(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



sexta-feira, 29 de abril de 2011

IDEIAS...














A Pedra, o Mar, e o FMI

Cynthia Guimarães Taveira

- Na Idade Média, Portugal, já tinha um pequeno problema.

Foi assim que começou a aula de História.

- O problema estava na transformação da matéria prima. Nós tosquiávamos as ovelhas. Depois, em vez de fazermos camisolas com a lã, enviámo-la para os Países Baixos, onde era finalmente tricotada. E depois nós comprávamos as camisolas, a um preço muito superior àquele pelo qual havíamos vendido a lã.

Não me esqueci desta aula de História, e, com o tempo, fui constatando que havia qualquer coisa nos portugueses que os levava a uma aversão natural em fazer o trabalho dentro das suas fronteiras limitadas em que viviam.

Somos grandes construtores e, estranhamente, a nossa História é feita de empreendedorismo. Por cá, abríamos fendas na terra, e dela, retirávamos as pedras. Com grande obra e engenho colocávamos essas pedras em barcos e íamos construir para longe: para o Japão, para o ponto mais obscuro do Brasil, para as roças africanas. Construímos Fortes, Igrejas, ou a simples e singela calçada portuguesa.

Não somos como os gregos, embalados pelo calor do Mediterrâneo, embalados pelo sonho platónico de evitar o trabalho manual como coisa menor, ou qualquer outro trabalho, hoje.

Quando se fazem obras num ponto qualquer da cidade é vulgar ver homens parados, por vezes durante horas, espreitando a obra, observando-a com uma atenção que toca a ternura. É igual a sua contemplação àquela outra, também muito lusitana, de quando, sentados no alto de uma rocha, ou num miradouro, os portugueses contemplam o mar. Por vezes, durante horas também. Esta atenção faz-me pensar na grande ligação que existe no nosso inconsciente (ou numa outra forma de consciência, como diria René Guénon) entre o português, a pedra e o mar. Somos feitos de granito e de água.

Esta loucura da construção conduziu à existência de cidades pegadas umas às outras, aos estádios de futebol em excesso, a auto-estradas que andam às voltas, desertas, a rotundas nos lugares mais improváveis, a obras de remodelação sistemáticas. Há lojas em Lisboa que, devido à crise, mudam de mão quase de ano a ano, e de cada vez que mudam de mão, sofrem obras. Parece que esse impulso de construir lá fora, à falta de Império, passou a ter lugar cá dentro, mas de uma forma anárquica, gananciosa e de má qualidade no planeamento e na construção. O impulso está lá, só que distorcido por uma cultura do lucro fácil e do esquecimento da herança dos antigos pedreiros e mestres construtores.

O que havia, noutros tempos, e que unia, de alguma maneira, os homens, era um projecto comum: um sonho estranho onde o mar era a grande via para um mundo que naturalmente nos esperava. Hoje o mundo deixou de nos esperar, as grandes potências desconhecem-nos, as ex-colónias não nos desejam de volta. Sem missão ficámos perdidos dentro de nós. No entanto, esse estranho facto de fazer obra “lá fora”, permanece: artistas, desportistas, filósofos, cientistas, académicos, ganham um novo brilho fora da nossa terra; aliás, em proporção populacional, esta país parece gerar a qualidade em grande número: desde que se cumpram fora de Portugal.

O FMI chegou. Mas será que nos conhece? As fórmulas aplicadas são sempre iguais e monótonas para todos os países. Mas de que fórmula necessitamos nós? Por um lado parecemos ser incapazes de produzir qualquer coisa de jeito, cá dentro, facto que dura há séculos; por outro, lá fora, sabemos e pudemos fazer tudo.

O FMI devia ter em atenção apenas estes factos: a pedra, o mar, a viagem, o destino, a vontade e o sonho. São estas as palavras que pulsam dentro da alma lusitana. A economia depende destas palavras, mas não só a economia, também o equilíbrio, a força, o amor, a dedicação, a vida, e num último grau, a felicidade sentida quando os sonhos são cumpridos.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

CONGEMINAÇÕES NO SÁBADO...















Congeminações - I Ciclo de estudos em homenagem a António Telmo, subordinado ao tema "Ortodoxia e livre-pensamento" continua no próximo sábado, 30, pelas 15 horas, na Biblioteca Municipal de Sesimbra, estendendo-se até Novembro.

O programa de sábado é o seguinte:

- Lançamento do livro Viagem a Granada (Al-Barzakh), 2.º volume das Obras Completas de António Telmo, apresentado por Luís Paixão

- Conferência: António Telmo, Ibn ‘Arabi e o sufismo, por Mário Nunes Vieira

- Conferência: António Telmo, o pomo persa e o oitavo clima, por Pedro Sinde

quarta-feira, 27 de abril de 2011

EXTRAVAGÂNCIAS, 132


A Cura (uma história verídica)

Cynthia Guimarães Taveira

Num acto de desespero enfrentara a lista telefónica das Páginas Amarelas. Aquela situação não poderia continuar, tinha de resolver os seus problemas de uma vez por todas. Com o coração a bater mais do que o normal, fechou os olhos, esticou o dedo indicador, e percorreu com ele a página que tinha à frente, de cima para baixo e de baixo para cima. Parou ligeiramente a meio. Aí estava o que procurava: uma psicóloga escolhida ao acaso, num jogo entre a falta de visão e o tacto, arbitrado pela coincidência.

Olhou para a morada: não ficava muito longe de sua casa. Telefonou, marcou consulta e respirou fundo. Tinha ganho coragem. Pela primeira vez ia falar com alguém sobre os seus problemas, alguém que tinha estudado e praticado na resolução de dúvidas, hipóteses, questões, medos. Tudo iria correr bem, pensou de si para si.

Chegou enfim o dia. Pelo caminho pensava no que iria dizer. Pensava ser sucinto, não se alongar muito com pormenores: diria que a sua relação com a mãe era um pouco distorcida, causadora de sofrimento e que a sua relação com o irmão, estudante de psicologia, estava a tornar-se demasiado irracional para seu gosto: à medida que avançava no seu Curso, aumentava o número de tareias que levava dele sem motivo lógico aparente. A sua tristeza residia na família. A sua angústia residia no facto de não saber lidar com eles: a distorção da mãe, as tareias do irmão.

Entrou. Sentou-se. Uma senhora magra, de cabelo escuro, perguntou-lhe, no final do preenchimento de uma longa ficha: -- Então. O que se passa?

Respondeu com palavras breves, procurando esconder a mágoa. Queria saber, no fundo, porque não conseguia lidar com os outros e porque é que um sentimento de culpa do tamanho do céu o acompanhava desde o nascer do dia ao seu término.

A senhora psicóloga sorriu. Um sorriso calmo que o fez sentir bem. Depois disse:

- Em relação à sua mãe, vai ter de a pôr num lar, mais cedo ou mais tarde. Mas diga-me, o que faz?

- Por enquanto estudo na Faculdade.

Disse-lhe o Curso, o nome da Faculdade e eis que a doutora se abre, agitada, pergunta-lhe o nome dos professores. Pacientemente, ele lhe vai respondendo, ao que ela, com alguma emoção na voz, reage a alguns nomes, dizendo que os conhece, de onde os conhece, o que fizeram juntos.

A senhora não se calava, começando a dizer que estava ainda a resolver alguns problemas.

- Alguns muito antigos, sabe -. disse ela, fazendo uma cara misteriosa. - Estudei em Évora, tirei lá um mestrado, mas não me entendi com aquela terra, nem com os professores, nem com o reitor da universidade. Havia algo ali que não entendia e que não se dava comigo, sabe?

Acenava, compreensivo, com a cabeça. Procurava dentro de si algumas palavras que a sossegassem e eis que por fim, a psicóloga agitada lança as últimas verificações:

- Sabe, vim a descobrir porque é que não me sentia bem naquela cidade. Eu fui lá queimada por bruxaria no tempo da Inquisição, numa outra vida. E ainda não resolvi essa questão.

Engoliu em seco, fez um sorriso tímido e meio receoso e respondeu:

- Com o tempo, talvez com o tempo isso passe.

Saiu do consultório e respirou o ar fresco da Primavera. Sentia a sua cabeça muito mais leve do que quando entrou no consultório. Pensou de si para si que não tinha problema nenhum à vista do que tinha presenciado.

Mas ficaram marcas da consulta: nunca internou a mãe num lar, por ser desumano, ao irmão considera-o patológico e hoje, sempre que conhece um psicólogo ou psicóloga, sente-se extremamente bem. Leve mesmo, diria. Como se não tivesse problema nenhum. Nem angústia, nem culpa, nem dúvidas. Gozava de uma saúde mental perfeita. Estava curado.

PÁSCOA


PÁSCOA

 
A manhã insistindo

Em aromas e juncos verdes de alegria!

Para quê olhar

Os ponteiros neutros do relógio?

Só os ninhos de música sobem e ficam no ar,

Em ritmos certos e luz perfumada.

Hoje o dia

Tem muito mais de vinte e quatro pétalas…!



Viseu, 24-4-2011

Eduardo Aroso

sexta-feira, 22 de abril de 2011

terça-feira, 19 de abril de 2011

ASSIM FALAVA ALMADA...



“A grande aflição das gerações actuais está em que a História as traz metidas exactamente entre o fim de uma idade e o inicio de outra. As gerações actuais encontram-se a braços com dois imediatos a cumprir. Dois imediatos quotidianos: estabelecer uma ligação que não é possível entre ambos mas que acontece na Historia serem contíguos. Em face destes dois imediatos a posição do homem actual é dupla: cumpre com o que está e obedece ao que vem a chegar, não pode deixar de servir o que ficou, mas não lhe sobra nada de todo o seu tempo para o que há-de vir; não pode raptar-se a um fim fatal e inglório de que há-de participar forçosamente quando afinal todas as suas esperanças estão postas na luz nova que já raiou.


Não há espécie de heroísmo em querer contrariar estes dois imediatos: um há-de morrer e o outro há-de nascer. E também não há espécie de heroísmo em querer favorecer qualquer deles: para um é tarde de mais, para outro é demasiado cedo.

O que morre tem direitos adquiridos, o que nasce ainda não tem o hábito desta memória.

