(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



segunda-feira, 4 de maio de 2009

O CENTRO DO MUNDO, 1

Apresentação*
António Telmo

Aconteceu em Lisboa, no Grémio Literário, na alta-roda dos intelectuais; falava-se da Califórnia e dos portugueses que aí vivem, da América do Sul e do povo brasileiro. De repente alguém, que não é de Sesimbra, atirou esta frase que deixou estarrecidos nos seus lugares os quatro sesimbrenses que assistiam ao colóquio: Não é na Califórnia nem no Brasil que devemos situar o Centro do Mundo; é em Sesimbra! Se a frase tivesse saído da boca dum sesimbrense, vamos lá!, não seria muito bonito num ambiente daqueles, com todas aquelas cabeças pejadas de grandes temas e de grandes espaços intelectuais, que tudo vêem, entendem, e fazem entender os outros pela dimensão da Europa e do Mundo. Mas o que surpreende e nos deixa perplexos é ter ela sido proferida por alguém que apenas conhece Sesimbra como turista, de ter passado aqui e ter visto este mar, este castelo, estas casas, esta gente, esta vila, numa tarde de sol inexpressiva como todas as tardes de sol em que todas as pessoas fazem o mesmo por não serem capazes de fazer coisas diferentes.

Sesimbra, o Centro do Mundo! E porquê? E como? Interrompeu o Agostinho da Silva, uma espécie de flagelo de Deus pela ideia como Atila o foi pelas patas do cavalo, para dizer que o facto de uns porem o Paraíso, o tal Centro do Mundo, em Brasília, outros na Califórnia, outros em Sesimbra, somente significa que o lugar onde se não morre está por toda a parte, por toda a parte onde haja homens que, pensando e imaginando, desceram tão profundamente dentro de si próprios que tocaram aquele ponto do espírito para o qual convergem por infinitos raios as várias esferas que definem a actividade dos outros homens. Eis o paradoxo da cultura: e é que tal homem ou tais homens é mais fácil e certo encontrá-lo ou encontrá-los no pescador que nunca ouviu falar de Einstein ou de Sartre ou de Russel, mas que tem dentro de si as grutas do ser ainda inexploradas pelos outros homens, mas onde ressoa, num ritmo ancestral e idêntico, a grande voz do mar. Por isso, todas as publicações culturais, como esta que agora nasce, deveriam nascer para dizer mal da cultura, de que já se ria Sócrates, o homem mais culto da Grécia, para quem, toda a gente sabe, o princípio da ciência residia na terra virgem das almas sem ciência nenhuma. Em Portugal, cada um de nós é um Mestre e o crer-se Mestre, no ofício, na profissão, no negócio e em tudo o mais, cresce sempre na razão inversa da sua autêntica sabedoria. Daqui o culto que prestamos aos catedráticos, aos que exibem livros como outros exibem automóveis, aos que disfarçam num pomposo título universitário ou num mais modesto diploma de formatura a sua incapacidade de ver, de investigar e, portanto, de perguntar constantemente. É uma banalidade que sempre se esquece: a de que a inteligência se mede muito mais pelas perguntas que se fazem do que pelas respostas que se dão.

Mas se na auto-suficiência de quem funciona como mestre não há nem pode haver a fecunda expectativa da pergunta, o entusiasmo da hipótese, a certeira aventura da investigação, existe sim a terrível, fria, atenção aos defeitos dos outros, aos erros (de errar, vagabundear, procurar) que todos necessariamente vamos tendo numa vida que queiramos ou não é sempre viagem, embora quase sempre de rotina depois de se ter ido à Índia, e assim em cada mestre há um crítico, o que corresponde zoologicamente à girafa, com um pescoço muito comprido a separar a cabeça do corpo e dos seus instintos, emoções, sentimentos, e uma boca de roedor que vai mastigando todas as plantas que vivem no alto, ali onde só deviam chegar pássaros e abelhas.
Triste é ter que dizê-lo: em cada português vivem de mãos dadas um mestre e um crítico. Daqui a dificuldade de um suplemento de cultura como este. Ele só serviria para os que infelizmente não sabem ler. Mas resta a esperança de que nos que sabem ler, esteja aquele que sabe e não sabe ao mesmo tempo, isto é aquele que em cada novo conhecimento adquirido sinta não uma cadeira ou cátedra em que se possa sentar definitivamente, mas uma nova forma de interrogação, o que esperamos se encontre numa terra em que o constante vai-vem do mar corrói todas as arestas definidas e destrói todos os frágeis portos dos homens.
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*texto originalmente publicado em Sesimbra Eventos, n.º 30, Abril-Maio de 2004. Segundo o seu autor, foi escrito, algumas décadas antes, com destino a uma publicação de índole cultural, dedicada a Sesimbra, que ficou por concretizar, e cujo mentor terá sido, muito provavelmente, Agostinho da Silva.

PARA LER

Tradição. A não perder, no Sabedoria Perene: a reportagem da sessão da passada quinta-feira, na Associação Agostinho da Silva, com a presença do pensador brasileiro Mateus Soares de Azevedo, que, conforme foi anunciado, ali proferiu duas palestras. Os Cadernos de Filosofia Extravagante agradecem as palavras de extrema simpatia do Miguel Conceição, desejando-lhe (e ao Nuno Almeida) as maiores felicidades para o novo projecto, agora anunciado: uma revista não-periódica de publicação online, a qual visa divulgar alguns dos principais textos publicados no blogue, bem como estabelecer uma plataforma para a publicação de textos de autores de expressão portuguesa dedicados ao estudo da Tradição e da Sophia Perennis.

NO CORAÇÃO DA ARTE, 2

Cynthia Guimarães Taveira


A Revelação
Foi no cinema que percebeu a natureza do seu dom. Cada dom tem uma natureza única. Ali, na tela de luz em movimento a vida de um pintor coreano, embriagado de vinho, mulheres e pintura era uma história de angústia. Da angústia inexplicável de quem pinta. No seu quarto, pela noite fora, ele pintava, já muito perto da loucura, e rasgava tudo em seguida, como se nele vivesse uma deusa da destruição e outra da criação e ambas medissem forças, e ambas ganhassem, e no fim, já fracas, essa tensão ficasse exactamente na mesma. Perene. Quem pinta conhece esse preto e branco, esse tudo ou nada, esse Deus e esse Vazio. No meio de papéis rasgados, o artista tinha pintado um bando de pássaros e, na escuridão da sala de cinema, o pintor teve uma revelação. Viu esse bando de pássaros como se visse um bando de pássaros pela primeira vez. Pintar é uma dupla revelação, a revelação da obra que está sempre para além do seu criador e a revelação de si próprio, pois também ele, nesses momentos, sabe que está para além dele próprio e aí, nesse suspiro de vida e morte, nesse breve momento, o transcendente está presente, omnipresente. Tudo é para além de nós. Até nós.

domingo, 3 de maio de 2009

NO PRÓXIMO SÁBADO, DIA 9, EM SESIMBRA: O CENTRO DO MUNDO

Lançamentos. O acontecimento deu-se um dia, há já muitos anos, no Grémio Literário, em Lisboa. Falava-se da Califórnia e dos portugueses que aí vivem, da América do Sul e do povo brasileiro, quando alguém, que não era de Sesimbra, afirmou ser nesta terra marítima que se deveria situar o centro do mundo. Logo o burburinho se instalou. Agostinho da Silva, que ali estava presente, apressou-se a esclarecer que o centro do mundo é o lugar onde se não morre e, por isso, está por toda a parte, “por toda a parte onde haja homens que, pensando e imaginando, desceram tão profundamente dentro de si próprios que tocaram aquele ponto do espírito para o qual convergem por infinitos raios as várias esferas que definem a actividade dos outros homens”, como fulgurantemente escreveu António Telmo, ao contar-nos o episódio, que presenciou, num texto mantido inédito durante décadas, e que apenas veio a lume em 2004. Destinava-se, tal como um outro escrito, de Agostinho da Silva, a uma publicação cultural sobre Sesimbra, que ficou por concretizar.
No próximo sábado, a Biblioteca Municipal de Sesimbra acolhe o lançamento de Congeminações de um Neopitagórico, de António Telmo, livro que agora surge no mercado com a chancela da Zéfiro, e do terceiro número da revista Nova Águia, dedicado a'O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte. A sessão, com início marcado para as 15 horas, contará com a presença do autor de História Secreta de Portugal, do editor Alexandre Gabriel, de Pedro Sinde, que fará a apresentação das Congeminações, de Carminda Proença, de Renato Epifânio, um dos directores da Nova Águia, e de Pedro Martins.
Tal como Brasília, Sesimbra foi um dos traços de união no mapa da convivência espiritual que Agostinho da Silva e António Telmo mantiveram durante décadas. Nos próximos dias, através da (re)publicação daqueles e de outros textos, iremos dedicar especial atenção à presença e à acção dos dois grandes vultos por terras e mar de Sesimbra, afinal o centro do mundo, o lugar onde se não morre.

DIA 16, SÁBADO, EM MONTEMOR: II SIMPÓSIO SOBRE OS TEOREMAS DO «57»

Regresso. O do ciclo de simpósios sobre os 12 Teoremas do 57 – Actualidade dos teoremas do Movimento de Cultura Portuguesa, a decorrer, ao longo de 2009, na Livraria Fonte de Letras, em Montemor-O-Novo, junto à Câmara Municipal. O segundo é já no próximo dia 16, sábado, com início às 16:30, e em conjunto com a apresentação de Universalidades, primeiro número dos Cadernos de Filosofia Extravagante.

Desta vez, os apresentadores e os teoremas em foco serão os seguintes:

Rodrigo Sobral Cunha e a Filosofia da História
Helder Cortes e a Universidade
Pedro Martins e a Pátria
Cada interlocutor convidado apresentará durante dez minutos um teorema.
Finda a apresentação iniciar-se-á o debate alargado a todos os convivas do simpósio.
Na semana que antecede a realização deste simpósio, os teoremas respectivos serão aqui publicados.

sábado, 2 de maio de 2009

SAUDAÇÃO A ANTÓNIO TELMO, 11












Acontecimentos extraordinários
na Sesimbra de outrora*
António Telmo

Tinha dezasseis anos, quando o meu Pai trouxe a família para Sesimbra. Nesse tempo, Sesimbra era visitada no verão por meia centena de turistas. As ruas, os Cafés, o jardim, a praia eram nossas.
Eu trazia comigo o amor dos livros e o que neles nos ajuda a compreender quem somos, donde vimos e para onde vamos. Não demorou muito tempo, depois que ali cheguei, que não entabulasse relações de convívio intelectual com outros rapazes, de que o mais velho era o hoje famoso Rafael Monteiro, celebrado juntamente como um dos mais notáveis sesimbrenses de sempre. Ele e dois poetas, o Gilberto Pinhal e o José Preto, estavam contaminados de tuberculose, a doença da época, que a proximidade do mar fazia progredir vertiginosamente.

