(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



quinta-feira, 31 de março de 2011

O CAMINHO DO CAMINHO



Dupla Vida

Cynthia Guimarães Taveira

Sabia ser comummente dito que as mulheres tinham hoje mais trabalho que nunca, pois se dantes geriam apenas a família, agora geriam a carreira e a família num desdobramento que toca o sacrifício. Confessava de si para si que a carreira era apenas uma ilusão de prestígio, que no fundo nada mais era do que uma visão desfocada da ascensão aos céus. A família, por seu lado, era sempre um terreno movediço e difícil. Por um lado, de uma importância que tocava o sagrado, por outro, uma ilusão de identidade.

Ainda assim vivia entre dois mundos violentos e exigentes. Um dia seu era um acto de equilibrista num ténue fio de seda. De um lado as solicitações do trabalho, das horas a que deveria chegar com precisão a determinado local, dos papeis que tinha de preencher, dos ofícios, das iniciativas privadas e públicas, das consultas, das reuniões, das preocupações, dos mal-entendidos, das refeições que tinha de comer e preparar, dos empecilhos e “atrasos de vida”, da poluição, da solidão dentro do carro numa estrada deserta de alma, do barulho, da falta de estética, da falta de arte e de silêncio, dos impostos, da dívida pública que era apenas a divida particular dos maus gestores do e no estado, da crise, do esquartejamento provocado por terramotos e a nítida sensação de se encontrar na rampa final do tempo de uma civilização caduca e enganadora.

Do outro lado, outro mundo, carregado de apelos, sinais, exigências, coincidências, diabretes e anjos misturados nas mesmas faces, as solicitações da poesia e suas musas que o provocavam onde menos esperava, na fila do supermercado, na passagem por um jardim a caminho de um encontro mais-do-que-urgente com o contabilista. Musas belas que o envolviam em belas palavras e encantos e o puxavam para fora da realidade obtusa em que era obrigado a viver. As solicitações dos sinais e coincidências que não o largavam numa teimosia aplicada: atenta nesta imagem, vê como se repetiu ao longos dos últimos dias. Atenta nesta palavra, vê como repetidamente ela te aparece, fora de toda a lógica, pela voz de um amigo, pelo noticiário da televisão, por uma criança que passa e a diz. Caminha por dentro de ti e da tua história e não te atrevas a parar de caminhar, porque isso é o sono e o sono é um atentado contra o espírito. Gritava-lhe o universo de dentro e de fora nas horas mortas em que o mundo profano se cala, mesmo por poucos segundos que esse silêncio durasse. Gritava-lhe: sê aventureiro e não temas a morte! Olha para os cavaleiros antigos e para as suas lutas com o dragão. E ouve a voz das pedras, e lê este livro e mais aquele porque está ligado ao anterior, e cria, desenha, corrige, pensa e repensa, volta atrás, faz o mais possível uma arqueologia interior e projecta-se num tempo sem tempo, ou num tempo com todo o tempo. E morre, morre, actua como se fosses uma criança, a derradeira criança do mundo, pulando nas pedras pretas e brancas num jogo de xadrez a quatro dimensões.

E vê os símbolos e desvenda-lhes a alma, mas não faltes ao trabalho e às reuniões e ao pagamento da segurança social, e vai buscar o teu amigo que precisa de boleia. E dorme e deixa-te ir nos sonhos que não são sonhos, e renasce todas as manhãs se faz favor, com dores ou sem elas, com dúvidas ou sem elas. (as dores são a dúvidas do corpo).

E balançava no fio, assim, periclitante, dia após dia, não sabendo bem qual o mundo mais forte e qual aquele pelo qual haveria de responder quando estivesse perante a sua própria consciência projectada num céu infinito de estrelas. Assim era a sua vida dupla, rica e opulenta, sem miséria, contemplando toda a miséria do mundo.

PERDIGÃO OU PORTUGAL?



Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.

Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.

Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado;
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.

Luís de Camões

quarta-feira, 30 de março de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 16


Alexandra Pinto
Rebelo
Diálogos improváveis
As guerras transformaram-se naquilo que são hoje. Batalhas rápidas, dentro de conjuntos maiores chamados guerras, onde os inimigos não se olham nos olhos, nem tão pouco sabem quem são. Para nós, o desconhecimento do outro, alivia essa coisa tenebrosa que é matá-lo.
Bem diferentes eram as batalhas medievais. Depois do cerco montado, seguiam-se meses de escaramuças, de insultos de parte a parte, de diálogos improváveis junto às muralhas onde uns e outros expunham os seus pontos de vista.
Encontramos um desses diálogos improváveis na Carta de Osberno, escrita por um cruzado inglês que ajudou a conquistar Lisboa aos ditos mouros. Numa parte do texto, este descreve os insultos que sofreu, juntamente com os companheiros, durantes os dias e noites que estiveram de guarda no sopé das muralhas. Um desses insultos era uma crítica à teologia católica, acompanhada pela visão islâmica de Deus e de Cristo. Ouçamo-lo:
“(...) em arruídos e palavras injuriosas e insultantes, afrontavam constantemente a Santa Maria, mãe do Senhor, amesquinhando-nos porque adoramos com tanto respeito, como a um Deus, o filho de uma pobre mulher, e dizemos que é Deus e filho de Deus, quando é evidente que há só um Deus, por quem foram criadas todas as coisas que têm princípio; que não pode existir outro que lhe seja coeterno e participante na divindade; que Ele era a suma Bondade, Perfeição e Omnipotência, e que, sendo omnipotente, era indigno e blasfemo restringirmos a um corpo humano e à forma dos membros o tam grande poder duma tam alta divindade; que nada julgavam mais insano e contrário à nossa salvação do que acreditarmos em semelhantes coisas; e perguntavam-nos porque não afirmavamos antes que esse filho de Maria era um dos maiores profetas, já que ao homem não é lícito usurpar o nome de Deus.”
Ao contrário do que foi exposto ao longo de séculos de história escrita, o mundo medieval não era composto por tribos distantes e incomunicáveis, nem a informação sucolenta estaria reservada apenas aos receptivos e benevolentes templários do Oriente. Nesse tempo, vivíamos paredes meias com os outros. Eram os nossos vizinhos, literalmente, tendo-nos ficado na memória, até hoje, a noção doce do que representa esse conceito de vizinhança. Para entrar em contacto com os segredos sufis, não era necessário ir em combate ou em peregrinação para o Médio Oriente, ou ser aceite na restrita Ordem do Templo. Muito possivelmente, a alguns, bastava subir a rua e entrar na casa do seu vizinho, aceitando a comida, sempre oferecida como sinal de hospitalidade, acedendo em participar nas festas da comunidade.
Este cruzado desconhecia por completo esta vizinhança saudável que acontecia dentro dos muros das cidades muçulmanas. Vindo do norte da Europa, este desconhecimento é completamente desculpável. Mas aqueles que agora começavam a ser portugueses, D. Afonso Henriques e os seus, sabiam por certo que, lá dentro, viviam comunidades multiculturais, com grandes grupos de cristãos, como não poderia deixar de ser. Ao que parece, ninguém fez referência a isso aos cruzados. Talvez a atitude dos homens que vinham do norte da Europa, ao sabê-lo, fosse diferente, evitando a crueldade para com os cristãos no momento da tomada da cidade.
Compreende-se assim a surpresa do cruzado em relação à reacção de muitos “mouros” naqueles momentos de pânico:
“(...) outros mouros, vivos, mas semelhantes a cadáveres, arrastavam-se por terra, e suplicantes abraçavam e beijavam o sinal da cruz e proclamavam boa a Santa Maria Mãe de Deus (...)”
Parece que o cruzado, ao espírito da época, conforma-se com a crueldade dessa fase das batalhas (envolvendo mortes, violações, barbaridades de toda a espécie), pois com ela vinha também uma espécie de verdade teológica católica à qual os vencidos se rendiam. O sinal da cruz e o nome de Maria seriam a luz para a qual os vencidos se voltavam inevitavelmente, perdida que estava a sua causa. Mas nós hoje, tal como os que começavam nesse momento a ser portugueses, sabemos que não era assim.
Aqueles que proclamavam o bom nome de Maria eram os católicos que viviam ao lado dos “mouros”. Eram os seus vizinhos que, ao pagarem uma taxa especial, podiam continuar a ser cristãos sem que isso perturbasse a cidade. Aquilo que o cruzado nos diz sem querer, é que no meio da euforia do caos, houve que fazer vítimas tão católicas como aqueles que os atacavam.
E isto tudo no meio do silêncio daqueles que sabiam e assistiam ao massacre, talvez, impassíveis.

terça-feira, 29 de março de 2011

domingo, 27 de março de 2011

ENIGMAS, 5



O Aleph

(Dedicado ao Paulo Santos para quem a matemática também é um caminho)

Os mais importantes, e os mais singulares trabalhos, são devidos ao genial Georg Cantor, que viria a morrer louco. Esses trabalhos, são ainda discutidos pelos matemáticos, entre os quais alguns pretendem que as ideias de Cantor são logicamente indefensáveis. Ao que os partidários do transfinito replicam: “Do Paraíso aberto por Cantor ninguém nos expulsará!”

Eis como se pode resumir, grosseiramente, o pensamento de Cantor. Imaginemos dois pontos sobre esta folha de papel: A e B, distantes de 1 cm. Tracemos o segmento de recta que une A a B. Quantos pontos há nesse segmento? Cantor demonstra que há mais do que um número infinito. Para preencher completamente o segmento é necessário um número de pontos maior que o infinito: o número aleph.

Esse número aleph é igual a todas as sua partes. Se se dividir o segmento em dez partes iguais, haverá tantos pontos numa das partes como em todo o segmento. Se construirmos, a partir do segmento, um quadrado, haverá tantos pontos sobre o segmento como na superfície do quadrado. Se se construir um cubo, haverá tantos pontos no segmento como em todo o volume do cubo. Se construirmos, a partir do cubo, um sólido de quatro dimensões, um tessaract, haverá tantos pontos no segmento como no volume de quatro dimensões do tessaract. E continua assim até ao infinito.

