(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



sexta-feira, 6 de agosto de 2010

OS LUGARES, 1



A Quinta Nau
Eduardo Aroso

Partiu sem ninguém dar por isso,
Na fria madrugada do silêncio.
Leva gente diversa: família real,
Republicanos, liberais, anarquistas
E o povo simples de Portugal.

Vai na rota de várias dimensões
A regressar um dia ao cais de sempre,
Ao nível de água feito de espirais,
Junto à terra de todos os continentes
No vento suave de sopro universal.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

JAIME CORTESÃO, 50 ANOS DEPOIS, 3


“Breve, uma outra corrente espiritual, esta de ordem religiosa, mais vasta e penetrante, veio completar, transcender, exaltar o ideal de Cavalaria, acentuando-lhe as tendências democráticas e voltando-se para a Natureza, como manifestação de Deus.
“Antes do advento de S. Francisco de Assis, o catolicismo não facilitava o conhecimento e a posse da Terra pelo homem. Cristo imobilizava-se na Cruz. O ideal místico era o refúgio, a contemplação, a partilha do Calvário pelo crente.
(...)
"[Com o franciscanismo] Cristo ia baixar da Cruz para de novo percorrer o mundo.

(...)

“O estabelecimento das Ordens mendicantes – a dos Franciscanos, fundada (1209) por um italiano de educação francesa, S. Francisco de Assis, e a dos Dominicanos, fundada (1215) por um espanhol, S. Domingos – marca data primacialíssima, não só na História da Igreja, mas da Humanidade. Formadas num ambiente de protesto espiritual e popular, provocado pela indisciplina, a violência e a soltura dos costumes que então lavrava no clero e nas Ordens monásticas, propunham-se as duas Ordens novas reformar a vida religiosa pelo voto da pobreza e o contacto directo com o povo. Mas os dominicanos, como genuínos representantes da ortodoxia espanhola, ainda que obedecendo a uma regra semelhante, tornaram-se desde logo os defensores ardentes do princípio da autoridade, em cujo nome se deram ao combate e ao extermínio dos hereges, tornando-se mais tarde os mentores dos príncipes e dos grandes senhores. Ao invés, os franciscanos, seus adversários declarados, não só mostraram sempre um espírito mais liberal e tolerante, mas criaram uma religião para o povo: foram mitigadores zelosos das suas aflições e defensores dos seus direitos denegados, por cuja vitória não hesitaram em imiscuir-se muitas vezes em seus movimentos de revolta.

(...)

“Mais ainda, o franciscanismo tem a ambição de dilatar-se rapidamente a toda a Humanidade; e, desde os primeiros anos que seguem a fundação da Ordem, uma das suas grandes preocupações será a de levar o ideal cristão aos infiéis, tanto da Europa, como da África e da Ásia.

“Finalmente, S.- Francisco de Assis e os seus continuadores – e este é o traço espiritual mais característico da Ordem – aproximam o homem juntamente da Divindade e da Natureza. Cristo, segundo eles, é o irmão dos homens, sequioso de os proteger e consolar, e a Virgem, cujo culto difundiram e exaltaram, a mãe misericordiosa dos homens. Com o culto do Menino Jesus e a liturgia encantadora do presépio, criação do santo de Assis, o franciscanismo contribuiu para exaltar o amor à criança, como já contribuíra, com o culto da Virgem, para a dignificação da Mulher. Do mesmo passo, aves, árvores e estrelas são também irmãos do homem. Um sopro de amor emana de Deus e funde na mesma fraternidade o homem e a Natureza.

(...)

“A dignidade do trabalho que o povo já conquistara nas lutas sociais, vem o franciscanismo coroar duma espécie de dignidade religiosa, tanto mais que as classes populares estavam, pela condição do seu trabalho, fundidas, mais que nenhuma outra, com a Natureza.”

Jaime Cortesão

in O Humanismo Universalista dos Portugueses, pp. 37-42.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

JAIME CORTESÃO, 50 ANOS DEPOIS, 2


“Limitada ao quadro da Península, onde a Reconquista criara o sentimento específico da hombridade, consciência, por vezes feroz, da força e do valor individual; e o catolicismo se tornara por essência uma religião antinómica na guerra secular ao islamismo, a Cavalaria levou até à exacerbação mórbida o ponto de honra e auxiliou a transformar a ortodoxia em intolerância fanática, ambiente eminentemente propício ao florescimento tenebroso da Inquisição e de todas as formas da compressão do pensamento.
“Mas estes males inerentes ao fundo ibérico da raça e à longa duração da Reconquista, tomaram na Espanha propriamente dita forma virulenta; em Portugal, benigna. Ali alcançaram expressão literária genial em Calderon, o poeta da hombridade, levada até ao delírio; ou encarnação política monstruosa em Filipe II, cuja pobre, ainda que funesta tradução em português, não passou da sombria e fanática múmia do cardeal D. Henrique.
“Mas tudo isto não passa do reverso da medalha. Dos defeitos das virtudes. Como instituição europeia, a Cavalaria criou um novo sentido de vida, que punha a honra no serviço, em nome de ideais generosos; deu à mulher um novo e mais nobre lugar na vida, e foi uma escola de superação e humanidade.
“Ao bárbaro europeu que saía da Alta Idade Média, educado no culto orgíaco da força e da tirania; degradado a uma sórdida e violenta animalidade, deu um código de honra; poliu pela cortesia; inspirou o respeito da mulher; e ensinou aos fortes e poderosos a consciência dos deveres para com os fracos e os humildes.
(…)
“Ao contrário do que sucedeu na Espanha, o pendor individualista da Cavalaria não conduziu em Portugal à degeneração anárquica que dividiu e conflagrou a nobreza castelhana ao findar a Idade Média. O escasso quadro geográfico, o reduzido volume social da grei, ameaçada de perto por inimigos turbulentos e poderosos, cerrou os vínculos entre as classes e tornou o amor à independência de individual em nacional. Auxiliando a diferenciação dos sexos, já de si favorecida e exaltada pela Reconquista, e estimulando o lirismo específico do ethos português, veio a impregnar, quer a literatura culta, quer a popular, de fina, delicada e subtil sensibilidade feminina.
“Mas, acima de tudo, a Cavalaria deu ao Português o sentido do serviço social e o desejo contínuo de superação. Foi um apelo supremo às suas energias para servir a grei e a humanidade.”
Jaime Cortesão
in O Humanismo Universalista dos Portugueses, pp. 33-35.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

JAIME CORTESÃO, 50 ANOS DEPOIS, 1

“O conceito de cultura abrange quer as formas de domínio do homem sobre a natureza, quer as criações sociais ou individuais que visam a expandir, dignificar e exaltar a vida humana. Tem-se ultimamente dado grande primazia à palavra cultura, que os alemães divulgaram, em detrimento de outra – civilização – de proveniência francesa, que nos parece em muitos casos preferível. Sempre que a cultura tende, por qualquer das suas formas, a libertar o homem da mentalidade dogmática, imposta pela compressão social, a eliminar o jugo da submissão gregária sem limites e da fé ortodoxa sem opção, trata-se, ao que pensamos, da sua forma superior – a civilização – cujo sentido se contém na raiz etimológica – civilização de civil e, em última análise – de cives, o cidadão.”

Jaime Cortesão

in Os Factores Democráticos na Formação de Portugal, pp. 161-162.

domingo, 1 de agosto de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 74




Da rosa e do tempo
Eduardo Aroso

A António Telmo

A seiva demora-se nas ruas da cidade
E mesmo assim não se abre a rosa
Que vem da raiz de todas as idades
E só a virtude inteira faz formosa.

A seiva irrompe pródiga nas rotundas;
Alguma sobe, a que os olhos não alcançam.
Tantos corações numa oração compassada;
No céu, serenamente os anjos dançam.

Aqui a seiva demora-se, húmus da História.
Recordo a haste de Coimbra a Estremoz,
Este aroma que orvalha a memória
E ante o abismo da matéria fala em nós.
E mesmo assim não se abre a rosa
A que nada deixa cair no chão
E do Alto é inteira e saudosa.

Coimbra, 4-7-2010 (Dia da Rainha Santa Isabel)

terça-feira, 27 de julho de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 73

Variações sobre um tema de Paul Celan
«Quem anda de cabeça para baixo
tem o céu por abismo debaixo de si».
Eduardo Aroso

Ao António Carlos Carvalho

Na torpe posição
Do pensante que se inverte,
Até mesmo o coração
Não tem o lugar que lhe compete.

E o progresso vai jogando
Ao Carnaval desta maneira;
E nem sequer enxerga
O abismo ali à beira.

Haverá estrelas belas
No sujo e pesado chão?
Ou serão clarões do inferno
Que se contemplam de ilusão?!

Lentos, deixámo-nos cair;
Ficou baço o nosso olhar.
Mas o céu ainda nos espera
Anjos no mais doce cantar.

De cabeça para baixo
Andamos todos nós.
Seja a alma para cima;
Tenha um leve fio de voz.

26-07-2010

domingo, 25 de julho de 2010

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 43

António Carlos Carvalho

Paul Celan

Enquanto muitos estão já de férias ou se preparam para isso, nesta «época pateta» em que supostamente não se passa nada de importante (ideia feita desmentida todos os dias pelos noticiários), eu estou afogado em trabalho e preocupações, restando-me muito pouco tempo livre para escrever aqui ou sequer para ler. Enfim, a cada um segundo as suas obrigações e disponibilidades…
Apesar desse constrangimento, tropecei agora nesta frase de Paul Celan, proferida em 1960 -- mas ainda mais actual nestes dias agitados de hoje: «Quem anda de cabeça para baixo tem o céu por abismo debaixo de si».
Não será este o nosso retrato perfeito…?
Celan, que sofreu a fatal atracção de um outro abismo, o das águas, deixou-nos igualmente este desabafo numa carta do mesmo ano:
«Vivemos sob céus sombrios e …existem poucos seres humanos. Talvez por isso existam também tão poucos poemas. As esperanças que ainda me restam não são grandes; tento conservar aquilo que me restou.»
E nós, o que fazemos agora…?

domingo, 18 de julho de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 72




Heresia
Isabel Xavier

Herético
O braço que se ergue
A mão que se abre
Herética
A pele à flor da pele
O silêncio que brotou.
Herético e feliz
O pão e o mel
A boca a que sabe
A que o provou.

