(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



quarta-feira, 18 de março de 2009

A PONTA DO VÉU, 17

Regresso. O de António Telmo à perscrutação subtil da obra-prima de Luís de Camões. Ou de como a aparente ortodoxia que o épico ostenta nas páginas d’Os Lusíadas pode bem encobrir a heresia do cristianismo nestoriano. Eis o que ao leitor é dado ver em A Identidade Religiosa de Luís de Camões, cuja pré-publicação, através de um excerto, encerra hoje o levantar da ponta do véu ao primeiro número dos Cadernos de Filosofia Extravagante.
António Telmo nasceu em Almeida em 2 de Maio de 1927 e vive há muito em Estremoz. Passou a infância em Arruda dos Vinhos e a juventude em Sesimbra, onde foi o primeiro director da Biblioteca Municipal. Na Lisboa dos anos 40 conhece Álvaro Ribeiro e José Marinho, os dois mestres que o iniciam na demanda filosofal. Em meados dos anos 60, a amizade com Eudoro de Sousa e Agostinho da Silva leva-o até Brasília, onde será professor universitário, ainda antes de completar a licenciatura em Filologia Clássica na Faculdade de Letras de Lisboa. Pelo meio, ficam a criação, com os seus condiscípulos, do jornal 57 (título que, de alguma sorte, definirá a sua geração no seio do movimento da Filosofia Portuguesa), e a edição, em 1963, do seu primeiro livro, Arte Poética, onde, no dizer de Luís Paixão, “estão inscritas as premissas daquilo que virá a ser o plano da obra futura: que a literatura iluminada pela filosofia é um instrumento operativo de iniciação, ou seja, de evolução da humanidade no plano do espírito”.
Em 1972, é convidado pelo Ministério da Educação para ir fundar e dirigir a Escola Secundária do Redondo, cargo cujo exercício lhe causou alguns dissabores, por nomear docentes que se opunham ao regime. O Ministério tentará dissuadi-lo, não conseguindo, contudo, os seus intentos. Depois do 25 de Abril, e a par de uma carreira profissional dedicada ao ensino liceal, o escritor irá publicar, com alguma regularidade, uma série decisiva e impressionante de obras pioneiras no panorama filosófico e cultural português, como são os casos de História Secreta de Portugal (1977); Gramática Secreta da Língua Portuguesa (1981); Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões (1982); Filosofia e Kabbalah (1989); O Bateleur (1992); O Horóscopo de Portugal (1997); Contos (1999); Viagem a Granada (2005); Congeminações de um Neopitagórico (2006) e A Verdade do Amor (2008).
Em 2003, os amigos consagram um volume ao estudo da sua obra: António Telmo e as Gerações Novas; e em 2007, assinalando o seu 80.º aniversário, reúnem-lhe a obra poética num livrinho intitulado A Hora de Anjos Haver.
Falar de António Telmo, patrono do projecto editorial da Serra d’Ossa e mentor dos Cadernos de Filosofia Extravagante, envolve sempre o risco de se dizer de menos e o perigo de falar com menor acerto. Apesar do muito que fica por dizer, algo se pode, no entanto, acrescentar, ainda pela voz de Luís Paixão:
“Senhor de uma sólida cultura clássica, fiel à filosofia e à tradição portuguesas, leitor de René Guénon e Julius Evola, estudou o esoterismo das três tradições do Livro Sagrado: a judaica, a cristã e a muçulmana, numa preocupação de descoberta da sua essencial unidade, portadora da esperança do Quinto Império, dito do Espírito Santo.
Patriota convicto e corajoso, conforme é demonstrado pelo conteúdo dos seus livros, desenvolveu um estilo que refere o patente para dizer o oculto, levando subtilmente o leitor a colocar-se num plano de atenção que o confronta com esse profundo mistério que é a realidade sobrenatural do ser humano.
Sempre gratuitamente disponível para uma boa conversa e paciente para com a ignorância dos seus interlocutores, desde que genuinamente interessados na verdade, António Telmo promove há vários anos tertúlias nos locais onde viveu, exercendo um magistério que assenta nos princípios de que a fé em Deus é decisiva, de que a verdade está acima dos indivíduos e de que o “saber ouvir” é condição para “saber dizer”.

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A IDENTIDADE RELIGIOSA DE LUÍS DE CAMÕES


René Guénon nunca fala dos portugueses, mas, como muitos outros textos seus, este, que recolhi do seu famoso livro
O Rei do Mundo, está intimamente ligado connosco. No âmbito do que me propus tratar neste primeiro caderno de filosofia livre, abre caminhos insuspeitados no sentido de determinar a verdadeira identidade de Luís de Camões.

É assim como se segue:

“Na Idade Média havia uma expressão, na qual os dois aspectos medulares da autoridade (régia e sacerdotal) se encontravam reunidos de uma maneira digna de nota. Nessa época falava-se muitas vezes de uma região misteriosa a que se chamava “o Reino do Preste João”. Era no tempo em que o que se poderia designar como a “cobertura exterior” do Centro Supremo era formado numa boa parte pelos Nestorianos (ou o que se convencionou chamar assim com razão ou sem ela) e os Sabeus. E eram estes, precisamente, que davam a si mesmos o nome de “Mendayyeh de Yahia, isto é, “discípulos de João”.”

Em nota ao que vem dizendo, o ilustre francês informa que “se encontraram na Ásia Central, e particularmente na região do Turquestão, cruzes nestorianas que, como forma, são exactamente semelhantes às cruzes da cavalaria.”

Mais adiante, esclarece o que deixou atrás: “Para que ninguém se admire da expressão “cobertura exterior” que viemos de empregar, deve ter-se em atenção, efectivamente, que a iniciação cavaleiresca era essencialmente uma iniciação de Kshatriyas (Guerreiros), o que explica, entre outras coisas, o papel preponderante que aí representa o simbolismo do amor.”

Começa já a desenhar-se a figura guerreira do poeta de Amor Luís de Camões. Esta relação com o texto não terá nada de surpreendente quando nos lembrarmos que os nestorianos na Ásia eram os cristãos de São Tomé, de São Tomé a quem o poeta dedicou nada menos do que doze estrofes d’Os Lusíadas.

(...)

António Telmo

AMANHÃ E SEXTA-FEIRA

Especiais. É algo que bem se pode dizer dos textos de António Telmo e de António Carlos Carvalho que, nos próximos dias, serão publicados neste blogue.

Rafael Monteiro

O escrito do primeiro vem a lume já amanhã e tem carácter histórico. Além de evocar a figura de Rafael Monteiro e o bastião imponente do Castelo de Sesimbra que, décadas a fio, lhe serviu de morada, reporta-se ainda à época, já distante, em que o autor de Arte Poética foi o primeiro director da Biblioteca Municipal de Sesimbra. O artigo do segundo, que surgirá na sexta-feira, confere notória significação ao que vai acontecer no sábado, ao mesmo tempo que encerra uma aliciante dimensão prospectiva.

terça-feira, 17 de março de 2009

A PONTA DO VÉU, 16

Singularidade. A do manuelino como um estilo arquitectónico autêntico, em franca analogia com a autonomia do pensamento português, eis o estatuto que Luís Paixão pretende evidenciar no primeiro número dos Cadernos de Filosofia Extravagante, com Os Templos do Pensamento Português, numa demonstração que leva sobremaneira em conta a influência das tradições hebraica e islâmica, e de que agora se antecipa os dois parágrafos iniciais.

Luís Paixão nasceu em Lisboa em 16 de Fevereiro de 1953. Pertence há cerca de 30 anos ao grupo da Filosofia Portuguesa, num convívio que o fez conhecer Álvaro Ribeiro e António Telmo. Nos últimos anos, tem estado ligado, neste âmbito, à realização de diversos colóquios.

