(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



quinta-feira, 28 de outubro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 106




EM DIA DE FINADOS
OU MAIS PERTO DOS HERÓIS

Eduardo Aroso

«A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto»
Fernando Pessoa

O que cheira mal em Portugal não são os mortos, mesmo os que não têm sepultura condigna – pois são sempre flores de esperança de uma vida mais ampla para o espírito e de grata memória para nós – mas certos vivos que operam actos nauseabundos por onde passam. Os «cadáveres adiados que procriam» têm gerado aquilo a que eu já me referi algumas vezes como sendo «esquizofrenia nacional», isto é, classes profissionais contra outras classes, alunos contra professores, doentes contra médicos, vizinhos contra vizinhos, irmãos contra irmãos, filhos contra pais, o que, diga-se de passagem, está bem patente na simbologia da Torre de Babel. E muitas destas caoticidades na legalidade de decretos que, na força de lei, obrigam a uma anti-natureza do intrínseco funcionamento das várias actividades. A depressão nacional alimenta-se à noite do “anti-depressivo”, que, invariavelmente, nos é dado nas televisões, exactamente à hora do jantar. Uma combinação de mentiras e verdades, laboratorialmente preparada. Ao outro dia há mais! E o “produto” dado a horas certas tem uma eficácia maior!

Nestes dias de tão pungentes recordações, estamos mais perto dos nossos heróis, sobretudo quando recordamos seres que semearam o belo, o bom e o verdadeiro. É doloroso dizer herói ou heroísmo, numa época em que o termo não corresponde ao espírito da palavra. Eugénio de Andrade disse que «as palavras estão gastas». Porém, o que parece é que, como causa disso, são as ideologias que se gastaram e definharam. Basta ver que em nenhum lado do mundo hoje em dia se governa por ideologias ou princípios políticos, e muito menos por ética, mas pelo poder diabólico do dinheiro.
Dos heróis gregos, dos cavaleiros da Távola Redonda, passando também pelo que se poderia chamar os heróis da ciência e da arte da Renascença, e ainda os heróis da Natureza da época romântica, chegámos aos heróis das empresas ditas desportivas nos estádios e agora aos novíssimos heróis da televisão e aos muitos das várias modas, havendo a destacar aquela noite em que os portugueses ficam a pé até mais tarde para verem os «heróis de Hollywood».

Mas é neste caldeirão de cinzas sociais – recorde-se a cinza na simbologia do Dia de Finados – que estamos mais perto dos mortos seja qual for o alcance da expressão. Quer no plano familiar e mais íntimo, seja no que diz respeito aos heróis nacionais, que viveram vidas dignas, abnegadas, convictas, ao serviço dos outros, do país, da nação e da pátria. Mas por uma espécie de remorso presente de quem os não têm honrado, como deve, por esta e outras razões é que agora, entre muita gente, se criou o hábito de preencher a data com uma ida até à praia, se o tempo permite, ou com festas designadas ultimamente por eventos. Os políticos marcam sempre encontros importantes para esses dias; há quem se refugie nos piqueniques, para não falar destes assuntos, havendo sempre (Nobre Povo) quem deixe falar a alma; e nesta íntima e devocional atitude de religare talvez vislumbre mais de perto o mistério da vida e da morte, que é apenas um. É bom ter presente o que é dito no ambiente do pensamento português, ou seja, «que a vida não tem contrário». Logo, a morte é a vida, certamente de outro modo.
Nem no Dia de Portugal, a 10 de Junho, nem no Dia de Fiéis Defuntos, se fala dos heróis nacionais. O que diria Carl Jung a tudo isto, ao nosso actual inconsciente colectivo cheio de remorsos; uns porque não sabem dos heróis, outros porque mandaram apagar, nos manuais escolares e programas televisivos, os seus nomes e obras realizadas.
Neste fim-de-semana não leio o jornal, nem vou a eventos. Prefiro o Húmus de Raúl Brandão. Pode ser aqui. «Trago comigo um pó capaz de doirar a própria eternidade. Não sei donde me vem, nem por que nome lhe hei-de chamar. Todas as noites sufoco diante do negrume - ele reanima-me» (...)

Quase Novembro de 2010
Eduardo Aroso

PESSOA E OS OUTROS




A vida nacional portuguesa sofre hoje os resultados de uma tripla ruptura de equilíbrio. A primeira ruptura deu-se com a entrada da decadência - onde quer que ela se queira colocar, antes, por, ou depois de Alcácer-Quibir. A segunda ruptura de equilíbrio deu-se com a implantação do constitucionalismo, que quebrou a tradição política nacional, sem construir nada de nacional que substituísse o regime nacional deposto.
A primeira ruptura de equilíbrio é a que se dá em todas as decadências - a ruptura da relação hígida entre governantes e governados, estado social em que os governantes, embora por acaso possam governar bem, governam, em todo o caso, sempre fora da relação com o geral do povo que governam. Essa ausência de interpretatividade da parte dos governantes explica-se com facilidade. O primeiro fenómeno das decadências é a perda de coesão social; e o resultado primário da perda de coesão social é a degenerescência do patriotismo. Não que o patriotismo desapareça, mas passa do estado dinâmico constante para o estático. Só uma forte convulsão de origem externa o desperta; sem isso, o geral do povo desinteressa-se da Pátria, desinteressa-se dos governantes, e acabam as classes por se desinteressarem, tanto quanto é economicamente possível, umas das outras. (…)
Quebrada a relação entre governantes e governados, o que se seguiu é inteiramente deduzível desse simples facto. Os governantes, perdido o contacto com a tradição nacional, sem apoio de realidades psíquicas que são o fundamento da vida da nação, passaram a viver mentalmente no estrangeiro, mas, como a quebra de contacto com as realidades nacionais envolve uma quebra de contacto com a única fonte de inspiração original, passaram a viver bastardamente e artificialmente do estrangeiro, impotentes para criar novas ideias, servos submissos da primeira mesquinharia francesa, súbditos reles da hipnose do de-lá-fora.
O povo, a massa governada da nação, quebrado o seu contacto com aqueles cuja função é estabelecer o progresso e estimular o esforço, caíram no baixo tradicionalismo - no tradicionalismo que não é um apego às grandezas passadas, porque as grandezas passadas nenhum povo por educar as pode ter presentes senão por lhas lembrarem os seus governantes; mas no tradicionalismo de gleba e tarro, o apego animal à canga usada, o afinco de vegetal à terra a quem nasceu pegado. Desnacionalização (baixa) nos governantes; supertradicionalização no governados; tal o estado em que nos encontrávamos, e em que nos encontramos.

Fernando Pessoa

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

POETAS LUSÍADAS




Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Amén.

Natália Correia

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

ENIGMAS, 1




(...) O Arcano é um Gesto que produz a ruptura com o fenomenal e a rotação no Real. Este Gesto perfeito emerge num Lugar-estado, aqui e agora, de lucidez total, de intenção pura (do ponto de vista humano, nós diriamos de não-intenção).


Rémi Boyer, "O Louco de Shakti", ed. Hugin, 1998, pág. 15

domingo, 24 de outubro de 2010

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 45



António Carlos Carvalho

«O futuro é tão incerto que a mais pequena linha que possamos hoje publicar é uma vitória arrancada aos poderes das trevas» -- escrevia Walter Benjamin ao seu amigo Gershom Scholem em 11 de Janeiro de 1940.

Cito esta frase terrível porque é completamente actual e urgente: também para nós o futuro é incerto e qualquer frase que possamos publicar nos dias de hoje continua a ser uma vitória sobre os poderes das trevas que estão à nossa volta, hoje como há setenta anos. E quando é tão difícil publicar ideias em livro, um blogue como este torna-se um canal privilegiado para esse fim. (Por isso mesmo continuo a estranhar que sejamos tão poucos a colaborar nele -- como se ainda não tivéssemos percebido a importância deste espaço neste tempo…)

Cito também esta frase de Benjamin porque acaba de sair a tradução de mais um volume, o quarto, das obras escolhidas desta figura fundamental do nosso tempo: «O Anjo da História», publicado pela Assírio & Alvim, com edição e tradução de João Barrento. (Antes foram publicados «Origem do Drama Trágico Alemão», «Imagens de Pensamento» e «A Modernidade»).

Este quarto volume reúne precisamente um conjunto de textos do pensador alemão acerca da sua visão muito particular da História, nomeadamente «Sobre o conceito da História», que aparece geralmente referido como «Teses sobre a filosofia da História». Neste texto, muitas vezes apresentado pelos biógrafos como sendo «o testamento de Benjamin», o autor escreve:

«Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da História deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir de fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já as consegue fechar. Este vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que volta costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos progresso é este vendaval.»

Benjamin adquiriu este desenho aguarelado de Klee em 1921, teve-o consigo sempre que era possível nas suas errâncias, como se fosse o seu anjo tutelar, guardião, sobretudo inspirador. Quis mesmo fazer uma revista com esse título. Deixou-o em testamento a Gershom Scholem (que depois escreveu «Benjamin e o seu anjo») e encontra-se actualmente guardado no Museu de Israel.

Walter Benjamin suicidou-se na noite de 26 para 27 de Setembro de 1940, em Port-Bou, aldeia espanhola junto à fronteira com a França, depois de ter atravessado penosamente os Pirinéus para tentar fugir a uma nova detenção num campo de internamento e a consequente entrega às mãos dos nazis. Perante a ameaça de ser devolvido às autoridades francesas, Benjamin, exausto de forças e de ânimo, pôs termo à vida. No dia seguinte, os outros fugitivos que se encontravam com ele receberam autorização para seguir viagem, em direcção a Lisboa…

Pergunto-me o que poderia ter acontecido se ao menos Benjamin tivesse esperado mais 24 horas -- imagino Benjamin em Lisboa, o que esta cidade lhe teria inspirado (ele que tanto gostava de deambular pelas cidades, como um flâneur experimentado), imagino o que poderia ter sido uma conversa no Martinho da Arcada entre Benjamin e Pessoa -- se Pessoa não tivesse morrido cinco anos antes… Interrogo-me ainda para onde Benjamin teria seguido depois, ele que nunca saíra da Europa…

Walter Benjamin, uma das figuras mais perturbadoras do século XX (e que nos continua a inquietar, se o quisermos e soubermos ler), foi um dos verdadeiros «vencidos da vida» -- e da História. Mas escreveu, escreveu muito.

