(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



quarta-feira, 28 de abril de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 57

Interior (Costureiras trabalhando), de Marques de Oliveira

As citações nunca estão sós
Cynthia Guimarães Taveira

Frase de Oscar Wilde, que não me canso de repetir: “O supérfluo é absolutamente essencial”. E outras citações, desta vez de um romance em jeito de autobiografia, ou vice-versa, que gostei de ler, nem sempre as obras-primas são necessárias aos pensamentos. Assim, nas “Casas Contadas” de Leonor Xavier, pequenos esboços da vida doméstica, deliciosos: “As cozinheiras como ela era sabiam de tudo, pensava eu, enquanto assistia aos seus preparos. Ela arrepiava um pescada com sal, pendurava-a pelo rabo por um cordel, preso na torneira sobre um alguidar, ou escamava uns salmonetes para o almoço. Temperava o cabrito para ir ao forno, ajeitava uma galinha em arroz para corar, embebedava o peru com um funil se estivesse em preparativos de Natal. Depenava um pato ou um frango. Cortava feijão verde ou arranjava nabiças para uma sopa. Sabia que o espinafre não leva água para cozer, e que o polvo é traiçoeiro na panela. Batia claras de ovos em castelo para os bolos, não se enganava no ponto do açúcar, ponto de pérola ou de espadana, a escorrer da colher de pau. E fazia doces de frutos em tachos de cobre, sempre a mexê-los, encarrapitada no fogão.” Mais à frente, tendo ainda a referência das criadas: “…continuava pelo trabalho de lavar, escamar, descascar, cortar, moer, picar os peixes e as carnes, as hortaliças, os acompanhamentos, cozinhando-os para o momento exacto das refeições, lavando à mão e arrumando a loiça com a ajuda da criada de fora. Eram horas de trabalho sem fim, para tratar de esfregar a roupa de corpo no tanque e pendurá-la na corda de arame, roupa que a criada de fora de lá tirava depois de seca, para borrifá-la e dobrá-la a preceito, arrumada num cesto de verga, para da parte da tarde, entre a hora do lanche e do jantar, passá-la a ferro.” E ainda: “Duas vezes por semana, vinha a lavadeira, com o seu rol de roupa confirmado peça por peça, os lençóis e as fronhas, as almofadas e os travesseiros, as toalhas de mesa e de banho, os guardanapos e os panos da loiça, de estopa ou linho ou algodão conforme se destinassem a tachos, copos, pratos ou talheres.”. Finalizando, desta vez referindo-se à costureira: “Nas suas mãos, um vestido passava a ser blusa, uma blusa era uma saia, um folho transformava-se em prega ou bolso”.
Há que dizê-lo, Leonor Xavier descreve aqui um intenso registo de manutenção. A manutenção de uma casa, a manutenção da própria vida, trabalho que, dizia um professor de Antropologia de Económico, não era remunerado, mas que, sem o qual, a sociedade ruiria. Hoje, só as realezas empresariais e as poucas verdadeiras que sobram na Europa possuem este tipo de criadagem, e mesmo assim, o trabalho não é o mesmo, menos manual (Agostinho da Silva diria mesmo menos escravizante). Mas se olharmos com atenção para esta descrição veremos que a fronteira entre a manutenção e a arte é difusa. Facilmente o essencial passa a supérfluo. O cabrito requer arte não a requerendo de todo, assim como os doces uma mão, uma alma que se põe na confecção, doces que essencialmente têm apenas de ser doces mas que acabam sendo mais: “o doce estava divinal”, pode dizer-se, alcançou o divino pela elaborada manutenção da vida, e o vestuário, apenas protecção, em princípio, passa a arte sem preço. Uma pequena anedota ilustra esta passagem: uma senhora num salão de chapéus parisiense prova, insatisfeita, todos os modelos disponíveis; por fim, chama o chapeleiro e diz-se desiludida por nada lhe ficar bem. O chapeleiro pega então num pedaço de tecido que sabiamente vai enrolando à volta da cabeça da senhora. Por fim, estende o espelho e a senhora diz, quase num grito: -- Perfeito, está perfeito. Quanto lhe devo?, pergunta. O chapeleiro pede-lhe um preço exorbitante, ao que a senhora, chocada, contrapõe: -- Mas isto é apenas um pedaço de tecido. Com um sorriso, o chapeleiro, responde: “-- Mas, minha senhora, o tecido é de graça”. O chapéu serve apenas para cobrir a cabeça, mas há sempre um “a mais” que se coloca, o pequeno “a mais” que torna os pequenos gestos em pequenas perfeições, próximas do divino.
O Jardim de Adão e Eva era para ser guardado, mantido por eles, mas um jardim é já a criação conduzida a uma outra criação. Não há jardins espontâneos, têm a marca da tesoura de podar, da orientação no espaço, do cuidado visual e, naturalmente, do canto elogioso dos pássaros. Têm um toque a mais do que a natureza selvagem. Cuidar é assim também criar.
Confesso que fico estupefacta com os sacrifícios humanos que ainda hoje se fazem em religiões monoteístas. Para além do acto tresloucado de fazer explodir bombas no seu próprio corpo em nome de um Deus e com o propósito de um paraíso machista de virgens submissas, há os outros, feitos na Páscoa, no qual cristãos se deixam espetar por pregos numa tentativa vã de serem símbolos vivos (mais parecendo mortos, mas enfim) e, ainda, outros que se arrastam de joelhos até que o sangue por eles escorra ou as bolhas nos pés cheirem mais a exigência do que propriamente a pedidos de socorro. Parece-me tão estranho isso como os jogadores irem pedir golos à Virgem como se esta fosse a décima segunda jogadora, marcando o golo da vitória. No fundo, são negócios, apenas negócios… mas negócios que implicam o corpo, ou seja, o jardim que nos está mais próximo, o mais íntimo, a manifestação que temos mais por perto. Esta destruição contraria a guarda do jardim e, em última análise, a própria criatividade. Com a destruição já não há manutenção, e sem esta deixa de haver a possibilidade artística que há no homem, tanto fora de si como dentro de si. Hoje assiste-se à destruição, não menos perigosa, da psique humana.
Tive acesso a um texto pouco propagandeado, talvez por poder ser pouco entendido, de Denis La Borré, mas que está em harmonia com a chamada Tradição Universal, no qual se pode ler a reformulação da frase “Deus criou o homem à sua imagem e semelhança” para “E todos os homens são à imagem de Deus, mas, eventualmente, também à sua semelhança”, ou seja, temos a imagem mas ainda não revelamos a semelhança; somos, segundo este autor, seres cujo Arquétipo divino está dentro do homem, entranhado mesmo, uma vez que esta é a sua realidade mais profunda não se encontrando nas particularidades naturais ou físicas (materialistas), na alma, na personalidade. A realidade mais profunda encontra-se “na imagem de Deus no homem”, “Antes da queda, o homem envergava uma vestimenta tecida por Deus. (…) Esta vestimenta psicossomática era tecida de luz, e da glória de Deus. (…) Essas túnicas de pele não são o invólucro dentro do qual a alma terá estado aprisionada, como se aprisiona um ser humano dentro de uma camisa de forças ou de um escafandro. Essas túnicas de pele não são uma imagem de um “corpo físico” dentro do qual a alma estaria encerrada e donde ela se libertaria à hora da morte. É necessário, antes de mais, concebê-las como um ser (compreendido como corpo e alma) de luz densificada, congelada, endurecida. Aquilo que constitui o homem “à imagem” é o corpo com a alma; não a alma sem o corpo e, ainda menos, o corpo sem a alma, mas o composto, sem separação de uma alma e de um corpo. O “à imagem” entende-se como a totalidade psicossomática do ser humano. As túnicas de pele exprimem a mortalidade com a qual o homem se revestiu depois da queda, como uma segunda natureza, a situação nova na qual ele se encontra, quer dizer, uma vida dentro da morte. Esta mortalidade abrange todo o organismo psicossomático do homem e não se limita ao corpo. Isto deve-se ao facto de as funções psíquicas serem, também, “tornadas” corporais, formando com o corpo, o ‘véu do coração’. (..) Essas túnicas de pele, oferecem-lhe a possibilidade de sobreviver, por algum tempo, no seio da própria morte, até recuperar, e mesmo ultrapassar essas vestimenta inicial.»
Este é, claro, o tema da deificação do homem, cujas raízes são tão antigas como o próprio homem (bem mais velho do que o homem-macaco de Darwin). Não vale a pena esquecer isto porque mais tarde ou mais cedo lembramo-nos. É um assunto ao qual se volta sempre porque está dentro de nós, mesmo que não saibamos o “como” dessa deificação, e na verdade, poucos sabem, e muitos se deixam abater no deserto procurando nele a totalidade. A deificação do homem é a arte final. O último toque da criação (conhecida, claro está, outras provavelmente haverá, desconhecidas), a mais difícil. Mas tudo começa, na arte, pela manutenção, pela sábia manutenção que vai ascendendo a esferas superiores. Se, para a Tradição a verdade se situa para além do Bem e do Mal, a esfera artística situa-se para além da criação e da destruição. Verdade e Perfeição carecem de opostos na sua busca mas transcendem-nos no final.

As citações nunca estão sós, porque alguém as cita. Verdade de La Palice. E os homens podem estar sós? Devem estar sós? Consegui-lo-ão? Mesmo em processos e caminhos angelicais, o corpo sendo um aglomerado de corpo e alma, indissociáveis, está condenado a estar em relação com os outros corpos. Mesmo não sendo seres humanos há sempre a companhia dos animas (insectos mesmo minúsculos, bactérias e ácaros), das rochas, das plantas: é inevitável, é o cenário que nos calhou em sorte. Ninguém marca uma reunião a sós com Deus, porque somos sempre nós e a nossa circunstância, para citar Ortega y Gasset.
Num tempo de excessos como este, é fácil pensar no silêncio auditivo, no silêncio visual, no silêncio dos pensamentos, na ausência estéril que se pensa fértil. Num mundo sujo sonha-se com a máxima limpeza, é natural. Mas há que distinguir espiritualidade de limpeza, são coisas diferentes e não obrigatoriamente concordantes: de velhos sujos e vagabundos da rua retiram-se lições. Quando estes desejos me parecem incontroláveis lembro-me sempre de um conto indiano no qual um peregrino da verdade, querendo ir sempre mais longe, até ao fim do universo, acaba por sair dele e, olhando para trás, vê que o universo é apenas um animal no qual tinha estado sempre encerrado, estendo-se o nada em frente a ele. O nada mesmo nada. O verdadeiro terror. O “queimar” desse fluxo ininterrupto de imagens (leia-se também sons, palavras, sensações, sentimentos, memórias, etc…) é apenas o início de um percurso. Em seguida, serão queimados resíduos persistentes de todas essas vivências (ou mortes porque ilusões) e essa aparente destruição desembocará em vida, em plenitude, num “cheio”, afinal, não no terror infernal do vazio, no nada, na morte.