Nesta matemática do transfinito, que estuda os aleph, a parte é igual ao todo. É perfeitamente demencial, se nos colocarmos no ponto de vista da razão clássica, e no entanto é demonstrável. Também é demonstrável o facto de que, se se multiplicar um aleph por qualquer número, chega-se sempre ao aleph. E eis as altas matemáticas contemporâneas a juntarem-se à “Tábua de Esmeralda” de Hermes Trimegisto (“o que está em cima é igual ao que está em baixo”) e à intuição dos poetas como William Blake (todo o Universo contido num grão de areia).*

Só existe um único processo para passar além do aleph, é elevá-lo a uma potência aleph (sabe-se que A potência B significa A multiplicado por A, B vezes e, da mesma forma, aleph à potência aleph é outro aleph).

Se se chamar ao primeiro aleph zero, o segundo é aleph um, o terceiro aleph dois, etc. Aleph zero, já o dissemos, é o número de pontos contido num segmento de recta ou num volume. Demonstra-se que o aleph um é o número de todas as curvas racionais possíveis contidas no espaço. Quanto ao aleph dois, ele corresponde a um número que seria maior que tudo o que se pode conceber no Universo. Não existem no Universo objectos em número suficientemente grande para que, ao contá-los, se chegue a um aleph dois. E os aleph estendem-se até ao infinito. O espírito humano consegue, portanto, ultrapassar o Universo, construir conceitos que o Universo jamais poderá preencher. É um atributo tradicional de Deus, mas jamais se imaginara que o espírito pudesse apoderar-se desse atributo. Foi provavelmente a contemplação dos aleph para além de dois que tornou Cantor louco.”

* Fernando Pessoa, pela voz de Alberto Caeiro, no poema que começa: “Tive um sonho como se fosse uma fotografia”, também escreve: “E como se cada pedra fosse todo o Universo”.


Texto retirado de “O despertar dos mágicos”, de Louis Pauwles e Jacques Bergier, Bertrand Editora, 2009, pág. 475

sexta-feira, 25 de março de 2011

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 52


António Carlos Carvalho

O Japão vive comigo desde que me lembro. Graças a um senhor respeitável e venerável chamado Wenceslau de Moraes. Na biblioteca do meu avô havia alguns livros dele, que folheei e li com imensa curiosidade. Foi então que o Japão entrou em mim e ficou até hoje. Li aquelas páginas cheias de admiração, de devoção por um país amado e entendi perfeitamente as razões para aquele exílio voluntário de um homem que amava a beleza.

Mais tarde, fui coleccionando livros escritos por japoneses ou por outros apaixonados pelo Japão. Narrativas de viagens, romances (Kawabata, Mishima), poemas (a arte do Haiku cativou-me), ensaios como «Elogio da Sombra» de Junichiro Tanizaki, mas também as imagens sublimes de Hokusai ou de Utamaro. E os filmes de Akira Kurosawa, evidentemente.

Claro que percebi rapidamente que o «meu Japão» (e o deles) já não existia, a não ser como memória e saudade. O vento de loucura que soprou na Segunda Guerra Mundial e a consequente «americanização» que se lhe seguiu (se não podes vencê-los, junta-te a eles…) fizeram desaparecer a alma do Japão antigo -- aquele que nós, portugueses, descobrimos e demos a conhecer ao mundo (através de Fernão Mendes Pinto, Luís Frois, João Rodrigues, entre outros -- Armando Martins Janeira explicou isso muito bem). O mesmo Japão a quem também revelámos o sortilégio das armas de fogo, infelizmente… E que a esquadra do comodoro Perry abriu à força ao mundo ocidental e moderno em 1854 (o verdadeiro princípio do fim).

Ou seja, exceptuando algumas almas boas e antigas que ainda lá existam, na clandestinidade, o Japão de hoje é somente uma tresloucada sombra (a que não é possível fazer qualquer elogio…) de si próprio. Como se viu agora, como ainda estamos a ver, com aquela tragédia em vários actos: primeiro o sismo violentíssimo, depois o tsunami diluviano, finalmente a insanidade das centrais nucleares descontroladas que ameaçam tornar irrespirável o próprio ar que se respira, envenenar a água que se bebe ou os alimentos que a terra dá.

Como é possível que um país de tanta sabedoria antiga, que sofreu o horror de duas bombas atómicas, tenha sequer alguma coisa a ver com o «nuclear»? Essa é a nossa perplexidade.

Que talvez se explique apenas pela perda da alma.

E como existe uma relação estranha, misteriosa, entre o Japão e Portugal, esses dois extremos, Extremo Oriente e Extremo Ocidente (relação que os japoneses sentem ainda muito bem, mas nós nem sequer, em crescente perda de memória), eis que também por cá se vivem as consequências tremendas da perda da alma -- do sentido da nossa razão de ser neste mundo.

No Japão, como se fossem sinais divinos, os quatro elementos revoltaram-se e fizeram-se sentir da pior maneira, à maneira de avisos tremendos: acordem!

Em Portugal, também terra de sismos, também terra antiga e de saber antigo, mas igualmente de alma perdida no meio dos «ventos da História», vivemos outras espécies de sismos e tsunamis, pelo menos por enquanto, como se também eles fossem avisos sinais para acordarmos e vermos e ouvirmos -- e entendermos, por fim, o que nos espera se não mudarmos de vida, de rumo.

Está na hora de nos perguntarmos, japoneses e portugueses, o que andamos a fazer neste mundo. Foi para «isto» que nos construímos e constituímos enquanto nação?

Se não respondermos a esta pergunta terrível, corremos o risco de que um outro «kamikaze» («vento divino») nos varra definitivamente deste mundo.

Entretanto, vêm-me à memória os versos de Issa Kobayashi (1763-1827):

«Neste mundo
Por cima do inferno
Contemplo as flores»

«Uma gota de orvalho
A vida Uma gota de orvalho
E contudo…»

quinta-feira, 24 de março de 2011

É JÁ ESTE SÁBADO...

Congeminações - I Ciclo de estudos em homenagem a António Telmo, subordinado ao tema "Ortodoxia e livre-pensamento" começa no próximo sábado, 26, pelas 15 horas, na Biblioteca Municipal de Sesimbra, estendendo-se até Novembro.

O programa de sábado é o seguinte:

- Lançamento do sétimo número da revista NOVA ÁGUIA: Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP)

- Apresentação do livro "A Aventura Maçónica – Viagens à Volta de Um Tapete" (Zéfiro), de António Telmo, por Luís Paixão

- Conferência: "António Telmo, Fernando Pessoa e a rectificação da Maçonaria", por António Carlos Carvalho

quarta-feira, 23 de março de 2011

terça-feira, 22 de março de 2011

EXTRAVAGÂNCIAS, 129



Sono com fim


Cynthia Guimarãs Taveira

Não ter nada para dizer
Nem da vida
Nem da morte
Embaladas estão as hostes
Massas loucas
Em direcção a nada

O sono é doce
E os jogos lúdicos
A música aninha-nos
O sono é doce

Acordar para dormir
Dormir para dormir
Sonhar para não Sonhar
Existir para não se ser
Existir brevemente
Muito breve
Como um golpe rápido de rins
Entre o vazio e a existência

Olhar os olhos dos outros
E ver vazios os poços
Que se queriam lagos
Plenos de peixes coloridos
Atarefados, atentos

Olhar esse sono de frente
Dia a dia, rastejo a rastejo
Esse desaparecimento progressivo
Do relâmpago da arte

Dormir e não mais saber
De fogos e sofrimentos
De gerações e publicações
Esquecer primeiro para adormecer
Adormecer em esquecimento

A memória só atrapalha
Nesse percurso que vai
Da sala ao quarto
Como dantes o sono atrapalhava
O caminho entre a terra e o mar
Onde nos esperava a viagem forte
De sentidos apurados, despertos
Irrequietos, gritantes, espantados
Com olhos maiores que o céu
Onde dantes a perfeição parecia
Tão perto




ACORDAR porque sim
Sem razões, desculpas ou justificações
Rebelar, ser,
Andrajar em palácios
Conseguir colher rosas vivas dos capiteis
Sofrer por amor
Transformar o pó em água viva

Falar com os anjos de novo
Até que estejam cara a cara
Até que se apaixonem de novo por nós

Porque a sintonia é uma questão de vontade
E de acordo e de acordar
Acordar
Ouvir o som do sino
Como um milagre
Ir buscar a espada
E poli-la
E lavar os cabelos
E soltá-los ao vento
Ir à procura para além do poluído
Do sujo, do lixo
Acordar sem culpa
Que a mácula é só o sono

Voltar ao templo
Envolto em nuvens
Desnivela-lo com a realidade
Torna-lo real assim
Desnivelar a angústia com o coração

Voltar à pedra, à madeira, ao fogo
À água.
Usar as mãos e respirar o ar
Voltar, escarnecer se for preciso
Os anjos também escarnecem

Voltar a pisar fortemente o chão
E sentir o vulcão que brota do coração

Desenrodilhar os cavaleiros
Das teias de trevas
Deixar o palácio
Inclinar-nos para esse templo
Criar uma cidade nova
Bem no interior do nosso país interior
Voltar ao bom gosto
À estética
À beleza
A uma inteligência cheia de luz
E compaixão

E deixá-la num báu
Se for preciso
E enviar por correio à hora da morte
Entregue ao portador
A Deus
A um berço de palha levado pela corrente

Acordar e deixar obra
Apenas isso
Que o sono é pedra bruta
Lado a lado a um templo maior.

domingo, 20 de março de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 15



O sorriso sério

Alexandra Pinto Rebelo

Em Portugal existem hábitos terríveis. São tiques vindos não se sabe muito bem de onde nem porquê e que acabam por fazer escola. Um desses hábitos tenebrosos é o associar-se a seriedade do trabalho intelectual às expressões faciais sérias e pouco sorridentes bem como às palavras sem graça.

Talvez este costume tenha sido adoptado depois de se estabelecer, durante toda a Idade Média, principalmente, que Cristo nunca tinha sorrido. Talvez a sua origem ainda seja mais remota no tempo, tendo em conta que Aristóteles entendia que tanto a Tragédia como a Épica eram géneros superiores à Comédia.

O que é certo é que nos fomos habituando à ideia de que os sorrisos revelam uma tolice indisfarçável, ao passo que as palavras sérias e ponderadas são sinónimo de introspecção e inteligência superior.

Estes traços têm adquirido um peso excessivo, também, entre aqueles que escrevem sobre história. O passado, apoiando-nos em Aristóteles, pode ser trágico, ou épico, mas nunca cómico.

