(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 12



A não violência

Alexandra Pinto Rebelo

Conhecemos o Senhor Ropu em Malta, bem como uma parte da sua família. Como fomos os únicos ocidentais a adivinhar a sua origem indiana, o Senhor Ropu simpatizou imediatamente connosco.

Conversávamos longamente sobre a sua cultura e a nossa, sobre aquilo que víamos, sobre as suas vidas de emigrantes no Dubai. É uma pequena maravilha poder falar demoradamente com alguém, parando o passo ao ritmo da conversa, gesticulando suavemente, sem o tempo a tocar-nos no braço dizendo “temos de ir”. Este prazer, tão nosso aqui do sul da Europa, prazer partilhado por outros, tem-se retirado aos poucos e poucos do nosso léxico de costumes. É pena que as Manifestações sejam gritos em relação a assuntos absolutamente práticos e não se dêem a assuntos considerados de menor importância, a pequenos luxos culturais que se vão dissolvendo aos poucos.

Num desses momentos, o Senhor Ropu perguntou-me se conhecia o Mahabarata, épico indiano. Disse-lhe que sim. Porém, só o conhecia através de um filme realizado admiravelmente por Peter Brook. Nessa altura ainda era um pouco difícil comprar alguns livros em Lisboa, sobretudo relacionados com o Oriente. Tinha apenas o Bhagavad-Gita, obra posterior, mas que naquela se encaixa, narrando os ensinamentos de Krishna no campo de batalha.

O Senhor Ropu parou. Olhou para o chão com uma expressão séria. Pensei ter cometido uma daquelas faltas de respeito imperdoáveis entre culturas, apesar de não compreender o que seria. Ele então baixou a voz e disse-me, num tom muito delicado, que apesar do Bhagavad-Gita ser uma obra sagrada, não se devia guardar nunca um seu exemplar em casa. Perguntei-lhe o porquê, claro. (Não conseguia conceber nenhum motivo impeditivo para termos uma obra sagrada em nossa casa. Muito pelo contrário, até me parecia que dignificava o espaço.)

O Senhor Ropu explicou-me de seguida que, sendo o tema principal do Bhagavad Gita a guerra, a obra, apesar de sagrada, continha em si a violência. Nós não devemos ter em nossa casa nada que apele à violência, nem um livro sagrado, pois o próprio espaço ficará de alguma forma marcado pela desarmonia, reflectindo-se isso nas pessoas que o habitam. Só devemos permitir a existência, nesse nosso primeiro espaço (ou assim deveria ser), de livros que falem de paz e de harmonia.

Lembro-me amiúde, depois de vários anos passados, do conselho do Senhor Ropu e da perplexidade então sentida e que, de alguma forma, nunca deixei de sentir. Imaginei-me, na altura, a deitar os meus livros todos pela janela, queimando-os, qualquer coisa como um Fahrenheit 451 em versão individualizada. Acho que não tenho livros que não tenham em si qualquer coisa de violento. Pensando no assunto por alto, talvez uma ou outra coisa budista, uma ou outra coisa hindú.

A nossa cultura sempre fez o elogio da violência, começando pela Ilíada e pela Odisseia. Estamos tão embrenhados nela que nem nos apercebemos. Quando falo em violência não me refiro só àquela física, mais óbvia. Refiro-me também à violência de ideias, à violência das imagens, à violência dos costumes, dos heróis. À violência dos próprios santos deixando-se representar, muitos deles, com os instrumentos do seu martírio. Não sei se a maior parte das culturas serão assim, a nossa sei que o é.

Possivelmente, tal manifesto de violência dá-nos a preparação suficiente para irmos resistindo, enquanto o mundo não se tornar um lugar quase perfeito. Talvez não conseguíssemos sobreviver, por agora, sem esse exercício teórico da agressão.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

CARTA ABERTA A PEDRO MARTINS



Eduardo Aroso

Caro Pedro Martins,

Na passada terça-feira, 25 de Janeiro, dia em que se comemora a fundação da cidade brasileira de S. Paulo, onde mais de 15 milhões de pessoas falam a Língua Portuguesa, tive o grato privilégio de, inesperadamente, o ver em Coimbra, e assim podermos falar num local onde o mistério das Rosas de Isabel sempre requereu a nossa língua para, no possível, o exprimir, começando pelo próprio esposo real D. Dinis, impulsionador do idioma luso e ele próprio poeta-trovador. Mesmo ao lado do Portugal dos Pequenitos (noutro sentido «dos Maiores»), da Galeria de Santa Clara que habitualmente é banhada por um sol místico e acolhedor, àquela hora na esplanada já fria, também lançámos os olhos ao Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, que dali se avista em todo o lado sul. Sentados depois na sala que recebia calor da lareira vindo de uma outra, de alguns tópicos que abordámos, sempre no mote do saudoso António Telmo «reunir o que está disperso», um deles gostaria de trazer de novo nestas palavras, no intuito apenas de o clarificar, para o caso de não o ter feito, como é costume nas conversas que temos com alguém que não vemos há algum tempo e que decorrem, via de regra, no amistoso afã de quem quer trocar muitas ideias e notícias.
Tendo vindo ao assunto o conceito oriente-ocidente, seja também no que respeita ao pensamento português, citei eu dois exemplos: o de Guénon e o de Fernando Pessoa. Desde já, caro Pedro Martins, lhe peço licença para este intróito da questão. Porque creio não ter sido suficientemente claro na nossa conversa, começo por dizer que ninguém porá em dúvida que o melhor do ocidente se deve também ao melhor do oriente. No entanto, é preciso considerar que se o ocidente se degradou em muitos aspectos, parecendo manchar e mesmo esquecer ao longo dos séculos uma certa pureza ancestral do espírito do oriente, como hábitos de vida e conceitos filosóficos e doutrinais, na exacta contraparte desta situação adquiriu e conservou porém uma gnose numa oitava acima da sua congénere oriental. Vejamos: quando um mestre da mais alta craveira espiritual (avatar, messias) aparece no mundo, ele não só traz uma mensagem nova por tese, doutrina ou conceito, como explicita, no possível, o que de anterior ainda é absolutamente necessário e que urge lembrar e manter. Cristo não aboliu a antiga lei; completou-a, e assim libertou. Como muito bem descreve Annet Rich, a ideia-chave do hinduísmo é «unidade, ensinando-nos que a Divindade está em toda a parte do universo; depois chegou ao mundo a ideia-chave da religião persa ou de Zoroastro que é pureza.» (…) «Séculos mais tarde veio Buda para novamente ensinar as antigas verdades que se encontravam escondidas sob as ruínas do egoísmo e da casta». Posterior à onda espiritual que brilhou sobre a Grécia e que cai para ser ensombrada pelo militarismo romano, neste ambiente hostil surge o Cristo que revela o Amor. Cristianismo que, a partir do século IV, terá que ser procurado não na Igreja de Pedro, mas na de João, a via que os Templários abraçaram. Podemos dizer que o esoterismo do ocidente começa aqui, isto é, a preservação da essência no meio de uma crescente degradação por um cristianismo de fora, que cresce e se enraíza numa estrutura hierárquica, pari e passu com o império romano, cristianismo esse que do dogma levaria ou acompanharia o materialismo actual.
É ponto assente que uma das missões dos Templários seria a de unir (de um modo não apenas geográfico) oriente e ocidente. Mas nisto reside o enigma: que ligação? Por terra e mar, ou pelo espírito? Ou por ambos? Não nos pode deixar de impressionar que uma ordem guerreira e iniciática como a dos Templários tenha cultivado um especial carinho pelo culto do feminino, que na tradição cristã é a Virgem Maria, símbolo de intercessão, mas também princípio criador (Espírito Santo).

Cristo não aboliu a compaixão, a inofensividade, a paz e outros pontos da doutrina de Buda, tendo contudo lançado o enigma «Não vos trago a paz, mas uma espada». Acentuou também que o sofrimento expia-se sofrendo, quando não há alternativa («Toma a tua cruz e segue-Me»), ou então evita-se no presente e/ou no futuro quando aconselha que aos inimigos se deve perdoar «setenta vezes sete». Também não veio fazer a apologia do nirvana – do qual provavelmente nasceu a tragédia do nosso ocidental Antero, bem patente nalguns sonetos –, mas deu o exemplo de superação, no marcante episódio da tentação no deserto, mostrando que a força espiritual pode e deve ser direccionada, e nisto tocou o ponto essencial para o clássico problema do bem e do mal. O perigo, tão delicado para o budismo, que a essência do desejo contém, não pode ser traduzido na recusa do mundo, só porque é gerador de dor, sofrimento e tensões várias. Ou seja, a recusa de enfrentar a dualidade – pelo menos com a complexidade que o ocidente a toma.
O panorama actual da relação oriente-ocidente mostra-nos, inequivocamente, que o primeiro já só existe como passado do presente e que, agora, em rápido movimento se tem “ocidentalizado” no pior que tem a nossa civilização. Mas, perante isto, não existe, intocável, toda a gnose das civilizações do sol nascente? À legítima pergunta se responde afirmativamente, valendo também para o ocidente no que expus em cima. «A Europa jaz, posta nos cotovelos:/ De Oriente a Ocidente jaz, fitando» (…) «Fita, com olhar esfíngico e fatal, / O Ocidente, futuro do passado». É razoável pensarmos que Pessoa, ao dizer Europa, se refere ao movimento da civilização. Se é verdade que, na perspectiva geográfica, o sol nasce a oriente, não é menos significativo o seu movimento que é de leste para oeste, assinalando assim o curso da civilização, com as suas virtudes e defeitos. Como, pois, o equívoco de trocar o budismo pelo cristianismo ou a flor-de-lótus pela rosa? Como, pois, voltar-se para o passado do presente (e do futuro), não reconhecendo o verdadeiro tao (via) do ocidente «Eu sou o caminho, a verdade e a vida», pronunciado pelo Senhor do Sol? Como, pois, recusar encarar a sombra, o «guardião do umbral» no confronto da pura individualidade ou individuação na unidade divina que o pensamento do ocidente foi revelando?
Depois deste intróito, quiçá longo para uma carta, se entenderá melhor o percurso iniciático do indiscutível René Guénon, mas que não estabeleceu a essencial diferença entre uma coisa e outra: oriente e ocidente. Se bem que a divindade não pode estar, em circunstância alguma, dividida geograficamente, o certo é que a forma de a realizar na imanência humana tem caminhos diferentes. Quando um discípulo procura o caminho da iniciação só pode avançar no seu «raio vibratório». Não é novidade. Vem nos livros. Disseram-no Besant, Blawatsky, R. Steiner, Heindel, entre outros, há cerca de cem anos. Embora Guénon tenha escrito páginas e páginas enciclopédicas sobre ocultismo, não disse o essencial e interior sobre o esoterismo cristão. Não podia dizer. Como muito provavelmente os autores atrás mencionados não poderiam ter dito sobre o sufismo. Creio ser pertinente a seguinte observação: a propósito de Guénon, António de Macedo diz-nos num dos seus livros que teve uma conversa com o seu amigo Lima de Freitas, tendo-lhe confidenciado que no autor de A Crise do Mundo Moderno, «em nenhum dos seus livros se lê uma só palavra sobre amor e sexo». (Nem sequer no sentido sagrado do último termo, diria eu), «ao que Lima de Freitas retrucou: - Nem sobre Estética!». Muitos, entre nós, há muito observaram que Guénon, enigmaticamente, calou sobre Portugal e os Templários. Provavelmente porque, também neste ponto, pouco ou nada sabia, assunto que aliás está intrinsecamente relacionado com o esoterismo cristão. Tendo nascido em Blois, não muito longe de Paris, acabou por morrer no Cairo, convertido ao sufismo, sendo o pormenor da cidade onde faleceu de pouca importância. Importância sim, nele, foi o do seu «raio vibratório» (um entre os sete existentes na Terra) inequivocamente islâmico (adoptou, por fim, um nome de acordo) e por isso incapaz de compreender, pelo menos no lado mais profundo, a doutrina secreta do Cristo.

