidade, destino ou fado».
Em suma, o valor de todo o conto maravilhoso, «camuflagem» de um mito (Mircea Eliade) ou velada alusão a uma transcendente energia espiritual (Álvaro Ribeiro), é o de uma educação da psique, quer como caminho de maturidade e de saúde mental, quer como estímulo à imaginação, a uma imaginação que abre o acesso para verdades transcendentes à positividade do mundo sensível.”
António Quadros, “Memórias das Origens, Saudades do Futuro”, Publicações Europa-América, 1992, pág 100
segunda-feira, 30 de maio de 2011
LANCES E RELANCES, 5
UM ESTUDO PRECIOSO E LUMINOSO SOBRE O CULTO DO ESPÍRITO SANTO
DE MARIA ADELAIDE NETO SALVADO
Por Eduardo Aroso
Se todo o tempo é propício ao Espírito Santo, o que o calendário cosmológico e litúrgico agora nos aponta é um convite ao qual não podemos ficar indiferentes. Se não bastasse o medular motivo religioso, seria, no mínimo, a importância do tema situado nos meandros da História de Portugal, quiçá como agente do nosso destino enquanto nação. «O Culto do Espírito Santo em Terras da Beira Baixa – as longínquas raízes, de Maria Adelaide Neto Salvado, foi dado a público em 1998, com a chancela da editora Band, não significando a palavra o que, à primeira vista, pode indiciar, mas «o nome de divindade pré-romana cultuada nos espaços da Raia central ibérica» (…) e que «significaria atar, ligar, enlaçar, vincular». Assim, neste curioso pormenor editorial, não podemos deixar de observar que o sentido de enlaçar-se ou vincular-se se coaduna perfeitamente com a essência escatológica do Paráclito, omnipresente Consolador.
O livro contempla aspectos como o Espírito Santo nas palavras dos evangelistas, o respectivo culto nas primeiras comunidades cristãs – as heresias, focando a autora ainda os primeiros tempos do cristianismo peninsular, a diversidade das formas populares do culto na Beira Baixa, fazendo também uma incursão pelo cancioneiro poético tradicional. Referindo-se ao ambiente das primeiras comunidades cristãs, cita o cânone XLIII do primeiro Concílio peninsular de Elvira (300-306): «Temos por bem corrigir um mau costume, apoiados na autoridade das Escrituras. Todos celebremos o dia de Pentecostes, e se algum não o fizer, que seja assinalado como introdutor de nova heresia (in José Vives, Concílios Visigóticos e Hispano-Romanos)».
Lemos ainda neste capítulo que «nas práticas de ascese colectiva, os crentes priscilianistas diziam atingir o êxtase por acção do Espírito Santo». Priscilianismo que, considerado heresia, seria condenado no II Concílio de Toledo (397-400). Um aspecto, dir-se-ia menos previsível no âmbito popular deste estudo, em boa hora a autora o colocou. Aludindo a um romance muito popular na Idade Média, no qual o Espírito Santo teria descido sobre os cavaleiros do rei Artur, Maria Adelaide Neto Salvado interroga-se deste modo: «E não serão os jantares da véspera do Domingo do Espírito Santo, realizados nalgumas aldeias, reminiscências do acto propiciatório que os cristãos medievais realizavam para conseguir a mesma graça recebida pelos cavaleiros da Távola Redonda: a de que sobre eles descesse o Espírito Santo e neles despertasse o desejo profundo de buscar o caminho em direcção à Perfeição?»
Como não poderia deixar de ser, está presente nesta obra a acção da Rainha Santa Isabel, a partir de Alenquer, com a oficialização das Festas do Divino. Cremos que este é um dos momentos mais solenes daquilo a que António Quadros chama «O Projecto Áureo Português», tema que se integra na obra deste autor, em dois volumes, intitulada «Portugal, Razão e Mistério».
Em suma, «O Culto do Espírito Santo em Terras da Beira Baixa – as longínquas raízes», de 65 páginas e pequeno formato, não se assumindo exaustivo (pois resultou de uma conferência dada pela sua autora e professora), é, contudo, em nossa modesta opinião, um dos estudos mais esclarecedores e radicais deste culto na Beira Baixa e regiões adjacentes. O sentido do popular que a autora imprime criteriosamente na sua obra, é o de um popular não «popularucho», para onde tantas vezes é fácil resvalar. Dizemos popular ou talvez tradicional, pois a autora tem indubitavelmente a intenção de ir ao ponto mais fundo da raiz, dessa raiz incólume ao passar do tempo, o tradicional oculto e intocável que ainda vive, agora aparentemente morto, no coração do nosso Povo. No percurso pelo cancioneiro poético, destacamos a última quadra, da zona de Proença-a-Nova e Alpedrinha. Hoje, dolorosamente conscientes de que em não muitos momentos da nossa História semelhantes ao actual, ela tem sido tão verdadeira. Por isso, leiamo-la como verso e oração:
Divino Espírito Santo
Que lá ‘stais nessas alturas,
Dai-nos luz aos nossos olhos
Já que estamos às escuras.
quinta-feira, 26 de maio de 2011
SABEDORIA ANTIGA, 19
O caminho intelectual para a Índia
Alexandra Pinto Rebelo
1498 conta-se entre as datas mais simpáticas para o povo português. Vasco da Gama chega à Índia. O ter chegado à Índia não constitui um feito por si só. Antes dele Alexandre ou os muçulmanos já tinham inscrito as suas viagens, e influências, nas páginas da história daquele enorme país.
