Entretanto, a 16 de Maio, será a Livraria Fonte de Letras, em Montemor-O-Novo, a acolher uma outra sessão de apresentação dos Cadernos, em conjunto com a realização do II Simpósio sobre os Teoremas do 57. O início desta sessão está marcado para as 16:30.
terça-feira, 14 de abril de 2009
NO PORTO, EM 30 DE MAIO
Entretanto, a 16 de Maio, será a Livraria Fonte de Letras, em Montemor-O-Novo, a acolher uma outra sessão de apresentação dos Cadernos, em conjunto com a realização do II Simpósio sobre os Teoremas do 57. O início desta sessão está marcado para as 16:30.
EXTRAVAGÂNCIAS, 13
Um Sonhopor Pedro Martins
Desenho: apontamento de Sant'Anna Dionísio
Um sonho havido esta noite, durante o sono, bem entendido: Renato Epifânio convida-me a escrever num próximo número da Nova Águia, e, comodamente, propõe-me o tema, que quase se diria um título: Leonardo Coimbra e o movimento do Y. Num primeiro momento, tomo a proposição como uma charada, ou uma bizarria; logo depois, como um enigma sério, que urge decifrar, imediatamente, ali mesmo, perante o Renato.
Concentro-me na letra: há, com efeito, um movimento no seu desenho, uma árvore, ou haste, que se bifurca em braços, ou ramos. Então, num ápice, como um náufrago que se agarrasse à tábua de salvação, antes de acordar, lembro-me ainda de certa passagem, já celebrizada, do prefácio que António Telmo escreveu para um livro de Pascoaes: Álvaro Ribeiro afirma, em dado momento, que não há uma, mas duas escolas de filosofia portuguesa. Não diz por meio de que pensadores se faz a divisão, mas não estará errado supor que estaria pensando em Sampaio Bruno e em Leonardo Coimbra. Eu vejo, quando evoco estes dois espíritos, a Igreja de João e a Igreja de Pedro perfilando-se no horizonte destacadas uma da outra, mas iluminadas pelo mesmo sol.
A esta luz, que é já a da vigília crítica, o movimento do Y passa por ser o da própria filosofia portuguesa. Suspeito, porém, que as duas hastes venham invertendo reciprocamente a direcção dos respectivos destinos originais, rumo ao infinito da Luz. Não sei, ao certo, que haverá a esperar do seu encontro. Mas o X em que agora estão representadas é um símbolo das encruzilhadas de Deus.
segunda-feira, 13 de abril de 2009
EXTRAVAGÂNCIAS, 12
Apresentação de Álvaro Ribeiro aos Sesimbrenses*por António Telmo
Compreende-se que a organização desta homenagem a Álvaro Ribeiro me tenha escolhido a mim para fazer a sua apresentação, isto é, para tornar o filósofo presente entre nós como um ser vivente e não como forma abstracta de pensamento. Compreende-se, porque de todos os que aqui vêm falar sobre ele e que com ele conviveram eu sou o mais antigo, aquele que durante muitos anos privou com ele e que sempre o procurou seguir em tudo quanto escreveu, embora por caminhos próprios, que não quer dizer que sejam os melhores.
Álvaro Ribeiro é (com Agostinho da Silva) o mais notável discípulo de Leonardo Coimbra. Não o mais notado. O mais notado, embora também notável, é Agostinho da Silva, já um dia homenageado nesta mesma sala. A sua vida decorreu obscura, repartida entre o modesto trabalho de ganha-pão e o estudo, isto é, o desejo que realmente importa satisfazer um dia. Exprimo-me assim, porque estudo, do latim studium, significa o desejo por excelência. (...) ler mais
sábado, 11 de abril de 2009
OS POETAS LUSÍADAS, 6

Voa a andorinha, d’asa em foice aguda,
Corta o ar, sobe ao Céu, e vai e volta;
Não sei de ímpeto audaz que não lhe acuda
No delírio sublime, em que anda envolta.
Juntam-se às vezes numa coorte muda,
E, a um sinal, que uma andorinha solta,
Partem, povo liberto que sacuda
Asas, bandeiras negras de revolta.
- Eh! lá! eh! lá! Oh! andorinha espera,
Pára: que eu vou também, quero emigrar,
Tenho saudades duma nova esfera.
Agora, vá… largai! que além do mar
Abre o seio e sorri a Primavera…
Eia! Andorinhas, é voar… voar…!
Jaime Cortesão
sexta-feira, 10 de abril de 2009
EXTRAVAGÂNCIAS, 11
por Pedro Martins
Como sou jurista, gosto de pensar, porventura erradamente, que o princípio da indivisibilidade da confissão vale também para o domínio da hermenêutica poético-filosófica. No fundo, isto pode querer dizer que nos não é lícito levar em conta no pensamento alheio apenas aquilo que nos agrada ou convém. Um autor há-de valer por tudo quanto disse e escreveu, mesmo que amiúde se contradiga. Lembre-se, a este propósito, o caso extremo, e sumamente inquietante, de Teixeira de Pascoaes, pensador refractário a qualquer cristalização. Não teremos nós de o considerar no desconcerto do seu movimento perpétuo? Creio bem que sim.
Mas, mesmo para Pascoaes, há palavras que são como âncoras. Uma, pelo menos: Liberdade. Não se cansou de repeti-la, numa entrevista que, em 1949, concedeu ao Diário de Lisboa, em apoio à candidatura do General Norton de Matos, contra o regime salazarista. Nela, o poeta distingue a justiça, ligada ao pão do corpo, da liberdade, ligada ao pão do espírito. Aquele deve ser igualmente distribuído por todos; este, consoante o que for do agrado de cada alma.
O entrevistado cede ao prosaísmo quando, logo depois, resolve pôr as coisas por claro:
– Quero pensar conforme as minhas tendências intelectuais e sentimentais ou filosóficas e religiosas. A liberdade filosófica e religiosa é a liberdade suprema.
Só por si, esta última frase seria o bastante para inscrever Teixeira de Pascoaes na lista gloriosa daqueles que, na casa de Portugal, sempre souberam honrar a santa Liberdade. Não vale a pena enumerá-los: estão lá quase todos.
Mas Pascoaes vai mais longe, e chega a afrontar a censura quando explica:
– Necessitamos duma certa desordem na ordem, a respiração do ar, em Abril, que fecunda as plantas, e o bater das asas que andam a construir os ninhos. Desta certa desordem ou liberdade deriva a liberdade política, a formação de vários partidos simbólicos de vários ideais políticos dignos de existir e colaborar no Governo dum país. Um único partido legal tem uma existência passiva e infecunda.
Não se confunda o sonho do vate com a realidade actual, mesquinha e rasteira. Tal como as coisas estão, há sempre um partido único no governo do país. Na esteira de Sampaio Bruno, seu mestre, que n’O Brasil Mental se declarara “socialista anarquista”, ansiava Pascoaes por um culto cristão que conciliasse a liberdade espiritual, anarquista, com a fraternidade amorosa, comunista. Escreveu-o em A Minha Cartilha, sensivelmente na mesma época em que concedeu a entrevista ao Diário de Lisboa. Tal como Álvaro Ribeiro, o poeta estava ciente de que o filósofo não é um homem de partido, e de que a verdade se divide na concorrência das doutrinas.
