(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



quarta-feira, 2 de junho de 2010

terça-feira, 1 de junho de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 61



A revolução pela ternura e pela bondade
Eduardo Aroso

Todas as páginas que traçam a fundo a História são escritas com marcas de sangue, quantas vezes com a hábil manipulação de quem sabe que tal regime está prestes a cair. Então há sempre quem se adianta para tomar as mesmas rédeas de violência, opressão, de domínio mais ou menos coercivo. Todas essas páginas ditas revolucionárias são incrustadas com letras de sangue – as bandeiras vitoriosas de alguns e os gritos de injustiça de outros. Emocionalmente, imaginar tais momentos na vida das sociedades, leva-nos a retroceder outra vez à “ferida”, como se sentíssemos os acontecimentos, uma espécie de ponto de partida para uma nova vida, uma nova reforma, um outro ideal no caminho.
Mas a maioria das pessoas pouco observa da Natureza e não repara, por exemplo, que os longos ramos das árvores, sobretudo se carregados de neve, só não quebram porque balouçam suavemente; cedem, dir-se-ia na linguagem humana com complexos de fraqueza. E assim parecem fraquejar às arremetidas da ventania, à força indomável da tempestade. A verdade é que o ramo cede e por isso ganha a sua integridade com o tronco da árvore. De outro modo, quebrar-se-ia. Assim, parecendo ser fraco, permite-se um movimento de ajuste que o leva à vitória da permanência sem rotura. O mundo existe. A Terra, apesar das injustiças e das guerras, mantém-se na sua ordenada órbita. Tudo isto porque uma estranha e poderosa força (qual oceano que recebe todos os rios de luz), feita de todas as invisíveis ternuras e actos amorosos, chega-nos como os pirilampos numa noite quente de Maio. Levam-nos ao espanto. Essa diferença tão singela que nos faz depois olhar outras luzinhas longínquas no espaço... Belo alcance dos nossos olhos feito da ternura macia dos pirilampos, a sua condição vital.
Ninguém conta os milhares de abraços diários em todo o mundo, verdadeiros manifestos de fraternidade. Poucos há que registam os inúmeros sorrisos e gestos de simpatia que se cruzam nas grandes avenidas e escritórios, movidos pela força irresistível da Vida quando encontra os canais apropriados. A verdadeira revolução é silenciosa, a daqueles que nada reclamam para si e que são «o melhor do mundo», como disse o poeta. Elas são - sem saberem - o que são e o que dão. Refiro-me às crianças, como é natural. E naturalmente o mundo é sustentado por cada gesto de ternura, por todos esses incontáveis movimentos, mesmo que ninguém os veja, porque o sol desponta a cada manhã, oculto todavia para quem ainda dorme. O aroma dos pinhais oferece-se, com mais intensidade, a quem deles se abeira, e não àqueles que se refugiam nos subterrâneos do vício.
A revolução silenciosa é a dessas florzinhas loiras, morenas, mestiças, que dão cambalhotas, das flores traquinas que não estão quietas, que dançam a pequena e pura valsa do presente, e garantem já a marcha triunfal do amanhã. Naturalmente, as crianças. Elas que naturalmente fazem com que a monotonia das horas se renove com um sorriso azul na pele macia de esperança, renovação em busca da alegria original do mundo, que fomos perdendo, dispensada em Graça, no princípio, a todos os seres. A bondade que é o verdadeiro mel feito por elas, a cada hora, um coro de mansas abelhas, de melodias como aspirinas para a alma. E o mundo à procura do ácido metálico para um desenvolvimento insustentável!
A bondade de quem cresce com tanta graciosidade e beleza, que só poderíamos encontrar semelhança nos talos mimosos de certas plantas primaveris. Ternura de um olhar que, mesmo sossegado, a um canto da sala, tem o amplo movimento das aves do espaço. Um olhar que mesmo sonolento cintila com todas as cores do arco-íris. Oh, com a cor do sonho que cada criança traz para a guiar sempre na direcção da sua estrela polar ou do seu destino.
17-05-07

segunda-feira, 31 de maio de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 60


Via Sincera
Rodrigo Sobral Cunha

Para o Renato Epifânio

Que me seja permitido nesta ocasião*, junto destes amantes do saber em língua portuguesa – e homenageando um deles –, começar por chamar para o nosso convívio alguém que, na realidade, há muito faz parte dele, Thomas Carlyle, que dizia o seguinte bem a propósito:
“Afirmo que a sinceridade, a profunda, a grande, a genuína sinceridade, é a primeira característica de todos os homens que de algum modo são heróis. Não a sinceridade que a si própria se chama sincera; ah, não, porque esta de pouco vale, na verdade; – não a sinceridade superficial, jactanciosa, consciente, porque esta muitas vezes não passa de pretensão. A sinceridade dos homens superiores é de tal espécie que ele nem sequer dela fala, porque dela não está consciente; não quero com isto dizer que esteja consciente de insinceridade; porque, qual será o homem que possa progredir desviando-se da lei da verdade, por um só dia que seja? Não; o homem superior nem se jacta de ser sincero, longe disso; é que ele não pode deixar de ser sincero! A grande realidade da existência é grande para ele. Por mais que se eleve, não pode afastar-se da terrível presença da realidade. O seu espírito é assim feito de verdade; é grande por isso, antes de tudo o mais. Terrível e maravilhoso, tão real como a vida, tão real como a morte, é este universo para ele. Ainda que todos os homens esquecessem a sua verdade e caminhassem por entre sombras vãs, ele não poderia fazer o mesmo. A todos os momentos o reflexo da chama brilha acima da sua cabeça, inegavelmente, sempre, sempre! Desejaria eu que aceitásseis esta como a minha primeira definição do homem superior. O homem vulgar pode ter essa qualidade, porque ela compete a todos os homens criados por Deus; não pode, porém, haver homem superior que não a possua.”[1]
Meio século antes do pensamento do filósofo escocês que acabais de escutar na tradução de Álvaro Ribeiro, traduzia Sampaio Bruno livremente a continuação desta mesma passagem daquele que designava “o poderoso livro de Carlyle acerca dos heróis e do heroísmo”; considerando então o herói
“um mensageiro enviado do fundo do misterioso Infinito com novas para nós... Ele vem da substância interior das coisas. Aí vive e aí deve viver em comunhão quotidiana... Ele vem do coração do mundo, da realidade primordial das coisas; a inspiração do Todo-Poderoso dá-lhe a inteligência, e verdadeiramente o que ele pronuncia é uma espécie de revelação.”[2]
Mais dizia Sampaio Bruno:
“E a vida, heróica ou pura, santa ou genial, do grande homem convém que se exiba, na sua rutilância, quando tão fumosas se condensam as desmoralizantes sombras das malfeitorias que vinham e vêm sendo o amargo pão-nosso de cada dia.”[3]
E indicava:
“Assim, o culto dos heróis não se degrada em idolatria, e a humanidade, reverenciando o heróico na história, nos seus representantes se contempla, reconhecendo-se e incessantemente aperfeiçoando-se.”[4]
Tal era o que Álvaro Ribeiro igualmente defenderia:
“Em todas as sociedades civilizadas existe este processo de cultura que se chama culto dos homens superiores. Cada povo elege as personalidades históricas e as personagens lendárias que celebra na representação social do seu destino e da sua liberdade.”[5]

Agora, se principiámos por aqui as palavras que correspondem ao convite que nos foi endereçado pelo autor do livro A Via Lusófona, foi porque, logo na abertura deste, Renato Epifânio faz suportar a noção de Pátria no conceito de cultura; e se este ligado está a culto e aquela a patres (decerto os pais heróicos), assim é que do cultivo dos heróis (que dão forma à pátria, ou se preferirdes, verdadeiramente a informam), tal como do culto destes – decorre aquela cultura que dá de beber às nações, tal como penetra nos campos a água dos rios depois de ser onda do mar e nuvem celeste.
É desta cultura, que espiritualiza as nações, que vemos surgir, à cabeça d’A Via Lusófona, a efígie de Agostinho da Silva como aquele em quem convergem o pensamento e a acção no culto sublime do Espírito Santo. Do mesmo passo que tem o poder de suplantar a “época da cisão extrema” (assim chamou José Marinho a este tempo, conforme recorda Renato Epifânio), convida já o culto do Espírito Santo à extremosa Acção. Obra daquela cultura que vivifica as nações, na de Agostinho da Silva se elege como herói o Povo Português, nascedoiro de nações que conversam acerca do universo em português. Ora, desta conversa é feita a via lusófona.
Ao contrário do que julgam aqueles que se encontram submersos na barbárie solipsista ou na barbárie do colectivismo uniforme, este livro de Renato Epifânio não é o diário de bordo de um navegador solitário: antes nele se encontram, como o vaivém das ondas, as notas de quem voga sobre esse murmúrio luso das águas que une quanto no tempo e no espaço parece separado.
Pela missão que recaiu sobre os ombros de Renato Epifânio, diremos assim dele que, inclusivamente pelo nome, se liga tanto à Renascença Portuguesa como ao que com ela, de diáfano, advém (para quem possa ver).
Mas se alta é a causa, baixos são ainda os homens. Mal ressoa ao duro humano ouvido o combate que se dá entre o Visível e o Invisível.
Mas o que combate, cordato e pacífico, Renato Epifânio – que de si mesmo diz que olha todas as pessoas de frente? Deixe-me responder de dois modos: combate o patricídio perpetrado por aqueles que dilaceram o corpo e a alma da nação portuguesa e todos os veios que a ligam ao mundo. Enquanto sopra a nortada, debaixo dos círculos dos abutres entrega-se a avidez dos chacais à voragem da hora sob o tempo insepulto. De 1755 aqui são dez gerações, de mal a pior, sob o governo burgesso (de burguês) dos publicanos (os cobradores de impostos) sem alma.
Mas regressemos ao início desta ocasião, já que Renato Epifânio é um dos poucos homens sinceros que conhecemos e chamou Carlyle à sinceridade “o mérito salvador, agora como sempre” – precisamente contra as épocas doentes de cepticismo e insinceridade (“Mundo insincero; ateísta, não verdadeiro mundo!”, no qual “Saem os heróis, entram os charlatães”, onde nem sequer há a esperar “nenhuma alba neste crepúsculo do mundo”). Recorda, todavia, o nosso conviva escocês:
“Somente num mundo de homens sinceros a unidade é possível; só entre eles, e ao fim de muito tempo, a unidade pode ser tida por boa e certa.”
E:
“O mérito da originalidade não está na novidade; está na sinceridade.”[6]
Concluindo:
“Profetizo que o mundo vai tornar-se mais uma vez sincero, crente, acolhedor de muitos heróis, mundo heróico, enfim. Será então um mundo vitorioso; não o será até então.”[7]
Concluamos também nós, meu caro Renato e amigos nossos:
Os antigos romanos diziam: Decorum est pro patria mori (decoroso é morrer pela pátria); porém, nós diremos aqui: Decorum est pro patria vivere.
É que há um segredo.
____________
* Este texto foi lido pelo autor na sessão de lançamento de A Via Lusófona, de Renato Epifânio, que teve lugar na Biblioteca Municipal de Sesimbra, no dia 29 de maio de 2010.
[1] T. Carlyle, Os Heróis (Tradução portuguesa e Apresentação de Álvaro Ribeiro, 1956), Lisboa, Guimarães Editores, 2002, pp. 51-52.
[2] Bruno, A Questão Religiosa, Porto, Livraria Chardron, de Lello & Irmão, editores, 1907, pp. 152, 373.
[3] Ibid., p. 372.
[4] Ibid., p. 385.
[5] Na Apresentação de Os Heróis, ob. cit., p. 13.
[6] Os Heróis, p. 120. Aí pode ler-se: “Todas as épocas, a que chamamos épocas de fé, são originais; todos os homens, ou quase todos os homens, são nessas épocas sinceros. [...] Eis a verdadeira união, a verdadeira regência, a lealdade, todas as coisas verdadeiras e benditas na medida em que a pobre Terra pode produzir bênçãos para os homens.”
[7] Ibid., p. 164.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