Em suma, intui-se que o supérfluo é de facto essencial, porque é ele que nos conduz da simples manutenção à prática artística. O mesmo se passará connosco. O corpo é absolutamente essencial, matéria-prima do corpo de Glória. No oriente, os sábios -- um discípulo sem mestre não faz sentido e o inverso também não -- estão de alguma maneira ligados a uma arte, só assim conseguem a transparência que se espera num mestre: que o discípulo possa ver para além dele. Os processos artísticos em si são misteriosos, inquantificáveis, a solidão extrema, perigosa, isso nos mostram Cristo, Buda, afinal sempre próximos dos outros. Partilhando até o corpo…

terça-feira, 27 de abril de 2010

NO MÊS DE MAIO, EM SINTRA: EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA DE TIAGO SOBRAL CUNHA...


Inauguração. Estações - uma incerta memória do paraíso é o título da exposição de fotografia (clique na imagem para a ampliar) de Tiago Sobral Cunha, do círculo dos Cadernos, que será inaugurada no próximo dia 30 e estará patente ao público durante o mês de Maio na Vila Alda - Casa do Eléctrico de Sintra. A Serra de Sintra é o tema.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

AFORISMOS, 30

Eduardo Aroso

120 – Em verdade, o Filho do Homem não tinha «onde reclinar a cabeça». Pende também a alma portuguesa, sedenta no sufoco da incompreensão e sangrando na via-sacra da democracia que geneticamente se transmutou na horrenda plutocracia. Eis o sinistro: no cortejo não há oficiante; só o Povo, cabisbaixo, andando e gemendo, cumpre o servilismo de balbuciar a amarga oração de ter de dizer que é português.

A Sopa de Arroios, de Domingos António de Sequeira: clique na imagem para a ampliar

121 – Sair da noite mais longa, olhar claramente pela janela manuelina com olhos de horizonte, fitar o invisível de «todas as maneiras», como verdadeira Pessoa, atento ainda ao toque acariciado do vento, no místico contemplar do azul celeste, aura que nos envolve, e pelo marulhar nocturno escutar a ressonância de todos os tempos: o único salmo de redenção. Será este a dar sentido a toda a acção.

122 – Krísis -Tomando o sentido grego da palavra (distinção, escolha, decisão), entre nós não é só a crise da democracia, mas o epílogo de um ciclo iniciado com o Marquês de Pombal e que agora se esgotou. Ou continuamos a repetir os erros das 3 repúblicas que resolveram mal as crises dos finais da 4ª dinastia, ou nos emancipamos - decidindo de vez - e então começa a verdadeira República Portuguesa. A par do nascer do sol, comemoremos, pois, a liberdade em cada dia do ano, em cada gesto de ser português, o sentido de muitos dias do nosso existir, reclamando, culturalmente, a liberdade de não aceitar que se apague o que foi lentamente escrito no tempo, no nosso emaranhado mas fecundo tempo de ser Portugal. É que a escrita rápida, podendo ser útil, apresenta muitas desvantagens. E o que pensar da nossa geração quando canta aquela passagem do Hino Nacional «O esplendor de Portugal…»? É que podemos ficar com a nota encravada na garganta, a pensar que o esplendor não é o dos últimos tempos!

quinta-feira, 22 de abril de 2010

NO PRÓXIMO SÁBADO, ÀS 15:00, NA BIBLIOTECA MUNICIPAL DE SESIMBRA


Lançamento. É já no próximo sábado, pelas 15 horas, que tem lugar o lançamento do livro Poemas da Montanha, uma recolha de poesias de Frei Agostinho da Cruz com prólogo de Dalila L. Pereira da Costa e a chancela da Serra d’Ossa. Integrado no ciclo Portugal Renascente (iniciativa conjunta dos Cadernos de Filosofia Extravagante e da Nova Águia, em parceria com a Câmara Municipal de Sesimbra), esta iniciativa irá decorrer na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Sesimbra, estando a apresentação da obra a cargo de Luís Paixão, do círculo dos Cadernos.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

PARA VER

Registo. António Quadros evoca Fernando Pessoa, num documentário agora disponível na página consagrada à evocação do seu legado.

terça-feira, 20 de abril de 2010

AFORISMOS, 29

Eduardo Aroso


Ínclita Geração, escultura de Laureano Ribatua: foto tirada daqui

117 – O Estado e as universidades confundem-se: ambos tomam conta de tudo. O primeiro reconhece as pessoas essencialmente por pagamentos fiscais, possuindo também Serviços de Saúde Mental, abertos 24 horas por dia. No ensino, o que busca o conhecimento tem de justificar esse conhecimento, não através do próprio conhecimento, mas onde o foi buscar. Ambos são necessários; não desta maneira. Mas o Estado e as universidades que temos deveriam sentar-se frente a frente para decidir quando abrem falência de vez e não enganarem mais os trabalhadores da precária situação destas empresas.
118 – A Ínclita Geração foi traída pela corrupta geração; no país dos brandos costumes surgiram os viciosos costumes. Resta hoje a acção derradeira sobre o húmus do fim, oração última que seja a primeira que nos abra definitivamente o céu do espírito. Há vendilhões do templo, vendilhões da pátria, vendilhões de tudo. Porém, no deserto do mundo ninguém pode profanar a verbo fundador, a «intacta glória de Deus».
119 – Há guardadores de rebanhos, guardadores de pátrias e o Pastor de todas as nações.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

OS POETAS LUSÍADAS, 34


A NOSSA SENHORA DA ARRÁBIDA

Aqui, Senhora minha, onde soía
Cantar na minha leve mocidade
O muito que de Vossa saudade
Desejei de acender nesta alma fria;

Aqui torno outra vez, Virgem Maria,
Desenganado já, mais de verdade,
Pois me mostrou do mundo a falsidade,
Que a lágrimas comprei, quem me vendia.

Conselham-me tam claros desenganos
Que comece de novo nova vida
Nesta Serra deserta, alta e fragosa;

Mas são conselhos vãos, leves, humanos,
Que Vós nunca quisestes ser servida,
Se não por puro amor, Virgem fermosa.

Frei Agostinho da Cruz

quinta-feira, 15 de abril de 2010

AFORISMOS, 28

Eduardo Aroso

114 – Filhos que somos do Cosmos, chegaremos um dia ao ponto em que só poderemos nascer na Terra se o espírito se comprometer a amá-la?
115 – Estranho povo que ora se apressa a não querer ser actor de nenhuma colonização, para logo se deixar colonizar económica, social e culturalmente. Hoje os colonizadores elegem-se democraticamente.

116 - Se Portugal expulsou os judeus, acolheu muitos deles refugiados da 2ª Guerra Mundial; se teve inquisição, os republicanos de 1910 e outros, já antes, encarregaram-se de matar e saquear o que não pertencia ao Estado; nos últimos 36 anos de democracia, qualquer um que professe uma ideia contrária ao estado de coisas reinante (ou republicante) é, lentamente, queimado na indiferença institucional, no laicismo corporativista que elegeu o dinheiro como aperfeiçoamento das artes e ofícios. Não se enjeite, todavia, os actos, por certo contrários aos Actos dos Apóstolos, de D. Manuel I e D. João III. Do «Santo Ofício» passou-se ao actual Ideológico Suplício! Apesar de tudo, abolimos bem cedo a pena de morte, não dominamos militarmente o mundo nem lançamos bombas nucleares e também não fabricamos em laboratórios vírus para lançar epidemias. Por isso, devemos recusar o modelo de civilização forjado no dito “novo mundo”.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

DIA 24, EM SESIMBRA: POESIA DE FREI AGOSTINHO EM LIVRO DA SERRA D'OSSA

Lançamento. Integrado no ciclo Portugal Renascente (iniciativa conjunta dos Cadernos de Filosofia Extravagante e da Nova Águia, em parceria com a Câmara Municipal de Sesimbra), tem lugar no próximo dia 24 de Abril, sábado, pelas 15:00, na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Sesimbra, o lançamento de Poemas da Montanha, recolha de poesias de Frei Agostinho da Cruz que conta com um prólogo de Dalila L. Pereira da Costa e tem a chancela da Serra d’Ossa. A apresentação da obra estará a cargo de Luís Paixão, do círculo dos Cadernos.

terça-feira, 13 de abril de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 56


Mondego
Eduardo Aroso

Ao João Tavares

Incerto caudal
Descendo o meu país.
Desliza em contra-cantos
Alheio à voz da raiz.
Águas livres no correr
Presas em tantas mágoas,
As que Camões bem sabia
Que viriam a nascer…
Da serra mais alta
Vem até à cidade
Que lhe canta sempre
Sob a lua pasmada.
A guitarra soa
Ainda sonhada.
A única saudade
Que leva até ao mar
É a da lição adiada
Das rosas por estudar…

Janeiro de 2010

segunda-feira, 12 de abril de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 55