Desta forma, não pode deixar de nos causar algum espanto, a forma de escrita de alguns autores de origem anglo-saxónica. Para eles, a história é o que é, complexa como a vida humana, percorrendo todas as variáveis possíveis. Escrevem história, de uma forma diferente da qual estamos habituados, trazendo-nos o passado não como foi, pois isso é impossível (segundo um provérbio chinês, “O passado é verdadeiramente imprevisível”), mas como pode ter sido, incluíndo a comicidade a que nenhum momento histórico conseguiu escapar.

Nesta linha, Tom Holland surge como entre aqueles que mais livros tem vendido entre nós. O Rubicão e Milénio são bons exemplos daquilo que acabo de referir.

Mas gostaria de citar, não Tom Holland, mas outro autor anglo-saxónico, Jonathan Wrigth, nas primeiras linhas da sua obra Os Jesuitas. Falar sobre os jesuítas é, geralmente, um assunto sério. Pressupõe uma leitura igualmente séria, de acordo com os nossos costumes. Mas Wright começa por nos quebrar imediatamente. O rigor histórico não tem a haver com a falta de sorrisos, nem com o tratar de assuntos do passado como quem assiste ao velório de um ente querido. Ouçamo-lo:

“Em 1554, segundo narra a história, uma aristocrata portuguesa arrancou com os dentes o dedo menor do pé direito do cadáver de Francisco Xavier. Foi um acto de profunda devoção, ainda que algo repulsivo: o muito viajado dedo de Xavier tornou-se uma relíquia sagrada digna de ser possuída.”

Depois disto, o passado nunca mais pode ser o mesmo.

quarta-feira, 16 de março de 2011

LANCES E RELANCES, 1



A arte de conversar e o sentimento da natureza no pensamento português
(a propósito de um sismo)

Eduardo Aroso


Um sismo deve fazer-nos cismar. Os recentes e chocantes acontecimentos verificados no Japão não podem deixar de nos levar de novo à reflexão sobre a relação do Homem com a Natureza. Sendo certo que variados são os modos pelos quais podemos abordar o assunto, importa-nos, como é de esperar, tocar aquele ponto onde o ser humano deve encarar a “mãe cósmica” como ente, ao contrário de a tomar enquanto meio utilitário, tão ao gosto do materialismo, mesmo que disfarçado de melosas justificações em nome do progresso.
O sucedido, nestes dias de Março, antecedendo mais uma Primavera que se espera seja também nas consciências, e que convergiu catastroficamente numa explosão nuclear, fará, por certo, com que a alma humana se torne mais contrita para uma sincera interrogação. Se a história da escravidão humana é deveras tenebrosa - seja qual for o campo de observação, marca de uma humanidade ainda no percurso que aspira à luz -, quando um dia se escrever a história da escravidão a que o Homem tem sujeitado a Natureza, estaremos então no átrio de um novo Génesis.
A referida catástrofe levou-nos a meditar em duas realidades do pensamento português, aparentemente desligadas, mas de facto entranhadas num lusismo galaico-atlântico e ainda de certas maresias mediterrânicas. Uma delas, citada numa das cartas de António Telmo a Pedro Sinde, refere-se à arte de conversar; a outra é a do nosso proverbial sentimento da Natureza, se exceptuarmos certo furor municipalista hodierno e muito especialmente turístico, de a sujeitar a caprichos vários em nome do progresso. Mas como é que o gosto de conversar e uma particular e íntima comunhão com a Natureza podem estar entrelaçados?
Sobre a carta de António Telmo a Pedro Sinde, lemos o seguinte excerto: «Não sei se o Pedro já reparou em que os nossos grandes poetas e filósofos se caracterizam, por um dos seus lados, pelo prazer de conversar» (…) Todavia, estamos sozinhos. O lugar do diálogo é nas montanhas. 27-04-2008». Recorde-se que o prazer de conversar, muito provavelmente resultante da necessidade do movimento do pensamento, herdámo-lo da Grécia antiga, no passeio do mestre e do discípulo. Ele faz descobrir calendários e relógios diferentes. Aqui é caso para perguntar se é (também) esta a dimensão que Pessoa atribui ao derradeiro verso de Mensagem «É a hora». Seria ainda o mesmo relógio que Agostinho da Silva olhava para dizer que «o tempo dá-o Deus de graça»?
Quando o filósofo de Estremoz remata a carta dizendo «todavia, estamos sozinhos. O lugar do diálogo é nas montanhas» só pode significar a solidão do homem contemporâneo perante a Natureza interior, pois, no que respeita à exterior, sabemos nós a ênfase com que a ela se agarra não a podendo ter, mutilando-a, plastificando-a, ou incutindo-lhe horrorosas excrescências. E já que falámos do Japão, não sabemos que relação haverá entre tudo isto e a oposição entre a chamada «tecnologia de ponta» nipónica e a sua quase veneração da tradição e da família. Em Portugal, os guias dos monumentos sabem que o maior número de visitantes estrangeiros orientais é japonês, e quanto mais antigo o monumento, mais isso se observa.
Para além do que se pode especular quanto às forças da natureza sob a forma de catástrofes como reflexo de desajustado viver humano, tanto quanto sabemos, pela primeira vez na História, nos recentes acontecimentos do Japão estamos perante o efeito directo e imediato de uma força imensa da Terra que também faz explodir um reactor nuclear com terríveis consequências. Este é um ponto de ruptura onde cabe a já conhecida expressão «cisão extrema» aplicada aqui ao ser humano no seu meio ambiente natural, fruto de uma relação interior e exterior cada vez mais desajustada. A lucidez de Sampaio Bruno levou-o por certo a enfatizar uma vivência titânica e essencial do homem com o homem, mas também deste com e para a Natureza.
O nazismo e o comunismo, por exemplo, foram no campo social e político uma cisão extrema onde podemos encontrar certa correspondência com uma filosofia sem Deus, isto é, em que a razão ao invés de ser a «razão animada» como pretende Álvaro Ribeiro, se transforma numa razão fora de toda a alma, esteja ela num país ou espalhada por várias culturas, ébrias todavia do mesmo mórbido materialismo.
Naquele jeito de Frei Agostinho da Cruz, nas suas belas e caridosas palavras «Verei o Criador nas criaturas», Portugal só se pode agarrar à Natureza, seja pelo lado de fora, seja pelo lado de dentro. À cor azul do mar atlântico que espelha o céu, no dizer do poeta, corresponde uma outra, a do centro do mundo, para a qual também sempre nos movemos. À mais antiga nação da finisterra, ao invés da cisão da terra e do mar, nesta «nesga de terra debruada» coube-lhe a sorte ou o Fado de ser lugar ou leito do sonho. «Deus quis que a terra fosse toda uma,/ Que o mar unisse, já não separasse». Guarde-nos o Arcanjo de funestas cisões entre nós e a mãe-natureza, para que brilhem ainda, no azul exterior do céu e no interior do mistério, os versos de Pessoa, como se quisessem dizer-nos que o nosso pensar-agir é o de unir Homem e Natureza, o Homem com o seu irmão, em espírito fraterno de «vida conversável».

Quase equinócio da Primavera de 2011
Eduardo Aroso

domingo, 13 de março de 2011

EXTRAVAGÂNCIAS, 128


Pinturas de Séraphine de Senlis

Séraphine

Cynthia Guimarães Taveira

Séraphine.
Séraphine de.
Séraphine de Senlis.
Escrevi assim de propósito porque Séraphine, que me apareceu no Sábado à noite, na RTP 2, começou por ser apenas um nome e uma pessoa daquelas que diríamos ser insignificante, com pouco significado, sem grande importância. Uma entre muitas anónimas, nascida em 1864, filha de gente pobre, com pouca ou nenhuma instrução. Órfã aos sete anos, seria educada num convento, onde acabaria por ser servente, mulher para os serviços domésticos. Séraphine lava o chão e limpa as cozinhas e, debruçada sobre o rio, bate a roupa branca a troco de algumas moedas que pouco ou nada valiam. Toda a vida serviu. Toda a vida não teve tempo. Havia a noite, no entanto. E as velas que a poderiam iluminar. E havia a lembrança dos trajectos que durante o dia fazia pelo campo. De casa em casa para servir, da casa para o rio para lavar. E, nesses trajectos ouvia, via e sentia a natureza. E, de noite, lembrava-a com uma outra luz. A luz das velas e a luz interior que havia nela.
Uma força, um impulso, uma tonteria, uma pulsão, uma vontade, um desejo, tudo isto e também um quase sem-querer levaram-na aos pincéis, aos cânticos sagrados, a escutar os anjos que lhe diziam: Pinta.


Séraphine de Senlis


E ela pintou. Primeiro em bocados de madeira, depois em telas com dois metros.
Um coleccionador olhou uma vez para a sua obra, ainda em pequenas dimensões, ainda um pouco tosca, pintada em placas de madeira com cores que só ela sabia onde as procurar: pigmentos da terra, sangue dos talhos, cera das velas das igrejas. Tudo o que ganhava era para o pequeno luxo de pintar. O coleccionador olhou para ela e disse-lhe: - Tens talento, mas tens de trabalhar muito para seres ainda melhor. Nessa altura Séraphine passou a ser Séraphine de.

A guerra de 1914 separou-os. Ele, alemão, não poderia continuar em França. Ela, ainda pouco significante, lá foi vivendo duas vidas: a de dia e a de noite. Para ela tudo estava trocado: o dia que levava eram as suas trevas de escrava; a noite, a sua luz de liberdade.
Pintou só, em segredo, fechada no seu quarto escuro, durante muitos anos.
Em 1927 o coleccionador voltou e viu, e admirou, e levou a sua obra para Paris, e aí a vendeu. Séraphine já podia comprar um vestido branco de seda, e alugar mais do que um pobre quarto. Mas o vestido branco era de noiva, e assim vestida se passeou pelas ruas da aldeia, e assim vista, meia louca, pela vizinhança assustada, acabaria por ser internada num manicómio, falando dos anjos que vinham aí.
Morre em 1942, num hospício. Morre louca? Ou era a vida dela que foi demasiado louca para ela?
Séraphine morre e, passados uns anos, passa a ser Séraphine de Senlis. Já não era insignificante. Já tinha significado.

Pinturas de Séraphine de Senlis

E a natureza que deixou era a sobrenatureza que havia na natureza.