Mas é de memória que se trata: esquecer o que está e recordar a novidade que aí vem. Recordar porque é idêntica, novidade porque não há igual. As idades são idênticas e desiguais.

O complicado será dizer à mocidade que exerça a sua memória de preferência no que não assistiu ao que assiste. É complicado que se tenha de dizer à juventude que o imediato que intimamente mais lhe interessa, e que representa a tradição da continuidade humana, é precisamente a memória do mais antigo que há. Nem a mocidade nem a juventude de hoje estão aptas a entender que é este afinal o uso próprio da memória.

Da memória dos factos a responsabilidade é nossa, das gerações; contudo, o pior é quando os factos se desligaram da memória. É este o caso actual da Humanidade: os factos desligaram-se da memória humana. Tem a palavra o “aprendiz de feiticeiro”. (…)

Pode haver factos formidáveis, ideias transcendentais, podem ambos ensoberbar-se a ponto de assombrar a Terra inteira, mas de uns e de outros, embora de todos reze a História, só os da memória humana fazem passo.

Aqui se entendera melhor a existência de dois imediatos, um o das ideias e factos que resistem ao outro que faz passo na História. Há mais de três séculos que começou um dia este equívoco dos dois imediatos e quanto mais tempo vai desde esse dia mais violentas se apresentam as ideias e os factos por elas gerados, porque não há transcendência que lhes valha, nem técnica de organização que os aguente. Este equívoco atravessou toda a Idade chamada Moderna, por isso mesmo ficou no ar. Este equívoco continua hoje, avolumadíssimo pelo tempo, e cai sobre nós, cujo heroísmo consistirá em suportarmos a não ligação de dois imediatos que se acometem e sem possibilidade de luta sequer, um serviço que excede as possibilidade humanas; mas assim mesmo, excedendo as possibilidades humanas, coube-nos a nós também e acrescentado com a respectiva consciência do caso e da sua não solução.

Assim se explica que hoje a avidez de ir é incomparavelmente maior do que a avidez de estar. Já não se sabe fazer uso da memória. Se se deseja ir é para estar, logo, só se deseja estar. Isto é para ficar ou voltar. Voltar ou ficar é para estar. Essa avidez de ir é hoje bem significativa da impossibilidade de estar. É um perene, um vitalício ir sem estar. O Mundo tornou-se um empecilho para nós e nós um empecilho para o Mundo. Estamos vergonhosamente quites.

Mas está prestes a terminar este eclipse da Humanidade por causa dos dois imediatos. A constância do Sol remeterá tudo outra vez para os seus lugares. Deixem a Humanidade ter a sua memória, deixem-na ter só um imediato, o do seu tempo, dêem-lhe inteiro o quotidiano e vereis que ela pode e sabe estar.”


Almada Negreiros, citado por Lima de Freitas em “Almada e o número”, Editora Soctip, 1987, pág. 24

 

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O CAMINHO DO CAMINHO














Um xamã na cidade

Cynthia Guimarães Taveira

Tinha estranhado que tão cedo pudesse ler os livros de Dalila Pereira da Costa e entendê-los da única forma possível: com amor. Lá o mundo era diferente, era o seu mundo, onde visível e invisível se sobrepunham, onde o coração estava no centro dos pensamentos, onde não se estranhava já a total presença do totalmente outro, diferente de nós, separado de nós pelo abismo da materialidade. Lá era possível viajar para outras épocas, e entrar numa espécie de rodopio voador no âmago da essência das coisas. Lá era possível comunicar e entender sem palavras, e ver outra cidade do Porto sobrepor-se sobre esta que se debruça sobre o Douro.

Pertencia à antiga estirpe dos místicos e xamãs e nem precisou de ler romances históricos ou fantásticos. Para si nada desse outro mundo era ficção. A ficção era um intercalar entre dois mundos reais, um compasso de espera da verdade.

E passeava-se na cidade nada reconhecendo quase como do seu mundo: os sacos de plásticos desagradavam-lhe desde a infância pois os achava barulhentos, inestéticos e falsos. As luzes brancas e mortas dos hipermercados faziam-lhe arder e chorar os olhos numa espécie de alergia inexplicável: um alergia natural à civilização, talvez?

Admirava, por vezes, a liberdade que se respirava nos bairros da moda --passava tudo por ele: jovens de cabelos coloridos, piercings pendurados na carne, tatuagens com anjinhos, tigres e dragões, góticos de cabelos escorridos e escuros pendurados em cima de botas de tacões que os colocavam num castelo alto no alto de uma escarpa batida pelo vento da tempestade, rastas, de cabelos presos, sujos, torneados até pareceram lã velha tocando o fundo das costas, encimados por uma boina de croché, normalmente verde, amarela e encarnada, e ainda as pin ups de saias rodadas dos anos 50, com penteados montados e elevados, lábios de batons fortes, às vezes um sinal postiço marcando a cara, ou umas sardas pintadas com lápis na saudade do fogo arruivado, e uma grande tatuagem moderna de flores descendo pelo braço, do ombro até à mão, onde na unha um verniz encarnado com bolinhas brancas fora pintado. Sim, admirava essa espécie de liberdade estética que se respirava no bairro alto da moda, mas sabia do que tinha saudades de facto:

De gente genuína, tão primitiva como ele o era. Em “Urga, um espaço sem fim”, um filme que tinha visto num King escondido dos néons, uma criança na sua tenda nómada, tocava o acordeão: o olhar dela era genuíno, vindo do fundo dos tempos e a sua alegria a tocar era igual ao som que os pássaros fazem de manhã, acompanhando o sol no seu brilhar. Num outro filme, japonês, que falava das quatros estações, um velho mestre ensinava ao discípulo o significado da misericórdia e pintava caracteres com um rabo de um gato branco que genuinamente deixava que tal acontecesse: a cara desse velho japonês era genuína. Alguns africanos que conhecera tinham essa cara genuína, essa expressividade natural, esse rir do insólito com gargalhadas fortes que faziam doer a barriga, e genuinamente sabiam como viver. Mas havia mais nessa genuinidade que reconhecia: um certo ser primitivo, algo que passava pela pulsão inexplicável que se reflectia, sobretudo na arte -- assim como as crianças quando pegam num pincel e fazem misturas de cores inesperadas e revelam um força interior surpreendente no vigor do traço ou do pincel, facto também visível na escrita cursiva japonesa, mas também nalgum folclore, na força dos tambores dos Zés Pereiras, ou nas gaitas de foles que o arrepiavam, no jogo do pau, nas pegas das touradas, nos desenhos dos aborígenes da Austrália. Ser primitivo era ser toda a história e estar ligado a uma raiz, a uma matriz humana que atravessava as eras; a espontaneidade coexistia de algum modo com sociedades que nada pareciam mudar, e essa espontaneidade nada de rebelde tinha: não eram os grafitis estéticos que iriam preencher esse lugar, não eram as calças de ganga rasgadas, as cristas dos punks, os soutiens de fora, as cuecas à mostra com calças descendo pelo rabo que iriam substituir a genuinidade da nudez dos índios, os corpos enfeitados dos tuaregues, nem as danças de discoteca com álcool e ecstasys que iriam substituir as danças africanas, onde os pés tinham o pulsar da terra e os êxtases eram verdadeiros.

Sabia que só o homem genuíno, ainda com a memória dessa matriz, apenas e só ele, poderia conhecer outros mundos, e viajar por dentro de si, como um pássaro livre. Estranhamente, era no mais antigo que residia a verdade do ser. O resto da cidade era apenas um ilusão de liberdade feita de plástico, de moda, de prisões.

E o xamã passeava-se na cidade, sentindo-se solidário com o mundo, com a sua miséria, mas solitário na riqueza que escondia, não sabendo como a transmitir, e sem saber porque nascera assim, desta maneira, em terra do futuro. O xamã sabia que não tinha futuro, mas sabia que não poderia ser de outra maneira.

terça-feira, 12 de abril de 2011

domingo, 10 de abril de 2011

O CONTRA CAMÕES

Cynthia Guimarães Taveira

Acontece … e já ninguém comenta, e já ninguém se indigna como antigamente quando o Salazar imbuído de poder habituou as gentes a já nem estranharem, a já nem se indignarem.

Via o jornal da Sic. A reportagem era sobre o absurdo das novas regras impostas aos donos das esplanadas: a partir de agora as toalhas de mesa, os porta-guardanapos e os chapéus de sol teriam de ter regras e seriam uniformizados segundo o gosto de alguém muito rigoroso da Câmara Municipal de Lisboa.

A reportagem acabava assim: “Tentámos falar com alguns donos de estabelecimentos mas apenas um deles falou porque os outros tiveram medo de represálias”. Assim, com a maior naturalidade do mundo. Rapidamente se passou a outro tema. O medo é dado adquirido neste país. E vejo descendo por uma das sete colinas o Contra Camões envergando um estandarte onde um outro poema se agita e permanece:

Amor é fogo que arde sem se ver; Medo é fogo que arde e se vê;

É ferida que dói e não se sente; É ferida que dói e que se sente;

É um contentamento descontente; É uma resignação descontente;

É dor que desatina sem doer; É dor que desatina a doer;

É um não querer mais que bem querer; É um não querer mais que outro querer;

É solitário andar por entre a gente; É solitário calar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente; É contentar-se de descontente;

É cuidar que se ganha em se perder; É cuidar que se ganha em se calar;


É querer estar preso por vontade; É querer estar preso sem vontade;

É servir a quem vence, o vencedor; É servir a quem manda, o senhor;

É ter com quem nos mata lealdade. É ter com quem nos mata submissão.


Mas como causar pode seu favor/Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,/Nos corações humanos liberdade,

Se tão contrário a si é o mesmo Amor? Se tão contrário a si é o mesmo Medo

sábado, 9 de abril de 2011

EXTRAVAGÂNCIAS, 131


HISTÓRIA TRÁGICO-CONTEMPORÂNEA


Era uma vez

Um outro Portugal,

Que na sua avidez

Foi comendo o verdadeiro.

E numa soberba sem igual,

Ficou sem casa, sem amigos

E sem dinheiro…


6-04-2011

Eduardo Aroso

sexta-feira, 8 de abril de 2011

SIM, AINDA HOJE...