Arquitecto de profissão, exerce a sua actividade em Sesimbra, como profissional liberal, desde 1981. Formado pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, nela completou ainda um curso de pós-graduação na especialidade de conservação e recuperação de edifícios e monumentos. Presentemente, é doutorando na Universidade do Minho, preparando uma tese sobre “Estruturas Manuelinas”.

Foi professor do ensino secundário e professor auxiliar convidado no departamento de Arquitectura do pólo de Setúbal da Universidade Moderna, onde, para além do exercício das suas funções docentes na área da Geometria e, posteriormente, do Projecto, desempenhou ainda o papel de secretário do departamento, bem como o de coordenador nos anos lectivos de 2002/2003 e 2003/2004. Entre os trabalhos finais do curso de Arquitectura que ali supervisionou ou orientou, destacam-se o projecto de execução do núcleo museológico “Casa do Mineiro – Mina de S. Domingos”, bem como trabalhos relativos ao Convento de Jesus, em Setúbal, e ao Convento da Arrábida.

É autor de A Pedra que Fala, monografia sobre o Convento da Arrábida publicada em colaboração com a Fundação Oriente, e com a ACEUPE - Associação Cultural para o Estudo da Arquitectura, Urbanismo e Património Edificado, a que preside. Privilegiando os estudos de arquitectura, urbanismo, estética e simbologia, tem ampla colaboração dispersa por publicações periódicas como Diário de Notícias, Sesimbra Eventos, O Sesimbrense, O Setubalense e Teoremas de Filosofia. E é um dos introdutores do kiudo - tiro com arco japonês em Portugal.
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OS TEMPLOS DO PENSAMENTO PORTUGUÊS

Preâmbulo

Muita tinta já correu em estudos sobre a nossa arquitectura manuelina. Desde o início da nossa História da Arte com Aarão de Lacerda, companheiro de Leonardo Coimbra na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, até aos mais recentes e exaustivos desenvolvimentos de Paulo Pereira e Pedro Dias da Universidade de Coimbra. Paralelamente, num percurso exterior à via universitária, e na linha de Aarão de Lacerda, dois autores discorreram sobre o mesmo tema, mas mais orientados para a exegese e a hermenêutica. António Quadros, com o livro Introdução a uma Estética Existencial, publicado em 1954, defendeu que havia um modo próprio de expressão na arquitectura portuguesa, definindo-lhe as características e designando-o por barroco atlântico. Infelizmente, como acontece frequentemente em Portugal com as obras que defendem a nossa identidade, este livro não teve a divulgação necessária, sendo as suas teses perfeitamente actuais. Coube a António Telmo, com a História Secreta de Portugal, em 1977, a descoberta dos símbolos que existem no claustro do Mosteiro dos Jerónimos, e que narram a iniciação de Nicolau Coelho nessa Cavalaria do mar que os nossos navegadores foram. Este livro foi o começo da viagem que redescobre Portugal, abrindo caminho com renovada esperança para que muitos outros observassem mais atentamente os livros de pedra que são os nossos monumentos, e permitindo maior liberdade e objectividade nas interpretações e na decifração da simbólica.

O conjunto de observações e de intuições acerca da arquitectura designada por manuelino que a seguir transcrevo, constituiu a tentativa de um arquitecto, que exerce actualmente a sua profissão, entender a razão de ser do espaço e das estruturas arquitectónicas que foram construídas no nosso país entre o reinado de D. João II e o de D. João III. Essa intenção provém de eu estar convencido que existe originalidade na arquitectura manuelina e que ela representa efectivamente uma nascença, na afirmação de Jaime Cortesão, sendo simultaneamente a expressão da alma portuguesa. As diferenças são de tal ordem em relação à arquitectura gótica, tanto no plano da estrutura do espaço, como no da estrutura física das construções e no da simbólica, que me parece que deveríamos falar mais em rotura do que em continuidade com a arquitectura cujo enunciado foi elaborado pelo Abade de Saint-Denis e que pontuou a Europa com magnificas catedrais.

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Luís Paixão

segunda-feira, 16 de março de 2009

À SOMBRA DA SERRA DA ARRÁBIDA

Inquietude. No próximo sábado, entre Sesimbra e Setúbal.

[actualizado o blogue da Serra d’Ossa]

domingo, 15 de março de 2009

A PONTA DO VÉU, 15

Pergunta: “Quantos têm a coragem que é necessária para assumir o legado de Álvaro Ribeiro?”. É deste modo que Pedro Sinde, no artigo Harmonia Abraâmica: o triplo anel ou a herança de Portugal, agora dado em excerto, reactualiza e renova o problema da filosofia portuguesa no primeiro número dos Cadernos de Filosofia Extravagante, assinalando e acentuando a confluência das três religiões monoteístas na formação do nosso pensamento tradicional.
Pedro Sinde nasceu no Porto em 1972. Ali, na Faculdade de Letras, se formou em Filosofia. Presentemente, vive em Matosinhos e é bibliotecário na sua terra natal. Tem andado pela filosofia portuguesa desde 1997, altura em que conheceu António Telmo em Estremoz. De lá para cá tem procurado compreender a especificidade portuguesa no seio da Tradição universal.
Dirigiu, com Joaquim Domingues, a revista Teoremas de Filosofia (Porto, 2000-2005), na qual publicou vasta colaboração. Traduziu um pequeno ensaio biográfico sobre Julius Evola, Evola de Jean-Paul Lippi. Prefaciou edições da Teoria Nova da Antiguidade, de Sampaio Bruno, para a INCM, e da Mensagem, de Fernando Pessoa (preservando a grafia original deste livro), para a Porto Editora. Integrado no volume António Telmo e as Gerações Novas (Hugin, 2003), publicou o ensaio “Deambulações em Torno de Filosofia e Kabbalah”.
É autor dos livros O Velho da Montanha - A Doutrina Iniciática de Teixeira de Pascoaes (Hugin, 2000); Terra Lúcida – A Intimidade do Homem Com a Natureza (Pena Perfeita, 2005); A Montanha Mística / Cartas da Prisão (Terras de Fogo, 2007); e, na Serra d’Ossa, em 2008, d'O Canto dos Seres: Saudade da Natureza.

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HARMONIA ABRAÂMICA: O TRIPLO ANEL OU A HERANÇA DE PORTUGAL

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3. O legado de Álvaro Ribeiro

Quantos têm a coragem que é necessária para assumir o legado de Álvaro Ribeiro? Muitos o citam, mas poucos o aceitam integralmente: “Três tradições concorrem na formação do pensamento português: a judaica, a cristã e a islâmica”; “Três tradições concorrem para a formação da filosofia portuguesa”; “Três tradições inspiram a filosofia portuguesa”; ou ainda “As três tradições portuguesas decorrem à margem da disciplina clássica e impregnam muito mais a alma popular (…)”. E, consequentemente, estimulava os estudiosos, como Garcia Domingues ou Mendes dos Remédios, por estudarem respectivamente a tradição luso-árabe e luso-hebraica.
Vendo Portugal como uma forma em que peculiarmente as três tradições se integraram, Álvaro Ribeiro, no seu messianismo profético, chega mesmo a referir, como contraponto ao Super-Camões de Pessoa, um Super-Dante, citando de seguida os estudos de Asín Palacios que vieram demonstrar como a cultura cristã de Dante tinha por fundamento a cultura islâmica. É verdade que Miguel Asín Palacios, com o seu livro La escatologia musulmana en la Divina Comedia, demonstrou, de um modo nunca mais desmentido e sempre mais confirmado, que a cultura cristã e a cultura islâmica se casaram perfeitamente em Dante. Ainda noutra referência a Dante, Álvaro Ribeiro lembra que a significação mediterrânea aristotélica da sua obra muito influiu na cultura portuguesa. Deste modo, soube Álvaro Ribeiro dar expressão a esta ideia de que Portugal só pode esperar um “super-Camões”, isto é, um novo grande poeta, que seja simultaneamente o herdeiro da nossa tripla tradição. Nas suas palavras está sempre patente um elogio seja do marrano, seja do mourisco, como duas formas que perduraram no tempo, influenciando subtilmente mesmo os autores contemporâneos; a propósito de Garcia Domingues, por exemplo, diz: “mas oxalá que o ilustre autor da História Luso-Árabe prossiga nas suas investigações para nos dar as provas de que a mesma tradição perdurou até aos nossos dias e influi ainda no pensamento de alguns escritores nossos contemporâneos.” (Dispersos, vol. II, p. 249).
(...)
Pedro Sinde

UM LIVRO, UMA ÁRVORE...

