(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



quarta-feira, 25 de agosto de 2010

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 44

António Carlos Carvalho

Primeiro foi o meu Pai, que partiu a 14 de Junho.
Agora foi a vez do António Telmo, que nos deixou num Agosto verdadeiramente de fogo, de destruição, de mortes.
E o António Telmo foi o único Sábio que tive a oportunidade de conhecer -- na tradição judaica, que prezo e venero sem me ser dado a ela pertencer, o Sábio é mais importante do que o Pai. O ideal seria que Pai fosse também um Sábio, mas isso…
E agora, o que fazer deste duplo vazio?

Inevitavelmente, veio-me à memória esta resposta, em forma de história ou conto exemplar (como o António Telmo gostava de escrever) registado por Elie Wiesel ao falar da tradição dos Hassidim:
«Quando o grande rabi Israel Baal Shem-Tov via que uma desgraça se tramava contra o povo judeu, tinha por costume ir-se recolher num certo lugar da floresta; aí acendia uma fogueira, recitava uma certa oração e o milagre realizava-se, afastando a desgraça.
Mais tarde, quando o seu discípulo, o célebre Maguid de Mezeritsch tinha de intervir junto do céu pelas mesmas razões, dirigia-se ao mesmo lugar na floresta e dizia: Senhor do universo, presta atenção. Não sei como acender a fogueira, mas sou ainda capaz de recitar a oração. E o milagre realizava-se.
Mais tarde, o rabi Moshe-Leib de Sassov, para salvar o seu povo, ia também para a floresta e dizia: Não sei como acender a fogueira, não conheço a oração, mas consigo localizar o lugar e isso devia ser suficiente. E era suficiente e o milagre realizava-se.
Depois chegou a vez do rabi Israel de Rizsin afastar a ameaça. Sentado na sua cadeira, segurava a cabeça entre as mãos e falava assim a Deus: Sou incapaz de acender a fogueira, não conheço a oração, não posso sequer encontrar o lugar na floresta. Tudo o que sei fazer é contar esta história. Isso devia bastar. E bastava.»
(Comentário de Elie Wiesel: «Deus criou o homem porque gosta muito de histórias».)

EXTRAVAGÂNCIAS, 79




O Dia
Cynthia Guimarães Taveira

Despediram-se do amigo, tristes, entristecidos, com tristeza, tristemente e saíram tristonhos do cemitério. Um deles disse: -- Que a nossa amizade não acabe. E, já agora, a filosofia também não. Vamos beber um café e, depois, almoçar.
Assim fizeram aqueles amigos sob o sol escaldante, olhando para trás no caminho, em direcção ao cemitério que, estranhamente, e ainda ouvindo as palavras do amigo que deixavam, se transformava a pouco e pouco num lago sereníssimo. Águas refrescando o deserto do Alentejo.
Sentaram-se numa mesa que de tão comprida parecia medieval e, ainda trocavam as primeiras conversas quando, uma borboleta, chocantemente decidida, entrou pela sala e percorreu todos os lugares da mesa, e ainda aquele reservado para o amigo que tinha partido. “É a Psiquê“, ouviu-se. “Sim, é a Psiquê do nosso amigo“. E ela esvoaçava, interessada, curiosa, irrequieta, questionando as nossas fisionomias, os nossos gestos e o que estávamos a comer. A borboleta queria saber tudo e era o espírito de António Telmo. Até ao fim da refeição, lá esteve, acompanhando os seus amigos. Não os abandonando, não perdendo pitada do que acontecia. Recordaram-se as palavras de Nicolau Breyner: “No Alentejo tudo é possível”. Quando alguém morre o espírito do lugar vivifica-se.
Se nós soubéssemos pairar com uma ironia alegre sobre o mundo,
se nós soubéssemos voar e ver a terra toda com olhos de falcão,
se nós soubéssemos do lago que fica no coração do Alentejo,
se nós soubéssemos caçar a verdade por entre os arbustos da ilusão,
se nós soubéssemos da força dos toiros quando enfrentam o medo,
se nós soubéssemos dos mundos que deslizam sobre este,
se nós soubéssemos do diálogo com os anjos,
se nós soubéssemos rir do inevitável,
se nós soubéssemos reunir o aparentemente disperso,
se nós soubéssemos desenhar octógonos com a nossa própria vida,
se nós soubéssemos dar à luz as palavras vivendo dentro de outras,
se nós soubéssemos criar os nossos próprios mestres interiores,
então sim, seríamos dignos de alguma da Luz que brilhava em António Telmo. Tentemos pois, em sua honra, saber de todas estas coisas do céu e da terra.

EXTRAVAGÂNCIAS, 78


António Telmo
Eduardo Aroso

Alguém correu a cortina
E a cadeira ficou vaga.
Mantém-se o lugar sereno
Na viagem que não acaba.

Fica sempre o intervalo
No que a vida traz e leva.
Neste dia de Agosto
Na minha alma neva.

No talo húmido da morte
A flor foi o destino.
E voltamos à pergunta
Dos tempos de menino.

21-8-2010

terça-feira, 24 de agosto de 2010

ANTÓNIO TELMO, SEMPRE

TOMÉ NATANAEL

Leva nas mãos o arco
E às costas o violino
Grande como um barco.

A música é maior do que o menino.

Mas sem esforço ou cansaço
O leva pela estrada e o infinito
É à distância de um só seu passo
Descuidadamente finito.

A música não pesa
Nem o som que conduz
Por isso a estrada é um rasgo de luz.

António Telmo

terça-feira, 17 de agosto de 2010

UMA BREVE PAUSA...

...até ao próximo dia 24.

EM SETEMBRO....

clique na imagem para a ampliar

EXTRAVAGÂNCIAS, 77



Crónica segunda da beira-mar
Eduardo Aroso

Sabemos que existem os nadadores-salvadores, e mais acreditamos neles se, por desventura, nos encontramos numa situação súbita de perigo. Podem outros, por ali perto, tentar dar uma ajuda, quantas vezes abnegadamente, porém aquele que se vê aflito não pode deixar de pensar no moço de pele bronzeada, boné e camisa branca, apito pendurado à volta do pescoço. Se pensarmos um pouco, logo concluímos que a lembrança dolorosa (por necessidade) da sua existência é directamente proporcional ao perigo que nos cerca. Pode haver também uma situação em que o indivíduo em apuros não se lembre do nadador-salvador, mas este esteja mais atento do que possa imaginar o aflito. Acontece, por exemplo, com uma criança.
Mesmo num diálogo culturalmente contextualizado, se uma pessoa cair na insensatez de perguntar a alguém que esteja por ali ao sol, se acredita num salvador da pátria, num D. Sebastião ou noutra figura carismática, já sabe qual será a resposta: negativa, em vários cambiantes, desde a negação por anacronismo histórico até ao riso irreflectido, quando não brejeiro. De um modo geral, acredita-se que um acto eleitoral, com um cenário de outros candidatos (sempre os mesmos figurinos, vestidos de outro modo) e novos programas poderão mudar as coisas. Mas tanto os nadadores-salvadores, cuja missão é salvar quem está em apuros, como os políticos que são axiais no rumo de um país, todos dependem de uma dada situação marcada no relógio dos acontecimentos, feixe de convergências, algumas delas enigmáticas, para não dizer misteriosas. Fernando Pessoa traduziu superiormente esta verdade no verso «O homem e a hora são um só», e que paira muito acima do pensamento de Ortega y Gasset «o homem e a sua circunstância». A esta afirmação horizontal, contrapõe Pessoa a hora que não pode ser outra senão a do providencialismo histórico.
Não depende só do nadador-salvador a nobre missão de evitar que alguém morra afogado; a prova disso é que, apesar dos rapazes estarem atentos no seu posto de trabalho, alguns banhistas, infelizmente, sucumbem. O governante que muda ou contribui decisivamente para a mudança do curso dos acontecimentos do seu país, quer saiba ou não, tem a seu favor a hora. Melhor, é esta que o toma para o irreversível curso da História, regida pelas linhas de força ou ciclos planetários que, «para quem se der ao trabalho de verificar» podem ser lidos no céu.
Em Aljubarrota a hora era nossa; mas em Alcácer-Kibir deu-se o contrário. Não sabemos de que tipo será a próxima batalha – acaso podemos já estar na liça há muito – e se será necessário chamar por um nadador-salvador, ou se no caso da criança, seja qual for a desatenção e ignorância, um salvador vele no meio do perigo. É de acreditar que sim, pois não tem a criança a coroa do Espírito Santo?
14-8-2010

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

OS LUGARES, 6




Aljubarrota
Eduardo Aroso

Uma voz,
Ou o que fosse,
Clamava perto:
- Se ao mar seremos nós,
Ninguém poderá ferir
O Sonho
Ou esta terra dividir!

JAIME CORTESÃO, 50 ANOS DEPOIS, 8


Retrato de D. João I, de mestre desconhecido

“Ilude-se quem suponha que o Mestre de Avis jogou uma cartada loucamente temerária. A revolução de 1383 não foi o acto de uma classe ou dum partido, mas um movimento largamente nacional. A Grei tinha por demais entrado no caminho da diferenciação para não defender a sua fórmula económica e política. Simplesmente aqueles que encarnavam ou pressentiam melhor o conceito evolutivo da Nação, puseram mais ardor em defendê-lo.