O Plutocrata – uma fábula dramática*
Joaquim Domingues

Um esferóide cabisbaixo, desenhado por Nuno Cavaco, enquadrado pelo fundo negro, ilustra o título O Plutocrata, de Ernesto Palma, reeditado pela Serra d’Ossa nos finais de 2009. O cariz ficcional do livro insinua-se desde a Dedicatória: «Ao Orlando Vitorino, quem me obrigou a escrever o que neste livro se diz». Com efeito, uma Nota editorial esclarece não ter sido Ernesto Palma quem escreveu o texto ora publicado, resultante dos apontamentos elaborados pelos amigos que o acompanhavam na sua tertúlia.
A transposição de planos marca aliás toda a trama do volume que, em lugar dos plutocratas, tem antes por objecto a plutocracia, visto aqueles, segundo alega, terem o condão de se manterem incógnitos. Bem conhecidos são os argentários, detentores de muito dinheiro e cujo único fito consiste em arrecadar mais; enquanto os plutocratas, esses, apenas manipulam o capital disponível no mercado, sem fins crematísticos. Deles, porém, só um nome logrou ficar na história: o de Mendizabel ou Mendizábal, o protagonista de uma das célebres novelas de Benito Pérez Galdós!
A arte de Ernesto Palma, como a de Talma, consiste em efabular, ou seja, configurar em narrativa de feição exemplar um lema ou problema que, de abstracto, assume o relevo e o dramatismo duma realidade vivida. Assim nos faz aparecer o plutocrata, como o motor oculto duma situação política, económica e cultural em que o poder se esforça por bloquear a normal dinâmica da sociedade humana. Deixando à nossa perspicácia a questão de saber quais as verdadeiras razões de tal procedimento, cujo efeito mais notório seria o de salvaguardar o ascendente de certas famílias.
Os exemplos referidos ao longo da exposição parecem abonar a tese da natureza ilusória, da vacuidade e insubsistência das vicissitudes por que passou o País nos últimos decénios. Do alegado combate ao capitalismo, que campearia até 1974, veio a resultar, afinal, o reforço dele, patenteado na estreita aliança entre os detentores do dinheiro e os que, em nome dos trabalhadores, dos explorados, ou seja, do socialismo, capturaram os postos cimeiros da estrutura política adrede montada. Contudo, o acumular dos exemplos, por mais convincente que pareça, não garante o rigor da indução, como sabe quem estudou a lógica elementar.
O paradoxo esclarece-se quando atentamos na tese platónica de que «só a ideia é real, só o pensamento a concebe» (p. 44). Assim se compreende que, tal como sucedera em 1910, o que aconteceu em 1974 fosse a necessária consequência da doutrinação difundida pelos meios intelectuais, mormente universitários, atribuindo às condições materiais, sobretudo de carácter económico, a razão determinante da organização social e dos movimentos históricos. Com efeito, o pensamento comum aos que prepararam o golpe militar, aos que desmantelaram as instituições públicas e aos que, ocupando agora as que lhes sucederam, pretendem decidir do nosso destino, resume-se no lema: o dinheiro é a mola real das sociedades humanas!
Aceite o pressuposto de que a realidade está nas ideias, sejam elas materialistas, como acontece nas presentes circunstâncias, Ernesto Palma pode despedir o protagonista, que sai de cena para que o drama prossiga noutro nível. No segundo acto ou momento do discurso, em vez de se voltar para o passado, a reflexão assume carácter prospectivo, a fim de sondar as presumíveis características do futuro próximo. Como resulta do antecedente, elas hão-de ser necessariamente as resultantes das ideias dominantes na sequência do materialismo dialéctico.
Com notável argúcia, o mestre conduz a dedução cronológica dos sistemas filosóficos até à conclusão vitoriosa de que, quando acabar por impor-se a mais pasmosa indiferença, chegará o momento que «põe fim à época em que só é real o espectáculo e anuncia a época em que só o vazio é real» (p. 66). No contexto de tão radical niilismo até a morte deixará de ser pensada, eliminando-se a derradeira oportunidade da redenção pessoal, para quem enfrenta essa situação-limite. Suspenso o drama neste ponto, é digno de nota que a ele nos reconduza o Preâmbulo de Elísio Gala, o qual se há-de justamente valorizar como a reflexão actual de um discípulo de Ernesto Palma acerca da lição magistral.
O especial contributo desse prelúdio reside na abertura para um terceiro acto, esse de carácter vincadamente religioso, conducente a que possam esperar enfim a libertação quantos professam as virtudes teologais. Digamos que, após o primeiro momento, histórico ou positivo, e o segundo, especulativo ou metafísico, se ascende ao momento religioso ou teológico; denunciado o absurdo da regressão positivista, que conduzira a alma até à beira do abismo, aponta-se-lhe o efeito libertador da abertura à transcendência. A deixa para essa mudança do cenário achou-a Elísio Gala na conhecida asserção de Ernesto Palma de que «o cristianismo é a única religião verdadeira» (p. 43).
A singularidade da passagem advém, a meu juízo, do privilégio atribuído ao platonismo, cuja doutrina, segundo o pensador dramático, o cristianismo «confirma e consagra»! O que conflitua o seu tanto com a afirmação de ser o cristianismo «a única religião em que, com a encarnação, a divindade é plenamente real». Na verdade, se «a encarnação da divindade religa o sensível e o inteligível», a inferência a retirar haveria de ser quiçá a inversa – a de que o cristianismo salva a realidade do mundo, pela presença viva do Redentor.
A pendência não pode, contudo, resolver-se em termos meramente racionais, nos limites da lógica formal, pelo que o drama aguarda o desenlace noutro palco. Aliás, com ascender ao plano religioso, ele deixa de ser representável, pois se apresenta como drama ritual, vivido, como acto de redenção. A possibilidade do Reino de Deus, que a encarnação de Cristo tornou real e mesmo efectiva (visto ele estar já no meio de nós, invisível embora), aboliria até o domínio profano se, por um mistério indecifrável, o Calvário não estivesse por consumar ainda. Porque nos coloca diante de tão transcendentes questões, a reedição de O Plutocrata merece ser saudada como sinal esperançoso duma tradição que se renova.
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* Publicado originalmente no suplemento "Cultura" da edição de 10 de Março de 2010 do Diário do Minho.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

FREI AGOSTINHO E A ARRÁBIDA, 3*



Mas que em Fr. Agostinho, ainda para além do seu franciscanismo estrutural, no cerne de sua teologia e mística, se possa ver uma longínqua influência do neoplatonismo, comum a toda a origem da mística ocidental, uma recorrência ou convergência, duma mesma tipologia, será possibilitada pelo paralelismo entre os três aspectos de Deus, como Incondicionado Absoluto, Logos e Alma do Mundo, própria dessa filosofia; e a que estará no fundo de sua poesia mística. A Alma do Mundo, que é também Absoluto, é aqui representada no seu catolicismo, ortodoxamente pela Nossa Senhora, num esquema teológico onde actua com o Pai, Filho e Espírito Santo. Ligando-se o infinito ao finito através da figura sagrada da Virgem, aqui particularmente exaltada, e não através de diversos graus de emanação; se ousará dizer que o neoplatonismo, e mesmo o gnosticismo, foi substituído pelo catolicismo de feição franciscana, o pensamento português tendo eleito este, que vê na criatura semelhança ou imagem de Deus: e a Deus conduzindo; e na Virgem, a mediadora entre Deus e os homens, entre Deus e a Natureza. Pois será pela Virgem que esta união derradeira do transcendente e do imanente, característica da espiritualidade portuguesa, se estabelece em termos teológicos, e ainda místicos. A Natureza natural passando a Natureza divinizada, por graça: assim como o próprio poeta místico, pela purgação e iluminação através da terra portuguesa, topograficamente marcada, indo do norte a sul, passou pela graça, de homem natural a homem espiritual. Se aqui, o cargo desta sublimação duma natureza natural, seria incumbido eleitamente à Nossa Senhora da Assunção, na Arrábida, mais tarde, quatro séculos depois, no Porto, a redenção dessa natureza seria dada completar-se pelo homem, tal como o anunciou, fora, ou contra esses tempos de agnosticismo e positivismo, um filósofo, Bruno: como atingimento da perfeita harmonia perdida, na total abolição do Mal, ou atingimento do homogéneo. Esse sistema antropocósmico, seria ainda como a representação moderna, do cerne de toda a problemática espiritual portuguesa de todos os tempos; e aqui, tanto no franciscano eremita da Arrábida, como no filósofo portuense do Bonjardim, um mesmo carácter místico e teológico haverá no fundo de suas obras: como relação de semelhança entre o macrocosmos e o microcosmos, o divino e o humano, possibilitando a redenção: dois opostos que assim se influenciam mutuamente, em interacção possível.
Depois desta peregrinação penitencial, nesta serra, como lugar-limite, se realizará essa regeneração do homem e da natureza, assumida por um franciscano português, como reapossessão do ser e estar paradisíaco. Longo processo, desde a via purgativa, através da contemplativa, até às portas da unitiva, como pureza primordial e final.
Mas a força, ou matriz donde tudo nasce, primeiro e último passo da salvação, como amor e liberdade total, virá sempre da saudade. «Nasci para lavrar na terra alheia / Terra de maldição, de Deus maldita / De cardos, e de espinhos sempre cheia (…) Mas pois a verdadeira liberdade / Depende de trazer o pensamento / Aceso na divina saudade; / De tudo o que me for impedimento / Para poder lograr bem tamanho / Determino fazer apartamento» (Écloga VI).
Que o eremita se sentiu aqui perante Deus, responsável da salvação dos homens e da natureza, assumindo um serviço no seu mais alto sentido, o dirão estes versos. Serviço humano, sacrificial, de redenção cósmica, em que o eremita será só um puro instrumento terrestre nas mãos de Deus e seus desígnios: agindo sem agir, querendo sem querer, pela acção a mais perfeita, que é o mais perfeito abandono da vontade, como obediência, porque seu ser já então consumado, está coincidente com o ser divino: e é este, só este, que nele age e quer: «Ele lavra, ele rega, ele semeia / Eu colho quando quero a sementeira.» Influxo, acção e aceitação da graça, por graça, no homem: ao que também se poderá aqui chamar a confissão de Fr. Agostinho da Cruz do seu antipelagianismo, como uma das recorrentes, e sempre actuantes, recusas da terra lusitana.