Estreia. A dos Cadernos de Filosofia Extravagante vai ficar marcada por um acto de grande significado simbólico: a plantação de uma árvore no Castelo de Sesimbra, como forma de assinalar a vinculação a esta terra do projecto nascente; e de, em simultâneo, se evocar, em preito de homenagem, o historiador e filósofo sesimbrense Rafael Monteiro, que durante décadas ali viveu.
A menos de uma semana do surgimento de Universalidades, primeiro número dos Cadernos de Filosofia Extravagante, convém recordar que a sessão de lançamento é no próximo sábado, dia 21, pelas 15 horas, na Biblioteca Municipal de Sesimbra. A apresentação será feita por três dos colaboradores desta publicação não-periódica da Serra d'Ossa: Luís Paixão, Isabel Xavier e Rodrigo Sobral Cunha. Segue-se, às 17:30, a plantação da árvore no Castelo.
No dia seguinte, domingo, 22, será a vez da Galeria Matos Ferreira, em Lisboa, acolher, pelas 18 horas, uma nova sessão destinada à apresentação deste projecto da Serra d'Ossa, que contará com a participação de António Telmo, Pedro Martins e Renato Epifânio.

quarta-feira, 11 de março de 2009

A PONTA DO VÉU, 14

Hermenêutica. Foi o que Pedro Martins procurou fazer ao Jesus Cristo em Lisboa, tragicomédia em sete quadros que Teixeira de Pascoaes escreveu em parceria com Raul Brandão, e que veio a lume no início de 1928. O resultado será, porventura, surpreendente: por detrás da aparente ortodoxia da peça, emerge uma cristo-angelogia que evoca a heresia de Prisciliano e o judeo-cristianismo dos três primeiros séculos da nossa era, que foi o da primitiva Igreja de Jerusalém, reunida em torno de Tiago, o Justo, e também o do ebionismo. Deixa-se ao leitor o começo do artigo.

Pedro Martins nasceu em Lisboa, em 22 de Janeiro de 1971, dia de São Vicente. Vive actualmente em Sesimbra, na Cotovia. Frequenta a tertúlia de António Telmo, em Estremoz.

Jurista de profissão, formou-se em 1993, na Faculdade de Direito de Lisboa. Entre 1998 e 2005, foi colaborador da Câmara Municipal de Sesimbra nas áreas da informação e da cultura, tendo sido um dos editores da agenda e revista cultural Sesimbra Eventos e um dos coordenadores da colecção Livros de Sesimbra. Colaborou nas revistas Sesimbra Cultura e Teoremas de Filosofia.
Tem estado ligado à organização de vários colóquios de filosofia portuguesa: A Filosofia Portuguesa de Álvaro Ribeiro (Sesimbra, 2005); Agostinho da Silva e o Espírito Universal (Sesimbra, 2006); No Signo do 7 – 150 Anos de Filosofia Portuguesa (Sesimbra, 2007). Publicou O Anjo e a Sombra – Teixeira de Pascoaes e a Filosofia Portuguesa (Pena Perfeita, 2007); Palavras Que Fazem Ver – 57 Livros para a História da Filosofia Portuguesa (catálogo da exposição, Câmara Municipal de Sesimbra, 2007); e, na Serra d'Ossa, em 2008, O Céu e o Quadrante: desocultação de Álvaro Ribeiro.
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UMA HERESIA DE PASCOAES
Algumas notas sobre o Jesus Cristo em Lisboa
«E perguntados – conta Fernão Mendes Pinto – se tinhão
em sua lei que viera Deos em algum tempo ao mundo,
vestido em carne de homem humano, disserão que não,
porque não podia haver cousa que obrigasse a tamanho extremo;
porque pela excelência da natureza Divina estava livre de nossas misérias,
e muito esquecido de cobiçar thesouros da terra
porque tudo era pouquidade na presença de seu resplendor.»

Jaime Cortesão

O Humanismo Universalista dos Portugueses


Que Teixeira de Pascoaes cultivou a heresia, sabemo-lo pelo próprio. O poeta confessa-o na suma antropológica d’O Homem Universal: “Sou um ignorante, no campo da ciência; e, no campo teológico, um herético”. Noutro passo do mesmo livro, Pascoaes retoma o rasto da confidência: “Quem glorifica um escritor? E um escritor herético para crentes e descrentes? E até para ele mesmo? (…) //Quem aplaude um escritor herético em todos os sentidos? Aplaudi-lo! Ou o queimam num auto-de-fé ou num auto contra a fé! Ou, mil vezes pior, escrevem, acerca dos seus trabalhos, baboseiras, nos jornais!” No lance, a acrimónia do escritor terá sobretudo ficado a dever-se à viva hostilidade com que o São Paulo havia sido recebido, três anos antes, em meios antagónicos. Não fora essa, porém, a primeira vez que um livro do mentor do Saudosismo lograra suscitar controvérsia na opinião pública, ou publicada, por mor das ideias religiosas que nele eram veiculadas…
Com efeito, e sem necessidade de maior regressão na escala cronológica, dir-se-á que já em 1928 a edição do Jesus Cristo em Lisboa, tragicomédia em sete quadros escrita em parceria com Raul Brandão, tinha de pronto gerado celeuma junto de alguns círculos católicos, como os que eram representados pelo jornal A Voz, um diário da capital em cuja edição de 24 de Janeiro daquele ano surge inserta violenta notícia sobre a peça. Nela se previne os leitores “de que o livro dos Srs. Pascoaes e Brandão não deve ser comprado nem lido pelos católicos”. O escrito, em que se transcreve parte de um artigo publicado, na véspera, no Diário de Lisboa, chega a ser insultuoso para os dois escritores, a quem se atribui, pasme-se, um estado de acentuada decadência!
Pascoaes não gostou e, acto contínuo, escreveu ao periódico católico. Poucos dias depois, dará a resposta devida ao Diário de Lisboa, em defesa já subscrita também por Raul Brandão. A tónica que perpassa as duas reacções pode resumir-se nisto: a peça não ataca os dogmas do Catolicismo; tem apenas o intuito de acordar o espírito cristão no meio social. Não é herético representar Jesus num trabalho literário, como o não é pintar ou esculpir a figura de Cristo.
Na verdade, não há vislumbre evidente de heresia à superfície deste livro admirável. Nem será, aliás, de crer que dois dos mais poderosos criadores literários do século XX português tenham amiúde e insistentemente citado ou glosado trechos dos Evangelhos (sobretudo do de Mateus, mas também dos restantes) para encobrirem supostas carências da sua imaginação. A pertinácia com que as personagens de Pascoaes e Brandão actualizam, pela palavra ou pelo gesto, as passagens do Novo Testamento, parece radicar no propósito preciso de colocar a acção dramática em perfeita conformidade com os ensinamentos de Cristo.
E no entanto…
(...)
Pedro Martins