O que tornou a viagem de Gama diferente foi o facto de ter sido realizada por mar o que, em linguagem científica da época, significava uma coisa extremamente importante: a rapidez. Gama, ficou célebre, então, por ter ligado, tão rapidamente quanto possível para a época, as culturas marcantes da Europa de então à Índia. Ou se quisermos, o Ocidente ao Oriente.
Para nós, hoje em dia, esse feito tem uma importância mais profunda em termos dos mitos que fomos capazes de gerar sobre o assunto, do que propriamente pela sua importância real. Se, presentemente, já se faz a coisa de avião, gastando apenas algumas horas, isso quer dizer que a epopeia do Gama ficou uma coisa datada, com importância apenas quando se fala de história, mas sem importância nenhuma para os tempos que vivemos. Se já temos antibióticos super potentes, quem vai dar importância às sanguessugas que chuparam milhões de litros de sangue aos infelizes que ficaram doentes no seu tempo?
Mas os orientais, permitam-me que assim os chame de uma forma incorrecta, é certo, mas terrivelmente económica, não se esquecem da viagem do Gama. Em diversos pontos do mundo, ao perceberem que eu vinha deste cantinho, já me disseram, sempre em voz alta “Gama”, “Gama”. Aquele nome, assim retirado das mitologias com que me o ensinaram a envolver, sempre me soou a qualquer coisa estranha. Sempre me limitei a sorrir e a responder com o mesmo nome “Gama”, “Gama”, não fazendo ideia do que estava a dizer. Isto pode parecer confuso, mas não é. Eu sei o que quero dizer quando digo a palavra Gama num contexto português. Mas o que quererá dizer a palavra Gama, quando pronunciada por um oriental? Será isso bom, ou mau? Parece-me, ao menos que, se repetir a palavra, o outro entenderá que estou a sublinhar o seu pensamento.
Será que o sublinho? Possivelmente. Possivelmente, sublinharei todos, ou quase todos, os pensamentos que se possam ter sobre o Gama, ou de alguma forma, sobre as reacções que a sua viagem causou. É óbvio, que prefiro sublinhar Os Lusíadas. É a grande epopeia do seu tempo, sem dúvida, mantendo-se como o grande livro nacional até hoje. Nenhuma tempestade educacional conseguiu retirar aquilo dos nossos programas de estudo. Os Lusíadas são as nossas pirâmides monumentais e eternas.
Mas também consigo compreender a posição dos outros. Daqueles que se sentiram invadidos pelas viagens inesperadas que colocavam seres estranhos nas suas costas marítimas de um momento para o outro, terminando-lhes com o sossego de serem indianos e de gostarem disso.
Compreendo o insulto de serem incomodados por uma cultura que nunca fez grande esforço para os compreender. Este insulto, se nós soubermos ser humildes, deve também estender-se a nós mesmos, àquilo que poderíamos ter feito e não ofizemos nem o fazemos.
Para além da glória de termos descoberto o caminho marítimo para a Índia, devíamos, igualmente, ter tido a glória da descoberta do caminho intelectual para lá. Quero com isto dizer que, Portugal, pela sua posição privilegiada, pela amizade, até, que soube fazer com aqueles povos, poderia ter-se dedicado ao estudo dos seus textos, das suas tradições, formando ilhas bem aventuradas de saber.
Poderíamos ser um dos países ocidentais com mais especialistas nas áreas humanistas ligados àqueles povos, poderíamos ser uma referência a nível mundial (segundo o palavreado sem sabor desta época), mas nada disso aconteceu ou acontece.
Na Índia há uma lenda muito conhecida sobre Brahma, o criador do mundo. Brahma, criou a sua companheira, Sarasvati. Apaixonou-se por ela e imediatamente lhe lançou olhares fogosos. Sarasvati ficou assustada. Tentou fugir dele para cada um dos pontos cardeais mas, para onde quer que fosse, Brahma desenvolvia uma nova cabeça para a ver. Até que Sarasvati foi para o céu e o deus desenvolveu a sua quinta cabeça, olhando para cima.
Quem sabe a data de cór, 1498, deve também saber lendas como esta, compreendendo a sua profundidade e sabedoria. É a única forma destes números fazerem um sentido, transformando todas as rotas em bons sentidos.
É que, ao contrário do que afirmou Pessoa, não ficámos desempregados a partir do momento em que descobrimos a Índia. Pelo contrário, criaram-se inúmeras oportunidades intelectuais, quase todas elas deixadas vagas até hoje. Por isso, quando me voltarem a dizer “Gama”, “Gama”, vou continuar a responder em eco. Seja lá o que isso for, esperando, ao mesmo tempo, que isso seja tudo.
terça-feira, 24 de maio de 2011
EXTRAVAGÂNCIAS, 133
O Império com pés de ouro
Cynthia Guimarães Taveira
Não se trata de salvar o mundo, trata-se, tão somente, de tentar reflectir com o coração para fazer as coisas bem.