Como por exemplo:
«Esperamos dos que virão a nascer, não o agradecimento pelas nossas vitórias, mas a rememoração das nossas derrotas. Isto é consolação: a única consolação que pode existir para aqueles que já não têm esperança de consolo».

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

TEXTOS COMENTADOS, 1

por Cynthia Guimarães Taveira





“(…) Ora só pode entender-se que uma sociedade é verdadeiramente livre ou em potência de liberdade quando os cidadãos atingirem um grau mínimo de autonomia individual, isto é, quando souberem conjugar o seu emprenho pessoal nos interesses superiores da polis com a capacidade de optarem por si próprios, compreendendo a todo o momento o que de fundamental está em jogo e estando aptos a resistir à pressão intelectual que sobres eles é exercida pelo poder ou pelos poderes, através das mil formas de sedução, de propaganda, de manipulação e de «formação», que visam usá-los, por vezes mais do que servi-los.
A liberdade de pensamento é pois a primeira das liberdades e precede-as. Mas a liberdade de pensamento não é um dado natural, é uma difícil conquista, é, digamos, uma iniciação, que parte da descoberta da nossa própria subjectividade e que se desenvolve, escreve Álvaro Ribeiro noutro livro, no trânsito do intelecto passivo para o intelecto activo ou da menoridade intelectual para a maioridade mental. A liberdade do pensamento implica uma iniciação, uma descoberta e também um movimento ineterrupto e de algum modo ascético para o saber.”
António Quadros*

*António Quadros, Memórias das Origens - Saudades do Futuro, Publicações Europa-América, 1992, pág. 302



Iniciação

Sempre que olho para a cerimónia do chá, levando muito tempo, a minha cabeça ocidental questiona-se: mas porque será necessário tanto tempo para beber um chá? Depois lembro-me que aquilo é um ritual. No entanto, ainda acho estranho, porque um ritual são símbolos em movimento e não compreendo os símbolos que para ali estão. Visto de fora, aquilo tem tudo um ar demasiado espartilhado. Elas e eles usam vestimentas, bonitas, mas muito incómodas, com voltas e voltas de tecidos. Os gestos são contidos e precisos e tudo aquilo é em seguida transferido para uma mentalidade em que os sentimentos também não podem ser demonstrados, raramente se vê uma japonesa rir às gargalhadas ou a olhar olhos nos olhos alguém. Por aqui, ando mal habituada à minha liberdade. Por um lado, a maior parte das vezes não sei muito bem o que fazer com a minha liberdade. Parece que, no fundo, vivo numa imensidade de possibilidades que, à custa da quantidade e pouca diversidade interna, acabam por se transformar num enorme deserto. As vias são tantas, até mesmo as religiosas, que se acaba um pouco perdido, como o Gansolino do Tio Patinhas, debaixo da árvore à espera que o fruto caia sem fazer algum gesto. Por outro, um dos maiores prazeres que me podem dar, a mim e a muitas mulheres, estou certa, é poder ter um daqueles dias em que podemos ir onde nos apetece e acabamos à beira mar, semi-nuas, descalças, olhando o mar com os cabelos ao vento e respirando esta abençoada liberdade ilustrada pela linha do horizonte mesmo no limite do mar. Quando me acontece estar assim, perto do mar, penso que nada disso tem preço, e, francamente, não me interessam os rituais, os espartilhos sociais, as contenções. O corpo é leve, os gestos amplos como um bailado de Maurice Béjart. Ninguém é livre, mas pode sentir-se a liberdade no corpo e o pensamento a voar nos confins do universo. Se houve conquista nesta civilização, foi esta sensação de liberdade que a mulher pode gozar quando, até há bem pouco tempo, para a Igreja Católica Apostólica Romana, ela nem alma tinha, e quando, em muitos lugares, ainda hoje, a mulher é ainda considerada um “bem”, como se de gado se tratasse. Antes da máxima “o grau civilizacional mede-se pela forma como os animais são tratados”, vem a máxima: “o grau civilizacional mede-se pela forma como as mulheres são tratadas, e, mais do que isso, pela forma de como elas se tratam a si próprias ou se deixam tratar, e quais os valores que transmitem às gerações futuras”.
Não sendo então fundamentalista de rituais, de regras sociais, de ordem em demasia, de um tradicionalismo de Guénon que me soa sempre perfeito no papel (mas que em termos de sentimentos e de felicidade me soa a pouco -- por muito que se neguem os sentimentos, apelidando-os de sentimentalismo, o ser humano é, em grande parte emocional), parece-me que hoje em dia vivo na total desordem. Olho para o meu país e só vejo confusão. Antigamente, a ameaça vinha de fora com lanças, arcos e flechas, cavalos negros ameaçadores, saques, ataques, pilhagens, fogos postos nas aldeias. Devia ser difícil viver assim, nunca sabendo se no dia a seguir uma súbita invasão paralisaria o ritmo cíclico das pessoas. Hoje, dizem que a crise vem lá de fora e que por aqui se espraia como uma onde que bate violentamente contra as rochas. No entanto, por muito que a crise venha de fora, olho para o meu país (francamente às vezes não me apetece pensar no mundo inteiro por ser de mais) e vejo gente adormecida, confusa, estupidificada pelos ecrãs de televisão, com falta de iniciativa, falta de graça, isolando-se numa tristeza que parece ser um poço sem fim. Mais do que adormecida em termos iniciáticos, efectivamente com sono. Bocejando nos transportes públicos, dormitando nos bancos de jardim, abstraindo-se nas reuniões com o olhar pousado num ponto invisível qualquer. Gente sobretudo cansada, poluída com gases e fumos e alimentos adubados e medicamentos em excesso, e cancros festivos aparecendo de surpresa nos mais inocentes, nos que mais fazem falta. Um povo de coxos e marrecos, mal podendo andar e com o peso do mundo às costas, mas sem a força de S. Cristóvão para atravessar as águas.
Dou por mim com saudades dos anos 80 e 90, ouço músicas dessa altura e, numa nostalgia que me chateia, sou transportada para outro sítio, vejo filmes históricos e sinto-me bem na Idade Média, no tempo dos gregos, dos piratas, em Versalhes junto ao rei sol. A minha mãe, que é a pessoa que conheço com mais prazer em viver, disse-me que gosta de ter a idade que tem porque ao menos assim lhe foi dado viver outros tempos, outras gerações, mais leves, mais despreocupadas, menos pesadas e, sobretudo mais apaixonadas. Andamos todos à beira do abismo e já não sabemos viver. Não sabemos tirar o prazer que vive dentro da vida. Enrodilhámo-nos em créditos e leis e daqui não sabemos sair, numa tristeza que se cola a tudo, às roupas, às expressões, aos gestos, aos pensamentos, às gentes que parecem as hordas de fantasmas seguindo em filas grossas numa visão de Pascoaes.
Não sendo fundamentalista, como dizia, a confusão e o cansaço reinam e os céus parecem estar tão longe.
Em primeiro lugar, perdeu-se o sentido da iniciação. Confunde-se religião com iniciação, quando a primeira não pode viver sem a segunda e a segunda pode viver sem a primeira. E o que é a iniciação? É algo que vai sendo, é um caminhar, uma abertura que se vai fazendo ao espírito que vem de uma outra dimensão (mesmo que esteja dentro de nós, pois nós também temos uma outra dimensão). É o saber aceitar o Totalmente Outro de que nos fala Rudolf Otto no seu livro sobre o sagrado. Daí o valor das histórias. Sempre que conto histórias aos mais pequeninos, os seus olhos atentos e vivos espelham a própria história e vejo-os nitidamente entrar numa outra dimensão, num outro espaço, num outro tempo. As histórias são uma espécie de treino para o Totalmente Outro. Só saindo de nós nos encontramos. Parece uma verdade de La Palice mas, infelizmente tem de ser relembrada. Substituiu-se a seriedade da vida por um parque inconsequente de diversões. E em vez de iniciação temos uma confusão religiosa que nunca mais acaba. Pertencer a uma religião é quase como pertencer a um clube. E o meu é melhor que o teu! Quando, bem vistas as coisas, somos seres únicos, individualizados desde o berço e só através de um caminho que, na sua essência, é único, buscando o indizível e o invisível, nos podemos alterar, melhorar, sublimar. Quando o colectivo serve apenas para camuflar o individuo, escondendo-o debaixo das suas saias, algo vai mal ou vai acabar muito mal.
Perdemos também o sentido do símbolo. O primeiro grande símbolo é a própria natureza, que tomamos como coisa nossa, quando não fomos nós que a criámos. É de outrem, sim, é do além. A seguir às histórias tradicionais (que estão cheias de símbolos e se movem num enredo tendente ao cruzamento de universos e dimensões), há que nos concentrarmos nos símbolos e, por eles, atravessando-os, perceber que estão para além de nós e que, ao captá-los encontramos do outro lado o totalmente outro, exactamente aquilo que nos transcende. Amar os símbolos é amar a Deus, ou o céu, ou os deuses, ou o GADU. E digo amar porque, pelo amor, já dizia o Camões, conheceremos.
Percebendo tudo isto, percebe-se definitivamente a virtude do segredo e do mistério. A vida não é mais vista como uma sucessão cíclica das estações, monocórdica, ou como uma sucessão de eventos numa linha monótona, mas é vista como uma verdadeira aventura. Há segredos por revelar, há mistérios para conhecer. E há valores mais altos do que os do euro ou o da prestação da casa. Afinal a vida continua a ser um mistério e pode haver alegria genuína nos segredos desvelados. Só que tudo isto pressupõe transmissão e, aí, entra a Tradição. A Tradição não é mais do que a transmissão de sabedoria. E a sabedoria não é um concurso de televisão com nomes de reis baralhados no tempo para compor em linha recta nem é esta ciência obtusa que nos circunda isolando átomos, analisando em pipetas sangues de vitimas, focalizando a sua atenção no cérebro, procurando a zona dele onde se situa o amor, o ódio, nem tão pouco dados culturais, normas sociais entendidas como absolutas e absolutistas incapazes de qualquer mutação, levando, naturalmente à estagnação, exactamente o contrário do percurso da natureza… A sabedoria é total, é intuir as relações entre todas as coisas, é estar por dentro delas, é saber das ondas acontecendo quando a pedra cai no charco. É encarrilar no caminho, saber ler os sinais e estar com um pé cá e outro no além, onde tudo se passa de outra forma, é estar entre o céu e a terra. Não se pode procurar a sabedoria sem se estar desperto, e ninguém inicia um caminho a dormir em pé -- talvez os sonâmbulos, mas magoam-se, chocam contra as coisas e não percebem nada do que se passa nem o que estão a fazer, tal e qual como as pessoas comuns que dormitam, exaustas, prontas a morrer sem darem pela diferença.
Do que este país necessita é de iniciação. Qualquer regime político necessita de iniciação e, provavelmente, a democracia, é aquele que mais necessita dela e esta só é possível, nos dias que correm, com a tal arqueologia espiritual de que nos fala Dalila Pereira da Costa. O estudo da nossa história (cujos arquétipos são verdadeiramente iniciáticos), dos nossos poetas, das nossas centelhas luminosas ocorrendo em determinados pontos do nosso percurso, é já o encontro com elementos tradicionais, ou seja, pequenas transmissões de sabedoria pelos exemplos que dão, pela verdade que encobrem. Se há falta de sábios, temos os nossos antepassados ainda capazes de residirem na memória. Com o despertar para a iniciação, ou seja, para os mistérios, nossos e do universo, nossos e do Totalmente Outro, o resto vem por acréscimo. Coisas como a alegria, o ser-se genuíno, o ser-se amigo e solidário. Coisas como o amor, que afinal, como dizia a minha avó, faz girar o mundo.