Quanto ao interessantíssimo caso de Fernando Pessoa, podemos dizer que segue uma via inversa. Como bem observou António Quadros, o poeta místico-ocultista parte de uma predominância racionalista e filosófica, avança para um estádio neopagão, depois espírita, gnóstico, teosófico e hermético (onde surge também a astrologia) para ser absorvido, finalmente, pelas doutrinas rosacruzes e templárias. Se bem que, como também adverte António Quadros no prefácio de «À Procura da Verdade Oculta» (ed. Europa-América), estes estádios, como é evidente, não estão separados de todo, correspondendo a épocas de acentuação de interesses, de interiores (re) descobertas. Particularmente significativo é o conjunto de escritos que Pessoa regista nos últimos dois anos da sua vida, o que faz evidente o seu percurso, ou o seu oculto encontro-em-si-mesmo, que outra coisa não é que o portal ou já altar da iniciação. O seu «raio vibratório» é inequivocamente o cristão esotérico, com a particular expressão ocidental rosacruciana e templária. Vamos reler, por exemplo, o seu poema à Virgem Maria, datado de 14/8/1935, cerca de três meses antes da sua morte física: «À Virgem – Ninguém, nem eu, tem de minha alma dó, / neste momento,/ Ó mãe universal, sê minha só!/ Não são teus olhos, é a minha vida…/ Não são as tuas dores reveladas/ Pela presença das espadas/ Que te me fazem uma mão vivida…/ O que eu sou e o que eu fui, bóia, fervilha/ à tona das marés mudadas./ Não são teus olhos que [sic]». Ainda do mesmo mês e ano, um outro: «Virgem Maria – Mãe de quem não tem mãe, no teu regaço/ Poisa a cabeça a dor universal/ E dorme, ébria, do fim do seu cansaço…/ E tens na mão usado e nunca immundo,/ O pequenino lenço maternal/ Com que enxugas as lágrimas do mundo».
Parece até que Pessoa se voltou resignadamente (ou desiludido) mais para a Igreja de Pedro do que para a de João, ele que tinha dito anos antes «troquemos Fátima por Trancoso». Apenas, em meu entender, depois da tal «procura da verdade oculta», uma pura aceitação, cândida e simultaneamente reveladora, onde o poeta alquimiza todo o seu percurso, ou melhor, quando encontra o seu getsmani. Convém ter a par disto que dos últimos dois anos da sua vida datam também versos onde encontramos palavras como calvário, cruz, Pilatos, Nazareth, Anjo da Guarda, e poemas como é o caso de Monte Abiegno, de inconfundível conteúdo iniciático, quando o poeta alcança o cume mais elevado. Assim, nos derradeiros anos, a cruz a que o poeta se refere não é a da Igreja de Pedro, mas a esotérica, quando no final do poema O Encoberto diz «Que símbolo final/ Mostra o sol já desperto?/ Na Cruz morta e fatal/ A Rosa do Encoberto».
Esta carta, à primeira vista, parece estar emoldurada quase só de uma certa teologia do cristianismo, pela citação de várias passagens bíblicas, e por uma defesa do ponto de vista ocidental. Seja assim; sobretudo no último ponto. Sabemos que religião e filosofia seguem vias diferentes, mas não antagónicas, porque ambas estão sob o mesmo Sopro Universal. Porém, eis a diferença fulcral, também quanto a oriente-ocidente: tendo em conta o actual mundo dito da comunicação (mas que espécie de comunicação?), ainda assim cada povo e civilização interpretam a divindade e a si se pensam de modo particular. Aqui recordamos a lúcida afirmação de Álvaro Ribeiro: «A cada povo é proposto um ideal diferente de realização da Humanidade». Perante isto, que conclusão extrair, se conclusão se pode tirar? Uma coisa é certa: há um caminho. Antes, o início e o fim desconhecem-se. Depois, tocam-se de modos diferentes, juntos no plano da realização, como ouroboros que morde a sua cauda. Portugal tem sido designado como a terra da serpente, animal de duplo sentido que tanto atraiu Pessoa, que nos falou da Ordo Serpentis. Cristo mostrou a possibilidade de dois caminhos num só ao dizer «Sede sábios como as serpentes e mansos como as pombas».
Aceite o melhor abraço, na expectativa de regressarmos a Santa Clara ou a Sesimbra, para continuarmos a «unir o que está disperso».

Coimbra, 1 de Fevereiro de 2011
Eduardo Aroso

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

PROGRAMA PARA DIAS 14 E 15 DE FEVEREIRO



A não perder...

14 de Fevereiro, 2ª feira
  • 10h00: Sessão de Abertura
    António Braz Teixeira
  • 11h00: Comunicações
    Joaquim Domingues, «António Telmo: o homem e a obra»
    Abel de Lacerda, «Um olhar de António Telmo na simbólica de Prestes João»
    Roque Braz de Oliveira, «António Telmo e os caminhos da hermenêutica»
    Carlos Vargas, «A ironia em António Telmo»
  • 13h00: Intervalo para almoço
  • 14h30: Comunicações
    Paulo Teixeira Pinto, «Portugal sem segredos»
    Mário Rui, «António Telmo e as Três Tradições do Livro»
    Manuel Gandra, «Linhagem seminal e espiritualidades bastardas – finais de todos os tempos e no contexto lusíada»
    Luís Paixão, «O número 8 na obra de António Telmo»
  • 16h30: Intervalo para café
  • 17h00: Comunicações
    António Carlos Carvalho, «Os nomes de António Telmo»
    Cynthia Taveira, «António Telmo e a inversão dos candelabros»
    Rui Lopo, «Significado e Valor da Filosofia em António Telmo»
    Pedro Martins, «António Telmo e Luís de Camões»
  • 19h30: Jantar no Círculo Eça de Queiroz*. Inclui, a partir das 21h, apresentação de uma obra inédita de António Telmo, por Nuno Nazareth Fernandes.


15 de Fevereiro, 3ª feira

  • 11h00: Comunicações
    João Cruz Alves, «Testemunho sobre um homem novo»
    António Quadros Ferro, «Correspondência entre António Telmo e António Quadros»
    Elísio Gala, «Língua e Pátria»
    Renato Epifânio, «A ideia de Pátria em António Telmo»
  • 13h00: Intervalo para almoço
  • 14h30: Comunicações
    Carlos Aurélio, «Religiosidade e razão poética em António Telmo»
    Paulo Borges, «O último texto de António Telmo: "O acabar da história [...] bruscamente engolida pelo nada que essencialmente é"»
    António Cândido Franco, «António Telmo e o Surrealismo»
    Rodrigo Sobral Cunha, «O viajante»
  • 16h30: Intervalo para café
  • 17h00: Testemunhos
    Manuel Ferreira Patrício
    Pedro Sinde
    Paulo Santos
    Pedro Ribeiro
    Pinharanda Gomes


* Para o Círculo Eça de Queiroz exige-se fato escuro e gravata. Jantar: 25€ (marcação até 7 de Fevereiro, para: iflbgeral@gmail.com)

sábado, 5 de fevereiro de 2011

REALIDADES


Pormenor de "As tentações de Santo Antão", de Hyeronimus Bosch,
Museu Nacional de Arte Antiga

Cynthia Guimarães Taveira

Notícia retirada da Internet:
“O artista de origem grega e australiana Stelarc implantou a cartilagem de uma orelha no próprio braço. O processo levou anos e ele quase perdeu o braço por causa de uma infecção.
Ele é um dos participantes da feira Kinetica, em Londres, que reúne arte com novas mídias e tecnologias. Stelarc explica que quando a orelha se desenvolver mais, com o uso de células tronco, vai instalar um microfone sem fio nela. O som captado poderá então ser transmitido para diversos lugares.”

Mais uma vez a "liberdade de expressão". Mais uma vez a total ausência de respeito ou de humanidade.

Bosch sabia do que somos capazes e fez descrição detalhada da nossa época antes dela existir.

Senti-me por todos aqueles portadores de deficiência que nada escolheram. Tortos, com menos um braço, com menos uma perna, uma mão, um olho. Com um desgosto na alma por não terem nascido direitos, ou por doença ou por acidente. Senti a tristeza deles ao lerem esta notícia.
Senti que há gente indiferente, desumana que não dá valor ao que tem.
Arte? Então os médicos nazis eram uns artistas... não sabia.
Senti que há gente má. Ponto final.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 11



O rinoceronte mais célebre da Europa

Alexandra Pinto Rebelo

No início do séc. XVI, Afonso de Albuquerque entra em conversações com o Rei de Cambaia. O objectivo era obter a permissão para a construção de uma fortaleza portuguesa em Diu. Como era costume no seu tempo, entrega presentes da parte do Rei de Portugal, D. Manuel. A autorização, mesmo com os obséquios, não é dada. No entanto, o Rei de Cambaia retribui os presentes: um “catalete de lavor em madrepérola” para D. Manuel e uma “bicha monstruosa”, o rinoceronte, para Afonso de Albuquerque. O animal chega a Goa em Setembro de 1514. Afonso de Albuquerque não sabe o que lhe há-de fazer. Lembra-se então que D. Manuel gosta de animais exóticos, mantendo alguns elefantes asiáticos no Paço do Rossio, devidamente acompanhados pelos seus tratadores indianos. Decide enviar-lho. A “bicha monstruosa” lá parte de Cochim em Janeiro de 1515, alimentada a palha e arroz pelo seu tratador indiano, chegando a Lisboa, em boas condições de saúde, a 20 de Maio do mesmo ano.

O animal causa espanto como não poderia deixar de ser. Corre pela corte a informação de que os rinocerontes são, sem sombra de dúvida, mais fortes do que os elefantes. D. Manuel quer verificar se assim é, ficando marcada uma luta entre a “bicha” e um dos elefantes “lisboetas”, confronto ocorrido a 3 de Junho de 1515, no Palácio da Ribeira, relatado mais tarde por Damião de Goes na sua Chronica Del Rei D. Manoel (1566).

A luta, ao contrário do que poderíamos esperar, não foi nada cruel. O elefante era jovem e quando percebe que o rinoceronte vai na sua direcção, dá meia volta e foge, sendo levado de novo para as suas instalações sem nenhuma mazela. O rinoceronte é aclamado nesse momento como o animal mais aguerrido, tornando-se célebre.

O Rei decide enviá-lo a Leão X, como presente. Por esses tempos, convinha dar presentes surpreendentes aos Papas para o que desse e viesse. O rinoceronte parte de novo em viagem em Dezembro do mesmo ano. Mas a notícia da presença do animal em Lisboa já corria pela Europa. Francisco I, Rei de França, pede que o navio transportando a preciosa carga aporte em Marselha, a caminho de Roma, para que ele o possa ver. Assim fazem. Novamente no mar, acontece o não menos célebre naufrágio, atirando para a costa o corpo do rinoceronte já sem vida.