Todos os Impérios político-económicos caíram. Apercebendo-se disso, Fernando Pessoa criou a ideia de um novo Império: o Império cultural. Nada que os Estados Unidos da América não tenham percebido logo no início do século XX. O que os EUA fizeram, e continuam a fazer, foi exportar um modo de vida, por via da indústria cinematográfica, para a Europa e para todos os continentes predispostos a serem evangelizados por ideias maniqueístas com laivos de comédias musicais românticas e autocrítica suficiente para sossegar qualquer tentativa de rebelião face à cultura evangelizadora: westerns e policiais para o jogo maniqueísta entre o bem e o mal, comédias românticas para o jogo dos afectos, filmes politicamente incorrectos com a crítica, quanto baste, ao estilo de vida e vícios americanos, para o jogo político que é necessário manter a qualquer custo. As empresas americanas entraram na Europa por via da cultura. A globalização foi a consequência desse Império político-económico com as roupagens do "american way of life".
Cá em Portugal alguns espíritos ainda com ideias medievais, coloridas por pinceladas milenaristas e uma fé transversal aos tempos, fazem subsistir, ainda hoje, a esperança, não num Império cultural, mas num Império do Espírito Santo. O caminho para se chegar a esse império só pode ser feito por via cultural, sem o factor “Império político-económico” como motor de arranque, porque esse factor, quando isolado, como todos sabemos, está condenado ao desaparecimento.
A ideia de Império é uma ideia natural, mas a sua origem é, bem lá no fundo, religiosa. Por dois motivos: a Criação é uma espécie de expansão, o resultado de um excesso, de um extravasar de qualquer coisa, seja do amor, seja da vida. A origem da vida é naturalmente Imperial: ela surge de algo que “tem a mais” para preencher algo que está vazio. As mulheres conhecem naturalmente esta dialéctica que está no seu próprio ventre e os homens conhecem também esse “excesso” nas sementes fecundantes que guardam: neste sentido, a criação e a criatividade existentes na natureza e na natureza humana são tão somente espelhos da grande Criação divina. Não vale a pena negar a Ideia de Império, pois ela é a génese de tudo: naturalmente há um big bang, toda a semente contém o Império da planta, toda a cria contém o Império do seu ser adulto.
Sabendo de antemão o poder dado pela cultura, dizia há pouco que a América, de uma maneira inteligente, usou e abusou desse poder, mas os propósitos estavam mais uma vez errados, pois os poderes materialistas como causa principal e final não possuem nem qualidade nem tempo de vida eternos. A Europa foi desmemoriada pela América da sua própria cultura e as grandes marcas tornaram-se o sonho europeu de globalização. Mas há um pequeno problema de fronteiras e de diversidade numa Europa que, como diz uma amiga minha, é apenas uma convenção: onde começa e acaba a Europa? Será que a Europa como todo cultural existe? O problema da Europa é que esta não era uma América povoada por alguns índios. Era um território povoado por uma variedade de culturas, por uma variedade de fronteiras, até mesmo naturais, que custaram muitas guerras e muitas vidas nas tentativas de decisão das identidades. A América fez-se a si própria, é um “self made country”, a Europa descobre-se a si própria, como se esta fosse constituída por inúmeros arquétipos sociais, culturais e religiosos. A descoberta pressupõe uma origem, a construção pressupõe uma conclusão.
A falta de jeito europeia para se constituir como potência político- económica reside no facto de ter cultura e diversidade a mais: há uma intuição europeia daquilo que constituí o verdadeiro Império - ele só pode ser cultural, caminhando para o espiritual. Nunca poderá ser apenas político nem económico devido à diversidade de culturas. No entanto, a economia e a política fazem parte da cultura, sem dúvida, mas são apenas elementos dela e, como elementos que são, deveriam ser tratados como especificidades.
No tempo de D. Dinis foram criadas as cortes itinerantes: a resposta mais inteligente ao problema da diversidade - a corte deixou de estar no singular para estar no plural. Não deixando de ser una, tornou-se em simultâneo múltipla pela sabedoria da especificidade de cada região.
Estes novos movimentos de cidadãos jovens, e não só, que acampam nas Portas do Sol à espera de um contrato de trabalho, estão agora com uma intuição parecida. Visam criar grupos de cidadãos que possam intervir de forma directa nas decisões políticas. A neutra Suiça (às vezes tão neutra que se torna entediante ou mesmo exasperante) já experimentou a democracia directa: a sua geografia permitiu a existência desta forma de poder; os cantões governavam-se pelos votos, acordos e desacordos dos seus próprios cidadãos.
A louca tentativa da Europa de abolir fronteiras e de aceitar a globalização como o melhor dos mundos, assim de chofre, pode, pela falta de conhecimento das suas origens, originar os nacionalismos, os fascismos, as ditaduras. É a resposta natural ao sufoco de um Império cultural, político e económico cujo modelo é americano e o desejo imperial continua a resistir e a residir nas grandes potências económicas europeias: a Espanha (que não sendo uma grande potência contém em si esse germe imperial político e económico), a Inglaterra, a França, a Alemanha e o já muito adormecido germe holandês, adormecido por via de uma prática de abertura ao outro, ao estrangeiro, bem como à lição retirada da Segunda Guerra Mundial.
O desejo Imperial é legitimo porque é natural. No caso humano é um desejo natural que caminha para o sobrenatural. No entanto, ele só se cumprirá quando forem respeitadas as fronteiras culturais: respeitadas e desenvolvidas, sem que estas se fechem sobre si próprias e assim estagnem, mas que estejam abertas às outras sem, no entanto, se diluírem nelas pelo factor desesperante da política e da economia. A globalização é diabólica, porque, sob o manto da beatitude do conforto tecnológico, mata este impulso natural de regressar a um tempo perdido. O mito do eterno retorno está sempre presente, pois, como bem observou Mircea Eliade, basta haver o sol e a lua para que os ciclos estejam presentes no imaginário humano.