Renato Epifânio irá colaborar no segundo número dos Cadernos de Filosofia Extravagante com um artigo a favor do novo Acordo Ortográfico, que já escreveu e deu a conhecer, em três entradas publicadas ontem no blogue da Nova Águia. Mesmo ciente de que, sobre esse assunto, muitos de nós pensam de modo diferente, e até oposto, não deixou de, com galhardia, aceitar o repto, que António Telmo lhe lançou, de defender as suas ideias. Seja bem-vindo.
Na imagem: Teixeira de Pascoaes
Água-tinta sobre papel de António Carneiro
quinta-feira, 9 de abril de 2009
PENSANDO À BOLINA, 1
A um homem simples de Santo Tirso que todos os dias ia ao templo
desenho de Albrecht Dürer
Como sabes tu que Deus te chama todos os dias à mesma hora? Nunca o ouviste. Nunca leste nenhum livro – nem sabes ler letras. E, no entanto, todos os dias dizes que “sim, Amen”.
Em que corda profunda Deus te toca? Com que misteriosa ressonância respondes tu no alaúde da tua alma ao acorde que Deus tange em ti?
Ó meu Deus, o que os teus olhos viram! O que sofreste! A fome por que passaste… Não houve um dia, Verão ou Inverno, que a tua pele não estalasse mais um pouco ou mais um pouco mirrasse. Os teus onze irmãos morreram já, uns com pneumonia, outros à fome ou ao frio.
Carregaste toda a tua vida como um fardo pesado. E, ainda assim, que corda profunda Deus toca em ti? Com que misteriosa ressonância respondes tu no alaúde da tua alma a esse acorde? O que viu e sabe a tua alma de Deus para todos os dias à mesma hora, do mesmo modo, livre e obediente, responder? Que abismos insondáveis guardas no regaço da tua alma?
Não precisas de argumentos, sabes mais do que os doutores da teologia.
Ah! Que misteriosa íntima união se dá entre ti e Deus… de tal modo que ignoras que ele, o Senhor do Universo, Sonhador deste nosso mundo, Chama Viva do Pensamento, Criador dos nossos destinos, o Rei, o Único, te chama; e mesmo assim, sem saberes sabendo, respondes que “sim, Amen”.
Santo Tirso, 21 de Dezembro de 1998
texto originalmente publicado no blogue Maranos
quarta-feira, 8 de abril de 2009
PALAVRAS QUE FAZEM VER, 9
[Álvaro Ribeiro e Guerra Junqueiro]"Guerra Junqueiro não é entre nós considerado um filósofo, apenas porque não escreveu livros de filosofia. Tão mesquinho critério bibliográfico, vigente em meios universitários, leva pelo contrário a considerar filósofos alguns professores que nunca manifestaram autonomia, profundidade, ou originalidade de pensamento. No entanto, ninguém que conheça medianamente as obras de Guerra Junqueiro poderá negar que o poeta sempre se interessou com ansiedade, se não com angústia, pelos problemas humanos, pelos segredos naturais e pelos mistérios divinos.
Não foi Guerra Junqueiro o cantor que apenas renova a expressão poética de uma ortodoxia ou de uma heterodoxia; não escreveu escolástica poética, se assim é lícito dizer. O seu pensamento de interrogação, indagação e inquietação, em vez de se deter em teses dogmáticas ou em conceitos fixos, caminhou sempre para mais além. É fácil apontar erros a quem se desencaminha, mas é difícil traçar a topografia da aventura espiritual.
Contemporâneo da luta entre o positivismo e o catolicismo, ou, paralelamente, entre mecanismo e finalismo, Guerra Junqueiro situou-se no lado da fidelidade às tradições portuguesas. Só assim é lícito interpretar hoje a sua obra satírica e polémica. No entanto historiadores há que, na impossibilidade de apreciarem uma obra de génio, não distinguem as intenções superficiais das intenções profundas.”
Álvaro Ribeiro
(in A Arte de Filosofar, Portugália, 1955)
OS POETAS LUSÍADAS, 5

REGRESSO AO LAR
Ai, há quantos anos que eu parti chorando
Deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?... há trinta?... Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas para me eu lembrar!...
Dei a volta ao mundo, dei a volta à Vida…
Só achei enganos, decepções, pesar…
Oh! a ingénua alma tão desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida,
Canta-me cantigas de me atormentar!...
Trago d’amargura o coração desfeito…
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...
Minha velha ama que me deste o peito,
Canta-me cantigas para me embalar!...
Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
Pedrarias d’astros, gemas de luar…
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho…
Canta-me cantigas de fazer chorar!
Como antigamente, no regaço amado,
(Venho morto, morto!...) deixa-me deitar!
Ai, o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...
Canta-me cantigas, manso, muito manso…
Tristes, muito tristes, como à noite o mar…
Canta-me cantigas para ver se alcanço
Que a minh’alma durma, tenha paz, descanso,
Quando a Morte, em breve, ma vier buscar!...
Guerra Junqueiro
PARA LER
terça-feira, 7 de abril de 2009
OS POETAS LUSÍADAS, 4

À MINHA MUSA
Senhora da manhã vitoriosa
E também do crepúsculo vencido.
Ó senhora da noite misteriosa,
Por quem ando, nas trevas, confundido.
Perfil de luz! Imagem religiosa!
Ó dor e amor! Ó sol e luar dorido!
Corpo, que é alma escrava e dolorosa,
Alma, que é corpo livre e redimido.
Mulher perfeita em sonho e realidade.
Aparição Divina da Saudade…
Ó Eva, toda em flor e deslumbrada!
Casamento da lágrima e do riso;
O céu e a terra, o inferno e o paraíso,
Beijo rezado e oração beijada.
Teixeira de Pascoaes desenho de Carlos Carneiro
PALAVRAS QUE FAZEM VER, 8
“A poesia de Fernando Pessoa começou já a ser estudada, e o poeta, desconhecido pelo grande público durante a vida inteira, tem hoje o preito das moças gerações. Os escritos filosóficos não têm sido considerados com igual atenção; são, porém, outras tantas obras-primas de uma inteligência penetrante que não se detém perante os mistérios da alma e os segredos da cultura. Um estudo revelará mais tarde a unidade de pensamento de um escritor que se dissocia em vários heterónimos; à primeira vista o que bem impressiona é a variedade, e portanto a riqueza, dos pontos de vista que Fernando Pessoa sucessivamente adoptou, deliciado talvez com o espectáculo de incompreensão que lhe davam os contemporâneos. (Leonardo Coimbra, pelo contrário, sofria com as manifestações de intolerância e de desinteligência dos seus conviventes).” Álvaro Ribeiro(excertos retirados de Prefácio a A Nova Poesia Portuguesa, de Fernando Pessoa, Dispersos e Inéditos, I, INCM, 2004)
EXTRAVAGÂNCIAS, 10
Epigramapor Pedro Martins
desenho de Almada Negreiros
Se a memória me não atraiçoa, Óscar Lopes terá dito, ou escrito, algures que “Fernando Pessoa – infelizmente (sic) – era um grande poeta”, ao passo que Pascoaes seria um poeta de “terceira ordem”. Não tenho à mão o número de A Phala onde se dá notícia do desconchavo. Mas recordo-me da indignação justiceira com que José Bento mandava perguntar ao professor comunista quais os seus poetas de primeira, segunda ou qualquer outra ordem. Foi isto há uns doze ou quinze anos. Cito de cor, já se vê.