É Valentim Fernandes, tipógrafo da Morávia a viver em Lisboa, que dá a notícia do rinoceronte aos seus amigos em Nuremberga e em Augsburgo. Para além da descrição verbal do animal, envia-lhes igualmente um desenho ilustrando a sua fisionomia que, segundo Dagoberto L. Markl, poderia ser uma cópia de um original elaborado por Francisco de Holanda.

Dürer, um dos pintores mais conceituados do renascimento, terá tido acesso à carta e ao desenho enviados por Valentim. É a partir deles que elabora as suas famosas gravuras, datadas, igualmente, de 1515.

Deste curioso episódio da nossa história, poderemos pensar nalguns apontamentos que dela vamos retirando. Na importância, por exemplo, de Portugal para a abertura da Europa ao mundo. Muito possivelmente desde Alexandre que a Europa não assistia, em fascínio, a notícias de mundos tão distantes. Na rapidez com que a informação circulava no renascimento, sendo uma informação fecunda para os humanistas. Na deslocação de pessoas que, até há bem poucos anos, nunca pensariam em habitar cidades no outro lado do mundo.

REALIDADES


Cynthia Guimarães Taveira


Nunca viu um computador? É velho? Está só? É pobre?

Nós, o governo da República viemos dar-lhe uma grande notícia!!!

Vai ver um computador! Onde? Não sabemos, desenrasque-se! Estupendo!!!
Vai passar a ter as mesmas experiências que os novos com este magnífico acesso à Internet, mais especificamente ao Portal das Finanças! Magnífico!!!
Vai deixar de estar só porque vai poder finalmente falar com alguém para lhe pedir o favor de lhe declarar o IRS! Espantoso!!!
Vai ser ainda mais pobre porque não vai conseguir entregar o IRS e não vai ter direito a reembolso! Fantástico! Fantástico! Fantástico!!!

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

PALAVRAS DE LEONARDO, 1



“O lirismo é a dignificação e a exaltação do indivíduo. O lirismo procura o verdadeiro, o original sentido de cada alma. O poeta lírico, que, para interpretar as almas, começa pelo que elas apresentam de mais imediatamente concreto, achará no indivíduo o amor que o une ao ente amado. E com esse amor ele o pode enredar e prender à família, à humanidade, ao Universo inteiro.
Originariamente individualista, o lirismo pode levar o homem, de entusiasmo em entusiasmo, a sentir-se bem mais concreto e real na universal sociedade dos seres do que encerrado nos seus sentimentos, que, isolados em si, perderiam a cor, o significado e a vida. Na obra de Camões temos a alma lusitana. Reencontraremos a nossa alma enquanto os nossos olhos souberem chorar de sofrimento e os nossos braços se souberem erguer em resgate. Nessas virtudes antigas devemos ir buscar a força para a obra de hoje. Ela não será um futuro de novas descobertas ou conquistas guerreiras. Mas aquela audácia mística que nos fez ir procurar os mundos desconhecidos empreguemo-la na descoberta dos ignorados mundos da nova justiça, mais humana, mais inquieta e mais amorosa. Aquela coragem e aquela lealdade bem precisas nos são para a obra de perfectibilidade moral e social que a consciência nos exige.”

Leonardo Coimbra in Dispersos, I. Poesia Portuguesa, Editorial Verbo, 1984, pág.206

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 10



“Uma história íntima do meu reinado.”

Alexandra Pinto Rebelo

Como muitos sabem, a 1 de Fevereiro de 1908, foram assassinados, no Terreiro do Paço, o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro, D. Luís Filipe. Por esses tempos, tal como em todos, existiam pessoas de bem entre adeptos da monarquia e adeptos da república. A maior parte dos republicanos viu esse momento como a oportunidade certa para declarar o novo regime. No entanto alguns bons homens entre eles não consentiram que a República se erigisse sobre um crime, apoiando a subida ao trono do muito jovem e devastado, D. Manuel.

O que poucos sabem é que D. Manuel escreveu algumas páginas de notas pessoais sobre o acontecido no Terreiro do Paço. Os excertos seguintes pertencem a esse texto, bem como o título encimando estes meus parágrafos. Note-se a expressão “história íntima”, só possível depois da estética romântica do séc. XIX, dando à Europa algo que nos parece hoje tão banal como o conceito de eu e algumas das suas aplicações como intimidade ou individualidade.

21 de Maio de 1908

“Há já uns poucos de dias que tinha ideia de escrever para mim estas notas íntimas, desde o dia 1 de Fevereiro de 1908, dia do horroroso atentado no qual perdi barbaramente assassinados o meu querido Pai e o meu tão querido Irmão. (...) Isto é uma declaração que eu faço a mim mesmo. Como é uma história íntima do meu reinado vou iniciá-la pelo horroroso e cruel atentado. (...)

Minha Mãe vinha-me a contar como se tinha passado o descarrilamento na Casa Branca quando se ouviu o primeiro tiro no Terreiro do Paço, mas que eu não ouvi: era sem dúvida o sinal: sinal para começar aquela monstruosidade infame, porque pode dizer-se e digo que foi o sinal para começar a batida. Foi a mesma coisa do que se faz numa batida às feras (...).

Eu estava olhando para o lado da estátua de D. José e vi um homem de barba preta, com um grande “gabão”. Vi esse homem abrir a capa e tirar uma carabina. Eu estava tão longe de pensar num horror destes que disse para mim mesmo, sabendo o estado de exaltação em que tudo isto estava “que má brincadeira”. O homem saiu do passeio e veio se pôr atrás da carruagem e começou a fazer fogo. (...)

Meu Deus, que horror. O que então se passou. Só Deus minha Mãe e eu sabemos (...).

Imediatamente depois do Buiça começar a fazer fogo saiu de debaixo da Arcada do Ministério um outro homem que desfechou uns poucos de tiros à queima-roupa sobre o meu pobre Pai (...) depois disto não me lembro quase do resto: foi tão rápido! Lembra-me perfeitamente de ver a minha adorada e heróica Mãe de pé na carruagem com um ramo de flores na mão gritando àqueles malvados animais, porque aqueles não são gente “infames, infames”. (...)

Quando de repente já na Rua do Arsenal olhei para o meu queridíssimo Irmão, vi-o caído para o lado direito com uma ferida enorme na face esquerda de onde o sangue jorrava como de uma fonte! Tirei um lenço da algibeira para ver se lhe estancava o sangue: mas que podia eu fazer? O lenço ficou logo como uma esponja (...).
Quando a minha adorada Mãe saiu da carruagem foi direita ao João Franco que já ali estava [no Arsenal] e disse-lhe ou antes gritou-lhe com uma voz que fazia medo “Mataram El-Rei: Mataram o meu Filho”. A minha pobre Mãe parecia doida. E na verdade não era para menos: Eu também não sei como não endoideci. (...)

O que se passou então naquelas horas no Arsenal ninguém pode sonhar! A primeira coisa que perdi completamente foi a noção do tempo. (...)

A minha pobre e adorada Mãe andava comigo pelo Arsenal de um lado para o outro com diferentes pessoas: Conde de Sabugosa, Condes de Figueiró, Condes das Galveias e outros falando sempre num estado de excitação indescritível mas fácil de compreender. De repente caiu no chão! (...) Depois vi bem o que era: o choque pavoroso fazia o seu efeito! Minha Mãe levantou-se quase envergonhada de ter caído. É um verdadeiro herói. (...)

Pouco tempo depois de termos chegado ao Arsenal veio ainda o Major Waddington dizendo que os Queridos Entes ainda estavam vivos; mas infelizmente pouco tempo depois voltou chorando muito. Perguntei-lhe “Então?” Não me respondeu. Disse-lhe que tinha força para ouvir tudo. Respondeu-me então que já ambos tinham falecido! Dai-lhes Senhor o Eterno descanso e brilhe sobre Eles a Vossa Luz Eterna Ámen!”

In Miguel Sanches de Baêna, Diário de D. Manuel e estudo sobre o regicídio,
Lisboa, Publicações Alfa, 1990. (págs 43-55)

PROGRAMA PARA DIA 14 E 15 DE FEVEREIRO


A não perder...

14 de Fevereiro, 2ª feira
  • 10h00: Sessão de Abertura
    António Braz Teixeira
  • 11h00: Comunicações
    Joaquim Domingues, «António Telmo: o homem e a obra»
    Abel de Lacerda, «Um olhar de António Telmo na simbólica de Prestes João»
    Roque Braz de Oliveira, «António Telmo e os caminhos da hermenêutica»
    Carlos Vargas, «A ironia em António Telmo»
  • 13h00: Intervalo para almoço
  • 14h30: Comunicações
    Paulo Teixeira Pinto, «Portugal sem segredos»
    Mário Rui, «António Telmo e as Três Tradições do Livro»
    Manuel Gandra, «Linhagem seminal e espiritualidades bastardas – finais de todos os tempos e no contexto lusíada»
    Luís Paixão, «O número 8 na obra de António Telmo»
  • 16h30: Intervalo para café
  • 17h00: Comunicações
    António Carlos Carvalho, «Os nomes de António Telmo»
    Cynthia Taveira, «António Telmo e a inversão dos candelabros»
    Rui Lopo, «Significado e Valor da Filosofia em António Telmo»
    Pedro Martins, «António Telmo e Luís de Camões»
  • 19h30: Jantar no Círculo Eça de Queiroz*. Inclui, a partir das 21h, apresentação de uma obra inédita de António Telmo, por Nuno Nazareth Fernandes.


15 de Fevereiro, 3ª feira

  • 11h00: Comunicações
    João Cruz Alves, «Testemunho sobre um homem novo»
    António Quadros Ferro, «Correspondência entre António Telmo e António Quadros»
    Elísio Gala, «Língua e Pátria»
    Renato Epifânio, «A ideia de Pátria em António Telmo»
  • 13h00: Intervalo para almoço
  • 14h30: Comunicações
    Carlos Aurélio, «Religiosidade e razão poética em António Telmo»
    Paulo Borges, «O último texto de António Telmo: "O acabar da história [...] bruscamente engolida pelo nada que essencialmente é"»
    António Cândido Franco, «António Telmo e o Surrealismo»
    Rodrigo Sobral Cunha, «O viajante»
  • 16h30: Intervalo para café
  • 17h00: Testemunhos
    Manuel Ferreira Patrício
    Pedro Sinde
    Paulo Santos
    Pedro Ribeiro
    Pinharanda Gomes


* Para o Círculo Eça de Queiroz exige-se fato escuro e gravata. Jantar: 25€ (marcação até 7 de Fevereiro, para: iflbgeral@gmail.com)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 9



Alexandra Pinto Rebelo

Do silêncio e Do horror

Acabei de ler um livro, mais um, sobre o terramoto de Lisboa. Como de costume, não consegui evitar sentir uma angústia resignada.

A minha família é de Lisboa, até nos perdermos na memória do tempo. Éramos educados desde crianças a sentirmos Lisboa, a termos uma consciência afectiva do espaço, entendendo-o como a um ente quase personificado, ou mesmo personificado, tendo um castelo no lugar do coração, ruas que também são artérias, igrejas, palácios, leitarias como se fossem órgãos. Este é, com certeza, um sentimento pagão, o que não é de estranhar se nos virmos, à semelhança de um sítio arqueológico, como uma sucessão de estratos de várias épocas.

Desde sempre me falaram no terramoto, horror que dividiu o tempo em dois. Em Lisboa, existem as coisas de antes do terramoto, e as coisas do depois. Entre eles, existe uma ponte de memória unindo os dois tempos: o Rossio ainda é o Rossio e não a Praça D. Pedro V, a Praça do Comércio ainda é o Terreiro do Paço, apesar do Paço ter, também ele, sucumbido.