A Europa sem a sua cultura e sem a sua diversidade é frágil, porque não tem alma. A Europa que põe os interesses económicos à frente dos humanistas é insegura como o euro. A moeda é tão somente um reflexo cultural. O facto de perdermos o escudo levou-nos a perder algo que nos defendia. Curioso nome que arranjamos para a nossa moeda.
Os povos só se podem entender por vida da cultura e das trocas culturais: a economia e a política são meras consequências disso. No entanto, só podem existir trocas culturais se existirem culturas. Uma só cultura impede a troca. Já não há nada para trocar. Quando se fala em Império Cultural, fala-se de trocas, de saberes, de conhecimentos, de aprofundamentos. Fala-se de sabedoria e esta é composta pelo conhecimento do diverso e apenas por esse conhecimento se atingirá o Uno sobrenatural tão desejado. Quanto ao Espírito Santo, quando esse nos invade, ele é Uno, Igual para todos, e aí sim, assistimos ao verdadeiro Império com pés de Ouro.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
NA QUARTA-FEIRA...
CONGEMINAÇÕES
Congeminações - I Ciclo de estudos em homenagem a António Telmo, subordinado ao tema "Ortodoxia e livre-pensamento" continua no próximo sábado, 28, pelas 15 horas, na Biblioteca Municipal de Sesimbra, estendendo-se até Novembro.
O programa de sábado é o seguinte:
- Apresentação do livro Os Pecados da Rainha Santa Isabel (Ésquilo), de António Cândido Franco, por Isabel Xavier
- Conferência: António Telmo, pensador gibelino, por António Cândido Franco
- Conferência: Hialodoxia, por Rodrigo Sobral Cunha
O programa de sábado é o seguinte:
- Apresentação do livro Os Pecados da Rainha Santa Isabel (Ésquilo), de António Cândido Franco, por Isabel Xavier
- Conferência: António Telmo, pensador gibelino, por António Cândido Franco
- Conferência: Hialodoxia, por Rodrigo Sobral Cunha
domingo, 22 de maio de 2011
LANCES E RELANCES, 4
«CRISE NA IGREJA» (!)
Eduardo Aroso
«Nós os vencidos do catolicismo
Nós os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana
Nós que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos
Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana
Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos o jogamos
«Meu deus meu deus porque me abandonaste?»
(Ruy Belo «A solidão dos filhos de Deus» )
«Crise na Igreja». Três palavras enormes. Li-as numa das paredes exteriores de um templo, como anúncio de encontro/colóquio. Algo surgiu em mim instantaneamente, embora esta palavra seja pouco propícia ao pensamento filosófico ou reflexivo. Todavia, o instantâneo pode não ser intuição, faculdade esta a que Bergson deu bastante luz e revestiu de uma mais alta compreensão, sobretudo no mundo académico.
O meu coração, intuitivamente, só não se amargurou por saber que Deus não tem crise e, assim, a frase só pode espelhar a crise da Igreja enquanto instituição, coisa aliás de importância secundária.
A crise na Igreja pode ser sintoma de um modo de ser que oscila entre a conveniência da moda e o que, ao invés de ser afastado, urge doutrinalmente aproximar do público, pelo menos daquele que mostre inclinação para tal. Se assim não for, quanto a este último ponto, teremos muita ênfase na instituição e pouca no «corpo espiritual» de que falava S. Paulo, muito embora ele lá esteja, perene, irradiante e irradiando.
Este quadro, o da crise da Igreja como instituição (ou de qualquer escola de pensamento onde há, de facto, espírito) deve por certo ser considerado como, de tempos a tempos, cuidamos da nossa casa e porventura a arrumamos de modo diferente. Mas numa crise (!) da Igreja enquanto «ecclesia » ou «corpo místico», que está nos antípodas do efémero, só podemos admitir o absurdo de que o Criador está afectado também pela dita crise! Deus está entre e para além do primeiro e do último suspiro. Agostinho da Silva disse haver pessoas que, por tanto atribuírem importância ao diabo, acabam por desvalorizar Deus, expressão que pode ilustrar, com o humor sério e profundo do saudoso professor, o tema deste pequeno artigo.
Os modos de pensar e agir automáticos tomaram conta da sociedade, até em sectores onde era suposto não dever acontecer, dado o carácter intrínseco de permanência em grau considerável que doutrina e filosofia possuem, realidade que não choca com a frase camoniana «o mundo é composto de mudança», se interpretada no devido ponto. A verdade é que as grandes provas são, antes de mais, lançadas aos guardiões do sentido sagrado da Palavra, e só depois aos que a escutam. O Mestre sabia do que falava quando lançou o repto a Pedro que, afirmando sempre que jamais negaria o seu Senhor, acabou por negá-lo, por mais que uma vez. Afinal, tudo são passos no caminho da realização.
Sabemos que a crise portuguesa, no seu mais profundo sentido, tem pouco a ver com os últimos anos de governos e desgovernos, mas que é o desfecho irreversível de um ciclo que se iniciou com o Marquês de Pombal e que agora agoniza em toda a diversidade das instituições, realidade histórica esta que Joaquim Domingues, com o rigor que lhe assiste, tem assinalado nos últimos tempos. Quem se considera na medula da crise fica apenas na instituição ou ao sabor do mercado, ou então, internamente, é impelido a uma reviravolta (se a sua consciência o mortificar), e aí temos o sentido grego de crise como crescimento. Ou então há que escutar de novo «Bem -aventurados os que têm fome e sede de justiça».