SÁBADO, EM SESIMBRA: ANTÓNIO TELMO E CÂNDIDO FRANCO EM COLÓQUIO SOBRE «ANARQUIA, MONARQUIA E REPÚBLICA»

O programa inclui o lançamento dos livros Luís de Camões, de António Telmo, e A Via Lusófona, de Renato Epifânio



Colóquio. Integrado no ciclo Portugal Renascente (iniciativa conjunta dos Cadernos de Filosofia Extravagante e da Nova Águia, em parceria com a Câmara Municipal de Sesimbra), tem lugar no próximo sábado, dia 29, pelas 15:00, na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Sesimbra, o colóquio Anarquia, Monarquia e República, no qual serão oradores António Telmo ("Monarquia e República") e António Cândido Franco ("Anarquia e República").
Na ocasião, serão lançados os novos livros de António Telmo (Luís de Camões, 1.º volume das obras completas, com a chancela da Al-Barzakh e apresentação de António Cândido Franco) e Renato Epifânio (A Via Lusófona, da colecção Nova Águia, com a chancela da Zéfiro e apresentação de Rodrigo Sobral Cunha).

terça-feira, 25 de maio de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 59


Labirinto das horas
Eduardo Aroso


De meia em meia hora
Fazem-nos crer
Que Portugal muda:
Sempre outro
E nova poeira.
O que vai acontecer
Quando chegar o louco
Anunciando a Hora inteira?

2010

segunda-feira, 24 de maio de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 58

Nostalgia sem idade
Cynthia Guimarães Taveira

Maria de Lourdes Modesto falava na televisão. Ouvia-a atentamente e observava-lhe as expressões numa espécie de atenção oriental (o esquecimento de si e a entrada no fundo dos olhos do outro). Chorara, dizia, quando havia folheado um livro seu, já antigo, sobre a gastronomia tradicional portuguesa. Não percebia porque havia chorado. Mais espanto sentira, dias mais tarde quando um jovem, procurando-a por causa de uma tese, lhe contara que, ao folhear o mesmo livro, se emocionara também. Duas gerações, uma ponte grande de anos entre elas, no entanto, ambas choram perante o mesmo. Uma estupidez, uma futilidade de um livro de culinária. Uma idiotice que não se explica, a não ser pelas memórias, pelos cheiros contidos nessas páginas, pela cultura transmitida no segredo das cozinhas, pelas vivências da infância.

Essas lágrimas são uma estranha forma de resistência, nesta altura em que a NASA nos explica, por A mais B, que o futuro da espécie humana passa pela colonização de outros planetas. Essas lágrimas são deste planeta e, de alguma forma, alimentam uma outra esperança que não aquela em que o homem se procura e procura a sua perfeição numa distância só possível em imaginação. Essas lágrimas são de alguém que se encontra no seu próprio quintal, ali, entre os coentros e a salsa, exactamente no meio de Portugal.

Eliezer Kamenezky
Haverá sempre o movimento pendular tão bem descrito por Fernando Pessoa no prefácio da “Alma Errante” de Eliezer Kamenezky:
“Os povos equilibram-se, na sua vida psíquica, pela consistência automática de qualidades opostas. (…) A vida oscila como um pêndulo, e a oscilação num sentido requer, para que a mesma vida não pare, uma igual oscilação no sentido inverso.
Como, porém, na oscilação do pêndulo se mantém o ritmo do movimento, sucede que tanto as qualidades que estão num limite da oscilação, como as que estão no outro limite, participam da mesma oscilação essencial. (…)
Esta existência necessária, nos povos, de elementos opostos e, por isso, complementares e equilibrantes, manifesta-se, em geral, através de indivíduos diferentes. Quer dizer: não é no mesmo individuo que normalmente coincidem os dois elementos complementares; aparece um em certos indivíduos, outro em outros. O equilíbrio dá-se na raça ou no povo em conjunto, não nos indivíduos separadamente.”

Os nostálgicos naturais da naturalidade de Portugal, da naturalidade do homem, da naturalidade do planeta, equilibram os vorazes do futuro tecnológico, os sedentos de robôs. Os que pressentem sabedoria nas rugas contrabalançam os que sentem a beleza na juventude. E a força comum destes sentimentos é o desejo.
Lembro-me de ter sido educada numa família ateia: era-me dito, como um mantra, “se Deus existe, o problema é dele”. O meu irmão ouviu bem a lição e aperfeiçoou os mestres quando há pouco tempo proferiu a máxima que suplanta a original: “Se Deus existe, eu não sou problema para ele”. No meu caso, algo correu mal, na idade dos treze anos: numa cabine telefónica, a pensar apenas no número que ia marcar, um flash, uma súbita intuição, uma certeza vinda não sei donde, fez-me gritar no interior daquelas paredes de vidro que me isolavam do mundo: “É claro que Deus existe”. Nada disto tinha explicação. Perante as mesmas condições, dois filhos seguem rumos diferentes. Era a força do pêndulo a actuar, a mesma que actuou nesse jovem universitário sem que ele o percebesse.
Assim se vê que a nostalgia não tem idade e que a missão dos que amam Portugal é tão importante como a daqueles que o procuram esquecer, destruir, aniquilar. É apenas uma questão de equilíbrio para que Portugal permaneça vivo. Talvez porque aos olhos de Deus, afinal, este país, valha a pena.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

PARA LER



Norte. Um artigo de Pedro Sinde no Sabedoria Perene; e, no MILhafre, uma carta de Joaquim Domingues a Renato Epifânio, sobre o novo livro deste: A Via Lusófona, que amanhã, pelas 18:00, será lançado na Sociedade de Língua Portuguesa, em Lisboa, com apresentação de Miguel Real.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

DEPOIS DE AMANHÃ...

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AMANHÃ...

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ATÉ AO FIM DO MÊS...

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quarta-feira, 19 de maio de 2010

DIA 29, EM SESIMBRA: ANTÓNIO TELMO E CÂNDIDO FRANCO FALAM SOBRE «ANARQUIA, MONARQUIA E REPÚBLICA»

O programa inclui o lançamento dos livros Luís de Camões, de António Telmo, e A Via Lusófona, de Renato Epifânio

Colóquio. Integrado no ciclo Portugal Renascente (iniciativa conjunta dos Cadernos de Filosofia Extravagante e da Nova Águia, em parceria com a Câmara Municipal de Sesimbra), tem lugar no próximo dia 29 de Maio, sábado, pelas 15:00, na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Sesimbra, o colóquio Anarquia, Monarquia e República, no qual serão oradores António Telmo ("Monarquia e República") e António Cândido Franco ("Anarquia e República").