(...)
“A revolução de 1383, nacional nas suas causas próximas e no objectivo directo, evitar a usurpação estrangeira, nacional ainda porque se apresenta em conjunto (e nisto vamos contra a opinião geral) como a obra da maioria da nação e não duma pequena parte; e o resultado da colaboração, ainda quem em proporções diferentes, de todas as classes, foi, pelas causas remotas, o predomínio das cidades entre os elementos decisivos, e as consequências, uma revolução social, caracteristicamente urbana e popular.
(...)
“Nacional como dissemos, no objectivo directo não deixa de sentir-se através dos eventos singulares o carácter nitidamente popular da revolução e como consequência, de começo, certo ambiente anti-clerical, hostilidade que se estende até aos nobres e até por vezes aos burgueses. Popular, foi ainda urbana; assinalou-se não só nas grandes cidades marítimas como nos centros urbanos em geral, e, se província houve que se notabilizasse no alevante, foi o Alentejo, onde desde longa data, como vimos, o tipo de aglomeração urbana dominava.
“A revolução de 1383 molda-se sobre as virtualidades do território e os factos correspondentes da distribuição e aglomeração dos habitantes que de princípio assinalámos; e reflecte exactamente o estado da evolução das classes sociais, como até aqui o definimos. É ao longo de todas as grandes estradas terrestres, fluviais e marítimas, bordadas de centro urbanos, onde se atingira ou excedera o mínimo de densidade política, que brota e se afirma essa aspiração da pátria nova. Os laços de solidariedade económica e social que uns aos outros prendiam os núcleos de habitantes, tinham começado a atar-se desde longa data, e abraçavam agora quase toda a população do Reino. Todas as classes, ainda que em diferente grau, estavam interessadas no género de vida nacional. No povo, ainda o mais humilde, havia-se formado a consciência de um agregado à parte; mas a burguesia só no Porto, onde mercê das condições particulares de formação atingira uma forte diferenciação social, iguala a arraia-miúda em generoso arranque. O clero, mais culto e inteligente que a nobreza, soube às primeiras horas tirar o horóscopo dos Tempos, e acomodou-se a eles. E a nobreza militar, forte apoio de Castela e guiada por um realismo brutal, confiou mais no poder das armas que na ideia generosa da independência. Só a geração nova, mais compreensiva, encarnou com idealismo aquela aspiração, e formou ao lado dos letrados e legistas – consciência política do Estado, a forte élite dirigente.
“De golpe [na sequência das Cortes de Coimbra de 1385], no Conselho do rei ficavam dominando os cidadãos e os letrados. Na mesma reunião reclamam os concelhos igualmente que as Cortes sejam convocadas todos os anos, o que até o reinado de D. João II se realiza com certa regularidade. Alegam que «recebem mal e dano dos poderosos e de seus oficiais», e entendem que o Reino tem necessidade de se reformar em direito e em justiça. Desde então e durante um século, ouvir-se-ão em Cortes os procuradores dos concelhos insistir, por vezes em termos desabridos e altaneiros, pelas medidas que realizem aquela ideia de Reforma. Apoiado por estas reclamações unânimes e constantes, o rei, rodeado de legistas, que dão expressão jurídica a essas aspirações, começa a grande obra de unificação social, cerceando passo a passo privilégios do clero e da nobreza e sujeitando-os aos ditames da lei comum.”
Jaime Cortesão
in Os Factores Democráticos na Formação de Portugal, pp. 132-153.

EXTRAVAGÂNCIAS, 76



Morreu um artista
Cynthia Guimarães Taveira

Morreu um artista chamado Figueiredo Sobral e, por momentos, os pássaros calaram-se ao vê-lo passar em direcção a um céu mais alto.
Lembro-me do nosso primeiro encontro. Menina e moça, aí com uns catorze anos, estava sozinha em casa. Tocaram à porta e espreitei pelo óculo da porta. Um senhor de barbas do outro lado. Chamo-me Figueiredo Sobral e procuro a senhora sua mãe. Deixei-o entrar. Sentou-se na sala e começámos a conversar. Parecia que nos conhecíamos desde sempre e falámos de arte, de pintura, de desenho. Mostrei-lhe os meus desenhos e as lágrimas começaram a rolar pela cara do velho mestre. Ele chorava com o belo, exactamente como, meses mais tarde, me aconteceria ao ver uma exposição dele onde meninas-anjos fundidas em metais tornados etéreos pairavam na galeria.
A minha mãe entrou em casa e o mistério estava desvendado, conhecera uma tia minha por quem tinha tido um fraquinho ainda novo e procurava-a pesquisando os nomes que com ela estavam relacionados, foi assim que fora ter a minha casa. Descobri-o sem sair do lugar, como disse Agostinho da Silva dos africanos que, afinal nos descobriram a nós sem navegar. Não me livrei do raspanete da mãe: “Então eu não te disse para não deixares entrar ninguém em casa a não ser o Paul Newman ou o Robert Redford?”. Para quê, perguntava-me eu mais tarde, se aqueles dois eram estrelas distantes, filmados em películas longínquas americanas, enquanto que o perfeito desconhecido que entrara lá em casa era um Mestre?
O Mestre que sem palavras ia ensinando, e falava nessa não voz do equilíbrio, da beleza, da essência da arte que só fazia sentido quando era uma mistura diluída entre o trabalho e a extrema sensibilidade. Sim, um Mestre à moda antiga, absolutamente honesto, transparente na sua relação com as formas e com as cores. As nossas almas coincidiam quando dizia ser um “surrealista barroco”, como se essa fosse a única saída do surrealismo que todos aprisionou em Salvador Dali. Escapar pelas voltas, pelas curvas, sair do sonho, e ainda nele tocar a terra. Um Mestre raro nos nossos dias, humilde e estranhando cada vez mais a loucura progressiva do planeta. Na obra de Figueiredo Sobral tudo retorna ao essencial. Não são necessários formatos gigantes para impressionar. Às vezes basta um quadro pequenino mas com uma intensidade que dura por vidas… Não são necessários novos materiais, panelas, lixo, tachos, corpos humanos, sangue, animais mortos, para se ser genuíno. Basta um pastel seco, um pau de giz, um lápis e eis a dança a começar no papel… não é necessário o marchand, o marketing, basta saber ver e ser absolutamente honesto nessa leitura que se tem da visão… não é necessário ter de sofrer uma iniciação teórica à arte contemporânea, altamente perniciosa ao gosto, para se gostar simplesmente do que se vê, sem discursos caros, elaborados, e filosofias de trazer por casa que justificam uma arte que se diz arte mas que é inqualificável. Não é necessária uma galeria com cocktails e investimentos, bastava a minha sala para que o entendimento genuíno acontecesse. Nesse momento a minha sala era um templo.
O Mestre ensinou a simplicidade, a humildade, a honestidade, a sensibilidade (matérias-primas da arte). A quem se sente artista, que comece agora pelo lápis e desenhe. Que se esqueçam as filosofias e que se revele a verdade do traço. Para que o lixo tenha fim e a palavra do Mestre não tenha sido em vão.
Obrigada, Figueiredo Sobral.

domingo, 15 de agosto de 2010

OS LUGARES, 5

Campos da Idanha
Eduardo Aroso

Talvez que outrora
O eterno fogo do centro
Viesse criar
O chão que há agora.

Aqui a terra
Ainda não acabou a dança…
Um sortilégio próprio
Se morre, logo principia
Nesta força-solidão,
Na graça duma romaria.

Aceso é o rito e milenário;
E todo o momento nos faz crer
Que vai surgir um deus
Mais do chão que do céu,
Em si mesmo oculto e voluntário.

EXTRAVAGÂNCIAS, 75



Crónica primeira da beira-mar
Eduardo Aroso

Maré é o mar que é. Em Portugal parece não haver marés, ou seja, o mar parece ser impedido de nos servir, quer no plano físico quer no domínio mítico. Quanto aos pescadores e ao que é pescado, estamos informados: mandam os “grão-capitães” de Bruxelas. Saibam ou não nadar, conheçam ou não uma caravela, distingam ou não a proa da popa de um paquete. «Nós por cá», como diz a simpática apresentadora da televisão, ora fazemos jus directamente ao que o oceano dá, ora lançamos mão dos enlatados que vêm de longe, talvez pela sedução de viajar… Quanto ao mar mítico, mudemos um pouco – sem nunca perder a seriedade – o tom e o compasso. Troquemos então a valsa dos salões europeus pelo fado e o Fado – nossos, claro está.
Um restaurante, numa encruzilhada (nem só nestes cruzamentos aparece o diabo, pois também algumas belezas por cá passam…) aqui da praia abriu as portas ao público há relativamente pouco tempo. Novo e diferente para, na companhia da maresia, puxar pelo apetite, decorado com um leve toque de exotismo. Entra a gente e dá logo de caras – quem diria – com o poema de Pessoa «Ó mar salgado…», em letras bem esculpidas sobre uma cor avermelhada que lembra o pôr-do-sol. Sim, mas pouco tempo passado, quem diria, no meio da profusão do turismo, mesmo com a designação cultural!, há (alguns) quem tenha ficado boquiaberto. As belas estrofes do poema de Mensagem desapareceram de repente! Oh, paradoxo dos nossos fados! Ele há coisas! Aquilo talvez fosse já o prenúncio de uma norma legal dada a conhecer ontem ao público. Portugal é o primeiro país do mundo ocidental a impor restrições à quantidade de sal no fabrico do pão. Uma solução com um duplo alcance: para a saúde está bem de ver, merece aplausos. Mas, juntando e considerando estas coincidências no país do paradoxo, somos levados a considerar esta medida como genial, de grande eficácia, quer no domínio da saúde quer no plano mítico. Assim, observando atitudes premonitórias como esta da nossa sociedade, parecendo antever resoluções políticas, percebemos imediatamente este rasgo cultural. Será que tem o dedo da actual ministra da cultura? De vez em quando é necessário remexer no plano mítico e histórico e impor limites ao nosso mar salgado. Ou seja, cuidado com esse sal! Os livros escolares já começaram a retirar esse elemento, substituindo-o por outros. O fabrico desses sais (as actuais salineiras) está agora sediado em muitas fundações filantrópicas e culturais do nosso país.
Figueira da Foz, 12-8-2010