Crise na Igreja ou Crise da Igreja? Crise da filosofia ou crise na filosofia? Crise da poesia ou crise na poesia? Um pretenso pensador internamente desorganizado não invalida a irradiância de um corpo de ideias estruturado; versos brejeiros não anulam um sublime poema de amor. Como os limos que crescem e se agarram às paredes húmidas, ao longo da História também os milenarismos têm agarrado conceitos diversos. No que actualmente vivemos, espera-se que não seja nenhuma teoria económica a salvar doutrinas religiosas, filosofias e artes.
terça-feira, 17 de maio de 2011
O PARAÍSO
Senhoras e Senhoras, Vinicius de Moraes, apresenta: o paraíso.
Sintam cada linha do verso como se fosse a vossa vida e vejam como as coisas podiam ser simples, magníficas, com um sopro de frescura atravessando os seres e sem o peso dos tempos. Ainda temos muito a aprender com os trópicos.
Uma tarde em Itapuã
Um velho calção de banho
O dia pra vadiar
Um mar que não tem tamanho
E um arco-íris no ar
Depois na praça Caymmi
Sentir preguiça no corpo
E numa esteira de vime
Beber uma água de coco
É bom
Passar uma tarde em Itapuã
Ao sol que arde em Itapuã
Ouvindo o mar de Itapuã
Falar de amor em Itapuã
Enquanto o mar inaugura
Um verde novinho em folha
Argumentar com doçura
Com uma cachaça de rolha
E com o olhar esquecido
No encontro de céu e mar
Bem devagar ir sentindo
A terra toda a rodar
É bom
Passar uma tarde em Itapuã
Ao sol que arde em Itapuã
Ouvindo o mar de Itapuã
Falar de amor em Itapuã
Depois sentir o arrepio
Do vento que a noite traz
E o diz-que-diz-que macio
Que brota dos coqueirais
E nos espaços serenos
Sem ontem nem amanhã
Dormir nos braços morenos
Da lua de Itapuã
É bom
Passar uma tarde em Itapuã
Ao sol que arde em Itapuã
Ouvindo o mar de Itapuã
Falar de amor em Itapuã
domingo, 15 de maio de 2011
SABEDORIA ANTIGA, 18
De tempos a tempos
Alexandra Pinto Rebelo
De tempos a tempos, surge um mal estar entre as pessoas comuns e a minoria que as governa. Sempre assim foi e, possivelmente, sempre assim será.
Diferente tem sido a forma das pessoas comuns lidarem com isso.
Hoje em dia, por exemplo, os estados modernos formataram o nosso ímpeto político através do conceito de voto. O conceito não está mal pensado. De quatro em quatro anos, ou de cinco em cinco anos, vamos às urnas dar uma espécie de opinião. O voto apenas pode constituir uma espécie de opinião pois, votar em A ou em B, é apenas cumprimentarmos a nossa própria resignação em relação às coisas.
Se tentarmos entender aquilo que se passa, facilmente chegaremos à conclusão de que, os estados europeus, sobretudo os do sul da Europa, chegaram a formas de governo extraordinariamente perversas.
Existem dois grandes grandes partidos com um entendimento entre si de rotatividade do poder. A espera pode ser maior ou menor, quatro ou oito anos, mas o partido que foi o menos votado de ambos tem como certo a tomada dos destinos do país proximamente. Essa espera nem é totalmente desprovida de emoção ou compensação já que, pode-se atacar politicamente o outro partido que governa, enquanto se é compensado com cargos em empresas públicas ou privadas.
O nosso voto tem, desta forma, um único papel. Um papel importantíssimo, não pelos motivos que nos dizem, a nossa opinião contar, mas pela razão de validar esta forma de poder, este entendimento entre partidos.
A democracia não é isto. Isto é o retrato de um monstro mitológico, seja ele qual for, com duas cabeças. De tempos a tempos, vamos dar-lhe o nosso voto, como dantes se levavam jovens ao Minotauro, tentando mantê-lo contente. Sim, é preferível um inferno conhecido a qualquer outro que não se conheça.
Dizia-me o Professor António Feijó que, na América, a democracia funciona mesmo. Se pessoas excessivamente obesas têm dificuldade em passar por portas com medidas standartizadas, eles fazem um abaixo assinado, entregam-no, e o problema é resolvido. Lembro-me de que, quando ouvi este exemplo, pensei “Ah! Então é com isto que se parece a democracia”.
Existirão formas de escapar a esta falácia em que vivemos? Talvez. No entanto, não acredito em revoluções mas apenas na imaginação política. As revoluções são o desespero levado a uma forma de histeria, atacando culpados e inocentes, justificando o caos com uma necessidade arquetipal de justiça.
Nos primeiros tempos de Roma, os plebeus tinham muito poucos direitos quando comparados com os patrícios. Foram feitos vários pedidos para aumentar esses direitos, pedidos esses que não deram em nada. Então, alguém teve aquele toque de imaginação que é raro existir e mais raro ainda ser aplicado. Os plebeus emigraram em massa de Roma e foram instalar-se num local chamado Monte Sacro, perto do rio Anio, com o propósito de fundar ali uma nova cidade, com uma nova política. A cidade de Roma não poderia nunca funcionar sem eles, claro. Por isso, foram enviados emissários, por parte dos patrícios, com a promessa de criação de dois cargos de tribunos da plebe, cuja função seria zelar para que estes não sofressem de abusos de poder. A proposta foi aceite pelos plebeus e assim, regressaram à sua cidade.