“Ao juntarmos o descuido que se observava na manutenção do navio e do seu aparelho, mais a ignorância das coisas do mar por parte de quem comandava as naus, teremos um quadro mais claro do que conduz ao naufrágio. A ganância, a incúria e a ignorância são os traços que permitem delinear o naufrágio (…).
O equilíbrio rompe-se quando os comandantes fidalgos decidem com grande espírito de aventura e reforça-se quando os mestres marinheiros conseguem impor o espírito do velho do Restelo. Os casos intermédios são menos frequentes pois os mestres pouco decidiam sobre a sorte da armada e os comandantes fidalgos só eram prudentes porque ouviam os mestres, mas depois decidiam mediante as ordens que traziam ou segundo os próprios interesses.”


João Ruas “Relatos de naufrágios do século XVI na Biblioteca de D. Manuel II”, “Callipole, Revista de Cultura nº 18 - 2010” - Câmara Municipal de Vila Viçosa, pág. 86/87

quarta-feira, 6 de abril de 2011

EXTRAVAGÂNCIAS, 130


As pessoas-ilha

Cynthia Guimarães Taveira

Com as televisões, os aviões, a informática, todo o mundo ficou mais pequeno e concentrado numa espécie de “única notícia”. Essa “única notícia” é uma espécie de comprimido que se toma todos os dias quando se ouvem ou lêem notícias. De alguma maneira, todos, no mundo ocidental, partilhamos a mesma informação diariamente. De alguma maneira todos temos o olhar e o coração moldados por essa pílula manipulada nos laboratórios do poder.

Nos tempos feudais as famílias procuravam apenas o difícil sustento. O senhor ficava no castelo guardado por exércitos. O poder existia mas era apenas um poder material. O poder mental era mais ou menos controlado pela Igreja, que persuadia os fiéis pelo medo do Inferno que ficava situado algures, para além da morte. Entre o poder material do senhor e o poder mental da Igreja, sobrava ainda espaço para o individuo. O povo não sabia ler nem escrever, não tinha acesso aos livros, não tinha de lidar com o excesso de informação, mas tinha as suas histórias, as suas raízes, os seus momentos vagos em que exercia a sua liberdade interior sentado à noite, em volta do fogo, depois de um dia de lavoura difícil.

Hoje, já não há assim tantas lavouras tão fisicamente difíceis. A maior parte de nós tem direitos, está enquadrado no código do trabalho, a maior parte de nós somos escravos decentes, higiénicos, alfabetizados. Digo escravos porque partilho da opinião de Agostinho da Silva: o trabalho é sempre uma escravidão. Apenas a criação liberta.

Por outro lado, o individuo e a sua liberdade são apenas uma luz cada vez mais ténue. Essa pílula tomada todos os dias há-de desculpar-nos na hora da morte porque com ela somos mais do que nós e a nossa circunstância. Somos nós e todas as circunstâncias, as nossas e as de todo o mundo, mesmo aquelas que estão para além do nosso raio de acção. Somos todos, na sociedade ocidental, a figura de S. Cristóvão, que não entendia porque é que a criança nos seus ombros pesava tanto. Todos nós carregamos o mundo às costas, logo pela manhã quando ouvimos os noticiários.

Há quem defenda teorias meio orientalistas (digo meio orientalistas porque o que nos chega das filosofias orientais é sempre parcial, é sempre um reflexo de um reflexo, é a ideia sem o contexto cultural e educacional) de expansões interiores de consciência, de forma (e não por forma!) a termos uma consciência global de toda a humanidade e assim, com essa consciência, promovermos o bem comum. Dizem essas teorias que há uma expansão da consciência até ao limite do “todo” que é afinal “nada” para depois ser “todo-nada” ou “nada-todo” num sublime paradoxo zen.

Massas e massas hoje (nunca na história conhecida houve tantos habitantes no planeta), carregam o peso do mundo às costas e as suas circunstâncias são quase infinitas, carregam um “todo” às costas, dando-lhes a sensação de “nada”. Paradoxalmente, e numa consequência quase zen, o raio da acção das pessoas é cada vez mais reduzido, podendo ser deduzida uma lei desta constatação: quanto mais informação, menos acção e menos responsabilidade há na acção, daí o facto de que, no dia da nossa morte, quando nos erguermos perante o juiz, não ser possível um julgamento normal: o peso entre o coração e as acções. As acções estão absolutamente diminuídas face à quantidade de circunstâncias que, de alguma forma, pesaram em vida no individuo.

Lendo experiências pós-morte constatei um facto curioso:
No ocidente, aqueles que morreram por momentos num bloco operatório ou num acidente, encontram-se perante a sua consciência. São eles próprios que se auto-julgam.

No oriente, nas mesmas circunstâncias, são outros, figuras que aparecem para julgar a consciência do morto.

O que se dá é uma inversão do que aparece em vida: no oriente o individuo era (agora já não é tanto) educado de forma a ter uma forte consciência de si, das suas acções, da sua responsabilidade. Há um sentimento forte do individuo enquanto pilar da comunidade. O individuo julga-se a si mesmo sem intermediários. Na hora da sua morte, passa-se o contrário: são os “outros que o vão julgar”.

No ocidente, o “outro” é o grande pilar do julgamento em vida. A comunidade é o grande pilar do individuo. O ocidente está assente no julgamento fora de si: a família, os vizinhos, os tribunais, a religião adoptada conduzem o individuo a uma sensação constante de julgamento das suas acções: o individuo não se julga, é julgado, daí muitas depressões por falta da chamada auto-estima. Na hora da morte, há uma espécie de compensação e, finalmente o individuo está só perante a sua consciência, revendo os seus dias desde o momento do seu nascimento.

Tudo isto é muito movediço, sobretudo hoje, porque o oriente está cada vez mais ocidentalizado e alguns ocidentais tendem a ir buscar a “salvação” ou “iluminação” ao antigo oriente.

Mas estas experiências pós-morte dão que pensar: que tipo de julgamento terá a nossa consciência perante o “abafar” em vida de tantas circunstâncias, a maior parte delas transcendendo tanto o individuo como o próprio “transcendente” religioso? Onde haverá a verdadeira justiça?

Diz a nossa tradição que o céu é dos tolos e das crianças e talvez esteja aí a resposta: perante a diminuição do campo de acção do individuo devido à sobrecarga informativa, seremos afinal julgados como crianças ou como tolos. A iniciação tornou-se interdita na nossa civilização. Bem pior do que a contra-iniciação, de que nos fala René Guénon, é a ausência sequer da noção de iniciação. Sem ela seremos todos crianças e tolos voando num céu sem limites. Mas, e o céu, será o mesmo? Apenas há algumas pessoas-ilha no oceano das massas que poderão, talvez, saber a diferença entre um tolo e um sábio. Nós não sabemos.

terça-feira, 5 de abril de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 17

Na fotografia, o Estado

Muito censo, pouco senso

Alexandra Pinto Rebelo

Acho que não passaria pela cabeça de ninguém, no seu perfeito juízo, colocar a hipótese do facto de preencher o questionário dos Censos poder constituir um momento hilariante. Responder a tais perguntas é um momento sério. É um dos raros momentos em que nos sentimos parte de um povo, numa cumplicidade temporal. Estamos aqui e agora, sendo isto ou aquilo, fazendo x ou y.

Aquelas folhas, fazem-me lembrar os antigos momentos solenes que uniam uma determinada comunidade, tal como a missa de Domingo. Eu já não sou desse tempo, da missa de Domingo como união da comunidade (sou do tempo de constituir isso uma opção pessoal quase exótica), mas lembro-me de ir às matinées ao cinema Império, ao fim-de-semana à tarde, com as minhas melhores roupas, pela mão da minha família, numa comunhão semelhante. Era no tempo em que o Império tinha lotação para muitas centenas de pessoas, estando muitas vezes esgotado.

Essa ida ao cinema era, sob muitos aspectos, uma espécie de Censos de bairro. Muitas vezes imaginava-me naquele palco, por entre os cortinados de veludo pesado, a olhar para o lado de cá, o lado onde nós estávamos. Imaginava uma grande fotografia onde estávamos quase todos bem, vestidos com as nossas melhores roupas, penteados à força, sorridentes como só sabíamos ser nessa altura.

Preencher os Censos, para mim, é um chegar-me para lá para caber numa grande fotografia. Uma fotografia onde estamos dez milhões, petrificando este momento que irá acabar por passar.
É pena que a máquina do nosso Estado (seja lá o que isso for) não pense assim.

Preenchia eu aqueles papéis, quando leio a pergunta: “Tem dificuldade em ver mesmo usando óculos ou lentes de contacto?”. Confesso que reli a pergunta. Pensei ter trocado as palavras com outras nesse processo complexo que é a leitura (ou o pensamento, se quisermos ir para Freud). Não havia erro. Era mesmo aquilo. Neste momento solene, o Estado pergunta-me se eu vejo bem. Não consegui evitar uma gargalhada enorme. Depois de ter respondido, que sim, que “via bem, felizmente” (tudo isto só com uma cruz, note-se), caio numa nova pergunta, qualquer coisa como: “E ouvir, ouve, bem?”. Nova gargalhada. Ouço bem, sim. Lembrei-me imediatamente do Dr. Estrela, médico da minha avó há uns trinta anos atrás, resolvendo os seus problemas delicados de saúde com perguntas inocentes. O Estado continuava, naquele disparate de delicadeza médica ultrapassada, para com a minha pessoa: “E sobe bem as escadas?”. Depende do cansaço, Dr. Estado. Mas geralmente, não me custa. “Então e a sua memória? Tem dificuldades em memorizar?”. Depende do seu grau de exigência, Dr. Estado. Tenho uma memória muito boa, mas se me pedir para decorar a Ilíada, como faziam na Antiguidade, confesso que sou capaz de ter alguns problemas sérios. “E consegue tomar banho sem ajuda?”. Esta pergunta constituiu o meu momento de viragem em relação a estes Censos. Deixei de ter bom humor e pensei que as coisas já se estavam a tornar muito sérias. Estamos a falar de quê afinal?!