segunda-feira, 9 de março de 2009

ABDEL HAYY, IPSIS VERBIS

Naturalmente, já passou. Ninguém recorda as declarações do Cardeal; porém, a mim parece-me preferível deixar o tempo passar e ver o que é que fica daquilo que passou.
O que ali mais me deu, e dá ainda, que pensar, uma vez que não fiquei "chocado" (o que é que ainda nos pode chocar?), não foi a referência aos casamentos com muçulmanos, mas outra coisa, quer dizer, aquilo que verdadeiramente me impressionou e até assustou foi o facto de o Sr. Cardeal ter afirmado que estavam agora "a dar os primeiros passos" no diálogo com o Islão. Esta afirmação parece ter passado despercebida a toda a gente e, no entanto, foi a declaração que mais deveria ter "chocado" as almas sensíveis que logo acorreram prontas a atacar tudo quanto diga respeito à religião: seja porque entendiam que o Sr. Cardeal era reaccionário, seja porque entendiam que os muçulmanos são brutos com as mulheres - mas tudo apenas para que, por um ou outro lado, pudessem atacar a religião.*
Uma declaração destas parece demonstrar uma estranha insensibilidade (prefiro pensar que não é ignorância) em alguém que desempenha funções muito importantes dentro da hierarquia do clero da Igreja. O Islão existe há mil e quatrocentos anos e, em muitos países, cristãos, judeus e muçulmanos têm sido vizinhos de porta (literalmente). Portugal é um destes países. Não se entende como é que o Sr. Cardeal possa ter passado ao lado ou por cima da riquíssima história multi-secular que une e separa as duas religiões. É como se de repente o Islão tivesse aparecido em Portugal apenas há uns anos.

A PONTA DO VÉU, 13

Decifração. É o que Alexandre Teixeira Mendes se propõe versar em Poética (e Configurações) Marrana(s), de que agora se publica um excerto. Trata-se de uma abordagem ao cripto-judaísmo que, durante séculos, perpassou a literatura portuguesa, em especial desde a catástrofe da Inquisição. Mas a inquirição do duplo sentido e das meias palavras não é apenas questão de heterodoxia, ou de heresia. É também a demanda de uma condição sui generis, qual a do marranismo emergindo na sua poética.
Alexandre Teixeira Mendes nasceu em Refojos, Cabeceiras de Basto, em 1959.
Foi profissional de jornalismo em O Primeiro de Janeiro e no Jornal de Notícias. É poeta e ensaísta, contando-se, entre os seus livros, títulos como Dourada A Têmpera (Lisboa, edições tema, 2000); Do Verbo Escuro ou da Pronunciação que não cessa (Lisboa, edições fluviais, 2002); Despre uorbirea oculta sul despre pronuntia care nu inceteaza (Editura Nereaia Napocae, Cluj, 2003); Cegueira do Propício (Lisboa, edições do buraco, 2005); Non Omnis Confundar (Porto, incomunidade, 2006); Até quando o incêndio em Sepharad (Porto, incomunidade, 2007); e Barros Basto – A Miragem Marrana (Ladina, 2007).
É membro da Direcção da Ladina – Associação de Cultura Sefardita e da AJHLP – Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Tem colaborado em diversas publicações de índole literária e ensaística, como Artes e Letras, O Tripeiro e Agália (Santiago de Compostela). Conferencista em diversos encontros portugueses e galego-portugueses, dedica-se em especial ao estudo da poética e da filosofia portuguesa.
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POÉTICA (E CONFIGURAÇÕES)
MARRANA(S)

É verdade que até ao último terço do século XIX a própria historiografia e filosofia positivista – especialmente a académica – renunciava à reflexão em torno da religião, da arte e da poesia marranas. Tornou-se necessário não somente projectar para a primeira cena um novo personagem - o cripto-judeu - mas também demonstrar a intrínseca relação do marranismo com a cultura e o pensamento portugueses, e isto foi realizado por Sampaio Bruno. O desafio consistiu em circunscrever explicitamente (num determinado contexto espácio-temporal e ideológico “avant-garde” do “fin-du-siècle”) os diferentes aspectos sob os quais pode ser considerado sumariamente o problema complexo da fé – o núcleo da individuação religiosa marrana sephardi – relativamente à qual nos limitamos a referenciar paradoxalmente, diríamos, o traçado do chamado catolicismo (que acabou saindo vitorioso) e o mosaísmo (como uma tradição que é transmitida).

Recalcamento
Falámos de um sincretismo (presente no converso) por demais inegável (em uma complexidade contraditória) e também de um quadro psíquico de recalcamento, como mais adiante veremos, que, assim, subsistiu através de gerações (o retorno inelutável do reprimido). Reconhecendo a importância do engajamento marrano – a partir de diversos índices discursivos – poético-narrativos – não deixaremos, contudo, de considerar a dialéctica do infinito do sentido – a redenção pela linguagem. Aqui se torna evidente a urgente necessidade de procurarmos uma via de acesso adequada à determinação do marranismo - a pedra de toque dos comportamentos, das práticas e de um sistema de crenças bastante distintas – tomando em consideração a imagem de si – construída no e pelo discurso. É muito fácil de ver que a escrita e a criação literárias marranas – na sua dis(con)junção – lance de dados – traçou uma linha de demarcação da arte como criptografia metafísica. Seguramente. Trata-se de re(des)velar a (sub)cultura fazendo ecoar a letra e a voz que o anátema – a coerção inquisitorial – fez calar. Neste contexto, o importante é ter em conta que a liberdade se insere na dimensão do imperscrutável.
(...)

Alexandre Teixeira Mendes

domingo, 8 de março de 2009

A PONTA DO VÉU, 12

Universalidades. É o título dado ao primeiro dos Cadernos de Filosofia Extravagante, e está bem visível na capa desta nova publicação, não-periódica, da Serra d'Ossa Edições. Reflecte, com notável acuidade, o denominador comum às diversas propostas que aguardam os leitores. O desenho da capa é da autoria do pintor e filósofo Carlos Aurélio.

O lançamento será em Sesimbra, na Biblioteca Municipal, no próximo dia 21 de Março, sábado, pelas 15 horas. A apresentação estará a cargo de três colaboradores dos Cadernos: Luís Paixão, Isabel Xavier e Rodrigo Sobral Cunha.
No dia seguinte, domingo, haverá nova sessão de apresentação, desta vez em Lisboa, na Galeria Matos Ferreira. Terá início às 18 horas, e contará com a participação de António Telmo, Pedro Martins e Renato Epifânio.
Entretanto, a duas semanas do surgimento dos Cadernos, continuamos a levantar a ponta do véu que os encobre. Hoje é chegada a altura de lhe revelarmos o alinhamento do primeiro número.
[actualizado o blogue da Serra d’Ossa]

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Apresentação

A noz, António Carlos Carvalho

Poética (e configurações) marrana(s), Alexandre Teixeira Mendes

A identidade religiosa de Luís de Camões, António Telmo

Harmonia abraâmica: o triplo anel ou a herança de Portugal, Pedro Sinde

Sê, para que tudo seja (o som abstracto), Rodrigo Sobral Cunha

Repensar o problema da filosofia portuguesa, Elísio Gala

Dois poemas, Isabel Xavier

Uma heresia de Pascoaes, Pedro Martins

Um galo a Asclépio, Avelino de Sousa

Os templos do pensamento português, Luís Paixão

Coincidências, Cynthia Guimarães Taveira

Para o preâmbulo de um estatuto senatorial, Fuas Paquim

Carta ao Professor, Maria do Resgate Almadanim

Neve (sonho), Avelino de Sousa

Carta a Pedro Martins, António Telmo

Páginas de autobiografia espiritual, Paulo Júlio Guerreiro dos Santos

Livre interpretação do mito de Teseu e o Minotauro, Avelino de Sousa

sábado, 7 de março de 2009

EXTRAVAGÂNCIAS, 3

As Duas Asas da Cotovia*
por Pedro Martins

No Verão que passou, recebi a visita inesperada de um amigo distante, há muito ausente de Sesimbra. Entre nós, poucos serão hoje os que ainda se recordam do porte distinto que Adolpho Rubens Cairo invariavelmente conferia à sua figura, sempre que, em manhãs solares cheias de gritas e gaivotas, percorria num afã peripatético o passadiço que outrora enleou o Macorrilho e o Alcatraz. Absorto do alarido próximo, Rubens Cairo colhia na aragem corrente o ânimo circunspecto com que, na companhia de algum confrade, discreteava sobre a Monadologia de Leibniz ou qualquer outro livro de jaez maravilhoso. E, no entanto, este homem austero, que, há cerca de doze anos, me foi apresentado num museu de Lisboa, é de seu ofício um fascinante pintor de arte, não tendo nunca, segundo se sabe, vertido em letra de forma, ao longo de uma vida já entrada, a mais insignificante cogitação. (...) ler mais
*versão, ligeiramente diferente, da crónica divulgada na entrada anterior.