Herética
A luz do sol a amanhecer
O dia que finda
A noite a acontecer
Heréticos
Os montes e vales percorridos
A plena certeza dos sentidos.
Herético e feliz
O corpo saciado
À beira - vida abandonado
Herético
O lugar onde morre a heresia
E quem do amor fez liturgia.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

NO 87.º ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE ANTÓNIO QUADROS



"Num ambiente social de poetas líricos, senão em valor absoluto, pelo menos com o valor da quantidade, raros são os que amadoreceram a noção do inconsciente individual e que assumiram toda a riqueza substancial e quase infinita do seu conteúdo, já na exegese, já na própria expressão poética. Ainda há quem explique o conceito de poesia pelo conceito de mistério, assim lhe conferindo abusivamente o carácter de uma religião: e não apenas de uma religião, de uma religião de dogma, cujo ritual se fundamentasse, não numa filosofia teológica, mas numa teologia dogmática onde o valor de mistério não pudesse, sequer, se posto em causa. [...] Confortado no seu apressado e espontâneo labor pela convicção do dito mistério, eis que o jovem poeta se põe a cantar, isto é, a falar uma linguagem de rimas, de metros, de palavras incomuns, de imagens alegóricas. Alimenta ele a convicção de que será visitado, misteriosamente, pelo génio poético, pelo génio da invenção, por esse génio subtil e invisível que, misteriosamente, assistiria cada poeta. [pelo contrário] o grande poeta é um homem que assume sobre si a representação de um desiquilibrio psíquico em relação aos outros homens. [...] Em verdade, em sua poética, ele procura comportar-se como inconsciente, na convicção que nos dará assim uma imagem, senão mais lógica e sensata, pelo menos mais verdadeira do mundo. Uma vez entrado nesta zona, que é a zona legítima da invenção, da partogénese criadora, o poeta pode comportar-se de duas formas: ou consciencializar e racionalizar, numa segunda instância todos os seus inconscientes e irracionais [...] ou abandonar-se inteiramente ao delírio do conhecimento inconsciente, relegando para um plano inferior o funcionamento racional. [...]"

sexta-feira, 9 de julho de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 71

A Grande Tareia Cynthia Guimarães Taveira

Gurdjeff
Vi um filme que me deixou a pensar, chamava-se “Sozinha em Tóquio” e contava a história de uma rapariga americana em Tóquio em busca do seu amor que para aí tinha ido trabalhar. Chegada lá, o namorado afinal muda de ideias e decide, ou constata que afinal não gosta dela. Ela fica com um grande desgosto e chora lágrimas sem fim, perdida nas ruas estranhas de Tóquio. Um dia, no meio da chuva e de choros convulsivos, resolve pedir abrigo numa espécie de tasca oriental já fechada àquelas horas. O dono e a sua mulher, benevolamente, dão-lhe então uma sopa. Mas não é uma sopa qualquer, é uma sopa que a faz transformar completamente o seu estado de espírito, de triste passa a alegre, como se tivesse tomado um anti depressivo instantâneo. Instintivamente, a rapariga percebe que existe “arte” atrás daquela sopa e pede ao dono do restaurante que a ensine a fazer tal manjar. Este, que é um mestre na elaboração da sopa, vai recusando tal favor, cedendo apenas ao seu pedido de trabalhar na tasquinha. Nesse trabalho a rapariga é sujeita a todo o tipo de maus tratos por parte do seu dono: ele fá-la passar as “passas do Algarve”, obrigando-a a lavar latrinas, a estar de pé horas sem fim, a lavar panelas. Enfim, uma verdadeira provação oriental. No fim, claro está, ele acaba por ensiná-la a fazer a “sopa mágica” e a história acaba bem. A maior parte do filme é sobre essa relação tensa de amor-ódio entre mestre e discípulo. É da vivência do sofrimento mútuo que nasce a intimidade entre os dois, é do sentimento que nasce a sopa, é com ele e só com ele que esta é capaz de ter alma e de ser, enfim, mágica.

Este artigo tem a ver com as tareias que os ocidentais às vezes levam quando se metem em vias orientais. Lembro-me que uma vez, devido a problemas emocionais, tinha uma dor persistente na barriga. Percebendo que estava completamente desequilibrada, resolvi ir uma tarde a um estúdio onde se praticava zazen, ou seja, uma meditação budista que se pratica sentado. Fiz o que me mandaram, sentei-me na posição devida, e relaxei músculos e contraí outros (o zazen é muito interessante porque a ele preside o espírito barroco do contraste). Fiquei muito tempo na mesma posição, olhando um ponto fixo na parede branca muito perto de mim. Nunca tinha feito aquilo e reparei que o mestre desse templo estava atrás de nós com um pau. De vez em quando batia com o pau nos ombros ou nas costas de um dos meditativos. Pensei para os meus botões que não gostaria muito que ele me batesse, tive até um certo receio. No fundo, ele batia para despertar, porque estando muito tempo parado corria-se o risco de dormitar, perdendo-se assim a posição original. A verdade é que não levei com o pau e saí de lá a planar sobre a calçada portuguesa, leve, leve, como se tivesse asas. A dor de barriga (psicológica ou não) tinha desaparecido, e alguma coisa se equilibrou em mim com tal experiência. Foi este o meu único contacto com o Oriente face a face, corpo a corpo. E não me arrependi.

Frequentemente, nos esoterismos lê-se ou ouve-se falar em despertar. Reduzem-se vários despertares a um único despertar, mas a verdade é que são vários, talvez mesmo infinitos. Mas há de facto um primeiro despertar, provavelmente o mais importante, porque sem ele não há os outros. Mas de que se fala quando nos referimos a despertar? Fala-se num sentido de presença que se quer cada vez mais absoluta, cada vez mais apurada. E a presença está ligada ao corpo, às sensações do corpo, aos sentidos do corpo. Aqui, a filosofia parece encaminhar-se para os antípodas da iniciação, uma vez que dela se tem a visão de algo que é sobretudo cerebral, produto do pensamento, ainda que esse mesmo pensamento seja produto do espírito. Do sentido de presença que se tem: a nossa situação num espaço, a situação desse espaço noutro maior e por aí adiante, passa-se algo também no despertar que é o sentido do símbolo: intui-se e sente-se que as coisas são mais do que aquilo que aparentam. Intui-se e sente-se que nós mesmos somos símbolo vivo, com corpo, alma e espírito. E, parecendo quase sem querer (parecendo, uma vez que despertar exige esforço e concentração, a menos que haja uma hierofania) está-se enfim desperto e o homem desperto é o homem religioso, no sentido tão bem explicado por Mircea Eliade. Esse homem religioso está no centro do mundo, assim falava Leonardo Coimbra quando dizia que se podia imaginar que o pôr-do-sol se punha por nossa vontade. Estranhamente, essa sensação, chamemos-lhe assim, é profundamente efémera (forte porque se passa num tempo e espaços fortes e por isso inesquecíveis), mas profundamente efémera porque facilmente se adormece de novo, embora não se perca a memória do estar desperto. Daí poder afirmar-se: “sonhei que estava desperto” e não ser esta uma frase sem sentido.

Se despertar já é complicado, mantermo-nos despertos é-o ainda mais. De algum modo é o acto violento porque é um pouco contra natura (a natureza é inconsciente, os animais não possuem o mesmo tipo ou nível de consciência que os humanos), uma vez que o homem tende a ir para além da natureza, a acrescentar-lhe algo, provavelmente o voo da sua alma e a consciência do seu espírito. Daí que haja violência no sagrado e não só nas religiões (produtos do homem religioso). Despertar é uma espécie de novo nascimento e os partos não são propriamente pacíficos.
Quando os mestres (quando os há) se propõem acordar os seus discípulos abrem a porta também a alguma violência. No Oriente, com milénios de experiência, provavelmente, esta acção funciona mais tempo e talvez com mais perfeição. O Ocidente, no seu percurso histórico, foi atravessado por vagas de amnésia que o fez esquecer de certas verdades ou tradições, ocupado que esteve em conhecer e manter em cativeiro novos mundos. A sensação de vazio daí resultante levou homens e mulheres a procurar a natureza humana perdida, ou a buscar o tempo perdido… essa natureza é altamente problemática, pois ela no seu intimo é uma supra natureza. Esta procura levou-os naturalmente ao Oriente, não só por uma questão simbólica (é no Oriente que nasce o Sol, ou seja, a luz) mas também porque, muito provavelmente, o Oriente teve outra história, com maior número de pessoas, menos preocupações territoriais, e mais nichos onde a tradição ou verdade puderam sobreviver por mais tempo. Assiste-se então a uma importação em bloco de tradições, muitas vezes parciais, deturpadas ou recombinadas, vindas das Índias, dos sufis, dos samurais, da China profunda. Essas importações cuja verdade pode e deve ser posta em causa resultam muitas vezes numa mixórdia em que matizes de gurus indianos se misturam com cátaros ocidentais (mas com ascendência ariana), ou ritos celtas (muitos deles imaginados por falta de fontes) com rituais iniciáticos sufis, e por aí adiante. É assim que no Ocidente surgem os nossos “mestres”, alguns até despertos, outros até capazes de despertarem o seu semelhante. O problema está no “depois” do despertar. Não é o despertar que nos torna mais perfeitos, tal como um grau maior ou menor de consciência não nos torna fatalmente melhores nos nossos instintos mais imediatos e instantâneos (é preciso muito para nos libertarmos de Freud…). Assim, um amigo me contava os maus tratos infligidos pelo seu mestre Ocidental importador de saberes Orientais e que acabou por abandonar, não sem antes ter sofrido transtornos psicológicos difíceis de ultrapassar. Assim, li há pouco que um “mestre de nome “Solazareff” não se incomodou nada em ordenar a um “discípulo” que comesse uma osga, acção praticada pelo noviço no imediato. Assim, Gurdjieff, o grande despertador, acaba por cansar, com as suas danças, Katherine Mansfield, levando-a ao encontro da morte. Devem ser inúmeros os “mestres” ocidentais que mais tarde ou mais cedo acabam por se revelar grandes ditadores, numa cegueira que não se coaduna com a luz do despertar. Por mais despertos que estejam, não deixam de ter mau feitio.