Na ocasião, serão lançados os novos livros de António Telmo (Luís de Camões, 1.º volume das obras completas, com a chancela da Al-Barzakh e apresentação de António Cândido Franco) e Renato Epifânio (A Via Lusófona, da colecção Nova Águia, com a chancela da Zéfiro e apresentação de Rodrigo Sobral Cunha).

terça-feira, 18 de maio de 2010

AFORISMOS, 33

Eduardo Aroso

129 – A solidão é um fantasma que o materialismo criou. O ser humano deve recuperar plenamente a memória de ser filho de Deus. Ao adquirir essa graça, não necessita de nenhum exorcismo, reavendo então a canção da alegria que dispensa a palavra brejeira, a ideia baixa, a cena indecente.
130 – O filho que já não cresce no seio da família, porque a lei verifica incapacidade para tão nobre tarefa; o fruto que, ainda verde, se arranca da árvore para “amadurecer” no frio do armazém; a educação e a formação cada vez mais longe do professor/mestre e da sua aceitação, mas no sufoco de tudo e de todos. Tudo isto nos faz pensar no que ainda persiste, reclamando-se das garantias dos chamados Estados de Direito das sociedades ocidentais.
131 – A controversa afirmação pessoana «Troquemos Fátima por Trancoso» pode não ser entendida como um desabafo anticlerical, mas porventura na intenção de tocar num ponto essencial ou aquilo que pode caber na designação de Igreja Lusitana. Também, trocar, respectivamente, o feminino pelo masculino, parece não ter o alcance da frase supracitada. Ousemos pensar que, considerando a lei das alternâncias (dia/noite é um simples exemplo), torna-se imperioso dar voz ao sentido do que é cíclico. Tal como Maria (não a Mãe do Senhor, mas a irmã de Lázaro) e Marta, ou Abel e Caim (apesar do simbolismo do incidente, mal interpretado pelas massas) a Igreja de Pedro e a Igreja de João não se combatem. Como queria Pessoa, voltar-se para Trancoso poderá significar dar mais atenção à Igreja de João ou dos Templários, a essa enigmática pedra-angular que S. Bernardo colocou na nação mais ocidental da Europa. Assim se ilumina toda a longa sinapse histórica que vai do «Milagre de Ourique» ao verso da Mensagem «Senhor, falta cumprir-se Portugal!».

segunda-feira, 17 de maio de 2010

«SINGULARIDADES»: O SEGUNDO NÚMERO DOS «CADERNOS DE FILOSOFIA EXTRAVAGANTE» SAI A 26 DE JUNHO

Regresso. O segundo número dos Cadernos de Filosofia Extravagante intitula-se «Singularidades» e é lançado no próximo dia 26 de Junho, pelas 15:00, na Biblioteca Municipal de Sesimbra. A apresentação estará a cargo de Cynthia Guimarães Taveira e Roque Braz de Oliveira. Deixamos hoje ao leitor o breve texto de apresentação da publicação, bem como um escrito de Orlando Vitorino, que dele faz parte integrante, e é retirado do Manual de Teoria Política Aplicada, recentemente editado a título póstumo pela Verbo.
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APRESENTAÇÃO

A publicação, já em 2010, do Manual de Teoria Política Aplicada, da autoria de Orlando Vitorino (1922-2003), constitui, por certo, um dos grandes acontecimentos editoriais do ano. Obra inédita, e portanto saída a lume a título póstumo, com a chancela da Verbo, este livro – tal como o autor o quis significar no respectivo subtítulo – apresenta-nos “O Liberalismo como Sistema de Liberdade”.
Atento o mote dado ao segundo volume, que o leitor agora folheia, dos Cadernos de Filosofia Extravagante – o das Singularidades, sobretudo as observáveis na língua por que superiormente se define a Pátria –, suscitou-nos particular interesse a quarta das seis partes em que este notável Manual se divide. Nela se trata d’A Grande Deturpação – a da inteligência – que, para Orlando, consiste no ataque assanhado, continuado e eficaz que há muito, entre nós, a cultura oficial vem movendo à cultura real, a ponto de, nas últimas décadas, se ter transformado numa “ameaça de morte” à “presença dos valores do espírito”.
Segundo o filósofo, desde 1945 essa investida é protagonizada por dois blocos – o marxista e o da Unesco – que, sendo essencialmente diferentes, se tornaram, na prática, indistintos, visto o rumo levado pelos acontecimentos.
Aos dois blocos irmana-os a disputa travada no esforço com que igualmente procuram “dominar e esmagar, sob a bandeira da equidade uniformizante e humanitária, a infinita variedade do mundo do espírito”. Que “as diferenças que há entre eles não são irredutíveis” – acorre a demonstrá-lo o “denominador comum que os torna solidários até à morte: a destruição das culturas reais que, exprimindo cada uma delas, em sua singularidade, uma manifestação do espírito, são a razão de ser das pátrias”.
Ilustrando, com recurso a sucessivos exemplos, o caminho que vai sendo feito pela hidra, o filósofo detém-se à oitava ilustração, que mostra como se escapa à Grande Deturpação, com uma recensão do livro História Secreta de Portugal, publicado por seu irmão António Telmo em 1977.
Possa a sequente transcrição desse breve e lúcido registo de Orlando servir de remate às presentes linhas, na esperança de que, pela conjugação, o leitor de Singularidades fique a saber ao que vem. E na certeza de que, por essa via, perceberá quão próximos, pelo sangue e pelo espírito, se encontram os dois irmãos filósofos, seguindo a luz da mesma estrela por caminhos diversos.

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OITAVA ILUSTRAÇÃO

que mostra como se escapa à grande deturpação

com uma recensão do livro História Secreta de Portugal

História Secreta de Portugal

No momento em que se levantam sérias interrogações quanto à possibilidade de sobrevivência de Portugal, eis que surge um livro como este. Livro surpreendente que vem continuar, actualizar, além de a acrescentar com uma singularidade muito significativa, uma tradição de patriotismo que se inicia, talvez, nas obras, por interpretar, do filósofo D. Duarte e do historiador Zurara, para se prolongar até aos nossos dias nas Trovas, do Bandarra e D. João de Castro, no Encoberto, de Bruno, na Mensagem, de Pessoa, e na Arte de Ser Português, de Pascoaes.

Ao chegar ao último capítulo desta História Secreta de Portugal, será o leitor informado do propósito do autor: perante a demissão dos “grandes organismos espirituais de ligação do Céu com a Terra” – o autor acabara de designar como tais a Maçonaria e a Igreja Católica – a cada um de nós “resta apenas uma saída: a de ficar só, completamente só em si mesmo e de, nessa solidão, se manter firme, não cedendo um ponto”. Acontece, porém, que, mais radicados nós nela do que nos citados “grandes organismos espirituais” e mais terrena e erradicável do que eles, “há a Pátria”. E o autor demonstra: “Não é por acaso que se nasce português, e misteriosas são as leis das afinidades pelas quais temos aquele Pai e esta Mãe, estes irmãos, esta mulher e estes filhos. Como é possível abandonar tudo e ficar só?” É, deste modo, próprio da natureza e da existência humana de cada um, pertencer a uma Pátria. Ora “a Pátria somos nós todos, os que vivemos, mas, sobretudo, a cadeia invisível dos antepassados, essa enorme força da espécie que o Anjo marcou na sua génese com uma língua e um determinado sestro, histórico senão transcendente”. História secreta de Portugal é a que procura, nas visíveis pedras dos monumentos, nas audíveis palavras dos poemas, nos manifestos eventos e homens a tais pedras e palavras ligados, esse sestro histórico que, no caso do Portugal, se afigura efectivamente transcendente.

Onde estão sinais e segredo, estará a decifração. António Telmo decifra, primeiro, o enunciado do sestro nas pedras do claustro e do portal dos “Jerónimos” que compõem uma imagem cuja legenda – pois não há imagem sem legenda – é pela primeira vez lida. Decifra, depois, o seu significado nas palavras de Os Lusíadas a que dá uma interpretação poética e teológica que deixa na penumbra tudo quanto, em saber literário e historicista, até hoje se disse sobre o grande poema. Decifra, por fim, a sua agonia nos versos de Pascoaes e Pessoa, e aqui demoramos um pouco a notícia deste livro.

António Telmo apresenta Fernando Pessoa como o “rectificador da maçonaria” da qual tinha um saber – “a maioria dos seus poemas constituem o desenvolvimento dos ensinamentos maçónicos” – que os maçons há muito perderam trocando-o por artificiais, inadequadas e ridículas interpretações activistas e positivistas. Pessoa refutou e repudiou a tese, comum a Sampaio Bruno e José de Maistre, de que a maçonaria seria uma “organização judaica”: a influência do judaísmo na maçonaria, tal como a do catolicismo, a do protestantismo e a do ateísmo, só se terá dado a partir do século XVIII através da introdução de “graus iniciáticos” que se sobrepuseram aos “graus simbólicos”. Nos “graus simbólicos”, a maçonaria terá sido, sempre segundo a interpretação de Pessoa, o prolongamento da Ordem dos Templários e como tal é que estará no “segredo de Portugal”: a Mensagem é, até ao Valete Fratres do ritual das “lojas” com que encerra, a descrição maçónica, mas de uma maçonaria “rectificada”, da história secreta de Portugal.

Pascoaes é-nos apresentado como o “outro” de Pessoa. Sugere António Telmo que há, nos seus versos, “uma excessiva beleza” e que é essa excessiva beleza que torna a maioria dos portugueses hoje incapazes de os entenderem, até de os lerem, aparecendo-lhes eles como um “infindável marulho de som”. Uma das chaves deste livro é a erudita sensibilidade para com os valores estéticos da poesia, que o autor em geral esconde na exposição conceptual das interpretações que faz dos poemas. Essa sábia sensibilidade chega a explodir com um vigor polémico que, todavia, se contém para a não denunciar. É o que acontece nas páginas onde se descreve “a campanha feroz que os sergistas movimentaram contra os grandes poetas do sagrado, Pascoaes, Pessoa e Régio, hostilizados socialmente, à direita e à esquerda da cruz, porque se atreveram a imaginar ou a pensar a ideia de Deus”; ou naquelas outras páginas onde o autor, depois de nos dizer que o “saudosismo foi catalogado como corrente literária para ser esquecido no mar dos medíocres onde se perdem e afundam todas as correntes”, observa: “O papel dos adversários do povo português é este. Não podem fazer outra coisa senão crítica literária ou o análogo.”

É na poesia de Pascoaes que o “sagrado” adquire um actual sentido universal. Todo o movimento é composto de progresso e de regresso. E porque não há – como sempre observava José Marinho – “progresso infinito”, para lá de certo limite o progresso cai numa “separação abissal” do princípio que lhe deu origem e só persiste como degradação e perdição. Uma das formas mais patentes e fatais desta degradação, reside na oposição e no ódio à natureza, representados, primacialmente, pelo sistema da filosofia alemã. A esta degradação progressista importa opor a sublimação regressista: “O que sobretudo importa – diz António Telmo – é o encontro do homem consigo na natureza sem ninguém, do homem que por uma transmutação interior se torna capaz de um contacto efectivo com aquilo que a natureza é: o lado oculto das coisas e dos seres. Não só perdeu esse contacto como a possibilidade dele. Pascoaes foi a última tentativa para restabelecer essa possibilidade.”