PARA LER

Uma crónica de Pedro Martins, evocando Raul Brandão e Teixeira de Pascoaes, nas edições on-line de Janeiro (1.ª parte) e Fevereiro (2.ª parte) de 2009 d'O Sesimbrense.

sexta-feira, 6 de março de 2009

A PONTA DO VÉU, 11

Palavras. Para além das imagens. De Cynthia Guimarães Taveira, de quem já aqui se falou. Para além das ilustrações que brotam dos seus desenhos, há um ensaio da sua autoria no primeiro número dos Cadernos de Filosofia Extravagante. Intitula-se Coincidências e começa assim:

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COINCIDÊNCIAS

Há qualquer coisa de absolutamente selvagem nas coincidências. Elas nunca são procuradas e, no entanto, aparecem-nos sem que estejamos à sua espera. São uma espécie de Pã, no meio do caminho, sobressaltando-nos o passo, agitando-nos a alma. Absolutamente imprevisíveis e selvagens, podem estar disfarçadas de uma ordem aparente, são fingidoras que fingem o que deveras são. Se se diz “não há coincidências” o termo é dúbio. Não há coincidências efectivamente ou elas existem tão verdadeiramente que se afirma a sua existência negando-a? O problema está na interpretação da frase e, curiosamente, a língua portuguesa às vezes não é nada traiçoeira, é absolutamente exacta nas segundas intenções que evoca pois, dito desta forma, todas as coincidências carregam consigo o problema da interpretação, tal como a frase que as afirma negando-as. Há coincidências, mas elas de nada valem se não forem interpretadas. E a frase é um convite à interpretação das coincidências do caminho.
A matemática é uma gigantesca coincidência, daí que Einstein tenha dito que Deus, provavelmente, era uma fórmula. A suprema das coincidências. É curioso como os números se compõem e decompõem e geram novos números, e regressam a si, e mostram circuitos e movimentos, e balancés pendulares. É uma coincidência que a matemática exista na espiral de um búzio, na elipse dos planetas, no desregulado rigor da teoria do caos, no desenvolvimento exponencial de uma acção, nas probabilidades de uma lotaria. Se essa gigantesca coincidência que é a matemática está presente nos aspectos mais ínfimos e nos maiores da natureza, quase que se poderia dizer que a vida surge de uma coincidência e nela vive. Mas, ao mesmo tempo, não há coincidências. O acaso de estarmos vivos tem tanto de acaso como não tem nada a ver com ele. É um acaso esta mistura genética que somos ou o lugar onde vivemos e, ao mesmo tempo, não é acaso nenhum, pois temos a percepção do eterno e comportamo-nos como se sempre tivéssemos existido e para sempre fôssemos existir. Não nos estranhamos. Não estranhamos este acaso. E quando estamos neste estado de naturalidade com o acaso que somos, para quê estranhar as coincidências que nos cercam? Para quê sequer interpretá-las? A coincidência, em termos psicológicos, está para o destino como o acaso está para o livre arbítrio.
(...)
Cynthia Guimarães Taveira

quinta-feira, 5 de março de 2009

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 1

António Carlos Carvalho

Há uma semana, o meu computador começou a enviar-me mensagens aflitivas: está a ficar com pouca memória. Não pude deixar de sorrir – um sorriso de vitória. Também tu... Sempre me queixei de falta de memória, minha, ao longo da vida (esqueço-me facilmente de nomes de pessoas e de títulos de obras, tenho dificuldade em decorar textos, etc.) e agora queixo-me da falta de memória dos meus contemporâneos, sobretudo de alguns mais novos do que eu e que julgam que o mundo começou com eles e que já nasceram a saber tudo.
É, aliás, típico desta época confiar a memória ao computador. E, depois, temos resultados destes...
Por coincidência, tenho andado a ler (e a anotar, à mão, claro) um livro recente, muito interessante: «Talmud – enquête dans um monde très secret», de Pierre-Henry Salfati (ed. Albin Michel). O autor faz um verdadeiro périplo pelo mundo dos talmudistas actuais, de Jerusalém a Nova Iorque, passando por Paris, Veneza, Londres ou Worms. Uma investigação cheia de pormenores curiosos, incluindo a importância que o Talmude teve no processo de divórcio de Henrique VIII, o ódio que Lutero tinha ao Talmude e aos judeus em geral, o estudo diário do Talmude por um grupo que faz a viagem de comboio, todas as manhãs, entre Long Island e Manhattan.
Mas o mais importante para mim, a contas com esta questão da memória, é o que Salfati conta a certa altura: quando era estudante na yechiva (escola talmúdica) de Brunoy, desceu às caves desse antigo palácio, transformadas em túmulo ou catacumba para os livros demasiados usados no estudo (na tradição judaica, estes livros não se deitam fora, são guardados em lugares especiais, «guenizot», onde se vão desfazendo, esfarelando). Mais tarde, enquanto fazia a investigação para este livro, voltou a a descer às mesmas caves para ir buscar um fragmento do Talmude que fosse pouco maior do que a unha do polegar, que não contivesse uma frase inteira. Salfati queria comprovar se era verdade o que diziam os estudantes a respeito de um dos seus mestres, o rav Hillel Pevzner: era capaz de reconhecer qualquer passagem do Talmude numa simples vista de olhos (só o Talmude da Babilónia conta 37 tratados repartidos por 20 volumes de 35 centímetros de altura, ou seja, mais de 2700 páginas, sem contar com os comentários anexos no final de cada volume, que representam mais ou menos a mesma quantidade...).
Salfati e um grupo de alunos igualmente curiosos apresentam então o minúsculo fragmento ao rav Hillel e este demora apenas uns 20 segundos a reconhecer o pedacinho de papel: «Tratado Menahot, página 22, verso; comentário dos Tossefot, o primeiro no alto da página.» E era verdade... Espanto geral. Excepto por parte do rav: «Porquê todo esse vosso espanto? Isto não é nada. O meu mestre é que era um génio. Na yechiva de Samarkanda, divertíamo-nos a passar um lápis pela capa de um qualquer volume fechado do Talmude; a certa altura parávamos o lápis e o nosso mestre era capaz de nos recitar as palavras de cada página que se encontravam no prolongamento do lápis. Cada palavra, em cada página, de um lado e do outro. Isso é que é razão para espanto. Eu não sou capaz de fazer tal coisa.»
Lendo esta descrição, lembrei-me, inevitavelmente, do que George Steiner (que não é um talmudista) contou a respeito da sua infância: o pai obrigava-o a decorar páginas inteiras de clássicos gregos e só depois o menino George podia ler romances e outras frivolidades... Daí o elogio apaixonado que Steiner faz sempre do «saber de cor» (de memória, de coração... interessante associação).
Foi sabendo de cor páginas inteiras do Talmude que muitos judeus resistiram aos campos de concentração, agarrando-se à memória viva, feita gente, da tradição oral sobre a Torah, elaborada ao longo de mais de sete séculos por sábios que viveram em Israel e na Babilónia até ao início da Idade Média. Essa sucessão interminável de questões e respostas que suscitam outras questões é muito mais do que parece à primeira vista: é a prova provada de que a memória nos mantém vivos e de que as palavras dos homens nunca conseguem esgotar os infinitos sentidos das outras Palavras, as que foram divinamente inspiradas. Segundo a tradição judaica, o Talmude não é uma obra acabada: é a verdadeira obra aberta, sempre pronta a receber as novas contribuições das gerações seguintes. Que usam a memória e a palavra para prosseguir o diálogo.
E eu, aqui no meu cantinho, ao teclado de uma maquineta estúpida com falta de memória (pelos vistos ainda mais do que eu), só posso sentir inveja.