Há ainda um outro factor que é necessário ter em conta no Ocidente: o peso de algum judaísmo e de muito cristianismo (às vezes parcamente espelhado nas igrejas). Tanto uma religião como a outra provocam e mantêm um elevado sentimento de culpa. E mesmo os “ateus” ou os que seguem o curso de algumas religiosidades marginais, não estão livres de uma sociedade habituada a viver num clima em que o factor “culpa” e o contrapeso “inocência” são fortes incentivos às acções e aos pensamentos das pessoas. Esses dois factores, se suficientemente pesados, já são uma violência em si. Não é necessário infligir violência física porque a psicológica já é suficiente e tem raízes históricas que se estendem para dentro da memória mais escondida dos homens.

Despertar não chega, porque depois de despertos, e conseguindo manter esse estado, é necessário o equilíbrio entre os quatro elementos da natureza que vivem dentro de nós: o fogo da paixão, a água da sensibilidade, a inteligência do ar, o pragmatismo da terra. Só em equilíbrio se evitam pequenas ditaduras, e evita-se também a contradição levada ao limite por Gurdjieff: o grande despertador, que levava as pessoas a dançar pela vida fora de maneira a que estas estivessem bem despertas, com o corpo alerta, com um permanente sentido de presença, capazes de reagirem por elas e não como se fossem máquinas, sim, esse grande despertador, acaba por morrer em consequência de um desastre de carro. E o desastre é o contrário da harmonia.

Quem dera a perfeição de um voo de um pássaro, assim, suave, harmónico, presente, ainda que inconsciente, perfeito…

quinta-feira, 8 de julho de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 70

Sobre o extermínio de uma tradição: os verdadeiros americanos
para o António Carlos Carvalho, pelo seu aniversário


O artigo facsimilado que agora se republica é da autoria de António Carlos Carvalho, que hoje celebra 63 anos de vida, e foi publicado na revista-livro Cadernos de Ecologia e Sociedade, n.º3, 1976 (Ed. Afrontamento).
clique nas imagens para as ampliar








quarta-feira, 7 de julho de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 69

Trovas de um descendente do Bandarra,
sapateiro de Trancoso - (7) - 4.ª e última parte
Eduardo Aroso

Do sagrado simbolismo
Só sábios podem falar.
E não apenas quem pode
Enredos inventar.

Cada um que se contente
Com o que dá a sua leira.
Mas não venha tapar-nos
O sol com uma peneira.

Cada qual não queira mais
Do que dá sua lavoura.
Pois a justiça do tempo
Dá-lhe um golpe de tesoura

Há quem ganhe com a Língua
Às vezes só pela fama;
E há quem pague p’la língua
Se renega a sua cama.

Ali junto a Belém
Queria eu outros fados:
Mudar o tom à nação
De heróis desafinados.

Falsa luz sempre existiu
Tem altar cá no país.
É que tantos frutos d’oiro
Não os dá qualquer raiz.

Mas tudo isto há-de mudar
Com o Arcanjo Miguel.
Quem está lá, lá ficará,
Nas ruínas de Babel.

Solstício de Verão, 2010

terça-feira, 6 de julho de 2010

PARA LER: ISABEL XAVIER

Memória. Uma pessoalíssima evocação da terra natal e da vida familiar, num olhar ternurento e saudoso, que nos transporta ao meado do século que passou -- eis o que nos oferece Isabel Xavier, do círculo dos Cadernos, no muito interessante blogue dos Antigos Alunos do Externato Ramalho Ortigão, na rubrica "À Janela..."

segunda-feira, 5 de julho de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 68


Trovas de um descendente do Bandarra,
sapateiro de Trancoso - (7) - 3.ª parte
Eduardo Aroso


O que se vê diariamente
De bancada em bancada:
Tem rendimento garantido
A república instalada!

E a pátria está pronta
E a bandeira nacional
Perdoando aos seus filhos
Que a trataram tão mal.

O que há que fazer um dia
Aos verdadeiros heróis?
Não os que sempre a deixaram
Embrulhada em maus lençóis.

Portugal anda dormente
Embrulhado na ignorância.
Não distingue a sua alma
Nem calcula a distância.

Tudo muito bem urdido,
Nevoeiro provocado.
Foi trocada a bela trova
Por um sarcástico fado.

Sentou-se o mal no seu trono
Em estilo nunca visto,
Querendo as suas “profecias”
Mais alto que Jesus Cristo!

E enfermas instituições
Só se abrem em certos dias.
Batem-se palmas sem alma,
Palmas de hipocrisia.
(continua)

sexta-feira, 2 de julho de 2010

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 42

António Carlos Carvalho
Esta noite sonhei com Monsieur Chouchani. Ou melhor, sonhei que alguém dizia a outro: «Isso faz-me lembrar o que dizia o meu mestre, Monsieur Chouchani.» Então o despertador tocou e acordei, ficando sem saber o resto da conversa.

Monsieur Chouchani

Imagino que este nome não diga nada a quase ninguém. Só faz soar campainhas a quem estudou a fundo a vida do filósofo Emmanuel Lévinas e do escritor Elie Wiesel -- ambos foram discípulos do tal Monsieur Chouchani. E ambos ficaram para sempre marcados por essa experiência. Lévinas e Wiesel falaram dele ocasionalmente, num livro ou noutro ou em entrevistas.

Lévinas: «No meu regresso do cativeiro num campo de prisioneiros franceses na Alemanha, conheci um gigante da cultura tradicional judaica. Não vivia a relação com o texto como uma simples relação de piedade ou de edificação moral mas como um horizonte de rigor intelectual. Gostaria de dizer o seu nome. Era Monsieur Chouchani. Tudo o que publico hoje sobre o Talmude devo-o a ele.» «Foi ele que me ensinou como buscar, como perfurar nos textos, tudo o que se podia tirar de um pedaço de texto». «Um mestre que nos mostrou o que pode o verdadeiro método. Para nós, tornou impossível para sempre o acesso dogmático, puramente fideísta, ou mesmo teológico do Talmude. Um ser excepcional, extraordinário em todos os sentidos e também no sentido literal do termo.»

Emmanuel Lévinas

Wiesel: «Ele conhecia todas as cidades, todos os países, todas as línguas. Era alguém muito misterioso. Era o saber insondável, o conhecimento infinito. De onde vinha? Vinha de todo o lado. Sentia-se tão bem na Argélia como em França, na Palestina como na América. E direi também que se sentia tão estrangeiro aqui como noutro lugar. Era simultaneamente estrangeiro, separado e soberano. » «Viveu dos cursos que dava a professores universitários nos seus campos específicos. Portanto, ensinava a filosofia aos filósofos, a matemática aos matemáticos, e a física aos físicos.» «Aceitava a ignorância, aquela que se confessava como tal. Mas o ignorante que pretendia saber, deixava-o furioso. Demolia, humilhava. Mais tarde utilizava métodos zen-budistas, devastava antes de reconstruir. Transformava-nos em peças dispersas. De repente não éramos nada, tudo o que sabíamos era menos do que nada. Mas era isso que me fascinava nele.» «Não morava em nenhum lugar, não tinha uma camisa lavada para trocar de roupa, podia passar a noite em minha casa sem se despir, dormindo uma hora ou duas; chegava a sentir pena dele. E nunca o ouvia chorar ou rir.» «Tinha uma memória fotográfica. Mas conhecia não apenas o valor da memória como também o peso da memória. Conhecia não somente o Talmude e os comentários do Talmude como também tudo o que foi escrito depois acerca do Talmude, mesmo as obras críticas.» «Ouvi-o falar durante três horas sobre o segundo versículo de Isaías: “Escutai, céus! Terra, presta atenção.“» «Podia falar durante horas, sem nunca se repetir, sobre a mesma frase, o sentido da frase, a importância da frase, a qualidade literária da frase. Tinha o sentido da poesia, a noção da linguagem. Era um artista da palavra. Um artista da magia da palavra. Nunca o vi abrir um livro. Ele próprio era um livro vivo. Conhecia tudo de cor.»
Estes e outros depoimentos encontram-se num livro (o único que conheço sobre este sábio com aspecto de vagabundo errante): «Monsieur Chouchani --L’énigme d’un maître du XXe siècle», de Salomon Malka (ed. JCLattès, 1994). Monsieur Chouchani morreu em 1968, numa pequena aldeia perto de Montevidéu. No livro de registo dos óbitos figura o seu nome assim: «Mardoqueo Bensoussan, entre parênteses Chouchani, novos parênteses, Ohnona. Nacionalidade, marroquina. Solteiro. Idade: 63 anos.»
Salomon Malka comenta: «Conhecem alguém neste mundo que tenha sido enterrado sob três nomes diferentes?»
Este homem enigmático nunca foi manchete de jornal nem notícia de telejornal, passou por este mundo quase clandestinamente -- mas marcou para sempre as vidas daqueles privilegiados que o conheceram.
É importante lembrar estas coisas numa época em que nos enchem os olhos e os ouvidos com criaturas que são apenas imagens, «cascas» sem conteúdo, mais parecendo hologramas do que seres humanos reais.
… E eu continuo sem saber porque é que tive este sonho igualmente misterioso.
Mas talvez uma noite destas o sonho tenha continuidade e eu perceba a razão de ser desta e de outras histórias nocturnas.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 67


Trovas de um descendente do Bandarra,
sapateiro de Trancoso - (7) - 2.ª parte
Eduardo Aroso


Nem toda a luz nos eleva
Que sobre nós se derrama.
Se tem ódio ou inveja
Não é pura essa chama.