A tábua, à volta da qual se entabulavam as nossas conversas de amizade, era uma mesa do Café Central. Eu respirava na atmosfera dos meus companheiros horas a fio, discorrendo com eles sobre os para nós profundos mistérios da literatura, em sua essência a mais elevada expressão do sobrenatural.

O Gilberto, de uma família de pescadores, tinha chegado do sanatório do Caramulo. Era um poeta não muito inspirado, mas havia nele algo de excepcional que se confundia com a doença que o minava. Acontecia também que um dos escritores que líamos então, o ultrafamoso antropólogo Rodolfo Steiner, era tal e qual o rosto do Gilberto. Comparávamos a fotografia que vinha num dos seus livros com o nosso amigo e cumprimentávamo-lo pela parecença com um homem tão elevado. Eu via nisso uma afinidade profunda de alma que o Gilberto devia procurar na sua mesma intimidade. Os outros companheiros de tertúlia preferiam uma explicação mais fácil: o Gilberto seria, segundo eles, uma reencarnação do Rodolfo Steiner. Dois anos depois, o próprio talvez tenha chegado a saber mais do que nós, porque morreu.

Uma ou duas semanas antes deste triste facto, deram-se acontecimentos extraordinários no grande casarão vazio onde a Câmara Municipal o deixava pernoitar. Diz-me hoje o António Reis Marques, outro da mesma tertúlia, da saudosa tertúlia, que o referido casarão era uma casa assombrada. Não sei. O que eu vi e posso testemunhar e presumo que a memória me não engana, foi a decomposição do corpo etérico do nosso Rodolfo Steiner que se manifestava, no seu quarto para onde nos chamava, pela aparição nas suas paredes de sucessivas por imensas luzes de cor láctea, que se acendiam aqui, se apagavam ali por toda a parede à volta. O acontecimento foi sabido por toda a vila. Duas mulheres do mar que se cruzaram comigo na rua, interpelaram-me dizendo:

“O Gilberto vai morrer. Aquelas luzes que vos apareceram são as “alminhas” a anunciar a sua morte para breve."

Acertaram. Mas o José Preto também nos deixou por essa época e não houve qualquer manifestação sensível do sobrenatural. Este era um grande poeta. Há uma poesia dele, O Chamador, que Azinhal Abelho da Orada fez figurar numa antologia dos melhores versos escritos por portugueses.

Esta minha convivência com tuberculosos do último grau foi notada pelo médico do povo, o Dr. Costa, que, chamando-me à parte, ralhou comigo por não temer o contágio, o que de certo atribuía à minha ignorância e não à excelência da minha alma cristã.

Tive, porém, outro aviso, esse mais sério. Altas horas da noite, acordei a ouvir uma voz interior, tão natural como a nossa quando a movemos de nós sem preconceito ou vaidade, que me interpelava:

“Não estejas melancólico, senão entuberculizas.”

O perigo vinha afinal, não do meu convívio com tuberculosos, mas de um estado doentio da alma: a tristeza.
A tristeza, descobri eu então como hoje creio, é a expressão de falta de confiança na bondade de Deus.

O contágio dera-se, mas o meu reencontro com a alegria, fez que a terrível doença encubasse. Veio a manifestar-se quarenta anos depois. Fica aqui a minha gratidão ao João Rêgo, então médico e amigo, o qual, situando as suas raízes no passado, a diagnosticou correctamente.

*Publicado em O Sesimbrense, de 30 de Abril de 2009.

SAUDAÇÃO A ANTÓNIO TELMO, 10









Ao filósofo de Portugal*
Rodrigo Sobral Cunha

Ao filósofo de Portugal,
nos seus oitenta e um anos
e mais um (como nas Mil e Uma Noites)
dentro do oito e já no dez,
cumprindo Portugal de vez!

* título da responsabilidade do editor

OUTRAS VOZES

Aniversário. Renato Epifânio associa-se hoje, numa das suas "breves cartas" publicadas habitualmente no blogue da Nova Águia, à Saudação a António Telmo, a quem dá um abraço de parabéns.
Também o poeta Jesus Carlos, n'O Bar do Ossian, saúda o autor de Arte Poética, com quem partilha o dia do nascimento no calendário. Parabéns!

UMA NOTA DE GRATIDÃO

Agradecimento. São de João Aldeia as belíssimas fotografias que têm ilustrado a Saudação a António Telmo. Com excepção da que acompanha a antecedente Carta aberta de Pedro Sinde (que documenta o lançamento de Contos Secretos, em 24 de Novembro de 2007, na Biblioteca Municipal de Sesimbra), foram todas tiradas no passado dia 21 de Março, durante o lançamento dos Cadernos de Filosofia Extravagante, em Sesimbra. Ao João Aldeia, o nosso bem-haja pela sua cedência!
João Aldeia é autor do blogue Sesimbra, um apreciado fotoblogue inteiramente dedicado à Piscosa de Camões, e que integra o projecto City Daily Photo. É ainda o director do jornal O Sesimbrense, que na sua mais recente edição (de 30 de Abril) dá à estampa o escrito inédito de António Telmo que hoje, dia do seu aniversário, será também aqui publicado.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

SAUDAÇÃO A ANTÓNIO TELMO, 9

Carta aberta
Pedro Sinde
Meu caro Pedro Martins

Aqui estava eu a pensar nesta Saudação ao António Telmo e logo me recordei de um episódio que gostava de te contar. Tinha combinado encontrar-me com o Professor Aloísio Lobo no Piolho. O Piolho é o nome por que é conhecido um café de estudantes universitários aqui no Porto chamado Âncora d’Ouro. Entrei e lá estava o Professor a um canto, completamente concentrado na leitura, a sorrir. Depois de nos saudarmos, logo me disse de um jacto: “Sabe, Pedro?, onde ninguém vê nada, o António Telmo vê tudo…” Isto assim à queima-roupa, intrigou-me. É claro que eu não podia estar mais de acordo e nunca exprimiria tão bem e tão sinteticamente um juízo sobre o modo do António Telmo. Baixei os olhos discretamente para ver que livro lia: era a Viagem a Granada. Sabes, como eu, que isto é rigorosamente assim. Ocorre-me, aliás, aquela ideia tão evidente, depois de lha ouvirmos, de que é verdade que há sismos em muitas terras que não têm touradas, mas só há touradas em terras com maior ou menor tendência para sofrerem sismos. Um exemplo curiosíssimo disto, diz o António Telmo, é o facto de os portugueses tanto terem levado para o Brasil, em termos de costumes, mas não terem levado touradas. Também é verdade que no Brasil não há sismos.
Enfim, mas tu lembras-te destas coisas, naturalmente. Dir-me-ias, talvez, que o melhor do António Telmo escritor não está nisto, mas na sua capacidade hermenêutica. Mas isto também é hermenêutica; porque há-de ser sempre hermenêutica dos livros e não hermenêutica dos fenómenos da nossa vida? Não devemos interpretar os acontecimentos do mundo como quem interpreta um texto? Na verdade, se não interpretarmos os fenómenos com que instantemente somos excitados, é como se eles não existissem para nós e, nesse caso, para que acontecem? O António Telmo faz este tipo de hermenêutica constantemente. O que me lembra um outro episódio, este bem curioso, a que o teu homónimo, aquele galego, recordas-te?, o Pedro Martín Lago, se refere em Poética y Metafísica en Fernando Pessoa, caracterizando o António Telmo como um “subtilíssimo hermeneuta”. Realmente, como é possível, senão sobrenaturalmente, saber que o soneto Gomes Leal do Pessoa é a carta astral do próprio Pessoa e não do Gomes Leal? Que voz foi aquela que lhe revelou este segredo? Convenhamos que é espantoso! É que não vemos por que meio natural pôde o António Telmo saber aquilo… Mas também não espanta, pois se até o Manuel Mujica Lainez, lá da Argentina, intrigado com a leitura que fez da História Secreta de Portugal, subtilmente compara o António Telmo a Fulcanelli. De resto, já o António Carlos Carvalho tinha feito a mesmíssima discreta comparação no prefácio a este livro, onde talvez até o argentino tenha confirmado o seu parecer deslumbrado.
Às vezes tenho a impressão de que o mal dos melhores portugueses é nascerem tal, quer dizer, portugueses... Bastaria nascerem num país maior (onde a inveja nunca é tanta porque os invejosos têm mais espaço na capoeira) para terem o lugar que merecem e, sobretudo, para termos nós mesmos o que precisamos, porque os grandes homens, como lhes chama Junqueiro, não devem ficar esquecidos: eles fazem-nos falta!
Mas, ainda a propósito da aproximação entre António Telmo e Fulcanelli, logo me recordei do nosso amigo Ronaldo Castro de Lima Jr., no belíssimo livro (o conteúdo é tão bom quanto o título: Saber do Céu – não chegaste a lê-lo, pois não?), numa nota discreta em que aponta o nome daqueles “que tentam recuperar os verdadeiros valores da metafísica universal”, entre Guénon, Schuon, Coomaraswamy, Burckhardt, Joseph Epes Brown, Michel Valsan, Seyyed Hossein Nasr e Charbonneau-Lassay, por exemplo, lá coloca o nosso António Telmo, aliás, o único português ali referido.
Ainda no Brasil, Santiago Naud, mas a propósito do Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões, compara o tipo de hermenêutica que António Telmo realiza com a escola da chamada “Gnose de Princeton”. A formulação científica, ou dita tal, que esse grupo pretendia realizar, no sentido de reencontrar uma ciência espiritual que ponha definitivamente de lado o modelo positivista ainda em vigor, esta formulação científica, dizia, não interessaria particularmente ao António Telmo (que sempre defendeu que o pensamento só encontra a sua verdadeira fundamentação no pensamento do Criador); ainda assim, o essencial deste projecto, bem próximo, por exemplo, de Henry Corbin, não está fora do vasto horizonte de António Telmo.
Já reparaste no quanto é verdadeiro o dito: santos da casa não fazem milagres? Nós sabemos que eles vão acabar por perceber que o santo a que o vizinho reza é afinal o nosso… quando andamos nós a rezar ao deles…

E agora me lembro: e a saudação ao António Telmo? Vou agora mesmo telefonar-lhe para o saudar pessoalmente.
No entanto, deixo-te aqui o início do que tinha pensado escrever:

Faz agora um ano que fez oitenta e um anos que nasceu em Almeida. Se acreditarmos no chamado mito de Er, narrado por Platão, somos levados a pensar que nós mesmos escolhemos o destino que nos é conveniente. Creio que António Telmo escolheu Almeida por duas razões: a primeira é porque a sua planta geométrica deve ser lindíssima vista do céu, recordando as formas geométricas a que Pitágoras e Platão se referem, o que seguramente atraiu António Telmo, como se em Almeida visse o céu na terra. A segunda é porque esse nome vem do árabe al-Maida e significa “a Mesa”. O leitor está-se já a lembrar, talvez, do seu livro Bateleur; também eu, aliás, do Bateleur, da mesa do Pessoa no quadro do Almada, da mesa do escritório do António Telmo e de uma tremenda surata do Alcorão com esse nome.

