(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



domingo, 19 de abril de 2009

PALAVRAS QUE FAZEM VER, 11

[Álvaro Ribeiro, o símbolo e a inspiração]

“Ao verdadeiro artista não se põe o problema de exprimir sinceramente a sua sentimentalidade, mas o problema de constituir imagem sensível de uma realidade insensível. A esta imagem se dá o nome de símbolo. O artista incapaz de imaginar, de verter o insensível no sensível, tem de recorrer a símbolos já feitos por outrem, e tal é o caso quando a escola forma tradição.”

“Chama-se inspiração aquela graça que o artista recebe depois de muito ter exercitado a imaginação. Quem desconhecer os nomes e as significações das nove musas, nunca chegará a compreender o que transcende o valor da obra artística. Inspirada, a imagem simbólica é a revelação do mundo sobrenatural.

Este poder de dar forma ao que ainda não tem forma, este poder demiúrgico, é efectivamente análogo ao poder divino. Lembremo-nos, porém, de que a forma significa o contrário da figura, na medida em que o exterior significa o contrário de interior. Há no instinto algo de que o artista tem de conseguir o domínio consciente para imaginativamente o relacionar com a vida sobrenatural.

Quando a obra de arte representa esse êxito, ela é divinamente comunicativa como nenhuma das mais. Então se pode falar de imaginação criadora, de imaginação que aumenta a realidade, enfim, de ideia. Todo o homem que tal atinge, estremece de paixão, de sentimento e de emoção, como se regressasse ao estado de alegria.”

Álvaro Ribeiro
(excertos retirados de A Razão Animada, INCM, 2009)

sábado, 18 de abril de 2009

OS POETAS LUSÍADAS, 7


LUZ DE CIMA

Como se espalha e vive no Universo
A luz de cada estrela
É que a verdade vem de cada verso
Como eu não desejava merecê-la.

Afonso Duarte

PALAVRAS QUE FAZEM VER, 10

[Álvaro Ribeiro, a Liberdade e o Estado]

“Eliminar a caridade ou os conceitos equivalentes de misericórdia, beneficência e assistência, de entre os fins atribuídos às instituições públicas, eliminá-los por incompatíveis com os meios legais e regulamentares, equivale a limitar a liberdade humana de associação para fins transcendentes e sobrenaturais.”

“Quando, no exercício das suas funções públicas ou da actividade profissional, alguém se recusa a beneficiar o seu semelhante, o seu subordinado, ou o seu inferior, alegando que para tal não lhe foram concedidos poderes, ou que teria de infringir o que está determinado no texto da lei, temos nessa argumentação a prova confirmativa de que das relações humanas vão desaparecendo as virtudes teologais. Quem pensa que as relações entre pessoas devem ser determinadas por semelhança com as relações entre coisas, e assim julga progredir segundo um ideal de objectividade jurídica, nega imediatamente o princípio de individuação, a liberdade do ser espiritual, e os fins dessa liberdade concedida por Deus. Claro está que nos cingimos ao direito público, mas esclarecemos ainda que esta crítica não interfere com as iniciativas de direito particular, nem com as esmolas concedidas a troco de pedidos, cartas e requerimentos, visto que quem humilha, por isso mesmo que humilha, não pratica a caridade.”

“É absurdo pedir liberdade, ou mais liberdade, ao Estado. Só um liberalismo erróneo, expresso em verbos gradualmente afastados da acepção própria, poderia confundir a liberdade com a justiça. A liberdade humana, que é de pensamento e não de vontade, tem origem em ideia superior a todas as categorias sociais”.

Álvaro Ribeiro
(excertos retirados de A Razão Animada, INCM, 2009)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

PARA LER


Revelação. Dom Sebastião e Santa Teresa de Ávila foram contemporâneos. Separados pela linha da fronteira, nada, aparentemente, os ligava... A não ser talvez aquilo de que Abdel Hayy nos dá conta em O Lugar da Alma. Um episódio pouco conhecido, mas muito para além da mera curiosidade histórica.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

OUVIR UM IMPORTANTE PENSADOR BRASILEIRO EM LISBOA

Apelo. O blogue Sabedoria Perene, da autoria de Miguel Conceição e Nuno Almeida, que os Cadernos de Filosofia Extravagante vêm seguindo com grande atenção e interesse, está em vias de concretizar um desígnio ambicioso. Com efeito, em resultado de uma inesperada deslocação a Lisboa, o ilustre escritor brasileiro Mateus Soares de Azevedo (na fotografia) predispôs-se a apresentar publicamente o seu último livro, Homens de um livro só, bem como a primeira publicação da editora Sapientia, a tradução por Alberto Queiroz do livro de Frithjof Schuon A Transfiguração do Homem, ambos os livros já abordados no Sabedoria Perene.

Existe ainda a possibilidade de condimentar aquelas apresentações com a discussão sobre dois temas sobre os quais o escritor se tem debruçado recentemente, um primeiro associado ao Esoterismo e ao Exoterismo no Sermão da Montanha e um segundo, com teor algo diferente, relacionado com o esgotamento do papel dos Estados Unidos no cenário internacional e com a função do fundamentalismo islâmico e do sionismo nesse processo (este último tema relacionado com o seu mais recente livro).
A realizar-se, este importante acontecimento poderá ser agendado para o final do dia 30 de Abril. Contudo, os organizadores consideram que apenas se justifica encetar diligências para a sua realização caso se garanta um número aceitável de presenças.
Deste modo, pede-se aos eventuais interessados na realização deste evento que confirmem com a celeridade possível essa intenção e disponibilidade para a data sugerida, através de um contacto por correio electrónico (mfm.conceicao@gmail.com).

Os promotores desta iniciativa agradecem ainda a sua divulgação junto de potenciais interessados no evento, e esperam poder anunciar brevemente informação detalhada sobre a localização e hora deste acontecimento.

PENSANDO À BOLINA, 15

Pedro Sinde

«Deseja tudo o que tens e terás tudo o que desejas»

Um dos padres do deserto – seria?, não recordo – terá dito isto. Esta frase é uma chave para que possamos medir o lugar em que nos encontramos, quer dizer, a distância a que nos encontramos de ser homens mesmo, de reencontrar uma condição que foi a nossa e que temos a obrigação de procurar reencontrar. A evolução é ao contrário: homens que fomos, para animais caminhamos. Estamos demasiado habituados (o hábito que desfaz o monge – o ser unificado, que é o que significa monge) a ver-nos assim uns aos outros e disseram-nos que somos humanos. É verdade, mas apenas em potência; temos condições para nos tornarmos humanos, porque o homem é um ser intermediário entre o divino e o cósmico: alguém entre nós pode reivindicar esta condição real?
Como só desejamos o que não temos, não podemos ser o que desejamos. Felizmente! É que nós não sabemos o que desejar ser…
A filosofia portuguesa dá-nos chaves várias para caminharmos do vale à montanha. Uma dessas chaves é dada por Álvaro Ribeiro, mestre de filosofia, de meditação, de contemplação e de oração (este último aspecto será abordado detalhadamente em livro, se Deus quiser).
É nesse livro luminoso e, por isso mesmo, iluminante, que é A Razão Animada, que se pode aprender, por meditação gradual, a separar a essência da substância, o que somos do que temos. Em gradual destilação de alquimia da alma, separando no misto que somos o superior do inferior, em linguagem hermética que Álvaro Ribeiro traduz em linguagem aristotélica para lhe dar forma filosófica: a essência e a substância.
São estas as misteriosas palavras de Álvaro Ribeiro:
Ao dizer-se eu, ao distinguir a sua personalidade da sua propriedade, cada homem reconhece que no desprendimento se dá um desenvolvimento, e que esse desenvolvimento equivale a uma evolução. Alcançaria a nudez essencial ou essente para que tende o movimento evolutivo, se existente não fosse a mediação do meu.
Estas palavras devem ser lidas em toda a sua realidade vivencial e não apenas como uma abstracção; mais, devem ser meditadas palavra a palavra, porque ali me parecem esconder-se chaves para a nossa salvação. Não, não creio exagerar. Temos, é claro, de ter presente que Álvaro Ribeiro não é o “racionalista” que pintam quantos o querem denegrir, ainda que o elogiando muitas vezes. O papel da razão não pode ser subestimado no seu pensamento, mas também não pode ser sobrestimado. A razão é um meio ortopédico, de rectificação do nosso pensamento e que tem sobretudo a tarefa de proteger o fluir mental dos automatismos mecânicos. O esforço da razão liga-se com a perenidade da consciência. A razão não dá a verdade, mas ajuda-nos a caminhar até ela, como um barco para atravessar o rio – chegados à outra margem, deixamos o barco na margem. Nisto, como em tantos outros aspectos, Álvaro é brunino (lembrar as verdades acima da razão, deste último). Para lá da razão está o intelecto angélico, diz-nos Álvaro Ribeiro, e aquele factor divinizante que é a imaginação. Se é divinizante, isto é, se nos aproxima de Deus, é porque é criadora, poiética, é porque é uma expressão do Criador, é porque é no homem um dos aspectos da imagem e semelhança, à luz da qual o homem foi criado. Estes aspectos afastar-nos-iam das reflexões convencionais sobre a filosofia portuguesa, porque a filosofia de Álvaro Ribeiro, ele o diz, não coincide com a filosofia portuguesa. A filosofia portuguesa pode-se tornar, se não for vivida, se não for vivenciada operativamente, apenas numa coisa que se tem e não em algo que se é. É que nós somos ainda razões animadas ou com alma e não já espíritos angélicos. Mas que, nesta separação entre o que é essencial e substancial, que é condição do caminho para a divinização, que não se arrisque o homem a separar aquilo que Deus uniu, nem a unir o que Deus separou.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 5