Muitos de nós temos uma mitologia familiar sobre o assunto. Sempre nos foi dito que irá ocorrer outro de igual intensidade e, com ele, voltará o horror, o caos, a ruína. Alguns de nós, desde pequenos, fomos habituados a dormir com uma muda de roupa perto da cama para que, se dormindo a terra tremer, nos possamos vestir rapidamente para o que der e vier.

Ao longo dos anos, a Protecção Civil e entidades semelhantes ensinaram-nos a reagir em caso de tremor de terra. Fechar o gás e a electricidade, colocarmo-nos debaixo da moldura das portas, afastarmo-nos de móveis altos que nos possam atingir... Estas indicações só vêm dar vigor aos nossos pequenos mitos privados. Somos uma espécie de Pompeia moderna, sujeitos à erupção de um vulcão que há-de acontecer um dia. Quando, ninguém sabe.

Todos nós somos ainda sintomas dos traumas violentíssimos desses meados do séc. XVIII (o próprio rei D. José, recusou-se até ao fim a viver em novo palácio feito de pedra). Talvez por isso, o terramoto não se tenha constituído em mito cultural português. Há qualquer coisa que ainda nos corre pelas veias, um medo suspenso do acontecimento, não nos permitindo torná-lo em matéria abstracta para poder ser metamorfoseada em termos culturais. Em Lisboa, somos pródigos em conservar expressões. Dizemo-las, como uma Cidade falaria às suas amigas Cidades das lembranças da sua juventude. Dizemo-las e vamos sendo também nós Cidade, já que as Cidades, à maneira dos deuses antigos, não têm outra forma de ser sem nós. Qualquer coisa parece “as obras de Santa Engrácia”, às vezes queremos meter “o Rossio na Rua da Betesga”, se alguém tem um comportamento mais solto dizemos “então, já chegámos ao Brasil?”. Nestas expressões, de tantas que temos, nem uma refere o terramoto.

Parece que os limites do horror foram ultrapassados, que a única forma encontrada de lidarmos com isso é o silêncio da palavra, trancando o medo no seio da família, suspendendo-o, para que nada daquilo volte a acontecer.

EXTRAVAGÂNCIAS, 119



Educação Moderna

Cynthia Guimarães Taveira

- Pai, onde vamos?
- Vamos ao Museu de Arte Antiga.
Pai e filho caminhavam de mãos dadas naquele Domingo de Sol. Havia um encanto especial na forma como a luz incidia sobre a cidade que parecia deserta.
- Não é bonito, filho, a maneira como o sol bate nas folhas das árvores? Repara, parece que mudam de cor, ficam mais brilhantes, mais vivas do que em dias cinzentos..
- Pai, é como se o sol pintasse as árvores outra vez, não é?
- Agora disseste uma grande verdade, é isso mesmo.
- Pai, o que é que vamos ver?
- Vou mostrar-te como é que pessoas que já morreram há muito tempo pintavam. Vamos ver quadros bonitos.
Subiram as escadas do velho palacete que albergava as obras primas, e, encantado, o menino descobria um mundo passado de telas, óleos. Nessa manhã, descobriu a pintura e os seus efeitos e questionava tudo: quem eram as pessoas que estavam dentro dos quadros, se já tinham morrido. Como é que se pintava antigamente e quais o materiais? O pai, deliciado com o interesse do filho, desdobrava-se em explicações, ele próprio descobria novos ângulos, novos pormenores nas salas que se desdobravam, quentes e acolhedoras.
Pararam em frente aos Painéis e o pai explicou-lhe a importância do quadro e a forma como este representava os portugueses, chamando-lhe a atenção para os detalhes, o cuidado com que havia sido pintado.
- Pai, tens uma caneta?
- Para que é que queres a caneta?
- Para fazer bigodes neles todos.
O pai, deveras espantado com a ousadia do filho, decidiu então sentá-lo em frente ao quadro e explicou-lhe:

- Filho, não podes fazer bigodes no quadro porque ainda és uma criança. As crianças estão no tempo de serem educadas.
- Que é ser educado, pai?
- É sobretudo saber olhar e saber estar com tranquilidade. É saber apreciar o melhor que o mundo tem, é admirar a beleza das coisas: de uma pintura, de uma árvore. É saber sorrir e estar bem, é tratar os outros com cuidado para que não se magoem, é tentar fazer coisas bonitas como os desenhos que fazes lá em casa, é tornar o mundo ainda melhor, mais alegre, mais feliz. Isso é ser educado e tu estás nesse tempo.
- Então se fizer bigodes estou a estragar o quadro, não é?
- De maneira nenhuma, quando puderes fazer bigodes é porque já és grande e responsável, já sabes aquilo que fazes, já não tens de ser educado.
- Então quer dizer que estou preso enquanto for criança?
- Sim, meu filho, só quando fores adulto é que vais descobrir as maravilhas da “liberdade de expressão” e nessa altura vais poder fazer tudo o que quiseres aos quadros: pintá-los por cima, pisá-los, até podes escrever asneiras em cima deles que não faz mal. Também podes pintar os prédios com riscos para toda a gente ver.
O filho ficou calado durante uns momentos, contemplando os Painéis.
- Pai.
- Diz filho.
- Este quadro é bonito?
- Agora, na tua idade, é bonito; quando fores mais velho, não sei. Depois decides quando fores livre.
- Pai.
- Diz, filho.
- A liberdade é bonita?
- A liberdade é a coisa mais bonita que há no mundo.
- Mais bonita que este quadro?
- Mais bonita que este quadro, por isso é que o podes pintar por cima quando fores grande.
- Obrigado, pai, por me teres trazido aqui. Fiquei a saber que a liberdade é a coisa mais bonita do mundo e que um dia vou ser livre.

E abraçou o seu pescoço, dando-lhe o beijo que justifica só por si o facto de ter filhos.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

CONVITE À LEITURA, NO MILHAFRE




http://mil-hafre.blogspot.com/

Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011

FERNANDO NOBRE – O PRESIDENTE OCULTO , de Eduardo Aroso

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

ANTÓNIO TELMO, SEMPRE



ANTÓNIO TELMO (1927-2010) E VILA VIÇOSA

Carlos Aurélio

«Negarei que sou cristão perante o galo
Que anuncia o renascer do meu corpo aflito?»
(A. Telmo: de um poema a Leibnitz)

«Entretanto há a Pátria. A Pátria somos todos, os que vivemos e, sobretudo, a cadeia invisível dos antepassados, essa enorme força da espécie que o Anjo marcou na sua génese com uma língua e um determinado sestro histórico, se não transcendente. Não é por acaso que se nasce português e misteriosas são as leis de afinidades pelas quais temos aquele Pai e esta Mãe, estes irmãos, esta mulher e estes filhos. Como é possível abandonar tudo e ficar só?»
(A. Telmo: in História Secreta de Portugal, p. 162)