Séraphine lava o chão/Séraphine pinta flores que não existem.
Séraphine cozinha/Séraphine faz com que as flores se movam na tela.
Séraphine torce a roupa no rio/Séraphine explode em alegria na cor.
Séraphine nada sabe/Séraphine tudo sabe.
Mas como? Perguntava o coleccionador. Como é que, sem instrução, sem cultura, sem acesso às escolas de pintura, às exposições, tem essa vontade de pintar?
São os anjos que me mandam, respondia Séraphine, olhando para o céu.
Séraphine abraçava as árvores como amigas, gostava de sentir o vento no rosto, gostava de tomar banho nua no rio, admirava as flores. O profeta Elias descobriu que Deus estava na brisa que passava… e alguns também o descobrem.

Se alguns, depois de sofrerem as agruras de duas bombas atómicas, persistem em construir reactores nucleares, e constroem-nos depois de muito estudarem, de muito saberem, de muitas gravatas usarem, outros há, assim, como Séraphine, que nada estudaram, que nada sabem de física nuclear, mas que tudo sabem sobre a natureza e que, por isso, a amam, a estimam e a vivificam em arte. Só não vê quem não quer.

(Texto escrito depois de ter visto o filme “Séraphine”, com a realização de Martin Provost e a magnífica interpretação de Yolande Moreau)

NOVAS CARTAS...

Em http://antoniotelmo.wordpress.com/

Publicadas por Pedro Sinde

quinta-feira, 10 de março de 2011

EXTRAVAGÂNCIAS, 127



Einstein ainda é um bebé

Cynthia Guimarães Taveira

Provavelmente seria uma mentira construída meticulosamente pela sua mente em consequência dos fragmentos dos seus próprios sentimentos, mas soava-lhe a verdade, a única que se poderia ter numa era pós Einstein. Teria sido este cientista a ditar, sem que, provavelmente, o soubesse, as leis com que as sociedade ocidentais se iriam governar. A relatividade, em termos visuais, surgia-lhe como um fogo de artifício, cujo brilho e a alegria escondiam o eclipse do próprio tempo ou o tempo na sua verdadeira essência, como aquilo que “passa e não fica”, nas palavras de Fernando Pessoa. Vivia, estava certo, na Era do predomínio do tempo sobre o espaço. As antigas civilizações reinventavam o espaço, com seus grandes monumentos, desde os menires aos templos dos faraós, desde as estradas romanas até às catedrais góticas e o último esforço dessa viagem pelo espaço foram os Descobrimentos, em que, pelo excesso de espaço, se entrou numa nova época, sem que disso os descobridores de novos mundos se apercebessem (mesmo que muitos desses novos mundos fossem já conhecidos) , a época do tempo marcada de forma absoluta pela ideia de “progresso”do século XIX. O progresso faz-se no espaço com a tecnologia mas é o tempo que o força e o impulsiona. O progresso é uma consequência do tempo, a tal ponto que se pode afirmar que o progresso é uma consequência “natural” do tempo. A tecnologia entra, assim, no domínio da natureza porque naturalmente acontece, naturalmente é a única coisa que pode acontecer. E o progresso, bem como os valores, passam e não ficam, como um rio.
Tradicionalmente, em termos simbólicos, mas também porque a natureza assim o ditava, o tempo estaria ligado ao aspecto feminino da natureza e o espaço ao lado masculino. Daí que René Guénon tenha sido levado a dizer que vivemos numa época predominantemente feminina e que isso constituiria um consequente afastamento da “Tradição”, ou vice-versa, ou seja, o afastamento da “Tradição” tinha como consequência um predomínio do aspecto feminino sobre o masculino. É de facto com esta nova Era que a mulher vai ter acesso àquilo que, em termos práticos, fazia parte do universo masculino: o acesso à educação formatada academicamente, o acesso à livre iniciativa em todos os domínios: desde o sentimental passando pelo profissional e acabando no acesso ao próprio sacerdócio, campo antes confinado ao interior do lar com a passagem de histórias tradicionais aos filhos e netos, ou no acesso à vida religiosa sem que a palavra pudesse mover massas, como se dava com o caso dos homens. O sacerdote é aquele que fala para os outros e que está, de alguma maneira, incumbido de um poder espiritual que dele emana e cujas acções têm influência na vida dos seus contemporâneos. Já a santidade é outra coisa, pois a influência ultrapassa a esfera do contemporâneo, podendo um santo medieval influenciar acções, sentimentos e pensamentos por muitos séculos. A santidade está para além da questão sexual.
Com este predomínio do eclipse ou essência do tempo no qual as variáveis são sempre superiores às constantes, corre-se o risco de uma Idade das Trevas. Se é dito comummente que a Idade das Trevas medieval o era devido à pobreza, à falta de cultura, a uma submissão a uma religiosidade com contornos demasiado supersticiosos, à ausência quase total de tecnologia e conhecimentos médicos, à ausência de direitos humanos, ao papel reduzido da mulher, a um poder selvagem dos grandes senhores sobre os escravos, às guerras que facilmente explodiam em todos os lugares da Europa, enfim, ao passear constante dos quatro cavaleiros do apocalipse pelas florestas, aldeias, vilas e cidades, hoje todos esses problemas existem com maior ou menor força à escala mundial. Vivemos na Idade das Trevas, mas esta é mais real do que a outra, porque, cegos, nos convencemos de que derrotámos os quatro cavaleiros do apocalipse, que estes nunca mais voltarão para nos ensombrar a vida e, no entanto… seus cavalos, suas espadas, suas capas luzem no ar mais intensamente do que nunca: a pobreza continua a existir em grande escala, até porque a população mundial aumentou exponencialmente, a Internet não trouxe cultura, o ensino é pobre (saber ler e escrever não é o mesmo que a literacia), a espiritualidade é algo de muito confuso hoje, em que as seitas, igrejas, espiritualismos vários convivem lado a lado com a intolerância e os mais variados fanatismos, os conhecimentos médicos que existem são submissos ao negócio das farmacêuticas, os direitos humanos em muitos países não são tidos em conta, as mulheres ainda necessitam de um dia que lhes seja dedicado para serem lembradas, a natureza, essa, novidade das novidades, neste percurso tenebroso da História, nunca foi tão mortificada em nome da tecnologia, há mais escravatura hoje no mundo tanto em número de escravos reais (segundo dados estatísticos recentes) como em escravos dos sistemas políticos e económicos, e as guerras, essas, continuam alegremente, com duas Mundiais para rematar bem, esta sim, a verdadeira Idade das Trevas.
A única possibilidade de luz está no facto de nos darmos conta de que não a temos nem a vivemos. E de que a luz está para além do espaço e do tempo. Os alquimistas sabiam desde há muito que não são as mesmas circunstâncias que criam os mesmos fenómenos, ou seja: com as mesmas condições poder-se-ão dar fenómenos diferentes e com condições diferentes poder-se-ão dar fenómenos iguais. Eis a verdadeira relatividade, aquela do Espírito e não a relatividade materialista em que vivemos, que acaba por não ser relativa coisa nenhuma, antes preocupantemente previsível.

quarta-feira, 9 de março de 2011

EXTRAVAGÂNCIAS, 126



Eduardo Aroso

CINZAS DO ESTADO, DOCE ESPERANÇA E O PORTUGAL DESEJADO

«Quando se espera muito tempo pode acontecer
aquilo que só raramente acontece».

Palavras de Musil,
citadas em artigo de João Bénard da Costa

Por mais confuso e duro que seja à nossa compreensão, só uma pátria que esteja destinada à sua inteira redenção (e, assim, necessariamente ao contributo na redenção do mundo) terá também que sentir o amargo fado na afronta e humilhação aos seus valores mais profundos que, diga-se, são pertença intemporal do Povo e não matéria para capricho leviano de decisões governamentais. Antes do incenso que eleva, o lento e doloroso fel; antes do coro dos heróis do espírito, as vozearias das gargantas efémeras; antes do Fado mais alto, o fado batido, corrido e gemido.
Não admira pois que países impulsionadores de civilização, como Portugal, Espanha e Grécia, neste ciclo mais baixo da História movido pelo materialismo da ideia sem ideal, estejam naquela condição dos actuais servos da gleba dos plutocratas cuja morada é em parte incerta. Resta-nos, ou melhor, acreditamos - sem restos de coisa alguma - na esperança bíblica quando nos fala dos últimos que serão primeiros. Também «o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça", todavia deixou o mais belo epitáfio sobre a morte, isto é, o poema à imortalidade.
Há certamente o desejado e o indesejado em cada um de nós; o que nos eleva e o que nos rebaixa. Portugal tem sido muito pródigo em figuras indesejadas, da política à cultura, passando pelas mais variadas actividades. Entenda-se a palavra naquilo que ao país, à nação e à pátria não importa. Por isso não espanta que se tenha criado um complexo cultural e social do Desejado, sendo motivo de riso ou desdém - mormente pela mainstream dos intelectuais portugueses. O alerta para este estado enfermiço já foi lançado por alguns, nesta frase resumida: «um país que não se pensa, não merece existir».
Antes, com e para além do pensamento especulativo, ou de uma «razão animada», como diria Álvaro Ribeiro, a esperança enquanto virtude tem um sentido, e se não apenas no plano religioso e confessional, para não corrermos riscos, deve, pelo menos, ser buscada no plano mítico. Durante séculos, a esperança foi massivamente procurada na doutrina das igrejas, fossem elas quais fossem, mas, na sua secularização, ela tem sido transferida para a política, onde, habilmente, a mostram atraente sem igual: mais certa que a salvação para sempre, a salvação eterna, apresenta-se ela a curto prazo para cerca de quatro ou cinco anos, voltando depois a aparecer sempre mais atraente.
Hoje é quarta-feira de cinzas, estado em que parece estar sempre Portugal, mas sempre com mais cinzas a cada dia que passa. Se não acreditássemos no mito da Fénix, não poderíamos estar na condição que, felizmente, abraçamos: ver já o voo libertador da Fénix renascendo, esse pássaro de fogo que nos recorda a frase de Agostinho da Silva «as línguas de fogo varrerão a Terra» no mesmo espírito de Joel «E há-de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões» (2:28).
Curiosamente, na frase de Musil, «quando se espera muito tempo pode acontecer aquilo que só raramente acontece», pode estar a nossa esperança. Ela é susceptível de conter tanto um princípio científico, seja o da indeterminação ou da incerteza de Heisenberg, da mesma maneira que uma sentença bíblica, tal aquela que compara o dia da vinda do Senhor como um ladrão que aparece de súbito dentro da escuridão. Quem virá então na noite escura da nossa lógica pouco clara, da nossa visão que porventura ainda não decifrou a «Hora», da nossa certeza da manhã presa ainda à «noite untuosa», como lhe chamou o poeta brasileiro Jorge de Lima?