Arrábida, serra alta e última da Europa e Ásia, sobre o Mar Atlântico debruçada: lugar eleito para a ascese de transmutação terrestre e humana, levando-os desde a esterilidade dos cardos e espinhos, até às alvas flores da glória. E ascese que será feita aqui nesta serra, como em reflexo das imagens paradigmáticas que no seu convento estão colocadas às entradas de seus sucessivos pátios e na sua porta principal: eram elas que outrora acolhiam os frades capuchinhos e agiam sobre sua alma; e que agora ainda estão perante nossos olhos desatentos: S. Pedro de Alcântara, Santa Maria Madalena e S. Francisco, ou o monge de S. Francisco.
Sucessivos pátios e uma porta que por si, um a um, marcariam nesse convento, como outros tantos ritos de passagem ou metamorfose, cada qual com sua imagem condutora. Porque, todo o convento é construído sob o esquema do labirinto, para uma iniciação ou santidade: ambos caminhos visando a um mesmo fim. Contínuo e descontínuo, cortado por passagens abruptas, ele se irá suavemente abrindo e recusando à penetração de nossos passos: lenta e sincopadamente, sua estrutura ou espaço será, não homogéneo, mas heterogéneo, cortado por várias suspensões, tal a realidade do mundo e da alma: passagens abruptas, marcando como as necessárias e sucessivas iluminações, ou tentações, porque tem de passar a alma do iniciado ou santo, como suas provas, para atingir a suprema sabedoria, a do amor.
E neste percurso, sucessivos espaços, trechos, serão construídos, ora às claras, a céu aberto, ora na sombra, em subterrâneos. Num deles, estará um azulejo com a imagem de Fr. Agostinho da Cruz, no seu capucho agudo em bico de pássaro e seu semblante de sorriso fagueiro, tal o que possuiu na sua vida terrestre neste convento.
Porque todo o convento é construído unidamente, em abraço com a terra. Em comunhão de amor, a serra penetrará todo o convento, estará aí presente entre suas paredes, em rochas vivas, das suas vertentes intocadas, suas plantas diversas surgindo espontâneas em recantos floridos; intrincadamente com sua água, que brota secreta e casta em pequenas fontes e taças ornadas de seixos e conchinhas do mar. Porque aqui ainda, lusiadamente, este labirinto será, não fechado sobre si, mas aberto, porque construído sob o signo da espiral; não fechado, acabado em si, irredutível, mas sobre si, uma e outra vez retornando, sempre novo: dinamicamente de si e por si, inexaurível criando sempre novos ciclos, ou planos superiores de manifestação, como revelações do divino no humano e terrestre. Erguendo-se sobre o abismo do mar, sustentado na vertente da serra, como regaço maternal, sob o céu, face a ele, todo o convento em si concentrará a força da terra e do céu: e será esse nó de energia, fortíssimo, terrível, mas todo em doçura revelado, de que os frades capuchinhos habitando outrora nesse convento teriam partilhado: a que seriam chamados a partilhar, como em apelo de acção e contemplação, presente e actual.
Este convento se mostrando todo como uma concentração da energia espiritual na terra portuguesa, das mais altas. Tal como Alcobaça, Tomar, Sintra, Sagres, Guimarães, Lisboa, Fátima. Um ponto marcado e eleito no seu espaço corpóreo, para uma acção do espírito. E será como concentração dessa energia, aí aceite e usada pelos homens, baixada e doada do céu, que o convento ainda hoje nos surge: e deverá surgir a nossos olhos e corações. E Fr. Agostinho da Cruz, como um dos seus eremitas eleitos para aceitar em si e em si usar e levar até aos limites possíveis do humano, essa energia do divino.

Dalila Pereira da Costa
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* Título da responsabilidade do editor. O presente texto reproduz um excerto (pp. 246-257) de Místicos Portugueses do Século XVI, livro publicado pela autora em 1986, com a chancela da Livraria Chardron de Lello & Irmão – Editores, Porto.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

AFORISMOS, 27

Eduardo Aroso

111 – «Onde a terra se acaba e o mar começa». Lido num sentido que não seja apenas o da geografia, poderá ser o lugar feito outro tempo. Se aqui é finisterra da Europa, o seu «quase cume da cabeça» e sendo Portugal a coroa do velho continente, no desenho do alemão Heinrich Bünting (séc. XVI), o que está acima (além) da coroa já não é corpo, mas espaço-espírito ou as Indias Espirituais. Além da terra, ou «onde a terra se acaba» é o mesmo que dizer além da carne.

mapa de Heinrich Bünting: clique na imagem para a ampliar

112 – A força do invisível sobre o visível, o templo de Apolo na Grécia Antiga e os partidos políticos e outras agremiações de agora: num, ombreava o pórtico a vetusta e alentadora frase Conhece-te a ti mesmo; nos outros parece haver uma invisível e silenciosa advertência - Aqui deixas de pensar por ti, e assim nunca a ti nem a outros conhecerás!

113 – Se Pascoaes nos diz de onde viemos, Pessoa indica-nos para onde vamos. Apesar da aparente direcção contrária, os dois participam no único movimento, aglutinando passado e futuro, convergindo para a mesma realização. Pascoaes, poeta das Sombras, nunca poderia sê-lo antes de D. Sebastião, quando mergulhámos numa obscuridade subjectiva. Pessoa só poderia existir depois da decadência da última dinastia, a dos vários monarcas que já nem sabiam andar a cavalo, e de uma república que violenta e rapidamente expurgou o melhor do espírito português.

Quando um objecto se interpõe no caminho da luz, projecta uma sombra directamente proporcional à intensidade da fonte luminosa. Se o poeta de Amarante é o bardo da saudosa mas prometedora ausência, o vate do «mar salgado» é o profeta de um futuro que realizará o inconcluso passado.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

FREI AGOSTINHO E A ARRÁBIDA, 2*

Neste longo percurso, três rios da terra portuguesa foram abandonados e no fim, eleita uma sua serra, para o atingimento último: ver a Deus. Mas vê-se franciscanamente, através da criatura, da natureza: «Agora que de todo despedido / Nesta serra da Arrábida me vejo / De tudo, quanto mal tinha entendido, / Com mais quietação, livre desejo / Nela quero cavar a sepultura, / Que não junto do Lima nem do Tejo. / Aqui com mais suave compostura / Menos contradição, mais clara vista / Verei o Criador na criatura.» (Elegia VI, Estando na Arrábida). É como se ouvíssemos S. Boaventura, o santo franciscano, «As criaturas podem ser consideradas ou como coisas ou como sinais»; como sinais que nos levam a Deus, as considerou o Santo, e o poeta místico da Arrábida:

Quanto mais formosa for
A coisa que podes ver,
Verás que não pode ser
Sem ser mais o Criador:
Se vires lírios, e rosas,
O Sol, a Lua, as estrelas
Busca no Criador delas
Outras muito mais formosas
Cântico de amor, elevado por um filho de S. Francisco à natureza, ela imagem e caminho de Deus.
E sempre, o poeta místico rememorará o que foi essa longa peregrinação através do corpo da terra pátria, realizada conjuntamente com seu próprio ser, como caminho de ascese e assunção, passagem do profano ao sagrado. «Que campos, que montanhas / Passei, subi com vossa ajuda / Por terras naturais, e por estranhas / Oh! como se converte, rende e muda / Aquela alma ditosa que trespassa / De amor celestial a seta aguda! / Quão leve, quão ligeira, voa e passa / Pelos laços sutis da vida humana; / E como na divina se compassa! / Na doce perenal fonte que nos largos campos se passeia / Subindo nesta Serra se caminha / Atalhando o que nele se rodeia.» Centro final, como ponto de união entre mundos. Assim se diz nas Endechas:

Vamos ver da Serra,
Do monte deserto
O Céu mais de perto
De mais longe a terra.
Até à proximidade das estrelas:
Oh, Serra das estrelas tão vizinha,
Quem nunca de ti, Serra, se apartara?
Oh, quando se partira esta alma minha
Da terra, nesta tua se enterrara?
E, tal como noutro percurso de iniciação ou transfiguração, o da Divina Comédia, a transcensão de cada mundo sucessivo, será cantada como uma progressiva aproximação das estrelas: de ver, subir até elas.
Esta serra, como estado-limite na geografia interior do homem, assim como na geografia exterior duma Nação e dum Continente, o Eurásico, anímica e simbolicamente, física e concretamente, em união, Fr. Agostinho da Cruz a intuiu e utilizou, dela se apossou para sua obra de redenção.
As grandes peregrinações medievais do Ocidente, como procura pelo homem dum Centro, para transmutar seu ser humano no sagrado, terão tido nesta obra, como vida e poesia do eremita da Arrábida, nos séculos XVI-XVII, uma das suas derradeiras formas de expressão e realização, através do espaço terrestre: e que será específica e concretamente situada numa serra portuguesa, como finisterra dum Continente, debruçada sobre as águas do Atlântico, em marca e limite inultrapassável duma demanda. Assim diz na Écloga Piscatória XI:
Eu dali me parti naquele instante,
De vale em vale, vim de monte em monte,
Até não poder mais passar avante:
Que as águas Oceanas não têm ponte.

E neste limite da terra, se perguntará a si o eremita: «Aquela saudade que me manda / Lágrimas derramar em toda a parte, / Que fará nesta saudosa e branda?» Como serra da saudade, ela se revelará, a um tempo como manifestação suprema dos opostos cósmicos e seu ponto de reunião. «Daqui saudoso o sol se parte; / Daqui muito mais claro, mais dourado / Pelos montes, nascendo, se reparte.» Desde o alto céu, até às profundezas ctónicas, desde o princípio mundial masculino activo, criador, Sol, até ao princípio feminino, passivo, Gaia, ou útero primordial, tudo se unirá e fecundará entre si e se revelará: «Mas ouço queixar dentro a Lapa escura / Roídas as entranhas aparecem / Daquela rouca voz que lá murmura.» Foi esta voz, a mais tenebrosa e abissal do telúrico primeiro, não-manifestado, aquela a que Fr. Agostinho da Cruz, pelo verbo, deu forma manifestada; ele aqui seria como uma das suas mais altas e raras expressões, a voz da Terra-mãe. Que desde as profundezas primitivas dessa gruta, se eleva, redimida em Assunção, na Nossa Senhora da Arrábida.
E ainda como nunca, seria expressada na nossa espiritualidade, na língua religiosa cósmica, mais funda e nitidamente, a sua raiz mítica de complementaridade: como díade. Será esse o sentido mais alto da Elegia II, Da Arrábida. Foi esta serra, como lugar de ligação entre terra e céu, a que no solo português estava predestinada à manifestação da Montanha Sagrada; e Fr. Agostinho da Cruz, como poeta franciscano, predestinado a ser o instrumento necessário a esta manifestação religiosa cósmica, na sua primeira e verdadeira forma: a poesia mítica.
(continua)
Dalila Pereira da Costa
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* excerto retirado de Místicos Portugueses do Século XVI, livro publicado pela autora em 1986, com a chancela da Livraria Chardron de Lello & Irmão – Editores, Porto.

terça-feira, 6 de abril de 2010

PENSANDO À BOLINA, 28

Pedro Sinde


para L.