António Carlos Carvalho

Há duas semanas ouvi a curiosa notícia de que ninguém sabe bem a quem pertence um quinto do território português. Dias depois, ocorreu aquela tragédia do terramoto em Itália. E eu pensei: aí está a resposta, indirecta, a essa dúvida portuguesa sobre a posse da terra. A terra, toda ela, aqui, em Itália, no resto do mundo, pertence ao seu Criador. Nós só temos o usufruto disso e de tudo o mais. Fomos colocados neste mundo, que não é nosso, para o guardarmos e melhorarmos.
Tudo o que temos é um dom -- a começar pela própria Vida, obviamente (por isso é absurdo o que se ouve por aí, constantemente: «A vida é minha, faço dela o que quiser!»)
Mas se é assim com o mais precioso, a Vida, então passa-se o mesmo com o resto, menos importante: nós não somos donos, proprietários, senhores de coisa alguma. Tudo o que julgamos, ilusoriamente, ser nosso, «por direito», é apenas um empréstimo, algo de provisório.

Mas claro que só percebemos estas coisas evidentes quando a terra treme e as nossas casas desabam sobre nós, quando de repente nos encontramos sem nenhum dos bens que julgávamos nossos, muito nossos.
Ou quando, no limite, a vida que nos foi dada nos é retirada e partimos de vez, deixando para trás todos os tais bens que julgávamos adquiridos.
Emile Benveniste demonstrou claramente que o verbo «ter» se formou ao mesmo tempo em que a propriedade se instalou.
O Baal, divindade arquetípica da idolatria (contra o qual se levanta um Elias), é etimologicamente o «senhor», mas também «o esposo» e o «proprietário». A civilização ocidental, que se tornou mundial, e que fez da sua História um historial de destruição de bens e de vidas (basta ver o que se passou no século XX), fez do «ter», da «propriedade», o seu ídolo maior. E atribuiu um preço a cada coisa – incluindo a terra, a água, a casa, os alimentos, a saúde, a cultura, os próprios bens espirituais. Constantemente somos chamados a «ter» -- e não a «ser».
Curiosamente, todos os grandes sábios e mestres foram homens que nada tinham, nada possuíam, de nada eram proprietários. Mas que se preocuparam em ser – seres humanos, verdadeiramente.
E foram nómadas, claro. Como cada um de nós o é, na realidade: estamos aqui de passagem, não somos de cá, temos raízes no céu. Quando termina a nossa viagem por este mundo, levamos apenas connosco o que o nosso coração tiver aprendido, por ter sabido dar, isto é, por ter sabido usar bem os dons que o Criador lhe forneceu para essa mesma viagem.

terça-feira, 14 de abril de 2009

EXTRAVAGÂNCIAS, 14

Os Cadernos de Filosofia Extravagante*
por Luís Paixão

Não sei se foi de propósito terem escolhido o primeiro dia da Primavera para o lançamento da revista. Se foi essa a razão, escolheram bem; senão, o acaso fez-nos o favor de acertar connosco. Um pouco como as Coincidências referidas no texto da Cynthia; ou como o Rodrigo, quando descobriu e nos transmitiu essa misteriosa e inovadora doutrina do acerto de ritmos que produzem a harmonia, do condiscípulo e amigo de Leonardo Coimbra, Lúcio Pinheiro dos Santos. É pois, com muita alegria, daquela alegria primaveril cheia de promessas e de esperança, que estou hoje aqui para vos apresentar a publicação Cadernos de Filosofia Extravagante.

Independentemente dos colaboradores, dos quais tenho a honra de fazer parte, e do editor, o João Tavares, meu amigo de longa data e de muitas aventuras, não quero deixar de referir um triângulo que tornou possível a feitura desta publicação. O magistério de António Telmo e os dois obreiros cujo primeiro nome é Pedro: o Sinde e o Martins, incansáveis desde o primeiro momento na revisão dos textos, no arranjo gráfico, nos contactos e no acerto com os colaboradores e com a gráfica. Os meus agradecimentos, bem-hajam. Nunca é demais realçar que o fizeram sem qualquer interesse de ordem material, apenas e só por amor à sabedoria.
Entremos agora no miolo d'A noz. Que o mesmo é dizer na substância da revista. Diria na amêndoa e no figo que é o coração e o corpo. Para tanto e para não faltar à verdade socorro-me do texto do António Telmo muito bem escolhido pelo Pedro Martins.

[ler aqui texto de apresentação]

Creio que a extravagância vai mais longe ainda, porque o próprio filosofar nos dias de hoje, e na “terra mais antifilosófica do planeta”, como nos diz Leonardo Coimbra, é também extravagante. É como se fosse a extravagância dentro da extravagância.

Os Cadernos aparecem dentro de uma sequência de várias publicações produzidas pelo - muitas vezes - designado grupo da Filosofia Portuguesa, tuteladas inicialmente pelo magistério de Álvaro Ribeiro e José Marinho e, mais tarde, por Orlando Vitorino e António Telmo. Desde o 57 em 1957, passando pela Espiral, a Acto, a Escola Formal e, mais recentemente, a Leonardo e os Teoremas de Filosofia, que insistem e demonstram que ainda existem pessoas nesta Pátria que pensam em português. Nem sempre concordantes, nem sempre fiéis às teses que foram expressas por Sampaio Bruno e, mais tarde, em 1947, designadas por Álvaro Ribeiro Filosofia Portuguesa, tem havido recentemente uma progressiva exigência de alguns pensadores no sentido de reconduzir este movimento filosófico à sua matriz inicial. Numa aproximação livre e naturalmente subjectiva, vou tentar definir-lhe algumas características:

1º Há uma exigência de crença ou de fé, ou seja, o pensador tem que acreditar em Deus. É como se fosse a letra a do alfabeto da filosofia. Vivemos num mundo completamente ateu e antiteísta.

2º O pensamento é o dado sobrenatural no homem e é a manifestação do espírito em si próprio. Só é possível experienciar esta realidade desde que se pratique a reflexão e a autognose. Num mundo completamente virado para fora é um esforço de heróis.

3º É como se o pensamento fosse uma espécie de oração. Esta noção classifica o pensamento como acto operativo e efectivamente transformador do ser humano.

4º As religiões são, portanto, para serem pensadas.

No nosso caso, o do Ocidente, que é o das três religiões monoteístas e abraâmicas, esta atitude levanta problemas e inquietações em relação às ortodoxias ciosas da estabilidade do dogma.
Por isso, sopra a brisa fresca da heresia e a respectiva condenação em muitos pensadores da Filosofia Portuguesa.

Paradoxalmente, é mais fácil para as igrejas aceitar as doutrinas filosóficas ateias. É como se a filosofia não pudesse conduzir a outro lugar. Só nos resta portanto o pensamento da razão prática: a ciência positiva.

Não percebem os donos da verdade que, para haver um pensamento actual vivo e de esperança, ele terá que se libertar das correntes da razão prática da ciência materialista e do dinheiro, e erguer-se a outras alturas.

O pensamento português não é contra as religiões, antes pelo contrário. Nelas busca a verdade, a beleza e a bondade da tradição primordial.

5º Também há heresia em relação às autoridades da ciência, porque o pensamento não se aceita sujeito à razão científica, e esta, que eu saiba, não tem também incluída a ideia de Deus. Não demonstrou mas virá a demonstrar a Sua Existência. Para isso teremos que esperar pela resolução de uma equação, talvez a do 5º grau.

Agora vamos à capa.

A escolha do belo desenho da palmeira do Carlos Aurélio foi uma feliz escolha, porque ele é portador das mais amplas e profundas significações: a palma de ouro do herói Eneias, a palma do Domingo de Ramos e da ressurreição de Cristo. A configuração das folhas que são semelhantes à coluna vertebral e que remetem, por isso, o seu sentido para a iniciação. A nitidez do helicóide, da sua inserção no tronco.

Esta incidência no elemento vegetal é de altíssimo valor simbólico, porque a semente é acolhida e enraíza na matéria-prima, que, neste caso, é a tradição portuguesa, havendo, portanto, um movimento para dentro, de recolhimento, para só depois se abrir para a Luz.
Esse tronco robusto, com a inserção das folhas em espiral, desenvolve-se abrindo os ramos ao Sol; mas, cada um é, com efeito, diferente, porque recebe a luz de uma maneira diferente, consoante os pontos cardeais para que está orientado. O virado para Sul mais luminoso, o virado para Norte com mais sombra, obscuro. Do mesmo modo são distintas as expressões dos colaboradores desta revista. Completam esta exploração pela flora simbólica as magníficas fotografias dos bosques, das clareiras da floresta apanhadas pelo Tiago Cunha, retratos daqueles belos versos de Dante:

“Da nossa vida a meio de uma jornada
Em tenebrosa selva me encontrei
Perdido era o caminho verdadeiro”

Quem fala em tronco fala em escol, ou escola, em ligação de vários tempos e gerações, e é isso que também se sente pela variação das idades dos autores, entre os vinte e os oitenta anos.