O que se pode entender pelo “homem transmudado” verá o leitor que é “o homem que pensa e conhece com todo o seu ser”; o que se pode entender por natureza, é o que em Pascoes se aprende. “Aprende-se a conhecer na natureza visível o seu duplo oculto. Todos os seres têm o seu duplo, diz-nos Pascoaes, e as sombras constituem o verdadeiro lado das coisas. Por sombra entende ele […] a imagem secreta de cada coisa, que se torna presente ao espírito por uma invocação mágica que nomeia o ser da coisa e os seus atributos: a ideia.”

Neste último texto transcrito, encontramos a expressão daquilo que, na abertura desta “notícia”, dissemos ser “a singularidade muito significativa” do livro de António Telmo. Com efeito, as obras de tradição secreta, ocultista ou esotérica, suscitam sempre a suspeita e receio de se tratar de obras onde o pensamento não sai do labirinto, sempre perturbante e muitas vezes belo mas sem finalidade, das combinações, comparações e metáforas, das analogias sem anagogia. Outra suspeita que poderia também suscitar um livro do autor de A Arte Poética – publicada há dez anos para ficar circunscrita ao círculo, ou ao “gueto”, onde se refugia a livre poesia – seria a de se tratar de uma armadilha destinada a atrair caçadores de borboletas, isto é, perseguidores do segredo da alma, neste caso a de uma Pátria, que, ora rastejante ora alada, sucessivamente se esconde para em nova forma surgir e surge para de novo se esconder, e em suas metamorfoses infinitamente repete o mesmo eterno ciclo de progresso e de regresso. Ora em todo este livro, como no texto transcrito, verificará o leitor que António Telmo não ficou nem na imagem muda do saber secreto nem na palavra poética da imaginação sem conceito: - num primeiro momento, a imagem emerge ao espírito por uma invocação mágica, operação na qual reside o pensamento esotérico que – à maneira do amor em Dante – solicita todo o ser do homem; num segundo momento, a invocação adquire substância poética, ou palavra, pois nomeia, dá nome à imagem invocada; num terceiro e último momento, o nome dado à imagem invocada é o nome do “ser da coisa e seus atributos: a ideia”.

O saber poético em que culminou o saber esotérico, culmina, por sua vez, no saber filosófico. E ao situar no último momento, sem o qual os outros pouco ou nada são, a filosofia, o leitor decerto evocará, expressa como ela está pela “ideia”, os dois pensadores de extrema oposição que foram os dois filósofos da “ideia”: Hegel e Platão. Não se trata, porém, da ideia de Hegel, que é a ideia de Deus encarnado, do Cristo, cingido como está todo o pensamento hegeliano – sistematização acabada da filosofia nórdica ou moderna – a um penoso comentário pari passu da missa cristã. A ideia, “ser da coisa e seus atributos” – ou ser e saber do ser – aparece aqui como uma interpretação anagógica das sombras de Pascoaes. É pela poesia pontifical, pela função pontifical da poesia, que, por cima e para além das águas já mortas do hegelianismo, a ideia nos prende a Platão que também pôs nas sombras o patente e o secreto.

Orlando Vitorino

terça-feira, 11 de maio de 2010

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 39

António Carlos Carvalho

Nestes dias de festejos, bandeirinhas e outros espectáculos lamentáveis, fujo em imaginação para bem longe e só me lembro de um certo homem caminhando pelo deserto, antes que no horizonte apareçam os primeiros raios do sol nascente.
Faz isso todos os dias, como um ritual só dele. É a sua maneira de escutar a voz interior, mas também o silêncio (outro tipo de voz) do deserto, que aliás começa ao fundo da sua rua, e Arad, Israel. E esse homem, que tem nome de profeta, Amos, talvez inconscientemente, (ou não) está a repetir o gesto dos profetas do seu povo que sempre buscaram no deserto a presença da voz, da palavra, do espírito.
Não nas cidades, não nas multidões, mas no deserto, na solidão, no silêncio.
Reencontrei Amos Oz há dias, num documentário sobre ele feito pela televisão grega.
Digo «reencontrei» porque na verdade tive o prazer e o privilégio de falar com ele por duas vezes em Lisboa, quando aqui veio para o lançamento das edições portuguesas (Asa) dos seus romances «A Caixa Negra» e «Conhecer uma Mulher».
E agora ali estava ele outra vez, mas no pequeno ecrã do meu televisor, filmado a caminhar pelo deserto, na casa de Arad, na casa de Jerusalém onde nasceu em 1939, no kibbutz Houlda onde viveu 32 anos, mas também em Salónica -- onde viveram tantos judeus portugueses, cujos descendentes foram levados para morrer nos campos de extermínio (uma história triste que nós, portugueses, olímpicamente ignoramos…)

Amos Oz

Os familiares de Amos Oz (Klausner) não vieram de Salónica mas sim da Lituânia, de um desses outros lugares onde também a «solução final» funcionou para a maioria. E acabaram por se instalar em Israel, forçados pelas circunstâncias. Oz conta a história deles e a sua, e a de Israel -- num livro de memórias absolutamente espantoso, «Uma História de Amor e de Trevas», igualmente publicado pela Asa.
Releio-o mais uma vez e encontro estas passagens, que me parecem o contraponto perfeito para a actual crise europeia:
«Somente o meu pai e os pais dele acabaram por se instalar em Jerusalém: o irmão do meu pai, o tio David, a sua mulher, Malka, e o filho pequeno deles, Daniel, nascido um ano e meio antes, tinham ficado em Vilna: ainda que judeu e apesar da sua juventude, o meu tio David tinha sido nomeado professor assistente de literatura na Universidade de Vilna. Era um europeu convicto numa época em que ninguém o era na Europa, tirando os membros da minha família e os seus semelhantes. Os outros eram pan-eslavistas, pan-germanistas ou simples patriotas lituanos, búlgaros, irlandeses, eslovacos. Nos anos vinte e trinta, os únicos europeus eram os judeus».
A pátria espiritual do tio de Amoz Oz eram as literaturas europeias. «Ficou no seu posto, fiel ao progresso, à cultura, à arte e ao espírito sem fronteiras, até à chegada dos nazis a Vilna: os judeus cosmopolitas e apaixonados pela cultura não sendo do gosto deles, assassinaram David, Malka e o meu primo, o pequeno Daniel».
«Cerca de ano e meio antes da ascensão do nazismo, na cegueira do desespero, o meu avô sionista tinha mesmo solicitado a cidadania alemã. Que lhe recusaram, felizmente para nós. Na época, os três quartos da Europa só aspiravam a desembaraçarem-se definitivamente de todos estes pan-europeus fervorosos, poliglotas, doidos pela poesia, convencidos da superioridade moral da Europa, amadores de dança e de ópera, amorosos do património europeu, sonhando com uma unidade europeia pós-nacional, apreciando a cortesia, as vestes e as modas europeias, admiradores incondicionais de uma Europa que, desde há anos, se tinham empenhado em acariciar, em enriquecer em todos os domínios e por todos os meios, esforçando-se por se integrarem, por enternecê-la fazendo-lhe uma corte desenfreada, por se fazerem amar, aceitar, por satisfazê-la, por fazerem parte dela, por serem amados…»
A maior parte desses europeus morreram como sabemos. Alguns escaparam a tempo, como os familiares de Amos Oz, que em Jerusalém continuaram a sonhar com essa Europa desfeita literalmente em cinzas. O pai do escritor lia livros em 16 línguas e falava 11. Como acontecia, aliás, com tantos dos vizinhos da sua pobre casa, onde não havia mais nada do que livros. Livros esses que, às vezes, era necessário vender para alimentar a família…
Agora que tanto se fala de crise europeia, mas atribuindo-lhe causas económicas e políticas, gosto de me lembrar dessa Europa e desses europeus, recorrendo às memórias de outros, Amos Oz, George Steiner ou até mesmo Stefan Zweig. Neste outro deserto, urbano e ruidoso, em que caminho, agarro-me a eles como bóias num naufrágio.
E vem-me à memória essa outra frase terrível, atribuida ao lisboeta e europeu Menasseh ben Israel:
«Aquilo que alguma vez aconteceu será para sempre possível».
P.S. Há dois meses e meio que tenho o meu Pai internado num hospital. Por isso me tem faltado o ânimo e a disponibilidade para prosseguir estas «Anotações». Foi essa a única razão -- que não haja equívocos a esse respeito.
E agora a elas volto, apesar de tudo, com a esperança de vencer a dor com a escrita. No fim de tudo, resta-nos a palavra. A citação do dia só pode ser esta, evidentemente:
«O meu reino não é deste mundo» (João, 18, 33).

segunda-feira, 10 de maio de 2010

AFORISMOS, 32

Eduardo Aroso

126 - Nem «orgulhosamente sós» nem ilusoriamente acompanhados. É certo que descobrimo-nos na relação. Porém, antes de estar com os outros, devemos passar em (e ser) nós próprios.
127 - Pode dizer-se que Portugal nem morreu definitivamente, nem vive no sentido de uma existência plena de acordo ao ideal ou missão para que foi fundado. Portugal está em agonia, num combate entre forças de regeneração e forças de desagregação, o que tem tornado mais nítida a fronteira entre o pujante e do decrépito. Agonia, como se sabe, é purificação. Que melhor átrio para a iniciação espiritual de uma pátria?
128 – Se, como diz a ciência, a totalidade do nosso património genético está em cada célula individual, nada custa aceitar – como, aliás, José Marinho o disse – que o presente contém todo o passado. No concreto facilmente constatamos que a actualidade da ciência reúne todas as descobertas passadas, mas que, por exemplo, na sociologia e na psicologia surge a dificuldade do entendimento da complexidade do relacionamento humano. Na política, porém, levanta-se sério problema na “arte de governar”: é que o presente parece não conter todas as experiências idas, ao invés, por exemplo, da eficácia da medicina contemporânea que, através dos tempos, recolheu todos os avanços da arte e da ciência de curar. Assim, a actividade política mais nos lembra um estranho recomeçar, como se estagiários, depois do tirocínio, dessem rotativamente lugar a outros, num processo em que nunca há ninguém efectivo ao serviço!