Em época menos recuada, concedeu Clara Ferreira Alves, na qualidade de directora da Casa Fernando Pessoa, uma entrevista de imprensa a um jornal diário, na qual declarava que não lhe interessava nada o “lado religioso” de Fernando Pessoa, faceta que a senhora, de resto, considerava “detestável”. Mais ou menos por essa altura, li um escrito publicado no JL, no qual um jovem professor da Faculdade de Letras do Porto, de seu nome Rui Lage, afirmava que a visão do mundo de Pessoa, articulada na sua poesia, era “definidora da nossa identidade”, mas “não da pátria”, pois que “a sua única obra menor” seria, precisamente, a Mensagem.
Claro está que, com os néscios, há sempre o recurso, de resto inútil, de lhes sugerirmos o estudo das lições clássicas que Álvaro Ribeiro e António Telmo dedicaram à grandeza do poeta; ou a leitura dos prefácios notáveis que Pedro Sinde e António Carlos Carvalho apuseram a importantes edições da Mensagem, vindas a lume no ano de 2007, com as chancelas da Porto Editora e da Caixotim, respectivamente. Aquela já vai na segunda tiragem; esta mereceu honras de lançamento com sala cheia, na sobredita Casa Fernando Pessoa, perante a ausência do seu director.
Como, um dia, bem notou António Telmo, Fernando Pessoa já havia sido corrido, no sentido tauromáquico do termo. Corrido para ser morto, ou seja, para ser roubado à filosofia portuguesa.
Depois disto, a gente ficou a pensar que vira tudo. Puro engano, afinal. O cálix não estava esgotado. Havia de ir até o nojo das fezes. Assim foi.
Só que, em lugar do larápio, era agora o pretenso dono da casa que assomava, agitando um varapau e exibindo um alvará! E Fernando Pessoa era de novo corrido. Corrido da filosofia portuguesa, expulso da casa de Portugal, que outrora ajudara a erguer.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
PENSANDO À BOLINA, 14
Um bando de anjos
imagem da autoria de Hannah Michael Gale Shapero
Deixo-o assim tal como mo disse o desconcertante Denis; só lamento não poder descrever o modo naturalmente convincente como ele o diz, tenho a certeza de que se o leitor o ouvisse, não acreditaria no que ele diz, mas antes saberia que é assim. Mas como sabe ele tudo isto?
domingo, 5 de abril de 2009
EXTRAVAGÂNCIAS, 9
Lisboa, 27 de Dezembro de 1965
Prezado Confrade nas Letras:
Álvaro Ribeiro
Lisboa, 20 de Setembro de 1973
meu prezado Amigo:
Álvaro Ribeiro
sábado, 4 de abril de 2009
NA PRÓXIMA SEGUNDA-FEIRA

sexta-feira, 3 de abril de 2009
EXTRAVAGÂNCIAS, 8
Testemunhos sobre Agostinho da Silva no centenário do seu nascimento*por António Reis Marques
Quis a Câmara Municipal de Sesimbra associar-se às comemorações do centenário do nascimento de Agostinho da Silva.
Em boa hora o fez, porquanto, ele foi um grande amigo desta terra, onde teve casa e gostava de permanecer e contactar com a sua gente.
Talvez por ser um dos poucos sobreviventes dos amigos que teve em Sesimbra, merecesse a honra do convite para vir dar-vos o testemunho da convivência que com ele tive o privilégio de manter, durante muitos anos.
Todavia, será mais em homenagem à sua memória, que tanto venero, que aqui me encontro, pois as minhas pobres palavras pouco ou nada poderão acrescentar ao lustre do muito que, no decurso deste ano, se tem dito e escrito sobre essa singular figura que marcou o século XX português. (…) ler mais
quinta-feira, 2 de abril de 2009
ANOTAÇÕES PESSOAIS, 4
Parece que desta vez é que a coisa avança: Trancoso vai finalmente ter o seu Museu Bandarra e o seu Centro de Interpretação Judaica Isaac Cardoso. Há mais de três anos que um grupo de consultores, do qual faço parte, trabalha neste duplo projecto, apresentando ideias, elaborando sucessivos estudos e documentos, mas o Município enfrentou sucessivas dificuldades em dar concretização ao que se propunha. A ordem de avançar surgiu agora.
A atribuição do nome de Isaac Cardoso a este Centro justifica-se plenamente pela vida e obra exemplares deste filho de Trancoso, ali nascido em 1603 ou 1604, mas que foi obrigado a viver em Espanha (onde estudou nas universidades de Valladolid e Salamanca, doutorando-se em medicina, ensinou filosofia, publicou sonetos, foi amigo de Lope de Vega, publicou tratados científicos) e depois em Veneza (onde se assumiu como judeu e publicou «Philosophia libera», 1673 – considerada por Yosef H. Yerushalmi como «a primeira obra maior de filosofia geral escrita e publicada por um judeu praticante numa língua profana e destinada desde o início a atingir um vasto público europeu») e em Verona, onde viria a morrer em 1683. Em 1679 ainda publicou em Amesterdão a obra «Las Excelencias de los Hebreus», dedicada ao português Jacob de Pinto, e em que cita o Bandarra, Damião de Góes, Samuel Usque e Menasseh ben Israel.
O nome de Isaac Cardoso é conhecido, respeitado e venerado em muitos lugares do mundo, excepto em Portugal, como de costume. No entanto, em Trancoso, onde nunca foi esquecido, há uma rua com o seu nome, situada precisamente junto do local onde se vai erguer este Centro.
Pelo menos, é o que está previsto.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
ABDEL HAYY, IPSIS VERBIS

terça-feira, 31 de março de 2009
EXTRAVAGÂNCIAS, 7
Terá sido em vão
Que ergueste as pedras?
E com elas um povo
Uma coroa de pétalas
E asas de lírio?
As tuas mãos tocaram-nas
Imprimiste quem eras nelas
Deixaste o teu canto gravado
Em conchas, búzios e algas
Em sinfonias de um sonho
Em frutos, anjos
E folhas, folhas de almas
Depuseste no templo o teu castigo
Sublime castigo
Como quem entrega a verdade
Essa pedra de raiz e saudade
Brota de um universo sem idade
Terás chorado sobre essas pedras?
E que socalco terão deixado as tuas lágrimas?
Será essa fenda aí ao lado
Ou aquela outra que ficou na noite?
Terás parado por um instante?
O martelo o esculpro, em silêncio
E em frente ao mar terás ficado
Curvado para cima
À luz de um céu distante?
A cada compasso e régua
Terás medido um sonho em pedra?
E do mesmo modo e ao mesmo tempo
Terás sentido a alegria fraterna?
Essa que afaga os fornos
Dos corações desejados
Essa que encarna diabos
Em anjos mal disfarçados
Terás gozado essa brisa
Pela manhã de quem cedo se ergue?
Ou terás pensado no infinito sol
Que não se apaga, apenas ferve?
Essas cúpulas e torres
Trespassam a linha do céu
São portais para o que não há
Terás passado essa fronteira breve
Deixando o túmulo, a lança e o leme?