Em Vida Conversável Agostinho da Silva põe como possível uma certa «teoria nova de se nascer» aventando ter ele nascido no céu das ideias ao ficar atento à rotação do globo terrestre que passava à sua frente, isto assim por escolha consciente e pré-natal no dizer de Platão citando o mito de Er. Quis portanto Agostinho nascer em Barca de Alva, última aldeia do Douro antes de Espanha mas, sendo difícil o cálculo matemático e rigoroso em assunto de acerto entre os corpos sidéreos em movimento como o são Céu e Terra, acabou dado à luz no Porto. Tudo se corrigiu e o erro logo foi reparado pois ao cabo de poucos meses já o infante balbuciava e crescia em Barca de Alva, lugarejo de rio em reflexo da foz do Douro, mais barco aproado ao Génesis ou ao alvor do mundo.
Creio bem possível esta «teoria nova de se nascer» e tenho por certa uma outra teoria, talvez intuição velha, sobre o morrer, pois sem darmos por isso e tal como fazem os elefantes já velhos, andamos boa parte do nosso existir em busca de sítio para morrermos, a acertarmos instintivamente a coisa ao invés, esta Terra com aquele Céu de onde viemos. Chamo-lhe teoria não por necessária demonstração mas por nela significar contemplação, talvez contemplação intuída desse lugar, porta ou portela que nos chama à inalienável passagem, ainda por cima para o que presumo vir a ser a verdadeira vida. Escrevo estas linhas poucos dias depois de António Telmo, escritor e filósofo tão assiduamente presente a Vila Viçosa, ter partido de entre nós.
António Telmo acertou o seu Céu com a Terra na vila fronteiriça de Almeida, na Rua do Convento, pelas duas horas da tarde de 2 de Maio de 1927; refez agora o novo acerto milimétrico e sidéreo entre Terra e Céu pelas nove horas de um sábado, a 21 de Agosto de 2010 no Hospital do Espírito Santo em Évora. Entretanto a infância fê-lo crescer em Angola, em Alter do Chão e em Arruda dos Vinhos, a juventude deu-lhe o mar de Sesimbra e o grande rio da vida em Lisboa, passando a Beja, a Évora e a Estremoz até que a Universidade de Brasília por Agostinho da Silva o chamou, vindo a seguir para Granada e o Alentejo de novo em Redondo e em Borba, por fim, Estremoz. Nunca viveu em Vila Viçosa mas Vila Viçosa muito viveu nele, pelo menos quarenta anos, metade do seu viver. Aqui conviveu e teve amigos, pensou e escreveu, para aqui vinha quase todos os dias como se do Café Framar avistasse o universo, ou então a sua Ilha de Passagem, camoneana e persa em seus três outeiros «Que de gramíneo esmalte se adornavam, / Na formosa Ilha, alegre e deleitosa. / Claras fontes e límpidas manavam/ Do cume, que a verdura tem viçosa.» (Os Lusíadas, IX, 54). Esta terra ou Ilha Viçosa foi talvez para ele um reflexo terreno do contínuo reencontro com as imagens virginais da sua infância e com a natureza, um lugar confessado da sua estima, uma terra propícia à sua tertúlia filosófica. De longínquos pontos do País e do mundo aqui veio gente para o ver e escutar em busca dessa névoa que o desconhecido tece, que o mistério faz ser e viver, aqui palpitou a saudade como ausência e presença do verdadeiro conhecimento ao modo de Pascoaes, interpretando operativamente Camões e Pessoa, interpelando cada conviva em seu acerto entre Terra e Céu. Parecido com isto só no Café Águias d’Ouro em Estremoz.
Se a consciência da Filosofia Portuguesa enraizou em Sampaio Bruno (1857-1915) e depois aflorou pujante em Leonardo Coimbra (1883-1936), foi todavia só com Álvaro Ribeiro (1905-1981) e José Marinho (1904-1975) que se fundamentou em teses e obra que os discípulos continuaram. António Telmo é veio desse rio e ramo dessa árvore espiritual. Desde os seus 22 anos que participou em Lisboa no grupo da Filosofia Portuguesa fundado pelos portuenses Álvaro e Marinho na senda da Revista Águia e da Renascença Portuguesa, erguidas por Leonardo e Junqueiro, Pascoaes e Pessoa, passando por José Régio ou Agostinho da Silva, Almada Negreiros ou Eudoro de Sousa. Nessa tertúlia, fundada na década de quarenta do século passado, se iniciou o 57, movimento filosófico e cultural, e nele despontou o então novel filósofo António Telmo. Outros condiscípulos aí se confirmaram como Orlando Vitorino, seu irmão (1922-2003), António Quadros (1923-1993), Afonso Botelho (1919-1996), Pinharanda Gomes (1939) e outros. A cepa é vigorosa, a ramagem a cobre.
António Telmo, discípulo de Álvaro Ribeiro e de José Marinho, também convivente próximo, profundo e prolongado quer com o poeta austríaco Max Hölzer, quer com o pensador ousado que foi Agostinho da Silva, investigador de correspondências outras com Fiama Hasse Pais Brandão, Natália Correia ou com o cabalista inglês Z’ev ben Shimon Halevi, abriu por si mesmo uma senda particular no pensamento português e na espiritualidade pátria. Pela simbólica da pedra esculpida no Mosteiro dos Jerónimos, pela hermenêutica em Camões e n’Os Lusíadas, pela via iniciática de Pessoa e da Mensagem, pelas sombras de luz na saudade de Teixeira de Pascoaes, sempre o seu labor foi profícuo, o seu pensamento lúcido, as intuições clarividentes, sempre surgiu criador porque em saudável expectativa ao pulsar da portugalidade, à semente imperecível do espírito entre os homens. Fez de si mesmo a vida poética de que tanto falava, e nela traduzia a expressão particular e inalienável de cada um com Deus, por ela se nutria a liberdade movente da alma, no seu caso aberta ao corpo transcendente de Portugal, à inquietação das ideias, ao mundo do espírito. Para António Telmo «a essência cindida da existência é um puro fantasma», um idealismo vazio, uma abstracção insituada e sem sentido. Daí a importância da literalidade, do corpo, da alma medianeira e sensitiva em cujo centro se pode alterar a natureza das emoções, da luz que já é conhecimento e porta do inteligível. A sua vida e a sua obra são metáforas mútuas, reflexos similares da mesma alma inquieta por Deus e por Portugal, a sua criatividade é fértil porque exposta à expectativa do espírito, ao espanto de se estar vivo. Na sua obra está a sua vida, não por solipsismo narcísico mas por verdadeira recriação que só pela imaginação se revela e exprime: Tomé Natanael é António Telmo, não às avessas, mas por corolário das mesmas letras que o refazem espiritualmente no acerto da sua Terra com o seu Céu.
Nestes dias depois da porta ou da passagem da qual nada sabemos conviriam certamente considerações ponderadas e sóbrias sobre este homem extraordinário que passou por Vila Viçosa. Passou por aqui quarenta anos, sempre perto e também ao largo, como se faz à volta de uma Ilha que se encobre sem nunca se alcançar, assim um cometa que nos foge enquanto brilha. Cá veio, pois, sempre como navegante em viagem sem fixação possível no acto de quem busca. Aqui o vimos ora a escrever ou a conversar no Café, ora no bilhar ou a jogar à malha, ou então em filosofia peripatética ao modo do Liceu de Aristóteles dando longos passeios com os amigos pela Vila, pelo Castelo, pelos campos circundantes. Quantas páginas de si aqui terá escrito? Muitas, comprovadas e certas, e aqui viveu pois sem que morasse, como vivem aliás os exilados do espírito que a saudade não lhes dá chão firme. Vila Viçosa, ele que tantas vezes confessadamente a admirou em seu esplendor aberto e urbano e em sua delicada luz, Vila Viçosa terá sido neste seu mundo um dos reflexos encantatórios da Ilha, um catalizador e um apelo dos que buscam entre os homens a nudez infantil do V Império ou, como um dia disse, olhando a neblina e uma serrania de Sesimbra: «Foi na Serra da Achada / Que julguei ter-me perdido / Quem se ganha não é nada / Disse-me Deus ao ouvido». Neste vai-e-vem entre a sua casa e esta Ilha Viçosa nunca ganhou nada no sentido vulgar que o mundo dá ao sucesso e à fama. Apenas se perdeu para que Deus o achasse.
Por Agostinho da Silva «a teoria nova de se nascer» diz-nos onde e quando entramos no mundo para nos ser dada a liberdade de nos perdermos, por António Telmo se faz o regresso à Terra Prometida até nos reencontrarmos, assim o Êxodo dos judeus errantes ao longo de quarenta anos como sina ou Sinai. Arruda deu-lhe a infância na arte da fisga no exímio caçador que veio a ser, Sesimbra a juventude, o mar e a Ilha sonhada, Estremoz a maturidade do pensador que tanto caçou e amou as aves e os céus. Em Vila Viçosa, qual síntese onírica de uma obra sempre a refazer, sobrou-lhe a idade do tempo imponderável, esse que não tem conta nem medida. Daqui, muito avistou do eterno.
Tudo será símbolo pelos olhos dos deuses se sempre houver amor a decifrar. Na véspera da sua partida e neste Agosto de acerto com o Céu, “calhou” que eu tivesse passado toda uma tarde até ao crepúsculo na praia frente à Ilha do Pessegueiro, em Porto Covo. Lá, muito me lembrei do António Telmo que sabia já gravemente doente, enquanto os meus sobrinhos, divertidos, davam piruetas e faziam o pino copiando ginastas ou artistas de circo. Entretanto, e em desconhecimento mútuo, o nosso comum amigo Hélder Cortes estava na mesma praia e até a Ilha do Pessegueiro visitou, montando, ele e a filha, um barco que afinal era um cisne branco que de longe avistei. Tudo isto, assim dito, pode sugerir devaneio ou fantasia infantil e, todavia, quanta possibilidade haveria a conversar com o António Telmo em passeio ou em tertúlia de Café! Vem-me à lembrança, talvez ao coração ou à recordação, toda a hermenêutica camoneana do António Telmo, desde os gestos iniciáticos dos cisnes na «Ilha angélica pintada» dados na iluminura persa do seu Desembarque dos Maniqueus, até ao «pomo que da pátria Pérsia veio» e que pelos Lusíadas sabemos significar o fruto do pessegueiro. Será fantasia, jogo forçado ou simplesmente uma subtil convergência de almas? Falamos aqui de vera imaginação e de fraternidade espiritual. A outros amigos, outros fios foram dados. A Ilha!
Por mim pouco sei mas dei-me a estas considerações em busca do porto covo, cavo ou fundo, desse seu ponto particular de acerto entre Terra e Céu de onde o António Telmo embarcou às nove horas da manhã seguinte. Sei que aqui estaria assunto sério sem nunca ser mórbido, vivo sem cair na superficialidade, tema de sábia conversa a ter com ele numa das mesas do Café Framar, na esplanada da Mata, em passeio por Vila Viçosa, ou mesmo entre amigos no meu Atelier. Estou certo que o mistério seria sondado com ousadia e delicadeza, o pensamento viria como flecha, ou não fosse o António Telmo o filósofo aberto à liberdade, mesmo correndo o risco do erro, acaso nos propuséssemos apontar ao alvo, sabendo que sem alvo perde sentido toda a pontaria. Certa vez escreveu que uma das primeiras histórias que ouvira em criança «era a de um atirador de arco que, ao ir apanhar a única seta perdida para além do alvo, deparou com uma paisagem maravilhosa». Nessa paisagem agora estará, achado depois de perdido, com Deus a falar-lhe ao ouvido. Com ele imagino a Elba, o Mondego, o Nilo, todos os seus cães que já foram, que um dia me disse vir a encontrá-los depois de partir, estrada adiante. E também lá suponho o Álvaro e o Marinho, o Orlando e o Agostinho, o próprio Camões e até o Veloso, o nauta da Ilha dos Amores pintada. Sempre a Ilha!
Dou graças à vida pelo filósofo admirável e pelo amigo generoso, ele que por Florbela, por Pousão e por tudo o resto me falou da gratidão que a minha alma deveria a este meu acerto entre Céu e Terra, por ter nascido em Vila Viçosa. Aqui somos.
Recordo outra vez os meus sobrinhos a fazerem o pino frente à Ilha do Pessegueiro, com as mãos abertas a vincarem a areia, as pernas levantadas e os pés no céu ao modo do que escreveu Leonardo Coimbra sobre a metanóia da posição invertida dos ginastas, ele que tudo fazia depender da transcendência. Imagino o António Telmo com a sua fisga: um ípsilon na mão, não sei se vejo o pino de um ginasta com os pés no Céu, se um Cristo de braços abertos na Terra.
Muito te agradeço, António, ao rapazinho de Arruda e de Sesimbra tão exímio com a fisga, mais ainda ao filósofo que em Vila Viçosa e com tanta pontaria vi acertar nas janelinhas do Céu. Graças a Deus.

Carlos Aurélio, 31 de Agosto de 2010

- Arte Poética, Guimarães Editora, 1963; reedição em 1993.
- História Secreta de Portugal, Editorial Vega, 1977.
- Gramática Secreta da Língua Portuguesa, Guimarães Editora, 1981.
- Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões, Guimarães Editora, 1982.
- Filosofia e Kabbalah, Guimarães Editora, 1989.
- O Bateleur, Átrio, 1992.
- O Horóscopo de Portugal, Guimarães Editora, 1997.
- Contos, Aríon, 1999.
- O Mistério de Portugal na História e n’Os Lusíadas, Ésquilo, 2004.
- Viagem a Granada, Fundação Lusíada, 2005.
- Contos Secretos, Editora Tartaruga, 2007.
- Congeminações de um Neopitagórico, Al-Barzakh, 2006; Zéfiro, 2009.
- Contos Secretos, Editora Tartaruga, 2007.
- A Hora de Anjos Haver, (Poemas), Porto, 2007.
- A Verdade do Amor, (Teatro) seguido de Adoração (L. Coimbra), Zéfiro, 2008.
- Luís de Camões (Obras Completas vol.1), Al-Barzakh, 2010.
- O Portugal de António Telmo, Guimarães Editora, 2010.

domingo, 23 de janeiro de 2011

OS VERDADEIROS RESULTADOS DAS ELEIÇÕES E UMA CONCLUSÃO



Cynthia Guimarães Taveira

A soma dos votos dos candidatos à Presidência da República independentes (Fernando Nobre, José Manuel Coelho e Defensor Moura) ronda os 20%, o que, no universo da totalidade dos eleitores, equivale a 10%.
Se pegarmos nesse valor e lhe acrescentarmos cerca de 53% de abstenção, ficamos com mais de 60% do total dos eleitores, ( à volta de 65% contando com os votos em branco).
O Cavaco foi eleito por apenas 23% dos eleitores.
Conclusão lógica: mais de 60% dos portugueses não se revê nas opções dos partidos políticos nem em tudo o que se assemelhe.
O Professor Marcelo já defende o voto obrigatório, claro: não são os políticos que têm de mudar o comportamento, são os portugueses que têm de se adaptar ao comportamento (por vezes indedecente) dos políticos, a lógica da batata...
60 e tal por cento dos portugueses ainda são sensatos.
Ainda há esperança.

sábado, 22 de janeiro de 2011

CARTA ABERTA À SENHORA MINISTRA DA CULTURA



A exposição de pintura Primitivos Portugueses (1450-1550) – O Século de Nuno Gonçalves, inaugurada no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) no final de 2010, deu azo à promoção, pelo mesmo Museu, em parceria com a Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e com o Museu do Chiado, de uma outra exposição, esta de arte contemporânea, intitulada D’Après Nuno Gonçalves, e compreendendo as vertentes de pintura, escultura, instalação, vídeo e fotografia. Com esta última iniciativa – um dos seus núcleos está patente no próprio MNAA – pretendeu-se reflectir sobre a importância e a influência na arte contemporânea da obra daquele pintor quatrocentista, o que, no plano dos princípios, não merece qualquer reparo ao MIL: Movimento Internacional Lusófono.