Fica, meu amigo, com o abraço do
Sinde

PARA LER

Tradição. É importante levar em conta, n'O Lugar da Alma, as mui oportunas incursões de Abdel Hayy nas tradições judaica e islâmica. A evocação do português Leão Hebreu, aliás Judá Abravanel, filho de Isaac Abravanel e autor de uma cabala filosófica onde se destaca a obra-prima Diálogos de Amor, acaba por transcender o contexto peninsular. Para melhor se aquilatar a importância deste autor, bastará lembrar que ele é referido por estudiosos tão relevantes como Gershom Scholem, Charles Mopsik ou Daniel Beresniak, sobretudo a propósito da sua doutrina do Jubileu. Já a lamentação de um cristão andaluz, confinada ao solo ibérico, remonta ao século IX. Lembrando-a, Abdel Hayy dá-nos um bom exemplo daquilo a que Pedro Sinde, em Universalidades, chamou harmonia abraâmica. São leituras imperdíveis.

SAUDAÇÃO A ANTÓNIO TELMO, 8



Inteligência e bondade*
Elísio Gala

- Você tem boa cara.

Eis as primeiras palavras que de viva voz ouvi ao Dr. António Telmo, há já muitos anos atrás, num restaurante que penso já não existe – a Mimosa do Camões. Tratava-se do jantar comemorativo do lançamento do primeiro número da nova revista de filosofia – Leonardo. Ali se reuniam num mesmo amor da Pátria, os jovens redactores da nova revista e os mestres lidos – quantas vezes mal lidos, se atendermos à lição de Pascoaes sobre o significado de ler bem – e admirados: Orlando Vitorino, António Telmo, Pinharanda Gomes, Afonso Botelho, António Quadros, isto só para falar dos que mais me formaram enquanto homem, pela vida e pela obra.

Como habitualmente, escutei. As palavras que estes homens admirados proferiram, o modo como o faziam, a virtualidade e virtude que delas emergiam, a luz com que esclareciam fundamentando e firmando as teses e os teoremas, a ânsia de absoluto que em nós – os mais jovens – instilavam, o modo livre e desinteressado como o faziam, tornavam-nos mais homens, faziam-nos crescer, bater o coração mais alto e longe, numa demanda que sendo a de Portugal, ia Além.

Como habitualmente, também, ocupei um dos lugares mais distantes dos mestres. A razão de um tal comportamento, radicava para mim, no facto de ser o mais novo – e portanto de dar a primazia aos mais velhos – e de me considerar o menos sabedor – e portanto de dar também a primazia aos que melhor exprimiam ou apresentavam as interrogações moventes do pensamento e da imaginação. A distância, se era para mim manifestação de uma certa timidez, nascida da imensa admiração nutrida por estes homens, era também para mim, garantia de um apuramento auditivo. Ouvia tudo com a máxima atenção e procurava tudo guardar; sem esforço o fazia, porque as palavras, sabia-as de cor, de coração, tais as palavras nascidas no amor.

O Dr. António Telmo dirigia-se para a porta, a fim de fazer a viagem de regresso a Estremoz. Eis senão quando, me distingue entre alguns dos convivas com a sua atenção. Levantei-me, apertando-lhe a mão que me estendera – após ter feito a afirmação a que aludi no início deste escrito – e ainda me presenteou com a alegria de afirmar ter apreciado o meu texto. O Dr. António Telmo foi assim um dos meus primeiros “espelhos”, isto é, uma daquelas pessoas significativas que nos permitem olhar para nós. A nossa vida parece depender em parte, do modo como algumas pessoas interpretam as manifestações da nossa fisionomia. O modo como o fazem, permitem-nos ganhar uma progressiva autonomia, capacidade de escolha e de descoberta dos nossos talentos. Como se todo o nosso esforço de saber e de iluminação se passasse a concentrar nesse encontro da nossa forma com a nossa figura. A lembrança da infância e das brincadeiras que então nos davam prazer, são uma das chaves desse encontro.

Sempre a lembrança, a memória, a luta contra o esquecimento. É Álvaro Ribeiro quem algures afirma que os paraísos perdidos, são os paraísos das palavras perdidas, não dadas ou pior esquecidas. A importância dada ao esquecimento por Álvaro Ribeiro era tamanha, que sugeria ser preferível inventar uma mentira do que confessar o esquecimento. Conhecedor da dialéctica do discurso amoroso, e do naturalismo sentimentalista que continua a caracterizar o tempo actual, chama-nos a atenção para a importância da memória e do raciocínio na relação com a mulher. Para aferir da verdade das palavras e da sua consonância com os comportamentos, sempre a mulher se manifesta mais sabedora da memória das palavras trocadas e no “teste” a quem a pretende, elegerá aquele que se distinguir entre os demais por alguma espécie de superioridade. A fidelidade às palavras trocadas e não esquecidas constituirá sempre elemento fundamental no firmar da relação amorosa.

Sabemos, por leitura de alguns clássicos, da importância da memória e do esquecimento. A Ulisses, oferece a deusa Calipso, a imortalidade, e a sua beleza… bastava-lhe tomar a bebida do esquecimento. Platão fala-nos do rio do Letes, do qual os que mais bebem no trânsito para esta vida, se tornam os mais esquecidos, sendo que os filósofos são os que melhor se lembram da vida perdurável, por pouco ou nada terem bebido dessa água. Na demanda do Graal, muitos são os cavaleiros que se perdem, que se desorientam, alguns chegam mesmo a beber da bebida que a feiticeira Morgana lhes oferece… e tornam-se autómatos, ao serviço de um poder que os encerra na armadura vestida para lutar contra o mal e agora tornada prisão…

Numa das suas obras o Dr. António Telmo afirma a necessidade de cada um se constituir como uma ilha… e toda a sua obra é, no fundo, uma luta contra o esquecimento. Toda ela é um imenso exercício do novo e da novidade, por isso a sua obra é, podemos dizer, tão sã e inclassificável. A possibilidade de fazer de cada vez de modo diferente, de nos revelar diferentes aspectos da realidade e cada realidade em seus múltiplos aspectos, são para mim indícios de uma obra que nos ensina a treinar a capacidade inventiva e auto-crítica, a não nos queixarmos e sobretudo a que os outros não se queixem de nós.

A nossa sociedade é cada vez mais mediática, manipuladora e supostamente comunicacional. De entre os inúmeros problemas que se colocam actualmente às pessoas – onda de sentimentalismo, embotar do raciocínio, incapacidade de adiar as recompensas, incapacidade de identificação das emoções próprias – um que surge com particular acuidade é a chamada necessidade de transparência. Lembro um episódio em casa do Dr. António Telmo. Perscrutando no meu olhar o espanto ou o encantamento do profano perante a magia do esotérico, apontou para uma prateleira no seu escritório e disse: aqui tem à sua frente, todo o esoterismo. Maior transparência não podia haver. Mantendo com a transparência do dizer, a inviolabilidade do espaço luminoso da imaginação, ensinava-me, penso eu, a garantir a pouca liberdade que nos resta neste imenso Big Brother em que vivemos. Outras lições a retirar desse gesto e dessas palavras: não deixar que nos adivinhem os pensamentos, para nos mantermos livres; o sonho e a imaginação é que nos permitem viver no meio das circunstanciais adversidades; a arte, alimentada pela imaginação, existe para que nos possamos esconder enquanto nos mostramos; é na subtileza das palavras que podemos construir novos mundos.

Inteligência e bondade são na obra de António Telmo conceitos e ideias permutáveis. Quando o olho, vejo um homem bom. Quando o oiço, escuto um homem inteligente.

Dr. António Telmo… o senhor tem muito boa cara!