Como dizia no início, considero os Censos uma coisa séria. São os números que iremos deixar para a história enquanto povo. Todos os historiadores gostariam de deitar a mão a censos de tempos idos. Mas quantos teriam interesse em saber quantos egípcios teriam dificuldade em tomar banho sozinhos (seja lá o que isso for) no ano de 2.540 a.C.? Quantos fariam uma tese, com algum interesse, sobre o número de macedónios com problemas de audição no tempo de Alexandre o Grande? Não seria mais interessante saber quantos portugueses tomam banho com alguma frequência (pelo menos uma vez por semana) com ou sem companhia? Não teria uma maior importância, em termos culturais, saber quantos de nós se sentem deprimidos?

Por mais voltas que dê, não consigo compreender o sentido destas perguntas. Talvez tenham a ver com o estado completamente absurdo a que a nossa Ciência chegou. Ciência pela Ciência, não admitindo, erro crasso, que a ciência só pode ser um produto cultural.

domingo, 3 de abril de 2011

LANCES E RELANCES, 2


    (na foto António Salvado)

O VERO SUBJECTIVO NA PALAVRA IMANENTE DE ANTÓNIO SALVADO

«O cântico floriu na bacidez
de certas urzes mortas.

Fenderam-se percursos e por vezes
pedras moveram o rigor ileso
do seu interior, da sua forma».
(…)

(Os Distantes Acenos)

Um poeta não cabe na terra onde nasceu nem nos locais por onde passa. Todavia, do útero do primeiro chão que ele conhece há um sinal que pode ser entendido como oblação de Prometeu, concedida a quem, roubando o fogo aos deuses, surge no mundo para desvendar os ousados caminhos do espírito. No universo da poesia, recebe ele as coordenadas próprias da alma do locus, para, depois, nesse modo, ligar outras vidas e paisagens: de um paraíso dócil mas estático, ao paraíso em eterno devir na dinâmica descoberta do sempre-existir.

«Move-me a luz que vem daquela flor,
tão exilada luz…
Chega-me esguia a revolver no peito
as mil penumbras
os mil anseios
as mil verdades…»

(Tropos)

Quem, pela primeira vez, lê um poema de António Salvado, recebe a mensagem de alguém que tem algo de singular para dizer ao mundo. A sua palavra pode requerer uma vida inteira, desdobrada em cenas de tonalidades diversas, de dias aparentemente contraditórios (às vezes dilacerantes), enfim, de paradoxos inevitáveis, mas que a vera subjectividade do poeta une sempre, ao jeito de Ariadne de confusos mas seguros caminhos de achar. Nos primeiros versos lidos, ficamos logo na certeza de uma poesia que nunca se anula, que nunca se repete, e que, sejam como forem os dias do poeta, nunca se esgotará.

«O que se deve pedir no começo do crepúsculo
é um cântico de luz para a manhã seguinte»
(…)

(A Flor e a Noite)

A poesia de António Salvado é como aquelas árvores antigas que não precisam de estar na praça pública para sabermos que elas existem em determinado local. Os que as não conhecem poderão também ser conduzidos ao sítio onde elas estão. O valor do achado – como em tudo na vida – é directamente proporcional ao acto volitivo de quem delas se abeira, esforço feito da matéria essencial do gesto da busca.

«D. Afonso Henriques
(…)
Seguro em si, nos copos de uma espada,
com ela permitiu o que seria
essa grandeza que nascera em nada
mas que o tudo talhara em haveria.»
(…)

(Jardim do Paço)

Sem ruídos mediáticos, sem as tristes lantejoulas das modas e fora de pueris apadrinhamentos, apenas com o sol da graça e o destino de ter nascido medularmente poeta, sempre foi o desenrolar da obra poética de António Salvado, que começa a vir a lume no ano de 1955 e não mais conhece “períodos de seca ou pousio”, não sendo, por isso, – perdoe-se a expressão – um poeta sazonal. Há nele uma árvore de vida, árvore poética, permanência inalienável na poesia portuguesa.

É claro que a desatenção de muitos leitores contemporâneos se deve a mais que um factor. Alguns desconhecem, outros há que se vão esquecendo, procurando (em nome do progresso acelerado da poesia, como se esta fosse tecnologia!), tantas vezes, onde nada existe para encontrar. Mas o pior de tudo é o que acontece noutro plano, seja por ignorância ou outras razões, já menos aceitáveis que no caso dos leitores. Refiro-me a certas figuras da cultura, investidas de responsabilidades para dar a conhecer a nossa poesia de referência, seja por actos públicos, os mais variados, seja pela organização e divulgação de antologias.

«Despojaram-se os campos:
o granizo mordaz
tudo feriu com sua espada
nua – o sangue aguarda tímido
o recomeço
da sua circulação»

(Ao Fundo da Página)

«A César o que é de César, a Deus o que é de Deus». Não se trata - em nome da legitimidade de qualquer acto poético – de ver ordenar graus qualitativos de poesia, de catalogar pessoas, de arrumar estilos, ou joeirar outros aspectos do fluxo criativo. Impõe-se, isso sim, a observância do que não pode deixar de ser observado. Mas a natureza do homem contemporâneo compraz-se mais na combustão de uma emoção, qualquer que ela seja, à maneira do fumo de qualquer fogo, do que pelo objectivo do prazer da viagem do sentimento, alheia à mecânica dessa combustão. Assim se explica que Goethe tenha dito que se um arco-íris dura mais de quinze minutos, já ninguém olha para ele. Assim se explica que no panorama da literatura portuguesa, com algumas honrosas excepções, se verifiquem estranhas ausências. E o fenómeno é ainda mais preocupante quando assistimos às rápidas e mórbidas mutações que há na lista dos poetas incluídos nos livros escolares, cada vez mais avassaladoras da chamada poesia de circunstância. Não admira, assim, que os nossos jovens, de um modo geral, exibam a cultura que vemos, enquanto uma promissora minoria já rejeita conscientemente muitas omissões.

Não se pense, porém, que a obra de António Salvado seja desconhecida, pois quem logo nos primeiros anos da juventude recebe os melhores encómios de Teixeira de Pascoaes e de João Gaspar Simões, entre outros, de mais “certificados” não necessitaria posteriormente. Porém, o que se passa é da mesma lamentável natureza da que vemos quando, por exemplo, em reportagens televisivas, ouvimos respostas ocas a perguntas sobre quem foi tal rei português, tal cientista, tal filantropo. Cultura desviada do essencial? Apoteose do efémero? Bem sintomático das emolduradas invejas do nosso belo quadro de “brandos costumes” é o facto da maior parte dos prémios e reconhecimentos de António Salvado terem sido atribuídos em países estrangeiros. Como em tantos exemplos, não é fácil um grande poeta ser profeta na sua terra, nem que ela seja um pequeno rectângulo! Camões, já antevendo o enigma, encerra «Os Lusíadas» com a palavra inveja, e parece que nisto não se tem meditado suficientemente.

Fazendo jus ao verso camoneano «mudam-se os tempos, mudam-se as vontades», costumes e hábitos sociais vão-se modificando, e assim tem-se trocado o espírito de tertúlia pelo espírito clubista. Não se confundam. O clima fraterno, de sincero e respeitoso diálogo, de ajuda mútua (onde, tantas vezes, os autores humildemente se corrigiam) tem dado lugar ao atrevido ambiente de vedetismo, cuja figura principal é sempre utilizada por hábeis manobras mediáticas.

«A um Crítico Autor de Versos
Filóxeno de Citera
foi um dia castigado
a mil trabalhos forçados,
porque na sua justeza
se recusara a louvar
os maus versos que fizera
Dionísio de Siracusa, tirano daquela terra.

(Como tal gente perdura
neste mundo em todo o tempo,
embora muito me custe
louvarei teus versos sempre!)»

(A Quinta Raça)

O acto poético de António Salvado dir-se-ia compulsivo, de uma imanência que procura trazer as palavras esquecidas que, só elas, podem criar o verso virgem, enchendo novamente o mundo de inefável força vital, verso limpo de todas as «palavras gastas».

«Mesmo no fundo aterrador do poço,
sem erma claridade
d’uma ligeira luz, acre lugar
que cinja, que lanceie como o fogo,
algo se vê, difuso mas raiado.
(…)

(Os Distantes Acenos)

Na Beira-Baixa – local onde nasceu e vive, depois de várias andanças– está o poeta no ofício da palavra que guarda memórias do tempo passado e vive já as do futuro. Cravado na limitação do chão, ou entre terra e mar, aí tem também a sua propulsão para a certeza de um outro céu que está para além do que vemos de cor azul.

«Desta janela intacta da saudade eu descortino os horizontes
imóveis no seu permanecer de grandezas e despojos vivos.
O azul desdobra-se nessa aurora-madrugada que nunca abandonou
a esperança».
(…)

(Face Atlântica)

Equinócio da Primavera, 2011

Eduardo Aroso

quinta-feira, 31 de março de 2011

O CAMINHO DO CAMINHO



Dupla Vida

Cynthia Guimarães Taveira

Sabia ser comummente dito que as mulheres tinham hoje mais trabalho que nunca, pois se dantes geriam apenas a família, agora geriam a carreira e a família num desdobramento que toca o sacrifício. Confessava de si para si que a carreira era apenas uma ilusão de prestígio, que no fundo nada mais era do que uma visão desfocada da ascensão aos céus. A família, por seu lado, era sempre um terreno movediço e difícil. Por um lado, de uma importância que tocava o sagrado, por outro, uma ilusão de identidade.

Ainda assim vivia entre dois mundos violentos e exigentes. Um dia seu era um acto de equilibrista num ténue fio de seda. De um lado as solicitações do trabalho, das horas a que deveria chegar com precisão a determinado local, dos papeis que tinha de preencher, dos ofícios, das iniciativas privadas e públicas, das consultas, das reuniões, das preocupações, dos mal-entendidos, das refeições que tinha de comer e preparar, dos empecilhos e “atrasos de vida”, da poluição, da solidão dentro do carro numa estrada deserta de alma, do barulho, da falta de estética, da falta de arte e de silêncio, dos impostos, da dívida pública que era apenas a divida particular dos maus gestores do e no estado, da crise, do esquartejamento provocado por terramotos e a nítida sensação de se encontrar na rampa final do tempo de uma civilização caduca e enganadora.