Não pode porém este Movimento deixar de notar, expressando o seu mais vivo repúdio, que, pelo menos num dos casos, o das instalações, expostas nos Passos Perdidos do MNAA, de que é autor Manuel João Vieira, o resultado obtido se traduziu num achincalhamento do políptico que constitui o principal ex-libris do Museu. Tomando como base a reprodução dos Painéis atribuídos a Nuno Gonçalves, Manuel João Vieira enveredou pelo caminho do pastiche mentecapto, apondo, por exemplo, bigodes a todas as personagens figuradas no políptico, ou envolvendo-as até em imagens de teor sexual explícito.

Claro está que Manuel João Vieira tem todo o direito a fazer aquilo que bem entende – não questionamos, de modo algum, a liberdade de expressão. O que questionamos e censuramos é apenas que o principal museu português caucione este achincalhamento. Um povo que deixa que achincalhem a sua história e cultura é um povo que falta ao respeito a si próprio.

O ano passado uma actriz brasileira fez-se filmar cuspindo no Mosteiro de Jerónimos. Que se saiba, esse foi um acto não subsidiado pelo Estado Português. Quanto a este escarro em forma de “instalação”, perguntamos, à Senhora Ministra da Cultura, quanto nos custou?

Muito cordialmente
MIL: Movimento Internacional Lusófono
www.movimentolusofono.org

Primeiros 20 subscritores:
Renato Epifânio
Rui Martins
António Braz Teixeira
António Cardoso
António Carlos Carvalho
Carlos Aurélio
Carlos Vargas
Celeste Natário
Cynthia Guimarães Taveira
Dalila Pereira da Costa
Eduardo Aroso
Jesué Pinharanda Gomes
Joaquim Domingues
Manuel Ferreira Patrício
Manuel Gandra
Miguel Real
Pedro Martins
Rodrigo Sobral Cunha
Roque Brás de Oliveira
Alexandre Gabriel

Para assinar:
http://www.gopetition.com/petition/42200/signatures.html

SABEDORIA ANTIGA, 8



Um problema de tradução

Alexandra Pinto Rebelo

Passei por um supermercado chinês, em Lisboa. Como nunca tinha estado em tal tipo de estabelecimento, entrei. Pensei que as minhas refeições frequentes em restaurantes chineses, ao longo de vários anos, seriam um posto fronteiriço seguro entre mim e aquele distante universo gastronómico. Bastou olhar para a primeira escada de prateleiras para compreender que não seria assim. Ainda passei bastantes minutos na loja, olhando com atenção, observando os desenhos indicativos das embalagens com cuidado bem como as manchas de tinta de milhares de caracteres. Nem com todo o meu cuidado e boa vontade consegui traduzir a maior parte das coisas vistas para os meus conceitos de matérias comestíveis.

Não há melhor experiência do que entrar noutra cultura para sentirmos que a maior parte das coisas nos são estranhas. O outro serve-nos sempre como ponto de referência para aquilo que nós não somos. Como não o compreendemos, surge-nos como um pequeno conjunto de estilhaços de caos, uma espécie de não-descrição, que em certa medida nos vai sugerindo aquilo que somos através do que não somos.

Poucos são aqueles que conseguem estabelecer este distanciamento na sua própria cultura. Terá sempre de ser um distanciamento forçado. Olhar para um galão é conhecê-lo. Não conseguimos parar toda a informação que, mesmo sendo silenciosa, nos percorre. Conseguir construir uma barreira entre o nosso conceito de galão e o galão ele mesmo é o princípio dos sábios. No fundo, importa conhecer as coisas como elas são, e não discursos sobre as coisas que decoramos desde crianças, discursos que acabam por moldar a nossa percepção. É muito difícil tornar estranho o que nos é familiar, por uma questão de princípio. Viver um paradoxo não entra na nossa lista habitual de coisas que somos. Assim, passamos a vida a fazer cumprimentos silenciosos, com discursos que são interpretações de outros, a coisas que se nos tornaram familiares tão só por termos decorado e compreendido esses discursos. Ou seja, aquilo que nós somos, aquilo em que nos transformam sempre, é um conjunto de teias de discursos sobre os objectos, sobre os fenómenos, interpretações marchetadas em palavras mesmo sendo reconhecivelmente curtas ou compridas demais. Tornamo-nos os discursos e pensamos que com eles nos tornamos nas coisas, conhecendo-as como nossas, conhecendo-as como se as fossemos.

Por isso, só os sábios podem quebrar discursos, ficando sem nada. (Falo de sábios, enquanto termo genérico, propositadamente). Os sábios, para serem sábios, sabem que nada têm, por isso nada perdem.

No meio deste texto, vou cometer uma heresia. Heresia, mesmo, não falo metaforicamente. Quem for mais sensível a estes assuntos, deverá parar de ler por agora.
Pensei eu se os anjos também não terão olhares que são eles mesmos interpretações sobre as coisas. Coisas superiores às nossas, presumo, desconhecidas dos humanos, talvez, mas não terão os anjos discursos decorados, teias de interpretações sobre os seus fenómenos e os nossos? Será que aquilo que nos vêm transmitindo são as coisas em si mesmas?
Parece-me que, das religiões do Livro, só o Islão terá resolvido este problema em termos filosóficos. O Corão existe desde o princípio dos tempos, não sendo inspirado mas sim revelado. É uma coisa per si, identificável com o Cristo da cultura cristã. Islão significa então submissão a essa revelação, revelação que é a coisa em si transformada em texto recitável.

Voltemos novamente ao oriente. A palavra sânscrita Tathatâ, tem um sentido próximo da nossa palavra “realidade”. Designa o Absoluto, a Verdadeira Natureza de todas as coisas. O termo Tat é a raíz da palavra. Ninguém sabe a sua origem nem o seu primeiro significado A hipótese mais forte é representar o som que os bebés fazem quando apontam uma coisa. O bebé é aquele que está mais próximo do início, não tendo ainda apreendido, ou decorado, discursos sobre os objectos ou fenómenos para os quais aponta. Dessa forma, esse som inicial, será aquele que com maior rigor descreve a coisa em si. Se pensarmos bem nisto, tudo, então, é Tat. Nós próprios somos Tat, bem como todas as nossas referências. Tudo o que é o Outro se diluí nesta pequena palavra levando-nos também a nós para um caldo primordial não-conceptual. Um dos nomes de Buda é Tathâgata, aquele que chegou à Iluminação pela via da Verdade. E a verdade, se olharem bem para a raíz, é Tat, nada mais do que isso.

UM FOTOGRAFO A DESCOBRIR...


Fotografias de Fernando Jorge, na Biblioteca Municipal de Alcochete numa exposição intitulada "Tu-Transições". Até 26 de Março. Vale a pena ver.
Horário: 3º Feira - das 15.00h às 21.00h
de 4ª Feira a Sábado - das 10.30 às 19.00h
Biblioteca Municipal de Alcochete
R. Professor Leite da Cunha I
Tel. 212 349 720

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 49



António Carlos Carvalho

João Villaret subiu ao céu dos actores há 50 anos, no dia 21 de Janeiro de 1961. Meia hora antes de morrer dizia a Vasco Morgado: «Ainda havemos de montar grandes espectáculos». No seu último teatro, o Monumental (também ele desaparecido, para nossa vergonha), nessa noite já não se representou o último quadro de «Boa Noite Betina»: Paulo Renato anunciou a morte de João Villaret e pediu que se substituíssem os aplausos no final por um minuto de silêncio em memória do «maior actor do teatro português».

O corpo do artista foi para a Basílica da Estrela, onde os muitos que lá foram prestar a última homenagem se admiravam por ver o actor de cabelos brancos -- tinha-os pintado dessa cor para criar a personagem principal de «A Raça», o filme de Augusto Fraga que já não teve tempo de fazer… O funeral saiu dali para o talhão dos artistas do Cemitério dos Prazeres, acompanhado por uma multidão de vinte mil pessoas. «No enterro, não se ouvia uma mosca, tal era o respeito que lhe tinham», segundo o testemunho de Rui de Carvalho. Nessa época ainda não havia esse bárbaro costume dos nossos dias, de se bater palmas nos enterros, certamente aplaudindo o eficiente trabalho do Anjo da Morte…

Palmas, e muitas, recebeu-as João Villaret em vida, como lhe era devido, nos palcos dos teatros D. Maria II, Trindade, São Luís, Avenida, Variedades, Tivoli, Monumental, em Lisboa, mas também nos teatros do Porto e de muitos outros lugares do país, incluindo Madeira e Açores, e também Angola, Moçambique e S. Tomé, e ainda no Brasil e na Argentina. A todos esses lugares levou a presença da língua portuguesa sob as formas do teatro e da poesia -- a poesia que ele dizia como mais ninguém, antes ou depois dele. (José Régio confessou uma vez, depois de o ouvir no teatro Sá da Bandeira, no Porto: «Eu não sabia que era assim a minha “Toada de Portalegre”…»)

Ao longo de trinta anos, disse cerca de trezentos poemas, de cento e quarenta autores, sobretudo portugueses, mas também brasileiros e alguns franceses. A sua preferência ia para Fernando Pessoa , António Botto (que lhe apresentou o próprio Pessoa), José Régio, Mário de Sá Carneiro, Camões, Florbela Espanca, Camilo Pessanha, Carlos Queirós, Miguel Torga.

E para aqueles que não o ouviram, ao vivo, nos seus muitos recitais de poesia por todo o País (incluindo a Penitenciária de Lisboa, para os presos, numa noite de Natal), Villaret ofereceu-lhes depois poesia dita em directo na televisão, a partir do final de 1957 e até 1960. Para muitos de nós (eu era então um miúdo mas jamais me esquecerei desses momentos de espanto), era a revelação da força da palavra poética (mas também da arte de contar histórias) trazida para dentro das nossas casas, interpelando-nos directamente, pessoalmente.

Um homem diante de uma câmara, sentado ao lado de uma mesa com papéis, livros e um telefone, como se estivesse no escritório de sua casa. «Boa noite, senhores telespectadores», dizia Villaret, de óculos na mão, que usava para ler um ou outro texto maior, e que pousava para dizer um poema ou para nos contar uma história carregada de ironia ou de ternura. A maior simplicidade, que hoje nos parece impossível, para verdadeiros momentos de magia em televisão (bem longe da actual noção de «entretenimento»). Quando dizia (interpretava) um poema, a câmara focava-o de perto, com um halo luminoso a iluminá-lo por cima, o seu rosto enchia o ecrã -- e nós ficávamos ali, presos ao encantamento das suas palavras, ou das palavras de outros que tornava suas e nossas… desejando que nunca acabassem.

Retomando tradições muito antigas, Villaret lembrava-nos, de uma maneira exemplar, que a poesia existe para ser dita ou cantada, não apenas para se ler em livros…
Poesia viva, interpretada intensamente, apaixonadamente, arrebatadamente -- arrebatando-nos com ela.

Hoje, ao fim da tarde, no programa «Portugal em Directo», a RTP1 presta-lhe a merecida homenagem. Seria bom que também retirasse daí a lição óbvia: a de que é possível fazer outro tipo de televisão num país de invejosos que ainda não aprendeu o que significa genuína admiração -- uma árvore delicada que precisa de ser plantada e bem tratada. Por todos.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

NOS DIAS 14 E 15 DE FEVEREIRO SERÁ ASSIM...