* título da responsabilidade do editor

quinta-feira, 30 de abril de 2009

SAUDAÇÃO A ANTÓNIO TELMO, 7

António Telmo: Filosofia plena e assumpção da História
Pedro Martins

1. António Telmo exorta-nos algures a que reunamos as numerosas tríades de conceitos com que o leitor atento de Álvaro Ribeiro se depara, sempre que percorre as laudas luminosas da sua obra. Fá-lo com o propósito evidente de nos levar a estudá-las. Tanto quanto me lembro, não revela António Telmo a razão profunda do alvitre, mas pressente-se que o filósofo entreveja nesse trabalho exaustivo a porta que nos aproxima do tesouro legado pelo seu mestre, senão a chave que a franqueia.
Bem se compreende que um pensador subtilmente tributário do movimento aristotélico como Álvaro Ribeiro conceba a tríade como a lei inexorável da manifestação. Essa tríade pode ser descritiva de uma sucessão de termos já consumada (diacronia), qual a do movimento da potência que, posta em acto, se cumpre na perfeição; ou, por acréscimo, indiciar a geração de novos movimentos, pela existência simultânea dos termos que a compõem (sincronia). Além dos movimentos específicos assim representados, a posição relativa dos termos enunciados na sequência triádica e a possibilidade efectiva de desenvolver a analogia entre tríades são factores que, por si ou conjugadamente, se oferecem à nossa ponderação.
Assim, o mesmo termo – “poeta” – não tem o mesmo sentido quando, nas Memórias de um Letrado, Álvaro Ribeiro o inclui na tríade poeta, dramaturgo e historiador, que refere a Jaime Cortesão; e quando, n’A Razão Animada, a propósito da leitura como processo de convívio mental com os espíritos de escol, declara dar preferência “aos historiadores que nos façam imaginariamente reviver a acção, aos poetas que nos ensinem a poetar, aos pensadores que nos façam pensar”. Ali, poeta está por poeta lírico, sendo que o historiador, dada a implícita permutação com o romancista, se há-de reportar à epopeia (em Cortesão, será a história, e não o romance, a dar a final o épico, género já entrevisto no poema inaugural A Morte da Águia e nos sequentes dramas O Infante de Sagres e Egas Moniz). Aqui, a analogia com essoutra tríade, definidora do composto humano, que se analisa em corpo, alma e espírito – analogia que Rui Lopo, em lúcido ensaio sobre Tempo e Liberdade no Pensamento de Álvaro Ribeiro, pôde licitamente estabelecer – mostra como poeta é o termo médio de uma simultaneidade hierarquizada, e não já a potência de uma manifestação sucessiva. (...) ler mais

SAUDAÇÃO A ANTÓNIO TELMO, 6

Testemunho…
João Tavares

Pede-me o amigo Pedro Martins que escreva um apontamento ou um testemunho que possa juntar-se a outros em singela homenagem ao nosso comum amigo, o filósofo António Telmo.
Não nos é fácil eleger aquele acontecimento que mais signifique o convívio de quase uma vida.
Parou-nos a mão no quase, presa que ficou pela justeza do termo empregue, logo se dando conta que se fixara na contagem dos anos, um alçapão que esconde, não poucas vezes, a soberba, como se, alguma vez, a contagem do tempo se pudesse constituir como válida razão e bastante…

O horóscopo ou a fortuna, ou lá seja o que for, que só Deus o saberá certamente, levaram um moço, que mal completara o seu primeiro «quartel de vida», açodado pelas revoadas abrilinas que lhe enchiam o peito, rumo ao filósofo. Aconteceu em Borba, localidade do Alentejo, onde, por então, eu leccionava numa sua escola e o pensador vivia com a sua família.
Do que se falou, resta-nos uma confusa impressão, mas lembramos bem a sua placidez quando, à despedida, lhe soltámos:
- Desculpe, ficará para a próxima uma melhor explicação! (faláramos de política, já se vê!...).
Não permitiram os fados, pois haviam disposto, por outra forma, que próxima não houvesse mais, mas respeitosa aproximação, coroada por amável dedicatória, tesoiro que guardo e memoro, que o autor de Arte Poética, generosamente, apôs neste livro que me ofereceu.
O que mais importará, será partilhar com quem possa vir a ler estas linhas, uma interrogação: jamais, em vez alguma, o ínclito filósofo haver dado aos problemas, mistérios, ou segredos, conversados, o mesmo encaminhamento, porém sempre versando e elevando o mesmo Ideal. Ousaríamos dizer que ao seu Convívio ocorre o que a uma fonte não pode deixar de ocorrer: sempre a mesma água nascente, porém sempre água nova!
Em mais de três décadas, nem por uma vez ouvimos de nenhum conviva, e tantos eles se já contam, que as conversas havidas (que nunca diversas são!), em algum momento ou em alguma circunstância, pudessem ser adivinhadas, tal a vida nova que por elas perpassa.
Do que se tratou, foi de ter sido oferecida a esse jovem a possibilidade de ouvir a sua fonte.
Bem-haja, António Telmo!

quarta-feira, 29 de abril de 2009

SAUDAÇÃO A ANTÓNIO TELMO, 5



Um Homem
António Carlos Carvalho

Se a memória não me falha, conhecemo-nos em 1976. O António Telmo foi ter comigo às instalações de «A Capital», onde então eu trabalhava, para me entregar o manuscrito de «História Secreta de Portugal». Trocámos algumas palavras, ali mesmo, no átrio de entrada da sede do jornal e eu recebi das suas mãos o manuscrito de um livro que logo devorei, entusiasmado com a descoberta.

Nessa altura, eu dirigia a colecção Janus da editora Vega, em que desejava publicar obras diferentes sobre temas fora do comum. «História Secreta de Portugal» era exactamente o tipo de obra pretendida. Mas era muito mais do que isso: uma obra pioneira, um rumo novo que se abria entre nós.

Para mim, que alguns anos antes, noutra editora, tinha traduzido «O Mistério das Catedrais», de Fulcanelli, aquele manuscrito de António Telmo era a resposta perfeita à minha interrogação: porque é que não se fazem «leituras» destas a partir dos nossos próprios monumentos, decifrando-os? Pois bem, ali estava então o que eu desejava. Um livro luminoso, que nos abria os olhos para a mensagem do Mosteiro dos Jerónimos.

E assim se publicou «História Secreta de Portugal» na Vega. É verdade que essa edição não nos correu bem, a mim e a António Telmo. Doeu-me e indignou-me a maneira como ele foi maltratado pelo editor – há editores que são verdadeiros predadores, mas só então demos por isso... Passado um ano e tal, o mesmo editor anunciou-me que a colecção Janus ía acabar «porque não se vendia». Afastei-me da Vega em 1978 mas claro que a colecção existe até hoje e continua a reeditar essas obras sem pagar direitos aos autores...

Adiante.

O António Telmo e eu continuámos a cruzar os nossos caminhos por aí, já sem nenhum vínculo de carácter editorial a ligar-nos, mas com interesses comuns que nos aproximavam. Encontrámo-nos várias vezes em Sesimbra, na casa do Rafael Monteiro, discutindo as excelências da Filosofia e da Religião, cada um de nós batendo-se pela sua dama com a energia que se impunha.

Em 1980, assisti, deliciado, no Palácio Foz, à magistral conferência de António Telmo sobre «O Segredo d’ Os Lusíadas». E fui lendo as outras obras que ele ía publicando. Para mim, que nunca fiz parte do grupo da Filosofia Portuguesa mas conheci alguns membros desse grupo, António Telmo era, e continua a ser, o elo da cadeia de transmissão de uma certa forma de pensamento português, neste país cada vez mais à deriva.

Lendo o que ele escreve (e relendo, porque somos sempre obrigados a relê-lo) ou ouvindo as suas palavras, aprendo sempre alguma coisa mais. Nele há sempre inovação, o que significa que António Telmo rejuvenesce por dentro. Contador de histórias, os seus contos filosóficos fazem-nos pensar – e acordar. Sem esquecer o seu humor, que nos desarma, a nós que fazemos questão de parecer gente séria e grave.

Vejo em António Telmo a figura exemplar do que a terminologia bíblica designa por Zaken, e que é muito mais do que simplesmente o ancião: é o homem que, através da sua experiência, adquriu a sabedoria. De facto, há nele algo do sábio talmudista, aquele que, dialogando consigo e com os outros, encontra sempre algo de novo no que foi dito e repetido até à aparente exaustão.
Há dias, em troca de mensagens com o Pedro Martins, dizia-lhe eu que sou apenas um farejador, como aqueles cães que buscam seres humanos no meio das ruínas dos sismos. Também eu farejo o Homem no meio das ruínas do nosso tempo. O que não tem nada de novo, de original. A desertificação da humanidade é muito antiga: Moisés «virou-se para um lado e para outro e viu que não havia homem»; David aconselhou ao filho Salomão: «Coragem pois e sê homem»; séculos mais tarde, Diógenes andava com uma lanterna à procura de homens verdadeiros.
Essa busca de Moisés, de David e de Diógenes é ainda a nossa, hoje, aliás cada vez mais premente.

António Telmo é um desses poucos Homens verdadeiros que me foi dado conhecer.

Por isso agradeço a Deus a dádiva e peço-lhe que o guarde por muitos anos, para nos mostrar o Oriente e entender essa luz.

RAZÃO POÉTICA, 2

O Génio da Língua Portuguesa
excerto de um texto originalmente publicado em 1991

“Quando só houver Europa, depois de abolidas as fronteiras e, sobretudo, depois da unificação da moeda, terá de pôr-se o problema da homogeneização das línguas, porque, dada a prometida livre circulação das pessoas e do trabalho, se todas mantiverem os mesmos hábitos linguísticos, será o caos da comunicação social. Não chegará a escolha do inglês, do francês ou do alemão para os actos oficiais. Será necessário que todos, desde a Rússia até Portugal, falem a mesma língua. O espírito que congrega os homens serve-se de dois agentes: o dinheiro e a palavra, que formam o seu duplo aspecto tenebroso e luminoso.

No século passado, a babilónica inteligência secreta, que trabalha para a homogeneização da Humanidade, não teve, então, a astúcia de principiar pelo económico ou, se teve, guardou-a para melhor oportunidade. Começou logo pelo fim, pela unificação linguística. Mas o esperanto foi um fracasso. Se os dois extremos da cadeia são o dinheiro e a palavra, antes de tentar pôr os povos a falar uma única língua será necessário dissolvê-los, desligando as pessoas da consciência singular de pertencerem a uma Pátria. Tem-se hoje a certeza de que a solução pelo esperanto não voltará a ser proposta. Foi recentemente declarado pelo Ministro da Educação que o francês e o inglês vão passar a ser dados nos primeiros anos do ensino público, o mais perto possível do início da vida. Como é fácil prever, uma ou outra destas duas línguas será a escolhida para funcionar como o «écu» e com o sistema binário dos computadores na progressiva desintegração dos povos.
Qual será o destino do português? Dele ficarão apenas documentos escritos, a literatura, que será recordada por essa máquina de fazer passar o vivo à história a que se dá o nome de Universidade. Há quem sonhe com a propagação imperial da língua portuguesa. Mas tal é impossível pela razão simples de os estrangeiros não serem capazes de assimilar a sua fonética. Teria de ser reduzida, degradando-se naturalmente numa nova espécie de esperanto. De resto, os ensaios de reforma ortográfica que procuram unificar o português do Brasil, do mundo africano e o de Portugal já tendem para a esperantização, limando as diferenças naturalmente invencíveis. Cada língua é a criação artística ou espiritual de um génio fonético, isto é, daquele génio ou daquela inteligência sobrenatural que elabora um sistema harmónico de sons significativos tendo por base elementar o sistema transcendente das sephiras (Ver minha Gramática Secreta da Língua Portuguesa).
A Linguística, fundada como ciência exacta em 1816, data da publicação por Franz Bopp da Gramática Comparada das Línguas Indo-Germânicas, foi progressivamente elevando os andares de um edifício cónico, poderosa, subtilmente poderosa, aparentemente inofensiva maquinação para destruição das línguas. É o movimento inverso do mito da Torre de Babel. A prática dissolvente terá sempre de ser precedida pela teoria que a prepara. Pessimistas perante o destino social europeu da língua portuguesa que, dentro de alguns anos teremos de considerar uma língua morta para nós, como o Brasil e a África ainda resistirão durante algum tempo mais à destruição das Pátrias, cabe-nos descobrir uma gramática que sirva, ao que de nós continua a sobreviver noutros continentes, de escudo e de lança contra a subversão geral das línguas. Tal gramática será a que determine os princípios activos pelos quais o nosso génio fonético formou do latim o português. É, de facto, no momento em que o latim se transforma em português que podemos surpreender a «forma» de onde ele nasce e progressivamente emerge como uma admirável criação espiritual. O leitor já se apercebeu de que, para nós, o que caracteriza e distingue uma língua é a sua fonética. Tudo o mais deriva daí.”