sábado, 14 de agosto de 2010

OS POETAS LUSÍADAS, 36

No cinquentenário da morte de Jaime Cortesão



CANTO DE AMOR NO MAR

A tarde é o teu berço de criança.
A dar-te rendas fez-se o mar de espuma
E o Céu, como um docel, tecido a bruma,
Prende-se em cima ao Arco da Aliança.

Vê com que jeito o vento te balança
E d'aragens salinas te perfuma;
Conta-me agora as mágoas uma a uma,
Como se eu fora tua Mãe, descansa...

Não vês?... o nosso barco mal balouça:
Deita-te e vamos para o largo à vela,
Onde ninguém nos veja, nem nos ouça.

Conta as mágoas na mágoa da Tardinha.
Oh! Mar, arrenda a espuma, tem cautela...
Óh! Vento, embala-me esta criancinha!...

Jaime Cortesão

JAIME CORTESÃO, 50 ANOS DEPOIS, 7

Lisboa numa iluminura: clique na imagem para a ampliar

"Certos historiadores, na esteira de Oliveira Martins, representam a formação de Portugal como obedecendo a impulsos individuais e exteriores, obra de príncipes estrangeiros e dalguns barões indígenas, auxiliados ainda e sempre por estrangeiros nos lances mais difíceis. Como se vê, desde já, a formação da nacionalidade obedece a um processo bem mais orgânico e natural, em que as massas, o povo na sua totalidade de classes, religiões e raças – mescla de cristãos estremes, de Moçárabes, de Mouros e Judeus, falando todos um dialecto semelhante –, desempenha o principal papel. É da sua lenta apropriação do território por um processo secular e ininterrupto, da sua longa evolução económica até atingir o género de vida definitivo e a sua consciência de agregado á parte, que vai sair a Nação na sua feição original e suprema de povo de navegadores, que iniciou a Europa no comércio transoceânico.
“Nessa profunda renovação económica, que se realiza em território português nos séculos XII e XIII, filiamos também os progressos sociais e políticos mais notáveis das classes populares, a sua comparticipação nos benefícios da civilização material, o desaparecimento da servidão pessoal e o seu acesso às diferentes formas de autonomia local e da soberania colectiva. Uma das mais notáveis consequências dessa renovação foi um súbito recrudescimento do urbanismo e o aparecimento geral de classes novas. Ao longo das estradas de comércio, e principalmente das fluviais e da grande estrada de navegação atlântica, ou se formaram aglomerações inteiramente novas ou as antigas ganharam actividade e carácter urbano. (…) E basta lançar os olhos sobre a carta de Portugal para nos convencermos de que o maior número de centros urbanos procedem directa ou indirectamente da actividade marítima. O grande sopro de vida ou de renovação veio-lhe do mar.
“Ora foi nos centros urbanos da Idade Média que se diferenciaram as classes novas, a burguesia e os mesteres, as quais, tendo atingido rapidamente a prosperidade económica, em breve se esforçaram por alargar essas vantagens de facto, transformando-as numa situação de direito.
(...)
“Por toda a parte a burguesia e os mesteres começaram por exigir a liberdade pessoal que lhes permitisse exercer o modo de vida que entendessem e mover-se a seu talante. Com a liberdade dos indivíduos reclamaram a do solo. A terra, nas aglomerações urbanas, tinha que deixar de ser um bem imóvel e entrar em livre alienação. Outra das aspirações das novas classes foi anular os serviços e direitos fiscais dos senhores que entravavam o exercício do comércio ou das indústrias. Mais rudemente ainda se empenharam por eliminar a jurisdição do senhor, instituindo a jurisdição municipal, exercida por magistrados electivos. Finalmente a comuna exigiu a autonomia administrativa, que passou a exercer-se por intermédio dum concelho (concilium), donde o nome que em Portugal às comunas se aplicou. (…) Algumas dessas cidades conquistaram ainda outras regalias tão importantes que se elevaram a democracias urbanas, pequenos Estados, ou independentes de todo ou dotados duma certa independência dentro do Estado, como, entre nós, aconteceu com o Porto.
(...)
“A história nacional, durante os primeiros séculos, toma até, como observa Beazley, o aspecto duma aliança entre a coroa e as cidades, na luta contra as classes privilegiadas e especialmente o clero.”

Jaime Cortesão
in Os Factores Democráticos na Formação de Portugal, pp. 93-98.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

OS LUGARES, 4


Filhos da Atlântida
Eduardo Aroso

Quis ficar submersa,
Conservando
O escafandro natural
- Terra de mil flores,
Ilhas
Dos Açores,
Mistério por fora,
Sempre maravilha!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

JAIME CORTESÃO, 50 ANOS DEPOIS, 6

Luís de Camões, desenho de William Blake

“Se, pela forma, Os Lusíadas se prendem ao Renascimento greco-romano, pela substância, significado e alcance anunciam os Tempos Modernos. A mensagem de Camões é a dum novo humanismo.
(…)
“Que importa que o grave Vice-Rei [D. João de Castro] amasse os panejamentos majestosos da túnica dos cônsules, se, possuído pelo amor da Terra e da experiência, ele descobriu alguns dos segredos da Natureza, cuja revelação marca época na história das ciências?
(…)
“O Adamastor, por mais estranho que pareça, procede do amor camoniano da Mulher e da Natureza. Foi pelo amor da Mulher que o poeta chegou à humanização da Natureza e à materialização do homem.
“Sente-se esse Camões, apto em alto grau para distinguir do eu sublime o sósia dos instintos, no seu Anfitrião, de sabor tão moderno, que, embora imitado em Plauto, se repete em Molière e acaba de renovar-se em Giraudoux.
“Sem o Camões filosofante, melhor diremos, místico, pois sobe do amor humano ao divino, pelo sofrimento, a renúncia e o êxtase, não teríamos as redondilhas sublimes Sobolos rios e, por forma geral, a parte transcendente da Lírica, em que o amor se debate no anseio da eternidade. Sem o Camões sensual e plástico, dotado de maravilhosos sentidos, que hiperagudamente vê, ouve e tacteia as coisas e a vida, não teríamos criações como a Vénus do Canto II, a orgia voluptuosa da Ilha dos Amores, ou a parte da Lírica, em especial as Redondilhas, em que o poeta perde as asas e tange, com graciosa malícia, a siringe do fauno. E, ora o Poeta, pela sua inata e vigorosa capacidade de abstracção, isola o eu sublime e atinge as expressões transcendentes do neoplatonismo cristão; ora isola o eu bruto e atormentado de apetites, o sátiro latente, e, servido pelo génio plástico, molda no barro crespo da língua latinizada, o gigante Adamastor, criatura feita de terra e tempestade.
(…)
“O platonismo foi, sim, em Camões um processo de elaboração e clarificação do pensamento para atingir um tema e uma expressão nova: o desdobramento da sua violenta e rica personalidade. A nosso ver, nesse desdobramento do eu e no drama entre os dois seres se esconde o segredo duma parte da Lírica, génese, por sua vez, do mito do Adamastor. O Sátiro-Anjo «cada um com seu contrário em um sujeito», que se debatia na consciência do poeta, ora se erguia no puro voo platónico das redondilhas Sobolos rios, para Deus; ora, e mais vezes, corria, num delírio de fogo e desespero, pelas selvas da Ilha dos Amores, atrás duma ninfa inatingível. Foi esse tormento dum desejo de amor, longamente malogrado, que fez de Camões, como ele próprio confessa, um Tântalo, multiplicado por Sísifo. A essa terrível e prolongada situação dum alto amor, divino e humano, contente por divino, mas malogrado e ofendido no humano, corresponde a experiência da materialização do eu amante e do ser amado, sobre os quais chora com desespero o duplo divino.
“A experiência mística embora nele de essência poética, pois o êxtase e a revelação divina se confundiram com a inspiração, deve ter sazonado o espírito de Camões, como sazonou o de Fernão Mendes Pinto, para a transformação da ideia em símbolo.
“Naquele momento sublime em que a pequena armada dobra o cabo e se estabelece o diálogo entre o Gama e o Gigante, uma era, a era estreita da humanidade fragmentária, é superada pelo Herói, ou melhor, os heróis, os Lusíadas. Dum humanismo, ou dos humanismos, fechados sobre si mesmos e que se alimentam do passado, os heróis passam a um novo humanismo, universalista e unitário, perenemente renovado pela acção, a liberdade e o amor. Acção descobridora de mundos terrestres e humanos que é amor do conhecimento; acção livremente aceita na plena consciência e liberdade de juízo; amor, continuamente ligado à acção e que leva à compreensão do Universo e a Deus. Mas acção, liberdade e amor completam-se. Cada um é o caminho do outro.
“O génio do poeta transpôs, à luz do platonismo, para a história da Humanidade a experiência da sua própria história; arrancou das entranhas quer o gigante, quer o herói que o interpela; e superou o eu sensível e bruto, que transformou no Passado, pelo eu-razão divina, que alevanta com intuição profética à visão do Futuro. Mas é o Camões lusíada que, no rasto dos lusíadas, recolhe, pelo desdobramento do eu e a sua partilha no tempo, o eco do diálogo entre as duas eras.
(…)
“Tentar explicar exclusivamente Camões por Platão seria desconhecer a rica e diversa personalidade do Poeta, as raízes que o prendem à terra e à gente natal, a vivência que o levou a superar o platonismo, pela sua experiência aristotélica, e a partir da Lírica para a Épica. Platão teve uma compreensão demasiadamente intelectualista da vida. Camões, esse, criou com a totalidade do ser, com todas as virtudes da carne e da alma.
“Ao filósofo grego «falta com frequência, diz Fouillée, o sentido da vida e da natureza, da vontade que é o fundo da própria vida e da própria natureza». Aqui está, a nosso ver, o que distingue essencialmente Camões de Platão. Camões tinha a intuição profunda da importância da vontade, diria Fouillée, mas nós preferimos dizer da liberdade criadora do homem, pela afirmação da vontade, verdadeira base da Epopeia. Neste aspecto, ele deu por seus pés o passo que vai de Platão a Aristóteles.
(…)
“Ao contrário de Platão, Camões, poeta da natureza, criou a poesia do Oceano; e o seu humanismo, a que chamamos de acção, de liberdade e de amor, faz do esforço generoso a condição da dignidade; de Amor o prémio do heroísmo, o fim da liberdade, a lei e o padrão supremo da Humanidade e da Natureza. Para Camões, com tão fundas raízes medievais, o Bem encarna numa galeria de individualidades heróicas, bem reais, amorosos Amadises, capazes das mais altas idealizações, mas solidamente arraigadas à terra.
(…)
“No fundo, o descobridor molda-se pelo ideal da Cavalaria andante. Tornou-se um cavaleiro do mar. Pela boca do Adamastor rugem ou vociferam os dragões e gigantes que atalhavam o passo aos Amadises. Apenas o ideal dos novos cavaleiros se alargou. A Natureza é também um caminho para chegar a Deus. O herói pressente no fundo de sua ávida inquietação:
Que são grandes as cousas excelentes
Que o mundo encobre aos homens imprudentes.
Jaime Cortesão
in O Humanismo Universalista dos Portugueses, pp. 224-243.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