9 de Março de 2011 (quarta-feira de cinzas)

terça-feira, 8 de março de 2011

EXTRAVAGÂNCIAS, 125



Um dia de tédio em pleno Carnaval

Cynthia Guimarães Taveira

Atravessara o vale das sombras. Conhecera-as uma a uma. Regressara esquartejado, ensanguentado. Como a guerra da alma pode ser violenta! Só Deus sabia em que planos tudo se passa. E que atitudes interiores tinham, afinal, repercussões?

É Carnaval hoje, e todos desfilam a sua máscara que não é máscara, mas a realidade da sua alma: homens peludos com baton e perucas desajeitadas, elas de biquinis de lantejoulas transversais à sua gordura. Não são travestis sequer, não têm a sua dignidade. E elas não encarnam a beleza. E pensa: aquele vazio interior desta época mostra-se hoje mais garrido, mais exteriorizado. O mundo não é um teatro mas a realidade pura e dura. O mundo não é uma ilusão mas uma verdade, entre muitas, pode ser, mas sempre uma verdade.

Afasta-se e delira. Sonha voar, em voo rasante à terra ainda não carcomida pelos homens. Ser leve, flutuar longe de dia 12 de Março quando o povo sair à rua. Sim, quando ele sair à rua, como entidade única (o falso uno diverso) protestando, dizendo não, o seu não será outro: fará uma pintura nunca antes feita, escreverá linhas estendidas no espaço e no tempo como jardins suspensos e o seu “não” será para dentro, recusa de dentro desse povo que é e será sempre carne para canhão, armas de arremesso de tubarões demasiado cobardes para se morderem.

Ai as lutas da alma! Ai se soubessem dos anjos e demónios em rápidos voos e dos olhos do gato que sai do esconderijo ainda bocejando, passando do sonho para o lado de cá com a delicadeza de um bem-aventurado. Os celtas diziam que os olhos do gato eram portas para outros universos. Talvez um outro universo nos espreite através dos olhos deles e sorria das nossas histórias.

Às vezes estamos próximos de Cristo só pelo tédio que ele também sentiu. Tédio criativo ou estéril, mas sempre preso ao movimento da vida, dos átomos. Mesmo em tédio os átomos se movem e se agitam e vivem.

Às vezes sentia-se num funeral perpétuo e como uma carpideira honesta chorava o seu Portugal:
“Ai meu Deus“, dizia, enquanto batia no peito e lágrimas de genuíno sabor caíam, “onde estão os cavaleiros e os reis, e as palavras de honra que bastavam?”

Chegara à conclusão que não poderia ter máscaras, porque não existiam máscaras. Não poderia haver o que não havia, como não poderia haver uma cor nova. Todas as máscaras eram afinal todas as verdades da alma e até em Veneza, onde os fantasmas do passado passam em gôndolas, sim, até aí, tudo era verdade. A verdade do mistério. Graças a Deus. Que seria de nós sem mistério?

PENSAMENTOS



Bernardo Soares

«A renúncia é a libertação. Não querer é poder.

Que me pode dar a China que a minha alma me não tenha já dado? E, se a minha alma mo não pode dar, como mo dará a China, se é com a minha alma que verei a China, se a vir? Poderei ir buscar riqueza ao Oriente, mas não riqueza de alma, porque a riqueza de minha alma sou eu, e eu estou onde estou, sem Oriente ou com ele.
(…)
Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu».

Texto sugerido por Eduardo Aroso

domingo, 6 de março de 2011

NOVIDADE


Meus caros Amigos
Abri esta 'casa' nova para recordação do António Telmo:
http://antoniotelmo.wordpress.com/
Ali, procurarei ir colocando alguns excertos significativos das
'101 cartas' que guardo e também
das memórias de conversas e episódios vários.

Obrigado!
Pedro Sinde

sábado, 5 de março de 2011

PENSAMENTOS



"Não sei que diga. Pertenço à raça dos navegadores e dos criadores de impérios. Se falar como sou, não serei entendido, porque não tenho Portugueses que me escutem. Não falamos eu e os que são meus compatriotas uma linguagem comum. Calo. Falar seria não me compreenderem. Prefiro a incompreensão pelo silêncio."

Fernando Pessoa (Bernardo Soares)

Texto sugerido por Eduardo Aroso

quarta-feira, 2 de março de 2011

EXTRAVAGÂNCIAS, 124


Resistir

Cynthia Guimarães Taveira

A aproximação ao mar
É um passo místico
Onde sob a rocha
A terra se recolhe
E o mar ofusca

Há fronteiras
Que não se evadem
Por simples desejo

Essas linhas
Da beira-mar
E do horizonte
Na sua arte de sedução
São a mesmas
Das viagens
Que se encontram
Entre a alma e o céu

A escuta das ondas
É a vertigem
Pedida da música celeste
E este estarmos sós
Perante Deus, o absoluto do céu
Gera uma mágoa
Que faz companhia
Apesar de tudo

Estes portugueses
Zés ninguém
Esses ninguém que são
E que bateram à porta do mundo
Como a única possível
Quando já se é ninguém
São discípulos da terra
São calos de cordas puxadas
Erguendo velas

No confim da ilha bem-aventurada
Ecoam os seus fantasmas
Nas sangrias do fado
Revelando a memória
Que se quer esquecer

Nunca resistiremos
Pois nunca resistimos ao mundo
Só as cordas resistem
De pedra talhada

Quebramos com os outros
Por sermos esse ninguém
Que num dia de chuva
Nos bateu à porta

Os americanos que venham
De línguas afiadas
Em inglês anasalado
Dispor das nossas réguas e esquadros
E das ruínas da nossa saudade
Acasalar-nos com um progresso
Desvairado e grotesco
Que nunca diremos não

Só as cordas resistem de pedra
Subindo pelo monumentos
Torneando-os, amarrando-os
Fixando-os para sempre
Até ao dia em que a nossa alma
Por um lapso divino
Seja também ela
Pedra
Rosa-pedra
Perene
Resistente
Inabalável na verdade
Fixada
Torneada
Amarrada
A Deus

PARA ESTE ANO TEMOS...

Congeminações

I ciclo de estudos em homenagem a António Telmo

"Ortodoxia e Livre Pensamento"
Março a Novembro de 2011
Biblioteca Municipal de Sesimbra


26 de Março - 15:00
- Lançamento do sétimo número da revista NOVA ÁGUIA: Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP)
- Apresentação do livro "A Aventura Maçónica – Viagens à Volta de Um Tapete" (Zéfiro), de António Telmo, por Luís Paixão
- Conferência: "António Telmo, Fernando Pessoa e a rectificação da Maçonaria", por António Carlos Carvalho

30 de Abril - 15:00
- Lançamento do livro "Viagem a Granada" (Al-Barzakh), 2.º volume das Obras Completas de António Telmo, apresentado por Luís Paixão
- Conferência: "António Telmo, Ibn ‘Arabi e o sufismo", por Mário Nunes Vieira
- Conferência: "António Telmo, o pomo persa e o oitavo clima", por Pedro Sinde

28 de Maio - 15:00
- Apresentação do livro "Os Pecados da Rainha Santa Isabel" (Ésquilo), de António Cândido Franco, por Isabel Xavier
- Conferência: "António Telmo, pensador gibelino", por António Cândido Franco
- Conferência: "Hialodoxia", por Rodrigo Sobral Cunha

25 de Junho - 15:00
- Apresentação do livro "Sesimbra, o lugar onde se não morre", de António Telmo
- Colóquio "António Telmo e as afinidades sesimbrenses"
com a participação de Pedro Martins – "António Telmo e Rafael Monteiro", Elísio Gala – "António Telmo e Orlando Vitorino" e Carlos Aurélio – "António Telmo e Agostinho da Silva"

24 de Setembro - 15:00
- Apresentação do livro "O Crocodilo" (Al-Barzakh), de Louis-Claude de Saint-Martin (tradução de Inácio Balesteros e prefácio de António Telmo), por João Cruz Alves, com projecção de vídeo documentando uma intervenção de António Telmo na Quinta da Regaleira, em Sintra, alusiva à obra.
- Colóquio "António Telmo e o caminho do Oriente"
com a participação de Roque Braz de Oliveira – "António Telmo e a ortodoxia católica", António Carlos Carvalho – "António Telmo e a Kabbalah", e Cynthia Guimarães Taveira – "António Telmo e o Oriente"

29 de Outubro - 15:00
- Lançamento do oitavo número da revista NOVA ÁGUIA: "O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro "
- Colóquio António Telmo e a Escola Portuense em Lisboa
com a participação de Pinharanda Gomes – "António Telmo e a escola portuense em Lisboa", Joaquim Domingues – "António Telmo e Álvaro Ribeiro" e Renato Epifânio, "António Telmo e José Marinho"

26 de Novembro - 15:00
- Lançamento do terceiro número dos CADERNOS DE FILOSOFIA EXTRAVAGANTE: "António Telmo "
apresentado por Eduardo Aroso, Paulo Júlio Guerreiro dos Santos e Pedro Paquim Ribeiro
- Lançamento das "Actas do Ciclo de Colóquios Portugal Renascente"
- Conferência de encerramento: “'Desenfaixai-o e deixai-o ir' – Quem tem medo da filosofia portuguesa", por Abel de Lacerda Botelho, Presidente da Fundação Lusíada

terça-feira, 1 de março de 2011

EXTRAVAGÂNCIAS, 123



(IN) SURGIMENTO

Da secura anti-profética das assembleias
Levantam-se de novo sete pragas.
Alvorece em dor o Quinto Império
Onde sangram ainda as cinco chagas.