PESSOA E OS OUTROS, 7



Biblioteca digital

Biblioteca de Pessoa disponível para consulta na rede

Uma boa notícia para os pessoanos: a Biblioteca particular de Fernando Pessoa, guardada na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa (Rua Coelho da Rocha, 16, Campo de Ourique), encontra-se finalmente disponível para consulta na rede.
Todos os 1142 livros do poeta, cerca de trezentas mil páginas, encontram-se digitalizados, permitindo uma busca por autores, títulos e género (Literatura, História, Religião, Ciência, etc.). Além desta perspectiva sobre os interesses do leitor Pessoa, podemos ainda espreitar (com alguma dificuldade, é verdade, porque estão escritas a lápis) as anotações que ele fez nos seus próprios livros.
Enfim, mais um passo para conhecermos um pouco melhor esse misterioso ser…
Embora nos falte ainda o essencial: conhecer a totalidade do conteúdo da famosa arca, guardada na Biblioteca Nacional. Ou seja, seria de desejar que a Vodafone (parceira neste projecto da Casa Fernando Pessoa) ou qualquer outro mecenas apoiasse também a digitalização desses manuscritos inéditos. Melhor ainda seria, obviamente, que alguém os publicasse -- ler no papel é bem melhor do que ler no ecrã do computador… -- , mas se calhar isso é pedir demasiado. O «mercado» tem razões que a nossa pobre razão desconhece.

António Carlos Carvalho

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

SÁBADO, DIA 30 DE OUTUBRO, ÀS 15.00H

Biblioteca Municipal de Sesimbra

Colóquio
Sobre a República, 100 anos depois

Oradores: Pedro Martins (“Sampaio Bruno”), Elísio Gala (“Guerra Junqueiro”), Luís Paixão ("A Arquitectura na República”) e Joaquim Domingues (“A República Pombalina")

Apresentação
do nº 6 da Nova Águia: Revista de Cultura para o século XXI

ANTÓNIO TELMO, SEMPRE



Um poema inédito de
António Telmo

A família é de noite quando se dorme
Todos num sono só, juntos lá onde
De Deus se toca a sua sombra informe
Onde de nós secreto Deus se esconde.
E como há crianças a dormir, o esplendor
Diurno dos seus olhos brilha puro
Num magnífico ponto interior
Que é o reflexo de Deus no escuro.
Mas amanhã há Sol. Vamos passear sós
Na manhã tão nítida e clara, nesta manhã de Abril
Vamos trazê-la para dentro de nós
E levá-la para o sono obscuro e vil
Tão límpida como uma gargalhada infantil.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

OS POETAS LUSÍADAS, 37



Teixeira de Pascoaes

O mundo foi da Poesia, nos primeiros séculos da nossa era. Repetir-se-á o milagre? Voltará o deus dos poetas contra os sábios, que só acreditam na matéria, e com ela fabricam explosivos, gases asfixiantes, máquinas pavorosas? Nesta orgia industrial moderna, paródia, em ferro e vapor, da orgia pagã, o homem está morto ou isolado do seu espírito. Existe, mas não vive. Existe a duzentos quilómetros à hora, mas com a vida parada, dentro dele. Vida inerte numa existência delirante. Seduzido pelo ruído e movimento, as duas faces desta civilização americana ou neoneroniana, integrou-se num sistema mecânico industrial, e é simplesmente uma engrenagem. O ideal da ciência é a morte absoluta; a morte da alma e do corpo: ateísmo e milinite. O homem, desviado do seu destino, que é tornar-se consciência universal perante o Criador, mente à sua própria natureza e perde a razão de ser. Daí, a paralisia moral em que ele jaz e a velocidade que o desvaira, e leva para o túmulo. Pretende eliminar o espaço e o tempo, converter-se numa entidade fictícia, simples imagem abstracta, perpendicular a um solo vertiginoso. Pretende evaporar-se. Eis a grande sensação moderna, depois do sentimento antigo. Mas confiemos no espírito humano.


(retirado de São Paulo, Atica, 1959)

domingo, 17 de outubro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 105




A História do Bruno
Cynthia Guimarães Taveira

Não era para escrever este texto. Por vergonha. Vergonha daquilo que presenciei. Por mágoa, demasiada mágoa. Eis os factos: Uma angolana conhece um aldeão português, e vice-versa, ele também a conhece no sentido bíblico em que um homem e uma mulher se conhecem. Ele é louro de olho claro. Ela é negra, de olho escuro. Desse encontro nasceu uma criança a que deram o nome Bruno. A criança é linda. Tem agora doze anos. Vejo-a brincar na praia. Tem uma alegria imensa em viver. É mulato louro e branco e os traços com que foi desenhada a sua face são africanos. A mistura saiu perfeita e o menino, que conheço há quatro anos, entretém-se, sem que o saiba, a dar lições de vida a um olhar mais atento. A sua vida não é fácil: a mãe separou-se do pai e foi agora viver com um homem muito mais velho, que bebe, que grita, que embirra, que não o ama de maneira nenhuma.
Mas o Bruno é uma borboleta, parece pairar acima de todas as adversidades. É inteligente e tem jeito para escrever. Nas histórias que escreve revela uma imaginação e uma facilidade com a palavra que admiro. Ele balança na vida e com a vida. Ele diz-me, sem que o diga, que o truque para viver está em saber dançar. Saber ouvir uma música acima do quotidiano triste. E pairar assim, acima das circunstâncias, e conseguir, assim, momentos de felicidade. Admiro-o quando o observo. Gosto muito dele. Se pudesse adoptava-o e retirava-o do mundo triste em que vive. Penso nisso às vezes. Antes de barrigas de aluguer, bebés proveta, desejos, absurdamente egoístas, de se ter um filho que sai do próprio ventre como prolongamento de si, vem a adopção. A adopção daqueles que, como o Bruno, quando lhe fazemos uma festa nos dá um abraço do tamanho do mundo, quando se dá um beijo, se recebe mil em troca. Há muitos como o Bruno e eles estão aí, à espera de alguém que os ame para poderem também amar. As provetas deviam ficar para o tempo em que já não houvesse crianças abandonadas à sua sorte.
No dia 1 de Outubro o Bruno foi assassinado com um tiro de caçadeira na testa. O velho, que pertencia à mesma aldeia que o pai do Bruno, chateou-se de vez, ou bebeu de mais, ou apeteceu-lhe (bem lá no fundo, acho que lhe apeteceu) e resolveu matar mãe e filho na mesma noite. Dava-se mal com a mãe e resolveu fazer justiça com as próprias mãos. A seguir, como viu que tinha feito asneira e que iria sofrer consequências sérias por isso, suicidou-se, coroando assim uma noite de cobardia. Matar pessoas indefesas é um acto de cobardia.
No dia 6 de Outubro foi o enterro. Lá fui. Com um desgosto e uma indignação sem tamanho. O meu Bruno morreu. O meu Bruno não morreu de doença, nem num desastre. Morreu porque alguém decidiu que ele ia morrer. Todo o meu corpo é só uma lágrima. Estavam menos pessoas no funeral do que imaginei. Pensei que, coitadas, estariam a trabalhar. A aldeia era confusa, não sabia ao certo quantas pessoas teria. Mas sabia, porque lá trabalhava, que as notícias se espalhavam depressa. Devia ter percebido os sinais pelas conversas: - Ela era má para ele, diziam. – Ela não o deixava beber nada, diziam. – Ela ia para os cafés à noite e fumava! – Ela discutia com ele no meio da rua.
Este último facto, “Ela discutia com ele no meio da rua”, era tido, naquele lugarejo, como um acto verdadeiramente escandaloso. Sabia disso porque trabalhava naquele sítio há oito anos e, pura e simplesmente, havia uma verdadeira opressão na exposição pública dos sentimentos. Punida com repúdios e ostracismos. Vinda de Lisboa, estranhava o fenómeno. Em Lisboa todos discutiam em qualquer lugar. Todos mostravam o que sentiam. Ali não se podia sequer sentir e eu não o sabia ainda. Fiquei a sabê-lo no velório do velho.