Que te embala agora do outro lado?
A missão cumprida num sorriso
Será o teu rosto que vejo agora
Ali, debaixo daquele friso?
Em atenção me pergunto
Se as tuas mãos permanecem em pedra
Será o teu símbolo que me evoca
Ou a chama que esculpiste em demanda eterna?
SIMPÓSIOS SOBRE OS TEOREMAS DO «57»
Pedro Martins e a Pátria
segunda-feira, 30 de março de 2009
EXTRAVAGÂNCIAS, 6
Ao redor de Jaime CortesãoII – História e epopeia
por Pedro Martins
Retomemos o convívio do triunvirato insigne. Se Pascoaes foi o poeta da Renascença Portuguesa, e Leonardo o seu filósofo, nela terá sido Cortesão o historiador. Antevejo a perplexidade que se apodera do leitor. Nos anos que, de imediato, antecederam a fundação do movimento portuense; ou nos subsequentes, primordiais, em que tal movimento fulgurou – aqueles em que, na verdade, Jaime Cortesão ali desenvolveu intensa militância –, a sua produção literária foi, primeiro, poética; e, depois, teatral; mas não propriamente historiográfica. Há ainda, nesse período, um livro de contos, D’Aquém e d’Além Morte, editado precisamente pela Renascença em 1913, e porventura insuficiente, por isolado, para que se lhe possa fazer corresponder um veio saliente no corpus bibliográfico do autor de Divina Voluptuosidade. Dito isto, forçoso será concluir que as primícias dos seus estudos históricos coincidem sensivelmente com o dealbar do período em que o iremos encontrar à frente da Biblioteca Nacional (1919-1927), ou pontificando na direcção da revista Seara Nova, criada em Outubro de 1921. (...) ler mais
PALAVRAS QUE FAZEM VER, 7
[Álvaro Ribeiro e a filosofia extravagante]

“A sofia é o conhecimento especulativo do absoluto; resulta da actividade criadora da razão que vence infinitamente a pluralidade mortífera e polémica. A filosofia é o esforço para esse conhecimento.
A reflexão filosofal pode ser exercida pelo pensador solitário, fora da disciplina cultural, e conduzir até uma indagação fecunda pelas regiões espirituais ainda pouco exploradas; mas a validade de tal empreendimento arbitrário será referida a uma doutrina mais exigente de firmeza e de objectividade. Como ciência, saber sistemático e comunicável por conceitos, a filosofia dificilmente se expande fora do ambiente esotérico que lhe é próprio. O pensamento filosófico depende elasticamente do respectivo ensino acroamático; é a escola que dá vida – corpo e alma – à tradição espiritual, que a alimenta e regenera, que a medicamenta até com os produtos heterodoxos da meditação extravagante.”
(excertos retirados de O Problema da Filosofia Portuguesa, Inquérito, 1943)
domingo, 29 de março de 2009
AMANHÃ
NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

Colóquio. Quinze anos passados sobre a morte do autor de Reflexão, o Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e a Associação Agostinho da Silva promovem um colóquio comemorativo da efeméride na Faculdade de Letras de Lisboa. É no próximo dia 3 de Abril, a partir das 10 horas. Para ler o programa, clique na imagem do lado esquerdo de modo a ampliá-la. Nesse dia, os Cadernos de Filosofia Extravagante associam-se à iniciativa. Alguns dos seus colaboradores irão estar presentes na Faculdade de Letras e, aqui no blogue, será publicado o texto, ainda inédito, da palestra que António Reis Marques - um dos bons amigos que o Professor Agostinho tinha em Sesimbra - proferiu em Setembro de 2006, por ocasião do centenário do filósofo.
OS POETAS LUSÍADAS, 3
GOMES LEAL
Sagra, sinistro, a alguns o astro baço.
Seus três anéis irreversíveis são
A desgraça, a amargura, a solidão.
Oito luas fatais fitam no espaço.
Este, poeta, Apolo em seu regaço
A Saturno entregou. A plúmbea mão
Lhe ergueu ao alto o aflito coração,
E, erguido, o apertou, sangrando lasso.
Inúteis oito luas da loucura
Quando a cintura tríplice denota
Solidão, e desgraça, e amargura!
Mas da noite sem fim um rastro brota,
Vestígio de maligna formosura:
É a lua além de Deus, álgida e ignota.
Fernando Pessoa
PALAVRAS QUE FAZEM VER, 6
“Dir-se-á que a poesia é mais obra do coração do que do cérebro, mas este juízo precipitado é quase sempre formulado pelos poetas líricos, para os quais a obra de inteligência, ou filosófica, lhes parece sempre com o aspecto frio da poesia didáctica. A imagem primordial do poeta lírico é o próprio eu, a personalidade do autor, que irrompe claramente no alvor da adolescência, com seu nítido narcisismo, masculino ou feminino. Tal poesia se reconhece pelas imagens mais ou menos alusivas aos prazeres da alcova, no tom elegíaco dos desejos frustrados ou no tom hínico das vitórias logradas.
A poesia de solidão, de soledade, de saudade, tende a diluir-se na sequência da experiência humana, e em breve o poeta lírico há-de reconhecer o convívio social ou a presença interrogante do Universo. A sensitividade não basta à expressão, ela impõe os seus direitos. O pensamento do poeta passa do grau subjectivo para o grau objectivo.

A descoberta do outro eu, ou de alguém que procura a visitação da musa, atinge uma consciência lúcida de que o poeta não é o só, nem o eu. A dialéctica torna-se dramática, personaliza-se e personifica-se, marcando o desejo do teatro, onde tudo pode ser fingimento ou máscara. Toma o artista a consciência do mal, do mal que nos aflige, e de que sofremos, ou do mal que aflige os outros, e de que nos rimos, deixando na equação uma incógnita a que se dá o nome de o problema de Deus.
A epopeia é já a narrativa poética do divino, nominado ou inominado, mas de literatura propensa para a inserção ou encarnação no humano. Assim interpretamos os poemas épicos, sem excluir Os Lusíadas de Luís de Camões. Descobrir ou revelar o divino, ou o seu sucedâneo, no poema épico, é sempre como discernir a incógnita das valências e das equivalências expostas na equação.
Desta tripartição evolutiva dos géneros poéticos, não ensinada nas escolas literárias, merecia-me especial atenção e agrado a forma e a matéria do soneto. Com efeito, esta maravilhosa miniatura parecia-me de todos a mais apropriada para receber o silogismo, quando o sentimento é dominado pelo pensamento. A poesia portuguesa, tão feliz como a italiana na produção de sonetos, de Sá de Miranda a José Régio oferece uma longa galeria de artistas que asseguram a glória de uma literatura.
A influência da cultura católica e do culto cristão, sendo preponderante entre nos, facilita a temática habitual de poetas menores que por sonetos confessam o seu devocionário. A crítica literária saberá distinguir o ouro e o latão, a autenticidade filosófica e a imitação religiosa. Exemplo notável é o de Antero de Quental que, em seus sonetos mais sinceros, escreveu filosofia superior à das prosas que ressoavam como informação feliz acerca de doutrinas correntes no estrangeiro.