sexta-feira, 7 de maio de 2010

quinta-feira, 6 de maio de 2010

PARA VER: UM RETRATO DO GRUPO DA FILOSOFIA PORTUGUESA

clique na imagem para a ampliar

Photomaton. No blogue consagrado à evocação de António Quadros, o leitor poderá encontrar a legenda desta fotografia, onde, além do filósofo da Arte de Continuar Português, figuram, entre outros, Pinharanda Gomes, Francisco Sottomayor, Álvaro Ribeiro, Afonso Botelho, Agostinho da Silva, Sant'Anna Dionísio e José Marinho.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O CAMINHO DO CAMINHO, 14

Cynthia Guimarães Taveira





As Estrelas
Devia bastar um sorriso,
para que o passeio se iluminasse
Neste breve e leve passo
Devia bastar um abraço
Para que novo o tempo fosse
De alto e baixo misturado
Aqui, onde o breve laço
É tecido passo a passo


Sim, neste caminho do caminho há locais desérticos, certos sítios que mais não são do que tempos, onde a esterilidade impera. Vê-se televisão e não se vê nada. Lêem-se os escaparates de revistas e não se sente nada. Pessoas passam, passos rápidos, preocupações lentas de mais, e nada fica. Nem uma mão se estende em auxílio. O carro avança na auto-estrada e o cinzento do asfalto não tem implicações com o estado de alma. A paisagem mal se vê. O mundo parece de papel, três dimensões estáticas no meio da agitação aparente. Um sufoco que provoca a memória, chama por ela como o último reduto de humanidade. Sim, naquele tempo nós éramos diferentes… Lembras-te de uma certa leveza no acto de viver? Leveza em si, leveza natural. Leveza que fazia fluir uma gargalhada metida entre duas eternidades, mesmo no meio do infinito. Ligeireza que não nos fazia temer falar. Falar à vontade, sem medo do julgamento imediato dos outros, ainda livres de aparências. Falar livremente, com gestos, expressões e mimetismos que exprimiam melhor o estado imediato do ser.
Como é possível Ser, neste deserto onde só o martelo do juiz bate incessantemente, ordenando penas consecutivas? Sabia que no caminho do caminho o julgamento era apenas uma impossibilidade. Nada podia julgar verdadeiramente, porque lhe faltavam elementos inumeráveis e precisos. Como viver com esta consciência num país que embora o amasse parecia ter sido dominado por todos os juízes e todos os juízos, não sendo nenhum deles o Final? Por todo o lado todos “achavam”, todos “tinham opinião”, todos “pensavam que” quando não pensavam “de que”. O direito, a legalidade, o crime, o abuso de confiança, os litígios, os processos, as penas, execuções, liberdades incondicionais e condicionais enredavam os seres. Bastava estar vivo para se estar, de alguma maneira, a cometer uma ilegalidade, e não se podia evocar o desconhecimento da lei, o seu desconhecimento não desculpabilizava ninguém, como se esta fosse só uma e não milhares…
Parou, por momentos. E nesse deserto de papel ouviu o bater do seu coração. Compassado, calmamente musicando. Ainda batia, afinal. Tentou reproduzir o seu som, dançando. E dançou por esse deserto ao som do seu coração. E assim foi recuperando os gestos genuínos, e falou para as estrelas com as antigas expressões, e deu uma gargalhada quando uma constelação lhe pareceu um martelo de um juiz. Uma gargalhada daquelas que puxam os dois lados do infinito para dentro de si. E as estrelas, essas, não o julgaram, e riram-se com ele. Gargalhadas sem fim unidas num laço livre. Sem rei nem roque, mas com o tabuleiro inteiro do universo para passear.

terça-feira, 4 de maio de 2010

LIVRO DE ENTREVISTAS SOBRE GUERRA JUNQUEIRO À VENDA EM 21 DE MAIO

Escaparate. À Volta de Junqueiro: Vida, Obra, Pensamento é um livro de entrevistas sobre o poeta da Pátria e das Orações, e será posto à venda no próximo dia 21, no àmbito do projecto Revisitar/Descobrir Guerra Junqueiro, que nos últimos anos vem sendo superiormente desenvolvido e coordenado por Henrique Manuel Pereira, na Escola das Artes da Universidade Católica do Porto.
À Volta de Junqueiro reúne os registos de 30 conversas sobre Guerra Junqueiro, mantidas com diversas personalidades do nosso meio cultural, entre as quais se incluem António Telmo e Pedro Sinde, do círculo dos Cadernos.
Para saber mais sobre este novo projecto, clique aqui.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

PARA LER: HOMENAGEM A ANTÓNIO TELMO

Aniversário. Uma homenagem a António Telmo, n'O Bar do Ossian, por ocasião do 83.º aniversário do filósofo, ocorrido ontem, no mesmo dia em que também o poeta Jesus Carlos, do círculo do Renascimento Lusitano, celebra o seu aniversário. A ambos, os nossos parabéns!

AFORISMOS, 31

Eduardo Aroso

123 – Se ao sistema económico que hoje domina o mundo se confere toda a prioridade, economia essa que vem provocando situações dolorosas na vida das pessoas, é de crer que essa perspectiva economicista seja a deturpação total de uma capacidade divina dada ao Homem, e agora mal cultivada. Surge assim um exercício de poder que, pelo conceito dos arquétipos, nos faz pensar na existência do verdadeiro poder que, inquestionavelmente, só poderá ser conferido pelo Espírito.
124 – Toda a Obra da Criação é um sim. Mas, do ponto de vista da criatura, na via do entendimento surge o não, ponto da jornada a que, em jeito de antítese, leva o acto de pensar. Uma mais ampla consciência de afirmação e de negação estabelece, então, a diferença entre a quase idiotia do não e do sim tão fáceis de proferir no presente modo mecânico de viver.
125 – Já foi dito que a Igreja Templária é a de S. João. Porém, importa referir que o calendário divino é o mesmo da Igreja de Pedro, com a significativa diferença apenas no modo de o realizar.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 57