* Texto lido na sessão de lançamento dos Cadernos de Filosofia Extravagante, em 21 de Março de 2009, na Biblioteca Municipal de Sesimbra.

NO PORTO, EM 30 DE MAIO

Porto. A inquietude faz escala na cidade da liberdade. A apresentação de Universalidades, primeiro número dos Cadernos de Filosofia Extravagante, na terra do Infante já tem data marcada: será no próximo dia 30 de Maio, sábado, pelas 21.30, no Clube Literário do Porto, instituição a quem desde já agradecemos o magnífico acolhimento dispensado ao nosso projecto.
Entretanto, a 16 de Maio, será a Livraria Fonte de Letras, em Montemor-O-Novo, a acolher uma outra sessão de apresentação dos Cadernos, em conjunto com a realização do II Simpósio sobre os Teoremas do 57. O início desta sessão está marcado para as 16:30.

EXTRAVAGÂNCIAS, 13

Um Sonho
por Pedro Martins
Desenho: apontamento de Sant'Anna Dionísio

Um sonho havido esta noite, durante o sono, bem entendido: Renato Epifânio convida-me a escrever num próximo número da Nova Águia, e, comodamente, propõe-me o tema, que quase se diria um título: Leonardo Coimbra e o movimento do Y. Num primeiro momento, tomo a proposição como uma charada, ou uma bizarria; logo depois, como um enigma sério, que urge decifrar, imediatamente, ali mesmo, perante o Renato.

Concentro-me na letra: há, com efeito, um movimento no seu desenho, uma árvore, ou haste, que se bifurca em braços, ou ramos. Então, num ápice, como um náufrago que se agarrasse à tábua de salvação, antes de acordar, lembro-me ainda de certa passagem, já celebrizada, do prefácio que António Telmo escreveu para um livro de Pascoaes: Álvaro Ribeiro afirma, em dado momento, que não há uma, mas duas escolas de filosofia portuguesa. Não diz por meio de que pensadores se faz a divisão, mas não estará errado supor que estaria pensando em Sampaio Bruno e em Leonardo Coimbra. Eu vejo, quando evoco estes dois espíritos, a Igreja de João e a Igreja de Pedro perfilando-se no horizonte destacadas uma da outra, mas iluminadas pelo mesmo sol.

A esta luz, que é já a da vigília crítica, o movimento do Y passa por ser o da própria filosofia portuguesa. Suspeito, porém, que as duas hastes venham invertendo reciprocamente a direcção dos respectivos destinos originais, rumo ao infinito da Luz. Não sei, ao certo, que haverá a esperar do seu encontro. Mas o X em que agora estão representadas é um símbolo das encruzilhadas de Deus.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

EXTRAVAGÂNCIAS, 12

Apresentação de Álvaro Ribeiro aos Sesimbrenses*
por António Telmo

Compreende-se que a organização desta homenagem a Álvaro Ribeiro me tenha escolhido a mim para fazer a sua apresentação, isto é, para tornar o filósofo presente entre nós como um ser vivente e não como forma abstracta de pensamento. Compreende-se, porque de todos os que aqui vêm falar sobre ele e que com ele conviveram eu sou o mais antigo, aquele que durante muitos anos privou com ele e que sempre o procurou seguir em tudo quanto escreveu, embora por caminhos próprios, que não quer dizer que sejam os melhores.

Álvaro Ribeiro é (com Agostinho da Silva) o mais notável discípulo de Leonardo Coimbra. Não o mais notado. O mais notado, embora também notável, é Agostinho da Silva, já um dia homenageado nesta mesma sala. A sua vida decorreu obscura, repartida entre o modesto trabalho de ganha-pão e o estudo, isto é, o desejo que realmente importa satisfazer um dia. Exprimo-me assim, porque estudo, do latim studium, significa o desejo por excelência. (...) ler mais

sábado, 11 de abril de 2009

OS POETAS LUSÍADAS, 6










ANDORINHAS

Voa a andorinha, d’asa em foice aguda,
Corta o ar, sobe ao Céu, e vai e volta;
Não sei de ímpeto audaz que não lhe acuda
No delírio sublime, em que anda envolta.

Juntam-se às vezes numa coorte muda,
E, a um sinal, que uma andorinha solta,
Partem, povo liberto que sacuda
Asas, bandeiras negras de revolta.

- Eh! lá! eh! lá! Oh! andorinha espera,
Pára: que eu vou também, quero emigrar,
Tenho saudades duma nova esfera.

Agora, vá… largai! que além do mar
Abre o seio e sorri a Primavera…
Eia! Andorinhas, é voar… voar…!

Jaime Cortesão

sexta-feira, 10 de abril de 2009

EXTRAVAGÂNCIAS, 11

Santa Liberdade
por Pedro Martins

Como sou jurista, gosto de pensar, porventura erradamente, que o princípio da indivisibilidade da confissão vale também para o domínio da hermenêutica poético-filosófica. No fundo, isto pode querer dizer que nos não é lícito levar em conta no pensamento alheio apenas aquilo que nos agrada ou convém. Um autor há-de valer por tudo quanto disse e escreveu, mesmo que amiúde se contradiga. Lembre-se, a este propósito, o caso extremo, e sumamente inquietante, de Teixeira de Pascoaes, pensador refractário a qualquer cristalização. Não teremos nós de o considerar no desconcerto do seu movimento perpétuo? Creio bem que sim.
Mas, mesmo para Pascoaes, há palavras que são como âncoras. Uma, pelo menos: Liberdade. Não se cansou de repeti-la, numa entrevista que, em 1949, concedeu ao Diário de Lisboa, em apoio à candidatura do General Norton de Matos, contra o regime salazarista. Nela, o poeta distingue a justiça, ligada ao pão do corpo, da liberdade, ligada ao pão do espírito. Aquele deve ser igualmente distribuído por todos; este, consoante o que for do agrado de cada alma.
O entrevistado cede ao prosaísmo quando, logo depois, resolve pôr as coisas por claro:
– Quero pensar conforme as minhas tendências intelectuais e sentimentais ou filosóficas e religiosas. A liberdade filosófica e religiosa é a liberdade suprema.
Só por si, esta última frase seria o bastante para inscrever Teixeira de Pascoaes na lista gloriosa daqueles que, na casa de Portugal, sempre souberam honrar a santa Liberdade. Não vale a pena enumerá-los: estão lá quase todos.
Mas Pascoaes vai mais longe, e chega a afrontar a censura quando explica:
– Necessitamos duma certa desordem na ordem, a respiração do ar, em Abril, que fecunda as plantas, e o bater das asas que andam a construir os ninhos. Desta certa desordem ou liberdade deriva a liberdade política, a formação de vários partidos simbólicos de vários ideais políticos dignos de existir e colaborar no Governo dum país. Um único partido legal tem uma existência passiva e infecunda.
Não se confunda o sonho do vate com a realidade actual, mesquinha e rasteira. Tal como as coisas estão, há sempre um partido único no governo do país.
Na esteira de Sampaio Bruno, seu mestre, que n’O Brasil Mental se declarara “socialista anarquista”, ansiava Pascoaes por um culto cristão que conciliasse a liberdade espiritual, anarquista, com a fraternidade amorosa, comunista. Escreveu-o em A Minha Cartilha, sensivelmente na mesma época em que concedeu a entrevista ao Diário de Lisboa. Tal como Álvaro Ribeiro, o poeta estava ciente de que o filósofo não é um homem de partido, e de que a verdade se divide na concorrência das doutrinas.
Renato Epifânio irá colaborar no segundo número dos Cadernos de Filosofia Extravagante com um artigo a favor do novo Acordo Ortográfico, que já escreveu e deu a conhecer, em três entradas publicadas ontem no blogue da Nova Águia. Mesmo ciente de que, sobre esse assunto, muitos de nós pensam de modo diferente, e até oposto, não deixou de, com galhardia, aceitar o repto, que António Telmo lhe lançou, de defender as suas ideias. Seja bem-vindo.
Na imagem: Teixeira de Pascoaes
Água-tinta sobre papel de António Carneiro

quinta-feira, 9 de abril de 2009

PENSANDO À BOLINA, 1

Pedro Sinde

A um homem simples de Santo Tirso que todos os dias ia ao templo
Todos os dias Deus chama por ti. E sempre à mesma hora tu estás disponível, livre. Dizes, então, que “sim, Amen”.
Aquiescente, livre e obediente, todos os dias àquela hora, cabeça baixa, passo lento mas certo, respondes ao teu chamamento.
Pobre diabo, assim exclama quem te vê de longe passar; mas na verdade és um pobre de Cristo. Vejo-te agora, de chapéu e gabardina, ambos surrados, ambos cinzentos, quase invisíveis de puídos. Levas a cabeça baixa, como se olhando pudesses ofender alguém. E lá vais, livre e obediente, nunca faltando ao teu compromisso.

desenho de Albrecht Dürer

Como sabes tu que Deus te chama todos os dias à mesma hora? Nunca o ouviste. Nunca leste nenhum livro – nem sabes ler letras. E, no entanto, todos os dias dizes que “sim, Amen”.