NO DIA 8 DE JANEIRO, PELOS REIS, FOI ASSIM...






Alguns nomes presentes: Elísio Gala, Mário Rui, Avelino de Sousa, Pedro Sinde, Pedro Martins, António Carlos Carvalho, Teresa David, Cynthia Guimarães Taveira, Carlos Aurélio, Roque Brás de Oliveira, Carlos Vargas, Maria José Albuquerque, José Paulo Albuquerque, Inácio Balesteros, Luís Paixão, Paulo Santos, Pedro Ribeiro.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 7



O estranho mundo de Assis e as imagens

Alexandra Pinto Rebelo

Não pode deixar de causar espanto a sucessão de fenómenos místicos acontecidos em Assis, no tempo de S. Francisco. É certo que sempre podemos duvidar da sua existência e atribuí-los a invenções movidas pela fé de um ou outro monge justificando os meios com os fins. Mas, de facto, parece-me que qualquer coisa de muito intenso e fora do habitual se passou naquela terra, no séc. XIII. Já fui por duas vezes a Assis e, não tendo eu um fascínio particular por S. Francisco (o que poderia influir na minha interpretação), assisti a gestos únicos de devoção e até de comoção religiosa para com o espírito do lugar que muito dificilmente se repetem em qualquer outro templo cristão. Certa vez assisti, por exemplo, na sala onde está o túmulo de Francisco, à entrada de algumas dezenas de turistas japoneses. Já os observei noutros locais e sei como se comportam. São muito educados e respeitadores, calados e reservados em termos de expressões faciais. Todos eles se transformaram quando entraram naquela sala. Houve um não sei quê que os tocou profundamente. Um a um dirigiram a sua face para o local onde está o túmulo e fizeram uma profunda e sentida veneração budista. Nenhum deles fez o gesto do sinal da cruz, não sendo, portanto cristãos. Este facto comoveu-me profundamente. A mim e a alguns portugueses que por ali se encontravam. Parece que o tal espírito do lugar, ou da terra embebida da memória de tudo o que aconteceu, é superior a todos nós cristãos ou não, ao próprio Francisco, à memória dos seus irmãos, ao nosso S. António, dobrando-nos a espinha em posição de prostação, enchendo-nos os olhos de lágrimas como resposta mais imediata e explosiva a algo que nos excede.

No Florilégio, antologia de milagres atribuídos a S. Francisco e aos seus, podemos perceber alguns desses milagres, ou hierofanias que aconteceram no tempo de Francisco. A maior parte, eram experiências intensas, vividas por S. Francisco, S. Clara, por um ou outro irmão. Experiências individuais, portanto. Hoje em dia reconhecemos facilmente os estados místicos que são aí descritos. Mas também existiam as hierofanias partilhadas por um grupo de monges, ou até pelos habitantes de Assis e arredores. Durante alguns anos, a comunicação entre mundos foi intensa, sendo a parte visual muito vívida e importante. Num dos episódios, Francisco visita Clara. Ambos partilham uma refeição quando, conversando sobre Deus, entram em êxtase, com os olhos e as mãos erguidos para o Céu. As pessoas de Assis, desconhecendo o que estava a acontecer, viram todo o convento e o bosque que o circundava, em chamas. "(...) parecia-lhes que um único braseiro ocupava a praça, a igreja, o convento e o bosque." Acorrem todos ao local, na tentativa de apagar o fogo. Quando chegam, vêem apenas Francisco, Clara e os companheiros em êxtase, tendo concluído que se tratava de fogo divino. São inúmeros os exemplos da importância do olhar, em Assis. As hierofanias desenvolviam-se num tecido inseparável de imagem e palavra. Outro exemplo, é o célebre sermão de Santo António aos peixes que António Vieira, como bom barroco, construtor de olhares, irá aproveitar para o seu texto. Peixes juntos a outros peixes, escutando um monge que com eles fala, é uma imagem forte que dificilmente se esquece.

Ao contrário do que se pode supor, estes monges, visitados regularmente por anjos e demónios, não se fecham em contemplação. São pessoas de acção. Fazem igrejas, são peregrinos, dão sermões ilustrativos à porta das igrejas.

Assis representa uma nova forma de ser-se cristão. A acreditar-se nos fenómenos místicos, Assis representa, ao mesmo tempo, uma nova forma de comunicação, mais intensa, mais frequente, mais agitada, mais orientada para o visual e para a palavra simples, longe dos grandes tratados filosóficos e do peso teórico de Roma e Bizâncio, longe da grandes revelações divinas, daquelas que faziam livros acabados e, logo, problemáticos.

O quadro acima apresentado é de 1235, do pintor Berlinghieri. Foi feito poucos anos após a morte de Francisco. Obedece a um programa estético bizantino, onde o símbolo é o mais importante na representação. Muito haveria a dizer sobre isto. Quem conhece um pouco a história de Assis compreende que este tipo de representação não coincidia em nada com aquilo que se tinha passado, com aquilo que importava deixar documentado. O fundo dourado, por exemplo, surgia como uma espécie de pano de fundo, de cortina, eliminando todos os conceitos de espaço e tempo, dando um valor mais sagrado à coisa representada. Isso não servia para Assis. Era quase a sua anulação. Aos monges importava-lhes afirmar “foi aqui e agora que isto aconteceu”. Da mesma forma, o desenho austero das figuras, apelando a uma imobilidade simbólica, não se coadunava com a agitação franciscana. Roger Bacon traçará o novo programa estético da Ordem. As suas indicações para a “pintura do natural” constituirão a grande proposta do Renascimento e barroco até à perfeição de Caravaggio.

Giotto será o primeiro a figurar os acontecimentos de Assis. Serve-se da figuração tridimensional, utiliza os gestos correntes, o desenho da arquitectura de uma cidade do séc. XIII e XVI de Itália. Subitamente a pintura é projectada para a vida quotidiana tal como o fora todo o mundo divino.


PONTES




Lima de Freitas sobre a palavra "meditação":

“Conviria aqui abrir um breve parêntesis para esclarecer o sentido deste termo - meditação - no contexto do pensamento religioso da Índia. Não se trata, com efeito, do sentido corrente da palavra. Aquele que contempla o iantra não medita de maneira “intelectual”, procurando simplesmente indagar o que representa a imagem e porquê, ou estabelecendo cadeias de associações de ideias a partir da imagem. Importa, ao invés - e de um modo dificilmente definível na nossa linguagem lógica e dualista -, estabelecer uma espécie de passividade activa, uma receptividade atenta mas esvaziada de todos os pressupostos, desprovida de impaciência de intuitos bem determinados. A verdadeira meditação (dhyana) implica uma rigorosa aplicação desprovida de de curiosidade mental, uma total e serena disponibilidade, uma concentração única liberta de todas as cadeias associativas automáticas ou voluntárias. Nessas condições, extremamente difíceis de realizar, é eventualmente possível verificar-se a emergência de uma modalidade inteiramente nova de compreensão, simultaneamente vibrante e serena, como uma maravilhosa claridade intuitiva, espontânea, capaz de penetrar a diversidade das coisas e de aí descobrir uma secreta unidade primordial onde se dissolvem os conflitos de opostos, as contradições do discurso, os nódulos opacos onde se congestionava a teimosia da ignorância (avydia).”

Lima de Freitas in “O Labirinto”, Edições Arcádia, 1975, pág. 269


Dalila Pereira da Costa sobre as condições de vinda do êxtase:

“Ele vem-nos sempre como uma chamada, súbita, mais que uma confirmação. Sempre um começo, nunca um fim. Sobretudo, nunca se assemelhando a uma recompensa, ou ligando-se, mesmo de longe, a qualquer coisa como a um mérito próprio; ou mesmo a uma distinção de puro e impuro. E assim, esta consciencialização, não irá originar um estado de possível expectativa, de espera? Quando, o que aparece como uma das condições mais necessárias da sua vinda, é precisamente nada esperar? Nada procurar, ou mesmo querer? Ainda menos, um qualquer esforço em sua direcção. Pois o que há nesse momento que imediatamente o precede, é unicamente um estado de presciência, ou de premonição da sua fatal e irrevocável vinda, aqui e agora: Mas que faz já parte dele mesmo, que já é o seu começo, como a aurora é já o dia. E então, o que há é unicamente um estado de simples receptividade. Que é simples abandono, ausência de esforço da nossa parte. E durante esse precioso momento, na sua total plenitude, um estado consciente do nosso lado, não seria de mais? Não seria esta posição uma intervenção? Intempestiva, que pesaria demasiado nesse momento, nessa vinda do Sagrado? Ele tão poderoso, imperecível, mas tão frágil. E de uma essência (e pela sua vontade?) que só se deixa ver num fugidio instante, mas nunca olhar fixamente, perscrutar. Poderoso e delicado: assim é que também só se deixará ver. E se haverá gesto, ou atitude possível (ou legítima) em face dele, no seu conhecimento, será unicamente um tentativa de o cercar. E um esperar que nos mostre, nos deixe ver, o que nunca tínhamos suspeitado nesta vida: o nunca visto.”

Dalila Pereira da Costa in “A Força do Mundo”, Lello & Irmão - Editores, 1972, pág. 49

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

EXTRAVAGÂNCIAS, 118


A Nuvem

Cynthia Guimarães Taveira

Vagueando por entre canais televisivos, antes fossem os de Veneza, eis que encontro amantes de livros em conversa. Parei para ouvir. Falavam das novas tecnologias -- as tecnologias são sempre novas, acabadas de nascer, só no canal História é que, de vez em quando, falam das velhas mas, por regra, as que interessam são as novas, belas, prometedoras e infalíveis. Os livros dentro de um e-book estavam sendo apresentados como uma maravilha: podíamos transportar um biblioteca inteira debaixo do braço e, em vez de ter de erguer o mesmo braço, num esforço pesado querendo contrariar a força da gravidade, para passar a página, bastava um toque, digital, caminhando-se, assim, de página em página, de uma forma muito mais fácil, muito mais cómoda. O problema, no entanto, segundo disseram, estava na queda, como se o problema não estivesse sempre na queda: estou aliás convencida de que, há muitos anos atrás, a força da gravidade deveria ser muito menor do que é hoje, menires, pedras do Egipto, pirâmides americanas poderiam ser erguidas com mais facilidade. Enfim, o problema estava na queda porque, ao que parece, o filho de um desses amantes de livros tinha deixado cair ao chão um e-book e, assim, muito mais rapidamente do que o incêndio da biblioteca de Alexandria, o alegre conversador tinha perdido uma biblioteca inteira não tendo o e-book sobrevivido aos 30 centímetros que, segundo as suas palavras, o separavam do chão. Imediatamente o apresentador pegou num livro e, deixando-o cair à mesma altura, demonstrou que um livro normal era bastante mais resistente. Ironias…
Mas o melhor ainda estava para vir: os aficionados da grande tourada que são as novas tecnologias poderiam, com um serviço novo (claro, novo) da Google, possuir uma nuvem. E o que é uma nuvem? Uma nuvem é um espaço na Internet onde se guardam livros e também toda a espécie de documentos. Na nuvem podem conviver lado a lado os nossos papéis, as nossas facturas mensais, as nossas fotografias de infância, os nossos apontamentos, os nossos livros, iria mesmo mais longe, a nossa casa. Finalmente temos uma casa nas nuvens. Pensei de mim para mim: e se chover? Cai-nos a casa em cima?
Dizia também uma amante de livros: “as novas tecnologias vão permitir às crianças aceder de uma forma muito mais lúdica aos livros” e, com aquela alegria de menina marota, ergueu vitoriosa o seu e-book e mostrou-nos como podíamos brincar com as imagens ilustradas da Alice no País das Maravilhas mudando-as de sítio. Fiquei deveras triste por já ser grande: quem me dera poder ir ao Museu de Arte Antiga e brincar com aquelas imagens todas: colocar o Santo Antão em cima do Paráclito dos Painéis, eis o meu sonho!
Enfim, ao passarmos a ter livros nas nuvens a realidade torna-se também muito mais nebulosa ao ponto de falarmos erradamente: um e-book não é um livro, é outra coisa. Um e-book não é uma biblioteca, é outra coisa, um e-book ilustrado não é uma ilustração, é outra coisa. Chamem-lhe o que quiserem mas não lhe chamem livros porque não são. Um livro é um objecto feito de papel e tinta. Tem páginas, tem forma, tem peso e costuma estar dentro das casas, das livrarias ou das bibliotecas e as nuvens estão no céu.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 6



Alexandra Pinto Rebelo

Existiu um certo embaraço em relação à construção de algumas imagens desde o início do cristianismo. Essa falta de à vontade teve vários motivos. Entre os principais, encontramos a proibição bíblica "(...) não deves fabricar imagens esculpidas de qualquer coisa semelhante àquelas que estão no céu, acima, ou na terra, abaixo". (Dt. 5,8). Outro motivo forte, era o repúdio completo pelas formas de culto pagãs que atribuiam às estátuas de culto um valor hierofânico, isto é, eram o lugar onde o divino se manifestava activa e quotidianamente.