António Telmo

(retirado de Viagem a Granada, Fundação Lusíada, 2005)

SAUDAÇÃO A ANTÓNIO TELMO, 4

O peso da palavra
António Cagica Rapaz

Se vos disser que aos doze anos beneficiei de aulas particulares ministradas por António Telmo, ninguém se admirará se, a seguir, revelar que tive a nota mais alta do país no exame escrito de Filosofia do antigo 7º ano, em 1962.
Obtive exactamente 18,5 valores, o mesmo tendo conseguido uma outra aluna com quem dividi o prémio de quinhentos escudos.
Importa, porém, acrescentar que os ensinamentos que recebi diziam respeito à forma mais expedita de bem aplicar os cirúrgicos efeitos, puxar com precisão ou juntar num canto as três bolas do bilhar, arte em que António Telmo era já um executante primoroso, aliando uma técnica apurada a uma imaginação exuberante e a um total desprezo pela comezinha avidez da vitória nas provincianas competições.
Estávamos na segunda metade da década de 50, em Sesimbra, e eu revelava algum tímido jeito para a coisa quando o futuro grande filósofo teve a bondade de me dar umas lições cuja particularidade maior era ser o mestre a pagar a hora do seu bolso.
A instrução teve o seu início no café Ribamar onde a tertúlia intelectual tinha lugar, e prosseguiu no café Central, teatro das grandes representações às três tabelas.
Mais tarde, troquei as bolas do bilhar por outras maiores, de coiro, e o taco por botas de futebol a que hoje gente evoluída chama chuteiras.
O ainda jovem Telmo seguiu o seu caminho até atingir a projecção que sabemos e de que os seus amigos tanto se orgulham, por tudo e porque ele continua a espalhar a palavra do conhecimento e a iluminar as mentes de quantos o lêem, é certo, mas particularmente dos bem-aventurados que têm o privilégio de o escutar.
Contrariamente ao que se poderia esperar, não segui Filosofia.
Na altura, o 7º ano era o fim do meu percurso escolar, o limite da bolsa dos meus pais, e o acesso à Faculdade só aconteceu graças às tais bolas de coiro que me roubavam o tempo e pouco espaço deixavam para leituras e reflexão.
E foi assim, ao pontapé, que acabei por alcançar um canudo de Filologia Românica, bagagem modesta que acabei por nunca levar para qualquer sala de aula já que a minha vida profissional foi feita na aviação comercial, carreira que nem o astrólogo Horus (que o António Telmo tão bem e também conheceu) foi capaz de prever.
As voltas da vida nunca me afastaram muito de Sesimbra, apesar de ter vivido 19 anos em França, e fui mantendo contactos com alguns amigos comuns, como os irmãos Reis Marques e, mais recentemente, o Pedro Martins.
Não estou aqui para debater nem suscitar reflexões, a tanto não me atrevo. Sou um espectador ocasional das extravagâncias da vossa Filosofia e já me sinto honrado por poder assistir e fingir que percebo.
Não me choca a ideia de que o pensamento português tenha a sua origem nas tradições judaica, cristã e islâmica, admito de bom grado que sim.
Nem arrasto por aí as correntes joaquimitas, embora me impressione a exegese xiita, quase tanto como a tradição cabalista.
Já me sinto perplexo perante a dúvida que paira sobre a eventualidade de Jesus ter ou não sido assistido pelos anjos.
E parece-me perfeitamente legítimo que alguém possa interrogar-se sobre a existência de uma Filosofia intrinsecamente portuguesa.
Na minha condição de profano, ao assistir a alguns colóquios, fica-me a impressão de haver ali uma espécie de jogo, um pouco à imagem do que Sant’Anna Dionísio diz de Pascoaes ao classificá-lo como um espírito dialéctico que afirma e nega na mesma frase e até na mesma palavra, saltando de heresia em heresia.
E acho estranho que, apesar de tanta sapiência, os filósofos dêem mostras de tanta inquietação, não parecendo que tenham conseguido alcançar a serenidade e a paz própria de quem deveria saber de onde viemos e, sobretudo, para onde vamos. Porque, afinal, o que se passa entretanto, esta passagem efémera, pouca importância tem.
Confesso que o que mais me agrada é aquele momento delicado, no final, quando da sala não parece surgir qualquer intervenção, a menor pergunta, e nos fica a sensação de que os diversos oradores estiveram ali a perder o seu tempo.
Felizmente, para todos nós, levanta-se o António Telmo e faz duas ou três observações, com ar de quem pede desculpa por se intrometer, e lança uma luz nova sobre o tema.
Todos nós podemos fazer leituras, coligir informação, preparar textos de apoio, mas o grande talento, o que define e caracteriza os maiores é a capacidade de pensar com profundidade e com originalidade, de arrancar sabe-se lá de onde um ângulo original, um raio luminoso, uma centelha de excelência.
Há pessoas assim, que nos transmitem a sensação de tudo saberem, de nos surpreenderem com uma palavra, uma frase que, depois de solta, nos parece evidente, mas que nunca cruzara o nosso pobre espírito.
Depois há o timbre da voz, denso e seguro, e o tom, arrastado, tranquilo, desprendido, próprio de quem não precisa de mais evidência.
É o vagaroso pôr-do-sol alentejano, o peso da sabedoria, o calor da partilha simples e suave do conhecimento, tomai e ouvi, estas são as palavras do Mestre…

terça-feira, 28 de abril de 2009

SAUDAÇÃO A ANTÓNIO TELMO, 3

O caçador
Cynthia Guimarães Taveira

“Formosas são algumas e outras feias,
Segundo a qualidade for das chagas,
Que o veneno espalhado pelas veias
Curam-nos às vezes ásperas triagas.
Alguns ficam ligados em cadeias
Por palavras subtis de sábios magos.
Isto acontece às vezes quando as setas
Acertam de levar ervas secretas”

(Canto IX, 32 e 33)
Camões


Parecia ter desaparecido nas brumas da modernidade e ei-lo o Homem Novo, primitivo, perto da origem, pronto e pleno.

“Não há aqui qualquer pretensão de originalidade, a não ser que por origem se entenda aquela fonte onde todos bebemos, aquela ideia sem a qual nem sequer podíamos saber que há pensamento.”[i]

Imaginemos o cenário em que o encontramos. O cenário, não é cenário, mas todo o real.

“Mas o que é o desconhecido?
É logo de início o próprio mundo sensível e daí o enigma primogénio da sensação. Eis o que habita em nós. Não há pontos firmes e toda a dificuldade está em movermo-nos onde não há lugar.”
[ii]

E esse real é uma floresta. Uma floresta misteriosa.

Só há mistério enquanto se vê.”[iii]

Esse homem primitivo caça.

“Aristóteles comparou a filosofia à caça e, com efeito, a ave que se solta livre no espaço está para os olhos do atirador como a ideia está para o pensamento do filósofo que a transmutará em conceito.”[iv]

Podemos ouvir as folhas a serem pisadas enquanto passa e a fortaleza dos seus músculos batendo na terra em resposta ao seu pulsar.

“As touradas, meu caro amigo, foram feitas não para dominar os touros, porque então seria melhor e mais fácil matá-los a tiro, mas calcule você!, para dominar os tremores de terra.”[v] (...)

DEPOIS DE AMANHÃ: MATEUS SOARES DE AZEVEDO NA ASSOCIAÇÃO AGOSTINHO DA SILVA

Quinta-feira. É já depois de amanhã, dia 30 de Abril, pelas 19:00, na Associação Agostinho da Silva, em Lisboa, que o escritor Mateus Soares de Azevedo vai apresentar o seu mais recente livro, Homens de um livro só, bem como a recente tradução para a língua portuguesa do livro de Frithjof Schuon, A Transfiguração do Homem. A organização é do blogue Sabedoria Perene, da autoria de Miguel Conceição e Nuno Almeida, e tem o apoio da AAS, que gentilmente cede o espaço.

O pensador brasileiro irá ainda proferir duas breves palestras. Na primeira, intitulada “Esoterismo e Exoterismo no Sermão da Montanha”, apresentará uma interpretação “perenialista” de um dos textos mais importantes da tradição cristã. A segunda prelecção tem, de alguma forma, um carácter mais político-religioso e centra-se na tentativa de resposta à questão "Estará esgotado o papel histórico dos Estados Unidos da América?”. Mateus Soares de Azevedo enquadra a resposta no cenário internacional actual e com a função do fundamentalismo islâmico e do sionismo.
Mais informação e mapa...

SAUDAÇÃO A ANTÓNIO TELMO, 2



Testemunho a/de António Telmo
José Albuquerque

Dar depoimento é fazer prova e fazer prova é demonstrar. É assim que o testemunho é encarado como prova judiciária.
Enquanto prova, o testemunho tem por objecto algo que é duvidoso, incerto ou controverso e é o julgamento que reconhece, por via dessa prova, um facto ou um direito com valor de verdade, que depois a sentença apenas ratifica.

Há aspectos do testemunho, enquanto prova, que não se podem transpor, como critérios, quando quem queremos homenagear é o Dr. António Telmo.