Portugal, 26 de Fevereiro
Eduardo Aroso

domingo, 27 de fevereiro de 2011

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 51


Na foto: Moacyr Scliar

António Carlos Carvalho

Morreu um grande escritor e um homem bom -- algo de muito raro, esta conjunção de qualidades.
Chamava-se Moacyr Scliar, tinha 73 anos e era um imenso contador de histórias.

Deixou mais de setenta obras, imagine-se, incluindo romance, contos, biografias, crónicas, tendo conquistado três prémios Jabuti.
Em Portugal, no entanto, só me lembro de lhe terem publicado «O exército de um homem só», «O centauro no jardim», «Max e os felinos» (Caminho) e «A mulher que escreveu a Bíblia» (Livros de Seda). Continuam a não descobrir o livro mais «português» dele, «A estranha Nação de Rafael Mendes».

Filho de pais russos, judeus, que emigraram para o Brasil, Porto Alegre, Moacyr aprendeu com eles a importância de uma boa história -- e bem contada -- para dar sal à vida. Impregnado de tradição judaica, ainda que não praticante, Moacyr conhecia certamente o velho ditado do seu povo, «Deus criou o homem para que este lhe contasse histórias».
E assim fez, toda a vida -- quando não estava no hospital ou no consultório a atender os seus pacientes.

Disse uma vez que gostaria de ter na sua lápide esta frase: «Viveu bastante mas não aprendeu muito». Nada disto acabou por ser verdade, evidentemente…

A sua frase preferida era «Não te expliques e não te queixes». Era na verdade um homem cheio de ironia e muito afável, como comprovei há uns dez anos, quando ele passou por Lisboa e o entrevistei.
Tinha lido quase tudo dele e verifiquei, com agradável surpresa, que aquele senhor alto, de olhos claros, médico respeitável e respeitado pela sua dedicação, excelente escritor louvado pelos seus pares e pelos seus muitos leitores, era afinal um homem simples. Deu-me um abraço no final da entrevista, como se nos conhecêssemos há muitos anos e fôssemos grandes amigos. Um gesto significativo, pelo menos para mim, que confirmou plenamente a impressão que os seus livros me tinham sempre dado.
E isto é tão raro que jamais o esqueci.

Leiam os livros dele, peçam-nos às livrarias, encomendem-nos, e vão ver o que é um escritor e um homem coerente com a sua escrita.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 14



Os mistérios da escrita

Alexandra Pinto Rebelo

Siddharta, Jesus ou Muhammad nunca escreveram um texto religioso pela sua mão. Pelo menos, não chegou nenhum texto autógrafo até nós, nem tão pouco existem relatos dando conta da sua existência. Talvez por isso, se tenha tomado como verdade que nenhum deles sabia escrever sendo essa a razão do seu silêncio escrito. Afirmações deste género ainda se escutam e lêem por aí.

Muhammad sabia escrever. Escreveu pelo menos três cartas a outros tantos soberanos pela sua própria mão, manuscritos que se conservam até hoje. Podemos então perguntar por que razão não terá sido ele a redigir os textos do Corão. Em vez disso, o trabalho de escrita foi feito por seguidores, transcrevendo o que iam ouvindo. Esta questão, parece-me, tem uma resposta fácil. Corão significa “recitação”. Os textos devia ser decorados e transmitidos de memória. A sua passagem para a escrita destinou-se, muito simplesmente, a evitar desvios do “recitar” original.

Não se sabe se Siddharta saberia ler ou escrever. Era muito provável que o soubesse dada a sua origem social. A mesma pergunta pode ser feita em relação ao facto de não ter deixado nada escrito, pergunta estendida aos cinco séculos após a sua morte, data em que aparecem os primeiros textos considerados iniciadores do cânone budista. Também me parece que neste caso, a resposta é, igualmente, fácil. O que Siddharta descobriu, ou redescobriu, é sobretudo um processo. Através de uma simples postura de yoga é possível alcançar estados de consciência diversos dos habituais, mais vívidos, mais cientes, digamos. É o pôr de parte o mundo mostrado através de discursos, para o vivênciar na plenitude, na sua essência. Certa vez terão perguntado a Siddharta qual era o grande ensinamento da sua escola, ao que ele respondeu, ser o andar, o sentar e o dormir. Aquele que perguntou terá ficado muito intrigado, como é normal, respondendo que isso é o que toda a gente faz. Siddharta então respondeu que sim, mas no seu dharma existia uma diferença. Quando andavam, sabiam que andavam, quando se sentavam, sabiam que se sentavam, quando dormiam, sabiam que dormiam. Neste processo, qualquer texto é apenas uma curiosidade pertencente ao mundo das ideias. Nenhum budista minimamente culto se preocupa em ter, sequer, grandes discussões sobre a veracidade de quaisquer palavras atribuídas a Siddharta. Basta sentar, em postura de meditação, e o próprio processo se encarregará de tudo aquilo que importa saber.

O caso de Jesus é deveras intrigante. Não se sabe, tal como em relação a Siddharta, se Jesus saberia ou não escrever. Parece-me, no entanto, que seria relativamente fácil o seu acesso à escrita enquanto processo. Caso entendesse não o fazer pessoalmente, poderia sempre pedir a alguém que o fizesse. Teria, inclusivé, vários tipo de escrita ao seu dispôr, como o hebraico, o latim, o grego, todos eles dirigidos a auditórios diferentes. Teria sido esse o problema? Escolher uma língua de suporte para as suas próprias palavras, constituíria um sinal selectivo de todo a evitar? Talvez bastasse o exemplo da sua própria existência, de parte da sua vida pública, morte e ressurreição, sendo então o princípal texto a ser escrito uma biografia que teria de integrar a sua vitória sobre a morte, não podendo, pois, ser escrita por ele mesmo. Ou talvez soubesse somente dos perigos da palavra escrita e os quisesse evitar, deixando a questão da escrita para outros que, por mais inspirados que pudessem ser, teriam sempre uma autoridade mais fraca do que a sua. Penso que este é um dos grandes mistérios de base do cristianismo. Quem souber responder a esta questão, estará muito perto da sua essência.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 50


António Carlos Carvalho

«Um Príncipe não tem biografia. A sua biografia é a História do seu Povo».

Mouzinho de Albuquerque escreveu estas palavras para o Príncipe D. Luís Filipe, de quem fora nomeado aio -- a revelação foi feita pela cientista Maria de Sousa, agora premiada e que citou estas palavras para justificar que o seu prémio era na realidade devido ao povo português e ao País. O gesto é bonito e invulgar em época de tantas glórias vãs por coisas mais ou menos triviais.

Parece que o Príncipe nunca chegou a ler a carta -- viria a ser assassinado em 1 de Fevereiro de 1908, como sabemos (mas convém sempre lembrar, para contrariar a ideia-feita do «povo dos brandos costumes»…) --, mas a missiva foi publicada em Maio de 1908 e um familiar de Maria de Sousa guardou esse folheto.

Pelos vistos, Mouzinho de Albuquerque não tinha a mesma ideia do «Príncipe» que Maquiavel defendera, bem pelo contrário. Concluímos, igualmente, que nunca aceitaria ser aio de alguns príncipes mediáticos que hoje se expõem barbaramente aos olhares ávidos das multidões globalizadas.
Aliás, convém igualmente referir que Mouzinho, aclamado como herói nacional em 1897, veio a suicidar-se em 8 de Janeiro de 1902, poupando-se assim à visão da tragédia do assassinato do seu Príncipe e passando a figurar na extensa galeria dos ilustres suicidas portugueses que levou Unamuno a escrever que Portugal era «um país de suicidas».

Mas a sua frase (e o pensamento profundo que ela contém) devia talvez figurar em lugar de destaque do Palácio de Belém (que foi palácio real) e ser obrigatoriamente citada em todas as cerimónias de tomada de posse de novos governantes. Isto é, se estes soubessem previamente o que é um Principe e não estivessem convencidos de que seres desses só existem nos contos de fadas, coisas próprias de imaginações infantis…

Por essas e por outras é que defendo que temos de começar tudo de novo e voltarmos à escola da História, para então re-fundarmos Portugal, fazendo deste pedaço de terra, pelo menos, um lugar decente para se viver. Para vivermos juntos e, em paz e harmonia, cultivarmos este jardim.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

PRODÍGIOS DE IMAGINAÇÃO


Na imagem: fractais

Peço a atenção dos leitores para estes três prodígios de imaginação provindos de três culturas diferentes: a celta, a persa e a indiana. Três prodígios de imaginação sem efeitos especiais, sem influências televisivas ou cinematográficas. Lendo isto, resta-me perguntar até que ponto não somos escravos da imaginação dos outros e, por isso, perdemos nós mesmos a capacidade de imaginar. Somos escravos e os escravos apenas podem desejar uma outra vida. A imaginação, pelo contrário pertence aos homens livres dos pesadelos da escravidão, aos homens livres que, do alto de uma montanha contemplam o horizonte, vêem outros espaços e utilizam a língua como se de um encanto se tratasse. Os homens livres vivem a sua vida e outras tantas, os escravos desta civilização nem vivem a sua nem aquela que desejariam ter. Convido os leitores para o mundo real da imaginação, aquela pura, sem tecnologia tolhendo os movimentos. Imaginem-se ainda crianças, num tempo sem luz eléctrica, com as sombras das velas e lamparinas por companhia, sentados no chão a ouvir os mais velhos relatando estes episódios. Por momentos que pare o tempo para que um outro surja.
Cynthia Guimarães Taveira
Tradição Celta