OS LUGARES, 3


O Norte

Eduardo Aroso

O Norte
É um rio que corre
Em todos os sentidos,
Sem um leito ou nascente
Definidos,
E só mesmo em Portugal
Desagua todo inteiro…
Caudal berço de luz
Distância quase de cristal.

O Norte é o granito
Tão forte como a certeza
De ser ordem ou grito
Se a liberdade é incerteza.
Assim é que a melhor sorte,
Se o caminho nos confunde,
É nunca perder o norte!

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O CAMINHO DO CAMINHO, 14

Cynthia Guimarães Taveira

Os Extravagantes

“No período da Idade do Ouro, o Homem, renovado, ignora qualquer religião. Rende, apenas, graças ao Criador, de que o Sol, a sua mais sublime criação, lhe parece reflectir a imagem ardente, luminosa e benfazeja. (…) No seio do brilho do astro, sob o céu puro duma terra rejuvenescida, o Homem admira as obras divinas, sem manifestações exteriores, sem ritos e sem véus.”

Fulcanelli, in “Mansões Filosofais”

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Os extravagantes eram um grupo estranho à monotonia histérica da contemporaneidade. Quando estava com eles nunca os via como verdadeiramente apareciam no seu aspecto físico. Não usavam calças de ganga, nem t-shirt´s, nem casacos comprados em multinacionais. Via-os sempre pelo lado de dentro e, se os tivesse que vestir mentalmente, vesti-los-ia com algodões leves, brocados alguns, outros de turbante, elas flutuantes em roupas esvoaçantes, filigranas de ouro, indícios de plumas, algo de leve e belo, assim quase etéreos, assim juntos a conviver no “avarandado do amanhecer“, para usar uma expressão de Caetano Veloso.
Os extravagantes, para quem os visse à superfície, pareciam nunca estar de acordo, e quem os visse, assim nessa distância superficial, nunca poderia estar de acordo com eles. As suas conversas pareciam sofrer de o duplo abismo: discordantes até à totalidade, e concordantes até à supra totalidade. Tinham um estranho olhar, um olhar avaliador sem crítica. Quando dois olhares se cruzavam, havia neles a tentativa recíproca de chegar ao fundo da alma. Eram olhares arqueológicos, escavadores e, no fim, sorridentes das contradições em que viviam. Sorriam acima da contradição, e era esse estranho sorriso, como aquele dos anjos da Catedral de Chartres, que prevalecia.
Por vezes havia crispações e, nessas alturas, o coração pulsava mais sério. As coisas eram levadas a sério… havia uma seriedade no facto de se saber que se vivia entre dois ou mais planos. Nenhum deles era indiferente às estrelas. Elas sobrepunham-se no seu caminho, interiores ou exteriores e nos momentos de contemplação, interiores e exteriores. As estrelas que brilhavam neles…
Os extravagantes eram uma causa muito improvável e um efeito ainda mais improvável. Assim como a gota de chuva caída num dia de sol. Sabiam-se todos profanos na medida em que tinham a consciência de gravitar em torno da Idade do Ouro, não podendo, no entanto, ainda pertencer totalmente a ela. Essa Idade não constava no tempo desenrolado. Estava à parte do tempo e vivia lado a lado com ele.
Quando se encontravam, não eram apenas seres que se encontravam. Normalmente traziam livros, ao milhares, memórias infinitas, construídas a partir de viagens e sensações, pensamentos difusos perdidos algures numa contemplação mais aguda, intuições várias de outros mundos, certezas da existência de um espírito que planava como uma águia acima das suas cabeças. Num palácio visível não caberia tudo o que traziam para esses encontros, teria de ser um palácio extensível como o espírito.
Havia excentricidades neles, mas a maior, nestes tempos modernos, era o gosto pela originalidade, o que lhes permitia serem extremamente flexíveis no abraço que poderiam dar àquilo que lhes era absolutamente estranho. Tendiam a ser religiosos no sentido em que permitiam a entrada do Totalmente Outro nas suas conversas, nos seus corações e, enfim, no seu Espírito, que assim se enriquecia e se tornava ainda mais leve.
Encaravam o laço do tempo como uma inevitabilidade da sua condição humana mas não lhe prestavam grande atenção. Por isso nunca estavam na moda e conseguiam ser sempre extravagantes com um lado deles fora do tempo.
As conversas podiam ser até fúteis mas a voz, nessas conversas, fazia mais companhia do que nas outras do dia a dia. Conseguia adivinhar-se o calor da voz vindo directamente do coração, fogueiras que se aqueciam umas às outras. Havia neles uma voz poética que parecia atravessar todo o tempo quando estavam juntos no avarandado do amanhecer.
Era um estranho grupo indiferente às leis da física e absolutamente sensível à paisagem. Eram amigos e neles algo amanhecia em permanência muito para além dos conflitos do mundo. Envolvendo-os a todos, em jeito de céu, estava Portugal. O seu sublime mistério e o seu segredo mais bem guardado.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