O velório do velho foi, paredes meias com o sítio onde trabalho e onde o Bruno brincou durante quatro anos. O velório do Bruno foi noutra terra, colada àquela. Foi mais longe.
Quando cheguei, de manhã, para trabalhar e ir ao funeral do Bruno e da mãe, foi com espanto que percebi que tinham posto o corpo do velho tão perto de um sítio onde o Bruno estava todos os dias. Mas o choque veio depois. Carros e mais carros foram-se acumulando junto à capela e, a aldeia em peso, velava e lamentava a morte do velho assassino. Mais pessoas foram ao funeral dele do que foram ao da mãe e ao do filho. Afinal o velho era filho da terra, e lá devia ter as suas razões para fazer o que fez. Estava desesperado, coitado.

Aquele lugarejo, aquele detestável lugarejo era o oposto do que eu sonhava para Portugal. No funeral da criança, uma amiga holandesa estranhava os nossos costumes e dizia-me: - Se isto fosse na Holanda, havia uma vigília com velas e crianças junto ao sítio onde o Bruno tinha morrido. Havia uma marcha silenciosa na aldeia e quase ninguém teria ido ao velório e ao funeral do velho. Foi com tristeza que lhe disse: aqui, as pessoas desta aldeia são xenófobas e racistas. Vivem perto do mar e nunca viajaram. Nunca saíram daqui. Não conhecem outra realidade que não a sua e recusam qualquer outra. O lugarejo chama-se Malveira da Serra. Fica perto do Guincho. Fica até perto de Lisboa. Mas é uma bolha no espaço e no tempo. Se passarem por lá, não parem.

Dedico este texto ao Bruno. De quem terei sempre saudades. E que não merecia o que lhe aconteceu.

sábado, 16 de outubro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 104


Civismo
Eduardo Aroso

A tua oficina tem mais um dia
Este em que nasce outra pedra bruta,
Mas com a luz do sol que te alumia
Para arrancares a sombra que há na gruta.

Relê e pensa diariamente a constituição,
E a lápis fez os teus registos pessoais;
Só é verdade o que lá está pela acção
De outras Índias achar no meio de vendavais.

Deixa as frases feitas e o novo-riquismo,
Disse o poeta que são «cadáveres adiados».
Tu e o teu vizinho lavrem com o arado do civismo,
Não esperem pela assembleia de tantos deputados.

Tem fé, não desanimes, que há-de vir o dia
Do sonho feito garantia, a perfeita lei.
Ajuda a fundar uma outra dinastia
Na república onde o Povo será rei.

Agosto de 2010

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 103

Notícia sobre António Telmo (1927-2010)*
Rodrigo Sobral Cunha

Figura aristocrática do Movimento da Filosofia Portuguesa, na linha de Sampaio Bruno, Leonardo Coimbra, Álvaro Ribeiro e José Marinho, irmão de Orlando Vitorino e companheiro de Agostinho da Silva e de Dalila Pereira da Costa, atravessou António Telmo a nossa época entre 1927 e 2010, partindo na manhã de 21 de Agosto aos 83 anos de idade.
A sua obra propõe uma nova visão da história de Portugal, totalmente diversa das histórias oficiais ocidentais dos últimos dois séculos; ligada à Ordem do Templo e à Ordem de Cristo, aliando uma interpretação do Mosteiro dos Jerónimos a uma nova leitura do pensamento de Luís de Camões (em diálogo único com Fiama Hasse Pais Brandão) e apontando através do nevoeiro do seu tempo para um futuro presente sob o Reino do Espírito, da Liberdade e do Amor, perscrutado desde as flores do verde ramo até à Mensagem. Se o poder espiritual e o poder temporal tiveram a sua disputa esotérica no século XX entre as personagens de René Guénon e de Julius Evola, no caso de António Telmo dá-se a conciliação real e simbólica dos dois braços da cruz, na fidelidade à tradição templária portuguesa. Um dos mais originais filósofos da nossa época e um dos maiores escritores portugueses, conjugou tradições como a filosofia aristotélica e a filosofia hebraica, o sentido sagrado da língua portuguesa e o dom da palavra poética, a noção de firmamento e o culto dos heróis. Filólogo aberto à intuitio intellectualis do poder criador do verbo, a ele se devem, entretanto, a noção de uma gramática secreta da língua portuguesa e o conceito criacionista de razão poética. Pensador quinto-imperial, não deixa de considerar, no seguimento de Álvaro Ribeiro, que a soberania reside sobretudo na inteligência e na imaginação.
Ficam as obras: Arte Poética (Lisboa, Guimarães, 1963), História Secreta de Portugal (Lisboa, Vega, 1977), Gramática Secreta da Língua Portuguesa (Lisboa, Guimarães, 1981), Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões (Lisboa, Guimarães, 1982), Filosofia e Kabbalah (Lisboa, Guimarães, 1989), O Bateleur (Lisboa, Átrio, 1992), Horóscopo de Portugal (Lisboa, Guimarães, 1997), Contos (Lisboa, Aríon, 1999), O Mistério de Portugal na História e n’Os Lusíadas (Lisboa, Ésquilo, 2004), Viagem a Granada (Lisboa, Fundação Lusíada, 2005), Contos Secretos (Chaves, Tartaruga, 2007), A Hora de Anjos Haver: poemas (Porto, 2007), Congeminações de um Neopitagórico (Vale de Lázaro, AlBarzakh, 2006 / Lisboa, Zéfiro, 2009), A Verdade do Amor, seguido de Adoração: cânticos de amor, de Leonardo Coimbra (Lisboa, Zéfiro, 2008), Luís de Camões (Estremoz, Al-Barzakh, 2010), Viagens à volta de um tapete: a aventura maçónica (Lisboa, Zéfiro, 2010), O Portugal de António Telmo (Lisboa, Guimarães, 2010).
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* Texto do apontamento televisivo sobre António Telmo, que foi para o ar no programa Câmara Clara, da RTP 2, em 15 de Setembro de 2010.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

REINCIDINDO...


31 de Janeiro de 1891
Eduardo Aroso


Oculto sol que doiras ainda
A estrada sinuosa da liberdade
A contratempo na desavinda
Dama descarnada desta idade.
Fantasma do sonho que nos exorta
Pela sombra inquietante da viagem,
E junto ao abismo nos acorda
Em nova madrugada de coragem.

Janeiro de 2010

BREVEMENTE...

Novidade. Do novo livro de Rodrigo Sobral Cunha, prestes a chegar aos escaparates, aqui deixamos a sinopse:
A Ritmanálise é um novo modelo integral de conhecimento operacional concebido pelo filósofo, físico e matemático português Lúcio Alberto Pinheiro dos Santos (1889-1950) e apresentado à Europa pelo filósofo e epistemólogo francês Gaston Bachelard (1884-1962). O ritmo é a própria energia de existência em todas as escalas e assim o princípio unificador da física, da biologia e da psicologia. Tanto o universo como a própria vida assentam em sistemas rítmicos interactivos, desde as frequências regulares da radiação, passando pelo pulsar vital, até às oscilações do psiquismo humano, que esta nova forma de actividade criadora procura compreender e orientar.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 102