Em que corda profunda Deus te toca? Com que misteriosa ressonância respondes tu no alaúde da tua alma ao acorde que Deus tange em ti?

Ó meu Deus, o que os teus olhos viram! O que sofreste! A fome por que passaste… Não houve um dia, Verão ou Inverno, que a tua pele não estalasse mais um pouco ou mais um pouco mirrasse. Os teus onze irmãos morreram já, uns com pneumonia, outros à fome ou ao frio.

Carregaste toda a tua vida como um fardo pesado. E, ainda assim, que corda profunda Deus toca em ti? Com que misteriosa ressonância respondes tu no alaúde da tua alma a esse acorde? O que viu e sabe a tua alma de Deus para todos os dias à mesma hora, do mesmo modo, livre e obediente, responder? Que abismos insondáveis guardas no regaço da tua alma?

Não precisas de argumentos, sabes mais do que os doutores da teologia.

Ah! Que misteriosa íntima união se dá entre ti e Deus… de tal modo que ignoras que ele, o Senhor do Universo, Sonhador deste nosso mundo, Chama Viva do Pensamento, Criador dos nossos destinos, o Rei, o Único, te chama; e mesmo assim, sem saberes sabendo, respondes que “sim, Amen”.

Santo Tirso, 21 de Dezembro de 1998

texto originalmente publicado no blogue Maranos

quarta-feira, 8 de abril de 2009

PALAVRAS QUE FAZEM VER, 9

[Álvaro Ribeiro e Guerra Junqueiro]

"Guerra Junqueiro não é entre nós considerado um filósofo, apenas porque não escreveu livros de filosofia. Tão mesquinho critério bibliográfico, vigente em meios universitários, leva pelo contrário a considerar filósofos alguns professores que nunca manifestaram autonomia, profundidade, ou originalidade de pensamento. No entanto, ninguém que conheça medianamente as obras de Guerra Junqueiro poderá negar que o poeta sempre se interessou com ansiedade, se não com angústia, pelos problemas humanos, pelos segredos naturais e pelos mistérios divinos.

Não foi Guerra Junqueiro o cantor que apenas renova a expressão poética de uma ortodoxia ou de uma heterodoxia; não escreveu escolástica poética, se assim é lícito dizer. O seu pensamento de interrogação, indagação e inquietação, em vez de se deter em teses dogmáticas ou em conceitos fixos, caminhou sempre para mais além. É fácil apontar erros a quem se desencaminha, mas é difícil traçar a topografia da aventura espiritual.

Contemporâneo da luta entre o positivismo e o catolicismo, ou, paralelamente, entre mecanismo e finalismo, Guerra Junqueiro situou-se no lado da fidelidade às tradições portuguesas. Só assim é lícito interpretar hoje a sua obra satírica e polémica. No entanto historiadores há que, na impossibilidade de apreciarem uma obra de génio, não distinguem as intenções superficiais das intenções profundas.”

Álvaro Ribeiro

(in A Arte de Filosofar, Portugália, 1955)

OS POETAS LUSÍADAS, 5



REGRESSO AO LAR

Ai, há quantos anos que eu parti chorando
Deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?... há trinta?... Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas para me eu lembrar!...

Dei a volta ao mundo, dei a volta à Vida…
Só achei enganos, decepções, pesar…
Oh! a ingénua alma tão desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida,
Canta-me cantigas de me atormentar!...

Trago d’amargura o coração desfeito…
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...
Minha velha ama que me deste o peito,
Canta-me cantigas para me embalar!...

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
Pedrarias d’astros, gemas de luar…
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho…
Canta-me cantigas de fazer chorar!

Como antigamente, no regaço amado,
(Venho morto, morto!...) deixa-me deitar!
Ai, o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

Canta-me cantigas, manso, muito manso…
Tristes, muito tristes, como à noite o mar…
Canta-me cantigas para ver se alcanço
Que a minh’alma durma, tenha paz, descanso,
Quando a Morte, em breve, ma vier buscar!...

Guerra Junqueiro

PARA LER

Ecos. O Sesimbrense, jornal onde a filosofia portuguesa marca assinalável presença histórica, dá notícia, na sua edição do mês passado, do lançamento dos Cadernos de Filosofia Extravagante na Biblioteca Municipal de Sesimbra, em 21 de Março.

terça-feira, 7 de abril de 2009

OS POETAS LUSÍADAS, 4


À MINHA MUSA

Senhora da manhã vitoriosa
E também do crepúsculo vencido.
Ó senhora da noite misteriosa,
Por quem ando, nas trevas, confundido.

Perfil de luz! Imagem religiosa!
Ó dor e amor! Ó sol e luar dorido!
Corpo, que é alma escrava e dolorosa,
Alma, que é corpo livre e redimido.

Mulher perfeita em sonho e realidade.
Aparição Divina da Saudade…
Ó Eva, toda em flor e deslumbrada!

Casamento da lágrima e do riso;
O céu e a terra, o inferno e o paraíso,
Beijo rezado e oração beijada.

Teixeira de Pascoaes desenho de Carlos Carneiro

PALAVRAS QUE FAZEM VER, 8

[Álvaro Ribeiro e Fernando Pessoa]

“Fernando Pessoa era poeta e filósofo, ouvia dentro de si as falas do diálogo eterno. Era também um profeta. Não foi arrancar a realidade portuguesa às trevas do inexistente, com a candeia de historiador ou de passadista: viu-a imediatamente, de olhos erguidos para o Céu, à luz brilhante dos mitos.”“A poesia de Fernando Pessoa começou já a ser estudada, e o poeta, desconhecido pelo grande público durante a vida inteira, tem hoje o preito das moças gerações. Os escritos filosóficos não têm sido considerados com igual atenção; são, porém, outras tantas obras-primas de uma inteligência penetrante que não se detém perante os mistérios da alma e os segredos da cultura. Um estudo revelará mais tarde a unidade de pensamento de um escritor que se dissocia em vários heterónimos; à primeira vista o que bem impressiona é a variedade, e portanto a riqueza, dos pontos de vista que Fernando Pessoa sucessivamente adoptou, deliciado talvez com o espectáculo de incompreensão que lhe davam os contemporâneos. (Leonardo Coimbra, pelo contrário, sofria com as manifestações de intolerância e de desinteligência dos seus conviventes).”

Álvaro Ribeiro

(excertos retirados de Prefácio a A Nova Poesia Portuguesa, de Fernando Pessoa, Dispersos e Inéditos, I, INCM, 2004)

EXTRAVAGÂNCIAS, 10

Epigrama
por Pedro Martins
desenho de Almada Negreiros

Se a memória me não atraiçoa, Óscar Lopes terá dito, ou escrito, algures que “Fernando Pessoa – infelizmente (sic) – era um grande poeta”, ao passo que Pascoaes seria um poeta de “terceira ordem”. Não tenho à mão o número de A Phala onde se dá notícia do desconchavo. Mas recordo-me da indignação justiceira com que José Bento mandava perguntar ao professor comunista quais os seus poetas de primeira, segunda ou qualquer outra ordem. Foi isto há uns doze ou quinze anos. Cito de cor, já se vê.

Em época menos recuada, concedeu Clara Ferreira Alves, na qualidade de directora da Casa Fernando Pessoa, uma entrevista de imprensa a um jornal diário, na qual declarava que não lhe interessava nada o “lado religioso” de Fernando Pessoa, faceta que a senhora, de resto, considerava “detestável”. Mais ou menos por essa altura, li um escrito publicado no JL, no qual um jovem professor da Faculdade de Letras do Porto, de seu nome Rui Lage, afirmava que a visão do mundo de Pessoa, articulada na sua poesia, era “definidora da nossa identidade”, mas “não da pátria”, pois que “a sua única obra menor” seria, precisamente, a Mensagem.

Claro está que, com os néscios, há sempre o recurso, de resto inútil, de lhes sugerirmos o estudo das lições clássicas que Álvaro Ribeiro e António Telmo dedicaram à grandeza do poeta; ou a leitura dos prefácios notáveis que Pedro Sinde e António Carlos Carvalho apuseram a importantes edições da Mensagem, vindas a lume no ano de 2007, com as chancelas da Porto Editora e da Caixotim, respectivamente. Aquela já vai na segunda tiragem; esta mereceu honras de lançamento com sala cheia, na sobredita Casa Fernando Pessoa, perante a ausência do seu director.

Como, um dia, bem notou António Telmo, Fernando Pessoa já havia sido corrido, no sentido tauromáquico do termo. Corrido para ser morto, ou seja, para ser roubado à filosofia portuguesa.