Hoje em dia, mais do que nunca, é necessário pensarmos em qualquer coisa semelhante...
EXTRAVAGÂNCIAS, 133
A PRÁTICA DAS PALAVRAS
Cynthia Guimarães Taveira
Primeiro, os monges medievais temiam o seu Deus, temiam a sua punição, a sua justiça-relâmpago e, esse Deus, era como a própria terra: estava no centro do Universo.
Depois, vieram os homens da renascença e disseram: - É o Sol que está no centro do Universo, não a terra, e esse Sol somos nós. O homem é o centro.
Depois veio o papão, e esse papão era tão grande, tão disforme, tão sem-cabeça que o diabo, que havia sido enfraquecido já na Renascença, fugiu. Esse papão é a própria humanidade.
Entrevista de Manuel Luís Goucha a Medina Carreira. Diz o Goucha, depois do discurso confrangedor de Medina:
- Mas então, depois do que me disse, saio daqui sem esperança.
Resposta:
- Mas não saia, Manuel Luís, não saia. Esperança no colectivo não vale a pena ter. Mas tenha esperança no seu percurso individual.
Pois é, pois é, habituámo-nos a uma visão holística de nós próprios: já não nos vemos fora do colectivo, somos nós e as mulheres maltratadas pelos talibãs, somos nós e, ao mesmo tempo, somos as crianças guerrilheiras africanas, nós de barriga cheia mas também a fome assassina, nós e a peste, nós e a guerra, nós e a morte dos outros que vivemos como nossa. Quem precisa de um demónio se os fantasmas reais nos habitam?
É impossível permanecer completamente humano face à dimensão do drama colectivo: almoçamos bem, mas sabemos que há crianças a morrer a cada minuto por não terem almoço; temos um hospital à disposição e, dentro de nós, alguém morre com uma simples infecção; olhamos com ternura os nossos filhos que dormem, mas há um deles, que vive algures dentro do nosso coração-consciência, que pega numa arma e percorre o mato; acordamos de pijama e dirigimo-nos ao duche quente e saboroso e, no nosso interior, alguém tomba com um tiro. É o papão da humanidade que nos percorre como um arrepio permanente. Vivemos arrepiados de terror e, quando o terror é de mais, há um grito em surdina e monocórdico que faz barulho, de tal maneira que nos ensurdece: o grito da justiça. De tanto gritarmos interiormente por justiça já nem ouvimos o próprio grito. E um mundo surdo não se resolve. E assim agonia.
A solução de Medina Carreira é o regresso à selva. Ou isso ou a loucura da impotência. Uma selva de esperança individualista, como a leoa tem esperança numa boa caçada, num bom percurso pela savana, num bom olhar atento e num bom salto sobre a presa, numa boa resolução da sua própria sobrevivência.
A solução está em tornarmo-nos bichos fixados em nós. Desumanizarmo-nos se não queremos enlouquecer. A humanidade não tem salvação, mas nós temos. E até a caridade é um consolo para a alma: fazemos caridade para nos sentirmos bem; desculpabilizamo-nos, assim, da culpa de não sabermos resgatar a humanidade do sofrimento contínuo. Frequentemente se ouve dizer: - Gosto muito mais de dar do que receber. Ou: - Não há nada tão compensador como ajudar o próximo. Ou: - Ganhamos muito mais quando ajudamos do que quando fechamos os olhos e somos indiferentes. A caridade transforma-se num jogo de compensações e a conclusão a que se chega é de um egoísmo retorcido e atroz: afinal somos os grandes vencedores desse estender a mão ao próximo. Há alguns anos, António Alçada Baptista alertava para esse jogo perverso: nas aldeias havia sempre um pobre. Ele era a justificação da caridade das famílias e era mantido pobre para que as famílias pudessem ser consideradas caridosas e assim tivessem um lugar no paraíso celeste. Enquanto existirem maltratados pela vida há céu, enquanto isso existir há esperança. E assim se perde no caminho o sentido de justiça que deveria prevalecer acima do bem e do mal.
Não é em vão que a Bíblia fala num Juízo Final e não num Bem ou Mal Final. Não é a caridade que substitui a Justiça. Daí não conseguirmos separarmo-nos do mundo. Contemos a Justiça dentro de nós como parte integrante da nossa dimensão divina. A Justiça pode conter a caridade ou não. Contemos a Justiça dentro de nós assim como contemos o mundo, e a esperança individual passa sempre pela esperança no outro. Sem ele somos nada e vazios.
A economia a mais também tem os seus perigos. No desespero economicista tornamo-nos individualistas e caridosos. A caridade devia ser substituída pela generosidade.
A generosidade dá e esquece que deu. A caridade não esquece. A generosidade partilha, a caridade é uma falsa partilha, pois quem é caridoso fica sempre a ganhar em termos morais. A pessoa generosa dá até a quem não precisa. A caridade implica carência. A generosidade implica abundância. Nas sociedades tradicionais, as festas eram feitas para esgotar a abundância das colheitas. Nas sociedades modernas pratica-se a caridade para disfarçar a falta de colheitas. A própria natureza sabe ser generosa, mas não sabe ser caridosa.