Das ironias sem decretos e das coisas sérias da República
Eduardo Aroso

«Paz aos homens; guerra às ideias»
Sampaio Bruno

Comemorar a república que nunca existiu seria um acto mental dos mais corajosos, digno daquele de ir na demanda do que se pressente existir, mas ao qual ainda se não chegou. Para que se não dê azo a afirmações deste teor «a república de todos e de tolos». O mesmo é dizer-se que a fundar-se a quinta dinastia, teria que haver, não direi uma que nunca tivesse existido, mas pelo menos algo naquele espírito da Ínclita Geração, pois daí até agora, atravessando 1910 e chegando a 2010, já nada nos tem servido ao Sonho. O ministro de hoje que não sai do gabinete para o país que pulsa diariamente, não está muito longe dos monarcas que já não sabiam andar a cavalo nem dançavam com o Povo, nem por este eram aclamados.
Se, ainda que de modo tosco, nestes estéreis tempos embruxelados (não disse embruxados) concebêssemos uma nova Ínclita Geração, isso já realizaria muito satisfatoriamente a proposta do período inicial deste escrito: comemorar o que nunca existiu, melhor, o que pudesse vir a ser, na certeza de uma obra maior de aura universal. Acordar para o dia que não vem no calendário, o dos altos Fados que Deus tem para os Homens que d’ Ele se abeiram para a traçar a História, fazendo definitivamente uma nova tatuagem no espírito.
O facto de Portugal nunca estar verdadeiramente presente no hemiciclo de S. Bento, compreende-se pelo meio espaço. Quando muito, só lá anda metade, e mesmo assim seria preciso que os bancos da dita assembleia estivessem todos ocupados, coisa rara! Portanto, ou vamos para a «táctica do quadrado», como em Aljubarrota, ou fazemos o círculo completo, o sol. Isto estaria em perfeita harmonia com o espírito da nossa verdadeira História, sendo um dos seus símbolos a esfera armilar. Assim, só metendo obras a sério em S. Bento é que Portugal pode ocupar o centro, e um rei-desejado ou um presidente apetecido poderá presidir sabiamente aos nossos destinos. Se há fraterpater, e fraternidade não surge por decreto ou despacho interno. Liberdade, inseparável de justiça; quanto a igualdade, fazer uma adenda à constituição para explicitar melhor esse apetecido mas incompreensível quebra-cabeças.
Se não há firme resolução para obras, querendo o tal círculo inteiro, ficamos na lua, isto é, quando está por metade, na fase crescente, não aumenta mais do meio círculo, nunca chegando a lua cheia; se é na fase minguante, fica-se simplesmente pelo nome. Ora o verbo minguar, muito se tem conjugado entre nós. E como míngua rima com língua – neste caso de um modo com pouca frescura -, diríamos estar perante mais outro paradoxo português: o povo está sem papas na língua! Ou seja, se por um lado, muita gente desta classe (que muito parece importar à república, enquanto votante) está sem comida que lhe passe pela língua - o que as mães chamam carinhosamente a papa - por outro lado parece que o povo ainda tem papas na língua! Aqui podemos distinguir dois tipos de pessoas: as do povo (povão no Brasil e zé-povinho em Portugal), as que ainda não aprenderam de uma vez por todas a mandar à fava quem não lhes deixa cultivar a terra à vontade, quem as não deixa pescar nos oceanos que, mais do que embruxados e poluídos, estão embruxelados. No ano do centenário da república, há que atentar nos tempos inesperados e imprevisíveis, dar andamento a soluções, pois quando chegar o momento do próximo acto de votar podem todos «estar sem papas na língua»!

4 de Outubro de 2010

domingo, 3 de outubro de 2010

NOVA ÁGUIA: O NÚMERO 6 ESTÁ A CHEGAR...

Efemérides. Subordinado ao tema A República, 100 anos depois, o sexto número da Nova Águia tem o seu primeiro lançamento marcado para a próxima quinta-feira, dia 7 de Outubro, pelas 19:00, na Universidade Católica do Porto, onde Carlos Magno a apresentará. Cinco dias depois, a 12, e desta feita às 17:00, será a vez de o Palácio da Independência, em Lisboa, acolher a apresentação da revista, que estará a cargo de Pinharanda Gomes.
Para além do tema de capa, este novo número da Nova Águia, no qual colaboram diversos nomes do círculo dos Cadernos, assinala ainda quatro efemérides: o bicentenário do nascimento de Alexandre Herculano; o centenário do nascimento de Miguel Reale; o cinquentenário do falecimento de Jaime Cortesão; e o ano da morte de António Telmo, colaborador da revista desde o primeiro número, e que nos deixou no passado dia 21 de Agosto.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 101



António Telmo
Rodrigo Sobral Cunha

Texto lido em homenagem a 16 de
Setembro na Biblioteca Nacional

A presença de António Telmo surgia como um grande silêncio pela brisa da tarde e quando falava a voz era cava e como que murmurejava num português claro, assemelhando-se sob estes aspectos ao mar. Os seus gestos eram calmos e movia-se como um carvalho na ciência do ser. Amava a amplidão do horizonte e a sua paisagem era a planície alentejana sob o límpido azul.
Tudo nele estava orientado para a acção do intelecto em convergência com a imaginação, ao que designava razão poética, e o seu modo de estar nobremente criacionista traduzia isto mesmo em toda a linha. Se lhe acontecia encontrar-se em situação de passividade, vítima da razão patética, pouca coisa levava a sério, embora o sentido da atenção nele fosse como uma corda firme. Frugal quanto às aparências, tinha um elevado sentido da beleza e gosto aristocrático que completava com as virtudes da veracidade e da lealdade.
De António Telmo, que pensou sempre com todo o seu ser, se pode dizer que era feito da madeira subtil da árvore da filosofia portuguesa; dessa árvore ignota cuja copa, tal como as raízes extremes, no reino da luz se aloca.
Interpretando o pensamento de seus mestres José Marinho e Álvaro Ribeiro, aprendeu a conciliar no seu os de Platão e de Aristóteles. Teve Platão por “o maior pensador europeu”. Com Sampaio Bruno aprendeu o exercício hermenêutico de extrair a luz da obscuridade e com Leonardo Coimbra aprendeu a graça inventiva desse “amor amante” que se verbaliza e faz gesto irmanando a luz. A Agostinho da Silva, a quem designou “Monarca do Espírito”, convidá-lo-ia para padrinho de sua filha, pondo ao filho o nome de Manuel. A propósito das Três Meditações sobre o Êxtase de Dalila Pereira da Costa, que contou também entre os seus melhores amigos, escreveu António Telmo: “tendo eu percorrido numa longa viagem as várias obras-primas da literatura esotérica – árabes, judaicas, cristãs da Alemanha, da Itália ou da Inglaterra –, em nenhuma me foi dado encontrar, em meditação do êxtase, um texto tão inteligente, tão exacto, tão lúcido, diria mesmo tão racional, e, no entanto, quase só constituído por interrogações.” Num certo sentido, pode dizer-se dele que leu ou viu tudo; de Oriente a Ocidente e de Ocidente a Oriente.
Uma das mais altas inteligências que tem conhecido Portugal, calhou-lhe na sorte, entretanto, dar aulas a crianças em Estremoz. Aí lhe sucedia ensinar, por exemplo, quem fôra o primeiro rei de Portugal e quais os seus feitos, enquanto fazia os sumários reproduzindo os programas ministeriais. Um dia colocou em exame aos seus alunos essa mesma questão: quem é o rei de Portugal (por antonomásia) e quais os seus feitos? Metade das respostas dos meninos afiançaram que era o “Zé Maria”, o contínuo da escola (que informava os alunos no recreio que era ele quem ali mandava). Este género de historietas sérias e outras histórias de outra natureza, eram correntes no círculo de amigos de António Telmo, círculo que ele mesmo animava com iniciativas que iam do comentário de livros e acontecimentos a discretas intervenções públicas sempre comunicadas a poucos. O convívio com o filósofo estava imbuído de uma atmosfera rarefeita, sem nuvens; e se algumas apareciam, dissolvia-as rapidamente o seu fino sentido de humor.
Entende António Telmo o diálogo como uma arte gnósica mediante a qual a verdade, depois de percorridos certos passos, se revela aos intervenientes através de uma sublime espécie de diafaneidade. O silêncio era substante a todo o diálogo com ele, supervisionado pela presença do espírito. De quem desconhecesse a capacidade do silêncio e da fala autêntica, o nosso filósofo afastava-se simplesmente sem qualquer palavra. O que naturalmente dava azo a vulgares opiniões, consignadas na sentença de Heraclito: “Os cães ladram aos desconhecidos”.
Para António Telmo o mundo, ou melhor, o Universo é uma interioridade a pensar. Significa isto que o “universo”, como o vê a ciência, é simplesmente exterior, oco até; não tem ressonâncias com as vivências do homo scientificus. Em contrapartida, “sagrado” (ou secreto) é o Universo experimentado com nosso inteiro ser; ou seja, com aquilo que em nós é capaz de intuir o uno e o diverso, discernindo para melhor compreender a plural vida do Universo. Ora, no pensamento de António Telmo uma tal compreensão é o que propicia a verdadeira imaginação.
Pela razão poética especula o filósofo acerca das imagens vivas que o movimento noctidiurno exibe e esconde à sensibilidade e à inteligência, entre luz e treva. O pensamento criacionista de António Telmo deve ser visto como uma teoria operativa, pois a contemplação nele é acção sublime que, iluminando o ser, esclarece o Universo, até ao seu essencial mistério.
Tendo feito seu o pensamento de Fernando Pessoa – “Minha pátria é a língua portuguesa” –, a obra de António Telmo procurou sempre a sabedoria interior da janela da língua portuguesa, desta feita totalmente aberta para o Universo.
Gostaria de terminar recordando as seguintes palavras concedidas pelo filósofo a uma entrevista: “Um dos sinais do Quinto Império é que ainda há andorinhas. O provérbio diz que uma andorinha não faz a Primavera. Mas eu acho que faz. Enquanto houver um homem onde resida a espiritualidade, há sempre um princípio do Quinto Império.”

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

REENTRAR NA «CATEDRAL», 9

Maternidade
Isabel Xavier

Esperava um filho e naquele dia orou
Sentiu-se em comunhão com o Universo
Cresceu em si rara força, chorou
Procurou papel e lápis, fez um verso

E nele colocou toda a força do seu estado
Sentiu-se mais que o mundo, só Amor
Sabia de antemão qual o sítio, qual o lado
Onde a levava aquele medo, aquela dor

Saber-se e em si o ente que sentia
Mover-se em si como algo de divino
Conhecer em seus gestos o que havia
Já, antes ou depois do que adivinho

Ser a verdade essencial ou parte dela
De forma única que mais ninguém conhece
Mística partilha mais do que aquela
Em que dois são um e um só vence

Com sua força as amarras que há no mundo
Não há amarras que prendam uma mãe
Que, passo a passo, vai chegando ao fundo
Do mistério maior que a vida tem

Algo distinto e muito mais do que ela
Transmissão de sentimentos, alquimia
Espelho de luz que em si luz enquanto vela
Por aquele novo ser que em si vivia

O ar, o céu, a terra, o mar
De todos eles se sente aparentada
E em cada gesto ou passo que vai dar
Há a firmeza que conhece o tudo e o nada

Nada no mundo a isso se compara
Estava viva de uma forma nova e mágica
Soube-se a dor que no mundo nunca sara
Porque é fora do mundo que há a trágica

Centelha de espírito que se anima
Quando viver é sinónimo de amar
E nascem as palavras com que rima
A verdade que um dia há-de reinar.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

terça-feira, 28 de setembro de 2010

RAZÃO POÉTICA, 7


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Isabel Xavier ou a arte de sentir*

Para os Teoremas de Filosofia, um dos maiores acontecimentos espirituais foi sem dúvida o de ter sido editado sob o seu patrocínio o livro de Isabel Xavier Catedral. Isabel Xavier tem colaborado nos Teoremas com algumas poesias. O livro é ilustrado por outro nosso colaborador, o pintor de Vila Viçosa Carlos Aurélio. São dois nomes que não dizem nada ou pouco mais que nada ao público culto, mas que são de dois espíritos verdadeiramente interessados pelo que mais importa.
Os poemas de Isabel Xavier pertencem àquela espécie que Eugénio de Castro, discípulo português do rosa-cruz Péladan, caracterizou como oaristos pelo nome do livro que o tornou célebre. Saber tudo quanto se implica nesta designação constitui o melhor comentário de Catedral.