A PONTA DO VÉU, 10

Descoberta. Eis a marca da proposta com que Rodrigo Sobral Cunha colabora no primeiro número dos Cadernos de Filosofia Extravagante. Por ela se dá a conhecer Hazrat Inayat Khan – o nome de um sufi emergente na transição do século XIX para o século XX, e ainda quase desconhecido em Portugal –, mediante a tradução do texto meditativo intitulado “Be, and All Became (the Abstract Sound)”, integrado na obra The Music of Life. The Inner Nature and Effects of Sound. Essa versão surge precedida de uma nótula da autoria do próprio Rodrigo Sobral Cunha, que visa introduzir o leitor no universo de Inayat Kahn, e de cujo início antecipamos agora um trecho.

Rodrigo Sobral Cunha nasceu em Lisboa, aparentemente em 1967. Fez estudos de Filosofia, tendo-se doutorado na Universidade de Évora. Lecciona presentemente no IADE. É autor dos livros Filosofia do Ritmo Portuguesa, editado pela Serra d’Ossa em 2008, e A Teoria Silvestrina da Harmonia do Universo – Homem, Mundo e Deus na Obra de Silvestre Pinheiro Ferreira, também saído no ano passado, mas com a chancela da INCM. Tem desenvolvido ampla actividade como tradutor no domínio filosófico. É nadador nas horas intravagantes e jogador de bilhar nas extravagantes. Nas horas mais sérias, é caminhante. E é leitor da Flor de Oiro.
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SÊ, PARA QUE TUDO SEJA
(O SOM ABSTRACTO)

Nótula

“Harmonizar Oriente e Ocidente pela música” foi a tarefa que generosamente aceitou Hazrat Inayat Khan, “cuja nação era todas as nações, o local de nascimento o mundo, a religião todas as religiões e o trabalho o serviço de Deus e a humanidade”, como dele próprio disse. E ele mesmo caracterizou essa tarefa como “a mais difícil que poderia alguma vez imaginar”, ainda que a música, no sentido em que a entendia, fosse a própria essência do universo. A escala ideal da actuação magistral de Inayat Khan é dada no seu objectivo de “sintonizar as esferas interiores dos países num tom de vibração mais alto”. Foi praticamente há um século que esse sufi pisou o solo do Ocidente e o eco dos seus passos de paz pode escutar-se ainda com uma surpreendente nitidez.
Anotou ele num registo autobiográfico: “Fui transportado pelo destino do mundo da lírica e da poesia para o mundo da indústria e do comércio, a 13 de Setembro de 1910. Despedi-me da minha terra-mãe, o solo da Índia, a terra do sol, para a América, a terra do meu futuro, interrogando: ‘talvez eu regresse um dia’, e contudo não sabia quanto tempo passaria até voltar. O oceano que tinha de atravessar pareceu-me um golfo entre a vida passada e a vida que ia começar. Passei os meus momentos no barco a olhar para a subida e a descida das ondas e vendo aí reflectida a imagem da vida, a vida dos indivíduos, das nações, das raças, e do mundo.” Logo nos primeiros títulos das obras que publicou no Oeste, aliás num inglês de uma notável claridade, transparecem os aspectos perenes do horizonte contemplado:
“A Message of Spiritual Liberty”, “Pearls from the Ocean Unseen”. Mas era no exemplo pessoal e no contacto directo que especialmente se empenhava e raramente será encontrável algo de semelhante ao modo como Inayat Khan conjugou os pólos interior e exterior do fenómeno religioso; já que, conforme entendia, “a religião é a fundação de toda a vida no mundo e enquanto não se estabelecer um entendimento entre os seguidores de todas as diferentes religiões, será sempre difícil esperar por melhores condições”. Ciente da magnitude da causa a que se dedicara e procurando sempre transcender todas as limitações, até para melhor conhecer o ilimitado, podia assim observar: “quanto mais se alarga o ponto de vista, maior é a alma”.

(…)

Rodrigo Sobral Cunha

quarta-feira, 4 de março de 2009

JÁ NA GRÁFICA...


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A PONTA DO VÉU, 9

Estreia. E absoluta – a de Paulo Júlio Guerreiro dos Santos, com as suas Páginas de Autobiografia Espiritual, que vão ser dadas à estampa no primeiro número dos Cadernos de Filosofia Extravagante. Aqui ficam alguns parágrafos.
Paulo Júlio Guerreiro dos Santos "tem vivido constantemente em trânsito e recurso. Estudou Artes Marciais. Estuda Física e Matemática e também Metafísica e Grego Clássico na Universidade de Lisboa. Tem por hábito preocupar-se com coisas com que quase mais ninguém se preocupa. Continua sem saber se isso é bom ou mau."
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PÁGINAS DE AUTOBIOGRAFIA ESPIRITUAL
(...)
Pergunto-me hoje, já não tanto pelo que o Ser é – há dias em que isso já não me interessa, só quero é ser feliz – mas mais donde me vem esta certeza radical que é no fundo de mim que se abrem as portas do Céu.
Tenho de descer como quem escala, recordar o caminho de volta, por onde subi em tempos imemoriais? Tenho de reviver a dor de me ter construído, acordar desta realidade de formas distintas e independentes, recriar o texto e reordená-lo em formas dependentes, e transmutar a síncrese em síntese e depois passar à unidade?
Tenho de viver a minha vida ao contrário?
(...)
Paulo Júlio Guerreiro dos Santos

terça-feira, 3 de março de 2009

MONTEMOR, 1 DE MARÇO: A MESA

Testemunhos

A PONTA DO VÉU, 8

Homenagem. É o sentido último da carta que Maria do Resgate Almadanim endereça a António Telmo no primeiro número dos Cadernos de Filosofia Extravagante e cuja parte final oferecemos aos leitores.

Maria do Resgate Almadanim nasceu a 31 de Maio de 1966 em Montemor-o-Novo. Joalheira de formação e designer gráfica, foi durante quinze anos professora de Educação Visual no ensino secundário. Em 2002 criou a Associação Casa João Cidade, uma IPSS para jovens e adultos deficientes mentais, em Montemor-o-Novo. Neste momento, assume como ocupação principal a agricultura e a conservação da Natureza com o projecto da Herdade dos Fartos e da Defesa das Cegonhas.
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CARTA AO PROFESSOR

(...)

Concluo?:

- É “verdade” que a “boa arte” é

a “arte de não fazer nada” com o propósito de “bem fazer”,

só possível sem “ideia” sem “me” e sem “mentir”,

no “lugar do nada onde tudo é possível”?

Gosto desta “ideia” parece – “me” “verdadeira”.


Sr. Professor António Telmo um eterno, constante e imperecível agradecimento, por me e “me” e “nos”, ter permitido na sua/nossa vida.
Um abraço,

Assinamos
Nós 3
Maria do Resgate Almadanim

MONTEMOR, 1 DE MARÇO: OS ORADORES

PARA LER

Dois escritos inéditos de António Telmo. Aqui.

segunda-feira, 2 de março de 2009

MONTEMOR, 1 DE MARÇO: VISTAS GERAIS


PALAVRAS QUE FAZEM VER, 4

[Álvaro Ribeiro, António Telmo e a poesia lírica]
Mitos. "De certo, como adverte António Telmo em seu ensaio sobre Arte Poética, nem todo o lirismo se limita ao registo passivo e rítmico dos acontecimentos psíquicos que afectam os adolescentes. A poesia vale na medida em que seja uma arte ou técnica de invenção, ficção e mitologia. Embora para as pessoas medianamente cultas não seja difícil entender que na poesia épica como também na poesia dramática, o que avulta necessariamente é a verdade ou a ficção da mitologia, porque a exemplificação da doutrina é o conteúdo da história da literatura, já parece mais difícil manter a afirmação no que respeita à poesia lírica.