Interior (Costureiras trabalhando), de Marques de Oliveira

As citações nunca estão sós
Cynthia Guimarães Taveira

Frase de Oscar Wilde, que não me canso de repetir: “O supérfluo é absolutamente essencial”. E outras citações, desta vez de um romance em jeito de autobiografia, ou vice-versa, que gostei de ler, nem sempre as obras-primas são necessárias aos pensamentos. Assim, nas “Casas Contadas” de Leonor Xavier, pequenos esboços da vida doméstica, deliciosos: “As cozinheiras como ela era sabiam de tudo, pensava eu, enquanto assistia aos seus preparos. Ela arrepiava um pescada com sal, pendurava-a pelo rabo por um cordel, preso na torneira sobre um alguidar, ou escamava uns salmonetes para o almoço. Temperava o cabrito para ir ao forno, ajeitava uma galinha em arroz para corar, embebedava o peru com um funil se estivesse em preparativos de Natal. Depenava um pato ou um frango. Cortava feijão verde ou arranjava nabiças para uma sopa. Sabia que o espinafre não leva água para cozer, e que o polvo é traiçoeiro na panela. Batia claras de ovos em castelo para os bolos, não se enganava no ponto do açúcar, ponto de pérola ou de espadana, a escorrer da colher de pau. E fazia doces de frutos em tachos de cobre, sempre a mexê-los, encarrapitada no fogão.” Mais à frente, tendo ainda a referência das criadas: “…continuava pelo trabalho de lavar, escamar, descascar, cortar, moer, picar os peixes e as carnes, as hortaliças, os acompanhamentos, cozinhando-os para o momento exacto das refeições, lavando à mão e arrumando a loiça com a ajuda da criada de fora. Eram horas de trabalho sem fim, para tratar de esfregar a roupa de corpo no tanque e pendurá-la na corda de arame, roupa que a criada de fora de lá tirava depois de seca, para borrifá-la e dobrá-la a preceito, arrumada num cesto de verga, para da parte da tarde, entre a hora do lanche e do jantar, passá-la a ferro.” E ainda: “Duas vezes por semana, vinha a lavadeira, com o seu rol de roupa confirmado peça por peça, os lençóis e as fronhas, as almofadas e os travesseiros, as toalhas de mesa e de banho, os guardanapos e os panos da loiça, de estopa ou linho ou algodão conforme se destinassem a tachos, copos, pratos ou talheres.”. Finalizando, desta vez referindo-se à costureira: “Nas suas mãos, um vestido passava a ser blusa, uma blusa era uma saia, um folho transformava-se em prega ou bolso”.
Há que dizê-lo, Leonor Xavier descreve aqui um intenso registo de manutenção. A manutenção de uma casa, a manutenção da própria vida, trabalho que, dizia um professor de Antropologia de Económico, não era remunerado, mas que, sem o qual, a sociedade ruiria. Hoje, só as realezas empresariais e as poucas verdadeiras que sobram na Europa possuem este tipo de criadagem, e mesmo assim, o trabalho não é o mesmo, menos manual (Agostinho da Silva diria mesmo menos escravizante). Mas se olharmos com atenção para esta descrição veremos que a fronteira entre a manutenção e a arte é difusa. Facilmente o essencial passa a supérfluo. O cabrito requer arte não a requerendo de todo, assim como os doces uma mão, uma alma que se põe na confecção, doces que essencialmente têm apenas de ser doces mas que acabam sendo mais: “o doce estava divinal”, pode dizer-se, alcançou o divino pela elaborada manutenção da vida, e o vestuário, apenas protecção, em princípio, passa a arte sem preço. Uma pequena anedota ilustra esta passagem: uma senhora num salão de chapéus parisiense prova, insatisfeita, todos os modelos disponíveis; por fim, chama o chapeleiro e diz-se desiludida por nada lhe ficar bem. O chapeleiro pega então num pedaço de tecido que sabiamente vai enrolando à volta da cabeça da senhora. Por fim, estende o espelho e a senhora diz, quase num grito: -- Perfeito, está perfeito. Quanto lhe devo?, pergunta. O chapeleiro pede-lhe um preço exorbitante, ao que a senhora, chocada, contrapõe: -- Mas isto é apenas um pedaço de tecido. Com um sorriso, o chapeleiro, responde: “-- Mas, minha senhora, o tecido é de graça”. O chapéu serve apenas para cobrir a cabeça, mas há sempre um “a mais” que se coloca, o pequeno “a mais” que torna os pequenos gestos em pequenas perfeições, próximas do divino.
O Jardim de Adão e Eva era para ser guardado, mantido por eles, mas um jardim é já a criação conduzida a uma outra criação. Não há jardins espontâneos, têm a marca da tesoura de podar, da orientação no espaço, do cuidado visual e, naturalmente, do canto elogioso dos pássaros. Têm um toque a mais do que a natureza selvagem. Cuidar é assim também criar.
Confesso que fico estupefacta com os sacrifícios humanos que ainda hoje se fazem em religiões monoteístas. Para além do acto tresloucado de fazer explodir bombas no seu próprio corpo em nome de um Deus e com o propósito de um paraíso machista de virgens submissas, há os outros, feitos na Páscoa, no qual cristãos se deixam espetar por pregos numa tentativa vã de serem símbolos vivos (mais parecendo mortos, mas enfim) e, ainda, outros que se arrastam de joelhos até que o sangue por eles escorra ou as bolhas nos pés cheirem mais a exigência do que propriamente a pedidos de socorro. Parece-me tão estranho isso como os jogadores irem pedir golos à Virgem como se esta fosse a décima segunda jogadora, marcando o golo da vitória. No fundo, são negócios, apenas negócios… mas negócios que implicam o corpo, ou seja, o jardim que nos está mais próximo, o mais íntimo, a manifestação que temos mais por perto. Esta destruição contraria a guarda do jardim e, em última análise, a própria criatividade. Com a destruição já não há manutenção, e sem esta deixa de haver a possibilidade artística que há no homem, tanto fora de si como dentro de si. Hoje assiste-se à destruição, não menos perigosa, da psique humana.
Tive acesso a um texto pouco propagandeado, talvez por poder ser pouco entendido, de Denis La Borré, mas que está em harmonia com a chamada Tradição Universal, no qual se pode ler a reformulação da frase “Deus criou o homem à sua imagem e semelhança” para “E todos os homens são à imagem de Deus, mas, eventualmente, também à sua semelhança”, ou seja, temos a imagem mas ainda não revelamos a semelhança; somos, segundo este autor, seres cujo Arquétipo divino está dentro do homem, entranhado mesmo, uma vez que esta é a sua realidade mais profunda não se encontrando nas particularidades naturais ou físicas (materialistas), na alma, na personalidade. A realidade mais profunda encontra-se “na imagem de Deus no homem”, “Antes da queda, o homem envergava uma vestimenta tecida por Deus. (…) Esta vestimenta psicossomática era tecida de luz, e da glória de Deus. (…) Essas túnicas de pele não são o invólucro dentro do qual a alma terá estado aprisionada, como se aprisiona um ser humano dentro de uma camisa de forças ou de um escafandro. Essas túnicas de pele não são uma imagem de um “corpo físico” dentro do qual a alma estaria encerrada e donde ela se libertaria à hora da morte. É necessário, antes de mais, concebê-las como um ser (compreendido como corpo e alma) de luz densificada, congelada, endurecida. Aquilo que constitui o homem “à imagem” é o corpo com a alma; não a alma sem o corpo e, ainda menos, o corpo sem a alma, mas o composto, sem separação de uma alma e de um corpo. O “à imagem” entende-se como a totalidade psicossomática do ser humano. As túnicas de pele exprimem a mortalidade com a qual o homem se revestiu depois da queda, como uma segunda natureza, a situação nova na qual ele se encontra, quer dizer, uma vida dentro da morte. Esta mortalidade abrange todo o organismo psicossomático do homem e não se limita ao corpo. Isto deve-se ao facto de as funções psíquicas serem, também, “tornadas” corporais, formando com o corpo, o ‘véu do coração’. (..) Essas túnicas de pele, oferecem-lhe a possibilidade de sobreviver, por algum tempo, no seio da própria morte, até recuperar, e mesmo ultrapassar essas vestimenta inicial.»
Este é, claro, o tema da deificação do homem, cujas raízes são tão antigas como o próprio homem (bem mais velho do que o homem-macaco de Darwin). Não vale a pena esquecer isto porque mais tarde ou mais cedo lembramo-nos. É um assunto ao qual se volta sempre porque está dentro de nós, mesmo que não saibamos o “como” dessa deificação, e na verdade, poucos sabem, e muitos se deixam abater no deserto procurando nele a totalidade. A deificação do homem é a arte final. O último toque da criação (conhecida, claro está, outras provavelmente haverá, desconhecidas), a mais difícil. Mas tudo começa, na arte, pela manutenção, pela sábia manutenção que vai ascendendo a esferas superiores. Se, para a Tradição a verdade se situa para além do Bem e do Mal, a esfera artística situa-se para além da criação e da destruição. Verdade e Perfeição carecem de opostos na sua busca mas transcendem-nos no final.

As citações nunca estão sós, porque alguém as cita. Verdade de La Palice. E os homens podem estar sós? Devem estar sós? Consegui-lo-ão? Mesmo em processos e caminhos angelicais, o corpo sendo um aglomerado de corpo e alma, indissociáveis, está condenado a estar em relação com os outros corpos. Mesmo não sendo seres humanos há sempre a companhia dos animas (insectos mesmo minúsculos, bactérias e ácaros), das rochas, das plantas: é inevitável, é o cenário que nos calhou em sorte. Ninguém marca uma reunião a sós com Deus, porque somos sempre nós e a nossa circunstância, para citar Ortega y Gasset.
Num tempo de excessos como este, é fácil pensar no silêncio auditivo, no silêncio visual, no silêncio dos pensamentos, na ausência estéril que se pensa fértil. Num mundo sujo sonha-se com a máxima limpeza, é natural. Mas há que distinguir espiritualidade de limpeza, são coisas diferentes e não obrigatoriamente concordantes: de velhos sujos e vagabundos da rua retiram-se lições. Quando estes desejos me parecem incontroláveis lembro-me sempre de um conto indiano no qual um peregrino da verdade, querendo ir sempre mais longe, até ao fim do universo, acaba por sair dele e, olhando para trás, vê que o universo é apenas um animal no qual tinha estado sempre encerrado, estendo-se o nada em frente a ele. O nada mesmo nada. O verdadeiro terror. O “queimar” desse fluxo ininterrupto de imagens (leia-se também sons, palavras, sensações, sentimentos, memórias, etc…) é apenas o início de um percurso. Em seguida, serão queimados resíduos persistentes de todas essas vivências (ou mortes porque ilusões) e essa aparente destruição desembocará em vida, em plenitude, num “cheio”, afinal, não no terror infernal do vazio, no nada, na morte.

Em suma, intui-se que o supérfluo é de facto essencial, porque é ele que nos conduz da simples manutenção à prática artística. O mesmo se passará connosco. O corpo é absolutamente essencial, matéria-prima do corpo de Glória. No oriente, os sábios -- um discípulo sem mestre não faz sentido e o inverso também não -- estão de alguma maneira ligados a uma arte, só assim conseguem a transparência que se espera num mestre: que o discípulo possa ver para além dele. Os processos artísticos em si são misteriosos, inquantificáveis, a solidão extrema, perigosa, isso nos mostram Cristo, Buda, afinal sempre próximos dos outros. Partilhando até o corpo…

terça-feira, 27 de abril de 2010

NO MÊS DE MAIO, EM SINTRA: EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA DE TIAGO SOBRAL CUNHA...


Inauguração. Estações - uma incerta memória do paraíso é o título da exposição de fotografia (clique na imagem para a ampliar) de Tiago Sobral Cunha, do círculo dos Cadernos, que será inaugurada no próximo dia 30 e estará patente ao público durante o mês de Maio na Vila Alda - Casa do Eléctrico de Sintra. A Serra de Sintra é o tema.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

AFORISMOS, 30

Eduardo Aroso

120 – Em verdade, o Filho do Homem não tinha «onde reclinar a cabeça». Pende também a alma portuguesa, sedenta no sufoco da incompreensão e sangrando na via-sacra da democracia que geneticamente se transmutou na horrenda plutocracia. Eis o sinistro: no cortejo não há oficiante; só o Povo, cabisbaixo, andando e gemendo, cumpre o servilismo de balbuciar a amarga oração de ter de dizer que é português.

A Sopa de Arroios, de Domingos António de Sequeira: clique na imagem para a ampliar

121 – Sair da noite mais longa, olhar claramente pela janela manuelina com olhos de horizonte, fitar o invisível de «todas as maneiras», como verdadeira Pessoa, atento ainda ao toque acariciado do vento, no místico contemplar do azul celeste, aura que nos envolve, e pelo marulhar nocturno escutar a ressonância de todos os tempos: o único salmo de redenção. Será este a dar sentido a toda a acção.