Depois disto, a gente ficou a pensar que vira tudo. Puro engano, afinal. O cálix não estava esgotado. Havia de ir até o nojo das fezes. Assim foi.

Só que, em lugar do larápio, era agora o pretenso dono da casa que assomava, agitando um varapau e exibindo um alvará! E Fernando Pessoa era de novo corrido. Corrido da filosofia portuguesa, expulso da casa de Portugal, que outrora ajudara a erguer.

O larápio, que ia a passar naquele momento, esfregou as mãos de contente. Reconhecido, acenou ao putativo proprietário, exibiu-lhe o troféu inesperado. Desta vez, não fora sequer necessário introduzir-se em casa alheia.
Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és…

segunda-feira, 6 de abril de 2009

PENSANDO À BOLINA, 14

Pedro Sinde

Um bando de anjos
Estava com o Denis a conversar sobre o grupo de filosofia portuguesa ou extravagante (hoje, para se ser português é preciso estar fora da vaga…) que se reúne a oriente de Estremoz, como li no prefácio de um livro de António Telmo. Depois de um breve silêncio, como se pensasse para si mesmo e a propósito do recente encontro em Montemor, disse: “Quase nenhum deles tem ideia disso ou acredita sequer nisso, mesmo que lho mostrassem, mas, na verdade, eles são um bando de anjos. É claro que quase todos eles conhecem apenas o seu lado humano, as suas vidas banais, as intrigas, mas, “atrás” disso, são um grupo de anjos, desnorteado, à procura de Deus. E, o que é mais interessante, é que quando se reúnem já estão num daqueles lugares angélicos a que se refere Swedenborg, só que, como não sabem disso, julgam que estão na Fonte de Letras ou na Biblioteca de Sesimbra… E mesmo quando não se reúnem, vários deles, não todos, se encontram nesses lugares de alma.”

imagem da autoria de Hannah Michael Gale Shapero

“Mas tu não estiveste em Montemor, pois não?” Perguntei-lhe eu estupidamente, como se isso tivesse algum interesse depois destas palavras. “Estive, estive. Eles é que não deram por isso.” E continuou: “O anjo não é o que se pinta habitualmente. Alguns têm o seu estado angélico apenas em potência e outros parcialmente em acto.” Não entendo bem…” exclamei. “O estado angélico do homem é aquela imagem à semelhança da qual ele foi feito no princípio dos tempos, quer dizer, agora mesmo, porque o princípio é agora, o princípio é fora do tempo e, por isso, é em cada momento, envolve o tempo inteiro como num abraço. Quando estamos no tempo – Denis acentuou esta expressão – a nossa alma julga que este mundo é mesmo este mundo, não vê que este mundo é já o outro. É ela que se exila, ao julgar que está num mundo separado!”
E mais não disse. Ficou ensimesmado no seu silêncio, do qual vi brotar uma ínfima lagryma. O privilégio que eu tenho de conviver com este homem.

Deixo-o assim tal como mo disse o desconcertante Denis; só lamento não poder descrever o modo naturalmente convincente como ele o diz, tenho a certeza de que se o leitor o ouvisse, não acreditaria no que ele diz, mas antes saberia que é assim. Mas como sabe ele tudo isto?

domingo, 5 de abril de 2009

EXTRAVAGÂNCIAS, 9

Duas cartas de Álvaro Ribeiro a Rafael Monteiro*


Lisboa, 27 de Dezembro de 1965

Exmo. Sr. Rafael Monteiro e
Prezado Confrade nas Letras:

Motivada é esta carta pela obrigação normal de lhe agradecer, quanto antes, a bela amabilidade das suas notícias e a gentil oferenda de um livro. Nesta fase última da minha vida sou pouco dado à epistolografia, mas perante factos de significação e valor, como o da sua missiva, não posso deixar de reagir com gratidão.
Folguei deveras com o anúncio de que o Rafael Monteiro vai elaborar, e concluir, um estudo sério sobre uma nova hipótese acerca da origem do fado, e queira Deus dar-lhe perseverança para cumprir tal dever, neste triste país onde é constante a elegia do não vale a pena. Se me expediu tão boa notícia, considerou também o meu exemplo de homem que persiste e não desiste, enquanto os outros se lamentam e desculpam.
Creio verosímil a sua hipótese acerca da origem e da essência do fado, com a correcção do dizer semita onde diz hebraico. A influência arábica foi poderosíssima na Península Ibérica, e também a fenícia…
O meu velho estudo sobre o fado foi um escrito de circunstância que não poderá ser útil ao trabalho do Rafael Monteiro. Quem lhe deu a informação nunca leu o texto, e errou se não mentiu. No entanto, como se trata de escrito publicado, gostosamente envio uma cópia. No mesmo semanário colaborou José Régio com um poema que reproduziu no respectivo livro. Convém não ignorar que também escreveram fados Afonso Lopes Vieira e António Botto.
Envio-lhe os “Parabéns”, ou o “Deus queira” (Oxalá) de bom augúrio e incitamento para o seu estudo. Com os melhores agradecimentos pela sua gentileza, subscrevo também os votos de Boas Festas e de Feliz Ano Novo de quem lhe manifesta tão sincera estima intelectual.

Álvaro Ribeiro
____________

Lisboa, 20 de Setembro de 1973
Exmo. Sr. Rafael Monteiro,
meu prezado Amigo:

Recebi, li e agradeço o seu curioso opúsculo sobre os painéis «de Nuno Gonçalves». Também li, recentemente, o belo estudo que intitulou de «Esclarecimento da história da vila piscatória de Sesimbra».
Bem sabe que muito aprecio os trabalhos históricos do Rafael Monteiro, com suas inteligentes hipóteses e suas ressurreições de vidas esquecidas. O tema dos painéis, além de misterioso e escabroso, é também perigoso para quem o abordar sem os indispensáveis sacramentos, pois causou já muitos desgostos a escritores ilustres e até uma morte por suicídio, mas eu louvo a coragem de quem é capaz de se sacrificar na defesa de causas perdidas. Perdida está a minha campanha em prol do ensino da filosofia portuguesa nas escolas públicas, mas nem por ver a desistência dos que outrora me acompanharam deixei alguma vez de insistir na seriedade do meu propósito.
O espírito arábico-judaico, por assim dizer sefardim, que subjaz na língua e na cultura portuguesas, moldado depois pela cleresia católico-romana, bem merece a atenção do Rafael Monteiro no anunciado estudo sobre o «convento» do Cabo Espichel, cuja publicação se aguarda com o maior interesse. Não é verdade que os cristãos portugueses impedissem que se pintasse a figura do judeu em igreja católica; contra essa objecção milita a abundância de azulejos com temas do Velho Testamento, a pintura de uma admirável e perfeita figura de rabino na igreja do Convento de Cristo em Tomar, e a extraordinária figura da árvore sefirótica, com seus dez judeus, num altar lateral da Igreja de S. Francisco em Estremoz. Grande parte, se não a maioria, dos sacerdotes portugueses protestavam em silêncio contra as barbaridades cartaginesas da Santa Inquisição, e protegeram quanto possível os marranos.
Nossos tempos são diferentes!... Vivemos num período de destruição política da Pátria, e até dos fundamentos históricos da Nacionalidade. O Governo nomeia deputados, governadores civis, presidentes das câmaras entre doutores que ignoram as raízes étnicas e o passado institucional dos povos sobre os quais vão exercer autoridade. Assim se descaracteriza a paisagem natural e social por obediência às instruções da O.C.D.E. e da U.N.E.S.C.O.
Bem hajam, pois, os escritores populares e patriotas que protestam contra a utopia da uniformização cultural num Mundo em que o espaço e o tempo diferenciam as manifestações da vida. Rafael Monteiro merece a gratidão dos sesimbrenses!...
Queira confiar sempre na estima intelectual que já alguns anos lhe dedica o seu amigo e admirador

Álvaro Ribeiro
* Originalmente publicadas em Sesimbra Eventos, n.º 35, Fevereiro/Março de 2005.

sábado, 4 de abril de 2009

NA PRÓXIMA SEGUNDA-FEIRA


Regresso. Em 2007, no blogue Maranos, manteve Pedro Sinde, durante alguns meses, a rubrica Pensando à Bolina, muito do agrado dos leitores. Entre 7 de Junho e 29 de Dezembro desse ano, treze foram as crónicas e os apontamentos que ali vieram a público. Na próxima segunda-feira, a sequência será aqui retomada, com a publicação do 14.º texto daquela série, facto que assinala igualmente a estreia do autor de O Canto dos Seres na página digital dos Cadernos de Filosofia Extravagante. Entretanto, ao longo deste ano, e em alternância com o surgimento de novas crónicas, também os textos antigos serão (re)publicados neste blogue, com uma diferenciação gráfica evidente.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

EXTRAVAGÂNCIAS, 8

Testemunhos sobre Agostinho da Silva no centenário do seu nascimento*
por António Reis Marques

Quis a Câmara Municipal de Sesimbra associar-se às comemorações do centenário do nascimento de Agostinho da Silva.