Orar
Orar é como trilhar um caminho que vai de nossa casa ao palácio do Rei.
Quando começamos a caminhar custa-nos um pouco e podemos até desistir a meio, fatigados e sem o palácio à vista, julgando mesmo que nem há palácio nem Rei.
A dificuldade é dupla: por um lado, nós mesmos, por falta de hábito de caminhar, ficamos cansados e tendemos a parar ou a regressar ao nosso lugar anterior; por outro lado, o próprio caminho, por não ser trilhado, está cheio de silvas e ervas daninhas que nos dificultam a passagem.
Um e outro problemas resolvem-se do mesmo modo: pondo-nos a caminho do palácio do Rei e recomeçando sempre com o mesmo entusiasmo. Gradualmente, será mais fácil; passará a ser-nos familiar o trilho e não mais estranho: por um lado, conhecendo o caminho já não nos distrairemos com a paisagem, por outro, ainda, conhecendo o caminho, sabendo como lá chegar, podemos atentar melhor ao que nos rodeia sem que isso nos faça perder. Mas o palácio é tão magnífico e a presença do rei é tão majestosa que rapidamente deixaremos de poder prescindir dela. Isso nos fará passar a procurá-la no Seu Reino, enquanto Ele não nos receber no Seu palácio com a frequência com que nós desejaríamos. É que só há Reino porque há Rei: um Reino sem Rei, não é um Reino, é apenas uma terra e, por isso, se soubermos andar, encontraremos por todo o lado os Seus Sinais.

Mas Deus sabe mais!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

FREI AGOSTINHO E A ARRÁBIDA, 1*

Aqui, «nesta final praia oceana» – em caminho de penitência, através de três rios e duas serras portuguesas, se realizará por Fr. Agostinho da Cruz (1540-14-III-1619), a regeneração de seu corpo mortal. Esse começo dum percurso numa terra-mãe e suas etapas, o dirá na sua poesia: «Na ribeira do Lima fui nascido / Na do Mondego e Tejo fui criado / E na serra em que vivo envelhecido, / Onde esperando estou o desejado fim de meus longos anos.» Até esse dia, em que «os correios da morte são chegados / Por caminhos antigos, impedidos».
Homem e terra saudosos do céu, ambos através do eremita franciscano, em seu corpo e alma, realizarão um lento despojamento e uma assunção, como processo que se faz no interior da alma, fora do tempo e espaço, mas que, simultaneamente, se faz no corpo dum homem e duma terra, a portuguesa: deste despojamento de ambos, serão as marcas deixadas na sua poesia. «Alheio do passado e do presente / Sem lhe dar do que vai, nem do que vem / Quieto, vive só, livre e contente, / Com plantas e com feras conversando, / Não conversando amigo, nem parente.» Despojamento do mundo e dos homens; e nestes, para além da grande e fiel amizade dos Duques de Aveiro; amizade que o acompanharia através de toda a vida sobre a terra, até ao seu último momento, em Setúbal, mas que em presença, teria de ser abandonada, para a procura suprema doutra suprema presença, a de Deus. «Nestes campos do Tejo onde cheguei / Achei graça, bom rosto e gasalhado» (Carta À Duquesa de Aveiro).
Deixando o efémero pelo eterno, «Largos campos do Tejo, / A cuja vista crescem / Tristes queixumes de cruéis lembranças; / As flores que em vós vejo, / Alegres me entristecem / Por ver que são sujeitas a mudanças» (Ode I. As mudanças do tempo): será a verdade só, para além da aparência dos fenómenos, aquela que o poeta procurará neste percurso através dos rios e das serras, até ao limite duma terra pátria e dum eu exterior, como serra a pique sobre o Atlântico e fundo de sua alma.
As terras de sua infância e mocidade, como as zonas desse eu exterior, serão abandonadas. «As ribeiras não são para pastores / Cujas palavras mostram as entranhas / Cujos olhos não vêem fingidas cores» (Écloga IV). Um ser especial da terra com seu reflexo no homem, ser feito de carnalidade, doce plétora, como etapa ou camada duma phisys, urge ultrapassar no exterior, quando em si o homem já a ultrapassou no interior: «Pelo menos sequer, não me faltará / Saber que da ribeira me convinha / Fugir, pois para mim já se secara.»
E nessa subida, deixa as ribeiras húmidas, antes de atingir a serra alta, solitária e fragosa suprema, a da Arrábida: «Deixei (que mais não pude) / A branda Serra / Que para brandos peitos se criou / Quem com duros a dana, inda mais erra»; assim o poeta confirma essa fugida de Sintra e essa procura da Arrábida, na Carta que o Autor escreveu à Duquesa de Aveiro antes de se ir para o Ermo.
A natureza essencialmente feminina dessa serra primeira, lunar, líquida, enleante, não possuiria em si a possibilidade de transcensão do terrestre e do humano; ou de sua junção com o celeste e o divino solar, ígneo, activo e masculino, que só a segunda serra deste percurso de santidade, em si possuiria e concederia ao eremita de S. Francisco. Por isso, será para ela que a saudade o conduzirá. Depois de curta estadia, com o cargo de guardiania, no Convento de S. José de Ribamar, parte aos 65, em 1605, para o ermo da Arrábida, com licença de seu Provincial: «Que posto que de mim absente estejas / Daqui te levarei por esta Serra / Por parte donde o céu mais perto vejas.» E desde então, tudo será vivido como um regresso ao centro, primeiro e último: regresso ao Paraíso. Assim o canta A Nossa Senhora da Arrábida:
«Aqui, Senhora minha, onde soía / Cantar na minha leve mocidade / O muito que de vossa saudade / Desejei d’acender nesta alma fria: / Aqui torno outra vez, Virgem Maria (…) Conselham-me tão claros desenganos / Que comece de novo nova vida / Neste Serra deserta, alta e fragosa.» E toda a subida e chegada às portas do céu, se fará por essa força da saudade, como força de união de opostos: opostos só aparentes, pois em si complementares verdadeiros: «A saudade d’alma a vós devida / De vós, Senhora minha, se sustenta (…) Servir-vos é viver suave vida / Doce, quieta, branda, livre, isenta.» Este é o louvor cantado À Senhora da Memória, aquele que realiza o regresso a Deus, ou centro, onde todos esses opostos se anulam, ou unem na identidade primordial:

No meio desta Serra onde se cria
Aquela saudade d’alma pura,
Que no duro penedo acha brandura
Ardente fogo dentro n’água fria.

(Na Serra da Arrábida)

Atingido o centro, ou o Ser, tudo o mais que se poderia prender, agarrar ao ser do eremita, impedindo-o nesta subida suprema, será largado, abandonado: «Nem ter, nem valer, mais me faz cobiça / Tanto me dá que vá, com o que venha / Por mais que este me assopre, estoutro atiça» (Écloga VII). Apatia última, estado de libertação, impassibilidade, neste despojamento e domínio supremo de si mesmo.
Falando de sobriedade, Philoteu o Sinaita, monge do mosteiro de Batos, no seu texto inserto na Filocalia, dirá: «pois que ela trabalha e lustra os traços de nosso espírito e o faz passar da condição apaixonada à impassibilidade.» Onde mesmo, para além dos bens materiais, os espirituais não serão também desejados, assim como representações, iluminações. E o capuchinho da Arrábida: «O que dos vícios d’alma anda cingido / Como néscio responde, que também / S’há-de salvar calçado, e mais vestido / Bem pode ser que seja; mas porém / O que mais leve vai, melhor caminha / E mais pode inda mais passar além.» Livre, supremamente livre de todos e de tudo o mais, humano e mundano, tão leve que só o silêncio final perdurará. O dirá na Écloga Piscatória XI:
O pescador debaixo do seu leito
Depois que deita ferro no remanso,
Manso discurso faz no manso peito.
O silêncio lhe dobra seu descanso;
O pouco que deseja não lhe faz
Cobiçar melhor sorte em melhor lanço.
Os seus dois remos rema em sua paz,
Que não deixa nas mãos do companheiro,
Que deles mais que dela foi capaz.
Recolhe-se em qualquer pequeno esteiro;
Que pouca água demanda o barco leve
Que levemente leva um só remeiro.
Nessa paz e silêncio já celestes, da vida solitária e ascética, liberdade divina, como vitória atingida e concedida, em graça, tudo será uma redenção do homem, solidária com a redenção da natureza: o eremita atingindo a paz e a serra atingindo a brancura, como estado ou cor primeira e última, de iniciação; ou escatologicamente, como marca da Idade de Ouro; paz e brancura, vivida e revestida pelos santos e mistos. «Dos males, que passei no povoado, / Fugi para esta serra erma e deserta, (…) Passou a furiosa tempestade, / Ouve-se a voz da rola em nossa terra, / Soando com mais suavidade / Cobriu-se d’alvas flores toda a Serra / A minha alma de doce saudade, / Em paz me fez amor divina guerra» (Ao Mesmo – Da quietação).
(continua)
Dalila Pereira da Costa
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* excerto retirado de Místicos Portugueses do Século XVI, livro publicado pela autora em 1986, com a chancela da Livraria Chardron de Lello & Irmão – Editores, Porto.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

PALAVRAS QUE FAZEM VER, 20


[Álvaro Ribeiro, a cultura e o Estado - 2]