Há uma diferença pequena entre as duas palavras, mas ela é tudo: é nessa pequena diferença que reside o futuro da humanidade. E então, enfim, entraremos no reino da Justiça.
quinta-feira, 12 de maio de 2011
ENTENDENDO AGOSTINHO
Roberto Costa Pinho*
Agostinho e o seu Mistério
Veni Creator Spiritus
Ao contrário daqueles artistas e pensadores cuja vida nega a obra, com Agostinho da Silva dá-se o oposto: a obra só pode ser plenamente compreendida se estiver iluminada pela totalidade da existência. Sua vida confirma e transcende sua obra. A poesia, diria melhor, a utopia que orienta tanto sua ação quanto seu pensamento está solidamente ancorada numa Ética infalível, que pode ser encontrada até nos momentos mais prosaicos da sua vida. A ética, para o cavaleiro Agostinho, era a excalibur com que combatia na sua saga em busca do seu santo graal.
Por ser o símbolo a linguagem que transcende a dualidade verbal, não é possível falar de Agostinho, sendo a unidade que ele é, a não ser em termos simbólicos, a não ser que aceitemos que ao final de sua mensagem ele encanta-se, isto é, transforma-se num símbolo.
Para entendermos este símbolo em que Agostinho se transforma, precisamos daquelas cinco qualidades fundamentais de que fala o Pessoa, sem as quais será inútil interpretá-lo.
Um símbolo é formado por muitos outros símbolos. Agostinho é uma coleção de símbolos a serem interpretados isoladamente, pois cada um tem seu significado, e em conjunto, pois ao unirem-se formam um símbolo único, com significado distinto.
Pensador, filósofo, poeta, político, professor, guia, profeta. Quantos símbolos, quantas faces, quantas existências simultâneas se expressam para formar Agostinho da Silva. Alguma é a dominante? Não. Não é possível compreender a unidade que tal diversidade compõe deixando qualquer delas de lado.
"A verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa".
Por tudo isso, interessa-me em Agostinho o irredutível, o inclassificável, o misterioso.
Agostinho, porém, não tem mistérios!
Bem, este é o seu Mistério! Proponho-me, não a decifrá-lo - correria o risco de ser devorado, como assisti a tantos o serem ao tentar - mas a vivê-lo.
O Espírito Santo - Shekinah é o selo, a cifra, o signo, a chave. Uma chave, não para entender, mas para viver o Agostinho. Trata-se de viver e não de morrer o Agostinho.
Poderemos crucificá-lo no espaço-tempo dos bustos e das biografias ilustres de letras e imagens perecíveis. Ou com ele ascender, transcender, nas asas da sua obra e da sua vida existencial: imortal sempre que vivenciada por nós.
14.05.2005
Véspera de Pentecostes
*Brasileiro, baiano, trabalhou e conviveu com o Professor Agostinho da Silva ao longo de dez anos, na Bahia, em Brasília e em Portugal. Participou da instalação e em projetos do Centro de Estudos Afro-Orientais, do Centro Brasileiro de Estudos Portugueses, do Museu Atlântico Sul, da Casa Reitor Edgard Santos e outros, mas, sobretudo, durante todos esses anos, no Brasil e em Portugal, e até a morte do Professor Agostinho da Silva, manteve, com o mesmo, uma relação, ao estilo tradicional, mestre-discípulo, que determinou em grande parte sua formação e seus interesses existenciais.
Texto recolhido da obra IN MEMORIAM de AGOSTINHO DA SILVA (Portugal: Zéfiro, 2006, p. 403-404).
quarta-feira, 11 de maio de 2011
O AMOR E A IMORTALIDADE
Na imagem: Pedro e Inês
(Canção Tradicional Portuguesa)
Quando eu era pequenino
Acabado de nascer
Ainda mal abria os olhosJá eram para te ver
Quando eu já for velhinho
Acabado de morrer
Olha bem para os meus olhos
Sem vida hão-de te ver
domingo, 8 de maio de 2011
LANCES E RELANCES, 3
PORTUGAL ÀS ESCURAS
Eduardo Aroso
Na noite de sete para oito de Maio, passava eu acompanhado de uns amigos na estrada mesmo em frente do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, vulgo Mosteiro da Batalha, quando fui acometido de um súbito mal-estar, desses que não devem estar catalogados nos compêndios de medicina, mas que ainda existem (digo felizmente) em Portugal. Tinha eu sugerido ao condutor do automóvel para abrandar a marcha, já que àquela hora da noite o trânsito era quase nulo, não pondo, por isso, em perigo a manobra progressiva de abrandamento do veículo. Preparávamo-nos para esse olhar que é um olhar que não cansa: contemplar a fachada principal do Mosteiro, porventura o mais emblemático da nossa independência e soberania. Mas – oh, luminoso Arcanjo Miguel! – o monumento estava completamente às escuras! Deprimente panorama. Visão que tudo amesquinha: o espaço ao redor, quem vê e certamente quem é responsável pela situação. Parece não haver um ou dois holofotes para ali colocar, retirados de onde, tantas vezes, abundam em excesso para clarear lantejoulas fúteis.
Portugal só não está todo o santo dia às escuras porque temos a graça do sol, por cujos benefícios nenhuma EDP nos pode cobrar o que quer que seja. Todavia – e isto não é menos grave, devendo perdurar depois de pagos os juros da dita dívida – num outro sentido estamos as vinte e quatro horas completamente às escuras… Essa escuridão não se remove com dinheiro, ou com uma operação de mercados ou com outra acção diferente. Enquanto eu olhava, sem ver, em amargo êxtase, a fachada principal do augusto monumento, quer pela arquitectura quer pelo símbolo que é, ia pensado nos actuais acontecimentos em Portugal e interrogava-me assim: por que é que a chamada troika não “cortou” no excesso de indigência mental que nos governa?