JAIME CORTESÃO, 50 ANOS DEPOIS, 5

“Se dissermos que esta carta [Enformação… acerca dos costumes e leys da China, de Fernão Mendes Pinto], ainda que resumida, foi, no ano seguinte, traduzida em Espanhol e publicada na Europa, podemos acrescentar que aí se contém, nos seus traços essenciais, o primeiro retrato do chinês supercivilizado, que corre o mundo ocidental. Observa-se ainda que os caracteres do chinês são quase todos tacitamente definidos por contraste. E a China surge na Informação, através das suas leis e costumes, como uma sociedade avançada e liberal, em que só o mérito das letras ou o exercício isento da justiça conduzem à alta burocracia; e a religião se reduz a um sentimento do foro íntimo, puro acto da consciência, que não se impõe ao próximo. Está aqui em germe o chinês, mais plasticamente expresso na Peregrinação. Mais do que isso, estão quase todos os traços do humanismo chinês, que mais tarde tanto impressionaram Leibnitz, Voltaire e Montesquieu.
“Que esta elaboração é essencialmente crítica e de formação heterodoxa, temos a prova numa carta, um pouco posterior, de Fernão Mendes.”
(...)
“Este pensamento, tão firmemente enunciado, de que o chinês, possuidor duma cultura e duma ética superior à do Ocidente, era irredutível ao cristianismo, representa um conceito heterodoxo no mais alto grau, contém o germe do deísmo, e é desde logo uma das mais arrojadas expressões do humanismo universalista, atingida por um português.
“Quase dois séculos depois, em 1745, Montesquieu chegava por processo idêntico à mesma conclusão em De L’Esprit des Lois”.
(...)
“É costume atribuir a Montaigne a prioridade, como precursor do relativismo do século XVIII. Afirma-se igualmente que o racionalismo do século XVII, os fundamentos científicos do método experimental, toda a teoria do «bom selvagem» e o mesmo sonho exótico, encontram elevada, quando não a primeira expressão, nos Essais. Como é sabido, esta obra, cujos dois primeiros livros se imprimiram em 1580, e o terceiro em 1588, só apareceu completa em 1595. Fernão Mendes morreu em 1583, mas nada leva a crer que tivesse conhecimento dos primeiros Essais de Montaigne, pois a sua obra é fruto de elaboração de experiências pessoais e não alheias; tem origem, como mostrámos, pelo menos na carta de 1554, dirigida aos Padres da Companhia, e na Informação de 1555; e obedece a um processo literário inteiramente diverso.
“Acrescentemos que no terceiro livro dos Essais, esse posterior, sem dúvida, à morte de Mendes Pinto, já Montaigne canta a excelência e superioridade da cultura chinesa sobre a francesa. Mas é curioso observar-se que nesse trecho nada se contém que não esteja na Informação sobre os costumes e leis da China, escrita por Fernão Mendes Pinto em 1554, traduzida em espanhol e publicada na Europa no ano seguinte.
Jaime Cortesão
in O Humanismo Universalista dos Portugueses, pp. 140-148.

domingo, 8 de agosto de 2010

OS LUGARES, 2



Nova Cartografia
Eduardo Aroso

Ultimam-se as cartas
Com referências a paragens
Nunca suspeitadas.
Agora é desfraldar a vela,
Ser o aqui e o além
A não perder de vista;
Cá dentro há longas costas,
Cadinho para alquimistas
Celebrarem sínteses de etnias.
Completa é a última carta
- Onde quer que viajemos
No pensamento ou na acção
Deixaremos sempre
O nosso padrão.

E ai de quem volte atrás,
De quem troque o Sonho pelo pesadelo
E queira ter o amargo gosto
De saber se a máscara do Velho do Restelo
Ainda serve ao nosso rosto!

sábado, 7 de agosto de 2010

JAIME CORTESÃO, 50 ANOS DEPOIS, 4

clique na imagem para a ampliar
“Num pequeno estudo, que recentemente publicámos sobre O Problema das Relações entre a Geografia e a Autonomia Política de Portugal, fizemos notar que os dois caracteres da geografia portuguesa, que mais prepararam a sua diferenciação política na Península, são aquilo a que chamamos o contacto cruciforme entre os seus diversos elementos geográficos e a convergência atlântica dos seus caracteres. Seja-nos lícito transcrever desse estudo as palavras que se lhes referem:
“«I – Assente no flanco ocidental da meseta, numa longa vertente preenchida pelas planícies de aluvião, considerado em conjunto e grosso modo, o território de Portugal realiza um contacto cruciforme entre uma série de elementos geográficos diversos: de oeste a leste, entre o mar e a planície, e entre esta e as diversas formações do seu relevo bem como do da Península; de norte a sul, entre a região de aquém do Tejo, de forte altimetria e abundante pluviosidade e irrigação, e as planícies e pleniplanícies adustas de além do Tejo. Na realidade o contacto é mais complexo e dá-se de norte a sul e de oeste a leste, entre uma diversidade riquíssima de elementos, formando uma espécie de mosaico de terrenos geológicos, de regiãos e paisagens, em contraste com a maciça uniformidade dos planaltos interiores da Península.
«II – Este contacto de elementos vários por outra forma se enriquece e, por assim dizer, ganha sentido: no seu conjunto os caracteres da constituição geográfica de Portugal unem-se naquilo a que chamaremos uma convergência atlântica:
«a) A posição geográfica de Portugal tornava os seus portos, além de estações forçadas da via marítima, que une o Sul e o Norte da Europa, as melhores escalas de comércio e navegação deste continente para a África, a América Central e Meridional e a Ásia;
«b) O território português forma uma longa faixa rectangular no sentido da fronteira atlântica, facilitando o contacto duma grande variedade de terrenos com o oceano;
«c) No seu conspecto orográfico essa longa faixa rectangular forma um anfiteatro irregular, voltado para o Atlântico, situação privilegiada de exposição que explica o seu clima temperado e marítimo e a sua riqueza fluvial. Ajustando-se a esta faixa anfiteátrica, os rios do Norte de Portugal, como o Vouga e o Mondego, descem do N.E. para S.O., e os do Sul, como o Sado e o Mira, de S.E. para N.O., dispondo-se n conjunto como as varetas de um leque a que tivessem partido as extremidades convergentes;
«d) Não só por este motivo o território português é extremamente rico de rios que nascem do seu solo; como o pendor ocidental da meseta faz que quatro dos maiores rios da Ibéria venham desaguar nas suas costas, uns e outros fertilizando o solo, abrindo portos e auxiliando a fixação humana na beira-mar;
«e) Uma grande estrada geográfica, próxima e paralela à estrada marítima, estabelece comunicação fácil entre o Norte e o Sul do País, permitindo um estreito contacto entre as populações costeiras;
«f) Finalmente o litoral era durante a Idade Média muito mais articulado: mais vastos e fundos, os estuários permitiam que o mar penetrasse até longe no interior das terras; e a costa desdobrava-se num maior número de abras e portos naturais, favorecendo uns e outros o aumento de população interessada no trabalho e no comércio marítimo.»”
Jaime Cortesão
in Os Factores Democráticos na Formação de Portugal, pp. 20-22.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

OS LUGARES, 1



A Quinta Nau
Eduardo Aroso

Partiu sem ninguém dar por isso,
Na fria madrugada do silêncio.
Leva gente diversa: família real,
Republicanos, liberais, anarquistas
E o povo simples de Portugal.

Vai na rota de várias dimensões
A regressar um dia ao cais de sempre,
Ao nível de água feito de espirais,
Junto à terra de todos os continentes
No vento suave de sopro universal.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

JAIME CORTESÃO, 50 ANOS DEPOIS, 3


“Breve, uma outra corrente espiritual, esta de ordem religiosa, mais vasta e penetrante, veio completar, transcender, exaltar o ideal de Cavalaria, acentuando-lhe as tendências democráticas e voltando-se para a Natureza, como manifestação de Deus.
“Antes do advento de S. Francisco de Assis, o catolicismo não facilitava o conhecimento e a posse da Terra pelo homem. Cristo imobilizava-se na Cruz. O ideal místico era o refúgio, a contemplação, a partilha do Calvário pelo crente.
(...)
"[Com o franciscanismo] Cristo ia baixar da Cruz para de novo percorrer o mundo.

(...)

“O estabelecimento das Ordens mendicantes – a dos Franciscanos, fundada (1209) por um italiano de educação francesa, S. Francisco de Assis, e a dos Dominicanos, fundada (1215) por um espanhol, S. Domingos – marca data primacialíssima, não só na História da Igreja, mas da Humanidade. Formadas num ambiente de protesto espiritual e popular, provocado pela indisciplina, a violência e a soltura dos costumes que então lavrava no clero e nas Ordens monásticas, propunham-se as duas Ordens novas reformar a vida religiosa pelo voto da pobreza e o contacto directo com o povo. Mas os dominicanos, como genuínos representantes da ortodoxia espanhola, ainda que obedecendo a uma regra semelhante, tornaram-se desde logo os defensores ardentes do princípio da autoridade, em cujo nome se deram ao combate e ao extermínio dos hereges, tornando-se mais tarde os mentores dos príncipes e dos grandes senhores. Ao invés, os franciscanos, seus adversários declarados, não só mostraram sempre um espírito mais liberal e tolerante, mas criaram uma religião para o povo: foram mitigadores zelosos das suas aflições e defensores dos seus direitos denegados, por cuja vitória não hesitaram em imiscuir-se muitas vezes em seus movimentos de revolta.

(...)

“Mais ainda, o franciscanismo tem a ambição de dilatar-se rapidamente a toda a Humanidade; e, desde os primeiros anos que seguem a fundação da Ordem, uma das suas grandes preocupações será a de levar o ideal cristão aos infiéis, tanto da Europa, como da África e da Ásia.

“Finalmente, S.- Francisco de Assis e os seus continuadores – e este é o traço espiritual mais característico da Ordem – aproximam o homem juntamente da Divindade e da Natureza. Cristo, segundo eles, é o irmão dos homens, sequioso de os proteger e consolar, e a Virgem, cujo culto difundiram e exaltaram, a mãe misericordiosa dos homens. Com o culto do Menino Jesus e a liturgia encantadora do presépio, criação do santo de Assis, o franciscanismo contribuiu para exaltar o amor à criança, como já contribuíra, com o culto da Virgem, para a dignificação da Mulher. Do mesmo passo, aves, árvores e estrelas são também irmãos do homem. Um sopro de amor emana de Deus e funde na mesma fraternidade o homem e a Natureza.

(...)