‘Stão as direcções trocadas
Neste caótico recanto.
Mas a Hora guia a História
Sopro do Espírito Santo.

Só p’lo dizer Portugal
Sobe ao céu uma oração.
E a quem servimos afinal:
Ao governo ou à nação?

Só de pensar Portugal
Há um grande clarão.
E ao mesmo tempo o mistério
Oculta grande razão.

Mas um dia a juventude
Vai saber certa verdade:
Só um tempo salva outro
Na vera continuidade.

E aquilo que pressinto
É a maior revolução:
É o povo atirar fora
Tanta falsa educação!

São os Silvas e os Sousas,
O José e ainda o Mário;
São os anti-portugueses
Do nosso triste fadário

Diversos lá no seu jeito
Num tom que anda trocado,
E havendo até alegres
São todos fardo pesado.
(continua)

PARA VER

Pedro Martins, Cynthia Guimarães Taveira e Roque Braz de Oliveira durante o lançamento do segundo volume dos Cadernos
____________

Cadernos. O fotoblogue Sesimbra, da autoria de João Augusto Aldeia, assinalou o lançamento de Singularidades, no passado sábado, na Biblioteca Municipal de Sesimbra.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 66

Trovas de um descendente do Bandarra, sapateiro de Trancoso - (7) -
Eduardo Aroso

(Estando eu a laborar, olhando o sapato com atenção,
pensei nos astros e no solstício - quando o sol parece ficar parado.

Reparei também que o povo, em grande agitação e maior cegueira, vai numa estranha procissão…)


É com certo sofrimento
Se vos tenho que falar.
Medito no momento
Para dizer ou calar.

Há porém ocasiões
Que me toca não sei quê
Pra mexer de outro modo
No que toda a gente vê.

Converso a sós comigo
E com os outros também;
E no meio disto tudo
Algo em nós vai e vem.

Neste ciclo de passagem
Não há alta velocidade!
Há o que se possa entender
Do que se chama verdade.

Diz-se que em certas alturas
Nos acorda um aguilhão.
Mas ele pode dar força
Ao malévolo dragão.

Pouco a pouco a esta ideia
O tempo nos conduz:
Só há dois grandes partidos
- O das trevas e o da luz.

(continua)

terça-feira, 29 de junho de 2010

PRÓXIMO SÁBADO, EM ÉVORA, ÀS 21:30

Apresentação. Luís Paixão e Roque Braz de Oliveira estarão presentes, no próximo sábado, em Évora, numa sessão de apresentação de Singularidades, segundo volume dos Cadernos de Filosofia Extravagante, que terá lugar no Intensidez Bibliocafé, a partir das 21:30.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

PENSANDO À BOLINA, 29

Pedro Sinde




A saudade da rola
Nesta rola que ao longe arrulha há algo que me encanta e incanta: o louvor nostálgico, hino triste, lamento, lamento que soa a lamento de exilado. Na sua tristeza, no seu exílio, ela parece chamar o seu amado que deixou nas turcas terras que a viram nascer.
O ritmo do canto nocturnal da rola é, ele mesmo, essa lonjura – logo expressa pelo número três: Hu-hu-huuuuuuu. Hu, em árabe, é a forma do pronome que exprime o ausente, a terceira pessoa: ele. É esta a tua invocação saudosa e triste: ele-ele-eeeeeeele.
Choras, meiga rola, pela memória desse lugar que deixaste; lembras-te ainda do Paraíso.
O teu canto triste e saudoso é, no entanto, uma forma de louvor, uma forma de louvar; e essa forma é única, porque é tua e só tua.
Choro ao ouvir-te, pois entendo o que dizes e, como tu, também eu canto, mas cá por dentro, aberto para a imensidão do mundo que trago em mim. Também eu, como tu, sei que saí do Paraíso; saí ou caí. E lembro-me dessa terra da origem quando vejo o mar ou o bosque aqui ao pé; lembro-me do Paraíso quando te ouço o lamento.
E nas asas da Saudade quer acender-se em mim uma chama que chama à porta do Paraíso pelo anjo da espada ígnea: o meu coração quer entrar já lá, lá onde o espera o seu tesouro, porque, glosando, ali onde o teu tesouro está o teu coração acharás. É que para cá nascer deixei o coração lá; e não faço agora outra coisa senão chamá-lo, como tu chamas, nesse arrulhar triste, pelo teu amado das terras turcas.

domingo, 27 de junho de 2010

«SINGULARIDADES»: O LANÇAMENTO, 2

fotografias de Maria José Albuquerque: clique nas imagens para as ampliar

Pedro Sinde, António Telmo, Pedro Martins e Isabel Xavier no átrio da Biblioteca Municipal de Sesimbra, após o lançamento de Singularidades
Luís Paixão (em primeiro plano, ao meio) à conversa no átrio da Biblioteca Municipal de Sesimbra, após o lançamento de Singularidades

EXTRAVAGÂNCIAS, 65

fotografia de Maria José Albuquerque: clique na imagem para a ampliar

em primeiro plano: António Telmo, acompanhado de sua mulher, Maria Antónia, e de sua filha, Anahi, durante o lançamento de Singularidades
________________________
Saudação*
Eduardo Aroso

Caros Amigos,

Não podendo estar fisicamente presente, gostaria de pedir-vos a vossa prestimosa atenção para uma tão simples como breve palavra. Assim, permitam-me que, muito respeitosamente, cumprimente António Telmo, e fazendo-o creio que saúdo todos os presentes no mesmo ideal. Seja qual for a diversidade, na certeza da liberdade que, verdadeiramente, só existe no e pelo espírito.
Neste momento, um sopro ou som comum nos une: a certeza de uma Língua Pátria que, também na diversidade para nomear e na liberdade de criar, está presente e habita-nos dia e noite, e através dela nos expressamos.
Seja então a mais bela oração feita poema ou o poema sendo a prece mais alta; seja então a tese ou antítese, o princípio ou o sistema. À imagem dos abnegados na «Seara do Senhor», sejamos então os obreiros da razão e da emoção nesta melodiosa seara da língua. Acentuemos-lhe a modulação e o timbre para mais amplo e fecundo pensamento. Meditemos na responsabilidade e na graça com que o Criador nos brindou, permitindo a existência da Língua Portuguesa, a bênção de escutar o grito da águia das montanhas e, em contraponto, o marulhar da orla, o mítico mar, o surgir das gaivotas sonoras que trazem horizonte e futuro.

Eduardo Aroso

Coimbra, 23-6-2010
____________
* (nota do editor) Texto da mensagem de Eduardo Aroso que foi lida durante a sessão de lançamento de Singularidades. O título é da responsabilidade do editor. Apesar da dispersão geográfica dos elementos que integram o círculo dos Cadernos, esta mensagem atesta bem a convergência de esforços e intenções que os une.

sábado, 26 de junho de 2010

«SINGULARIDADES»: O LANÇAMENTO, 1

fotografias de Maria José Albuquerque: clique nas imagens para as ampliar

da esquerda para a direita do leitor: Pedro Martins, Cynthia Guimarães Taveira, Roque Braz de Oliveira e Pedro Sinde
Aspecto da assistência na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Sesimbra

sexta-feira, 25 de junho de 2010

«SINGULARIDADES»: OS EXCERTOS, 15

Autobiografia Espiritual


António Telmo


NOVIÇO:

Frei Anselmo, aqui estou para que me interrogues, tal como mo fizeste saber pelo grande cabalista inglês Z'ev ben Shimon Halevy.
Ele indicou-te como aquele que, sem que eu o soubesse, secretamente me tem guiado pelos caminhos da verdadeira vida.
Descreveu-te como te vejo agora: um monge vestido como os franciscanos, mas não franciscano, capuz cobrindo a cabeça e corda à volta da cintura. Uma espécie de Savonarola, o rosto lembrando o de um falcão.

FREI ANSELMO:

Fui escolhido pela nossa augusta Ordem para teu mestre de altanaria.
Sou, na verdade, um domador de falcões.
O falcão é capaz, sobretudo o peregrino (repara bem neste nome) de atingir velocidades comparáveis às das ideias quando irrompem da concentração imóvel do pensamento em conquista das palavras de que se alimentam, mas que entregam submissas ao mesmo pensamento.
Aristóteles escondeu um grande segredo nas palavras onde diz que “a filosofia é como a altanaria”. Deixemos isso, porém, para os caçadores de enigmas.
Mais importante, neste momento, é lembrar as palavras que Dante, seguidor do filósofo grego, pôs na boca de Beatriz, ouviu da boca de Beatriz, quando, finalmente, apareceu a abrir-lhe as portas do Paraíso.