Era-me particularmente grata a beleza do dulce stilo nuovo, em boa hora importado da Itália. A leitura do Convito de Dante, em que os sonetos são seguidos de comentários filosóficos, foi para mim um primeiro exercício de interpretação, exegese e hermenêutica. Assim procurei ver em cada soneto um silogismo, como ensinou o discípulo de Aristóteles, e ainda que o não encontrasse, dava por bem aplicada a lição suavíssima de Dante:
Ó vós que gozais de intelecto são,
Mirai a doutrina que se esconde
Debaixo do véu de tão estranhos versos.”
Álvaro Ribeiro (in Memórias de um Letrado, Guimarães, 1977)
sábado, 28 de março de 2009
OS POETAS LUSÍADAS, 2
S. FRANCISCO DE ASSIS
S. Francisco de Assis falava, outrora,
Aos animais, às flores, triste e só…
Se tudo quanto vive, sofre e chora,
É a mesma alma eterna e o mesmo pó!
E, por isso, ele tinha pena e dó
De tudo quanto doira a luz da aurora,
E não bebeu, no poço de Jacob,
Aquela água de vida redentora.
Ó lobos, meus irmãos! Irmãs ervinhas!
Irmãs pedras! Ó fontes pobrezinhas!
Ó ventos, meus irmãos, em doida guerra!
Quanto vos amo em Deus! E sinto bem
Que esta terra, que eu beijo, é nossa mãe
E que a sombra de Deus anda na Terra!
Teixeira de Pascoaes
PALAVRAS QUE FAZEM VER, 5
[Álvaro Ribeiro e os sonetos de Pascoaes]“A revista A Águia, que eu fui lendo, comprando e coleccionando, publicou alguns dos mais belos sonetos de poetas portugueses. Desde Gomes Leal até Júlio Dantas, – se me é lícito dizer os extremos desta escala de valores, – se situam em trono muitos sonetistas de variados dons e de diversas tendências. Eram para mim os sonetos de Teixeira de Pascoaes aqueles que estavam mais perto da perfeição sólida, geométrica ou matemática, pelo que os estimava intelectualmente muito mais do que os longos poemas que são Maranos e Regresso ao Paraíso, ou do que as poesias difusas das Sombras.”
Álvaro Ribeiro
(in Memórias de um Letrado, I, Guimarães, 1977)
sexta-feira, 27 de março de 2009
OS POETAS LUSÍADAS, 1
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;
Começa de servir outros sete anos,
dizendo: - «Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida.»
Luís de Camões
quinta-feira, 26 de março de 2009
ANOTAÇÕES PESSOAIS, 3
Consta da tradição chinesa que, um dia, tendo um dos seus discípulos perguntado a Confúcio o que faria se mandasse, o velho sábio respondeu: «Rectificava os nomes».
Lembro-me muitas vezes desta frase de Confúcio, proferida há 2500 anos, porque me vejo muitas vezes confrontado com o mesmo desejo imperioso. Deve ser um dos sinais destes tempos: os nomes estão cada vez mais trocados, adulterados, gerando confusões na linguagem que deveria ser meio de comunicação – termo que agora aparece substituído por «interacção», ou seja, as pessoas deixaram de comunicar entre elas, passando simplesmente a «interagir»... Há muitas formas de se ser bárbaro e, tal como aconteceu com o antigo Império Romano, os bárbaros há muito que atravessaram as fronteiras.
Rectificar os nomes: eis a tarefa essencial. Por isso, desde há muito tempo, tenho o costume de ler sempre com o lápis na mão ou à mão. Certa vez descobri que o George Steiner costuma fazer o mesmo, tendo mesmo afirmado que «o judeu é aquele que lê com um lápis na mão, corrigindo as gralhas.»
Seja como for, a verdade é que leio sempre com o lápis a postos para sublinhar e anotar o que vale a pena e também para corrigir constantemente o que encontro mal escrito. Aconteceu agora com um livro aliás magnífico, «Breviário Mediterrânico», do ensaísta croata Predrag Matvejevitch, acabado de reeditar pela Quetzal. Uma obra em que o autor, viajante incansável desse mar que é também nosso, acentua que «a Europa nasceu no Mediterrâneo», lugar de todas as misturas, as das gentes e as das coisas, das ideias e das culturas. Um lugar (digo eu) que nada tem a ver com Bruxelas ou Estrasburgo, por exemplo, e onde nunca houve uma «moeda única» (como se fosse o único valor que poderia unificar os europeus...)
Acontece que, várias vezes, ao longo do livro, aparece escrito «deserto do Sara» -- forma bárbara e absurda imposta pelos revisores tipográficos, tal como, aliás, consta agora dos dicionários. Ainda não há muito tempo que se escrevia «deserto do Sahara» ou «Sahará»; depois, de repente, alguém (certamente iluminado por uma lâmpada de néon) lembrou-se de transformar esse nome em «Sara». Sem se lembrar (ou sem saber) que Sara é o nome de uma das matriarcas da Bíblia, mulher de Abraham e mãe de Isaac; que Sara nunca andou por aquele deserto nem lhe deu o nome; que Sara é um nome feminino e que, portanto, nunca se poderia escrever «do Sara»...
Mas já que falamos de Sara, e de rectificação de nomes, tenho uma proposta a fazer aos meus colegas colaboradores dos «Cadernos de Filosofia Extravagante»:
Neste primeiro número, encontrei várias vezes escrito «abraâmicas». O que só faz sentido se adoptarmos de uma vez por todas o nome original: Abraham (e não «Abraão», que tão mal soa mas que aparece assim grafado nas traduções-traições correntes da Bíblia). Abraham, sim, e com o h que transcreve a letra hê que Deus inscreveu no nome original Abram – e que as edições Serra d’Ossa, aliás, tomaram para si como sinal distintivo. Mais uma razão para não nos esquecermos dessa letra essencial, que designa o feminino, a direcção, o questionamento, mas é também o artigo definido, o que particulariza o objecto ou o indivíduo. E corresponde ao número 5, o número mediano, o do equilíbrio do processo em curso. E corresponde igualmente ao chamado quinto dia da Criação, o da fecundidade, da multiplicidade das espécies vivas. É depois da mudança do seu nome, com a introdução do hê, que Abraham vai gerar Isaac, viver a aliança divina e pô-la completamente em prática, ao longo de uma vida sempre marcada pelas (dez) provações. E em Abraham se concretiza, finalmente, o projecto divino para o Homem, que Adam e os outros não souberam cumprir. Emmanuel Lévinas escreveu: «Todos os homens verdadeiramente humanos são descendência de Abraham.»
E já agora, para sermos rigorosos devíamos igualmente escrever Sarah (como a artista Sarah Afonso assinava os seus quadros), porque também Sarah, que se chamava inicialmente Saray («minha princesa»), mudou de nome – passando a incluir o hê de YHVH (repare-se que o Nome impronunciável inclui dois hê, mas também o Y (yod) de Saray...)
Tudo isto tem a ver com a questão dos nomes. Em termos bíblicos, sempre que alguém vê o seu nome alterado, sofre uma mudança de destino, de projecto pessoal, de acordo com a vontade divina. No caso de Abram, «pai elevado», passa a ser chamado Abraham, «pai de uma multidão de povos». Nada disto é um acaso ou uma insignificância; pelo contrário, tem uma relevância simbólica fundamental. Por isso, escrever «Abraão» ou mesmo «Abraam» é completamente diferente de Abraham.