Do outro lado, outro mundo, carregado de apelos, sinais, exigências, coincidências, diabretes e anjos misturados nas mesmas faces, as solicitações da poesia e suas musas que o provocavam onde menos esperava, na fila do supermercado, na passagem por um jardim a caminho de um encontro mais-do-que-urgente com o contabilista. Musas belas que o envolviam em belas palavras e encantos e o puxavam para fora da realidade obtusa em que era obrigado a viver. As solicitações dos sinais e coincidências que não o largavam numa teimosia aplicada: atenta nesta imagem, vê como se repetiu ao longos dos últimos dias. Atenta nesta palavra, vê como repetidamente ela te aparece, fora de toda a lógica, pela voz de um amigo, pelo noticiário da televisão, por uma criança que passa e a diz. Caminha por dentro de ti e da tua história e não te atrevas a parar de caminhar, porque isso é o sono e o sono é um atentado contra o espírito. Gritava-lhe o universo de dentro e de fora nas horas mortas em que o mundo profano se cala, mesmo por poucos segundos que esse silêncio durasse. Gritava-lhe: sê aventureiro e não temas a morte! Olha para os cavaleiros antigos e para as suas lutas com o dragão. E ouve a voz das pedras, e lê este livro e mais aquele porque está ligado ao anterior, e cria, desenha, corrige, pensa e repensa, volta atrás, faz o mais possível uma arqueologia interior e projecta-se num tempo sem tempo, ou num tempo com todo o tempo. E morre, morre, actua como se fosses uma criança, a derradeira criança do mundo, pulando nas pedras pretas e brancas num jogo de xadrez a quatro dimensões.

E vê os símbolos e desvenda-lhes a alma, mas não faltes ao trabalho e às reuniões e ao pagamento da segurança social, e vai buscar o teu amigo que precisa de boleia. E dorme e deixa-te ir nos sonhos que não são sonhos, e renasce todas as manhãs se faz favor, com dores ou sem elas, com dúvidas ou sem elas. (as dores são a dúvidas do corpo).

E balançava no fio, assim, periclitante, dia após dia, não sabendo bem qual o mundo mais forte e qual aquele pelo qual haveria de responder quando estivesse perante a sua própria consciência projectada num céu infinito de estrelas. Assim era a sua vida dupla, rica e opulenta, sem miséria, contemplando toda a miséria do mundo.

PERDIGÃO OU PORTUGAL?



Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.

Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.

Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado;
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.

Luís de Camões

quarta-feira, 30 de março de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 16


Alexandra Pinto
Rebelo
Diálogos improváveis
As guerras transformaram-se naquilo que são hoje. Batalhas rápidas, dentro de conjuntos maiores chamados guerras, onde os inimigos não se olham nos olhos, nem tão pouco sabem quem são. Para nós, o desconhecimento do outro, alivia essa coisa tenebrosa que é matá-lo.
Bem diferentes eram as batalhas medievais. Depois do cerco montado, seguiam-se meses de escaramuças, de insultos de parte a parte, de diálogos improváveis junto às muralhas onde uns e outros expunham os seus pontos de vista.
Encontramos um desses diálogos improváveis na Carta de Osberno, escrita por um cruzado inglês que ajudou a conquistar Lisboa aos ditos mouros. Numa parte do texto, este descreve os insultos que sofreu, juntamente com os companheiros, durantes os dias e noites que estiveram de guarda no sopé das muralhas. Um desses insultos era uma crítica à teologia católica, acompanhada pela visão islâmica de Deus e de Cristo. Ouçamo-lo:
“(...) em arruídos e palavras injuriosas e insultantes, afrontavam constantemente a Santa Maria, mãe do Senhor, amesquinhando-nos porque adoramos com tanto respeito, como a um Deus, o filho de uma pobre mulher, e dizemos que é Deus e filho de Deus, quando é evidente que há só um Deus, por quem foram criadas todas as coisas que têm princípio; que não pode existir outro que lhe seja coeterno e participante na divindade; que Ele era a suma Bondade, Perfeição e Omnipotência, e que, sendo omnipotente, era indigno e blasfemo restringirmos a um corpo humano e à forma dos membros o tam grande poder duma tam alta divindade; que nada julgavam mais insano e contrário à nossa salvação do que acreditarmos em semelhantes coisas; e perguntavam-nos porque não afirmavamos antes que esse filho de Maria era um dos maiores profetas, já que ao homem não é lícito usurpar o nome de Deus.”
Ao contrário do que foi exposto ao longo de séculos de história escrita, o mundo medieval não era composto por tribos distantes e incomunicáveis, nem a informação sucolenta estaria reservada apenas aos receptivos e benevolentes templários do Oriente. Nesse tempo, vivíamos paredes meias com os outros. Eram os nossos vizinhos, literalmente, tendo-nos ficado na memória, até hoje, a noção doce do que representa esse conceito de vizinhança. Para entrar em contacto com os segredos sufis, não era necessário ir em combate ou em peregrinação para o Médio Oriente, ou ser aceite na restrita Ordem do Templo. Muito possivelmente, a alguns, bastava subir a rua e entrar na casa do seu vizinho, aceitando a comida, sempre oferecida como sinal de hospitalidade, acedendo em participar nas festas da comunidade.
Este cruzado desconhecia por completo esta vizinhança saudável que acontecia dentro dos muros das cidades muçulmanas. Vindo do norte da Europa, este desconhecimento é completamente desculpável. Mas aqueles que agora começavam a ser portugueses, D. Afonso Henriques e os seus, sabiam por certo que, lá dentro, viviam comunidades multiculturais, com grandes grupos de cristãos, como não poderia deixar de ser. Ao que parece, ninguém fez referência a isso aos cruzados. Talvez a atitude dos homens que vinham do norte da Europa, ao sabê-lo, fosse diferente, evitando a crueldade para com os cristãos no momento da tomada da cidade.
Compreende-se assim a surpresa do cruzado em relação à reacção de muitos “mouros” naqueles momentos de pânico:
“(...) outros mouros, vivos, mas semelhantes a cadáveres, arrastavam-se por terra, e suplicantes abraçavam e beijavam o sinal da cruz e proclamavam boa a Santa Maria Mãe de Deus (...)”
Parece que o cruzado, ao espírito da época, conforma-se com a crueldade dessa fase das batalhas (envolvendo mortes, violações, barbaridades de toda a espécie), pois com ela vinha também uma espécie de verdade teológica católica à qual os vencidos se rendiam. O sinal da cruz e o nome de Maria seriam a luz para a qual os vencidos se voltavam inevitavelmente, perdida que estava a sua causa. Mas nós hoje, tal como os que começavam nesse momento a ser portugueses, sabemos que não era assim.
Aqueles que proclamavam o bom nome de Maria eram os católicos que viviam ao lado dos “mouros”. Eram os seus vizinhos que, ao pagarem uma taxa especial, podiam continuar a ser cristãos sem que isso perturbasse a cidade. Aquilo que o cruzado nos diz sem querer, é que no meio da euforia do caos, houve que fazer vítimas tão católicas como aqueles que os atacavam.
E isto tudo no meio do silêncio daqueles que sabiam e assistiam ao massacre, talvez, impassíveis.

terça-feira, 29 de março de 2011

domingo, 27 de março de 2011

ENIGMAS, 5



O Aleph

(Dedicado ao Paulo Santos para quem a matemática também é um caminho)

Os mais importantes, e os mais singulares trabalhos, são devidos ao genial Georg Cantor, que viria a morrer louco. Esses trabalhos, são ainda discutidos pelos matemáticos, entre os quais alguns pretendem que as ideias de Cantor são logicamente indefensáveis. Ao que os partidários do transfinito replicam: “Do Paraíso aberto por Cantor ninguém nos expulsará!”

Eis como se pode resumir, grosseiramente, o pensamento de Cantor. Imaginemos dois pontos sobre esta folha de papel: A e B, distantes de 1 cm. Tracemos o segmento de recta que une A a B. Quantos pontos há nesse segmento? Cantor demonstra que há mais do que um número infinito. Para preencher completamente o segmento é necessário um número de pontos maior que o infinito: o número aleph.

Esse número aleph é igual a todas as sua partes. Se se dividir o segmento em dez partes iguais, haverá tantos pontos numa das partes como em todo o segmento. Se construirmos, a partir do segmento, um quadrado, haverá tantos pontos sobre o segmento como na superfície do quadrado. Se se construir um cubo, haverá tantos pontos no segmento como em todo o volume do cubo. Se construirmos, a partir do cubo, um sólido de quatro dimensões, um tessaract, haverá tantos pontos no segmento como no volume de quatro dimensões do tessaract. E continua assim até ao infinito.

Nesta matemática do transfinito, que estuda os aleph, a parte é igual ao todo. É perfeitamente demencial, se nos colocarmos no ponto de vista da razão clássica, e no entanto é demonstrável. Também é demonstrável o facto de que, se se multiplicar um aleph por qualquer número, chega-se sempre ao aleph. E eis as altas matemáticas contemporâneas a juntarem-se à “Tábua de Esmeralda” de Hermes Trimegisto (“o que está em cima é igual ao que está em baixo”) e à intuição dos poetas como William Blake (todo o Universo contido num grão de areia).*

Só existe um único processo para passar além do aleph, é elevá-lo a uma potência aleph (sabe-se que A potência B significa A multiplicado por A, B vezes e, da mesma forma, aleph à potência aleph é outro aleph).

Se se chamar ao primeiro aleph zero, o segundo é aleph um, o terceiro aleph dois, etc. Aleph zero, já o dissemos, é o número de pontos contido num segmento de recta ou num volume. Demonstra-se que o aleph um é o número de todas as curvas racionais possíveis contidas no espaço. Quanto ao aleph dois, ele corresponde a um número que seria maior que tudo o que se pode conceber no Universo. Não existem no Universo objectos em número suficientemente grande para que, ao contá-los, se chegue a um aleph dois. E os aleph estendem-se até ao infinito. O espírito humano consegue, portanto, ultrapassar o Universo, construir conceitos que o Universo jamais poderá preencher. É um atributo tradicional de Deus, mas jamais se imaginara que o espírito pudesse apoderar-se desse atributo. Foi provavelmente a contemplação dos aleph para além de dois que tornou Cantor louco.”