“A dignidade do trabalho que o povo já conquistara nas lutas sociais, vem o franciscanismo coroar duma espécie de dignidade religiosa, tanto mais que as classes populares estavam, pela condição do seu trabalho, fundidas, mais que nenhuma outra, com a Natureza.”

Jaime Cortesão

in O Humanismo Universalista dos Portugueses, pp. 37-42.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

JAIME CORTESÃO, 50 ANOS DEPOIS, 2


“Limitada ao quadro da Península, onde a Reconquista criara o sentimento específico da hombridade, consciência, por vezes feroz, da força e do valor individual; e o catolicismo se tornara por essência uma religião antinómica na guerra secular ao islamismo, a Cavalaria levou até à exacerbação mórbida o ponto de honra e auxiliou a transformar a ortodoxia em intolerância fanática, ambiente eminentemente propício ao florescimento tenebroso da Inquisição e de todas as formas da compressão do pensamento.
“Mas estes males inerentes ao fundo ibérico da raça e à longa duração da Reconquista, tomaram na Espanha propriamente dita forma virulenta; em Portugal, benigna. Ali alcançaram expressão literária genial em Calderon, o poeta da hombridade, levada até ao delírio; ou encarnação política monstruosa em Filipe II, cuja pobre, ainda que funesta tradução em português, não passou da sombria e fanática múmia do cardeal D. Henrique.
“Mas tudo isto não passa do reverso da medalha. Dos defeitos das virtudes. Como instituição europeia, a Cavalaria criou um novo sentido de vida, que punha a honra no serviço, em nome de ideais generosos; deu à mulher um novo e mais nobre lugar na vida, e foi uma escola de superação e humanidade.
“Ao bárbaro europeu que saía da Alta Idade Média, educado no culto orgíaco da força e da tirania; degradado a uma sórdida e violenta animalidade, deu um código de honra; poliu pela cortesia; inspirou o respeito da mulher; e ensinou aos fortes e poderosos a consciência dos deveres para com os fracos e os humildes.
(…)
“Ao contrário do que sucedeu na Espanha, o pendor individualista da Cavalaria não conduziu em Portugal à degeneração anárquica que dividiu e conflagrou a nobreza castelhana ao findar a Idade Média. O escasso quadro geográfico, o reduzido volume social da grei, ameaçada de perto por inimigos turbulentos e poderosos, cerrou os vínculos entre as classes e tornou o amor à independência de individual em nacional. Auxiliando a diferenciação dos sexos, já de si favorecida e exaltada pela Reconquista, e estimulando o lirismo específico do ethos português, veio a impregnar, quer a literatura culta, quer a popular, de fina, delicada e subtil sensibilidade feminina.
“Mas, acima de tudo, a Cavalaria deu ao Português o sentido do serviço social e o desejo contínuo de superação. Foi um apelo supremo às suas energias para servir a grei e a humanidade.”
Jaime Cortesão
in O Humanismo Universalista dos Portugueses, pp. 33-35.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

JAIME CORTESÃO, 50 ANOS DEPOIS, 1

“O conceito de cultura abrange quer as formas de domínio do homem sobre a natureza, quer as criações sociais ou individuais que visam a expandir, dignificar e exaltar a vida humana. Tem-se ultimamente dado grande primazia à palavra cultura, que os alemães divulgaram, em detrimento de outra – civilização – de proveniência francesa, que nos parece em muitos casos preferível. Sempre que a cultura tende, por qualquer das suas formas, a libertar o homem da mentalidade dogmática, imposta pela compressão social, a eliminar o jugo da submissão gregária sem limites e da fé ortodoxa sem opção, trata-se, ao que pensamos, da sua forma superior – a civilização – cujo sentido se contém na raiz etimológica – civilização de civil e, em última análise – de cives, o cidadão.”

Jaime Cortesão

in Os Factores Democráticos na Formação de Portugal, pp. 161-162.

domingo, 1 de agosto de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 74




Da rosa e do tempo
Eduardo Aroso

A António Telmo

A seiva demora-se nas ruas da cidade
E mesmo assim não se abre a rosa
Que vem da raiz de todas as idades
E só a virtude inteira faz formosa.

A seiva irrompe pródiga nas rotundas;
Alguma sobe, a que os olhos não alcançam.
Tantos corações numa oração compassada;
No céu, serenamente os anjos dançam.

Aqui a seiva demora-se, húmus da História.
Recordo a haste de Coimbra a Estremoz,
Este aroma que orvalha a memória
E ante o abismo da matéria fala em nós.
E mesmo assim não se abre a rosa
A que nada deixa cair no chão
E do Alto é inteira e saudosa.

Coimbra, 4-7-2010 (Dia da Rainha Santa Isabel)

terça-feira, 27 de julho de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 73

Variações sobre um tema de Paul Celan
«Quem anda de cabeça para baixo
tem o céu por abismo debaixo de si».
Eduardo Aroso

Ao António Carlos Carvalho

Na torpe posição
Do pensante que se inverte,
Até mesmo o coração
Não tem o lugar que lhe compete.

E o progresso vai jogando
Ao Carnaval desta maneira;
E nem sequer enxerga
O abismo ali à beira.

Haverá estrelas belas
No sujo e pesado chão?
Ou serão clarões do inferno
Que se contemplam de ilusão?!

Lentos, deixámo-nos cair;
Ficou baço o nosso olhar.
Mas o céu ainda nos espera
Anjos no mais doce cantar.

De cabeça para baixo
Andamos todos nós.
Seja a alma para cima;
Tenha um leve fio de voz.

26-07-2010

domingo, 25 de julho de 2010

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 43

António Carlos Carvalho

Paul Celan

Enquanto muitos estão já de férias ou se preparam para isso, nesta «época pateta» em que supostamente não se passa nada de importante (ideia feita desmentida todos os dias pelos noticiários), eu estou afogado em trabalho e preocupações, restando-me muito pouco tempo livre para escrever aqui ou sequer para ler. Enfim, a cada um segundo as suas obrigações e disponibilidades…
Apesar desse constrangimento, tropecei agora nesta frase de Paul Celan, proferida em 1960 -- mas ainda mais actual nestes dias agitados de hoje: «Quem anda de cabeça para baixo tem o céu por abismo debaixo de si».
Não será este o nosso retrato perfeito…?
Celan, que sofreu a fatal atracção de um outro abismo, o das águas, deixou-nos igualmente este desabafo numa carta do mesmo ano:
«Vivemos sob céus sombrios e …existem poucos seres humanos. Talvez por isso existam também tão poucos poemas. As esperanças que ainda me restam não são grandes; tento conservar aquilo que me restou.»
E nós, o que fazemos agora…?

domingo, 18 de julho de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 72




Heresia
Isabel Xavier

Herético
O braço que se ergue
A mão que se abre
Herética
A pele à flor da pele
O silêncio que brotou.
Herético e feliz
O pão e o mel
A boca a que sabe
A que o provou.

Herética
A luz do sol a amanhecer
O dia que finda
A noite a acontecer
Heréticos
Os montes e vales percorridos
A plena certeza dos sentidos.
Herético e feliz
O corpo saciado
À beira - vida abandonado
Herético
O lugar onde morre a heresia
E quem do amor fez liturgia.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

NO 87.º ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE ANTÓNIO QUADROS



"Num ambiente social de poetas líricos, senão em valor absoluto, pelo menos com o valor da quantidade, raros são os que amadoreceram a noção do inconsciente individual e que assumiram toda a riqueza substancial e quase infinita do seu conteúdo, já na exegese, já na própria expressão poética. Ainda há quem explique o conceito de poesia pelo conceito de mistério, assim lhe conferindo abusivamente o carácter de uma religião: e não apenas de uma religião, de uma religião de dogma, cujo ritual se fundamentasse, não numa filosofia teológica, mas numa teologia dogmática onde o valor de mistério não pudesse, sequer, se posto em causa. [...] Confortado no seu apressado e espontâneo labor pela convicção do dito mistério, eis que o jovem poeta se põe a cantar, isto é, a falar uma linguagem de rimas, de metros, de palavras incomuns, de imagens alegóricas. Alimenta ele a convicção de que será visitado, misteriosamente, pelo génio poético, pelo génio da invenção, por esse génio subtil e invisível que, misteriosamente, assistiria cada poeta. [pelo contrário] o grande poeta é um homem que assume sobre si a representação de um desiquilibrio psíquico em relação aos outros homens. [...] Em verdade, em sua poética, ele procura comportar-se como inconsciente, na convicção que nos dará assim uma imagem, senão mais lógica e sensata, pelo menos mais verdadeira do mundo. Uma vez entrado nesta zona, que é a zona legítima da invenção, da partogénese criadora, o poeta pode comportar-se de duas formas: ou consciencializar e racionalizar, numa segunda instância todos os seus inconscientes e irracionais [...] ou abandonar-se inteiramente ao delírio do conhecimento inconsciente, relegando para um plano inferior o funcionamento racional. [...]"

sexta-feira, 9 de julho de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 71