122 – Krísis -Tomando o sentido grego da palavra (distinção, escolha, decisão), entre nós não é só a crise da democracia, mas o epílogo de um ciclo iniciado com o Marquês de Pombal e que agora se esgotou. Ou continuamos a repetir os erros das 3 repúblicas que resolveram mal as crises dos finais da 4ª dinastia, ou nos emancipamos - decidindo de vez - e então começa a verdadeira República Portuguesa. A par do nascer do sol, comemoremos, pois, a liberdade em cada dia do ano, em cada gesto de ser português, o sentido de muitos dias do nosso existir, reclamando, culturalmente, a liberdade de não aceitar que se apague o que foi lentamente escrito no tempo, no nosso emaranhado mas fecundo tempo de ser Portugal. É que a escrita rápida, podendo ser útil, apresenta muitas desvantagens. E o que pensar da nossa geração quando canta aquela passagem do Hino Nacional «O esplendor de Portugal…»? É que podemos ficar com a nota encravada na garganta, a pensar que o esplendor não é o dos últimos tempos!

quinta-feira, 22 de abril de 2010

NO PRÓXIMO SÁBADO, ÀS 15:00, NA BIBLIOTECA MUNICIPAL DE SESIMBRA


Lançamento. É já no próximo sábado, pelas 15 horas, que tem lugar o lançamento do livro Poemas da Montanha, uma recolha de poesias de Frei Agostinho da Cruz com prólogo de Dalila L. Pereira da Costa e a chancela da Serra d’Ossa. Integrado no ciclo Portugal Renascente (iniciativa conjunta dos Cadernos de Filosofia Extravagante e da Nova Águia, em parceria com a Câmara Municipal de Sesimbra), esta iniciativa irá decorrer na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Sesimbra, estando a apresentação da obra a cargo de Luís Paixão, do círculo dos Cadernos.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

PARA VER

Registo. António Quadros evoca Fernando Pessoa, num documentário agora disponível na página consagrada à evocação do seu legado.

terça-feira, 20 de abril de 2010

AFORISMOS, 29

Eduardo Aroso


Ínclita Geração, escultura de Laureano Ribatua: foto tirada daqui

117 – O Estado e as universidades confundem-se: ambos tomam conta de tudo. O primeiro reconhece as pessoas essencialmente por pagamentos fiscais, possuindo também Serviços de Saúde Mental, abertos 24 horas por dia. No ensino, o que busca o conhecimento tem de justificar esse conhecimento, não através do próprio conhecimento, mas onde o foi buscar. Ambos são necessários; não desta maneira. Mas o Estado e as universidades que temos deveriam sentar-se frente a frente para decidir quando abrem falência de vez e não enganarem mais os trabalhadores da precária situação destas empresas.
118 – A Ínclita Geração foi traída pela corrupta geração; no país dos brandos costumes surgiram os viciosos costumes. Resta hoje a acção derradeira sobre o húmus do fim, oração última que seja a primeira que nos abra definitivamente o céu do espírito. Há vendilhões do templo, vendilhões da pátria, vendilhões de tudo. Porém, no deserto do mundo ninguém pode profanar a verbo fundador, a «intacta glória de Deus».
119 – Há guardadores de rebanhos, guardadores de pátrias e o Pastor de todas as nações.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

OS POETAS LUSÍADAS, 34


A NOSSA SENHORA DA ARRÁBIDA

Aqui, Senhora minha, onde soía
Cantar na minha leve mocidade
O muito que de Vossa saudade
Desejei de acender nesta alma fria;

Aqui torno outra vez, Virgem Maria,
Desenganado já, mais de verdade,
Pois me mostrou do mundo a falsidade,
Que a lágrimas comprei, quem me vendia.

Conselham-me tam claros desenganos
Que comece de novo nova vida
Nesta Serra deserta, alta e fragosa;

Mas são conselhos vãos, leves, humanos,
Que Vós nunca quisestes ser servida,
Se não por puro amor, Virgem fermosa.

Frei Agostinho da Cruz

quinta-feira, 15 de abril de 2010

AFORISMOS, 28

Eduardo Aroso

114 – Filhos que somos do Cosmos, chegaremos um dia ao ponto em que só poderemos nascer na Terra se o espírito se comprometer a amá-la?
115 – Estranho povo que ora se apressa a não querer ser actor de nenhuma colonização, para logo se deixar colonizar económica, social e culturalmente. Hoje os colonizadores elegem-se democraticamente.

116 - Se Portugal expulsou os judeus, acolheu muitos deles refugiados da 2ª Guerra Mundial; se teve inquisição, os republicanos de 1910 e outros, já antes, encarregaram-se de matar e saquear o que não pertencia ao Estado; nos últimos 36 anos de democracia, qualquer um que professe uma ideia contrária ao estado de coisas reinante (ou republicante) é, lentamente, queimado na indiferença institucional, no laicismo corporativista que elegeu o dinheiro como aperfeiçoamento das artes e ofícios. Não se enjeite, todavia, os actos, por certo contrários aos Actos dos Apóstolos, de D. Manuel I e D. João III. Do «Santo Ofício» passou-se ao actual Ideológico Suplício! Apesar de tudo, abolimos bem cedo a pena de morte, não dominamos militarmente o mundo nem lançamos bombas nucleares e também não fabricamos em laboratórios vírus para lançar epidemias. Por isso, devemos recusar o modelo de civilização forjado no dito “novo mundo”.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

DIA 24, EM SESIMBRA: POESIA DE FREI AGOSTINHO EM LIVRO DA SERRA D'OSSA

Lançamento. Integrado no ciclo Portugal Renascente (iniciativa conjunta dos Cadernos de Filosofia Extravagante e da Nova Águia, em parceria com a Câmara Municipal de Sesimbra), tem lugar no próximo dia 24 de Abril, sábado, pelas 15:00, na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Sesimbra, o lançamento de Poemas da Montanha, recolha de poesias de Frei Agostinho da Cruz que conta com um prólogo de Dalila L. Pereira da Costa e tem a chancela da Serra d’Ossa. A apresentação da obra estará a cargo de Luís Paixão, do círculo dos Cadernos.

terça-feira, 13 de abril de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 56


Mondego
Eduardo Aroso

Ao João Tavares

Incerto caudal
Descendo o meu país.
Desliza em contra-cantos
Alheio à voz da raiz.
Águas livres no correr
Presas em tantas mágoas,
As que Camões bem sabia
Que viriam a nascer…
Da serra mais alta
Vem até à cidade
Que lhe canta sempre
Sob a lua pasmada.
A guitarra soa
Ainda sonhada.
A única saudade
Que leva até ao mar
É a da lição adiada
Das rosas por estudar…

Janeiro de 2010

segunda-feira, 12 de abril de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 55

O Plutocrata – uma fábula dramática*
Joaquim Domingues

Um esferóide cabisbaixo, desenhado por Nuno Cavaco, enquadrado pelo fundo negro, ilustra o título O Plutocrata, de Ernesto Palma, reeditado pela Serra d’Ossa nos finais de 2009. O cariz ficcional do livro insinua-se desde a Dedicatória: «Ao Orlando Vitorino, quem me obrigou a escrever o que neste livro se diz». Com efeito, uma Nota editorial esclarece não ter sido Ernesto Palma quem escreveu o texto ora publicado, resultante dos apontamentos elaborados pelos amigos que o acompanhavam na sua tertúlia.
A transposição de planos marca aliás toda a trama do volume que, em lugar dos plutocratas, tem antes por objecto a plutocracia, visto aqueles, segundo alega, terem o condão de se manterem incógnitos. Bem conhecidos são os argentários, detentores de muito dinheiro e cujo único fito consiste em arrecadar mais; enquanto os plutocratas, esses, apenas manipulam o capital disponível no mercado, sem fins crematísticos. Deles, porém, só um nome logrou ficar na história: o de Mendizabel ou Mendizábal, o protagonista de uma das célebres novelas de Benito Pérez Galdós!
A arte de Ernesto Palma, como a de Talma, consiste em efabular, ou seja, configurar em narrativa de feição exemplar um lema ou problema que, de abstracto, assume o relevo e o dramatismo duma realidade vivida. Assim nos faz aparecer o plutocrata, como o motor oculto duma situação política, económica e cultural em que o poder se esforça por bloquear a normal dinâmica da sociedade humana. Deixando à nossa perspicácia a questão de saber quais as verdadeiras razões de tal procedimento, cujo efeito mais notório seria o de salvaguardar o ascendente de certas famílias.
Os exemplos referidos ao longo da exposição parecem abonar a tese da natureza ilusória, da vacuidade e insubsistência das vicissitudes por que passou o País nos últimos decénios. Do alegado combate ao capitalismo, que campearia até 1974, veio a resultar, afinal, o reforço dele, patenteado na estreita aliança entre os detentores do dinheiro e os que, em nome dos trabalhadores, dos explorados, ou seja, do socialismo, capturaram os postos cimeiros da estrutura política adrede montada. Contudo, o acumular dos exemplos, por mais convincente que pareça, não garante o rigor da indução, como sabe quem estudou a lógica elementar.
O paradoxo esclarece-se quando atentamos na tese platónica de que «só a ideia é real, só o pensamento a concebe» (p. 44). Assim se compreende que, tal como sucedera em 1910, o que aconteceu em 1974 fosse a necessária consequência da doutrinação difundida pelos meios intelectuais, mormente universitários, atribuindo às condições materiais, sobretudo de carácter económico, a razão determinante da organização social e dos movimentos históricos. Com efeito, o pensamento comum aos que prepararam o golpe militar, aos que desmantelaram as instituições públicas e aos que, ocupando agora as que lhes sucederam, pretendem decidir do nosso destino, resume-se no lema: o dinheiro é a mola real das sociedades humanas!
Aceite o pressuposto de que a realidade está nas ideias, sejam elas materialistas, como acontece nas presentes circunstâncias, Ernesto Palma pode despedir o protagonista, que sai de cena para que o drama prossiga noutro nível. No segundo acto ou momento do discurso, em vez de se voltar para o passado, a reflexão assume carácter prospectivo, a fim de sondar as presumíveis características do futuro próximo. Como resulta do antecedente, elas hão-de ser necessariamente as resultantes das ideias dominantes na sequência do materialismo dialéctico.
Com notável argúcia, o mestre conduz a dedução cronológica dos sistemas filosóficos até à conclusão vitoriosa de que, quando acabar por impor-se a mais pasmosa indiferença, chegará o momento que «põe fim à época em que só é real o espectáculo e anuncia a época em que só o vazio é real» (p. 66). No contexto de tão radical niilismo até a morte deixará de ser pensada, eliminando-se a derradeira oportunidade da redenção pessoal, para quem enfrenta essa situação-limite. Suspenso o drama neste ponto, é digno de nota que a ele nos reconduza o Preâmbulo de Elísio Gala, o qual se há-de justamente valorizar como a reflexão actual de um discípulo de Ernesto Palma acerca da lição magistral.
O especial contributo desse prelúdio reside na abertura para um terceiro acto, esse de carácter vincadamente religioso, conducente a que possam esperar enfim a libertação quantos professam as virtudes teologais. Digamos que, após o primeiro momento, histórico ou positivo, e o segundo, especulativo ou metafísico, se ascende ao momento religioso ou teológico; denunciado o absurdo da regressão positivista, que conduzira a alma até à beira do abismo, aponta-se-lhe o efeito libertador da abertura à transcendência. A deixa para essa mudança do cenário achou-a Elísio Gala na conhecida asserção de Ernesto Palma de que «o cristianismo é a única religião verdadeira» (p. 43).
A singularidade da passagem advém, a meu juízo, do privilégio atribuído ao platonismo, cuja doutrina, segundo o pensador dramático, o cristianismo «confirma e consagra»! O que conflitua o seu tanto com a afirmação de ser o cristianismo «a única religião em que, com a encarnação, a divindade é plenamente real». Na verdade, se «a encarnação da divindade religa o sensível e o inteligível», a inferência a retirar haveria de ser quiçá a inversa – a de que o cristianismo salva a realidade do mundo, pela presença viva do Redentor.
A pendência não pode, contudo, resolver-se em termos meramente racionais, nos limites da lógica formal, pelo que o drama aguarda o desenlace noutro palco. Aliás, com ascender ao plano religioso, ele deixa de ser representável, pois se apresenta como drama ritual, vivido, como acto de redenção. A possibilidade do Reino de Deus, que a encarnação de Cristo tornou real e mesmo efectiva (visto ele estar já no meio de nós, invisível embora), aboliria até o domínio profano se, por um mistério indecifrável, o Calvário não estivesse por consumar ainda. Porque nos coloca diante de tão transcendentes questões, a reedição de O Plutocrata merece ser saudada como sinal esperançoso duma tradição que se renova.
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* Publicado originalmente no suplemento "Cultura" da edição de 10 de Março de 2010 do Diário do Minho.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