NOVIÇO:

Sei-as de coração. Oh! O maravilhoso abrir-se do Encontro, depois de se ter passado pelo Inferno e pelo Purgatório!:
“No meio de mil cânticos, eis que surge, vinda dos lados da Aurora sob o belo azul límpido, aquela a quem o Poeta chama Beatriz. O vestido tinha a cor da chama viva sob um manto verde e cingia-lhe a cabeça um ramo de oliveira.
Dante não reconheceu logo, nela, Beatriz; mas era tal a força divina de si emanada que, não com os olhos, com a alma sentiu o poder do seu antigo amor.
Tomado de desânimo e de espanto, voltou-se para dizer a Virgílio o terrível estado em que se encontrava a sua alma, mas Virgílio, o dulcíssimo mestre, tinha desaparecido. Agora, outro guia mais alto conduziria Dante nos caminhos do Paraíso: “Dante, põe aqui o teu olhar! Sou Beatriz.”
Perturbado, baixou os olhos cheios de dor causada pelo tom severo da voz de Beatriz. Cantavam os Anjos e as suas palavras eram: “Senhora, porque o mortificas?” E então ela contou como Dante se esqueceu do amor que lhe devia depois de morta e se pôs a percorrer caminhos errados. Enquanto ela teve uma forma natural, amou-a; mas logo que se revestiu de uma forma sobrenatural, esqueceu-a. Disse também Beatriz que de nada valeu que tivesse obtido de Deus para ele santas inspirações, aparecendo-lhe em sonho e por outros modos. Descera tão baixo que nenhum remédio o poderia salvar, senão um: o de mostrar-lhe as gentes perdidas.
E foi por isso que Beatriz desceu ao Inferno para pedir a Virgílio que o conduzisse ao reino tenebroso. Agora que ele tinha subido até ali, se passasse o rio Letes e saboreasse as suas águas sem primeiro chorar de arrependimento, seriam violadas as leis divinas.”

FREI ANSELMO:

Também nós te enviámos santas inspirações, te visitámos em sonho e por outros modos.
Eu próprio, por duas vezes, te enviei os meus falcões, uma para te confirmar no caminho de Deus, outra, mais tarde, para te indicar claramente esse caminho, de onde te havias desviado. Vê se o recordas.
Enviei-te muitas outras vezes os meus falcões, mas nunca soubeste interpretar os sinais que pus nos seus voos.

NOVIÇO:

Vinha de seguir os ensinamentos de um austríaco, poeta e mago. Caí, de repente, no vazio do desespero. Não tinha conseguido vencer a dúvida. Sabia, através daquele filósofo, que continuas pelo nome de Anselmo, que é necessário crer para compreender.
Subi à montanha no meu carro e entrei no eucaliptal. Ali fiquei sentado a olhar uma nesga de céu azul que se avistava por entre os eucaliptos, o meu espírito envolto nas sombras da dúvida, da odiosa dúvida inimiga da inteligência. Então, fechei os olhos e pedi a Deus que me desse um sinal de que era possível que eu o viesse a conhecer segundo as minhas capacidades. Abri os olhos e, no pedacito de céu azul, coisa extraordinária!, demorava-se pairando uma das tuas aves.
Foi esta a primeira vez.
Passaram-se muitos anos. Andava dividido em duas personalidades, sozinho entre as duas e, por este modo, a dúvida se instalara no próprio corpo da vida. Ali, era apenas de sentimento e de pensamento; agora, a dúvida consistia em eu ser dois.

FREI ANSELMO:

Foi então que recebeste o grande sinal.


(...)

«SINGULARIDADES»: OS EXCERTOS, 14

Os Portais do Entendimento


Luís Paixão

Ao António Telmo
Já ficou definitivamente demonstrada por António Telmo a ligação entre a história de Portugal e a iniciação na cavalaria espiritual do amor pela decifração e interpretação de dois dos nossos maiores monumentos: o claustro dos Jerónimos e Os Lusíadas. Essa doutrina, cujo carácter permanente em Portugal, desde o reinado de D. Dinis, foi tornado evidente pelo filósofo Sampaio Bruno, é descrita no seu livro Os Cavaleiros do Amor, para nossa felicidade reeditado recentemente pela Imprensa Nacional - Casa da Moeda com o título Plano de um livro a fazer e prefácio, organização e notas de Joaquim Domingues.
Pretendo, com este escrito, oferecer uma contribuição que porventura dê testemunho de novos indícios, reforçando as teses acima referidas.
Nesse sentido, os dois elementos construtivos e arquitectónicos que me proponho interrogar – porque me surpreenderam – são as duas pedras de fecho dos arcos dos portais Sul da Igreja de Santa Maria de Belém dos Jerónimos e da Igreja do Convento de Cristo em Tomar. Para tanto não posso deixar de revisitar a citação:
“Entendei que segundo o Amor tiverdes tereis o entendimento dos meus versos”.
Esta frase condicional do nosso maior poeta implica no sujeito que lê uma interrogação a si próprio.
O que é essa coisa – o Amor? E, conhecendo-o, se o vive, em relação a quê ou a quem? Qual o grau, a medida e a intensidade que são condição? Não é a razão, não é o saber, não é a vontade, não é tampouco a memória – o amor é que é a chave para o entendimento. O amor de que aqui se fala é uma potência que não terá nada que ver com os modos de viver e sentir contemporâneos como a afectividade para com os automóveis ou outros objectos traduzida no “I love my car” ou na terrível e obscena substituição dos amores maternal, paternal, filial ou fraternal pela afectividade de um cão, de um gato ou de uma iguana, porque menos exigente em termos de relação ou de consciência do outro. Proliferam os veterinários para animais de estimação, a venda de brinquedos para os bichos e também os depósitos de pessoas a que se chama lares de terceira idade. Não que me anime o desprezo pelos animais, mas a diferença no grau de relação impõe seguramente maior sensatez nas atitudes.
O amor a que se refere Camões tem como paradigma o amor entre o homem e a mulher na sua mais alta e radical assumpção, como incessantemente procurou nos sonetos da sua obra lírica, desafiando e expondo-se sistematicamente às flechas do irrequieto cupido, num intenso itinerário iniciático de um Fiel do amor. Tendo em mente o suplício de S. Sebastião, que foi morto trespassado por flechas, e numa hipótese algo arriscada, poderemos, por comparação, justificar a “enigmática presença” da figura do Santo, nas palavras de Paulo Pereira, no lugar do fundamento (Yesod) da Árvore Sefirótica, no Portal dos Jerónimos, e que adiante iremos desenvolver.
Há naquela frase um outro aspecto que convida à reflexão e que é a duplicação do conceito entender no verbo e no substantivo, uma insistência que, de certo modo, agride o bom exercício da língua, e que só é compreensível em Luís de Camões pela exigência de chamar a atenção do leitor para qualquer coisa de importante.
A palavra entender está em português ligada ao sentido da audição e tem implícito, além do de ouvir, o sentido de compreender o que se ouve. É portanto um ouvir inteligente. Na audição há o ouvido externo e o ouvido interno, tal como existe a palavra exterior e a palavra interior. Todos sabemos e aceitamos que os poetas se aproximam da língua falada por Adão e Eva no Paraíso. Não se pode gostar de poesia se se não apurar o ouvido interno. Quero dizer que quando leio poesia ou estou alheio e, de certo modo, apático e surdo; ou então algo ressoa em mim, que irmana com o que o poeta escreveu – e nesse momento acertamos na linguagem universal, aquela que existia antes da queda de Babel. Não há mal-entendidos, não há portanto esclarecimentos ou necessidade de tradução.

(...)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

«SINGULARIDADES»: AS IMAGENS


clique na imagem para a ampliar

Grafismo. À semelhança do que já sucedera com o número de estreia, é de Pedro Sinde o grafismo, esmerado e sóbrio, de Singularidades, segundo volume dos Cadernos de Filosofia Extravagante. Quanto à emblemática palmeira que, de novo, ilustra a capa, trata-se, como é sabido, de um desenho da autoria de Carlos Aurélio, que, no interior da publicação, assina ainda uma série de outros desenhos inspirados na obra de António Telmo, mentor deste projecto. Um portfolio com belíssimas fotografias de Tiago Sobral Cunha completa a ilustração das páginas que agora se dão a lume.

«SINGULARIDADES»: OS EXCERTOS, 13

O quarto e a quinta


Luís Paixão
Ao Pedro Martins
A casa portuguesa, síntese romana, judaica e cristã, é o lugar da vida familiar onde acontecem os mais belos gestos de carinho e onde são ditas as mais altas palavras; mas, por outro lado, é ali também, na habitação, lugar de habituação, que se instalam o óbvio e a apatia.
Por isso, as palavras a ela directamente ligadas, e que fazem parte do quotidiano do nosso dia-a-dia, têm tendência a ser pouco interrogadas, embora elas manifestem aquilo que há de mais distinto e autêntico no culto, na cultura e na civilização de um povo, porque são aquelas que estão mais ligadas com a sua vida.
Há cerca de 20 anos fui convidado, no exercício da minha actividade profissional, a desenhar o projecto de recuperação de uma pequena casa rural com algumas centenas de anos, localizada no concelho de Sesimbra. A construção de paredes grossas de alvenaria de pedra tinha uma planta quadrangular dividida rigorosamente em quatro partes, coberta por um telhado de quatro águas. Aquela configuração é muito comum na região saloia, ao norte de Lisboa; e também ao sul, na península de Setúbal. Como fiz o levantamento, fui interiorizando a divisão em quatro e, naturalmente, surgiu no meu espírito essa extraordinária relação entre a designação quarto e um quarto da casa. Não conheço nas línguas europeias qualquer relação entre esta palavra e a designação de um compartimento. Actualmente designa apenas os espaços destinados ao dormir, mas no nosso território camponês o termo ainda é genérico, podendo designar compartimentos com outra finalidade.
(...)