Desde logo, não está em causa, nem é necessário demonstrar ou fazer prova do seu encanto.
Depois, a sabedoria que se lhe reconhece não é nem controversa, nem incerta, nem duvidosa.
E sobretudo a verdade das suas palavras não requer qualquer julgamento nem sentença que a ratifique.

Não posso assim dar testemunho do Dr. António Telmo, porque esse testemunho, enquanto prova ou demonstração, é em si mesmo impossível.

Aliviado desse encargo, é de outro testemunho que gostava de dar fé: do seu próprio «testemunho», daquele que ele transporta e que tem passado àqueles que, com privilégio, lhe querem bem e o procuram honrar e merecer.

Mas como posso dele dar fé se pouco e mal conheço a sua obra?

Sendo fraca testemunha da obra, sou-o porém do que vi e conheci e do que se produziu na minha presença quando o ouvi filosofar nas várias ocasiões em que esteve em Sesimbra.
Afinal, não é a presencialidade ao acontecimento que dá credibilidade intrínseca à testemunha?

Se alguma credibilidade me for então reconhecida, dou fé em primeiro lugar do desejo de melhor conhecer e, quem sabe, também merecer, o «testemunho» do Dr. António Telmo. Imagino-o muitas vezes como o sábio que, no texto de Agostinho da Silva, escreve as «sete cartas a um jovem filósofo». Quanto gostava de receber uma e de através dela me sentir livre do peso do fato que os homens me fizeram vestir, como diria Fernando Pessoa!

Dou depois fé da capacidade de fazer espantar quem o ouve. Num tempo em que a vida manipula os homens, faz deles gente do erro e do medo e lhes quer sugar a alma, em que gostaríamos de nos sentir livres de tanta coisa que carregamos às costas, mesmo sem sabermos, em que a ganância e a vileza esburacou e depois encheu a alma dos homens com excrementos, esse é o privilégio maior, tão poucas são as sãs oportunidades de espanto pela palavra.

Dou fé ainda da luz que as suas palavras e raciocínio irradiam, da atracção que essa luz causa e da elevação espiritual que a todos os que o ouvem congrega.

Admirado pelo testemunho a/de António Telmo, corro o risco de, quando morrer, ao ir à presença de Deus para prestar contas, ele me perguntar porque é que, tendo-me sido dada vida e nome próprios, quis ser como António Telmo.

Certamente, António Telmo, espiritual e luminoso, total e intensamente António Telmo, nunca será sujeito a esse juízo de Deus, mas apenas ao seu testemunho.

Com admiração,

J. Albuquerque.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

RAZÃO POÉTICA, 1

[Poesia e Filosofia: Poesia Filosófica e Filosofia Poética]

“(…) Portugal, no tempo de Camões, vinha de iniciar um longo ciclo tenebroso de quatrocentos anos, de quarenta decénios ou de quatro séculos. Dir-se-á (…) que as legiões de Ahriman passaram a reger definitivamente os nossos destinos. «Uma austera, apagada e vil tristeza» enublou a alegria auroral da Ilha e quando, passados esses quatrocentos anos de deserto da alma, se começou de novo a ouvir a «angélica soada» dos poetas ou o severo dizer dos filósofos, quando vários «movimentos» espirituais de inequívoco sinal disseram ter chegado a hora da transfiguração logo movimentos contrários se formaram, aos quais uma longa, astuciosa e ardilosa campanha tinha dado todos os recursos e todas as armas para se imporem na opinião pública e deixarem na sombra a misteriosa jasminácea do pensamento português.

Duas figuras dominaram, durante meio século, o círculo das acções e reacções mentais dos portugueses: António Salazar e António Sérgio. Ambos têm de comum um critério cheio de severidade para com todas as formas de imaginação que se apresentam, nos poetas e nos prosadores, com a finalidade secreta ou patente de dizerem o mistério. A imaginação é, no pensamento de um e de outro, uma diversão da mente humana, que deve ser contida nos seus limites, onde deverá manter-se sem qualquer pretensão gnósica. É à própria imaginação, dada como a forma do irracional, que é atribuída, num a desordem política, no outro a desordem mental que caracterizam a vida portuguesa. Ordem e progresso ou ordem e clareza eis o ideal proposto por estes dois mestres das gerações actuais. António Salazar, numa entrevista, mandou Leonardo Coimbra deixar-se de filosofias e dedicar-se a escrever versos; António Sérgio, disse a Teixeira de Pascoaes que continuasse a escrever versos, mas não se metesse com a filosofia. Para que ficasse tudo na mesma, foi sob a égide de António Sérgio que se fez a revolução contra Salazar.

(…)

A esta separação ou cisão da poesia e da filosofia há que chamar aqui (…) o fender-se da Ilha ou o quebrar da ponte Chinvat. Não significa isso que queiramos propor uma poesia filosófica, mas temos de dizer uma filosofia poética. Um dos poucos exemplos de poesia filosófica é a de Antero de Quental, aliás o poeta mais caro a António Sérgio. Em Antero de Quental, a imagem não é vivência ou símbolo, mas alegoria. O exemplo mais alto da filosofia poética é o de Leonardo Coimbra, aliás o pensador mais odiado por Sérgio e por Salazar. Nele, a ideia é a flor enorme que abre na floresta esplendorosa da imaginação; a ideia é vivência da qual nenhuma imagem pode ser alegoria.

A negação do mundo intermediário, da sua realidade, existência e objectividade, pela sua conexão com a fantasia, a mística, a intuição e o irracional, teria como consequência, a tornar-se completamente vitoriosa, a ruína da poesia e da filosofia e a suspensão do movimento essencial da alma que aspira à verdade. Esse mundo, porém, causa pavor e alguns se negam, por fé débil, a tomá-lo a sério.

Confundida a imaginação activa com a dispersiva fantasia, contra a poesia e a filosofia dos «imaginativos» levantam os adversários da gnose a exigência de um pensamento prático, «de pés fincados na terra». A teorização desta exigência atrai e solicita os estratos profundos deste povo da experiência, que atravessou os mares, edificou cidades e civilizações e «compassou» o universo. Há, porém, que não confundir a experiência, forma de conhecimento no perigo, com a preocupação de governar bem a casa, de fincar os pés na terra para nela ficar preso. A experiência do nómada do espírito não é a experiência do sendentário.”

António Telmo

(excertos retirados de Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões, Guimarães, 1982)

SAUDAÇÃO A ANTÓNIO TELMO, 1

Ao António Telmo
Isabel Xavier

Quando alguém nos é como o lugar
Que desenha Terra e Céu no horizonte
Ponto onde o sol vai mergulhar no mar
Ou o luar incide sobre o monte

Quando alguém é para nós o mastro
O vento que enche as velas, branca escuna
Sulcando o azul do mar, em sobressalto
O grito da gaivota sobre a espuma

Quando alguém é para nós o cais
Onde aportamos após a travessia
O ouro puro, puros os cristais
Rosa-dos-ventos além da maresia

É que se dá o anúncio da passagem
Milhares de asas de pássaros batendo
E a luz intensa desfere na paisagem
Golpes mortais dos quais vamos nascendo.

domingo, 26 de abril de 2009

A PARTIR DE AMANHÃ E ATÉ SÁBADO: SAUDAÇÃO A ANTÓNIO TELMO

Aniversário. António Telmo, mentor dos Cadernos de Filosofia Extravagante, festeja no próximo sábado, 2 de Maio, 82 anos de vida, efeméride que, a partir de amanhã e até ao dia do aniversário, aqui iremos celebrar, com a publicação de uma série de depoimentos, testemunhos e breves ensaios assinados pelos seus amigos. Paralelamente, será lançada uma nova rubrica, Razão Poética, na qual se darão a conhecer excertos fundamentais das suas obras. No dia 2, será também publicado um notável escrito autobiográfico da sua autoria, ainda inédito, e que, durante a próxima semana, virá a lume no jornal O Sesimbrense.

EXTRAVAGÂNCIAS, 16

Carta de Abel de Lacerda Botelho a João Tavares, sobre os Cadernos de Filosofia Extravagante

Lisboa, 13 de Abril de 2009

Exmº. Senhor
Dr. João Tavares
Serra d’Ossa Edições
Rua 5 de Junho, Lote 160
7160-216 VILA VIÇOSA
Exmº Senhor
E Meu Caro Amigo

Recebi hoje, a oferta dos dois exemplares dos “Cadernos de Filosofia Extravagante” que mui amavelmente me enviou, e que penhoradamente lhe venho agradecer.
E ao mesmo tempo, venho felicitá-lo como Editor, e ao Grupo de Autores por mais esta iniciativa cultural – tão necessária nos tempos que correm – e que é demonstrativa de que a Filosofia Portuguesa vive, está de boa saúde, e até se recomenda que seja tida em atenção pelos “débeis de espírito” que infelizmente nos desgovernam a educação e a cultura lusa.

Faço sinceros votos de que esta “semente” lançada em terra de Além do Tejo frutifique e dê 100 por um, pois a “terra é boa” e os “agro-cultores” que dela tratam são genuínos e autênticos o que, e por isso mesmo, avalizam e são garantia de “bons frutos” – e mesmo que “frutos extravagantes”, sejam eles.
Bem hajam. Continuem, e sinceros votos e profícuo labor.

Mesmo quanto ao título encontrado para título da Revista: “Cadernos de Filosofia Extravagante” eu vos felicito também, não só por se adivinhar que o possível “padrinho” tenha sido o António Telmo, na esteira do Agostinho da Silva, como na verdade a “nossa filosofia Portuguesa” se enquadra perfeitamente no epíteto de “extravagante”.
Pois a palavra “extravagante”, para além de poder ser sinónimo de “estroina” ou de “perdulário” como é focado e bem na vossa “Apresentação”, ela é também sinónimo de “Extra-vagante” isto é: “algo que vai além de, que ultrapassa, que supera, que é mais que somente “vagante”. Vagante, neste sentido, é o viajante “sem caminho”, aquele que “anda” no “vago”, aquele que viaja vagando, ou que “vagando” caminha, e viaja ao sabor da vaga.
O que viaja, ao sabor e à ordem da vaga, o vagante, é por si mesmo, o eterno conformista, que néscio ou conscientemente se deixa arrastar pelo Destino, pelo Fado (Fatum-i), num total determinismo apático, inodoro e insalubre.
Ora o Extra-vagante, é o vagante que usando a sua vontade, e mais a sua força ou energia intelectiva, enfim: usando o seu livre-arbítrio consegue fazer face, opor-se, contradizer o “vaguear”. E mesmo que “afinal” venha aceitar o jugo determinista, o faz com pleno desejo sofredor.