Rectifiquemos os nomes – assim ajudamos a reparar o mundo.
Já agora fica aqui a referência do melhor estudo que conheço sobre a figura de Abraham:
«Abraham – ou la recréation du monde», de Raphaël Draï, ed. Fayard, 2007. Obra que esclarece totalmente as questões aqui levantadas.
quarta-feira, 25 de março de 2009
UMA MÁ NOTÍCIA
Desinteresse. Ver a imagem de Isaac Abravanel reproduzida num selo estrangeiro, associada à comemoração dos 500 anos da descoberta da América por Cristóvão Colombo, pode dar a exacta medida do desinteresse a que os portugueses votam um dos seus maiores. Mas há quem o lembre: António Carlos Carvalho e Luís Paixão, nos escritos com que colaboram em Universalidades, primeiro número dos Cadernos de Filosofia Extravagante, e Abdel Hayy, numa entrada do já imprescindível blogue que é O Lugar da Alma.
UMA BOA NOTÍCIA
Fundação. Foi instituída a Fundação António Quadros. Pode ler a boa notícia no blogue Geometria do Abismo, da autoria de José António Barreiros. terça-feira, 24 de março de 2009
EXTRAVAGÂNCIAS, 5

por Cynthia Guimarães Taveira
segunda-feira, 23 de março de 2009
LISBOA, 22 DE MARÇO
SETÚBAL, 21 DE MARÇO
SESIMBRA, 21 DE MARÇO
domingo, 22 de março de 2009
LISBOA, 22 DE MARÇO
Poucos. Mas bons. Os convivas que hoje, ao fim da tarde, se juntaram na Galeria Matos Ferreira, ao Bairro Alto, em Lisboa, para assistirem à segunda sessão de apresentação dos Cadernos. O gentil convite para a realização desta sessão havia partido, há algumas semanas, de Renato Epifânio, um dos directores da revista Nova Águia, que, para o efeito, cedeu à Serra d’Ossa uma data inicialmente reservada às actividades editoriais da Zéfiro, e que hoje conduziu o encontro, no qual participaram ainda Pedro Martins e Rodrigo Sobral Cunha, este último em substituição de António Telmo, cuja presença estava prevista, mas que, à última hora, por um motivo ponderoso, se viu impedido de estar presente na capital. Após as boas vindas do anfitrião Matos Ferreira, coube a Renato Epifânio fazer a introdução que se impunha, perante um público que, com raras excepções (houve alguns colaboradores dos Cadernos que ali marcaram presença), ainda não estava familiarizado com o projecto nascente. Este destacado membro do Movimento Internacional Lusófono, que na véspera estivera em Sesimbra e acompanhara, quer na Biblioteca quer no Castelo, o nascimento da novel publicação, pôde hoje dar conta aos circunstantes do que se passou no dia de ontem. Renato Epifânio afirmou a importância deste projecto e salientou a cooperação que a Nova Águia lhe tem prestado, nomeadamente no domínio da divulgação, pois, como fez questão de frisar, a revista que dirige nasceu com um espírito positivo, um espírito de missão e de serviço à cultura portuguesa e lusófona. Depois, foi a vez de Pedro Martins passar em revista os temas, as teses e os teoremas deste primeiro número dos Cadernos, que considerou trazer a marca da escola de António Telmo - o centro de um círculo que o seu magistério vem definindo há cerca de trinta anos. Os Cadernos são, por consequência, uma expressão da filosofia portuguesa, onde o livre pensamento religioso e a harmonia abraâmica preponderam. Seguiu-se a intervenção de Rodrigo Sobral Cunha, que se propôs explicar o sentido do tema-título do Caderno inaugural: Universalidades. O autor da Filosofia do Ritmo Portuguesa procurou, então, mostrar como à época da globalização corresponde, afinal, um tempo onde se perdeu, quase por completo, o sentido do universal. E – pôde concluir - é nessa medida que os Cadernos são extravagantes – vão para além da vaga que hoje tudo procura impelir. Matos Ferreira fez então circular pelas mesas alguns exemplares da nova publicação. Vivamente interessadas e calorosas, as reacções dos presentes não se fizeram esperar, trazendo palavras de elogio e encorajamento. No final desta jornada bem gratificante, exemplo da vida conversável que Agostinho da Silva sempre defendeu, fica a impressão de que o projecto dos Cadernos, ainda a dar os primeiros passos, tem boa cadência no andar e traz o passo firme e seguro. Nas próximas semanas a inquietude prosseguirá, desejavelmente à beira-Sado, em terras transtaganas ou na margem direita do Douro. Oxalá.
SESIMBRA, 21 DE MARÇO
Lançamento. “Universalidades”, o primeiro número dos Cadernos de Filosofia Extravagante, foi lançado ontem à tarde na sala polivalente da Biblioteca Municipal de Sesimbra, e a apresentação desta publicação não-periódica da Serra d’Ossa Edições esteve a cargo de três dos seus colaboradores: Luís Paixão, Isabel Xavier e Rodrigo Sobral Cunha. Com uma assistência que rondou a meia centena de pessoas, a casa encontrava-se praticamente cheia, o que, de resto, vem sendo hábito sempre que ali têm lugar iniciativas da filosofia portuguesa. Compreende-se que assim seja, quando nos recordamos de que a ligação do movimento ao velho burgo piscatório remonta aos já distantes anos quarenta do século passado, quando António Telmo e Orlando Vitorino, ainda jovens, foram viver para Sesimbra e travaram amizade com Rafael Monteiro. Também Agostinho da Silva, Álvaro Ribeiro, Afonso Botelho e Jorge Preto ali passaram, com maior ou menor regularidade, temporadas de lazer e descanso.
Luís Paixão, que deu início à sessão, fez notar que este novo projecto é fruto do magistério de António Telmo, e não deixou de salientar alguns dos traços essenciais da filosofia portuguesa: trata-se de um livre pensamento deísta, que procura conciliar a revelação e a razão, tendo sempre presente a herança das três religiões abraâmicas (judaísmo, cristianismo e islamismo). Segundo o mesmo Luís Paixão, esse traço harmónico está patente em boa parte dos artigos que integram este primeiro número dos Cadernos, revelando a existência de um “corpo de pensamento”.
A par do ensaio, a poesia é uma presença com relevo na nova publicação, onde são dados à estampa notáveis poemas de Avelino de Sousa e Isabel Xavier. Tal circunstância, aliada ao facto de ontem se ter comemorado o Dia Mundial da Poesia, deu o mote a Isabel Xavier, que nos falou da dimensão poética que perpassa o primeiro número dos Cadernos. Não só pela produção literária que neles se dá a conhecer, mas também pelo modo como certos escritos põem em evidência o diálogo fecundo que a filosofia pode estabelecer com a poesia – trata-se, de resto, de um aspecto fundamental do pensamento português. Baseando-se na sua experiência de escritora, Isabel Xavier abordou ainda o mistério da criação poética: “Há palavras que se escondem por detrás das palavras”, disse.