António Telmo mostra e demonstra que no lirismo superior o poeta desprende-se da sua sensitividade pessoal porque tem presente na imaginação, ou imagina e finge ser uma personalidade superior. O poeta contrasta com o seu mito. Compete ao intérprete ou hermeneuta determinar qual seja esse mito entre os mitónimos possíveis, embora se reconheça que os mitos mais frequentes sejam os clássicos Narciso, Orfeu e Prometeu."

Álvaro Ribeiro

(in "Progresso e Tradição", Dispersos e Inéditos, III, INCM, 2005)

domingo, 1 de março de 2009

12 TEOREMAS DO «57»: MONTEMOR ACOLHEU O SIMPÓSIO INAUGURAL

Simpósio. Por uma notável coincidência, o primeiro dos quatro simpósios dedicados aos doze teoremas do 57 – trata-se de um ciclo organizado pelos Cadernos de Filosofia Extravagante – teve lugar hoje, 1 de Março, dia do nascimento de Álvaro Ribeiro. A sessão, como é sabido, decorreu na Livraria Fonte de Letras, em Montemor-O-Novo (ao longo do ano, será sempre assim), foi coordenada por Helder Cortes e teve casa cheia, pois na assistência estavam perto de meia centena de pessoas.
Elísio Gala foi o primeiro dos oradores a usar da palavra e, antes de apresentar o teorema da antropologia, fez uma breve e oportuna introdução histórica e filosófica ao jornal 57 e ao Movimento de Cultura Portuguesa. Seguiu-se a intervenção de Isabel Xavier, que abordou o teorema da poesia e, citando Álvaro Ribeiro, salientou a relevância da doutrina de Arte Poética, de António Telmo, na revalorização da poesia lírica. Por fim, foi justamente António Telmo quem falou, para apresentar o teorema do romance. Este facto reveste-se de especial significado histórico, visto que o autor da História Secreta de Portugal glosou hoje uma proposição filosófica cuja autoria, há mais de meio século, lhe coubera por inteiro, aquando da redacção dos teoremas. António Telmo narrou o episódio e discorreu magistralmente sobre um género literário que concebe como uma expressão do sobrenatural.
Uma outra nota digna de relevo, e, de resto, bem tocante, residiu na circunstância de o filósofo da razão animada ter sido constantemente invocado e evocado em data marcada pela efeméride do seu aniversário.
Por último, cumpre salientar o magnífico acolhimento que a Livraria Fonte de Letras dispensou a esta iniciativa dos Cadernos. Aqui ficam, por isso, os nossos agradecimentos à livreira Helena Girão Santos. Bem-haja pela sua disponibilidade e pela sua simpatia!

A PONTA DO VÉU, 7

Poesia. Eis um dos teoremas do «57» que hoje estará em foco em Montemor-O-Novo. Isabel Xavier, que, logo à tarde, o irá apresentar, já nos havia enviado dois belíssimos poemas para publicação no primeiro número dos Cadernos de Filosofia Extravagante. Um deles, desde já, aqui fica.
Isabel Xavier nasceu em Dezembro de 1957 (por sinal, no mesmo mês e no mesmo ano em que os teoremas surgiam publicados no «57»), nas Caldas da Rainha, onde reside e é professora do ensino secundário, leccionando a disciplina de História. É autora de Catedral (Teoremas de Filosofia, 2002), livro de poemas com capa e ilustrações de Carlos Aurélio, e tem ainda colaboração dispersa por outros títulos, como a revista Teoremas de Filosofia. Preside à associação PH – Grupo de Estudos, onde se tem destacado na defesa do património histórico das Caldas da Rainha.
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Acho em tuas mãos plenas de Verdade
A causa da existência do meu Corpo
E sinto em minha pele o mesmo Sopro
Com que criou Deus a Humanidade.

Dentro do que sou existe o Mar
Existe a Terra, o Céu e as Estrelas
Existe até muito mais do que elas:
As Palavras que acendem o Luar.

Teus dedos de Espuma e de Saudade
Percorrem Ondas profundas do meu Ser
E o Mar que eu sou, em ti, consegue erguer
A Voz calada dos sons da Eternidade.

Isabel Xavier

sábado, 28 de fevereiro de 2009

EXTRAVAGÂNCIAS, 2

Ao redor de Jaime Cortesão
I – Um estranho esquecimento
por Pedro Martins

Houve na Renascença Portuguesa um triunvirato insigne, formado por Jaime Cortesão, Teixeira de Pascoaes e Leonardo Coimbra. Entre os vultos que integraram o movimento portuense, foram eles os que, no seu seio, lograram exercer a influência mais duradoura. É certo que Fernando Pessoa, movido por um ímpeto decisivo, também por ali passou – para anunciar urbi et orbi o cometimento genial da nova poesia portuguesa. Mas o aparato luminoso da sua rota apontava já a outras constelações: a fugacidade meteórica com que o ensaísta debutante perpassou as laudas d’A Águia era bem a promessa de um estrelato singular a que, em verdade, nenhum dos três maiorais renascentistas se conseguiu, entretanto, alçar. E se, em nossos dias, os nomes de Pascoaes e Leonardo começam a granjear indícios de moderado reconhecimento, ao invés, dá-se presentemente um caso estranhíssimo com a memória de Cortesão: a aura que, anos a fio, nimbara de prestígio clássico a sua figura tremenda como que se dissolveu nas trevas do oblívio.

Nas últimas décadas, com efeito, o vulto do historiador de Os Descobrimentos Portugueses tendeu a cair num esquecimento tão penoso quanto inaceitável. A sua poesia, que no alto juízo de Pessoa seguia a par das melhores estrofes de Pascoaes, é hoje simplesmente ignorada, quando não combatida, por amplos sectores de uma putativa crítica literária, como se infere da defesa denodada que António Cândido Franco, ante o inevitável juízo estreito de Óscar Lopes, teve de fazer do autor de Glória Humilde. As suas peças teatrais, como as de outros dramaturgos que por desdita nasceram em Portugal, estão há muito ausentes dos nossos palcos. E as suas Obras Completas, em curso de publicação na Imprensa Nacional – Casa da Moeda, marcam passo vai para uma década, depois da vigorosa arrancada editorial que, durante os anos noventa, permitiu devolver ao público ledor alguns dos títulos fundamentais da sua extensa produção. No que toca à bibliografia passiva, o panorama é ainda mais desolador. À parte o precioso volume documentado que Alfredo Ribeiro dos Santos lhe consagrou em 1993 (Jaime Cortesão – Um dos Grandes de Portugal), e o livrinho que José Manuel Garcia já publicara em 1987 na colecção O Essencial, estarei em crer que nenhuma outra súmula ou obra de fundo permite atestar, desde as comemorações do centenário de Cortesão (ou seja, desde 1984), um assomo de interesse pelo seu legado incomparável.

No próximo ano, não se celebra apenas o centenário da implantação da República. Assinala-se também a passagem de um século sobre a publicação d’A Morte da Águia, poema heróico que foi o livro de estreia de Jaime Cortesão, e é título fundamental no rol livresco da nova poesia portuguesa. E comemora-se ainda o cinquentenário da morte do autor de O Humanismo Universalista dos Portugueses, homem livre e patriota que, como poucos, soube honrar a ideia republicana entre nós.