Há mais de 4 (quatro) décadas até hoje, venho insistindo privada e publicamente, e a nível nacional e internacionalmente, em alguns areópagos culturantes, que a cultura e a Filosofia Portuguesa, não é melhor, nem pior, do que a de qualquer outro Povo, ou civilização. O que ela é – é verdadeiramente diferente da dos outros Povos!
E por que é que ela é diferente?
Porque aqueles que a “pensam”, que “a cultivam” sendo uma síntese da Paideia do Povo que a cria, a pratica, que a vive, estão no mundo, não como “vagantes” mas sim como “extra-vagantes”.

Comungo pois inteira e completamente, com o título que encontrastes para nome da Vossa Revista, a que uma vez mais auguro os melhores êxitos.

Vosso Irmão na Defesa e Divulgação
Do Pensamento Português

Abel de Lacerda Botelho

sábado, 25 de abril de 2009

EM LISBOA, A 30 DE ABRIL: MATEUS SOARES DE AZEVEDO NA ASSOCIAÇÃO AGOSTINHO DA SILVA

Brasil. Está assente. Na próxima quinta-feira, 30 de Abril, pelas 19:00, na Associação Agostinho da Silva, em Lisboa, o escritor Mateus Soares de Azevedo apresenta o seu mais recente livro, Homens de um livro só, bem como a recente tradução para a língua portuguesa do livro de Frithjof Schuon, A Transfiguração do Homem. A organização é do blogue Sabedoria Perene, da autoria de Miguel Conceição e Nuno Almeida, e tem o apoio da AAS, que gentilmente cede o espaço.
O pensador brasileiro irá ainda proferir duas breves palestras. Na primeira, intitulada “Esoterismo e Exoterismo no Sermão da Montanha”, apresentará uma interpretação “perenialista” de um dos textos mais importantes da tradição cristã. A segunda prelecção tem, de alguma forma, um carácter mais político-religioso e centra-se na tentativa de resposta à questão "Estará esgotado o papel histórico dos Estados Unidos da América?”. Mateus Soares de Azevedo enquadra a resposta no cenário internacional actual e com a função do fundamentalismo islâmico e do sionismo.
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OS POETAS LUSÍADAS, 10











NEVOEIRO

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço de terra
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fatuo encerra.

Ninguem sabe que coisa quer.
Ninguem conhece que alma tem.
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ancia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

É a Hora!
Valete Fratres.
[10-12-1928]
Fernando Pessoa

NO PORTO, A 30 DE MAIO



Nomes. Os de António Telmo, Pedro Sinde e Alexandre Teixeira Mendes, que irão participar na sessão de apresentação de Universalidades, primeiro número dos Cadernos de Filosofia Extravagante, no Clube Literário do Porto. Será no dia 30 de Maio, sábado, pelas 21:30.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

OS POETAS LUSÍADAS, 9


AO TRISTE ESTADO

Passa por este vale a primavera,
As aves cantam, plantas enverdecem,
As flores pelo campo aparecem,
O mais alto do louro abraça a hera.

Abranda o mar, menor tributo espera
Dos rios, que mais brandamente decem,
Os dias mais fermosos amanhecem,
Não para mim, que sou quem dantes era.

Espanta-me o porvir, temo o passado,
A mágoa choro dum, doutro a lembrança,
Sem ter já que esperar nem perder.

Mal se pode mudar tão triste estado,
Pois para bem não pode haver mudança,
E para maior mal não pode ser.

Frei Agostinho da Cruz

quinta-feira, 23 de abril de 2009

EM SETÚBAL, A 14 DE MAIO

Apresentação. Mais uma, a sexta, de Universalidades, o primeiro número dos Cadernos de Filosofia Extravagante, desta feita na Academia Problemática e Obscura, em Setúbal, na noite de 14 de Maio, com início às 21:30. Depois de Rodrigo Sobral Cunha e Renato Epifânio terem dado a conhecer o projecto, logo no dia 21 de Março, na Casa de Bocage, Luis Paixão e Pedro Martins irão marcar presença nesta nova escala da inquietude por terras à beira-Sado.

EM MONTEMOR, A 16 DE MAIO

Simpósio. O segundo de uma série de quatro, num ciclo subordinado ao tema 12 Teoremas do 57 – Actualidade dos teoremas do Movimento de Cultura Portuguesa. Na Livraria Fonte de Letras, junto à Câmara Municipal de Montemor-O-Novo, com início às 16:30, e em conjunto com a apresentação de Universalidades, primeiro número dos Cadernos de Filosofia Extravagante.
Desta vez, os apresentadores e os teoremas em foco serão os seguintes:
Rodrigo Sobral Cunha e a Filosofia da História
Helder Cortes e a Universidade
Pedro Martins e a Pátria
Cada interlocutor convidado apresentará durante dez minutos um teorema.
Finda a apresentação iniciar-se-á o debate alargado a todos os convivas do simpósio.
Na semana que antecede a realização deste simpósio, os teoremas respectivos serão publicados no blogue dos Cadernos.

EM SESIMBRA, A 9 DE MAIO

Lançamentos. O do livro Congeminações de um Neopitagórico, de António Telmo, agora com a chancela da Zéfiro, e o do terceiro número da revista Nova Águia, que tem como tema O Legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte. A sessão, com início marcado para as 15 horas, tem lugar na Biblioteca Municipal de Sesimbra e conta com a presença do autor de História Secreta de Portugal, do editor Alexandre Gabriel, de Pedro Sinde, que fará a apresentação das Congeminações, de Renato Epifânio, um dos directores da Nova Águia, e de Pedro Martins.
Tal como Brasília, foi Sesimbra um dos traços de união no mapa da convivência espiritual que Agostinho da Silva e António Telmo mantiveram durante décadas. Por isso, nos dias que antecedem o evento, este blogue irá dar especial atenção à presença e à acção dos dois grandes vultos por terras e mar de Sesimbra.

EXTRAVAGÂNCIAS, 15

Dom Carlos
por Pedro Martins

Tive há pouco notícia, pelo Pedro Sinde, de que o Dom Carlos, drama em verso da autoria de Teixeira de Pascoaes, já está em cartaz (e assim irá permanecer até 17 de Maio), representado pelo Teatro Experimental de Cascais. Soubera do respectivo desígnio, há cerca de um ano, pelo António Cagica Rapaz, que então o escutara ao grande actor João Vasco, como ele sesimbrense, e, com Carlos Avillez, um dos esteios da companhia cascalense. Vejo agora, com renovado júbilo, que o propósito de animar o drama se concretizou afinal.
A peça, publicada em 1925, não fora nunca levada à cena. Só agora o foi. Teve, para isso, de esperar pouco menos de um século! (Por aqui se vê como este é um país perdido…) A fortuna editorial da obra também não é famosa. É certo que conheceu várias edições – a que possuo é a 3.ª – no ano em que saiu a lume; mas, depois disso, apenas foi reeditada pela Bertrand, no âmbito da publicação, inconclusa, das obras do poeta, que Jacinto do Prado Coelho ali promoveu. É hoje um livro raro, preciosidade de alfarrabista, que dificilmente se encontra à venda. Dado que o drama subiu, enfim, ao palco, poderá a sua próxima impressão ocupar as cogitações da Assírio & Alvim, casa editora que, há mais de duas décadas, nos vem devolvendo o legado de Pascoaes?
Posto isto, não há senão que ir ver a peça. Ou sobre ela discretear a voo de pássaro. A muitos, não deixará porventura de causar surpresa o jaez apologético por que, nela, o poeta, presumível republicano, reabilita e exalta a memória do rei assassinado. Fá-lo como quem desagrava o soberano, tomando as dores de um Junqueiro havia pouco desaparecido, e, em seus últimos dias, roído pelo remorso, por julgar haver contribuído, com a violência exortativa do seu verbo (pense-se n’O Caçador Simão, do famigerado Finis Patriae), para as trágicas mortes do monarca e de seu filho, D. Luís Filipe. A esta luz, e como já deixei escrito em ensaio que será publicado proximamente na revista portuense Cosmorama, o Dom Carlos pode ser visto como um acto de contrição junqueiriano, mas havido a título póstumo e por mercê alheia, graça devida a quem, desde 1898, tomara a amizade de Junqueiro por uma “dívida” que se tornaria uma “sagrada lembrança”.
Claro está que o desagravo, no seu fito justiceiro, não passa sem reparo. De um certo ponto de vista, firmado na objectividade histórica descritiva dos últimos anos do reinado de D. Carlos, o panegírico não resiste, por exemplo, ao cotejo com o relato demolidor que Sampaio Bruno pôde exarar nas páginas indignadas d’A Dictadura. Mas diversa se antolha a perspectiva em que Pascoaes se coloca, visto como, segundo creio, foi movido por um desencanto profundo ante o descalabro da Primeira República que o poeta compôs o drama em verso, e bem assim o Jesus Cristo em Lisboa, tragicomédia escrita em parceria com Raul Brandão. Eis o que, pelo prisma das coincidências estrutivas, pretendo mostrar em próximo livro.
Como quer que seja, o que do Dom Carlos sobretudo ressalta é o poder transfigurador da palavra demiúrgica e encantatória de Pascoaes, mormente na assunção, pelo autor, da via ascética e mística a que o alter ego do Alma empresta um trilho angelógico, mormente na recriação mítica de um messianismo de timbre brunino, a que a personagem do Príncipe Real, D. Luís Filipe, confere surpreendente modelo sebástico.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 6

António Carlos Carvalho

Vivemos hoje num tempo de confusões verbais – é vulgar lermos e ouvirmos que «a Torre de Belém é um ‘ex-libris’ de Lisboa» (claro que quem diz isso nunca viu um verdadeiro ‘ex-libris’ colado na página de um livro), que este ou aquela é um «ícone» (sem perceber que o verdadeiro ícone é uma imagem religiosa dos cristãos ortodoxos) ou que «a minha ideia vai de encontro à sua» (sem entender que isso significa «chocar» ...). E assim por diante. Às vezes parece que as palavras perderam o sentido que tinham e adquiriram um outro.