Em boa hora o fez, porquanto, ele foi um grande amigo desta terra, onde teve casa e gostava de permanecer e contactar com a sua gente.

Talvez por ser um dos poucos sobreviventes dos amigos que teve em Sesimbra, merecesse a honra do convite para vir dar-vos o testemunho da convivência que com ele tive o privilégio de manter, durante muitos anos.

Todavia, será mais em homenagem à sua memória, que tanto venero, que aqui me encontro, pois as minhas pobres palavras pouco ou nada poderão acrescentar ao lustre do muito que, no decurso deste ano, se tem dito e escrito sobre essa singular figura que marcou o século XX português. (…) ler mais

quinta-feira, 2 de abril de 2009

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 4

António Carlos Carvalho

Parece que desta vez é que a coisa avança: Trancoso vai finalmente ter o seu Museu Bandarra e o seu Centro de Interpretação Judaica Isaac Cardoso. Há mais de três anos que um grupo de consultores, do qual faço parte, trabalha neste duplo projecto, apresentando ideias, elaborando sucessivos estudos e documentos, mas o Município enfrentou sucessivas dificuldades em dar concretização ao que se propunha. A ordem de avançar surgiu agora.

A ser assim, vamos ter em Trancoso um museu dedicado a Bandarra, à História de Trancoso e a outras figuras importantes da terra. Além do sapateiro-trovador a quem muitos chamaram «profeta», o museu incluirá um observatório de messianismos, milenarismos e visões apocalípticas, proféticas e utópicas na esfera da chamada lusofonia. Ou seja, pretende-se que Trancoso se torne o principal centro de estudo destas importantes questões, mesmo a nível internacional.
Quanto ao Centro de Interpretação Judaica Isaac Cardoso, do qual foi já lançada a primeira pedra, destina-se a albergar a memória dos judeus da cidade – os que ali nasceram e viveram e os que dali foram obrigados a fugir, perseguidos pela Inquisição, exilando-se em lugares tão distantes como a França, a Holanda, a Polónia, o Brasil ou o México. Este Centro vai ter um espaço de exposições, um espaço museológico dedicado ao passado judaico da cidade e também um espaço de oração para os visitantes judeus: uma sinagoga, que se chamará Poço das Águas Vivas, uma vez que o Centro vai ser erguido junto do velho mas sempre vivo Poço do Mestre.
A atribuição do nome de Isaac Cardoso a este Centro justifica-se plenamente pela vida e obra exemplares deste filho de Trancoso, ali nascido em 1603 ou 1604, mas que foi obrigado a viver em Espanha (onde estudou nas universidades de Valladolid e Salamanca, doutorando-se em medicina, ensinou filosofia, publicou sonetos, foi amigo de Lope de Vega, publicou tratados científicos) e depois em Veneza (onde se assumiu como judeu e publicou «Philosophia libera», 1673 – considerada por Yosef H. Yerushalmi como «a primeira obra maior de filosofia geral escrita e publicada por um judeu praticante numa língua profana e destinada desde o início a atingir um vasto público europeu») e em Verona, onde viria a morrer em 1683. Em 1679 ainda publicou em Amesterdão a obra «Las Excelencias de los Hebreus», dedicada ao português Jacob de Pinto, e em que cita o Bandarra, Damião de Góes, Samuel Usque e Menasseh ben Israel.
O nome de Isaac Cardoso é conhecido, respeitado e venerado em muitos lugares do mundo, excepto em Portugal, como de costume. No entanto, em Trancoso, onde nunca foi esquecido, há uma rua com o seu nome, situada precisamente junto do local onde se vai erguer este Centro.
Pelo menos, é o que está previsto.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

ABDEL HAYY, IPSIS VERBIS


Não há outra forma de conhecer Portugal a não ser partindo dos sinais a que temos acesso. Desde o Romantismo que se procura estudar o Portugal popular, os costumes do povo. Esta tendência chegou aos dias de hoje e tem feito esquecer o estudo das elites do nosso pensamento. De um modo despretensioso, tenho procurado aqui apenas lembrar algumas personalidades que, muitas vezes de um modo discreto, deixaram, no entanto, marcas profundas. É esse o caso dos mestres de Ibn 'Arabî já referidos em entradas anteriores. Há outras personalidades, como Abravanel, que tiveram uma importância social imensa, desde logo pelas funções que desempenharam. Não é possível, num blogue, ir mais longe do que apenas indicar, sugerir, lembrar. Nos tempos de hoje, já não é pouco.

Outro aspecto fundamental para se conhecer o Portugal misterioso e único em que vivemos é o conhecimento das religiões tal como elas aqui se plasmaram. Não me refiro tanto a estudos como os de Leite Vasconcelos que, sendo muito importantes, já não nos dão a perspectiva vivente que necessitamos para realmente procurarmos quem somos naquilo que fomos.
Estou convencido que mais importante é o estudo das tradições a que no Islamismo se chamam do Livro. É claro que há outros livros sagrados, mas Deus diz no Corão que só revelou a Maomé alguns dos profetas; os outros livros sagrados não dizem respeito à nossa tradição que vem de Abraão / Ibraim. É por isso que se pode entre nós dizer "o Livro", por antonomásia: esse livro é aquele que vem a ser escrito desde a Tora, os Salmos, os Evangelhos (ou o próprio Cristo, o logos) e o Corão.
Parece que os portugueses andam adormecidos e uma das principais razões parece ser a falta de memória; a outra é o preconceito; o contrário do que foram nos seus melhores dias... Se soubessem a responsabilidade que têm no mundo, tudo mudaria.

terça-feira, 31 de março de 2009

EXTRAVAGÂNCIAS, 7

O Pedreiro
por Cynthia Guimarães Taveira

Terá sido em vão
Que ergueste as pedras?
E com elas um povo
Uma coroa de pétalas
E asas de lírio?

As tuas mãos tocaram-nas
Imprimiste quem eras nelas
Deixaste o teu canto gravado
Em conchas, búzios e algas
Em sinfonias de um sonho
Em frutos, anjos
E folhas, folhas de almas

Depuseste no templo o teu castigo
Sublime castigo
Como quem entrega a verdade

Essa pedra de raiz e saudade
Brota de um universo sem idade

Terás chorado sobre essas pedras?
E que socalco terão deixado as tuas lágrimas?
Será essa fenda aí ao lado
Ou aquela outra que ficou na noite?

Terás parado por um instante?
O martelo o esculpro, em silêncio
E em frente ao mar terás ficado
Curvado para cima
À luz de um céu distante?

A cada compasso e régua
Terás medido um sonho em pedra?
E do mesmo modo e ao mesmo tempo
Terás sentido a alegria fraterna?

Essa que afaga os fornos
Dos corações desejados
Essa que encarna diabos
Em anjos mal disfarçados

Terás gozado essa brisa
Pela manhã de quem cedo se ergue?
Ou terás pensado no infinito sol
Que não se apaga, apenas ferve?

Essas cúpulas e torres
Trespassam a linha do céu
São portais para o que não há

Terás passado essa fronteira breve
Deixando o túmulo, a lança e o leme?

Que te embala agora do outro lado?
A missão cumprida num sorriso
Será o teu rosto que vejo agora
Ali, debaixo daquele friso?

Em atenção me pergunto
Se as tuas mãos permanecem em pedra
Será o teu símbolo que me evoca
Ou a chama que esculpiste em demanda eterna?

SIMPÓSIOS SOBRE OS TEOREMAS DO «57»

Regresso. O do ciclo de simpósios 12 TEOREMAS DO 57 - Actualidade dos Teoremas do Movimento de Cultura Portuguesa, que, ao longo de 2009, os Cadernos de Filosofia Extravagante promovem na Livraria Fonte de Letras, em Montemor-O-Novo. Depois do sucesso da estreia, no primeiro dia do mês que hoje termina, a segunda sessão realiza-se no próximo dia 16 de Maio e tem início às 16:30. Desta vez, os apresentadores e os teoremas em foco serão os seguintes:
Rodrigo Sobral Cunha e a Filosofia da História
Helder Cortes e a Universidade
Pedro Martins e a Pátria
Cada interlocutor convidado apresentará durante dez minutos um teorema.
Finda a apresentação iniciar-se-á o debate alargado a todos os convivas do simpósio.
A anteceder a realização de cada um dos simpósios, os teoremas respectivos serão publicados no blogue dos Cadernos.

segunda-feira, 30 de março de 2009

EXTRAVAGÂNCIAS, 6

Ao redor de Jaime Cortesão
II – História e epopeia
por Pedro Martins

Retomemos o convívio do triunvirato insigne. Se Pascoaes foi o poeta da Renascença Portuguesa, e Leonardo o seu filósofo, nela terá sido Cortesão o historiador. Antevejo a perplexidade que se apodera do leitor. Nos anos que, de imediato, antecederam a fundação do movimento portuense; ou nos subsequentes, primordiais, em que tal movimento fulgurou – aqueles em que, na verdade, Jaime Cortesão ali desenvolveu intensa militância –, a sua produção literária foi, primeiro, poética; e, depois, teatral; mas não propriamente historiográfica. Há ainda, nesse período, um livro de contos, D’Aquém e d’Além Morte, editado precisamente pela Renascença em 1913, e porventura insuficiente, por isolado, para que se lhe possa fazer corresponder um veio saliente no corpus bibliográfico do autor de Divina Voluptuosidade. Dito isto, forçoso será concluir que as primícias dos seus estudos históricos coincidem sensivelmente com o dealbar do período em que o iremos encontrar à frente da Biblioteca Nacional (1919-1927), ou pontificando na direcção da revista Seara Nova, criada em Outubro de 1921. (...) ler mais

PALAVRAS QUE FAZEM VER, 7

[Álvaro Ribeiro e a filosofia extravagante]



“A sofia é o conhecimento especulativo do absoluto; resulta da actividade criadora da razão que vence infinitamente a pluralidade mortífera e polémica. A filosofia é o esforço para esse conhecimento.