* Fernando Pessoa, pela voz de Alberto Caeiro, no poema que começa: “Tive um sonho como se fosse uma fotografia”, também escreve: “E como se cada pedra fosse todo o Universo”.


Texto retirado de “O despertar dos mágicos”, de Louis Pauwles e Jacques Bergier, Bertrand Editora, 2009, pág. 475

sexta-feira, 25 de março de 2011

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 52


António Carlos Carvalho

O Japão vive comigo desde que me lembro. Graças a um senhor respeitável e venerável chamado Wenceslau de Moraes. Na biblioteca do meu avô havia alguns livros dele, que folheei e li com imensa curiosidade. Foi então que o Japão entrou em mim e ficou até hoje. Li aquelas páginas cheias de admiração, de devoção por um país amado e entendi perfeitamente as razões para aquele exílio voluntário de um homem que amava a beleza.

Mais tarde, fui coleccionando livros escritos por japoneses ou por outros apaixonados pelo Japão. Narrativas de viagens, romances (Kawabata, Mishima), poemas (a arte do Haiku cativou-me), ensaios como «Elogio da Sombra» de Junichiro Tanizaki, mas também as imagens sublimes de Hokusai ou de Utamaro. E os filmes de Akira Kurosawa, evidentemente.

Claro que percebi rapidamente que o «meu Japão» (e o deles) já não existia, a não ser como memória e saudade. O vento de loucura que soprou na Segunda Guerra Mundial e a consequente «americanização» que se lhe seguiu (se não podes vencê-los, junta-te a eles…) fizeram desaparecer a alma do Japão antigo -- aquele que nós, portugueses, descobrimos e demos a conhecer ao mundo (através de Fernão Mendes Pinto, Luís Frois, João Rodrigues, entre outros -- Armando Martins Janeira explicou isso muito bem). O mesmo Japão a quem também revelámos o sortilégio das armas de fogo, infelizmente… E que a esquadra do comodoro Perry abriu à força ao mundo ocidental e moderno em 1854 (o verdadeiro princípio do fim).

Ou seja, exceptuando algumas almas boas e antigas que ainda lá existam, na clandestinidade, o Japão de hoje é somente uma tresloucada sombra (a que não é possível fazer qualquer elogio…) de si próprio. Como se viu agora, como ainda estamos a ver, com aquela tragédia em vários actos: primeiro o sismo violentíssimo, depois o tsunami diluviano, finalmente a insanidade das centrais nucleares descontroladas que ameaçam tornar irrespirável o próprio ar que se respira, envenenar a água que se bebe ou os alimentos que a terra dá.

Como é possível que um país de tanta sabedoria antiga, que sofreu o horror de duas bombas atómicas, tenha sequer alguma coisa a ver com o «nuclear»? Essa é a nossa perplexidade.

Que talvez se explique apenas pela perda da alma.

E como existe uma relação estranha, misteriosa, entre o Japão e Portugal, esses dois extremos, Extremo Oriente e Extremo Ocidente (relação que os japoneses sentem ainda muito bem, mas nós nem sequer, em crescente perda de memória), eis que também por cá se vivem as consequências tremendas da perda da alma -- do sentido da nossa razão de ser neste mundo.

No Japão, como se fossem sinais divinos, os quatro elementos revoltaram-se e fizeram-se sentir da pior maneira, à maneira de avisos tremendos: acordem!

Em Portugal, também terra de sismos, também terra antiga e de saber antigo, mas igualmente de alma perdida no meio dos «ventos da História», vivemos outras espécies de sismos e tsunamis, pelo menos por enquanto, como se também eles fossem avisos sinais para acordarmos e vermos e ouvirmos -- e entendermos, por fim, o que nos espera se não mudarmos de vida, de rumo.

Está na hora de nos perguntarmos, japoneses e portugueses, o que andamos a fazer neste mundo. Foi para «isto» que nos construímos e constituímos enquanto nação?

Se não respondermos a esta pergunta terrível, corremos o risco de que um outro «kamikaze» («vento divino») nos varra definitivamente deste mundo.

Entretanto, vêm-me à memória os versos de Issa Kobayashi (1763-1827):

«Neste mundo
Por cima do inferno
Contemplo as flores»

«Uma gota de orvalho
A vida Uma gota de orvalho
E contudo…»

quinta-feira, 24 de março de 2011

É JÁ ESTE SÁBADO...

Congeminações - I Ciclo de estudos em homenagem a António Telmo, subordinado ao tema "Ortodoxia e livre-pensamento" começa no próximo sábado, 26, pelas 15 horas, na Biblioteca Municipal de Sesimbra, estendendo-se até Novembro.

O programa de sábado é o seguinte:

- Lançamento do sétimo número da revista NOVA ÁGUIA: Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP)

- Apresentação do livro "A Aventura Maçónica – Viagens à Volta de Um Tapete" (Zéfiro), de António Telmo, por Luís Paixão

- Conferência: "António Telmo, Fernando Pessoa e a rectificação da Maçonaria", por António Carlos Carvalho

quarta-feira, 23 de março de 2011

terça-feira, 22 de março de 2011

EXTRAVAGÂNCIAS, 129



Sono com fim


Cynthia Guimarãs Taveira

Não ter nada para dizer
Nem da vida
Nem da morte
Embaladas estão as hostes
Massas loucas
Em direcção a nada

O sono é doce
E os jogos lúdicos
A música aninha-nos
O sono é doce

Acordar para dormir
Dormir para dormir
Sonhar para não Sonhar
Existir para não se ser
Existir brevemente
Muito breve
Como um golpe rápido de rins
Entre o vazio e a existência

Olhar os olhos dos outros
E ver vazios os poços
Que se queriam lagos
Plenos de peixes coloridos
Atarefados, atentos

Olhar esse sono de frente
Dia a dia, rastejo a rastejo
Esse desaparecimento progressivo
Do relâmpago da arte

Dormir e não mais saber
De fogos e sofrimentos
De gerações e publicações
Esquecer primeiro para adormecer
Adormecer em esquecimento

A memória só atrapalha
Nesse percurso que vai
Da sala ao quarto
Como dantes o sono atrapalhava
O caminho entre a terra e o mar
Onde nos esperava a viagem forte
De sentidos apurados, despertos
Irrequietos, gritantes, espantados
Com olhos maiores que o céu
Onde dantes a perfeição parecia
Tão perto




ACORDAR porque sim
Sem razões, desculpas ou justificações
Rebelar, ser,
Andrajar em palácios
Conseguir colher rosas vivas dos capiteis
Sofrer por amor
Transformar o pó em água viva

Falar com os anjos de novo
Até que estejam cara a cara
Até que se apaixonem de novo por nós

Porque a sintonia é uma questão de vontade
E de acordo e de acordar
Acordar
Ouvir o som do sino
Como um milagre
Ir buscar a espada
E poli-la
E lavar os cabelos
E soltá-los ao vento
Ir à procura para além do poluído
Do sujo, do lixo
Acordar sem culpa
Que a mácula é só o sono

Voltar ao templo
Envolto em nuvens
Desnivela-lo com a realidade
Torna-lo real assim
Desnivelar a angústia com o coração

Voltar à pedra, à madeira, ao fogo
À água.
Usar as mãos e respirar o ar
Voltar, escarnecer se for preciso
Os anjos também escarnecem

Voltar a pisar fortemente o chão
E sentir o vulcão que brota do coração

Desenrodilhar os cavaleiros
Das teias de trevas
Deixar o palácio
Inclinar-nos para esse templo
Criar uma cidade nova
Bem no interior do nosso país interior
Voltar ao bom gosto
À estética
À beleza
A uma inteligência cheia de luz
E compaixão

E deixá-la num báu
Se for preciso
E enviar por correio à hora da morte
Entregue ao portador
A Deus
A um berço de palha levado pela corrente

Acordar e deixar obra
Apenas isso
Que o sono é pedra bruta
Lado a lado a um templo maior.

domingo, 20 de março de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 15



O sorriso sério

Alexandra Pinto Rebelo

Em Portugal existem hábitos terríveis. São tiques vindos não se sabe muito bem de onde nem porquê e que acabam por fazer escola. Um desses hábitos tenebrosos é o associar-se a seriedade do trabalho intelectual às expressões faciais sérias e pouco sorridentes bem como às palavras sem graça.

Talvez este costume tenha sido adoptado depois de se estabelecer, durante toda a Idade Média, principalmente, que Cristo nunca tinha sorrido. Talvez a sua origem ainda seja mais remota no tempo, tendo em conta que Aristóteles entendia que tanto a Tragédia como a Épica eram géneros superiores à Comédia.

O que é certo é que nos fomos habituando à ideia de que os sorrisos revelam uma tolice indisfarçável, ao passo que as palavras sérias e ponderadas são sinónimo de introspecção e inteligência superior.

Estes traços têm adquirido um peso excessivo, também, entre aqueles que escrevem sobre história. O passado, apoiando-nos em Aristóteles, pode ser trágico, ou épico, mas nunca cómico.

Desta forma, não pode deixar de nos causar algum espanto, a forma de escrita de alguns autores de origem anglo-saxónica. Para eles, a história é o que é, complexa como a vida humana, percorrendo todas as variáveis possíveis. Escrevem história, de uma forma diferente da qual estamos habituados, trazendo-nos o passado não como foi, pois isso é impossível (segundo um provérbio chinês, “O passado é verdadeiramente imprevisível”), mas como pode ter sido, incluíndo a comicidade a que nenhum momento histórico conseguiu escapar.

Nesta linha, Tom Holland surge como entre aqueles que mais livros tem vendido entre nós. O Rubicão e Milénio são bons exemplos daquilo que acabo de referir.