FREI AGOSTINHO E A ARRÁBIDA, 3*



Mas que em Fr. Agostinho, ainda para além do seu franciscanismo estrutural, no cerne de sua teologia e mística, se possa ver uma longínqua influência do neoplatonismo, comum a toda a origem da mística ocidental, uma recorrência ou convergência, duma mesma tipologia, será possibilitada pelo paralelismo entre os três aspectos de Deus, como Incondicionado Absoluto, Logos e Alma do Mundo, própria dessa filosofia; e a que estará no fundo de sua poesia mística. A Alma do Mundo, que é também Absoluto, é aqui representada no seu catolicismo, ortodoxamente pela Nossa Senhora, num esquema teológico onde actua com o Pai, Filho e Espírito Santo. Ligando-se o infinito ao finito através da figura sagrada da Virgem, aqui particularmente exaltada, e não através de diversos graus de emanação; se ousará dizer que o neoplatonismo, e mesmo o gnosticismo, foi substituído pelo catolicismo de feição franciscana, o pensamento português tendo eleito este, que vê na criatura semelhança ou imagem de Deus: e a Deus conduzindo; e na Virgem, a mediadora entre Deus e os homens, entre Deus e a Natureza. Pois será pela Virgem que esta união derradeira do transcendente e do imanente, característica da espiritualidade portuguesa, se estabelece em termos teológicos, e ainda místicos. A Natureza natural passando a Natureza divinizada, por graça: assim como o próprio poeta místico, pela purgação e iluminação através da terra portuguesa, topograficamente marcada, indo do norte a sul, passou pela graça, de homem natural a homem espiritual. Se aqui, o cargo desta sublimação duma natureza natural, seria incumbido eleitamente à Nossa Senhora da Assunção, na Arrábida, mais tarde, quatro séculos depois, no Porto, a redenção dessa natureza seria dada completar-se pelo homem, tal como o anunciou, fora, ou contra esses tempos de agnosticismo e positivismo, um filósofo, Bruno: como atingimento da perfeita harmonia perdida, na total abolição do Mal, ou atingimento do homogéneo. Esse sistema antropocósmico, seria ainda como a representação moderna, do cerne de toda a problemática espiritual portuguesa de todos os tempos; e aqui, tanto no franciscano eremita da Arrábida, como no filósofo portuense do Bonjardim, um mesmo carácter místico e teológico haverá no fundo de suas obras: como relação de semelhança entre o macrocosmos e o microcosmos, o divino e o humano, possibilitando a redenção: dois opostos que assim se influenciam mutuamente, em interacção possível.
Depois desta peregrinação penitencial, nesta serra, como lugar-limite, se realizará essa regeneração do homem e da natureza, assumida por um franciscano português, como reapossessão do ser e estar paradisíaco. Longo processo, desde a via purgativa, através da contemplativa, até às portas da unitiva, como pureza primordial e final.
Mas a força, ou matriz donde tudo nasce, primeiro e último passo da salvação, como amor e liberdade total, virá sempre da saudade. «Nasci para lavrar na terra alheia / Terra de maldição, de Deus maldita / De cardos, e de espinhos sempre cheia (…) Mas pois a verdadeira liberdade / Depende de trazer o pensamento / Aceso na divina saudade; / De tudo o que me for impedimento / Para poder lograr bem tamanho / Determino fazer apartamento» (Écloga VI).
Que o eremita se sentiu aqui perante Deus, responsável da salvação dos homens e da natureza, assumindo um serviço no seu mais alto sentido, o dirão estes versos. Serviço humano, sacrificial, de redenção cósmica, em que o eremita será só um puro instrumento terrestre nas mãos de Deus e seus desígnios: agindo sem agir, querendo sem querer, pela acção a mais perfeita, que é o mais perfeito abandono da vontade, como obediência, porque seu ser já então consumado, está coincidente com o ser divino: e é este, só este, que nele age e quer: «Ele lavra, ele rega, ele semeia / Eu colho quando quero a sementeira.» Influxo, acção e aceitação da graça, por graça, no homem: ao que também se poderá aqui chamar a confissão de Fr. Agostinho da Cruz do seu antipelagianismo, como uma das recorrentes, e sempre actuantes, recusas da terra lusitana.

Arrábida, serra alta e última da Europa e Ásia, sobre o Mar Atlântico debruçada: lugar eleito para a ascese de transmutação terrestre e humana, levando-os desde a esterilidade dos cardos e espinhos, até às alvas flores da glória. E ascese que será feita aqui nesta serra, como em reflexo das imagens paradigmáticas que no seu convento estão colocadas às entradas de seus sucessivos pátios e na sua porta principal: eram elas que outrora acolhiam os frades capuchinhos e agiam sobre sua alma; e que agora ainda estão perante nossos olhos desatentos: S. Pedro de Alcântara, Santa Maria Madalena e S. Francisco, ou o monge de S. Francisco.
Sucessivos pátios e uma porta que por si, um a um, marcariam nesse convento, como outros tantos ritos de passagem ou metamorfose, cada qual com sua imagem condutora. Porque, todo o convento é construído sob o esquema do labirinto, para uma iniciação ou santidade: ambos caminhos visando a um mesmo fim. Contínuo e descontínuo, cortado por passagens abruptas, ele se irá suavemente abrindo e recusando à penetração de nossos passos: lenta e sincopadamente, sua estrutura ou espaço será, não homogéneo, mas heterogéneo, cortado por várias suspensões, tal a realidade do mundo e da alma: passagens abruptas, marcando como as necessárias e sucessivas iluminações, ou tentações, porque tem de passar a alma do iniciado ou santo, como suas provas, para atingir a suprema sabedoria, a do amor.
E neste percurso, sucessivos espaços, trechos, serão construídos, ora às claras, a céu aberto, ora na sombra, em subterrâneos. Num deles, estará um azulejo com a imagem de Fr. Agostinho da Cruz, no seu capucho agudo em bico de pássaro e seu semblante de sorriso fagueiro, tal o que possuiu na sua vida terrestre neste convento.
Porque todo o convento é construído unidamente, em abraço com a terra. Em comunhão de amor, a serra penetrará todo o convento, estará aí presente entre suas paredes, em rochas vivas, das suas vertentes intocadas, suas plantas diversas surgindo espontâneas em recantos floridos; intrincadamente com sua água, que brota secreta e casta em pequenas fontes e taças ornadas de seixos e conchinhas do mar. Porque aqui ainda, lusiadamente, este labirinto será, não fechado sobre si, mas aberto, porque construído sob o signo da espiral; não fechado, acabado em si, irredutível, mas sobre si, uma e outra vez retornando, sempre novo: dinamicamente de si e por si, inexaurível criando sempre novos ciclos, ou planos superiores de manifestação, como revelações do divino no humano e terrestre. Erguendo-se sobre o abismo do mar, sustentado na vertente da serra, como regaço maternal, sob o céu, face a ele, todo o convento em si concentrará a força da terra e do céu: e será esse nó de energia, fortíssimo, terrível, mas todo em doçura revelado, de que os frades capuchinhos habitando outrora nesse convento teriam partilhado: a que seriam chamados a partilhar, como em apelo de acção e contemplação, presente e actual.
Este convento se mostrando todo como uma concentração da energia espiritual na terra portuguesa, das mais altas. Tal como Alcobaça, Tomar, Sintra, Sagres, Guimarães, Lisboa, Fátima. Um ponto marcado e eleito no seu espaço corpóreo, para uma acção do espírito. E será como concentração dessa energia, aí aceite e usada pelos homens, baixada e doada do céu, que o convento ainda hoje nos surge: e deverá surgir a nossos olhos e corações. E Fr. Agostinho da Cruz, como um dos seus eremitas eleitos para aceitar em si e em si usar e levar até aos limites possíveis do humano, essa energia do divino.

Dalila Pereira da Costa
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* Título da responsabilidade do editor. O presente texto reproduz um excerto (pp. 246-257) de Místicos Portugueses do Século XVI, livro publicado pela autora em 1986, com a chancela da Livraria Chardron de Lello & Irmão – Editores, Porto.