E, enquanto pensava que disto eu nada poderia esperar, ia tecendo silenciosamente um poeminha (como diria carinhosamente Agostinho da Silva), primeiro em jeito de cantiga de alívio, ou escárnio e mal-dizer, como outrora se dizia.
Vem padeira de Aljubarrota,
Deixa agora os castelhanos.
Dá agora nos de cá
Que nos levam ao engano!
Depois, em jeito de prece, pois esta, mal grado os meus pecados, ainda poderia ser escutada por quem, diz-se, tudo ouve:
Nossa Senhora de Fátima
Já perto de Aljubarrota.
Desta vez não há vitória
No fosso da bancarrota.
Mas vós podeis ainda
Muito ajudar Portugal.
Só vós sabeis como evitar
A bancarrota cultural!
sábado, 7 de maio de 2011
A MARGINALIDADE
"O ser humano singular, que pensa por sua conta e risco e, mais, que tem algo a mostrar (dar) aos outros, nada consegue hoje, apesar de ter liberdade para o fazer. Terá que ser membro de um grupo, associação ou partido, que tenha, como é evidente, número de contribuinte. Já Fernando Pessoa dizia há quase cem anos, mais ou menos isto «quando aparece um grande poeta, quem é que há para dar por ele». Porque agora, mais que nunca, terá que ter uma espécie de “certificação das universidades» ou outra agremiação semelhante.
A fraqueza do pensar é tanta que ninguém acredita verdadeiramente numa ideia nova, num outro caminho."
Eduardo Aroso no comentário do texto anterior de Álvaro Ribeiro
Comentário ao comentário de Eduardo Aroso:
Cynthia Guimarães Taveira
Em criança era frequente gozarem com ele na escola e porem-no de parte. Eram as roupas fora de moda que não encaixavam no gosto maioritário. Era um modo de ser, um pouco introspectivo que, de alguma maneira, o empurrava para junto daqueles que, também com uma ou outra característica promotora da diferença, eram igualmente colocados de lado e que, quando não eram alvo de chacota eram higienicamente afastados das brincadeiras: no jogos de futebol, no jogo das escondidas, nas festas de anos. Desde muito cedo o mundo não lhe apareceu ao seus olhos como homogéneo, fazendo ele próprio parte dessa homogeneidade. Pelo contrário, o mundo tinha tendência para se fragmentar e essa percepção era meio caminho andado para uma mentalidade com tendências esquizofrénicas, algo a que escapou por pouco devido ao seu temperamento místico que o incentivava, em contradição, a unir o que estava aparentemente separado.
Crescera na margem e apaixonara-se na margem: o primeiro amor havia sido proibido pela sociedade; gostar de alguém assim, como uma deficiência tão visível, tão chocante? Como era possível tal coisa? perguntavam os amigos e a família. Mais uma vez, agora na adolescência, alvo de olhares, de dizeres murmurados ao ouvido com a mão à frente.
Estranhamente, porém, desenvolvera, graças a esses episódios frequentes, uma força interior diferente. Quase cristã. Entendia Cristo, não pela sua entrega à humanidade, mas pelo facto de ter sido mal entendido. O seu sentimento de um Cristo só e traído era afinal um caminho, de alguma maneira religioso. Sentia que havia um caminho que lhe aparecia como uma contra-corrente, era um caminho estreito, que percorria a correnteza da sociedade e das massas mas em sentido contrario: havia nele a densidade e a integridade, bem como a teimosia e a fidelidade ao seu coração. E sabia que só tinha dado conta da sua existência graças às margens às quais fora votado e não naturalmente procurado. Daí não se poder dizer que houvesse a escolha da rebeldia: a rebeldia, de alguma forma, pelos insultos e pela incompreensão, escolhera-o a ele, de uma forma mais pacífica do que à primeira vista e persistente.
Chegara à conclusão que era a própria sociedade que criava as suas margens, as suas próprias contra- correntes. Ele nada mais era senão um instrumento do destino. E assim, do lado de fora, conseguia ter a percepção da marcha das massas e para onde se dirigiam. Passara de participante a observador e assim poder-se-ia falar de um teatro completo, de um cenário com actores e com público. Não havendo nem o muito certo, nem o muito errado, tudo o que enfrentara até aí tinha, afinal, a sua razão de ser:
Ele representava as ideias de um futuro esperado, mais cedo ou mais tarde encontrado e, quando isso acontecesse, seria a vez desse futuro criar as suas próprias margens num movimento intermitente no tempo até ao infinito. Por isso os antigos falavam de ciclos, do Tao, de um salto entre o branco e preto como lei da vida.
O papel da extravagância é sempre o de provocar o futuro, e nesse futuro há uma correcção implícita dos erros do presente.
Ser extravagante é estar sempre na cruz, e, no entanto, é lá que, no pino da morte, os céus se abrem. O pino da dor é o ponto em que se salta para a dimensão da próxima etapa: esteja ela num céu místico e interior, esteja ela na terra embutida de erros. O mundo limita-se a espelhar o nosso próprio caminho, e o nosso caminho é um espelho do mundo. Entre as margens ou nas margens, o sopro do Espírito Santo vai cantando as suas melodias, quando o amor sublime se solta e voa livre por este e outros mundos.
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