Mas gostaria de citar, não Tom Holland, mas outro autor anglo-saxónico, Jonathan Wrigth, nas primeiras linhas da sua obra Os Jesuitas. Falar sobre os jesuítas é, geralmente, um assunto sério. Pressupõe uma leitura igualmente séria, de acordo com os nossos costumes. Mas Wright começa por nos quebrar imediatamente. O rigor histórico não tem a haver com a falta de sorrisos, nem com o tratar de assuntos do passado como quem assiste ao velório de um ente querido. Ouçamo-lo:

“Em 1554, segundo narra a história, uma aristocrata portuguesa arrancou com os dentes o dedo menor do pé direito do cadáver de Francisco Xavier. Foi um acto de profunda devoção, ainda que algo repulsivo: o muito viajado dedo de Xavier tornou-se uma relíquia sagrada digna de ser possuída.”

Depois disto, o passado nunca mais pode ser o mesmo.

quarta-feira, 16 de março de 2011

LANCES E RELANCES, 1



A arte de conversar e o sentimento da natureza no pensamento português
(a propósito de um sismo)

Eduardo Aroso


Um sismo deve fazer-nos cismar. Os recentes e chocantes acontecimentos verificados no Japão não podem deixar de nos levar de novo à reflexão sobre a relação do Homem com a Natureza. Sendo certo que variados são os modos pelos quais podemos abordar o assunto, importa-nos, como é de esperar, tocar aquele ponto onde o ser humano deve encarar a “mãe cósmica” como ente, ao contrário de a tomar enquanto meio utilitário, tão ao gosto do materialismo, mesmo que disfarçado de melosas justificações em nome do progresso.
O sucedido, nestes dias de Março, antecedendo mais uma Primavera que se espera seja também nas consciências, e que convergiu catastroficamente numa explosão nuclear, fará, por certo, com que a alma humana se torne mais contrita para uma sincera interrogação. Se a história da escravidão humana é deveras tenebrosa - seja qual for o campo de observação, marca de uma humanidade ainda no percurso que aspira à luz -, quando um dia se escrever a história da escravidão a que o Homem tem sujeitado a Natureza, estaremos então no átrio de um novo Génesis.
A referida catástrofe levou-nos a meditar em duas realidades do pensamento português, aparentemente desligadas, mas de facto entranhadas num lusismo galaico-atlântico e ainda de certas maresias mediterrânicas. Uma delas, citada numa das cartas de António Telmo a Pedro Sinde, refere-se à arte de conversar; a outra é a do nosso proverbial sentimento da Natureza, se exceptuarmos certo furor municipalista hodierno e muito especialmente turístico, de a sujeitar a caprichos vários em nome do progresso. Mas como é que o gosto de conversar e uma particular e íntima comunhão com a Natureza podem estar entrelaçados?
Sobre a carta de António Telmo a Pedro Sinde, lemos o seguinte excerto: «Não sei se o Pedro já reparou em que os nossos grandes poetas e filósofos se caracterizam, por um dos seus lados, pelo prazer de conversar» (…) Todavia, estamos sozinhos. O lugar do diálogo é nas montanhas. 27-04-2008». Recorde-se que o prazer de conversar, muito provavelmente resultante da necessidade do movimento do pensamento, herdámo-lo da Grécia antiga, no passeio do mestre e do discípulo. Ele faz descobrir calendários e relógios diferentes. Aqui é caso para perguntar se é (também) esta a dimensão que Pessoa atribui ao derradeiro verso de Mensagem «É a hora». Seria ainda o mesmo relógio que Agostinho da Silva olhava para dizer que «o tempo dá-o Deus de graça»?
Quando o filósofo de Estremoz remata a carta dizendo «todavia, estamos sozinhos. O lugar do diálogo é nas montanhas» só pode significar a solidão do homem contemporâneo perante a Natureza interior, pois, no que respeita à exterior, sabemos nós a ênfase com que a ela se agarra não a podendo ter, mutilando-a, plastificando-a, ou incutindo-lhe horrorosas excrescências. E já que falámos do Japão, não sabemos que relação haverá entre tudo isto e a oposição entre a chamada «tecnologia de ponta» nipónica e a sua quase veneração da tradição e da família. Em Portugal, os guias dos monumentos sabem que o maior número de visitantes estrangeiros orientais é japonês, e quanto mais antigo o monumento, mais isso se observa.
Para além do que se pode especular quanto às forças da natureza sob a forma de catástrofes como reflexo de desajustado viver humano, tanto quanto sabemos, pela primeira vez na História, nos recentes acontecimentos do Japão estamos perante o efeito directo e imediato de uma força imensa da Terra que também faz explodir um reactor nuclear com terríveis consequências. Este é um ponto de ruptura onde cabe a já conhecida expressão «cisão extrema» aplicada aqui ao ser humano no seu meio ambiente natural, fruto de uma relação interior e exterior cada vez mais desajustada. A lucidez de Sampaio Bruno levou-o por certo a enfatizar uma vivência titânica e essencial do homem com o homem, mas também deste com e para a Natureza.
O nazismo e o comunismo, por exemplo, foram no campo social e político uma cisão extrema onde podemos encontrar certa correspondência com uma filosofia sem Deus, isto é, em que a razão ao invés de ser a «razão animada» como pretende Álvaro Ribeiro, se transforma numa razão fora de toda a alma, esteja ela num país ou espalhada por várias culturas, ébrias todavia do mesmo mórbido materialismo.
Naquele jeito de Frei Agostinho da Cruz, nas suas belas e caridosas palavras «Verei o Criador nas criaturas», Portugal só se pode agarrar à Natureza, seja pelo lado de fora, seja pelo lado de dentro. À cor azul do mar atlântico que espelha o céu, no dizer do poeta, corresponde uma outra, a do centro do mundo, para a qual também sempre nos movemos. À mais antiga nação da finisterra, ao invés da cisão da terra e do mar, nesta «nesga de terra debruada» coube-lhe a sorte ou o Fado de ser lugar ou leito do sonho. «Deus quis que a terra fosse toda uma,/ Que o mar unisse, já não separasse». Guarde-nos o Arcanjo de funestas cisões entre nós e a mãe-natureza, para que brilhem ainda, no azul exterior do céu e no interior do mistério, os versos de Pessoa, como se quisessem dizer-nos que o nosso pensar-agir é o de unir Homem e Natureza, o Homem com o seu irmão, em espírito fraterno de «vida conversável».

Quase equinócio da Primavera de 2011
Eduardo Aroso

domingo, 13 de março de 2011

EXTRAVAGÂNCIAS, 128


Pinturas de Séraphine de Senlis

Séraphine

Cynthia Guimarães Taveira

Séraphine.
Séraphine de.
Séraphine de Senlis.
Escrevi assim de propósito porque Séraphine, que me apareceu no Sábado à noite, na RTP 2, começou por ser apenas um nome e uma pessoa daquelas que diríamos ser insignificante, com pouco significado, sem grande importância. Uma entre muitas anónimas, nascida em 1864, filha de gente pobre, com pouca ou nenhuma instrução. Órfã aos sete anos, seria educada num convento, onde acabaria por ser servente, mulher para os serviços domésticos. Séraphine lava o chão e limpa as cozinhas e, debruçada sobre o rio, bate a roupa branca a troco de algumas moedas que pouco ou nada valiam. Toda a vida serviu. Toda a vida não teve tempo. Havia a noite, no entanto. E as velas que a poderiam iluminar. E havia a lembrança dos trajectos que durante o dia fazia pelo campo. De casa em casa para servir, da casa para o rio para lavar. E, nesses trajectos ouvia, via e sentia a natureza. E, de noite, lembrava-a com uma outra luz. A luz das velas e a luz interior que havia nela.
Uma força, um impulso, uma tonteria, uma pulsão, uma vontade, um desejo, tudo isto e também um quase sem-querer levaram-na aos pincéis, aos cânticos sagrados, a escutar os anjos que lhe diziam: Pinta.


Séraphine de Senlis


E ela pintou. Primeiro em bocados de madeira, depois em telas com dois metros.
Um coleccionador olhou uma vez para a sua obra, ainda em pequenas dimensões, ainda um pouco tosca, pintada em placas de madeira com cores que só ela sabia onde as procurar: pigmentos da terra, sangue dos talhos, cera das velas das igrejas. Tudo o que ganhava era para o pequeno luxo de pintar. O coleccionador olhou para ela e disse-lhe: - Tens talento, mas tens de trabalhar muito para seres ainda melhor. Nessa altura Séraphine passou a ser Séraphine de.

A guerra de 1914 separou-os. Ele, alemão, não poderia continuar em França. Ela, ainda pouco significante, lá foi vivendo duas vidas: a de dia e a de noite. Para ela tudo estava trocado: o dia que levava eram as suas trevas de escrava; a noite, a sua luz de liberdade.
Pintou só, em segredo, fechada no seu quarto escuro, durante muitos anos.
Em 1927 o coleccionador voltou e viu, e admirou, e levou a sua obra para Paris, e aí a vendeu. Séraphine já podia comprar um vestido branco de seda, e alugar mais do que um pobre quarto. Mas o vestido branco era de noiva, e assim vestida se passeou pelas ruas da aldeia, e assim vista, meia louca, pela vizinhança assustada, acabaria por ser internada num manicómio, falando dos anjos que vinham aí.
Morre em 1942, num hospício. Morre louca? Ou era a vida dela que foi demasiado louca para ela?
Séraphine morre e, passados uns anos, passa a ser Séraphine de Senlis. Já não era insignificante. Já tinha significado.

Pinturas de Séraphine de Senlis

E a natureza que deixou era a sobrenatureza que havia na natureza.

Séraphine lava o chão/Séraphine pinta flores que não existem.
Séraphine cozinha/Séraphine faz com que as flores se movam na tela.
Séraphine torce a roupa no rio/Séraphine explode em alegria na cor.
Séraphine nada sabe/Séraphine tudo sabe.
Mas como? Perguntava o coleccionador. Como é que, sem instrução, sem cultura, sem acesso às escolas de pintura, às exposições, tem essa vontade de pintar?
São os anjos que me mandam, respondia Séraphine, olhando para o céu.
Séraphine abraçava as árvores como amigas, gostava de sentir o vento no rosto, gostava de tomar banho nua no rio, admirava as flores. O profeta Elias descobriu que Deus estava na brisa que passava… e alguns também o descobrem.