“Está no evolucionismo a legitimação filosófica não só da pedagogia – etimologicamente, do poder que o adulto exerce sobre o adolescente, quando o leva a frequentar a escola –, mas ainda de todo o ensino público, exercido pelo Estado para defender, conservar e propagar a tradição nacional. A licença concedida à iniciativa particular de promover a educação, licença tão limitada como legítima, não satisfaz plenamente os fins superiores da sociedade humana. A iniciativa particular resvala quase sempre para o plano do utilitarismo, do egoísmo e da avareza, conforme verificam os doutrinadores que preconizam a exemplaridade normativa do Estado, sem a qual a sociedade desistiria de realizar os valores supremos que são a Bondade, a Beleza e a Verdade.
Ao assumir de qualquer modo a responsabilidade docente, o Estado torna-se também responsável pelo destino da cultura, pela realização de fins espirituais. Cumpre-lhe, pois, assegurar a protecção devida aos artistas, aos escritores e aos pensadores, que são os verdadeiros criadores da cultura, evitar que eles desistam de exercer as actividades a que haviam sido chamados por vocação, assegurar a continuidade na produção de valores nacionais. A História julga o Estado, não só pela boa ou má administração das escolas, mas também pela situação social em cada época atribuída à ciência, à literatura e à filosofia.”
Álvaro Ribeiro
(excerto retirado de A Razão Animada, INCM, 2009)

quarta-feira, 31 de março de 2010

AFORISMOS, 26

Eduardo Aroso

108 – O culto do Espírito Santo, erguido no coração do Povo a partir de Alenquer pelo casal régio Dinis e Isabel, é porventura a primeira Constituição e decerto a mais verdadeira que, aceitando todavia o erro do trânsito humano e a consequente correcção, garante, na contraparte espiritual, a plenitude de todas as formas de segurança social e de sindicalismo na reivindicação do modo de manifestar a maior eficácia do Amor na Acção.
109 - Acontecimentos significativos da História de Portugal e bem assim a conduta dos portugueses nalgumas situações de um quotidiano imprevisto, têm explicações diferentes segundo a interpretação que lhes dermos a partir da Igreja de Pedro ou da Igreja de João. Numa, aos olhos do público, os acontecimentos têm uma clareza relativa; na outra são claríssimos para uma minoria, mas continuam incompreensíveis para as massas, ou até ignorados. É razoável pensar que, de um ponto de vista do Centro Espiritual, episódios revestidos de algum enigma são como que distribuídos segundo as necessidades do devir, ora por uma, ora por outra igreja. Dois exemplos: a “modulação” da Ordem do Templo na Ordem de Cristo, por D. Dinis, e o que quer que seja sob a designação de Aparições de Fátima na preparação de um futuro Milagre Português, paradoxal geminação desta terra com Trancoso.
110 – Se há capelinhas junto às nossas casas, não se lhes fechem as portas. Mas livremo-nos de as fazer tão fragmentadas no espírito, que quase parece que nalgumas delas se adoram deuses diferentes! Tomemos as nossas vestes apropriadas, as flores que mais nos encantam, no diverso que cria a beleza suprema, mas sem esquecer que o espírito tudo atravessa para viver além das formas, sem pedir autorizações oficiais e eclesiásticas. Assim, para fazermos jus à hora presente, conjuguemos a tríade oração-pensamento-acção, dando mais uns passos, indo à Catedral do Ser Portugal, no ponto onde muitos Anónimos se iluminam pelos Jerónimos…

terça-feira, 30 de março de 2010

OS POETAS LUSÍADAS, 33

A QUEM LER

Os versos que cantei importunado
Da mocidade cega a quem seguia
Queimei (como vergonha me pedia)
Chorando por haver tam mal cantado.

Se nestes não ficar tam desculpado
Quanto o mais alto estilo requeria,
Não me podem negar a melhoria
Da mudança que fiz de um no outro estado.

Que vai que sejam bem, ou mal aceitos?
Pois os não escrevi para louvores
Humanos, pelo menos perigosos,

Senão para plantar em frios peitos
Desejos de colher divinas flores
À força de suspiros saudosos.
Frei Agostinho da Cruz

segunda-feira, 29 de março de 2010

PALAVRAS QUE FAZEM VER, 19


[Álvaro Ribeiro, a cultura e o Estado - 1]

“Quem reconhecer a existência da lei de Deus não se deixará derrotar pela estranheza de ela ter sido redigida em termos de mandamento, que lembram o mando e a mão, porque o que mais importa é intuir que na teoria do direito há sempre vestígios de relação, rara e remota, com a verdade da teologia. Se o mais alto fim do homem é prestar culto a Deus, – por pensamentos, palavras e obras, – lícito será reconhecer que o mais alto fim do Estado seja o de organizar a cultura, que não é apenas ensino. Só isto explica que a teoria do direito tenha sido, pelos melhores tratadistas, aproximada dos estudos filosóficos.
Infelizmente, neste domínio como em outros mais, certas palavras suscitam reacções temíveis e tremendas, pelo que o estudioso, perdida a serenidade, deixa de ver a precisão dos conceitos e a necessidade das teses. Por falta de coordenação entre os estudos de história da filosofia portuguesa e de história do direito português, o problema dos fins do Estado tem sido debatido por uma dialéctica extremista que não demonstra nem explica a reacção da nossa jurisprudência, sempre cauta e meticulosa perante as doutrinas provenientes da política estrangeira. Assim, de tudo quanto a paleografia possa mostrar de exterior e de acidental como em alguns trabalhos unilaterais de notáveis especialistas, não é possível inferir o pensamento filosófico que tem presidido ao desenvolvimento, ou seja, à evolução da nacionalidade.”
Álvaro Ribeiro
(excerto retirado de Apologia e Filosofia, Guimarães, 1953)

domingo, 28 de março de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 54



Primavera
Eduardo Aroso

Rebentação da vida,
Corpo, transfiguração!
Sopro matinal e asas mil
Regressando na brisa
Do nascente eterno da Criação.
Que mistério me toca,
Para o sulco, a raiz,
Mudez, interrogação…
Abismo de pensar
Que nada diz.

Ó almas que andais sem norte!
Também o céu é verdejante,
Regaço florido além da morte.
E eu que posso fazer senão
Bem-dizer a minha sorte:
Comungar a seiva,
Afagar os talos,
Acender os troncos;
E ressuscitar nos caminhos
Para não morrer nos sonhos.

Quase Páscoa de 2010

quinta-feira, 25 de março de 2010

SÁBADO, EM SESIMBRA E EM SETÚBAL



15h00: Biblioteca Municipal de Sesimbra - ciclo Portugal Renascente
Colóquio sobre A Situação Cultural de Hoje e apresentação do n.º 5 da revista Nova Águia,
com a presença de António Carlos Carvalho, António Telmo, Pedro Martins e Renato Epifânio

18h00: Casa Bocage (Setúbal)
Apresentação do n.º 5 da revista Nova Águia e do livro A Verdadeira História de Aladino - Colecção NOVA ÁGUIA
com a presença de Renato Epifânio e Rodrigo Sobral Cunha

quarta-feira, 24 de março de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 53

Cartas da Alma ao Espírito
Cartas de Noé para Nayma / Carlos Aurélio. Lisboa: Zéfiro, 2010
Pedro Sinde

Este novo livro do pintor, do escritor, do fotógrafo, do escultor Carlos Aurélio vem relembrar a importância de restabelecer o diálogo entre a alma e o espírito ou entre a filosofia e a religião.
Numa época em que os homens se envergonham de se dizerem crentes e, mais ainda, de se dizerem praticantes de uma religião; numa época em que muitos abandonaram o Catolicismo, muitas vezes por causa das complicações em que se tem metido a própria Igreja (levando ao afastamento de grandes almas); neste tempo, pois, o autor assume-se logo de início como católico. Uma afirmação destas só se faz com coragem e implica naturalmente um compromisso e uma responsabilidade. Os crentes que estejam conscientes disto colocam-se, certamente, nas mãos da misericórdia divina. Mas aqueles que se afastam, também.
Estas cartas são notáveis a vários títulos e gostaria aqui de destacar apenas aqueles que me parecem os mais importantes. Antes de tudo o mais trata-se de um livro que se lê com muito prazer: escrito em forma de cartas íntimas, logo somos chamados para o quotidiano de alguém que procura, nesse dia-a-dia, relacionar estes três aspectos: o corpo, a alma e o espírito, vertidos e vestidos respectivamente no fecundo diálogo entre a vida quotidiana (o corpo), a filosofia (a alma) e a religião (o espírito). Assim, como se antevê já, este diálogo não fica numa abstracção, antes procura encarnar na vida, quer dizer, orientá-la e iluminá-la, torná-la encarnada ou vermelha isto é, dar-lhe sentido, levá-la ao rubro.
A religião esconde no seu seio, providencialmente, as ressonâncias e as chaves de que quase todos necessitamos para despertar o intelecto passivo. Estas ressonâncias são os símbolos; estas chaves são a oração. A filosofia pode e deve iluminar a demanda simbólica e a oração, que se transformará, assim, gradualmente em filosofal e metafísica, tornando-se viva e vibrante, depurando a emoção e purificando, assim, o corpo ou o quotidiano.
Carlos Aurélio coloca-se sob a protecção de Santa Catarina de Alexandria, como vemos nas duas datas nucleares que abraçam o livro; Santa Catarina é a protectora ou a inspiradora dos filósofos e a sua vida exprime justamente a relação equilibrada entre a filosofia e a religião: não poderia, por isso, haver melhor protectora para um livro que procura, ele mesmo, recordar esta relação.
Outro aspecto importante que ressalta destas cartas, sobretudo nos dias que hoje vivemos, é o da sacralização do tempo. Escrito ao longo de um ano litúrgico e tendo cada carta como base uma reflexão vivenciada da Liturgia da Palavra na missa, cada carta toma essa leitura como ponto de partida livre, o que significa que cada carta dá origem a uma meditação que resulta numa espécie de pensamento em voz alta. É esta vivência, de semana para semana, deixando que a Palavra do Espírito semeie na Alma do Corpo a vida poética, que permite, em parte, a sacralização do tempo, quer dizer, uma espécie de iluminação dos dias da semana, tendencialmente profanos, pela palavra sagrada do Domingo, como se a religião inspirasse o mote que a filosofia glosa. A religião tem particularmente este poder de conferir um aspecto qualitativo ao tempo profanado pelo homem; digo ‘tempo profanado’, porque a natureza do tempo é ela mesma sagrada e qualitativa, é o homem profano que a faz decair, decaindo assim ele mesmo.
Este belo livro, que se pode ler carta a carta, de modo sistemático ou até ao “acaso”, pode acompanhar todos quantos andam na demanda do espírito, pois aqui, neste livro, encontrarão um companheiro.

segunda-feira, 22 de março de 2010

AFORISMOS, 25

Eduardo Aroso

105 – O sentido que tem sido atribuído à expressão «flor da idade» - muito servindo à publicidade feita com a juventude, de um modo particular com a figura da mulher – foi exaltado também pelo paradigma de produção e rentabilidade laboral de economias marxistas, seja o Marx do séc. XIX, ou o do XX. Se há anos da vida que são vistos como «flor da idade», os mais fascinantes, estimulantes e “produtivos”, não se pode deixar de pensar no melhor do ser humano: «o fruto da idade». Fruto também como derradeira obra; árvore antiga cuja sombra, copa ou aura na canícula nos infunde um outro respirar de vida; verde que, ao invés de gasto, tem a patine da madurez, porte de fantasma benigno que nos impressiona e quantas vezes faz rejuvenescer de espanto!
106 – Seja qual for o campo, a vida em Portugal tem-se tornado insuportável. Se quem muito ama muito suporta, em interior aceitação, há ainda verdadeiros portugueses que estoicamente vão fazendo do chão, não tanto a antecipação da sepultura, mas uma espécie de amargo roteiro, a sua dolorosa via-sacra. Com mais ou menos fatalismo podemos entender a situação. O que se estranha é que quem não ama Portugal ainda consiga aqui viver, sentindo-se feliz e realizado.
107 – O rei vai nu, ou a república vai nua?