Depois, foi a vez de o filósofo Rodrigo Sobral Cunha, outro dos colaboradores dos Cadernos, proporcionar aos presentes na sala uma ampla panorâmica das diversas colaborações que ali podem encontrar, levantando a ponta do véu a cada uma delas. Não sem antes, em terra de pescadores, nos oferecer impressiva imagem de fulgor poético, ao comparar os Cadernos com um barco em cujo mastro, ao alto, brilha o fogo de São Telmo, e que navega no “fim do tempo”. E, fazendo notar que o Espírito Santo era referência frequente nos textos publicados, Rodrigo Sobral Cunha confessou, a propósito, sentir-se “em casa”.
Na Biblioteca, a sessão haveria de terminar com a leitura, por António Telmo, de dois dos poemas publicados nos Cadernos. Mas a jornada só ficou concluída depois da plantação simbólica de uma oliveira no Castelo de Sesimbra, junto à casa onde viveu Rafael Monteiro, numa cerimónia presidida por António Telmo e marcada pela intervenção de outro dos colaboradores dos Cadernos: António Carlos Carvalho. O autor de O Triângulo Místico Português chamou a atenção para o facto, sinistro, de, em pleno Inverno, estarem já a deflagrar incêndios florestais: incêndios nocturnos! E, declarando-se monárquico, não deixou, porém, de encarecer a importância da instituição, pela Primeira República, do Dia da Árvore. Depois, retomando algumas das ideias do texto que, na véspera, aqui havia publicado, o orador cativou quantos o escutavam com palavras, de profundo significado filosófico e religioso, alusivas à Árvore. A referência ao carvalhal de Mambrê, onde três anjos beneficiam da hospitalidade deste, permitiu a António Carlos Carvalho estabelecer a ponte com a evocada figura de Rafael, que, durante as décadas em que viveu na casa do Castelo, manteve sempre uma porta aberta aos forasteiros que ali buscavam acolhimento. Não, claro que não! A escolha do dia não foi uma coincidência. Desde ontem, Dia da Árvore, há uma oliveira plantada em sua memória junto à casa onde viveu. Coincidência é ter havido, na noite dos tempos, um lagar de azeite a poucos metros do lugar onde a árvore irá ganhar raízes, algo que só ontem ficámos a saber, pela voz de João Aldeia, Director do jornal O Sesimbrense e autor do blogue Sesimbra, um amigo da filosofia portuguesa que também foi amigo de Rafael Monteiro e que gentilmente nos cedeu as fotografias que agora são publicadas. Hoje, mais logo, em Lisboa, a inquietude prosseguirá o seu caminho.
Em baixo, à esquerda: António Telmo no momento da plantação da oliveira; e, à direita, António Carlos Carvalho, no uso da palavra.
sexta-feira, 20 de março de 2009
ANOTAÇÕES PESSOAIS, 2
Amanhã à tarde, depois da apresentação pública do primeiro número dos «Cadernos», subiremos ao castelo de Sesimbra para plantarmos uma árvore perto da casa que foi a morada de Rafael Monteiro. Porque este sábado se assinala o Dia da Árvore, claro, mas também porque, para nós, esta árvore tem diversos significados.
Plantar uma árvore é muito mais do que um «dever ecológico», um «mandamento verde». Provavelmente, cada um de nós terá razões de coração, muito pessoais, associadas a um gesto destes. Sei que ver plantar uma árvore é, para mim, um voo da memória que me leva até Jerusalém em cujas colinas, por duas vezes, plantei uma árvore, a convite do instituto governamental que trata da reflorestação do país. Mas no fundo de mim havia muito mais do que razões de ordem prática – cada uma dessas árvores transformou-se em laço que me prende a Jerusalém, a cidade de que nunca me esqueço, que habito em sonho e memória, na esperança de ver cumprida a visão de Zacarias.
Na verdade, a árvore faz parte das memórias da minha vida desde sempre: a árvore diante da janela do quarto, como no poema de Régio; o suave murmúrio do vento nas folhas, quando passeava solitário pelas matas (e que depois descobri ser a presença de Deus diante do profeta Elias); a dor dilacerante de uma floresta a arder durante um incêndio de Verão; o odor inebriante das árvores nas ruas do Rio de Janeiro; a sepultura da minha querida gata à sombra das árvores de Monsanto, tal como o túmulo de Menasseh ben Israel no cemitério português de Amesterdão, ele próprio uma pequena floresta com clareiras; as oito colunas da nave dos Jerónimos, erguendo-se para uma abóboda de pedra cujas nervuras parecem ramos de palmeiras – lembrando que a madeira da árvore e a pedra têm ligações físicas e simbólicas, enquanto matéria-prima; e, agora, as árvores frondosas do Jardim da Parada, em Campo de Ourique.
Sim, a árvore esteve sempre ali, à minha espera, interpelando-me silenciosamente.
Sim, a árvore esteve sempre aqui, antes mesmo do início das nossas gerações – que se desenham e desdobram numa árvore genealógica, simbolizada pela árvore de Jessé, o pai de David, início da linhagem messiânica.
A Árvore do Conhecimento do Bem-Mal (assim mesmo, misturados, cujo fruto não é uma «maçã»: fomos enganados por uma má tradução latina – o texto original não indica de que fruto se trata), e a Árvore da Vida pontuam o relato das origens no Jardim do Éden ou das Delícias.
Árvore da Vida, Ets Haim, é também o nome da Livraria (Biblioteca) Montezinos, anexa à grandiosa Sinagoga Portuguesa de Amesterdão, ambas milagrosamente sobreviventes da barbárie nazi. A Biblioteca é hoje considerada a mais antiga do mundo (fundada em 1616 e em funcionamento desde 1675) e contém tesouros preciosos do pensamento português, à espera de alguém que os estude. Pergunto-me se Sampaio Bruno a terá visitado durante os seus anos de exílio... A Torah é igualmente chamada Árvore da Vida. E não é por acaso que Ets Haim é o título de diversos escritos kabbalísticos.
Ainda na Bíblia, onde a árvore tem mais de 120 referências, encontramos depois o carvalhal de Morê (o da visão e do ensino) e o carvalhal de Mambrê (onde os três anjos beneficiam da sua hospitalidade), ligados com a figura primordial de Abraham; a ama de Rebeca é enterrada sob o carvalho de Bethel, o «carvalho dos prantos».
Os Salmos indicam-nos que o homem justo é como uma árvore plantada junto à corrente das águas, que no devido tempo dá fruto e cuja folhagem nunca murcha. Os Provérbios de Salomão dizem que a sabedoria é uma Árvore da Vida para os que a alcançam, e que o fruto do justo é a Árvore da Vida. Por isso o Zohar insiste que o ser humano é uma árvore cujas raízes retiram a sua seiva do próprio céu.
Para nós, é evidente que a árvore nos lembra o nosso próprio caminho: tal como ela, estamos de pé, entre a terra e o céu, ascendendo sempre. Nem sentados nem deitados nem de joelhos -- de pé, humildemente, ligando o céu e a terra. Árvores de Vida.
Tal como a árvore, temos raízes, aqui, nesta terra, mas a nossa seiva vem do céu: é ela que nos mantém vivos e portadores de Vida.