A palavra oaristo não é de uso comum, até entre os literatos ocultistas que lêem e admiram o poeta rosa-cruz. Quem a elevou àquele plano em que a palavra se torna pensamento e o pensamento se faz luz foi Álvaro Ribeiro. Usou-a como a palavra mágica capaz de desvendar os segredos da linguística, até agora encobertos por uma ciência mais preocupada com a linguagem plebeia do que com as formas que a língua recebe quando trabalhada por mentes superiores.

“Cada idioma, escreve o insigne filósofo na página 178 d’A Razão Animada, é um órgão invisível que pode ser configurado mediante sinais gráficos e tipográficos, mas que exerce também funções indiscerníveis pela análise literal ou gramatical. No âmbito de cada idioma vão dialogando os seres humanos, e realizam conhecimento ou ciência, na medida em que continuam a relação de espírito a espírito. Fácil será inferir, portanto, que o diálogo mais profundo, de maior alcance gnósico, sófico e pístico, tem a designação clássica de oaristo”.

Qualquer dicionário nos diz que oaristo é o amor conversado, a conversa que precede, acompanha e amplia a união dos amantes, do amigo e da amada. Seu alto paradigma é o Cântico dos Cânticos. Aquilo que, vivendo o seu romance, eles murmuram, ciciam ou falam “humaniza a vida erótica para a transformar em vida de amor”. Continua Álvaro Ribeiro: “O ritual, por intermédio do mito, daquilo que se diz, vai até à porta do indizível, ou do mistério, e assim ascende à dignidade da liturgia. Sem palavras valorativas de bondade, de beleza e de verdade não pode haver linguagem comunicativa de graça entre os amantes.”

Sublinhamos “à dignidade da liturgia” para lembrar que, durante o sacramento do matrimónio, os ministros são os próprios noivos.

Há, nas linhas transcritas d’A Razão Animada, o princípio de uma teoria do conhecimento que, existente já, embora por modos e expressões diferentes, em Sampaio Bruno e em Leonardo Coimbra, em Álvaro Ribeiro se compõe com uma forma superior de linguística à qual convém chamar, com inteira propriedade, oarística.

A analogia do amor com o conhecimento é uma das linhas de força da tradição judaico-cristã, como se vê pelo Génesis onde se diz que Adão conheceu Eva, isto é, se uniu sexualmente com ela (depois do pecado original, convém dizer-se) e como se vê pelo Evangelho, no relato das bodas de Canaan, quando Cristo a pedido da Mãe transformou a água em vinho.

Por tudo isto se compreende como para Álvaro Ribeiro, pensador da tradição judaico-cristã, o conhecimento seja, como a etimologia ensina, “uma relação de sujeito a sujeito, e humanamente uma relação social de espírito a espírito”. É o que nos diz a página 151 d’A Razão Animada, após ter sido afirmado que as gnoseologias dualistas se lhe afiguram incapazes de explicar o conhecimento pelas relações do Sujeito como o Objecto. Nesta relação, o dualismo resolve-se por redução a um monismo. Ou o sujeito cria o objecto e temos o idealismo ou o objecto reflecte-se no sujeito e temos o materialismo. Há, no primeiro caso, uma assimilação do objecto pelo sujeito, e, no segundo caso, uma assimilação do sujeito pelo objecto. As filosofias germânicas e suas adjacentes, onde, como se sabe, aquela relação, (S – O) é predominante, lidam com uma forma de conhecimento que, por analogia, podemos explicar, recorrendo de novo à Bíblia, como a manducação assimilante do fruto proibido e, por conseguinte, como um acto de baixa magia. Esta linha de pensamento afirma o valor do pecado original e vai levar a ideia, pelo seu prolongamento em ciência do bem e do mal e em tecnologia, até às últimas consequências no domínio da biologia. O oaristo acaba quando as palavras degeneram da imaginação para o sensualismo, tendendo a cingir a mulher como objecto, em vez de por metáfora formarem, analogia com o que acontece no Cântico dos Cânticos. Agostinho da Silva, outro discípulo maior de Teixeira Rego e de Leonardo Coimbra, escreveu algures que só se amam verdadeiramente o homem e a mulher que se amam em Deus. O que equivale a dizer o que os mestres de Cabala ensinavam: há três associados que presidem ao concebimento de uma criança, Deus, o pai e a mãe.
A elevação, proposta por Álvaro Ribeiro, da linguística a oarística funda-se na ideia de que, nas formas superiores de linguagem em que se exprime o sobrenatural, todos os fonemas, todos os verbos, todas as frases se devem compreender como uma misteriosa conversa entre o amante e a amada, até quando ali pareça que se fala de outra coisa. É isso que nos permite ver na poesia de Isabel Xavier um oaristo continuado, até quando pareça não falar do amor. E tudo isto por virtude de um dom feminino raramente tido. Isabel Xavier pensa com o sentimento.

António Telmo
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* Publicado originalmente no n.º 7 da revista Teoremas de Filosofia (Primavera de 2003); e depois em Viagem a Granada (Lisboa, Fundação Lusíada, 2005).

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

REENTRAR NA «CATEDRAL», 8


Olhar
Isabel Xavier

Na ternura do teu olhar
Quando para mim olhaste aquele dia
Eu vi a terra, o Céu e o Mar
E nunca mais pude vê-los como os via

Desde esse mágico momento
Em tarde impassivelmente calma
Cessou em mim meu pensamento
Suspendeu-se em mim a minha alma

Não me possuo, não me reconheço
Em redor de mim tudo é estranheza
Dos passos que percorro desconheço
O fim ou o caminho que lá chega

Não sei o sentido do que faço
Mas se faço sei que tem algum sentido
Na penumbra que me envolve neste espaço
Procuro-me no que em vão tenho vivido

Bate à minha porta o desalento
Mas tenho o teu olhar p'ra recordar
Na memória daquele único momento
Sempre que olho a Terra, o Céu e o Mar.

O CAMINHO DO CAMINHO, 16

Cynthia Guimarães Taveira



Retratos
A tua casa não tem fotografias, observava o amigo. Pois não, respondia enquanto pensava no “porquê” dessa ausência. No Caminho do Caminho, no seu mais íntimo percurso, havia uma incapacidade de lidar com o seu passado. Quando olhava para trás, honestamente, parecia nada ter ficado resolvido e, quanto ao arrependimento, arrependia-se de uma série de coisas, umas mais graves, outras quase inofensivas. Não era o sentimento de culpa, era o arrependimento na sua forma mais pura. Nao gostava de olhar para trás, para a sua vida. Se um dos seus temas preferidos era História dos povos, das suas convulsões e pacificações, quanto à sua vida, alguma coisa o fazia arrepiar-se quando via um retrato seu. O momento, assim cristalizado no papel, parecia não mais voltar e isso provocava-lhe uma angústia demasiado próxima do sofrimento. Esta incapacidade de viajar no seu próprio tempo tinha bem presente a consciência de não conseguir resolver coisa nenhuma. A vida era um constante puzzle com peças ausentes ou pouco nítidas. Era a consciência da sua infinitude que o levava a não se conseguir confrontar com todas as suas acções finitas, encarceradas em contextos sempre demasiado apertados e delimitadores do seu raio de acção.
Não usas relógio, observava o amigo. Não, justificando-se: o tempo flui, sem medida. Todo o universo é mensurável, apenas o tempo é metido à força em relógios porque, não existindo, existe, e, existindo, não existe. O espaço é o corpo, próximo ou longínquo, o tempo é incapturável como a alma: aproxima-se a uma velocidade vertiginosa e escapa-se-nos por entre os dedos com a mesma rapidez. Estamos sempre no centro da ampulheta e, nesse ponto, somos apenas a passagem por onde o tempo flui. O tempo usa-nos, mas não somos o tempo.
Estranhava aquelas pessoas que diziam, com orgulho e com um brilho nos olhos, “não me arrependo de nada”. Como, se a vida era um constante arrependimento do que somos e não fomos, do que somos e não ousámos ser, do que somos e desejamos ser, do que somos e não somos? Ao nascer já somos arrependimento daquilo que não nascemos. Não somos a causa do labirinto, somos o labirinto. Não nos perdemos no labirinto, provocamos, a cada minuto, múltiplos novos labirintos: eles nascem naturalmente a partir das noções de distância que nos separam do acto e da potência, do sonho e da realidade, do humano e de Deus.
Um simples retrato tinha tantas implicações, sentimentais, filosóficas, que preferia não o ver. O retrato era sempre a consciência da sombra da sua vida, o lado negro da meditação, o encontro com a ilusão, o sabor amargo da finitude. A memória em palavras era sempre menos crua, mais subjectiva, mais fantasista, a memória em imagens era sempre um choque para o qual nunca estava preparado porque se arrependia de tudo e a ausência de tempo era a sua única possibilidade de fuga do irresolúvel.

domingo, 26 de setembro de 2010

PARA LER: FUNDAÇÃO ANTÓNIO QUADROS HOMENAGEIA ANTÓNIO TELMO


Evocação. A Fundação António Quadros homenageia a memória de António Telmo, dedicando-lhe inteiramente a sua newsletter n.º 15. Textos da autoria de Mafalda Ferro e António Quadros Ferro, uma carta inédita de António Telmo a António Quadros, raras fotografias que dão testemunho de um encontro do grupo da Filosofia Portuguesa no Vale do Infante, em 1983, por ocasião do centenário do nascimento de Leonardo Coimbra e um artigo com que António Telmo colaborou no jornal 57 contam-se entre os óptimos motivos de interesse que esta publicação apresenta.

sábado, 25 de setembro de 2010

REENTRAR NA «CATEDRAL», 7



Rosa
Isabel Xavier

O vermelho que naquela rosa existe
Causou-me espanto quando há pouco o vi
Não sei se me senti alegre ou triste
Nem sei bem dizer o que senti.