sábado, 20 de março de 2010

UMA ALTERAÇÃO NO PROGRAMA DO COLÓQUIO DE SÁBADO, 27, EM SESIMBRA

Alteração. Contrariamente ao que estava previsto e fora anunciado, o escritor Miguel Real, impedido por motivos pessoais, não poderá participar no colóquio A Situação Cultural de Hoje, que ocorre no próximo sábado, 27, pelas 15 horas, na Biblioteca Municipal de Sesimbra. Em sua substituição, irão falar António Telmo e Pedro Martins, que assim se juntam a António Carlos Carvalho e Renato Epifânio, numa sessão em que será igualmente apresentado o quinto número da revista Nova Águia, sobre OS 100 ANOS D’ A ÁGUIA E A SITUAÇÃO CULTURAL DE HOJE.

quinta-feira, 18 de março de 2010

NO PRÓXIMO DIA 27, EM SESIMBRA



Colóquio. O ciclo Portugal Renascente, iniciativa conjunta dos Cadernos de Filosofia Extravagante e da revista Nova Águia, em parceria com a Câmara Municipal de Sesimbra, regressa já no próximo dia 27, sábado, pelas 15 horas, com a realização do colóquio A Situação Cultural de Hoje, em que serão oradores António Carlos Carvalho, Miguel Real e Renato Epifânio. Na ocasião, será ainda lançado o quinto número da revista Nova Águia, sobre OS 100 ANOS D’ A ÁGUIA E A SITUAÇÃO CULTURAL DE HOJE. Como habitualmente, a sessão terá lugar na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Sesimbra.

segunda-feira, 15 de março de 2010

AFORISMOS, 24

Eduardo Aroso

102 – A absurda concretização do acordo ortográfico dos países de Língua Portuguesa parece ser igualmente a absurda rendição do estado de espírito de quem se sente inferiorizado por ter sido agente de colonização (e má descolonização) e também por uma espécie de complexo de culpa de pioneirismo por ter cultivado e expandido o idioma de Camões, que já antes D. Dinis tão bem havia cantado, por saber que teria futuro. Mas quanto a esta patologia institucional de políticos, alguns linguistas e certos negociantes, psicólogos e psicanalistas pouco podem fazer. A tendência para a uniformização navega contrária aos ventos naturais, ao fim e ao cabo em oposição insolúvel à concepção do sentido de independência dos povos que criando a sua autonomia e consequentes especificidades formam e incorporam o léxico próprio bem como todas as evoluções linguísticas ditadas de acordo (este sim um verdadeiro acordo!) com a sua alma colectiva. Os urdidores de acordos – ansiados contratos comerciais – não encaram o facto da evolução da língua ser o que é, como, por exemplo, o crescimento dos pinheiros e castanheiros que, embora já no tempo da genética vegetal, ainda devem crescer ao seu ritmo. [na imagem: Dom Dinis - clique para a ampliar]

103 – A República de 1910 entrou com um misto de rompante e paradoxal subtileza (!). Os revoltosos mataram o penúltimo rei e deixaram ir em paz o último.

104 – A noite e o dia, o invisível e o visível, o passado e o futuro… Em Portugal, existindo Povo (1), há Aristocracia, seja qual for a sua forma de ser. Ainda que possa haver desproporção, uma existência implica a outra. A um, corresponde o inconsciente; a outra, à lucidez. Ambos na mesma verdade presentes. Em épocas de crise, no Povo o passado - provavelmente com nevoeiros à mistura - aflui como voz então menos inconsciente, mas trazendo a maior força, que se projecta no futuro; na Aristocracia do Espírito (expressão cabal, muito utilizada por António Telmo) é a visão do futuro que, também melhor interpretando o passado, ao mesmo tempo nele projecta e incorpora o seu melhor. Os dois podem actuar ciclicamente como a Mão de um Destino Maior: a Hora.
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(1) Grafia com maiúscula, para distinguir do povo apenas votante.

domingo, 14 de março de 2010

OS POETAS LUSÍADAS, 32



[da série Lugares]

LOA AO PORTO

Para o meu sobrinho David Manuel

Que impulso de dizer-te pátria, Porto:
O corpo amuralhado de granito,
Cabelo d’água, à névoa, ao vento, exposto,
Face esculpida em grito.

Braços de ferro, arqueados, desmedidos,
Sobre o fluir dos barcos e do barro.
E um rumor antigo
Na voz das tuas ruas e mercados.

Vestes de escuro e enfeitas-te de luzes
Antes do Sol perder seu oiro pálido.
E das torres com sinos e com cruzes
Acenas ao mar largo.

Bulícios de cafés (há mais de mil)
Entornam-te nas veias graça e fogo.
E o lírico torpor dos teus jardins
Suspiros e repouso.

Que impulso de dizer-te pátria, Porto:
Coração, não de Pedro, mas de pedra
Com sangue fértil, vinho generoso
A gerar alma e terra.
- 3 de Outubro de 1981 -

António Manuel Couto Viana

quinta-feira, 11 de março de 2010

APONTAMENTOS E REFLEXÕES SOBRE O KYUDO EM PORTUGAL, 3*

Luís Paixão**

Se é condição para a manutenção da prática do Kyudo a identificação dos aspectos acima referidos, porque de outro modo reduz-se a uma técnica vazia de sentido, também não deixa de ser indispensável a atenção permanente aos aspectos relacionados com o grupo. O caminho do Kyudo é individual, mas ele só é possível no interior de uma gregora: a amizade, o sentido de grupo, a lealdade, a cordialidade, o respeito mútuo são valores que entram na composição da argamassa que liga as pedras do edifício do Kyudo. Qualquer atentado a estas regras é grave e revela, para além de outros aspectos, falta de inteligência. O legado do mestre Yokokoji, independentemente do seu estatuto de graduação, foi antes de mais o exemplo das virtudes referidas e nunca será demais apontar a sua disponibilidade e entusiasmo para todas as tarefas relacionadas com as actividades do grupo - não apenas com a prática - e a sua tristeza quando alguém as negligenciava.

Seminário da Associação Portuguesa de Kyudo, na Quintinha, em Junho de 2004
Um outro acontecimento muito importante que valerá a pena referir foi a vinda a Portugal do Sr. Kudo, mestre do Sr. Yokokoji, a convite deste no ano de 1995. Era na altura considerado o praticante cuja técnica era a mais perfeita no Japão. A prova desse facto foi ter sido solicitado pelo reconhecido mestre do cinema mundial, Akira Kurosawa, para ensinar os actores do filme Os Senhores da Guerra na difícil arte de Yabusame (Tiro com arco a cavalo), a fim de representarem as cenas iniciais de caça ao javali. Mais baixo que Yokokoji e de idade avançada, manifestava contudo uma enorme vitalidade. Ficou alojado na Cotovia, onde acompanhou o primeiro seminário da associação. Executou muitos tiros em tronco nu, para que nós nos apercebêssemos dos músculos que estavam a ser utilizados em cada momento do tiro. O seu corpo era deste modo um livro aberto, tal era a nitidez dos músculos e dos ossos, não sendo visível nada que estivesse a mais. Tinha um emprego modesto no Japão como transportador de mercadorias no porto da cidade onde vivia, utilizando um pequeno veículo entre as 5 e as 10 horas da manhã, e dedicava o restante do dia ao Kyudo. Foi convidado na altura por várias pessoas para ensinar noutros dojos, tendo declinado sempre os convites e pedindo às pessoas que se deslocassem ao dojo da Quintinha.

Treino no novo Dojo de Sesimbra
Na despedida, o Roque teve a feliz ideia de lhe oferecermos um arreio de cavalo à portuguesa, que foi de facto a melhor coisa que lhe poderíamos ter oferecido, tal a alegria que manifestou quando o recebeu. Mais tarde chegou-nos a mensagem pelo mestre Yokokoji que o Sr. Kudo lhe teria dito que as melhores coisas que lhe teriam acontecido na vida havia sido o kyudo e ter vindo ao nosso país. O apoio à actividade em Portugal tem vindo a ser assegurado anualmente pela Srª Maky Kudo, sua esposa, 7º Dan Kyoshi no Japão, sendo particularmente reconhecida no seu país pela qualidade das suas alunas e alunos, e por ser uma especialista em fisioterapia na tradição japonesa.
Já dezassete anos decorreram desde o inicio da prática, muitos foram os seminários e as demonstrações nacionais e internacionais em que a Associação esteve presente e envolvida. Das iniciativas tomadas realçamos a presença em todas as demonstrações de artes marciais organizadas pela Associação de Amizade Portugal-Japão e, mais recentemente, a bem da actividade, pela entrega e empenho dos associados, são de realçar a manutenção do núcleo do Instituto Superior Técnico em Lisboa e o inicio da construção do novo Dojo em Sesimbra.


Antecedentes: 1.ª parte; 2.ª parte
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* Artigo originalmente publicado na revista Biosofia.
** Fundador da Associação Portuguesa de Kyudo.

quarta-feira, 10 de março de 2010

APONTAMENTOS E REFLEXÕES SOBRE O KYUDO EM PORTUGAL, 2

Luís Paixão

Hassetsu - oito movimentos para um tiro
Para quem lê estas linhas e nunca teve o ensejo de estar em contacto com a prática de Kyudo, é importante esclarecer que qualquer tiro exige o cumprimento de oito movimentos que vão desde o levantar do arco e de duas flechas, encostando as mãos aos quadris, olhando lentamente para o alvo (monomi) até ao momento do tiro (Hanare), numa sequência que demora vários minutos, dependendo da formalidade. O seu desenvolvimento é de um modo extremamente lento e apoiado na respiração. Os nossos primeiros treinos foram portanto sem arco nem flecha, só executando os movimentos. Mais tarde Yokokoji fabricou uma espécie de fisga, para que com a sua utilização nós começássemos a sentir a pressão do arco. A prática com arco só foi permitida ao fim de seis meses.