«SINGULARIDADES»: OS EXCERTOS, 12

A relação Médico – Doente

Paula Costa


O relacionamento entre um paciente e o médico é muitas vezes tenso, infeliz ou mesmo desagradável – é nestes casos que a palavra Médico não tem os efeitos desejados e muitas vezes essas situações são trágicas.
O médico tenta fazer o seu melhor – e mesmo assim, apesar de sinceros esforços de ambos os lados, as coisas, às vezes, correm mal.

Algumas pessoas têm dificuldades em ajustar-se aos problemas da sua vida e encontram refúgio na doença. Se o médico tiver oportunidade de as observar nas primeiras fases dessa doença – isto é – antes que ela se instale de forma “organizada” e definitiva, poderá verificar que os doentes oferecem ou propõem diversas doenças, até que ocorra um acordo entre o médico e o doente, em que ambos aceitam uma das doenças.
A variedade de doenças disponíveis para cada indivíduo é limitada pela sua constituição, pela sua educação, pelo seu estatuto social, e pelos seus receios conscientes ou inconscientes e as suas fantasias acerca da doença. O efeito médico principal – de substância – é a sua resposta às ofertas do doente.
Muitas vezes o doente pede primeiro um nome para a doença e um diagnóstico em segundo lugar, querendo saber o que pode ser feito para aliviar o seu sofrimento, como também as restrições e privações provocadas pela doença.
Algumas pessoas, ao adoecerem, propõem ao seu médico um leque do doenças potenciais – a partir do qual ele – médico – deve escolher uma aceitável.
A doença surge-lhe sempre como uma experiência inquietante e ele sente que algo está mal: para o médico o diagnóstico tem um efeito tranquilizador e, em primeiro lugar, é sempre um diagnóstico “físico”. As razões em regra avançadas para tal prendem-se com a ideia de que a doença física é mais grave do que a doença funcional – e ele sente muito justificadamente que fez um bom trabalho pois encontrou a verdadeira causa do sofrimento. É admissível que cada médico, quando confrontado com novo doente, tente atribuir-lhe um nível elevado e apenas o relegue à categoria de neurótico quando não encontra qualquer justificação para lhe assegurar o estatuto respeitável.

(...)

quarta-feira, 23 de junho de 2010

«SINGULARIDADES», OS EXCERTOS, 11

Uma nota a «O Conto de Amaro»


Pedro Sinde


N’O Conto de Amaro diz-se que há um paraíso na Terra. Não é
ainda o paraíso celeste, mas o ponto máximo que ao homem é dado
atingir nas condições em que aqui vive: o tempo e o espaço. Por isso
o paraíso na Terra tem ainda espaço e tempo, mas é um espaço muito
subtil que contrasta com o grosseiro da matéria, é um espaço em que
a plasticidade da matéria é muito parecida com a dos sonhos; por
outro lado, o tempo tem um tipo, uma qualidade de duração muito
diferente, a sua estrutura ontológica também é outra. É um tempo já
muito próximo do eterno, se fosse possível aproximar qualquer tempo
à eternidade; em todo o caso um dia lá são centenas de anos cá. De
algum modo se poderia dizer, portanto, que o paraíso na Terra é um
estado intermediário entre o cá e o lá.
O homem nunca se satisfez com a ideia de que o absoluto não se
relacione com o relativo e, por isso, por muito absurda e antinómica
que uma tal relação pareça à razão, é a própria razão que impõe como
necessária essa relação. Dada a relação como evidente trata-se pois de
desvendar o modo, a estrutura ontológica segundo a qual ela ocorre.
Este conto medieval narra a história de um homem, Amaro, que
tinha um só desejo: ver o paraíso terrenal. A toda a hora ele procura
apenas isso, a simples ideia de um paraíso na Terra é demasiado fascinante para que lhe possa resistir. As suas orações diárias não têm outro fito senão o de pedir a Deus que lhe conceda em vida a visão do paraíso terrenal.
Uma noite, cismando com o paraíso, Amaro ouve uma voz que
lhe diz:
“Amaro, Deus ouvyo a tua oração e quer comprir o teu rrogo e
desejo. Vay te a[a] rrybeira do mar e nõ digas a nenhum nenhua cousa de teu feito ne pera hu vaas. E mete te e hua nave e vay te hu te Deus quyser guyar.”

(...)

«SINGULARIDADES»: OS EXCERTOS, 10

Para uma poética atlântica da casa

Pedro Martins
ao Luís Paixão
(...)

4. Todavia, não é apenas pela perversão desfiguradora das palavras que ocorre o desvirtuamento da língua portuguesa enquanto suporte de uma filosofia do movimento. Devemos, igualmente, prevenir os casos de introdução, intromissão ou intrusão de vocábulos alheios que neutralizam, quando não subvertem, aquela capacidade expressiva.
Tenha-se presente a palavra piso, de óbvia origem castelhana, cuja utilização vem, nas últimas décadas, substituindo o uso da palavra andar – quando esta seja tomada na acepção de estrato – na nomenclatura arquitectónica, com especial incidência nos edifícios afectos a serviços públicos.
Na alternativa enunciada pelo confronto dos dois termos espelham-se duas visões do mundo claramente distintas e até, de certo modo, antagónicas. Do pisar (estático) para o andar (dinâmico) vai a diferença que se verifica existir entre quem fica e quem parte, sabido que andar é próprio de alguém que está em movimento, ou em viagem.
Neste passo do nosso caminho parece adquirir grande pertinência a destrinça, por António Quadros operada no primeiro livro de
Portugal, Razão e Mistério, entre nações terrestres e nações marítimas, num quadro elementar, simbólico de determinações ideais, que admite matizes e abarca igualmente as nações voláteis e as nações ígneas.
Na visão de Quadros – que, em certa medida, se revela tributária dos ensinamentos de Gaston Bachelard –, a predominância do elemento
terra relaciona-se com “a radicação telúrica do homem, com os mitos e rituais de fertilidade nas civilizações agrárias, com a poética da paisagem e das raízes”; “com o repouso idílico ou com a detenção do movimento, definida a condição humana entre o berço e o túmulo”; e, num outro plano, “com o voluntarismo, isto é, com o domínio, com a conquista, com o sistema e bem assim com a atitude de desconfiança ou de repúdio perante a imaginação, o sonho e a transcendência em todas as suas formas”[i].
Por isso, o filósofo da
Arte de Continuar Português pode concluir que “o absolutismo da razão (prática, dialéctica ou sofística), da ideologia dogmática, do sistema filosófico totalizante, do totalitarismo, da conquista material, do império voluntarista sobre os homens e as nações é da ordem da terra”, num percurso histórico que se faz “do centro das massas continentais (panoramas de montanhas, vales, florestas) para as margens dos grandes rios ou para as periferias marítimas, que pretendem dominar e converter”[ii].
Este breve, mas decisivo, excurso por um aspecto fundamental da obra-mestra de António Quadros resultaria, de alguma sorte, inconsequente se se não acrescentasse que o filósofo, no remate da proposição que venho de transcrever, inclui os castelhanos da meseta ibérica entre os povos referidos ao conjunto das nações terrestres. Dadas as evidências, bem se compreenderá que ao nosso vocábulo
andar (na acepção apontada) correspondam na língua castelhana a palavra piso e – o que, se ainda não foi dito, é porventura mais significativo – a palavra planta.

(...)
____________
[i] António Quadros, Portugal, Razão e Mistério, Livro I, pp. 47-48.
[ii] Idem, p. 48.


«SINGULARIDADES»: QUEM TEM CAPA...

Lançamento no próximo sábado, 26 de Junho, às 15:00, na Biblioteca Municipal de Sesimbra



Continuidade. O lançamento de Singularidades, segundo volume dos Cadernos de Filosofia Extravagante, tem lugar já no próximo sábado, 26, pelas 15:00, na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Sesimbra, no âmbito do ciclo Portugal Renascente, iniciativa conjunta dos Cadernos e da revista Nova Águia, em parceria com a edilidade sesimbrense. A apresentação estará a cargo de Cynthia Guimarães Taveira e Roque Braz de Oliveira.


terça-feira, 22 de junho de 2010

«SINGULARIDADES»: OS EXCERTOS, 9

Palavra de alma


Cynthia Guimarães Taveira


(...)

Observações pontuais à nossa língua são frequentes como se esta fosse, em simultâneo, coisa próxima e distante. Estranhamos a própria língua, tal como estranhamos o nosso próprio país. Não nos habituamos aos dois. Recordo um artigo numa revista sobre estrangeiros em Portugal, sendo que um deles, diferente dos outros, belga, salvo erro, tinha-se apaixonado primeiro pela língua portuguesa, antes de conhecer o país, pelos sons dela, sobretudo por um deles, o Ch. O chapinhar, espelhar, chamar letra a letra, os plurais, com “esses” chicoteando o final das palavras, tornando-as férteis e plurais. Para este estranho à língua, era um som que o sossegava, equivalente ao che-che-che, dito aos bebés para se acalmarem. Língua que, para ele, já falava sem que a conhecesse e o tranquilizava como nenhuma outra língua. Aspecto maternal da língua, será?
E ainda a letra S atribuída à serpente, como fundo de memória representando o nosso país. O S maldito e também bendito, como se nele fossem concentradas duas forças contraditórias, até pela forma, duas linhas opostas, em tensão, mas encontrando-se no meio. Dizê-lo bem ou dizê-lo mal: sonho, saudade, sabor, santo, sabedoria, mas também satânico, sarcástico, sorumbático, sádico. Yin e Yang, vivendo, lado a lado, neste extremo ocidental, onde japoneses vêm ver o fim do mundo ao Cabo da Roca, a volta na curva final da cauda do dragão mas também a crista, na primeira curva do seu início. Portugal é a curva que decide o uroboro em movimento perpétuo, motor imóvel decidindo o seu microcosmos por simples evocações. Não é sagrada, a nossa língua, mas pode conduzir à consagração. É uma língua de missão, actuante, nómada e sempre, para o bem e para o mal, enamorada de outras.