“Por fim, ele [Couhoulinn] pôs o seu capacete de crista e deu um grito igual ao de cem guerreiros. Este grito tinha um enorme alcance, pois era dado ao mesmo tempo pelos fantasmas com rostos de bode, pelas fadas dos vales, pelos demónios do ar, diante dele, por cima dele, à sua volta, sempre que ele saía para fazer correr o sangue dos inimigos e para executar extraordinárias façanhas. Depois vestiu o seu véu de protecção, que o tornava invisível, peça de indumentária trazida da Terra das Promessas e dado por Mananann, filho de Lîr.
Deu-se então a sua primeira contorção, que foi terrível, múltipla, maravilhosa. As suas pernas tremeram à sua volta como uma árvore contra a qual vem bater um vento tempestuoso. Cada um dos seus membros se pôs a tremer, cada articulação, cada dedo, cada juntura, desde o cimo da cabeça até à ponta dos pés. Num acesso de fúria, ele torceu o corpo, os seus dedos dos pés, a parte da frente das pernas, os joelhos passaram para trás dele, os seus calcanhares, as barrigas da perna, as nádegas, voltaram-se para a frente. Os músculos superficiais das barrigas da perna pousaram sobre a superfície anterior das suas pernas e formaram aí uma bossa tão grossa como o punho dum guerreiro. E os nervos do cimo da cabeça moveram-se para trás da sua nuca, de tal modo que cada um deles produzia uma bossa redonda, indescritível, tão grossa como a cabeça de uma criança de um mês.
Depois as feições do rosto deformaram-se, e um dos seus olhos entrou para dentro da cabeça de tal modo que nem um guindaste teria conseguido trazê-lo do fundo do crânio para a face. O outro olho saltou fora da pálpebra e veio a colocar-se na superfície da face. A boca deformou-se de uma forma monstruosa. As maxilas afastaram-se, deixando escancarada a boca e tornando assim visível o interior da garganta. Os pulmões e o fígado vieram flutuar na boca. Com uma sapatada de leão, ele bateu na pele que cobria a sua maxila superior, e todas as mucosidades que, como uma corrente de fogo, chegavam do seu pescoço até à boca, se tornaram tão grandes como a pele de um carneiro de três anos. Ouviu-se o barulho que fazia o seu coração ao bater no peito, e este barulho era tão violento como o que é provocado pelos latidos de um cão de guerra ou os rugidos de um leão que se prepara para atacar um urso. O calor provocado pela sua violenta e ferocíssima fúria encheu o céu de nuvens de tempestade e, do seio destas nuvens, saíram mil faíscas de fogo que se espalharam por todo o lado com uma imensa crepitação, como uma trovoada que não cessasse de atingir a terra.
À volta da cabeça, a sua cabeleira tornou-se espigada e semelhante a um ramo de fortes espinhos no buraco de uma sebe. Se sobre a sua cabeça alguém tivesse sacudido uma macieira coberta de belos frutos, estes não teriam caído à terra mas ter-se-iam todos plantado sobre cada um dos seus cabelos eriçados pela fúria. Na sua fronte, acendeu-se então a luz do herói, um fogo comprido e grosso como a pedra de amolar de um guerreiro, e do cimo da sua cabeça saiu um raio de sangue castanho, rectilíneo como uma viga, tão alto, tão espesso, tão forte, tão comprido como o mastro de um navio. Resultou daí um vapor mágico semelhante ao fumo que sai do palácio dum rei, quando o rei se vai sentar junto à lareira, à noite, no fim de um dia de Inverno.”

Excerto reescrito a partir de fontes irlandesas da Idade Média retirado do livro “A grande epopeia dos Celtas - Terceira Época - O herói dos cem combatentes” de Jean Markale, Ésquilo Edições, pág. 143

Tradição Persa

“Quando acabou e preparou o círculo da maneira que queria, colocou-se e parou no meio, onde fez uma rezas e recitou versículos do Alcorão. Insensivelmente o ar escureceu de maneira a parecer que já era noite e que a máquina do mundo se ia dissolver. Sentimo-nos transportados por um medo terrível, esse pavor aumentou ainda mais quando vimos de repente aparecer o génio filho da filha de Elbis com a forma de um leão enorme.
Assim que a princesa viu aparecer esse monstro, disse-lhe: ‘Cão, em vez de rastejares diante de mim, ousas apresentar-te sob essa forma horrível e julgas amedrontar-me?’ ‘E tu??’ retorquiu o leão, ‘não receias renegar o contrato que nós firmámos com uma jura solene, de não nos molestarmos nem causarmos nenhum dano um ao outro?’ ‘Ah!, maldito!’, replicou a princesa, ‘é a ti que devo fazer essa censura.’ ‘Tu vais, interrompeu bruscamente o leão, ‘pagar-me o trabalho que me deste em cá voltar.’ Ao dizer isto, abriu uma boca enorme e avançou para ela para a devorar. Mas ela, que já tinha tomado as suas precauções, deu um salto para trás e teve tempo de arrancar um cabelo, e, pronunciando duas ou três palavras, transformou-o num sabre afiado, com o qual cortou em dois o leão pelo meio do corpo. As duas partes do leão desapareceram e apenas ficou a cabeça, que se transformou num grande escorpião, que, não se sentindo em vantagem, retomou a forma de uma águia negra e poderosa e perseguiu-a. Deixámos de as ver uma e outra.
Pouco depois de terem desaparecido, a terra entreabriu-se diante de nós e dela saiu um gato preto e branco, com o pêlo todo eriçado e que miava de uma maneira horrorosa. Um lobo negro perseguiu-o e não lhe deu tréguas.
O gato, muito apressado, transformou-se numa minhoca e colocou-se junto de uma romã caída por acaso de uma romãzeira que estava plantada à beira de um canal de água profundo, mas pouco largo. A minhoca furou a romã num instante e escondeu-se. Então a romã inchou e tornou-se grande como uma melancia, erguendo-se até ao telhado da galeria, donde, depois de dar uma voltas em rotação, caiu no pátio e partiu-se em vários bocados. O lobo, que durante este tempo se transformara em galo, lançou-se sobre as pevides da romã e pôs-se a engoli-las uma após outra. Quando já não viu mais, veio até nós de asas abertas, fazendo muito barulho, como para nos perguntar se já não havia mais pevides. Restava uma à beira do canal, na qual ele reparou ao voltar-se. Correu depressa, mas, no momento em que ia debicá-la, a pevide escorregou para o canal e transformou-se num peixinho… (…) O galo lançou-se ao canal e transformou-se numa solha, perseguindo o peixinho. Estiveram ambos duas horas na água e nós não sabíamos o que lhes tinha acontecido, quando ouvimos uns gritos horríveis que nos fizeram estremecer. Pouco depois vimos o génio e a princesa a arderem. Lançavam um contra o outro chamas pela boca, até que se puseram a lutar corpo a corpo. Então as duas chamas aumentaram e deitavam um fumo espesso e flamejante que se erguia muito alto.”

Excerto retirado das “Mil e Uma Noites”, A história do invejoso e do invejado (quinquagésima noite), Edições Europa-América, pág. 118

Tradição Indiana

“Certa vez, quando brincavam, as crianças disseram a Yasodã: «Krsna comeu terra.» Yasodã tomou Krsna pela mão, e censurou-o dizendo: «Seu maroto, por que razão comeste terra?» «Não o fiz», disse Krsna. «As crianças estão a mentir. Se acreditas nelas e não em mim, vê tu própria a minha boca.» «Então, abre-a», disse ela ao deus, que por brincadeira tomara a forma de uma criança humana; e ele abriu a boca.
Yasodã viu então todo o universo dentro da sua boca, com os seus limites longínquos do céu, e o vento, e o relâmpago, e o globo terrestre com os seus oceanos e montanhas, a lua e as estrelas, e o próprio espaço; e viu a sua própria aldeia, e viu-se a si mesma. Ficou confusa e assustada, pensando: «Será isto um sonho ou uma ilusão criada por Deus? Será talvez uma ilusão da minha própria mente? É que o poder ilusionista de Deus inspira em mim crenças falsas como “Eu existo”, “Este é o meu marido”, “Este é o meu filho”.» Quando Yasodã conseguiu compreender deste modo a verdadeira realidade, Deus espalhou a sua ilusão mágica sob a forma de amor materno. Yasodã perdeu instantaneamente a memória do que acontecera; colocou o seu filho ao colo e voltou a ser como era, mas o seu coração fora agora inundado de um amor ainda maior a Deus, que julgava seu filho.”

História retirada do livro “Sonhos, ilusão e outras realidades” de Wendy Doniger O‘Flaherty, Assírio & Alvim Edições, pág. 192

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

PARA ESTE ANO...

Congeminações

I ciclo de estudos em homenagem a António Telmo

Ortodoxia e Livre Pensamento
Março a Novembro de 2011
Biblioteca Municipal de Sesimbra

Em breve publicaremos programa detalhado.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

ANTÓNIO TELMO, SEMPRE


Desenho de Cynthia Guimarães Taveira

Só Deus escreve sobre Deus

António Telmo

Os cães caçadores não temem o som poderoso dos tiros, mas entram em pânico com o estoiro dos foguetes e o ribombar do trovão. Assim, o instinto inteligente distingue o alto do baixo ou do rasteiro, o que vem ao rés da terra do que soa alto na nuvem. O galo eleva-se dentro de si mesmo para soltar as cinco notas anunciadoras do Sol. Os pássaros levantam a cabeça para cantar e fazem-no nos ramos cimeiros das árvores ou no alto das torres. Quem está aí que me lê para sentir o que Camões viu ouvindo cantar os pássaros:

“Os pássaros que cantam
Meus espíritos são que a voz levantam”?

“Todos os seres adoram Deus”, assim se diz numa surata do Corão. Mas nós, hoje, nós que dispomos, enquanto homens, da inteligência que concebe no visível e no invisível, como havemos de adorar Deus, perseguidos que somos na rua e nos cafés, em casa, por toda a parte pela rádio e pela televisão, pelo ruído dominador dos metais actuantes fora do seu lugar natural, pelas explosões do petróleo, do óleo que se extrai da pedra multissecular, pelo rock (escreve-se assim, ó portugueses?) tan tan tan minando os interstícios do corpo, como havemos de ser se nos envolvemos do que não é para não sermos e não nos ouvirmos no que de mais fundo e significativo há em nós? Deus adora-se nas Igrejas, mas também aí entrou o jazz e as melífluas músicas próprias de uma espiritualidade inferior. Estamos pois impedidos de vencer a gravidade da alma elevando sentimento e pensamento àquela altura onde vai o instinto dos animais?

Era ainda noite, antes de nascer o Sol, no Cabo Espichel, junto aos pinhais. Eu estava lá, na orla deles, voltado para o Oriente de onde deveriam vir as rolas que assassinamente esperava. Principiava a nascer a alba. Aclareava-se ao fundo o céu. De súbito um sonoro zumbir de insectos feriu-me insistentemente os ouvidos. Eram moscas como abelhas ou vespas dispostas em fila ao longo da orla do pinhal. Alternavam a imobilidade com um voar rápido em círculo que as repunha no mesmo sítio. Estavam todas voltadas para o nascente como eu, mas não para matar. Desapareceram momentos depois do sol ter nascido.