Tudo em mim mudou, ficou diferente
E nem olhar segunda vez ousei
A rosa lá, em seu vermelho ardente
E eu parada no momento em que a olhei .

Se um novo olhar quebrasse esse feitiço
Que pecado maior podia haver?
A rosa, o sol, os campos, tudo isso
Lembram-me quanto sou pequeno ser.

Há sensações únicas na vida
Quisera saber guardar esse momento
Quisera em sua força desmedida
Poder ancorar meu pensamento

Tudo passa, cada instante traz
Um novo instante, igual e diferente
Mas só pode julgar que tanto faz
Quem em si traz a alma doente.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 100


António Telmo*
Pedro Sinde
António Telmo (1927-2010). Em Estremoz, onde escolheu viver desde 1976, todos o conheciam por Professor Telmo. Os alunos que passaram por ele nunca se esqueceram das suas aulas. Assisti a muitos destes reencontros, enquanto passeávamos no largo de S. João (como insistia em chamar, à antiga, ao largo do Rossio), quando algum desses alunos se cruzava casualmente com ele, saudando-o carinhosamente e relembrando algum dos episódios invulgares que enchem a sua vida; como aquele, por exemplo, de ter desafiado para um “torneio de fisga” um aluno indisciplinado: “quem ganhar, manda na sala”, disse ao aluno. E o Professor ao mesmo tempo que ganhou o “torneio” conquistou o respeito do aluno. Tinha uma pontaria magnífica; por causa disso, em novo chamavam-lhe Guilherme Telmo.
Foi um jogador de bilhar e um caçador exímio; nos últimos anos, porém, sobre a caça, exclamava muitas vezes “como é que eu fui capaz?!…”. Agora, deleitava-se a contemplar nesse mesmo largo os pombos no seu voo circular, “para os fazer viver e já não para os matar”, como me disse numa carta.
Quem o visse no Águias d’Ouro estaria talvez longe de imaginar que escrevia um dos muitos livros que o tornariam famoso: a sua História Secreta de Portugal ou o Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões, a Filosofia e Kabbalah, mais recentemente, a Viagem a Granada ou ainda as Congeminações de um Neopitagórico. O Águias não deixará seguramente de assinalar este facto.
Foi um dos melhores amigos de Agostinho da Silva, que o levou para Brasília com o fim de leccionar na Universidade nascente. António Telmo recordava saudoso esse tempo em que Agostinho da Silva, nos passeios que davam juntos, se punha a sonhar, contemplando um lugar no mato: “aqui ficará um monge cristão, ali um sufi e ali um monge zen”.
António Telmo é um dos expoentes da escola da filosofia portuguesa. Discípulo de Álvaro Ribeiro e José Marinho, imprimiu a este movimento uma originalidade magistral. A direcção do seu ensino ia no sentido de acentuar a ideia de que o pensamento deve fecundar e transformar a vida; a isso chamou, logo no seu primeiro livro Arte Poética, “filosofia operativa”. As tertúlias que orientou tinham sempre esta componente “operativa”, o pensamento tinha como corolário o aperfeiçoamento do comportamento ético, artístico, iniciático.
Outro ponto a destacar do seu ensino é o seu amor a Portugal. Reconhecendo a situação calamitosa que vive Portugal presentemente, nunca deixou, no entanto, de o amar e defender em todos os seus livros: estudou magnanimemente a sua arquitectura, a sua história, a literatura, a filosofia e até a língua.
Sempre procurou, como se pode ler numa nota biográfica que acompanha alguns dos seus livros, “estar de pé sobre a extensa planície, a toda a volta, com a sua sugestão de liberdade e de infinito.”
Morreu um homem livre.
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* Este artigo foi originalemente publicado na edição de 16 de Setembro de 2010 do jornal Brados do Alentejo, de Estremoz. O título que agora lhe foi dado é da responsabilidade do editor.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

NO PRÓXIMO SÁBADO, ÀS 15:30, NA BIBLIOTECA MUNICIPAL DE ALCOCHETE

Colóquio. O centenário da proclamação da República oferece o pano de fundo ao colóquio que se realiza no próximo sábado, dia 25, pelas 15:30, na Biblioteca Municipal de Alcochete, e no qual serão oradores António Carlos Carvalho ("A Monarquia e o Rei") e Pedro Martins ("Teixeira de Pascoaes e a República").
A sessão, durante a qual serão apresentados Singularidades, segundo volume dos Cadernos de Filosofia Extravagante, e o quinto número da Nova Águia, sobre Os cem anos d'A Águia e a situação cultural de hoje, contará ainda com a presença de Renato Epifânio, director desta revista, e que também integra o círculo dos Cadernos.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 99




Portugal
ou doce cantiga da noite dos tempos
Teresa David

Antiquíssimo braço
Antiquíssimo abraço
de mar
nascidos da Luz
nascidos da Cruz
Semi-dizer
De Esplendor
em Flor
pedras

voz perdida
voz reencontrada
guia-nos
para e por essa
constelação
de dizer
secretamente
Apenas,
conduz e roda os dedos
para a romã
do Amanhã

EXTRAVAGÂNCIAS, 98


A República dos objectivos ou dos ideais?
Eduardo Aroso

Embora a discussão em torno das ideias de república, de monarquia constitucional e parlamentar para Portugal continue a ser legítima, e considerando que é muito remota, no plano mundano, a possibilidade de implantação de uma qualquer monarquia (quebrada que foi a nossa tradição), torna-se de certa maneira obsoleto falar tanto da república pela república, ou, como fazem alguns, da república contra a monarquia, ou vice-versa, ao invés de plasmar um sonho, abordar a organização de um grande projecto, em suma, recuperar a alma do Povo, esse oxigénio vital para “respiração” de qualquer forma de governação.
Nestes últimos meses tem surgido um desarrazoado de situações que se tecem à volta do que de bom e de mau tem sido a república. Fica-nos a sensação de uma espécie de ser que nasceu com malformações tais que todos lhe pegam ao colo, mas ninguém a quer curar das maleitas.
Se é certo que A República de Platão, continua a ser o paradigma (ideal) do que ainda não foi atingido – de lá para cá, consideremos, se quisermos, as novidades da Revolução Francesa - e que pensar os antecedentes da república, o seu aparecimento e a sua existência em Portugal (que quase todos contam por 100 anos e outros por cento e tal!) nos pode conduzir a encontrar mais claramente o fio de Ariadne da nossa História, colocar frente a frente república/monarquia, militando ardorosamente na primeira, é como dizer que os homens e mulheres dos cinco continentes pertencem à espécie humana!
Ser republicano é pertencer à grande maioria, mas por assim ser é que, justificar isso, não é culturalmente razoável. Importa – sobretudo isto – não sufocar a beleza da diferença, que, na minoria, pode clarificar o que de bom e de mau há no chamado espírito de maioria.
A aparência de um céu nocturno, no mesmo local de observação e na mesma época do ano, povoado por uma imensidade de corpos luminosos, apresenta-se-nos de modo diverso se por ali passa um solitário cometa ou se dá outro fenómeno astronómico minoritário, mas, sucedendo, susceptível de proporcionar uma outra visão holística da abóbada celeste.
O que eu quero dizer é que muitos republicanos aprendiam mais sobre a república (ideal) se se debruçassem sobre os fundamentos da monarquia (não as modas) e neste caso teriam que ler, por exemplo, De Monarchia de Dante. Por outro lado, os monárquicos deveriam aprofundar o porquê de «o que está em cima é como o que está em baixo», não se verificando desde há muito nas sociedades modernas, levou ao ensombramento da figura do rei (que, apesar disso, ainda hoje na astrologia é figurada pelo sol) como representante divino na Terra para determinada nação e povo.
Esta oposição república/monarquia não é semelhante a uma outra (embora típica), a de direita/esquerda, nem pelo essencial nem pela discrepância da quantidade de prosélitos ser tão acentuada, sabendo nós a importância dos números e estatísticas para a política moderna, filha amada do positivismo e de todas as posteriores formas de materialismo. Perante a diferença de adeptos de um e outro regime, se à minoria monárquica pode fazer algum sentido afirmar e explicitar as suas convicções, desde que feitas na devida substância – até por razões de esclarecimento de uma larga camada do público que muito desconhece da monarquia - já aos republicanos (os jactantes) é caricato insistir na ideia na qual militam, a não ser para estudar melhor a já citada República de Platão, como medida para evitar, tanto quanto possível, eleitos ignorados por eleitores ignorantes.
Se assim não for, afirmar em 2010 a república pela república, ou contra a monarquia, seria ir dar ao tal exemplo: era uma vez um europeu, um africano, um asiático e ainda dois habitantes dos restantes continentes, que se encontraram para concluírem festivamente que pertencem à espécie humana!
O ditado popular «chover no molhado» podia sair à rua no 5 de Outubro, com a devida ressalva (ou não houvesse excepção para toda a regra) de que nem a chuva é toda a mesma (ácidas e menos ácidas) nem o chão é o mesmo. A chuva que caiu no 31 de Janeiro de 1891 não foi a dos pingos ácidos que se derramaram no 5 de Outubro. Nem este chão era já o mesmo.
Cabe aqui recordar uma publicação de António Cândido Franco, Panfleto contra Portugal, também na intenção de chamar a atenção que sobre este escrito de lúcido pensamento, rico conteúdo e estilisticamente escorrido, caiu um enorme esquecimento de mais de duas décadas (foi publicado em 1989), embora este que escreve já tenha ouvido e lido artigos nestes últimos anos, nos quais, lamentavelmente, frases quase ipsis verbis são ditas e escritas, não havendo referência quanto à fonte. Vamos então (re) ler Panfleto contra Portugal (não se interprete precipitadamente a expressão), Edições Arauto – Jorge Cabrita):
«Há dois níveis de afirmação da República, porque há realmente duas Repúblicas: a proclamada em 5 de Outubro de 1910 em Lisboa e a proclamada em 31 de Janeiro de 1891 no Porto. A primeira actuou no plano político, a segunda no plano cultural. Ela constitui, a meu ver, a única República pela qual vale a pena ainda hoje ser republicano.» (…) «É ela ainda que está na base de algumas declarações republicanas de Fernando Pessoa, ou ainda na actividade cívica de Agostinho da Silva. Só esta República, mais ideal do que real, mais individual do que colectiva, parece ter de facto contribuído para resolver alguns problemas colocados tanto pela dinastia dos Braganças, como pelo constitucionalismo liberal. A outra, a que ocupou em Lisboa o Terreiro do Paço, parece ter sido apenas uma caricatura nova dos problemas antigos».
É por demais conhecida a diferença nítida entre objectivo e ideal. Este foi banido há já muito do modo de vida das sociedades contemporâneas, dando lugar à epidemia dos objectivos actuais que fazem seres humanos infelizes (mesmo cumpridos os tais objectivos) levando até alguns à loucura e ao suicídio. Se acaso tivéssemos que aplicar as palavras objectivo e ideal à república de 5 de Outubro e à de 31 de Janeiro, ficariam bem na respectiva ordem.
É apenas nesta linha de pensamento do que aqui foi entrelaçado que a discussão da república portuguesa pode ter sentido. Alheada do ideal, fora do sentir português, esconjurando a alma do Povo pela inveja e ganância (hoje, plutocrata), mais desmoronando do que cumprindo Portugal, a república dos objectivos (seja a do orgulho só ou a dos cravos, cumpridos e florescidos uns e outros não) continuará à deriva, mesmo com a excelência dos objectivos em Expo (s) 98, de pontes Vasco da Gama e de TGVs.
Entretanto, à república ideal, os sucessivos governos, em raríssimas datas, vão cuidando dos ossários, guardados no canto da História. Para esta pobre e bela república não há verbas e muito menos fundações. Afundados foram já os seus heróis. Mas o Povo também diz que de vez em quando, nas encruzilhadas dos caminhos, «aparecem almas do outro mundo»!
Equinócio de Setembro de 2010.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