(...)

«SINGULARIDADES»: OS POEMAS, 3

Verão da Alma


Isabel Xavier


Quando a tarde inteira se esvair
Sem que do dia reste qualquer mágoa
A maré alta da noite há-de subir
E as ruas da madrugada serão água

E um fino fio de sangue há-de jorrar
Do altar a meio da praça levantado
A horas mortas quando o sino ecoar
Avé Marias que ecoam do passado

Cenários de pedra e cal virão erguer
A vitória silenciosa de quem sente
E pouco a pouco aranhas vão tecer
A ténue teia dum tempo que não mente

E um dia caminhará atrás do outro
Até que um raio de luz enfim se aviste
E a artística lide de um só touro
O leve a ceder à espada em riste

Nada mais sabendo fico aquém
De algo que em mim se fez presente
Memória de um sentido mais além
Daquilo que a palavra diz ou sente

Inominável em mim e tão distante
Verão da alma, intenso, insuportável,
Quantos caminhos cruzarás adiante
Da viagem de regresso, interminável?

segunda-feira, 21 de junho de 2010

«SINGULARIDADES»: OS EXCERTOS, 8

Dois cantos de O Crocodilo, de Saint-Martin


Inácio Balesteros (tradução e nota introdutória)


Nota introdutória

«O Mal existe e é imoral negá-lo» - disse Leonardo Coimbra num dos seus livros; mas o Mal não é em si mesmo um princípio; o Mal não é imutável.

A obra O Crocodilo, de que vos apresentamos dois capítulos, trata precisamente da guerra do Bem e do Mal, passada em Paris, durante a Revolução Francesa; os dois capítulos que ides ler, tratam precisamente do Bem; do Bem que nas coisas anda, nas coisas e nos seres; Bem supra-natural, que constantemente nos acompanha.
Madame JOF é anagrama de FOI ou FÉ, na nossa bela língua. Ela e a “Sociedade dos Independentes” combatem por Paris, para que o “Génio do Mal”, o “Crocodilo” não vença; e é o que acontece, por isso mesmo, porque o Mal não é imutável.
Contamos apresentar dentro em breve a tradução completa desta obra; até lá deixamos-vos com a leitura destes dois capítulos.

(...)

O CROCODILO

Canto 14


História de Madame JOF
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________

Com as últimas palavras, esta mulher, que dizia chamar-se Madame JOF, dissipou-se no ar como vapor; desaparecendo desta forma súbita e extraordinária, deixou o voluntário Ourdeck tomado de um espanto que o leitor compreenderá facilmente. Mas como ele não tinha a mínima ideia de quem era esta Madame JOF, é necessário dar-lhe a conhecer o que uma tradição de muito poucos conhecida conservou.
Esta mulher nasceu no ano de 1743, na força do Inverno, na capital da Noruega, a sessenta graus de latitude. Foi o fruto de uma gravidez extremamente dolorosa, e o seu nascimento foi assinalado por acontecimentos extraordinários: durante oito dias, a contar daquele em que veio ao mundo, o Sol ficou tanto tempo sobre o horizonte como durante o solstício de Verão; todas as neves se fundiram; as águas dos rios correram; os prados cobriram-se de verdura, os jardins de flores, as árvores de frutos. Mas o mais extraordinário foi que os cardos e as plantas venenosas ou malsãs não nasceram.
Diz-se mesmo que o famoso abismo do Malstrom se cerrou e que os barcos puderam navegar em segurança; acrescentam que os mágicos negros, de que o norte é um formigueiro, foram de tal forma perturbados nas suas operações que tiveram de as abandonar; que mesmo os pequenos malfeitores foram de tal forma atormentados na sua consciência que, vinte léguas em redor, não se ouvir falar de nenhum crime.
Um historiador sábio, membro da academia de S. Petersburgo, amigo do pai da criança, de visita no momento destes acontecimentos, foi subitamente tomado por um espírito profético. Aproximou-se do berço da menina e depois de a olhar com atenção, anunciou que seria grande em conhecimentos e virtudes, mas que o mundo não a conheceria; seria no entanto a cabeça de uma Sociedade que se estenderia a todas as partes da Terra; que esta Sociedade se chamaria dos Independentes, e que não seria semelhante a nenhuma outra conhecida do mundo.
Observou de novo a menina e, carinhosamente, fez uma segunda profecia que não foi conhecida nesse tempo, e que, mesmo nos nossos dias, só um pequeno número a conhecerá: que ela ensinaria os homens a viver até aos 1473 anos. Pouco depois, deixou os seus amigos e voltou para a sua pátria, onde, com grande espanto dos seus concidadãos, contou a história de que acabava de ser testemunha.
A jovem norueguesa manifestou, desde a mais tenra idade, o destino singular que lhe fora predito. Começou a andar muito tempo antes do que sucede com as crianças vulgares; viam-na afastar-se do convívio humano, como se a frivolidade do mundo pesasse sobre ela. Desde que as primeiras luzes da razão se manifestaram no seu pensamento, dizia coisas tão acima da sua idade que todos os que a ouviam ficavam surpreendidos.
Se, na sua presença, pessoas instruídas tratassem questões relativas às ciências, ou aos mais profundos conhecimentos, mostrava, não só compreender tudo o que diziam, mas que, se quisessem, ela podia ir mais além e mais alto. «Porque, dizia-lhes ela algumas vezes, é no mundo da ciência que deve aparecer o poder da reminiscência; que se pudessem interrogar-se e conhecer-se a si próprios, veriam que luz maravilhosa poderiam comunicar aos que os ouviam. Poderia um músico encantar nossos ouvidos, com o som do seu instrumento, se não tivesse antes e sem cessar, o cuidado de aspirar o ar?»
Chegada a idade de sete anos, desapareceu da casa dos pais; queria encontrar o momento e o lugar onde o sol se levanta; desde então, nunca mais se soube, nem os caminhos por onde andou, nem os lugares que habitou; soube-se somente, por tradição, que usou vários nomes e tomou diferentes qualidades; que tinha a faculdade extraordinária de se fazer conhecer ao mesmo tempo em diferentes países, e a pessoas vivendo em lugares distantes uns dos outros, que não tinham entre si qualquer relação; enfim, que era devida a esta faculdade de estar ao mesmo tempo em lugares diferentes a impossibilidade de se saber onde morava; que era olhada como uma verdadeira cosmopolita, no sentido rigoroso do termo, que não foi bem compreendido, quando a apresentaram como se de um ser errante se tratasse.
Como habitava em qualquer lugar do mundo, em cada um tinha a sua Sociedade dos Independentes, a qual, na verdade, se devia chamar Sociedade dos Solitários, já que cada homem tem em si mesmo essa sociedade.
Madame JOF, dadas as circunstâncias infelizes que ameaçavam Paris, reunia frequentemente nesta Capital a sua Sociedade, para a informar das verdadeiras causas dos acontecimentos que se preparavam, e para os incitar a que, com os poderosos meios que possuíam, ajudassem a Capital na resistência ao inimigo mortal.
Como esta Sociedade se distinguia inteiramente de todas as sociedades conhecidas, não se podendo dizer que era uma sociedade, não se pode entender a palavra reunir com o significado que vulgarmente se lhe atribui. Assim, ainda que apresente aqui Madame JOF como reunindo os diferentes membros da Sociedade dos Independentes, a verdade é que não se juntavam; que esta assembleia se realizava estando cada um dos membros isolado do outro, estivesse onde estivesse, sem estar sujeito a um local, a nenhuma cerimónia, ou limitado por casa fechada; que cada um dos membros tinha o privilégio de ver ao mesmo tempo todos os outros, e de por eles ser visto; que enfim, tinham o privilégio de estar todos em presença de Madame JOF, como Madame JOF tinha o privilégio de estar presente a todos ao mesmo tempo, quando quisesse, qualquer que fosse a distância ou o lugar que habitassem.
Foi devido a este privilégio que os diferentes membros da Sociedade dos Independentes, comunicaram uns aos outros o estado de perturbação em que a Capital estava mergulhada, e se encontraram com Madame JOF. A seguir damos-lhe um resumo do que ela lhes disse nas diversas assembleias que, como já dissemos, não são como as assembleias vulgares.
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«SINGULARIDADES», OS EXCERTOS, 7

Ode em prosa pela Língua Portuguesa

Carlos Aurélio


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II
Eu creio que as línguas têm língua, quero dizer, língua mesmo como cada homem tem a sua, se não em carne que afinal por si não faz falar pois os animais têm-na e não falam, mas, pelo menos, uma língua que é alavanca ou corda de alma como imagino a nossa. As línguas têm língua assim ao modo mais ou menos misterioso como as consoantes na boca caçam vogais, dito melhor, como as tangem e acariciam vibrando nelas como cordas de harpa ou de guitarra, portuguesa ao caso de quem isto lê. E sei pouco do que digo, ainda que admire, e muito, o que outros disseram quando um dia se puseram a pensar sobre a língua que amavam, ou melhor, sobre a língua em que amavam. Quem quiser, bem pode ir remar na epopeia de Camões, ou rimar na prosa do Padre António Vieira, ou então, cismar analogicamente com António Telmo que um dia se pôs a colher frutos de uma certa árvore sefirótica plantada na sua Gramática Secreta da Língua Portuguesa. Secreta, ali, quer dizer sagrada porque é do Céu que descem até nós as línguas, tal como no Pentecostes, dadas a todos assim o sol quando nasce que, quando se põe, já depende do que fizermos com ele.
As línguas têm língua, o sino badalo e, as flores, androceu entumecido de estames e pólen doirado. Também nós temos boca e nela a língua, cega e misteriosa, alavanca de potência espiritual a sondar o palato. É sabido e certo que o homem fala sem que esteja apetrechado de aparelho fonador específico, moldando plasticamente o ar em seu percurso vital, afinal similar ao de outro mamífero, ao de qualquer ave ou mesmo réptil. Porque não falam os gatos ou os cães? Porque não raciocinam por palavras macacos ou golfinhos? Se, ao que parece, o genoma humano é 99% igual ao código genético do chimpanzé e, todavia, só o homem fala e raciocina, não é de concluir que a diferença decisiva está precisamente no invisível espiritual que se pretende negar? Nesse 1% cabe um salto de infinito. Tudo será apenas darwinismo transformista e patamares atrasados da evolução que, em dia de “São Nunca”, dará palavras pensadas a baleias e papagaios? Quanto cientismo por desmistificar?
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domingo, 20 de junho de 2010