Se alguns, depois de sofrerem as agruras de duas bombas atómicas, persistem em construir reactores nucleares, e constroem-nos depois de muito estudarem, de muito saberem, de muitas gravatas usarem, outros há, assim, como Séraphine, que nada estudaram, que nada sabem de física nuclear, mas que tudo sabem sobre a natureza e que, por isso, a amam, a estimam e a vivificam em arte. Só não vê quem não quer.

(Texto escrito depois de ter visto o filme “Séraphine”, com a realização de Martin Provost e a magnífica interpretação de Yolande Moreau)

NOVAS CARTAS...

Em http://antoniotelmo.wordpress.com/

Publicadas por Pedro Sinde

quinta-feira, 10 de março de 2011

EXTRAVAGÂNCIAS, 127



Einstein ainda é um bebé

Cynthia Guimarães Taveira

Provavelmente seria uma mentira construída meticulosamente pela sua mente em consequência dos fragmentos dos seus próprios sentimentos, mas soava-lhe a verdade, a única que se poderia ter numa era pós Einstein. Teria sido este cientista a ditar, sem que, provavelmente, o soubesse, as leis com que as sociedade ocidentais se iriam governar. A relatividade, em termos visuais, surgia-lhe como um fogo de artifício, cujo brilho e a alegria escondiam o eclipse do próprio tempo ou o tempo na sua verdadeira essência, como aquilo que “passa e não fica”, nas palavras de Fernando Pessoa. Vivia, estava certo, na Era do predomínio do tempo sobre o espaço. As antigas civilizações reinventavam o espaço, com seus grandes monumentos, desde os menires aos templos dos faraós, desde as estradas romanas até às catedrais góticas e o último esforço dessa viagem pelo espaço foram os Descobrimentos, em que, pelo excesso de espaço, se entrou numa nova época, sem que disso os descobridores de novos mundos se apercebessem (mesmo que muitos desses novos mundos fossem já conhecidos) , a época do tempo marcada de forma absoluta pela ideia de “progresso”do século XIX. O progresso faz-se no espaço com a tecnologia mas é o tempo que o força e o impulsiona. O progresso é uma consequência do tempo, a tal ponto que se pode afirmar que o progresso é uma consequência “natural” do tempo. A tecnologia entra, assim, no domínio da natureza porque naturalmente acontece, naturalmente é a única coisa que pode acontecer. E o progresso, bem como os valores, passam e não ficam, como um rio.
Tradicionalmente, em termos simbólicos, mas também porque a natureza assim o ditava, o tempo estaria ligado ao aspecto feminino da natureza e o espaço ao lado masculino. Daí que René Guénon tenha sido levado a dizer que vivemos numa época predominantemente feminina e que isso constituiria um consequente afastamento da “Tradição”, ou vice-versa, ou seja, o afastamento da “Tradição” tinha como consequência um predomínio do aspecto feminino sobre o masculino. É de facto com esta nova Era que a mulher vai ter acesso àquilo que, em termos práticos, fazia parte do universo masculino: o acesso à educação formatada academicamente, o acesso à livre iniciativa em todos os domínios: desde o sentimental passando pelo profissional e acabando no acesso ao próprio sacerdócio, campo antes confinado ao interior do lar com a passagem de histórias tradicionais aos filhos e netos, ou no acesso à vida religiosa sem que a palavra pudesse mover massas, como se dava com o caso dos homens. O sacerdote é aquele que fala para os outros e que está, de alguma maneira, incumbido de um poder espiritual que dele emana e cujas acções têm influência na vida dos seus contemporâneos. Já a santidade é outra coisa, pois a influência ultrapassa a esfera do contemporâneo, podendo um santo medieval influenciar acções, sentimentos e pensamentos por muitos séculos. A santidade está para além da questão sexual.
Com este predomínio do eclipse ou essência do tempo no qual as variáveis são sempre superiores às constantes, corre-se o risco de uma Idade das Trevas. Se é dito comummente que a Idade das Trevas medieval o era devido à pobreza, à falta de cultura, a uma submissão a uma religiosidade com contornos demasiado supersticiosos, à ausência quase total de tecnologia e conhecimentos médicos, à ausência de direitos humanos, ao papel reduzido da mulher, a um poder selvagem dos grandes senhores sobre os escravos, às guerras que facilmente explodiam em todos os lugares da Europa, enfim, ao passear constante dos quatro cavaleiros do apocalipse pelas florestas, aldeias, vilas e cidades, hoje todos esses problemas existem com maior ou menor força à escala mundial. Vivemos na Idade das Trevas, mas esta é mais real do que a outra, porque, cegos, nos convencemos de que derrotámos os quatro cavaleiros do apocalipse, que estes nunca mais voltarão para nos ensombrar a vida e, no entanto… seus cavalos, suas espadas, suas capas luzem no ar mais intensamente do que nunca: a pobreza continua a existir em grande escala, até porque a população mundial aumentou exponencialmente, a Internet não trouxe cultura, o ensino é pobre (saber ler e escrever não é o mesmo que a literacia), a espiritualidade é algo de muito confuso hoje, em que as seitas, igrejas, espiritualismos vários convivem lado a lado com a intolerância e os mais variados fanatismos, os conhecimentos médicos que existem são submissos ao negócio das farmacêuticas, os direitos humanos em muitos países não são tidos em conta, as mulheres ainda necessitam de um dia que lhes seja dedicado para serem lembradas, a natureza, essa, novidade das novidades, neste percurso tenebroso da História, nunca foi tão mortificada em nome da tecnologia, há mais escravatura hoje no mundo tanto em número de escravos reais (segundo dados estatísticos recentes) como em escravos dos sistemas políticos e económicos, e as guerras, essas, continuam alegremente, com duas Mundiais para rematar bem, esta sim, a verdadeira Idade das Trevas.
A única possibilidade de luz está no facto de nos darmos conta de que não a temos nem a vivemos. E de que a luz está para além do espaço e do tempo. Os alquimistas sabiam desde há muito que não são as mesmas circunstâncias que criam os mesmos fenómenos, ou seja: com as mesmas condições poder-se-ão dar fenómenos diferentes e com condições diferentes poder-se-ão dar fenómenos iguais. Eis a verdadeira relatividade, aquela do Espírito e não a relatividade materialista em que vivemos, que acaba por não ser relativa coisa nenhuma, antes preocupantemente previsível.

quarta-feira, 9 de março de 2011

EXTRAVAGÂNCIAS, 126



Eduardo Aroso

CINZAS DO ESTADO, DOCE ESPERANÇA E O PORTUGAL DESEJADO

«Quando se espera muito tempo pode acontecer
aquilo que só raramente acontece».

Palavras de Musil,
citadas em artigo de João Bénard da Costa

Por mais confuso e duro que seja à nossa compreensão, só uma pátria que esteja destinada à sua inteira redenção (e, assim, necessariamente ao contributo na redenção do mundo) terá também que sentir o amargo fado na afronta e humilhação aos seus valores mais profundos que, diga-se, são pertença intemporal do Povo e não matéria para capricho leviano de decisões governamentais. Antes do incenso que eleva, o lento e doloroso fel; antes do coro dos heróis do espírito, as vozearias das gargantas efémeras; antes do Fado mais alto, o fado batido, corrido e gemido.
Não admira pois que países impulsionadores de civilização, como Portugal, Espanha e Grécia, neste ciclo mais baixo da História movido pelo materialismo da ideia sem ideal, estejam naquela condição dos actuais servos da gleba dos plutocratas cuja morada é em parte incerta. Resta-nos, ou melhor, acreditamos - sem restos de coisa alguma - na esperança bíblica quando nos fala dos últimos que serão primeiros. Também «o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça", todavia deixou o mais belo epitáfio sobre a morte, isto é, o poema à imortalidade.
Há certamente o desejado e o indesejado em cada um de nós; o que nos eleva e o que nos rebaixa. Portugal tem sido muito pródigo em figuras indesejadas, da política à cultura, passando pelas mais variadas actividades. Entenda-se a palavra naquilo que ao país, à nação e à pátria não importa. Por isso não espanta que se tenha criado um complexo cultural e social do Desejado, sendo motivo de riso ou desdém - mormente pela mainstream dos intelectuais portugueses. O alerta para este estado enfermiço já foi lançado por alguns, nesta frase resumida: «um país que não se pensa, não merece existir».
Antes, com e para além do pensamento especulativo, ou de uma «razão animada», como diria Álvaro Ribeiro, a esperança enquanto virtude tem um sentido, e se não apenas no plano religioso e confessional, para não corrermos riscos, deve, pelo menos, ser buscada no plano mítico. Durante séculos, a esperança foi massivamente procurada na doutrina das igrejas, fossem elas quais fossem, mas, na sua secularização, ela tem sido transferida para a política, onde, habilmente, a mostram atraente sem igual: mais certa que a salvação para sempre, a salvação eterna, apresenta-se ela a curto prazo para cerca de quatro ou cinco anos, voltando depois a aparecer sempre mais atraente.
Hoje é quarta-feira de cinzas, estado em que parece estar sempre Portugal, mas sempre com mais cinzas a cada dia que passa. Se não acreditássemos no mito da Fénix, não poderíamos estar na condição que, felizmente, abraçamos: ver já o voo libertador da Fénix renascendo, esse pássaro de fogo que nos recorda a frase de Agostinho da Silva «as línguas de fogo varrerão a Terra» no mesmo espírito de Joel «E há-de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões» (2:28).
Curiosamente, na frase de Musil, «quando se espera muito tempo pode acontecer aquilo que só raramente acontece», pode estar a nossa esperança. Ela é susceptível de conter tanto um princípio científico, seja o da indeterminação ou da incerteza de Heisenberg, da mesma maneira que uma sentença bíblica, tal aquela que compara o dia da vinda do Senhor como um ladrão que aparece de súbito dentro da escuridão. Quem virá então na noite escura da nossa lógica pouco clara, da nossa visão que porventura ainda não decifrou a «Hora», da nossa certeza da manhã presa ainda à «noite untuosa», como lhe chamou o poeta brasileiro Jorge de Lima?

9 de Março de 2011 (quarta-feira de cinzas)