A reflexão filosofal pode ser exercida pelo pensador solitário, fora da disciplina cultural, e conduzir até uma indagação fecunda pelas regiões espirituais ainda pouco exploradas; mas a validade de tal empreendimento arbitrário será referida a uma doutrina mais exigente de firmeza e de objectividade. Como ciência, saber sistemático e comunicável por conceitos, a filosofia dificilmente se expande fora do ambiente esotérico que lhe é próprio. O pensamento filosófico depende elasticamente do respectivo ensino acroamático; é a escola que dá vida – corpo e alma – à tradição espiritual, que a alimenta e regenera, que a medicamenta até com os produtos heterodoxos da meditação extravagante.”

____________


“É o ensino oral, pela sua influência artística e emotiva, mais próprio a despertar e a orientar a curiosidade dos alunos; não é porém, o suficiente para formar espíritos robustos, perseverantes e dominadores, capazes de vencerem as dificuldades que o ambiente social, cioso da sua terrenalidade, opõe aos que descem de um ciclo extravagante.”
Álvaro Ribeiro

(excertos retirados de O Problema da Filosofia Portuguesa, Inquérito, 1943)

domingo, 29 de março de 2009

AMANHÃ

Nome. Admitimos que a adjectivação de Extravagante dada à Filosofia que estes Cadernos se propõem cultivar possa ter surpreendido muito boa gente, porventura causando admiração, espanto ou desagrado. Haveria, decerto, inúmeros títulos mais convencionais, a par de alguns bem ousados, ou rutilantes. Sucede, porém, que a designação e a significação escolhidas nos surgem garantidas por um texto absolutamente canónico no universo bibliográfico da Filosofia Portuguesa. Amanhã mostraremos como.

NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA


Colóquio. Quinze anos passados sobre a morte do autor de Reflexão, o Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e a Associação Agostinho da Silva promovem um colóquio comemorativo da efeméride na Faculdade de Letras de Lisboa. É no próximo dia 3 de Abril, a partir das 10 horas. Para ler o programa, clique na imagem do lado esquerdo de modo a ampliá-la.
Nesse dia, os Cadernos de Filosofia Extravagante associam-se à iniciativa. Alguns dos seus colaboradores irão estar presentes na Faculdade de Letras e, aqui no blogue, será publicado o texto, ainda inédito, da palestra que António Reis Marques - um dos bons amigos que o Professor Agostinho tinha em Sesimbra - proferiu em Setembro de 2006, por ocasião do centenário do filósofo.

OS POETAS LUSÍADAS, 3

GOMES LEAL

Sagra, sinistro, a alguns o astro baço.
Seus três anéis irreversíveis são
A desgraça, a amargura, a solidão.
Oito luas fatais fitam no espaço.

Este, poeta, Apolo em seu regaço
A Saturno entregou. A plúmbea mão
Lhe ergueu ao alto o aflito coração,
E, erguido, o apertou, sangrando lasso.

Inúteis oito luas da loucura
Quando a cintura tríplice denota
Solidão, e desgraça, e amargura!

Mas da noite sem fim um rastro brota,
Vestígio de maligna formosura:
É a lua além de Deus, álgida e ignota.

Fernando Pessoa

PALAVRAS QUE FAZEM VER, 6

[Álvaro Ribeiro, os géneros poéticos e o soneto]

“Dir-se-á que a poesia é mais obra do coração do que do cérebro, mas este juízo precipitado é quase sempre formulado pelos poetas líricos, para os quais a obra de inteligência, ou filosófica, lhes parece sempre com o aspecto frio da poesia didáctica. A imagem primordial do poeta lírico é o próprio eu, a personalidade do autor, que irrompe claramente no alvor da adolescência, com seu nítido narcisismo, masculino ou feminino. Tal poesia se reconhece pelas imagens mais ou menos alusivas aos prazeres da alcova, no tom elegíaco dos desejos frustrados ou no tom hínico das vitórias logradas.

A poesia de solidão, de soledade, de saudade, tende a diluir-se na sequência da experiência humana, e em breve o poeta lírico há-de reconhecer o convívio social ou a presença interrogante do Universo. A sensitividade não basta à expressão, ela impõe os seus direitos. O pensamento do poeta passa do grau subjectivo para o grau objectivo.


A descoberta do outro eu, ou de alguém que procura a visitação da musa, atinge uma consciência lúcida de que o poeta não é o só, nem o eu. A dialéctica torna-se dramática, personaliza-se e personifica-se, marcando o desejo do teatro, onde tudo pode ser fingimento ou máscara. Toma o artista a consciência do mal, do mal que nos aflige, e de que sofremos, ou do mal que aflige os outros, e de que nos rimos, deixando na equação uma incógnita a que se dá o nome de o problema de Deus.

A epopeia é já a narrativa poética do divino, nominado ou inominado, mas de literatura propensa para a inserção ou encarnação no humano. Assim interpretamos os poemas épicos, sem excluir Os Lusíadas de Luís de Camões. Descobrir ou revelar o divino, ou o seu sucedâneo, no poema épico, é sempre como discernir a incógnita das valências e das equivalências expostas na equação.

Desta tripartição evolutiva dos géneros poéticos, não ensinada nas escolas literárias, merecia-me especial atenção e agrado a forma e a matéria do soneto. Com efeito, esta maravilhosa miniatura parecia-me de todos a mais apropriada para receber o silogismo, quando o sentimento é dominado pelo pensamento. A poesia portuguesa, tão feliz como a italiana na produção de sonetos, de Sá de Miranda a José Régio oferece uma longa galeria de artistas que asseguram a glória de uma literatura.

A influência da cultura católica e do culto cristão, sendo preponderante entre nos, facilita a temática habitual de poetas menores que por sonetos confessam o seu devocionário. A crítica literária saberá distinguir o ouro e o latão, a autenticidade filosófica e a imitação religiosa. Exemplo notável é o de Antero de Quental que, em seus sonetos mais sinceros, escreveu filosofia superior à das prosas que ressoavam como informação feliz acerca de doutrinas correntes no estrangeiro.

Era-me particularmente grata a beleza do dulce stilo nuovo, em boa hora importado da Itália. A leitura do Convito de Dante, em que os sonetos são seguidos de comentários filosóficos, foi para mim um primeiro exercício de interpretação, exegese e hermenêutica. Assim procurei ver em cada soneto um silogismo, como ensinou o discípulo de Aristóteles, e ainda que o não encontrasse, dava por bem aplicada a lição suavíssima de Dante:

Ó vós que gozais de intelecto são,
Mirai a doutrina que se esconde
Debaixo do véu de tão estranhos versos.”

Álvaro Ribeiro
(in Memórias de um Letrado, Guimarães, 1977)

sábado, 28 de março de 2009

OS POETAS LUSÍADAS, 2

S. FRANCISCO DE ASSIS

S. Francisco de Assis falava, outrora,
Aos animais, às flores, triste e só…
Se tudo quanto vive, sofre e chora,
É a mesma alma eterna e o mesmo pó!

E, por isso, ele tinha pena e dó
De tudo quanto doira a luz da aurora,
E não bebeu, no poço de Jacob,
Aquela água de vida redentora.

Ó lobos, meus irmãos! Irmãs ervinhas!
Irmãs pedras! Ó fontes pobrezinhas!
Ó ventos, meus irmãos, em doida guerra!

Quanto vos amo em Deus! E sinto bem
Que esta terra, que eu beijo, é nossa mãe
E que a sombra de Deus anda na Terra!

Teixeira de Pascoaes

PALAVRAS QUE FAZEM VER, 5

[Álvaro Ribeiro e os sonetos de Pascoaes]

“A revista A Águia, que eu fui lendo, comprando e coleccionando, publicou alguns dos mais belos sonetos de poetas portugueses. Desde Gomes Leal até Júlio Dantas, – se me é lícito dizer os extremos desta escala de valores, – se situam em trono muitos sonetistas de variados dons e de diversas tendências. Eram para mim os sonetos de Teixeira de Pascoaes aqueles que estavam mais perto da perfeição sólida, geométrica ou matemática, pelo que os estimava intelectualmente muito mais do que os longos poemas que são Maranos e Regresso ao Paraíso, ou do que as poesias difusas das Sombras.”