«SINGULARIDADES»: OS EXCERTOS, 6

A Língua Portuguesa e o Acordo Ortográfico


Renato Epifânio


I
Quando o António Telmo, na esteira do Pedro Martins, me convidou para colaborar nos CADERNOS DE FILOSOFIA EXTRAVAGANTE, para este número dedicado à “Língua Portuguesa”, logo me pôs completamente à vontade: “Pode defender as suas ideias” – disse-me. E à minha réplica – “eu defendo sempre, em todos os lugares e circunstâncias, as minhas ideias” –, logo concretizou: “Pode defender o Acordo Ortográfico”.
Sorri, lembrando-me do desafio que eu próprio havia feito ao António Telmo para ter colaborado no segundo número da NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI – dedicado não apenas a António Vieira mas também ao “futuro da lusofonia” –, precisamente com um texto contra o Acordo. Isto porque o António Telmo é (muito legitimamente, já lá iremos) contra o Acordo Ortográfico. O António Telmo e, presumo, a grande maioria, senão a totalidade, das pessoas que nesta revista mais regularmente colaboram. O António Telmo, de resto, já foi publicamente interpelado sobre a sua participação no movimento criado em torno da NOVA ÁGUIA, o MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO, dado que este movimento cultural e cívico lançou mesmo uma petição on-line a favor do princípio do Acordo Ortográfico. Não apenas em defesa de António Telmo, respondi ao interpelante esclarecendo que o MIL era um movimento plural, com diversas tendências e sensibilidades, e que essa petição lançada relativamente ao Acordo havia sido, de longe, a mais controversa no universo das cerca de quatro mil pessoas que a este movimento já aderiram (como se comprovou num Inquérito entretanto realizado).
Lembro isto apenas para justificar a minha aceitação do convite do António Telmo. Ainda que essa aceitação tivesse – tenha – uma outra e maior razão: ao aceitar escrever um texto a favor do princípio do Acordo Ortográfico, faço-o em homenagem ao espírito de liberdade que sempre animou a Filosofia Portuguesa. E que, por isso, habita também, sem qualquer surpresa para mim, nestes “Cadernos”.

(...)

«SINGULARIDADES»: OS POEMAS, 2

O Som e o Dom


Eduardo Aroso


Vigiar o verbo cumprindo o ritual,
Terra e céu oficiantes em comunhão:
Alta é a prece, pronúncia de Portugal,
Espada feita arado de outra visão.

*

Retomar a esperança em riste de Viriato
- A liça que é a nossa só existe pelo ser.
Algures sopra de novo uma aragem doce
Sobre as floridas trepadeiras franciscanas
E as crianças, bússolas do destino mais belo!
Cuidar das letras e das rosas plantadas,
Dessas orações fortalezas e castelos
Mais altos que o gume das espadas.

*

O m ondulando, moldado ao mar,
Murmúrio e mito, marés do palato.
Vogais e consoantes brisas a cantar
Sobre as águas, flor do som sem hiato.
Suspensa se torna a quem escuta
A cadência vital da livre respiração.
De súbito o sentido no seio do ser
E em saudade-silêncio soa o s bastião!

4-4-2010

sábado, 19 de junho de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 64





Sensibilidade artificial
Cynthia Guimarães Taveira

Há agora uma nova mania, herdada, provavelmente, do imaginário da Ficção Científica, da chamada casa inteligente substituindo as chamadas casas assombradas. Se as casas assombradas possuíam vida própria, animadas pelas suas memórias e fantasmas, estas novas casas possuem igualmente uma espécie de vida própria, animadas por memórias induzidas e fantasmas sem problemas emocionais: até os fantasmas se transformaram em robôs computorizados, automatizados nas suas decisões.
Gilbert Durand, nas suas “Estruturas Antropológicas do Imaginário”, ensina-nos a ideia, na linha de Bachelard e de Jung, de que as casas podem ser vistas como o próprio reflexo do homem: a sua porta de entrada, os seus corredores e voltas, as suas caves e os seus sótãos seriam afinal a imagem do próprio corpo humano desde a base à cabeça, culminando na chaminé (o alto da cabeça) por onde sai o fumo etéreo em direcção ao céu.
Quando entro na casa de alguém, bem lá no fundo penso que procuro, pela imagem que me é dada, mais do que o corpo da pessoa: a sua alma e o seu espírito. Assim, a casa, sob o ponto de vista simbólico, deixa de estar tão hierarquizada, numa pirâmide interpretativa, para passar a ser bem mais complexa. Ela, de algum modo, transmite essa mistura emocional que resulta da inteligência e da sensibilidade como resultado das vivências. A casa torna-se pois um labirinto de cheiros, memórias, fantasmas pessoais, modos de vida, interesses intelectuais, amores, etc. Ela é a entrada no Outro e num universo totalmente novo a descobrir.
Estas novas casas inteligentes correspondem a uma ideologia totalitária. A “ordem” e o “comando” são a sua essência. Os livros estão ausentes ou enfiados num computador, escondidos numa espécie de index inconsciente, aliás estes novos e-books não são de todo livros, não são exuberantes e companheiros, são fantasmas de livros, sopros digitais, práticos e desfigurados. A figura central da casa já não é a própria casa, é o “senhor” da casa. É ele que ordena e que comanda toda a acção: piscando os olhos fecha os estores, estalando os dedos fecha portas e a sua casa, que deveria ser um reflexo do seu próprio interior, passa, assim, a estar absolutamente dominada numa austeridade espartana sem espaço para o imprevisto ou para o sonho. A casa só vive, não porque tenha a sua própria Graça, mas porque existe a vontade do “senhor” e, em última análise, o senhor vive na absoluta dependência da tecnologia. Sem ela, a casa apaga-se, torna-se num emaranhado de fios inúteis. Ela reflecte um auto-controlo absolutista do próprio interior do “senhor”: a variedade do pensamento dá lugar ao acto de dar uma ordem, e logo à inacção, o colorido do sentimento é substituído pelo rigor da causa e efeito absolutamente programados e logo dá lugar à ausência de espírito (se ele for visto como algo absolutamente imprevisível, soprando quando quer…), o movimento ondulado deixa de existir, as rectas monótonas e monocórdicas substituem o idioma da curva. É estranhamente uma casa contra-iniciática.
Esta hiper higiene mental que se reflecte sobretudo na cozinha, onde a existência duma couve portuguesa, com as suas curvas, os seus caules desproporcionais e as suas folhas esmagadoramente assimétricas em cima de uma daquelas bancadas (que mais parecem placas de gelo) se torna absolutamente disfuncional, conduz, inevitavelmente a um distanciamento interior entre o homem e a natureza. O preço é a própria morte: pois se a couve portuguesa não sobrevive em termos estéticos dentro de tal paisagem, o homem e as suas cicatrizes, os seus sonhos desconexos e os seus fantasmas imperfeitos também não, ou sobrevive apenas como um adereço cuja cor não se enquadra no resto. Para caber naquela casa o homem tem de se esvaziar, perder a cor, desalmar-se e estampar-se ao comprido nessa vivência de uma falsa perfeição. A única possibilidade de sobrevivência é humanizar a casa e isso, estranhamente, é trazer a natureza para dentro da dela: seus livros de papel das árvores, suas compras na praça redonda e fértil, suas flores oferecidas em dias felizes, suas camisolas de lã com borbotos temporais, suas pantufas de criança com ursos na ponta, suas sedas tecidas por bichos, sua música cantada na alma e, assim feito, a “ordem” e o “comando” vão ficando cada vez mais secundários, até ao ponto de nada importarem face ao livro que se tem nas mãos, no qual se mexe e que mexe connosco.
A páginas tantas, no livro “O símbolo perdido” de Dan Brown, é transmitida a ideia de que a Bíblia reproduz, de alguma forma, o cérebro humano, a sua forma de funcionar (uma tentativa, embora camuflada, de sistematizar a ordem nascida de um caos aparente). Não é necessário ir tão longe, a casa cumpre esse papel e ainda lhe acrescenta os cheiros e as lágrimas. A sistematização da ordem já é reduzi-la a parte de si. A casa é parte da ordem mas não é a ordem. A recusa do caos é uma tentativa de eliminar a própria ordem, uma vez que esta só nasce do caos (princípio hermético milenar). Esta casa inteligente é afinal de uma estupidez profunda que só pode vir do futuro porque no passado não há exemplo de tamanha ignorância que se lhe compare.
Neste momento nasce, na varanda da casa inteligente e de sensibilidade artificial, uma erva daninha, por entre as frestas do mármore vindo de uma pedreira famosa. É daninha porque é caótica, abençoada seja: há-de ser ela a nossa salvação.