Mas há uma confusão de palavras que é muito mais antiga – dura há séculos. É a que diz respeito ao verdadeiro sentido de «profecia» e de «profeta». Confusão que está, aliás, consagrada nos próprios dicionários. Abrimos um deles e lemos:
«Profecia – predição do futuro, oráculo, vaticínio, prognóstico, presságio e conjectura.»
«Profeta – o que prediz o futuro, por inspiração divina; adivinho, vidente; título que os muçulmanos dão a Maomé» (repare-se na omissão: é como se não houvesse profetas na Bíblia, só no Alcorão. Curioso, no mínimo).
Mas quando lemos os textos bíblicos, a Profecia e o Profeta não «encaixam» nessas definições do dicionário:
-- a Profecia só acessoriamente é antecipadora dos acontecimentos;
-- o seu *dizer* não é um *predizer*, é uma categoria da Revelação divina;
-- a Profecia prossegue a espera, o tempo histórico em que o futuro é imprevisível.
O fim da Profecia, em termos bíblicos (nos séculos VI-V antes da era comum, com Hagai, Zacarias e Malaquias), não é o fim da História: a História prossegue, com a passagem do testemunho aos Sábios e, do outro lado do Mediterrâneo, o início da Filosofia (poucas vezes se repara nesta coincidência -- fim da Profecia, início da Filosofia...)
A leitura atenta da Bíblia mostra-nos que a Profecia é, sobretudo, o desvendamento do sentido da História segundo o ponto de vista do Criador; a Profecia anuncia a era messiânica; a Profecia é, primeiro que tudo, uma «informação» sobre a situação do indivíduo e do povo em relação à Aliança com Deus.
Por seu turno, na mesma Bíblia, o Profeta (que o texto hebraico chama Nabi) é aquele que é «chamado», o escolhido por Deus para ser o seu enviado, o seu porta-voz, o portador da Palavra Divina.
O Nabi recebe um apelo (chamamento) de Deus para ser o seu parceiro, para viver uma experiência a dois: o encontro entre o Homem e Deus na Aliança – isto acontece desde Abraham, o primeiro a ser chamado Nabi (Genesis, 20, 7). Abraham é chamado, é enviado, é o confidente de Deus, com quem dialoga e junto de quem intercede (como acontece no episódio de Sodoma). O Nabi é investido pelo Espírito, é escolhido «arbitrariamente», às vezes antes mesmo de nascer, como acontece, por exemplo, com Jeremias. Escolhido para quê? Para avisar, para lembrar as condições da Aliança ao povo de Israel mas também às nações (a Aliança noética ou noaquita, a que foi estabelecida entre Deus e Noé).
Para o Nabi, a Profecia (Nebuá) é um peso, um fardo – sozinho, mas com Deus, o Nabi apela ao arrependimento, ao retorno aos caminhos apontados por Deus. O Nabi surge nos períodos de maior crise, quando o Povo perde a sua natureza (de povo de reis, sacerdotes e profetas), quando o Rei não aplica a justiça, quando o Sacerdote abandona a noção de pureza – então surge o Nabi para restabelecer o diálogo entre o Povo e Deus. Por isso, muitas, vezes, ele é um contra-poder.
O Nabi não se reduz a proferir oráculos ou a predizer futuros falaciosos – não é senhor do tempo, não sabe o que será o futuro, deixa apenas avisos e uma palavra, Laken, «talvez», «todavia», porque sabe que Deus também se arrepende, é justo, e os homens também. O Nabi é um arauto da justiça, é um lutador, um combatente: bate-se pela ética, que tem prioridade sobre a religião, anuncia, denuncia, lembra, exorta, faz actos simbólicos. Ele é um mediador entre o Céu e a Terra. O Nabi é «o intérprete do grande diálogo entre o Divino e o Humano a que chamamos História» (Martin Buber).
Deus diz a Jeremias: «Tu serás como a minha boca» e a boca do profeta é aberta à força (15, 19). O Nabi fala para os homens do seu tempo e o seu «slogan» é «paz». Só fala depois de escutar a Palavra e de obedecer (porque está apto a escutar).
Como dizia Maimónides, a visão profética é uma audição, na Profecia é o ouvido que vê, é a escuta que é o sentido da visão.
Pode-lhe acontecer sonhar, ter um sonho profético ou visionário, mas o sonho é uma 60ª parte da Profecia ou o fruto não amadurecido da Profecia. A visão tem de ser traduzida em palavras, porque só a palavra cria, actua. A palavra do Nabi deixou de ser subjectiva – é comunicação, transmissão de uma mensagem divina; é a resposta a um apelo, não é mais palavra, é vocação. O Nabi assemelha-se a um cativo, não prediz futuros, não faz milagres. Quer provocar uma tomada de consciência (o verdadeiro Profetismo não é catastrofista). O Nabi faz compreender as consequências, falando em nome de Deus – e a palavra de Deus é reversível, não é uma fatalidade. O Nabi diz ao Homem que ele também é um criador. Se o Nabi provoca a crise, se faz terríveis advertências, também constrói e planta, restitui a Aliança e suscita a Esperança, não o desespero.
Toda outra vai ser a posição dos apocalipses e dos autores apocalípticos; neles, o futuro está previsto e é visto como algo que acontece por si mesmo, sem que o Homem o possa impedir. O Apocalipse, que vem através de um canal persa, fala de salvação e descreve uma situação dramática, é uma revelação total e definitiva – surge no contexto do Segundo Templo e do exílio de Israel. O autor apocalíptico não fala, escreve – escreve um futuro pré-determinado, um destino; anuncia que o fim da História está próximo. É um discurso escatológico, um saber sobre o fim; revela o que será esse fim, é uma predição. O Apocalipse sucede à Profecia e substitui a Profecia.
É esse o sentido do texto de Daniel, que será tão citado pelo Padre António Vieira e que ele tanto elogia: Daniel, «um grande profeta», «tem o primeiro lugar entre os verdadeiros profetas, porque é um Profeta dos Reinos e das Monarquias».
Vieira, intérprete do tempo, ao qual chama «o mais certo intérprete das profecias», diz também que o Bandarra é «verdadeiro profeta», «profetizou», e as suas profecias, «já cumpridas», «são mais de cinquenta»; Bandarra foi «alumiado pelo lume sobrenatural, profético.» Mais, o Bandarra é «o profeta para Portugal.»
Vieira vê a profecia, que diz ter-se perpetuado na Igreja, com olhos muito próprios: «Qualquer sujeito, por indigno e indigníssimo que seja, e ainda que careça da própria fé, contanto que seja criatura racional, é capaz do lume da profecia, e de ser verdadeiro e propriamente profeta». Para Vieira, profetizar é anunciar e prever. E os sonhos são profecias, as revelações são feitas em sonhos: «O modo ordinário de Deus revelar as coisas futuras aos profetas ou é por visões ou por sonhos, e de ambos estes modos eram as revelações que Deus fazia ao Bandarra», «intérprete do futuro.»
Por outro lado, Vieira afirma que S. João foi «o último de todos os profetas antigos» e «as profecias do Apocalipse são próprias do tempo que hoje corre.»
É neste contexto ideológico e teológico que António Vieira escreve o que escreveu. Por isso não é de estranhar que, no século XX, Fernando Pessoa, seu discípulo, tivesse lançado o apelo: «Troquemos Fátima por Trancoso.»

terça-feira, 21 de abril de 2009

PENSANDO À BOLINA, 2

Pedro Sinde


O desenho que a vida faz
A nossa vida é um acto contínuo; mas só vista de longe, de um ponto remoto a que dificilmente conseguimos chegar, precisamente porque se trata da nossa vida.
Quando olhamos a vida de uma pessoa no passado ou lemos a sua biografia, podemos ver esse acto único, contínuo. Mas, em relação à nossa, isso é mais difícil, porque estamos tão perto dela que nos aparece como um pontilhado de um quadro impressionista: se visto de perto, não se distingue a imagem lá figurada, mas apenas um conjunto de traços fugazes.

desenho de Albrecht Dürer

Para percebermos o sentido da nossa vida, para vermos a figura que cada gesto nosso vai desenhando subtil ou grosseiramente na tela, temos de encontrar esse ponto de distanciamento (nem longe em demasia, nem excessivamente perto) que nos permita, vendo o que já está desenhado, antecipar a direcção do traço presente. E, no fim, um anjo ou um demónio será a figura final.

Estamos sempre a tempo de mudar a figura toda, porque cada gesto do presente actua sobre todo o desenho do passado. Assim, um bandido transforma a sua vida passada, que mostrava a figura disforme de um monstro, numa figura belíssima de anjo, no momento exacto em que, de uma vez por todas, se arrepende.
texto originalmente publicado no blogue Maranos

segunda-feira, 20 de abril de 2009

NO CORAÇÃO DA ARTE, 1

Cynthia Guimarães Taveira

A Galeria
O pintor foi a uma reunião. Nada mais angustiante do que entrar nessa galeria em pausa entre exposições. Paredes brancas, frias. As galerias são desertos artificiais onde se esperam visões. Por sua vontade nunca exporia ali. Nem iria ali. Têm o sentido do deserto mas não são o deserto. O deserto é quente e as areias mudam de cor com o vento e com o sol. Por que não há galerias com plantas, veludos e sofás? Sim, com espelhos e candeeiros de luz dourada? Quem disse que assim não se veriam os quadros? Quem disse que ficariam oprimidos por outros belos objectos? Se se pinta para acrescentar beleza ao mundo porquê renunciar às outras belezas: espelhos venezianos, sofás com cornucópias em madeira, candeeiros de Lalique, plantas em ascensão, e essa luz dourada das lâmpadas em abajures confortáveis? Não será tudo arte? “Para a próxima vez exponho no deserto”, disse o pintor de si para si, “Perto do sol e do calor e aí beberei champanhe com mais prazer. Talvez, lá, tenha ideias em tons d’ouro”.

domingo, 19 de abril de 2009

AMANHÃ

Estreia. A de uma nova rubrica, No Coração da Arte, da lavra da pintora Cynthia Guimarães Taveira, habitual colaboradora deste blogue e autora do artigo "Coincidências", em Universalidades, primeiro número dos Cadernos de Filosofia Extravagante, que também ilustrou. São cerca de trinta breves reflexões, olhares lançados sobre a arte e o artista, da perspectiva do próprio artista. Com periodicidade semanal, a publicação começa amanhã.