As primeiras imagens não tinham como objectivo atrair orações ou venerações. O seu objectivo era oferecer uma referência visual a uma história bíblica central para os valores cristãos. A figura do Bom Pastor, por exemplo, não era um retrato de Cristo mas uma metáfora expressando as qualidades de Cristo como condutor de almas. Os cristãos divergiam dos seus vizinhos pagãos por evitarem um certo tipo de imagens, não por evitarem imagens em geral. Quando o retrato sagrado passou a ser uma representação recorrente, o problema voltou a colocar-se de uma forma mais intensa. Como era possível representar a essência de Deus, visto que se tentava representar o irrepresentável?

João Damasceno argumenta então, no séc. VIII, a favor da imagem. Para ele, aquilo que se representa não é a essência de Deus visto que isso é uma impossibilidade. Não se representa o invisível, mas aquilo que se fez visível. De facto, o Deus do Antigo Testamento torna-se carne com Cristo. De alguma forma torna-se Ele Próprio imagem. A proibição do Antigo Testamento refere-se, então, a esse primeiro momento, em que Deus é só essência irrepresentável. Deus não poderá proibir a representação icónica a partir do momento em que se torna visível, perceptível como figura.

Quem negar os ícones, nega, ao mesmo tempo o mistério da encarnação.

O texto de Damasceno irá tornar-se uma referência até ao séc.XV.

VAI ACONTECER...


(clique sobre a imagem para ampliar)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

POEMA DE UM AMIGO


na foto António Salvado

ESPERANÇA

Tu és de sempre como o tempo,
tu és de longe como o espaço!
Súplica de cada momento,
falas – se o ânimo quebrado
nos enregela o pensamento.

Reapareces na tristeza
de uns olhos baços perseguidos
e és bem mais alta que a beleza!
Âncora, os teus ganchos são vivos
gumes de sol e de certeza!

Deixa-me, ó luz, acreditar
que um dia não serás precisa:
que foste apenas a passagem
para a real e definida
forma de que és agora imagem!

ANTÓNIO SALVADO

Nota – António Salvado (professor, poeta, prosador e tradutor) nasceu em Castelo Branco, a 20 de Fevereiro de 1936. Poeta que tem cantado, como raros o têm feito, a axial região da Beira-Baixa. Não obstante este «espírito de lugar», sempre revelou pendor universal, atestado nas dezenas de obras, quer originais quer de tradução, labor que o poeta costuma designar por verter. Poesia fecunda – a sua marca singular - que adivinha todas as redenções pelo amanhã da humanidade. Mas também uma voz que não esquece e sabe recuperar os perenes ecos antigos, plasmada em linguagem que muito tem enriquecido a Língua Portuguesa de palavras e expressões a que já nos desabituaram os que escrevem, na actualidade. Lírica de uma intensidade que não renega o tempo, mas que dele se quer livre, ou seja, na exaltação e também na sublimação dos sentidos.
Desde que começou a publicar, em 1955, assim tem sido o percurso de António Salvado, ao longo de cinquenta anos de vida literária. Muitas são as figuras que se têm referido à sua obra, desde Teixeira de Pascoaes e J. Gaspar Simões a Natália Correia e Pinharanda Gomes, entre muitos outros de várias sensibilidades e quadrantes do pensamento. De uma carta do poeta de Amarante, dirigida ao então ainda jovem poeta de Castelo Branco, podemos ler: «Meu querido amigo: Trato-o assim, pois considero da minha família todas as pessoas que amam a minha obra. Assim ela mereça esses amores! Trabalhe! E que a Musa de Orfeu o não abandone, é o que mais desejo!» (Teixeira de Pascoaes, 1951).

Festa dos Reis Magos, 2011
Eduardo Aroso

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

OS REIS...



«Os Reis Magos e a Tradição Portuguesa»

O texto de Álvaro Ribeiro com este título, publicado na revista Cidade Nova, em Junho de 1955, saiu antecedido pelas considerações seguintes, da autoria de Afonso Botelho, segundo informa Pinharanda Gomes:

“Vai para cinco anos que um grupo de amigos se reúne, em casa de um deles, para conversar sobre filosofia. O tempo que decorreu nada significa por si. Não consolida a esperança que o grupo se mantenha nem garante mais uma manifestação da filosofia portuguesa. Começa, porém, a significar alguma coisa este decurso do tempo, sabendo-se que, em cada aniversário, no dia de Reis, alguém fala sobre esse tema, enquanto se celebra em ambiente de família a festividade, comendo-se o Bolo-Rei, repartido por todos.
É a prenda encontrada que determina o orador do ano seguinte.”

In “Álvaro Ribeiro - Dispersos e Inéditos - II (1954/1960), pág. 145

António Telmo foi o continuador desta tradição. Este ano, sem ele, mas com a sua memória presente e real, o grupo de Filosofia Extravagante reúne-se dia 8 de Janeiro, em Santana (Sesimbra), no restaurante Angelus, pelas 13 horas, com Bolo-Rei, claro, e conversa filosófica adequada.

sábado, 1 de janeiro de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 5



Alexandra Pinto Rebelo

Já conheci pessoas que, por conhecerem meia dúzia de símbolos esotéricos, achavam que tinham chegado a qualquer lado de diferente que não fosse apenas o conhecerem meia dúzia de símbolos esotéricos. Bem pior do que isto, foi já ter conhecido pessoas que, conhecendo meia dúzia de centenas de símbolos esotéricos se deixavam reverenciar pelos outros, aqueles que apenas conheciam um punhado. Mas em todos esses esotéricos superiores, existe um momento de falta de prudência, em que conseguímos ver no seu olhar a desilusão por saberem que, afinal, estão mais longe "daquilo" do que quando começaram. As prateleiras das nossas livrarias estão cheias de livros escritos por estas pessoas. Ser-se considerado um esotérico, em certos círculos, dá prestígio e dinheiro.

Os símbolos esotéricos são, sobretudo, uma linguagem. Tal como todas as linguagens, não são a coisa em si mas antes códigos a que se lhe referem. Antes dos símbolos há que conhecer o seu referente pois, de outra forma, eles não nos servirão para grande coisa. Posso decorar mil palavras de árabe mas se não souber o seu sentido, elas não me servem de nada. Experimente dizer "Salam ali cum" a um falante. Receberá como resposta um sinal facial de espanto e a resposta "Ali cum salam". Se repetir muitas vezes a experiência vai compreender que ali está qualquer coisa de simpático. No entanto, isso não é falar árabe. Pode decorar até várias frases e pronunciá-las a um não falante daquela língua. Verá que o convence com alguma facilidade de que domina uma língua exótica.

Confesso que tenho uma grande dificuldade em relação à linguagem alquímica. Não consigo perceber nada, a nível simbólico, daquilo que se passa. Por vezes pego num livro com uma imagem e começo a descrevê-la a uma amiga que, ao contrário de mim, parece que fala alquimiano desde que nasceu. A minha performance é mais ou menos assim: "Está aqui um homem com uma espada erguida na mão. Parece que vai matar um ovo grande que está em cima de uma mesa. Não sei porquê, pois o ovo tem aquele ar inocente de todos os ovos e não parece ter feito mal ao senhor. Deve estar muito frio nesta terra. O senhor esqueceu-se e vestiu uma saia curta. Por isso teve de pôr toda a lenha que tinha em casa na lareira e ainda foi pedir mais alguma emprestada aos vizinhos." Estas descrições pertencem ao meu reportório de bom humor. Assemelham-se muito, agora que penso nisso, às descrições do Ocidente feitas pelo chefe índio no livro Papalagui. A minha amiga ri-se porque, ao dominar intuitivamente esta linguagem (e por a conhecer bem por a ter estudado), já não a consegue percepcionar sem um sentido imediato. A minha interpretação literal, acrescentada aqui e ali com um pouco de imaginação, proporciona-lhe um género de humor idêntico àquele com o qual as crianças nos presenteiam. Grande parte do seu encanto, aliás, provem do facto de ainda não dominarem bem os códigos culturais da sua etnia. Desta forma é fácil quebrarem as convenções que para nós já estão completamente adquiridas e mecanizadas, abrindo-lhes uma brecha poética ou humorística.

O melhor do caminho é outra coisa, sendo apenas privilégio de alguns. Refiro-me a conhecer directamente "aquilo" ou os vários "aquilos" que não se conseguem reproduzir com as nossas linguagens habituais. Depois, então, ir reconhecendo os vários símbolos que os tentam exprimir, sendo cada um deles limitado à sua maneira, claro. Se não fossem limitados dar-nos-iam uma representação completa e isso, pela natureza de ambos (do "aquilo" e sua simbolização), é impossível. Depois, então, é deixarmo-nos deliciar com a capacidade que outros antes de nós tiveram na tentativa de exprimir o inexprimível. Lembro-me de certa vez me ter maravilhado por os monges budistas serem chamados de "aqueles que descobriram o caminho de casa". Eu tinha tido aquela sensação sem palavras mas nunca tinha conseguido dar-lhe um nexo semântico e sintáctico.

Com isto tudo não quero dizer que os símbolos devam ser postos de parte. Eles têm o seu lugar. Pertencem ao nosso património cultural, ao nosso património artístico que seria infinitamente mais pobre sem eles. Pertencem ao melhor que o ser humano conseguiu fazer e muitos deles até são o resultado de uniões perfeitas entre mundos que por vezes se tocam. Mas, apesar, de tudo, são apenas símbolos. Trata-se do coração aberto com um canivete numa árvore e não a experiência do Amor em si. O que no fundo quero dizer é que é possível conhecer os "aquilos" directamente sem esperarmos deslumbrados por ouvir os relatos de outros que, a maior parte das vezes, nem lá estiveram. Por muito belas que sejam as imagens que mostram, por muito coerentes que sejam as palavras que usam.