A Grande Tareia Cynthia Guimarães Taveira

Gurdjeff
Vi um filme que me deixou a pensar, chamava-se “Sozinha em Tóquio” e contava a história de uma rapariga americana em Tóquio em busca do seu amor que para aí tinha ido trabalhar. Chegada lá, o namorado afinal muda de ideias e decide, ou constata que afinal não gosta dela. Ela fica com um grande desgosto e chora lágrimas sem fim, perdida nas ruas estranhas de Tóquio. Um dia, no meio da chuva e de choros convulsivos, resolve pedir abrigo numa espécie de tasca oriental já fechada àquelas horas. O dono e a sua mulher, benevolamente, dão-lhe então uma sopa. Mas não é uma sopa qualquer, é uma sopa que a faz transformar completamente o seu estado de espírito, de triste passa a alegre, como se tivesse tomado um anti depressivo instantâneo. Instintivamente, a rapariga percebe que existe “arte” atrás daquela sopa e pede ao dono do restaurante que a ensine a fazer tal manjar. Este, que é um mestre na elaboração da sopa, vai recusando tal favor, cedendo apenas ao seu pedido de trabalhar na tasquinha. Nesse trabalho a rapariga é sujeita a todo o tipo de maus tratos por parte do seu dono: ele fá-la passar as “passas do Algarve”, obrigando-a a lavar latrinas, a estar de pé horas sem fim, a lavar panelas. Enfim, uma verdadeira provação oriental. No fim, claro está, ele acaba por ensiná-la a fazer a “sopa mágica” e a história acaba bem. A maior parte do filme é sobre essa relação tensa de amor-ódio entre mestre e discípulo. É da vivência do sofrimento mútuo que nasce a intimidade entre os dois, é do sentimento que nasce a sopa, é com ele e só com ele que esta é capaz de ter alma e de ser, enfim, mágica.

Este artigo tem a ver com as tareias que os ocidentais às vezes levam quando se metem em vias orientais. Lembro-me que uma vez, devido a problemas emocionais, tinha uma dor persistente na barriga. Percebendo que estava completamente desequilibrada, resolvi ir uma tarde a um estúdio onde se praticava zazen, ou seja, uma meditação budista que se pratica sentado. Fiz o que me mandaram, sentei-me na posição devida, e relaxei músculos e contraí outros (o zazen é muito interessante porque a ele preside o espírito barroco do contraste). Fiquei muito tempo na mesma posição, olhando um ponto fixo na parede branca muito perto de mim. Nunca tinha feito aquilo e reparei que o mestre desse templo estava atrás de nós com um pau. De vez em quando batia com o pau nos ombros ou nas costas de um dos meditativos. Pensei para os meus botões que não gostaria muito que ele me batesse, tive até um certo receio. No fundo, ele batia para despertar, porque estando muito tempo parado corria-se o risco de dormitar, perdendo-se assim a posição original. A verdade é que não levei com o pau e saí de lá a planar sobre a calçada portuguesa, leve, leve, como se tivesse asas. A dor de barriga (psicológica ou não) tinha desaparecido, e alguma coisa se equilibrou em mim com tal experiência. Foi este o meu único contacto com o Oriente face a face, corpo a corpo. E não me arrependi.

Frequentemente, nos esoterismos lê-se ou ouve-se falar em despertar. Reduzem-se vários despertares a um único despertar, mas a verdade é que são vários, talvez mesmo infinitos. Mas há de facto um primeiro despertar, provavelmente o mais importante, porque sem ele não há os outros. Mas de que se fala quando nos referimos a despertar? Fala-se num sentido de presença que se quer cada vez mais absoluta, cada vez mais apurada. E a presença está ligada ao corpo, às sensações do corpo, aos sentidos do corpo. Aqui, a filosofia parece encaminhar-se para os antípodas da iniciação, uma vez que dela se tem a visão de algo que é sobretudo cerebral, produto do pensamento, ainda que esse mesmo pensamento seja produto do espírito. Do sentido de presença que se tem: a nossa situação num espaço, a situação desse espaço noutro maior e por aí adiante, passa-se algo também no despertar que é o sentido do símbolo: intui-se e sente-se que as coisas são mais do que aquilo que aparentam. Intui-se e sente-se que nós mesmos somos símbolo vivo, com corpo, alma e espírito. E, parecendo quase sem querer (parecendo, uma vez que despertar exige esforço e concentração, a menos que haja uma hierofania) está-se enfim desperto e o homem desperto é o homem religioso, no sentido tão bem explicado por Mircea Eliade. Esse homem religioso está no centro do mundo, assim falava Leonardo Coimbra quando dizia que se podia imaginar que o pôr-do-sol se punha por nossa vontade. Estranhamente, essa sensação, chamemos-lhe assim, é profundamente efémera (forte porque se passa num tempo e espaços fortes e por isso inesquecíveis), mas profundamente efémera porque facilmente se adormece de novo, embora não se perca a memória do estar desperto. Daí poder afirmar-se: “sonhei que estava desperto” e não ser esta uma frase sem sentido.

Se despertar já é complicado, mantermo-nos despertos é-o ainda mais. De algum modo é o acto violento porque é um pouco contra natura (a natureza é inconsciente, os animais não possuem o mesmo tipo ou nível de consciência que os humanos), uma vez que o homem tende a ir para além da natureza, a acrescentar-lhe algo, provavelmente o voo da sua alma e a consciência do seu espírito. Daí que haja violência no sagrado e não só nas religiões (produtos do homem religioso). Despertar é uma espécie de novo nascimento e os partos não são propriamente pacíficos.
Quando os mestres (quando os há) se propõem acordar os seus discípulos abrem a porta também a alguma violência. No Oriente, com milénios de experiência, provavelmente, esta acção funciona mais tempo e talvez com mais perfeição. O Ocidente, no seu percurso histórico, foi atravessado por vagas de amnésia que o fez esquecer de certas verdades ou tradições, ocupado que esteve em conhecer e manter em cativeiro novos mundos. A sensação de vazio daí resultante levou homens e mulheres a procurar a natureza humana perdida, ou a buscar o tempo perdido… essa natureza é altamente problemática, pois ela no seu intimo é uma supra natureza. Esta procura levou-os naturalmente ao Oriente, não só por uma questão simbólica (é no Oriente que nasce o Sol, ou seja, a luz) mas também porque, muito provavelmente, o Oriente teve outra história, com maior número de pessoas, menos preocupações territoriais, e mais nichos onde a tradição ou verdade puderam sobreviver por mais tempo. Assiste-se então a uma importação em bloco de tradições, muitas vezes parciais, deturpadas ou recombinadas, vindas das Índias, dos sufis, dos samurais, da China profunda. Essas importações cuja verdade pode e deve ser posta em causa resultam muitas vezes numa mixórdia em que matizes de gurus indianos se misturam com cátaros ocidentais (mas com ascendência ariana), ou ritos celtas (muitos deles imaginados por falta de fontes) com rituais iniciáticos sufis, e por aí adiante. É assim que no Ocidente surgem os nossos “mestres”, alguns até despertos, outros até capazes de despertarem o seu semelhante. O problema está no “depois” do despertar. Não é o despertar que nos torna mais perfeitos, tal como um grau maior ou menor de consciência não nos torna fatalmente melhores nos nossos instintos mais imediatos e instantâneos (é preciso muito para nos libertarmos de Freud…). Assim, um amigo me contava os maus tratos infligidos pelo seu mestre Ocidental importador de saberes Orientais e que acabou por abandonar, não sem antes ter sofrido transtornos psicológicos difíceis de ultrapassar. Assim, li há pouco que um “mestre de nome “Solazareff” não se incomodou nada em ordenar a um “discípulo” que comesse uma osga, acção praticada pelo noviço no imediato. Assim, Gurdjieff, o grande despertador, acaba por cansar, com as suas danças, Katherine Mansfield, levando-a ao encontro da morte. Devem ser inúmeros os “mestres” ocidentais que mais tarde ou mais cedo acabam por se revelar grandes ditadores, numa cegueira que não se coaduna com a luz do despertar. Por mais despertos que estejam, não deixam de ter mau feitio.

Há ainda um outro factor que é necessário ter em conta no Ocidente: o peso de algum judaísmo e de muito cristianismo (às vezes parcamente espelhado nas igrejas). Tanto uma religião como a outra provocam e mantêm um elevado sentimento de culpa. E mesmo os “ateus” ou os que seguem o curso de algumas religiosidades marginais, não estão livres de uma sociedade habituada a viver num clima em que o factor “culpa” e o contrapeso “inocência” são fortes incentivos às acções e aos pensamentos das pessoas. Esses dois factores, se suficientemente pesados, já são uma violência em si. Não é necessário infligir violência física porque a psicológica já é suficiente e tem raízes históricas que se estendem para dentro da memória mais escondida dos homens.

Despertar não chega, porque depois de despertos, e conseguindo manter esse estado, é necessário o equilíbrio entre os quatro elementos da natureza que vivem dentro de nós: o fogo da paixão, a água da sensibilidade, a inteligência do ar, o pragmatismo da terra. Só em equilíbrio se evitam pequenas ditaduras, e evita-se também a contradição levada ao limite por Gurdjieff: o grande despertador, que levava as pessoas a dançar pela vida fora de maneira a que estas estivessem bem despertas, com o corpo alerta, com um permanente sentido de presença, capazes de reagirem por elas e não como se fossem máquinas, sim, esse grande despertador, acaba por morrer em consequência de um desastre de carro. E o desastre é o contrário da harmonia.