O que mais me impressionou nestes primeiros tempos de prática foi a exigência destes oito movimentos sem arco, o seu lento encadeamento completamente - dir-se-ia ao “retardador” - contrário ao ritmo rápido do nosso dia-a-dia. Poderíamos pensar que era por sermos principiantes, mas não era este o caso, visto que quando o mestre executava o tiro para exemplificar, a sua lentidão era ainda maior que a nossa. Várias vezes me ocorreu que, se era uma arte marcial cujo propósito era a guerra, seria por essa razão com certeza uma guerra perdida. A não ser que se tratasse de uma outra guerra, de uma outra cavalaria, de um outro inimigo que talvez só existisse em nós próprios. Por outro lado, os sucessivos movimentos de cumprimento “Rei” e “Yu” à entrada do espaço ao Tokonoma, ao mestre, ao alvo, indicavam que deveria haver naquele local durante aqueles minutos e aquelas horas um espaço e um tempo ultra qualificados. Dir-se-á com razão como o nosso mestre várias vezes afirmou que o Kyudo não é uma Religião, mas contém elementos: posturas, gestos, movimentos, que por serem altamente ritualizados deixam transparecer uma origem religiosa. Trata-se, no meu entender, da própria gnose japonesa se assim se pode chamar, tanto do lado do esoterismo budista como do esoterismo xintoísta. Pretendo utilizar aqui a palavra esoterismo no seu verdadeiro sentido de eso = interior, e deve-se ao facto de não conhecer outra melhor para o que desejo exprimir. Esta chamada de atenção é por haver muito esoterismo que subtilmente passou a ser completamente exterior, sem que as pessoas se tenham apercebido desse facto, mergulhando-as num mar de fantasias. O pensador António Telmo dirá a propósito e com uma subtil ironia que não é esoterismo, é “esoturismo”.
Sabemos que em todas as tradições o arco e a flecha se revestem de um carácter profundamente simbólico e operativo. A ligação do arco e da flecha ao amor e ao cupido, e da flecha ao relâmpago ou raio iluminante são disso exemplo. No Japão é ainda utilizado com esta finalidade em muitas cerimónias solenes como acto de abertura de um evento e designa-se por Hikime.
Este tiro tem três intervenientes, dois ajudantes e um atirador vestidos a rigor com belíssimas roupas de seda bordadas, a cabeça coberta por um chapéu que faz lembrar um barrete frígio. A flecha utilizada nestas ocasiões apresenta, em vez de uma ponta aguçada, uma pequena cabaça com um orifício que emite um som e que é audível durante o voo. A flecha vai colidir suavemente sobre um pano azul que se encontra a cerca de 28 metros e na frente do atirador. Tivemos a honra e a oportunidade de organizar e participar numa cerimónia liderada pela nossa actual mestra Sr. Maky Kudo, que se realizou no Convento da Arrábida no dia 21 de Junho de 2008, por ocasião do 6º Seminário da Associação Portuguesa de Kyudo, e com a colaboração da Fundação Oriente. Esta cerimónia é altamente ritualizada e o objectivo do tiro é o de libertar a atmosfera dos maus espíritos.

Hikime: Maky Kudo no Convento da Arrábida
Quando os portugueses chegaram ao Japão no séc XVI e usaram as espingardas, que eram uma novidade para os japoneses, o arco foi posto de parte, perdendo utilidade marcial, passando a ser utilizado apenas ou sobretudo em actos solenes, incorporando por esse facto aspectos das duas religiões e da aristocracia em presença.
É sabido que toda a tradição genuína é “contra corrente”, ou seja, é um movimento contrário à voragem do impiedoso Cronos. Qualquer acto de meditação do “conhece-te a ti próprio” é tradicional deste ponto de vista. O Kyudo é, por esta razão, completamente tradicional. A observação de si próprio, começando pelo corpo, nos músculos, nos ossos, em qualquer ponto dos pés à cabeça, que exige uma continuidade da atenção desde o início até ao momento após o tiro, centrada no Hara, esse ponto que fica entre o umbigo e a púbis, que é objectivamente o centro do corpo já esquecido pelos ocidentais, e que é obvio para qualquer japonês. Quem está atento sabe que esta observação é completamente ausente no nosso dia-a-dia, mas é ainda mais ausente quando passamos para a observação das emoções, seja de júbilo por se ter acertado, seja de desalento por se ter errado, seja de inveja do companheiro que acertou, seja a falta de determinação e energia na execução dos movimentos, para só falar de algumas. Esta dualidade no ser humano entre o que observa, sem juízo moral, e o que age e sente é claramente iniciática. Todos os comentários que se fazem a propósito, sobre as supostas “energias” envolvidas nestas acções tentam reduzir os planos superiores do ser à chã materialidade da Física da equação matemática e reconduzem o ser humano novamente ao seu estado de adormecimento.
Antecedentes: 1.ª parte
(continua)

terça-feira, 9 de março de 2010

APONTAMENTOS E REFLEXÕES SOBRE O KYUDO EM PORTUGAL, 1

Luís Paixão

Escrever sobre o Kyudo em Portugal não dispensa referir as circunstâncias excepcionais em que se deu o inicio da sua prática no país e, de certo modo, exprimir o que se passou connosco, comigo e com o Roque Brás de Oliveira (4º Dan graduado no Japão e actual Presidente da Associação Portuguesa de Kyudo), enquanto intervenientes nesses acontecimentos. Não que exista qualquer vislumbre de vaidade da nossa parte, mas porque de certo modo ficamos marcados por vínculos indeléveis que ambos consideramos de uma outra ordem.
No final de 1992 nós fazíamos parte de um circulo de tertúlia no qual os temas presentes eram e são de um modo geral espirituais e filosóficos, mas permeáveis à influência de outros espiritualismos vivos não exclusivamente ocidentais, muito à maneira de um René Guenon, quando enuncia esse propósito como a “busca de uma tradição primordial”. No que tocava aos orientalismos não éramos alheios às obras de Alan Watts e de Karlfield Von Durkheim, em especial o seu livro Hara, e às belíssimas traduções e comentários de Richard Wilhelm no livro de profundo esoterismo que é O Segredo da Flor Dourada e nesse outro, de carácter também operativo, ao qual recorro em momentos difíceis da minha vida para sábio e gratuito aconselhamento: o I Ching.
Entre estas obras e outras sobressaía O Zen na Arte Cavaleiresca do Tiro Com Arco Japonês de Herrigel, relato da aprendizagem de um ocidental na difícil arte do Kyudo. É uma bela narrativa muito bem escrita, com uma elevada intenção poética, mas que nos deixava com o amargo sabor de só ser possível viver aquelas coisas desde que vivêssemos no Japão. Nessa impossibilidade pensámos no tiro com arco ocidental, tendo na altura, e com essa finalidade, procurado um espaço para o praticarmos.
Por um acaso ou coincidência extraordinário, a Leonor, minha mulher, chamou-nos a atenção para uma artigo da revista do jornal Diário de Noticias, no qual se dizia que havia um senhor japonês praticante de Kyudo, de nome Yokokoji, que estava a viver em Sesimbra muito perto da casa do Roque, na Cotovia, e cuja grande ambição era encontrar um local para a prática do kyudo, enquanto gozava o período da reforma em Portugal. O País não é muito grande, mas mesmo assim tem uns largos milhares de quilómetros quadrados e logo havia de ser ali, tão próximo de nós, que o Sr. Yokokoji havia de estar a viver. Depois de serenado o entusiasmo, houve naturalmente o desejo de o conhecer pessoalmente, averiguando a possibilidade de marcarmos um encontro, conscientes de que o modo, ou a forma, de o fazermos não seria da mesma maneira que se procura um fornecedor nas páginas amarelas. Felizmente e também casualmente, a professora de línguas dos meus filhos era também professora de português do Sr. Yokokoji e, tendo conhecimento do mútuo interesse, promoveu um encontro entre nós em Novembro de 1992.
Recordo com muita saudade esses primeiros momentos no café Esperança. Era um homem magro e de estatura elevada em relação à média de altura japonesa, de trato muito afável, jovial, e, atendendo à idade - tinha 64 anos -, transparecia-lhe nos gestos e nas atitudes uma inocência de criança. Após uma primeira troca de impressões algo difícil em virtude da língua - ele “arranhava” o português e nós não sabíamos nada de japonês - ficou combinado que iríamos um outro dia a casa dele para uma conversa mais longa e profunda sobre o assunto.
Fomos recebidos em sua casa pela sua gentil mulher, a Sr.ª Sumiko, numa atmosfera muito japonesa. Descalçámos os sapatos à entrada (na passagem do profano para o sagrado para uns, para não sujar chão da casa para outros) e depois das boas vindas tomámos chá verde japonês com fritos de arroz feitos a propósito na altura, o que nos fez imediatamente sentir no paladar a atmosfera de simplicidade contida que reflecte a cultura japonesa. Logo após estes primeiros momentos de boas vindas foi buscar, para nos mostrar, o arco ”Yumi”, as flechas “Ya”, a luva “KaKe” e o alvo “Mato”. Foi um momento único, a exímia artesania, e os sinais de já terem sido usados, a verdade natural dos materiais: bambu no arco e nas flechas, pele nas luvas - pareciam objectos animados. A luva, sobretudo, que naquele caso reveste apenas os dedos polegar, indicador e médio, impressionou-me pela enorme dimensão do polegar que tem uma protecção em madeira revestido de pele com uma ranhura no lado posterior para prender o fio do arco. No punho da luva, nas costas da mão, uma bela inscrição gravada a roxo ligava o praticante à escola Ogasawara, aquela prestigiada escola de etiqueta e de Kyudo que tem vindo a apoiar, atenta e desinteressadamente, a actividade do grupo em Portugal através de inúmeras ofertas de material ao longo dos últimos 17 anos. Yokokoji mostrou-nos os objectos com uma enorme seriedade e simultaneamente com uma indisfarçável alegria, por finalmente ter encontrado alguém que poderia apreciar uma arte que ele tanto considerava.
Combinámos logo uma sessão de prática num espaço gentilmente cedido numa quinta próximo da Cotovia. A Quinta da Boa Vista ou Quintinha, propriedade da família da Leonor.
(continua)