Álvaro Ribeiro

(in Memórias de um Letrado, I, Guimarães, 1977)

sexta-feira, 27 de março de 2009

OS POETAS LUSÍADAS, 1

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;

Começa de servir outros sete anos,
dizendo: - «Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida.»

Luís de Camões

quinta-feira, 26 de março de 2009

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 3

António Carlos Carvalho





Consta da tradição chinesa que, um dia, tendo um dos seus discípulos perguntado a Confúcio o que faria se mandasse, o velho sábio respondeu: «Rectificava os nomes».
Lembro-me muitas vezes desta frase de Confúcio, proferida há 2500 anos, porque me vejo muitas vezes confrontado com o mesmo desejo imperioso. Deve ser um dos sinais destes tempos: os nomes estão cada vez mais trocados, adulterados, gerando confusões na linguagem que deveria ser meio de comunicação – termo que agora aparece substituído por «interacção», ou seja, as pessoas deixaram de comunicar entre elas, passando simplesmente a «interagir»... Há muitas formas de se ser bárbaro e, tal como aconteceu com o antigo Império Romano, os bárbaros há muito que atravessaram as fronteiras.
Rectificar os nomes: eis a tarefa essencial. Por isso, desde há muito tempo, tenho o costume de ler sempre com o lápis na mão ou à mão. Certa vez descobri que o George Steiner costuma fazer o mesmo, tendo mesmo afirmado que «o judeu é aquele que lê com um lápis na mão, corrigindo as gralhas.»
Seja como for, a verdade é que leio sempre com o lápis a postos para sublinhar e anotar o que vale a pena e também para corrigir constantemente o que encontro mal escrito. Aconteceu agora com um livro aliás magnífico, «Breviário Mediterrânico», do ensaísta croata Predrag Matvejevitch, acabado de reeditar pela Quetzal. Uma obra em que o autor, viajante incansável desse mar que é também nosso, acentua que «a Europa nasceu no Mediterrâneo», lugar de todas as misturas, as das gentes e as das coisas, das ideias e das culturas. Um lugar (digo eu) que nada tem a ver com Bruxelas ou Estrasburgo, por exemplo, e onde nunca houve uma «moeda única» (como se fosse o único valor que poderia unificar os europeus...)
Acontece que, várias vezes, ao longo do livro, aparece escrito «deserto do Sara» -- forma bárbara e absurda imposta pelos revisores tipográficos, tal como, aliás, consta agora dos dicionários. Ainda não há muito tempo que se escrevia «deserto do Sahara» ou «Sahará»; depois, de repente, alguém (certamente iluminado por uma lâmpada de néon) lembrou-se de transformar esse nome em «Sara». Sem se lembrar (ou sem saber) que Sara é o nome de uma das matriarcas da Bíblia, mulher de Abraham e mãe de Isaac; que Sara nunca andou por aquele deserto nem lhe deu o nome; que Sara é um nome feminino e que, portanto, nunca se poderia escrever «do Sara»...
Mas já que falamos de Sara, e de rectificação de nomes, tenho uma proposta a fazer aos meus colegas colaboradores dos «Cadernos de Filosofia Extravagante»:
Neste primeiro número, encontrei várias vezes escrito «abraâmicas». O que só faz sentido se adoptarmos de uma vez por todas o nome original: Abraham (e não «Abraão», que tão mal soa mas que aparece assim grafado nas traduções-traições correntes da Bíblia). Abraham, sim, e com o h que transcreve a letra que Deus inscreveu no nome original Abram – e que as edições Serra d’Ossa, aliás, tomaram para si como sinal distintivo. Mais uma razão para não nos esquecermos dessa letra essencial, que designa o feminino, a direcção, o questionamento, mas é também o artigo definido, o que particulariza o objecto ou o indivíduo. E corresponde ao número 5, o número mediano, o do equilíbrio do processo em curso. E corresponde igualmente ao chamado quinto dia da Criação, o da fecundidade, da multiplicidade das espécies vivas. É depois da mudança do seu nome, com a introdução do , que Abraham vai gerar Isaac, viver a aliança divina e pô-la completamente em prática, ao longo de uma vida sempre marcada pelas (dez) provações. E em Abraham se concretiza, finalmente, o projecto divino para o Homem, que Adam e os outros não souberam cumprir. Emmanuel Lévinas escreveu: «Todos os homens verdadeiramente humanos são descendência de Abraham.»
E já agora, para sermos rigorosos devíamos igualmente escrever Sarah (como a artista Sarah Afonso assinava os seus quadros), porque também Sarah, que se chamava inicialmente Saray («minha princesa»), mudou de nome – passando a incluir o de YHVH (repare-se que o Nome impronunciável inclui dois , mas também o Y (yod) de Saray...)
Tudo isto tem a ver com a questão dos nomes. Em termos bíblicos, sempre que alguém vê o seu nome alterado, sofre uma mudança de destino, de projecto pessoal, de acordo com a vontade divina. No caso de Abram, «pai elevado», passa a ser chamado Abraham, «pai de uma multidão de povos». Nada disto é um acaso ou uma insignificância; pelo contrário, tem uma relevância simbólica fundamental. Por isso, escrever «Abraão» ou mesmo «Abraam» é completamente diferente de Abraham.
Rectifiquemos os nomes – assim ajudamos a reparar o mundo.


Já agora fica aqui a referência do melhor estudo que conheço sobre a figura de Abraham:
«Abraham – ou la recréation du monde», de Raphaël Draï, ed. Fayard, 2007. Obra que esclarece totalmente as questões aqui levantadas.

quarta-feira, 25 de março de 2009

UMA MÁ NOTÍCIA

Desinteresse. Ver a imagem de Isaac Abravanel reproduzida num selo estrangeiro, associada à comemoração dos 500 anos da descoberta da América por Cristóvão Colombo, pode dar a exacta medida do desinteresse a que os portugueses votam um dos seus maiores. Mas há quem o lembre: António Carlos Carvalho e Luís Paixão, nos escritos com que colaboram em Universalidades, primeiro número dos Cadernos de Filosofia Extravagante, e Abdel Hayy, numa entrada do já imprescindível blogue que é O Lugar da Alma.

UMA BOA NOTÍCIA

Fundação. Foi instituída a Fundação António Quadros. Pode ler a boa notícia no blogue Geometria do Abismo, da autoria de José António Barreiros.

terça-feira, 24 de março de 2009

EXTRAVAGÂNCIAS, 5


Testamento de Portugal aos Seus Portugueses
por Cynthia Guimarães Taveira

Deixo-vos cordas para que vos agarreis a elas, se o vento não estiver de feição. São cordas de pedra, feitas por vós mesmos, pois apenas as cordas de pedra decerto não cederão às intempéries das vossas provações. Estendem-se do céu ao chão, e assim, logo que as brumas vos cobrirem, saberão os caminhos pelo tacto dos vossos dedos que muito estimo, por serem capazes de muitas e grandes coisas. Deixo-vos as cordas para as intempéries e, quando o barco vos parecer avançar ou devagar ou aos solavancos, e Nosso Senhor, que não vos esquece, vos parecer um pouco distante, podereis lembrar-vos desta dádiva e de tudo quanto ela significa na viagem. O barco balança mas olhai as velas que permanecem de pé e, se o balanço se tornar em ira divina ou demoníaca (pois nunca sabemos bem), agarrai-vos ainda com mais força a essas cordas e, se possível, subi por elas até ao cimo do mastro. Vereis os vossos olhos serem transpostos do nível dos peixes que sois ao nível das aves, e, de lá, desse alto onde residem os anjos, constatareis que os reveses das vossas vidas são grãos de areia submissos ao mar, assim como vós sois submissos a Deus. Sede fortes e sábios como a pedra e nenhum mal vos poderá acontecer, pois Nosso Senhor ama os fortes e sábios porque para eles não há labirintos onde se esconda a sua fé e a sua coragem vinda dos sonhos, nem brumas que não possam atravessar. (...) ler mais

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segunda-feira, 23 de março de 2009

LISBOA, 22 DE MARÇO

Pedro Martins, Renato Epifânio e Rodrigo Sobral Cunha, durante a apresentação dos Cadernos na Galeria Matos Ferreira. A fotografia é de Rita Pinto.

SETÚBAL, 21 DE MARÇO

Rodrigo Sobral Cunha, Maurícia Teles da Silva e Renato Epifânio, na Casa Bocage, durante a apresentação conjunta de diversas obras com as chancelas das editoras Zéfiro e Serra d'Ossa: o segundo número da revista Nova Águia e o primeiro dos Cadernos, a Filosofia do Ritmo Portuguesa, de Rodrigo Sobral Cunha, e as Actas do III Colóquio Luso-Galaico sobre a Saudade: em Homenagem a Dalila Pereira da Costa. As fotografias são de Rita Pinto.

SESIMBRA, 21 DE MARÇO

António Telmo, lendo um poema, durante o lançamento dos Cadernos. Rodrigo Sobral Cunha propôs-nos uma outra legenda: O Mastro com a Vela cheia. A fotografia é de Rita Pinto.