Tal como a árvore, damo-nos a conhecer pelos nossos frutos, por aquilo que damos, que doamos, ao mundo – e aos outros. Existimos numa relação de dom, não de «poder», ilusão estúpida de uma criatura que se esqueceu dessa mesma condição e de quem a criou. Abraham, aquele em quem se cumpre o projecto inicial da Criação, aquele que inicia uma re-criação da humanidade, encarnou a virtude da hospitalidade, o atributo da bondade. Não é por acaso que o texto bíblico refere a sua relação com as árvores, à sombra das quais instala a sua tenda, lugar da Presença, e que seja à sombra d’A Árvore (a árvore por excelência, da qual todas procedem: a Árvore da Vida) que ele pede aos enviados (Anjos) que repousem.
A nós, falta-nos ainda descobrir a Árvore da Vida, talvez por estarmos tão perdidos na floresta do betão e dos seus espectáculos. Mas, de cada vez que plantamos uma árvore, damos um passo no caminho do reencontro, da Aliança. Asssim contribuímos para humanizar o mundo, completando a sua criação – e a nossa.
Amanhã vamos plantar uma oliveira. Sabemos bem que o ramo de oliveira simboliza a paz – mas não foi Picasso que o «inventou», desenhando-o: o símbolo vem já da narrativa do Dilúvio. Da segunda vez que Noé envia a pomba, ela regressa à Arca trazendo no seu bico um ramo de oliveira com as folhas verdes. E assim Noé compreende que as águas tinham cessado de cobrir a terra. Depois da «tempestade» (suscitada por Deus contra aquela humanidade iníqua) chegava a bonança, anunciada por um humilde ramo de oliveira.
Do seu fruto extraímos o azeite, relacionado com a santidade, isto é, com a separação: o azeite não se mistura, como acontece com os outros líquidos. É utilizado na unção e na santificação dos objectos sagrados, mas também os reis e os sacerdotes recebiam o «óleo de unção», azeite puro. David foi assim ungido três vezes – e, imitando-o, algumas monarquias europeias adoptaram esse mesmo ritual de unção na coroação do novo rei. Recebendo o azeite da unção sobre a sua cabeça, que depois lhes escorria pela barba e pelo resto do corpo, esses reis e sacerdotes eram assim separados dos outros e postos ao serviço de uma causa maior. Messias, Mashiah, significa realmente «ungido».
Mas o azeite é igualmente uma substância que se transforma em luz. Hoje, que só o vemos como tempero, esquecemo-nos de que o azeite esteve relacionado com a luz, a das candeias e lamparinas de azeite, cuja chama pode ser comparada à alma. E, no Hebraico, shemen evoca o radical shem, nome: cada homem distingue-se pelo nome, a escolha do nome é uma eleição; escolha e unção estão ligadas entre si. Recebendo este nome escolhido, somos ungidos para um determinado projecto neste mundo.
A partir de amanhã, e enquanto à nossa volta sobem as águas de um outro Dilúvio, agora desencadeado por uma humanidade desorientada (sem luz), sabemos que, ao menos ali, junto da casa do Rafael, temos um ramo de oliveira, uma esperança de paz, à nossa disposição. Que essa oliveira dê fruto e que nós saibamos ainda acender a candeia da nossa alma.
quinta-feira, 19 de março de 2009
EXTRAVAGÂNCIAS, 4
por António Telmo*
Por volta dos anos 70, do século passado já se vê, o castelo de Sesimbra tinha como seu senhor um grande solitário que, como todos que sabem envolver-se de mistério no silêncio e na solidão, atraía irresistivelmente a visitá-lo todos quantos, “ansiosos de espírito”, tinham notícia dele. Por ali passaram a conversar com Rafael Alves Monteiro poetas, pintores, filósofos, toda a espécie de “extravagantes” e também muita mulher bonita. De todas, a mais belamente mágica e a mais inteligente foi Natália Correia. Trouxe consigo a habitual corte de admiradores e apaixonados.
Ali esteve muitas vezes António Carlos Carvalho. E ali vinha, sempre que visitava Portugal, o famoso filósofo francês Georges Gusdorf. Trouxeram-no Orlando Vitorino e José Marinho, seus companheiros na procura da “substantífica medula” do mundo. Lembrarei outros nomes prestigiados: Lima de Freitas, António Quadros, Afonso Botelho, Francisco Sottomayor, Almada Negreiros e Agostinho da Silva, todos já falecidos. Quem estiver atento, de visita ao Castelo, na alta noite silenciosa ainda os poderá ouvir conversar.
Ora aconteceu que, por volta dos anos 70, Hernâni Roque, um dos grandes amigos do grande solitário, esteve à frente da direcção d’O Sesimbrense e, sem que em nada alterasse a excelente fisionomia tradicional do nosso periódico, abriu as páginas centrais à colaboração de tão ilustre gente. Basta lembrar, para marcar a importância da iniciativa, que nelas se publicaram um poema de José Régio, o nosso maior poeta português de então, e uma entrevista com Álvaro Ribeiro, o nosso maior filósofo de sempre.
Por esses mesmos anos, realizaram-se na Biblioteca Municipal, por iniciativa do autor destas linhas, uma série de conferências que, ao tempo, tiveram grande repercussão, sobretudo popular. Destas conferências lembrarei a do grande oceanógrafo Clostermann que veio a originar todo o movimento à volta da criação de um parque marítimo; a de Agostinho da Silva, simulando falar da Grécia antiga, quando aquilo de que estava mesmo falando era do Portugal político e das suas misérias; a de António Quadros repassada de espiritualidade messianista; a de Rafael Alves Monteiro contra as construções titanescas e insectiformes que estavam desfigurando Sesimbra.
Quando recordamos agora que O Sesimbrense chegou a ser apontado na televisão como um periódico fascista precisamente por causa da colaboração que venho referindo, não podemos deixar de observar, à luz do que passo a contar, quanto os políticos não sabem o mal que fazem quando se metem a julgar aquilo que mentalmente os ultrapassa.
O que passo a contar é o seguinte:
Os representantes do Estado na Câmara Municipal de Sesimbra, alarmados com o êxito das conferências, desconfiados com o tom e o teor das comunicações, vão de pensar que era preciso evitar que perigosos pensadores de esquerda falassem livremente com o povo de Sesimbra. Não me deixaram convidar mais ninguém e impuseram-me um conferencista por eles escolhido. Ora era regra por mim estabelecida, a fim de evitar o aborrecimento dos ouvintes, que os oradores não podiam ler discurso escrito, mas deviam sim falar livremente de improviso. Para tanto é necessário coragem, inteligência, imaginação e entrega a Deus.
Aquele que nos foi imposto leu seus papéis e lá fomos aguentando que passasse infindavelmente as folhas até respirarmos de alívio. Este mau hábito de ler quando se fala para o público foi banido do Brasil, onde me aconteceu ver esvaziar-se uma sala cheia de ouvintes logo que o orador pegou nos papéis. O que aconteceu em Sesimbra foi bem mais interessante. Terminada a leitura, seguiu-se o colóquio com perguntas e respostas. Um pescador ergueu o braço pedindo a palavra:
- Diga-me lá! Foi o senhor que escreveu isso?
Respondeu o conferencista: - Então quem havia de ser?
E o inteligente homem do mar: - Eu é que sei?! Pode muito bem ter sido outra pessoa. Como podemos ter a certeza que foi v. que escreveu isso?
*Primeiro Director da Biblioteca de Sesimbra.