REENTRAR NA «CATEDRAL», 6


Lagoa

Isabel Xavier

A lagoa, parada, espelho de água
Reflectia no céu não sei que pensamento
A Natureza em redor escutava
Como que em prece e em recolhimento.

Quem me dera poder apreender
A suave transcendência do momento
Contento-me de a olhar e ver
Não sei ir além do sentimento.

Nas águas calmas contemplo algo que alguém
Antes de mim já viu talvez sem ver
E o seu sortilégio ali me tem
Cativa da Natureza a renascer.

E é nas águas da lagoa que descubro
Algo de mim que nelas já se espelha
Talvez a paz que há tanto em vão procuro
Ou a tranquilidade de me tornar mais velha.

Se ante o meu olhar se dispôs tanta beleza
Foi para que sentindo-a pudesse mais que vê-la
E devagar me chega esta certeza
De que as palavras me foram dadas p’ra dizê-la.

E é tanta a lucidez desse momento
Que me ocorre um pensamento:
Será esta a fronteira da vida
Ou tão-só o limiar da despedida?

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 97


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Crónica sétima da beira-mar
Eduardo Aroso

Na curva da estrada, quase sobre o que resta da muralha de Buarcos, junto à Capela da Senhora da Arribança, aí é que eles se sentam. Não querem a esplanada do café que fica a uma dúzia de metros. De um lado ou do outro, avista-se toda a extensa orla marítima, quase enseada, que vai até à Figueira da Foz. Nas pedras gastas, os pescadores ou o que resta deles naquelas figuras tisnadas de sol e maresia, sentam-se sem horário, mas quem estiver com atenção percebe que eles aparecem mais àquela hora em que as traineiras chegavam ao fim da tarde, rodeadas de círculos de gaivotas; bom augúrio!
Num dia destes, andando eu por ali, estava longe de assistir a uma tertúlia de numerologia, certamente sem intenção dos intervenientes. Era domingo; ouviu-se o sino da igreja de S. Pedro, que também não dista muito da muralha. Diz um dos pescadores:
- Nossa Senhora da Arribança me perdoe, mas da Santíssima Trindade nunca entendi nada!
- Isso só bispos é que desenredam - atalhou um outro.
- Será? Sabes companheiro, sempre ouvimos dizer que «três é conta que Deus fez».
- Pois sim; e quatro é a nossa cruz. A minha bem a sei. E também se não fossem os quatro pontos cardiais, a gente desnorteva no mar, no tempo em que não havia aparelhos...
Naquele grupo havia um pescador que pouco dizia. Era conhecido pelo «Água Morna», tal era a lentidão do seu falar e de todos os movimentos. O certo é que o homem quando se saía com alguma, logo se calavam os outros.
- Vocês não começaram do princípio: do um e do dois. Olhem que o problema do homem e da mulher (o dois) é que é o mais complicado; cá neste mundo, digo eu. Vejam as desgraças que andam por aí! Bom, mas indo pró mar, como é que a gente pode remar? Vá respondam-me!
- Ora como é que há-de ser! Com os dois braços, a estibordo e a bombordo.
- Mas assim é andar sempre cá e lá. E há gente que não passa disto.
- Vamos do dois para o três. O que eu quero dizer é que não basta remar à direita e à esquerda; é preciso remar para cima…

Setembro de 2010

domingo, 19 de setembro de 2010

A REPÚBLICA, 100 ANOS DEPOIS: SEXTO NÚMERO DA «NOVA ÁGUIA» SAI A 7 DE OUTUBRO

Efemérides. Subordinado ao tema A República, 100 anos depois, o sexto número da Nova Águia tem o seu primeiro lançamento marcado para 7 de Outubro, às 19:00, na Universidade Católica do Porto, onde Carlos Magno a apresentará. Cinco dias depois, a 12, e às 17:00, será a vez de o Palácio da Independência, em Lisboa, acolher a apresentação da revista, que estará a cargo de Pinharanda Gomes.
Para além do tema de capa, este novo número da Nova Águia assinala ainda quatro efemérides: o bicentenário do nascimento de Alexandre Herculano; o centenário do nascimento de Miguel Reale; o cinquentenário do falecimento de Jaime Cortesão; e o ano da morte de António Telmo, colaborador da revista desde o primeiro número, e que nos deixou no passado dia 21 de Agosto.

sábado, 18 de setembro de 2010

NO PRÓXIMO SÁBADO, ÀS 15:30, NA BIBLIOTECA MUNICIPAL DE ALCOCHETE

Colóquio. O centenário da proclamação da República oferece o pano de fundo ao colóquio que se vai realizar no próximo sábado, dia 25, pelas 15:30, na Biblioteca Municipal de Alcochete, e no qual serão oradores António Carlos Carvalho ("A Monarquia e o Rei") e Pedro Martins ("Teixeira de Pascoaes e a República"). A sessão, durante a qual serão apresentados Singularidades, segundo volume dos Cadernos de Filosofia Extravagante, e o quinto número da Nova Águia, sobre Os cem anos d'A Águia e a situação cultural de hoje, contará ainda com a presença de Renato Epifânio, director desta revista, e que também integra o círculo dos Cadernos.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

REENTRAR NA «CATEDRAL», 5

Jogo
Isabel Xavier

Amo tudo aquilo que se assemelha ao jogo
Como olhar que com olhar se cruza
Vencida distância que se consome em fogo
Chave de porta que não se abrindo, se usa.

Amo a distância que de ti me separa
E não me deixa em mim senão sonhar-te
Amo a saudade de um tempo que pára
À força de não te tendo, amar-te.

Amo a ausência de algo que me falta
Como se me fosse essa a razão da vida
Amo o momento que passando tarda
Como tardando na tarde a despedida.

Amo a impossibilidade, o sentimento
Que vagueia entre o ser e o existir
Lugar cativo que consome o tempo
Cansaço de tudo, vontade de partir.

Amo de um céu com nuvens a altura
Que a elas me impede de chegar
Medo constante, alegria pura
Ou só a certeza de o amor se amar.

HOMENAGEM A ANTÓNIO TELMO NA BIBLIOTECA NACIONAL: AS FOTOS

fotografias de Paula Viotti

Pedro Sinde

entre Miguel Real e Vasco Silva, da Babel

Renato Epifânio

Rodrigo Sobral Cunha


Pinharanda Gomes apresentando a obra O Portugal de António Telmo, perante uma plateia repleta