Deus não é o Sol, mas o Sol é um símbolo vivente de Deus. É símbolo quando, através dele, se presta culto a Deus que infinitamente transcende todos os sóis. Isto o sabem os animais, melhor que os ocultistas e outros adoradores de símbolos.

Pediram-me para escrever sobre Deus. Só Deus escreve sobre Deus. E, às vezes, acontece fazê-lo através das nossas pobres palavras. Assim seja!

[Publicado originalmente em "Sesimbra Eventos", n.º 16, de Natal/Ano Novo, 2001-2002]


domingo, 20 de fevereiro de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 13



Uma nova cosmogonia

Alexandra Pinto Rebelo


É admirável o livro The Great Transformation, de Karen Armstrong, datado de 2006. A autora, analisa vários momentos do milénio que antecedeu o nascimento de Cristo partindo do princípio de que, nesse período axial, existiram grandes transformações religiosas nas culturas mais influentes a nível mundial. A sua atenção recai, sobretudo, no confucionismo e taoísmo, na China; no hinduísmo e budismo, na Índia; no monoteísmo, de Israel; no racionalismo filosófico da Grécia.

Em todas estas culturas há uma sensibilidade nova em comum, iniciada na Índia, com o hinduísmo. Em princípio, não há uma influência directa entre regiões, mas sim um alcançar de uma espécie de novo mundo como necessidade sentida por todos.

O mundo antigo vive dos condicionalismos dos rituais e dos sacrificios. O cosmos era concebido como um organismo que ia consumindo energias, sendo necessário a reposição dessas forças periodicamente, quer através de rituais cíclicos, quer através de sacrifícios. Os sábios da idade axial, vão modificar esta nossa relação primária com o mundo. Dão um significado ético ao ritual, colocando a moral no centro da nova vida espiritual. Com isto, o ser humano adquire uma importância extrema.

O cristianismo faz parte desta nova sensibilidade humana, constituindo, no entanto, uma das mudanças mais tardias. Se pensarmos de acordo com a proposta de Armstrong, o cristianismo irá renovar, não o judaísmo, que já tinha entrado na sua fase axial, mas sim duas regiões que ainda não tinham entrado na nova sensibilidade, ou seja, a Europa e o Egipto. Esta teoria encaixa na perfeição, se deixarmos a túnica e as sandálias cheias de areia do deserto à nossa porta, tendo a humildade suficiente de admitir o quanto o cristianismo deve à Europa e ao Egipto a nível simbólico, mítico, filosófico. Utilizando uma linguagem mais metafórica, pode dizer-se que o primeiro sopro do cristianismo é na Palestina, mas as suas sementes vão cair nos núcleos mais importantes do império romano, transformando as suas práticas religiosas, dando-lhes um sentido mais humanizado.

Parece-me, então, que as commumente chamadas Virgens de Ternura, poderão ter uma nova interpretação.

Maria é considerada Mãe de Deus no Concílio de Éfeso no ano de 431. É curioso o dogma ter sido proclamado precisamente na cidade de Artemisa, mãe natureza para os pré-cristãos, sendo representada com inúmeros frutos saindo do seu corpo, um dos locais de maior peregrinação da Antiguidade. Parte dos seus atributos, e da devoção a si dirigida, passam, a partir daí, para Maria.

E o fruto de Maria é Jesus. Estamos, julgo, perante uma nova cosmogonia, podendo esta derivar quer do mito de criação hebraico, quer dos mitos pagãos de renovação do cosmos. Depois do mundo estar criado, depois do mundo ser sucessivamente renovado, este novo mito cosmogónico diz-nos que, com Cristo, o mundo voltou a nascer. È, desta vez, um mundo feito de graça e ternura, tanta quanta existe entre uma mãe e um filho. Mas, ao mesmo tempo, é um mundo humanizado, livre já do jugo, muitas vezes incompreensível, dos rituais requeridos pelos deuses. (Os frutos pendiam somente de Artemisa, pertenciam ao mundo vegetal. O fruto de Maria é humano.) Mundo baseado no nosso livre arbítrio, no nosso caminho ético, tantas vezes individual.

A criação do mundo passa então para um plano secundário. O mundo físico de águas, céus, minerais, plantas, de animais, torna-se o cenário simbólico onde o percurso espiritual dos seres humanos se desenrola. A sua reactualização em termos de forças, deixa de ter, igualmente, a importância dada anteriormente. Com Cristo, somos nós, os seres humanos que necessitamos dessa renovação de forças, através da fé, através das assembleias com os nossos pares.

Karen Armstrong não o refere, mas penso que uma outra idade axial começou a ser desenhada em meados do primeiro milénio depois de Cristo. Refiro-me áquela sonhada pela Idade do Espírito Santo e que no oriente se encontra também no budismo zen. A europeia, tem como símbolo a pomba, ou a coroação das crianças, a japonesa tem como símbolo o Buda que eleva à altura do coração uma flor, como resposta às perguntas concretas sobre o Dharma.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

EXTRAVAGÂNCIAS, 122



Saber de cor ou a sabedoria do coração

Cynthia Guimarães Taveira

Num resumo muito resumido dava ontem na RTP 2 um documentário científico sobre o coração. Conclusões: o coração possuía células nervosas muito semelhantes às existentes no cérebro, de tal modo que se poderia falar num “pequeno cérebro” que vive dentro do coração. Feitas experiências com muitos fios eléctricos, percebeu-se que perante a visualização de uma imagem o primeiro órgão a reagir era o coração e não o cérebro. Mais do que isso, perante a imagem dada o coração reagia e, em fracções de segundo, passava a reagir de uma forma diferente consoante a imagem seguinte que ainda nem sequer tinha sido dada a ver, ou seja, o coração tinha a capacidade de adivinhar a imagem seguinte reagindo antes de tempo. O coração conseguia enviar informações para o cérebro e o cérebro enviava informações para o coração. O coração possuía memória e uma espécie de inteligência emocional, a tal ponto que aqueles que recebiam corações de dadores, em certos casos, pareciam terem mudado de personalidade. Mostrou-se o caso de um senhor que toda a vida tinha sido um pouco abrutalhado e pouco delicado para a mulher e que, depois de ter recebido o coração do dador, passara a escrever poesia de amor quando nunca tinha tido qualquer tendência para a escrita. Investigado o mistério, descobrira-se que o dador era um amante e escritor de poesia e uma pessoa extremamente sensível. O coração consegue também apreender de outros corações o que se passa com eles. Aquilo que dizemos comummente, “esta pessoa tem boas ou má vibrações”, é afinal produto das mensagens que enviamos uns aos outros pelo coração. Na Escócia, depois de muitos estudos, chegou-se à conclusão de que o número elevado de mortes por doenças cardíacas se devia sobretudo à falta de esperança, mais do que ao excesso de tabaco ou à comida de plástico; era nas classes mais pobres e tristes que se morria mais cedo (20 anos de diferença). Existe uma síndrome de Coração Partido. Depois de um choque ou de um desgosto, o coração muda de forma porque é bombardeado com substâncias libertadas quando há um elevado nível de stress. O coração fica com a forma de um balão, podendo ser curado pela ausência de stress e por técnicas de meditação.
Dizia o António Carlos Carvalho: “Estão eles a gastar fortunas nestes estudos quando bastava ir falar com um mestre chinês.”
Dizia Alexandra Pinto Rebelo: “Hoje em dia os argumentos de autoridade na retórica são os da ciência e não os da religião”.
Dizia Camões que “segundo o amor que tiverdes, tereis o entendimento dos meus versos.”
No fundo da nossa cultura há como que uma expectação da prova. A esperança na demonstração: o mundo é um espectáculo de ilusionismo e tem sempre um truque por detrás susceptível de ser demonstrado, passo a passo, racionalmente. A cultura ocidental tem como motor invisível o Complexo de S. Tomé: ver para crer. É claro que este complexo tem duas faces: na primeira, a crença só é possível depois da prova; na segunda, mais esotérica, a clarividência é a verdadeira experiência. Na nossa civilização, muitas vezes ficamo-nos pela primeira face: aquela que pertence ao cérebro. A segunda pertence ao coração: ver com o coração. Saber de coração. Saber de cor. Saber. Sabedoria.
Assim, a filosofia portuguesa não está imune a esta encruzilhada: saber com o cérebro ou saber com o coração. António Telmo é diferente dentro do seio da Filosofia Portuguesa porque procurou fazer com que a informação passasse do cérebro para o coração e vice-versa. E era extremamente criativo por isso mesmo e porque se limitava a seguir a natureza.
O perigo dos sistemas é igual ao perigo que corremos como civilização, o das prisões, o das ditaduras, o de um materialismo oco e vazio (sem ser cheio). Existe o risco de António Telmo não ser considerado um filosofo dentro da chamada Filosofia Portuguesa. Eu diria antes que, enquanto não se escutar o que António Telmo disse, a Filosofia Portuguesa estagnará num limbo pois que, preocupada com os sistemas, se esquece da Sabedoria. Agostinho da Silva sabia isso muito bem, daí o seu amor ao Culto do Espírito Santo que prepara o mundo para o tempo em que não haverá prisões. Aquilo que a mente prende o coração liberta. Amar a pátria é uma libertação porque a nossa pátria contém o sonho desse mundo livre.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

EXTRAVAGÂNCIAS, 121



Cynthia Guimarães Taveira

Não és a sorte, nem o azar
És os dois sempre a disfarçar
Todos os teus sinais
São sinais de outros sinais
O tu e eu não são fiéis
O nós e o nós são outros tantos
És a preguiça do saber exacto
E contas palavras erradas
Para saberes os sonhos certos
Passas pela terra e a terra por ti
Num cruzamento de encruzilhadas
Cada afirmação tua é uma dúvida
Cada pergunta uma certeza
Entregas-te sem que lá estejas
Pois a demanda nunca reside onde estás
És um tempo e um espaço baralhados
E podes ser um relato às avessas
Desdobras-te em sacrilégios e devoções
Em impulsos e seduções
És a vertigem no equilíbrio
E o equilíbrio na vertigem
És uma mão desconhecida que se estende
E ergues as almas paradas ao movimento
Não oprimes pois não tens tempo
Os teus olhos estão fixos mas não és morte
És vida em cheio que nos atinge
Para além do azar, para além da sorte
O teu nome é ser viagem.