Quem dera a perfeição de um voo de um pássaro, assim, suave, harmónico, presente, ainda que inconsciente, perfeito…

quinta-feira, 8 de julho de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 70

Sobre o extermínio de uma tradição: os verdadeiros americanos
para o António Carlos Carvalho, pelo seu aniversário


O artigo facsimilado que agora se republica é da autoria de António Carlos Carvalho, que hoje celebra 63 anos de vida, e foi publicado na revista-livro Cadernos de Ecologia e Sociedade, n.º3, 1976 (Ed. Afrontamento).
clique nas imagens para as ampliar








quarta-feira, 7 de julho de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 69

Trovas de um descendente do Bandarra,
sapateiro de Trancoso - (7) - 4.ª e última parte
Eduardo Aroso

Do sagrado simbolismo
Só sábios podem falar.
E não apenas quem pode
Enredos inventar.

Cada um que se contente
Com o que dá a sua leira.
Mas não venha tapar-nos
O sol com uma peneira.

Cada qual não queira mais
Do que dá sua lavoura.
Pois a justiça do tempo
Dá-lhe um golpe de tesoura

Há quem ganhe com a Língua
Às vezes só pela fama;
E há quem pague p’la língua
Se renega a sua cama.

Ali junto a Belém
Queria eu outros fados:
Mudar o tom à nação
De heróis desafinados.

Falsa luz sempre existiu
Tem altar cá no país.
É que tantos frutos d’oiro
Não os dá qualquer raiz.

Mas tudo isto há-de mudar
Com o Arcanjo Miguel.
Quem está lá, lá ficará,
Nas ruínas de Babel.

Solstício de Verão, 2010

terça-feira, 6 de julho de 2010

PARA LER: ISABEL XAVIER

Memória. Uma pessoalíssima evocação da terra natal e da vida familiar, num olhar ternurento e saudoso, que nos transporta ao meado do século que passou -- eis o que nos oferece Isabel Xavier, do círculo dos Cadernos, no muito interessante blogue dos Antigos Alunos do Externato Ramalho Ortigão, na rubrica "À Janela..."

segunda-feira, 5 de julho de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 68


Trovas de um descendente do Bandarra,
sapateiro de Trancoso - (7) - 3.ª parte
Eduardo Aroso


O que se vê diariamente
De bancada em bancada:
Tem rendimento garantido
A república instalada!

E a pátria está pronta
E a bandeira nacional
Perdoando aos seus filhos
Que a trataram tão mal.

O que há que fazer um dia
Aos verdadeiros heróis?
Não os que sempre a deixaram
Embrulhada em maus lençóis.

Portugal anda dormente
Embrulhado na ignorância.
Não distingue a sua alma
Nem calcula a distância.

Tudo muito bem urdido,
Nevoeiro provocado.
Foi trocada a bela trova
Por um sarcástico fado.

Sentou-se o mal no seu trono
Em estilo nunca visto,
Querendo as suas “profecias”
Mais alto que Jesus Cristo!

E enfermas instituições
Só se abrem em certos dias.
Batem-se palmas sem alma,
Palmas de hipocrisia.
(continua)

sexta-feira, 2 de julho de 2010

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 42

António Carlos Carvalho
Esta noite sonhei com Monsieur Chouchani. Ou melhor, sonhei que alguém dizia a outro: «Isso faz-me lembrar o que dizia o meu mestre, Monsieur Chouchani.» Então o despertador tocou e acordei, ficando sem saber o resto da conversa.

Monsieur Chouchani

Imagino que este nome não diga nada a quase ninguém. Só faz soar campainhas a quem estudou a fundo a vida do filósofo Emmanuel Lévinas e do escritor Elie Wiesel -- ambos foram discípulos do tal Monsieur Chouchani. E ambos ficaram para sempre marcados por essa experiência. Lévinas e Wiesel falaram dele ocasionalmente, num livro ou noutro ou em entrevistas.

Lévinas: «No meu regresso do cativeiro num campo de prisioneiros franceses na Alemanha, conheci um gigante da cultura tradicional judaica. Não vivia a relação com o texto como uma simples relação de piedade ou de edificação moral mas como um horizonte de rigor intelectual. Gostaria de dizer o seu nome. Era Monsieur Chouchani. Tudo o que publico hoje sobre o Talmude devo-o a ele.» «Foi ele que me ensinou como buscar, como perfurar nos textos, tudo o que se podia tirar de um pedaço de texto». «Um mestre que nos mostrou o que pode o verdadeiro método. Para nós, tornou impossível para sempre o acesso dogmático, puramente fideísta, ou mesmo teológico do Talmude. Um ser excepcional, extraordinário em todos os sentidos e também no sentido literal do termo.»

Emmanuel Lévinas

Wiesel: «Ele conhecia todas as cidades, todos os países, todas as línguas. Era alguém muito misterioso. Era o saber insondável, o conhecimento infinito. De onde vinha? Vinha de todo o lado. Sentia-se tão bem na Argélia como em França, na Palestina como na América. E direi também que se sentia tão estrangeiro aqui como noutro lugar. Era simultaneamente estrangeiro, separado e soberano. » «Viveu dos cursos que dava a professores universitários nos seus campos específicos. Portanto, ensinava a filosofia aos filósofos, a matemática aos matemáticos, e a física aos físicos.» «Aceitava a ignorância, aquela que se confessava como tal. Mas o ignorante que pretendia saber, deixava-o furioso. Demolia, humilhava. Mais tarde utilizava métodos zen-budistas, devastava antes de reconstruir. Transformava-nos em peças dispersas. De repente não éramos nada, tudo o que sabíamos era menos do que nada. Mas era isso que me fascinava nele.» «Não morava em nenhum lugar, não tinha uma camisa lavada para trocar de roupa, podia passar a noite em minha casa sem se despir, dormindo uma hora ou duas; chegava a sentir pena dele. E nunca o ouvia chorar ou rir.» «Tinha uma memória fotográfica. Mas conhecia não apenas o valor da memória como também o peso da memória. Conhecia não somente o Talmude e os comentários do Talmude como também tudo o que foi escrito depois acerca do Talmude, mesmo as obras críticas.» «Ouvi-o falar durante três horas sobre o segundo versículo de Isaías: “Escutai, céus! Terra, presta atenção.“» «Podia falar durante horas, sem nunca se repetir, sobre a mesma frase, o sentido da frase, a importância da frase, a qualidade literária da frase. Tinha o sentido da poesia, a noção da linguagem. Era um artista da palavra. Um artista da magia da palavra. Nunca o vi abrir um livro. Ele próprio era um livro vivo. Conhecia tudo de cor.»
Estes e outros depoimentos encontram-se num livro (o único que conheço sobre este sábio com aspecto de vagabundo errante): «Monsieur Chouchani --L’énigme d’un maître du XXe siècle», de Salomon Malka (ed. JCLattès, 1994). Monsieur Chouchani morreu em 1968, numa pequena aldeia perto de Montevidéu. No livro de registo dos óbitos figura o seu nome assim: «Mardoqueo Bensoussan, entre parênteses Chouchani, novos parênteses, Ohnona. Nacionalidade, marroquina. Solteiro. Idade: 63 anos.»
Salomon Malka comenta: «Conhecem alguém neste mundo que tenha sido enterrado sob três nomes diferentes?»
Este homem enigmático nunca foi manchete de jornal nem notícia de telejornal, passou por este mundo quase clandestinamente -- mas marcou para sempre as vidas daqueles privilegiados que o conheceram.
É importante lembrar estas coisas numa época em que nos enchem os olhos e os ouvidos com criaturas que são apenas imagens, «cascas» sem conteúdo, mais parecendo hologramas do que seres humanos reais.
… E eu continuo sem saber porque é que tive este sonho igualmente misterioso.
Mas talvez uma noite destas o sonho tenha continuidade e eu perceba a razão de ser desta e de outras histórias nocturnas.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 67


Trovas de um descendente do Bandarra,
sapateiro de Trancoso - (7) - 2.ª parte
Eduardo Aroso


Nem toda a luz nos eleva
Que sobre nós se derrama.
Se tem ódio ou inveja
Não é pura essa chama.

‘Stão as direcções trocadas
Neste caótico recanto.
Mas a Hora guia a História
Sopro do Espírito Santo.

Só p’lo dizer Portugal
Sobe ao céu uma oração.
E a quem servimos afinal:
Ao governo ou à nação?

Só de pensar Portugal
Há um grande clarão.
E ao mesmo tempo o mistério
Oculta grande razão.

Mas um dia a juventude
Vai saber certa verdade:
Só um tempo salva outro
Na vera continuidade.

E aquilo que pressinto
É a maior revolução:
É o povo atirar fora
Tanta falsa educação!

São os Silvas e os Sousas,
O José e ainda o Mário;
São os anti-portugueses
Do nosso triste fadário

Diversos lá no seu jeito
Num tom que anda trocado,
E havendo até alegres
São todos fardo pesado.
(continua)

PARA VER

Pedro Martins, Cynthia Guimarães Taveira e Roque Braz de Oliveira durante o lançamento do segundo volume dos Cadernos
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Cadernos. O fotoblogue Sesimbra, da autoria de João Augusto Aldeia, assinalou o lançamento de Singularidades, no passado sábado, na Biblioteca Municipal de Sesimbra.