Entre o formal nascimento literário do escritor e o desaparecimento físico do corajoso cidadão coube uma assombrosa aventura espiritual de meio século. O ano de 2010 tem, desta sorte, o condão fascinante dos oráculos. Pelo seu decurso se verá em que medida o insinuante perfume da amnésia nos vem inebriando num sono de morte.

ALBOTINI, UM CABALISTA PORTUGUÊS

Tradição. N'O Lugar da Alma prossegue a série Sábios Portugueses das Três Tradições. Mas há uma ligeira mudança de agulha: o sufismo deu lugar à kabbalah e é de Albotini que se fala agora nesta página da autoria de Abdel Hayy. Yehudah ben Rabbi Moshe Albotini, cabalista português do século XVI, foi discípulo de Abuláfia e Rabi em Jerusalém entre 1500 e 1520.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

A PONTA DO VÉU, 6

Messianismo. E profetismo. Duas das coordenadas que assinalam o ensaio de filosofia da história com que, no primeiro número dos Cadernos, Pedro Paquim da Fonseca Ribeiro se irá estrear em letra de forma, assinando com o pseudónimo de Fuas Paquim. Para o Preâmbulo de um Estatuto Senatorial, de que adiantamos um excerto, encerra uma proposta porventura ousada (mas onde há pensamento sem audácia?) pela peculiar visão que nos oferece do princípio aristocrático, mormente na sua articulação com o princípio democrático.
Pedro Paquim da Fonseca Ribeiro nasceu em Lisboa em 1979. Frequentou o Curso de Matemática e algumas cadeiras dos Cursos de Filosofia e Cultura Clássica, mas acabou por enveredar pelo Direito, tendo-se licenciado pela Faculdade de Direito de Lisboa em 2005. Encontra-se a exercer advocacia na capital.
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PARA O PREÂMBULO DE UM ESTATUTO SENATORIAL
Bellum sine Bello
Os senadores são mestres espirituais do sentir pátrio, os representantes da vontade ideal do país.
Não lidam com a política económica e social do país, embora sejam os garantes últimos dos valores da liberdade, fidelidade e fortaleza. Cabe à soberania popular a regulação daqueles domínios através das suas instâncias democráticas.
Ao senado compete prover ao ânimo do país e levar a cabo a sua missão profética, tal como ficou delineada em aberto pelas acções dos heróis, pelos cantos dos poetas e pelas cogitações dos filósofos portugueses – caberá ao senado o fecho dessas profecias, ou melhor, o comando dessa tarefa, já que é o povo, no seu todo, o autor e concretizador das mesmas.
Na verdade a missão de Portugal traduz-se numa vocação ao poderio mundial. Não no sentido de um poder de hetero-determinação mecânica sobre os outros países, mas antes no sentido de uma autoridade, moral e, sobretudo, filosófica, ou duma paternidade, tão espiritual quão natural, a ser exercida sobre o mundo de forma a torná-lo ordenado e feliz.
Vai terminando o ciclo histórico da globalização, tendo cada país adquirido consciência da sua situação no globo, estabelecendo relações com todos os outros. Porém, como qualquer ciclo, a globalização desenvolveu-se no sentido da materialização: cumprindo o seu destino de interconectar o mundo, a globalização foi, ao mesmo tempo, dividindo o mundo e dissolvendo as estruturas tradicionais que se lhe opuseram. Hoje o mundo está ciente dos perigos vindos desta materialização excessiva, que ameaçam o bem-estar, a convivência e a paz mundiais, havendo uma sensação de iminente desencadear das forças do caos e da confusão, sem que se consiga fazer-lhes frente, dada a complexidade e a fragmentação existentes.
(...)
Fuas Paquim

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

PALAVRAS QUE FAZEM VER, 3










[Álvaro Ribeiro salazarista?]
1978. “Esta simples nota de direito constitucional, com suas teses e antíteses, tem por fim, termo ou meta a síntese de que, apesar das ficções jurídicas e burocráticas, que surgiram depois, só de 1910 a 1926 existiu República em Portugal. Decerto que teve ela muitos erros de estrutura, previstos e condenados por Teófilo Braga, mas abonados nas lições universitárias de Marnoco e Sousa; decerto que ela não cumpriu a promessa de reformar a educação pública pelo modelo francês do Sistema de Política Positivista; decerto que o seu partidismo ou partidarismo lhe causou desagregação tão grave, a ponto de um experimentado estadista, conhecedor profundo do significado técnico das palavras portuguesas, ter dito em pleno parlamento que o País já estava a saque. Sempre cobiçada pelos militares, e conquistada sem luta nem dificuldade a 28 de Maio de 1926, a República Portuguesa permaneceu de nome nas moedas e nos selos, mas as suas instituições deixaram de se constituir nos termos definidos pelos pensadores, escritores e artistas.”
Álvaro Ribeiro

(in "Pela República, Contra o Socialismo - Teses e Antíteses", Dispersos e Inéditos, III, INCM, 2005)


[Álvaro Ribeiro e a canonização de D. Nuno Álvares Pereira]
1978.
“Só a Deus pertence a virtude de saber quais os homens e as mulheres que verdadeiramente alcançaram a santidade, enquanto as nossas dúvidas podem permanecer por muitos séculos, como está acontecendo com as delongas no processo de canonização do Beato Nuno Álvares Pereira, já que só pode ser por nós designado santo aquele ou aquela a quem tal qualificação for atribuída pela Igreja Católica.”
Álvaro Ribeiro

(in "Feriados Nacionais", Dispersos e Inéditos, III, INCM, 2005)


[Álvaro Ribeiro perante o Concílio Vaticano II]
1981. “Só os estudiosos sinceros das ciências ocultas – melhor, das causas ou das qualidades ocultas –, se mostraram capazes de, por sanção ou por oração, relacionarem o espírito humano com o espírito divino. A arte de filosofar é, por conseguinte, uma actualização constante das provas da existência de Deus. A Igreja Católica, hoje mais perplexa do que ontem, ou talvez mais prudente, terá de aceitar, enfim, o messianismo de S. João Evangelista e de Joaquim de Floris, libertando a liturgia de praxes e de dogmas que representam rotinas pretéritas, já insignificantes ou talvez hipócritas.”
Álvaro Ribeiro

(in "Carta Prefacial", Dispersos e Inéditos, III, INCM, 2005)

A PONTA DO VÉU, 5

Grécia. Eis uma nota comum aos dois escritos em prosa que o poeta Avelino de Sousa nos deu para publicação no primeiro número dos Cadernos de Filosofia Extravagante, no qual será ainda dado à estampa um notável poema da sua autoria. Por ora, antecipamos, na íntegra, aos leitores um daqueles textos em prosa, intitulado Um Galo a Asclépio.

Avelino de Sousa publicou dois livros de poesia, Nostalgia (1988, Prémio do Município de Lisboa) e Retratos Apócrifos seguidos de Doze Canções (1991). Tem colaboração dispersa por jornais e revistas, entre as quais Colóquio/Letras (nºs 108 e 123/124). Traduz poesia, sobretudo de poetas de língua castelhana e francesa. Vive em Setúbal.
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UM GALO A ASCLÉPIO

Conforme narra seu discípulo Platão, antes de morrer Sócrates entrou num banho para se purificar. Recebeu, depois, seus filhos e as mulheres da sua parentela, a quem deu os últimos conselhos.

Ainda proferiu um louvor a um servo que lhe veio anunciar o fim, após o que disse: «Tragam o veneno ou o preparem», sem se importar de ainda não serem as horas prescritas e do sol não se ter já escondido para lá das últimas montanhas. Assim pensava: “O que chegou ao seu termo não adianta adiar”.

Um outro servo lhe depositou o copo de cicuta em sua mão. Presume-se que tenha endereçado uma última prece aos deuses, após o que levou o copo aos lábios e o esvaziou de um só trago. Ante o choro dos companheiros, nessa hora funesta da partida, num último assomo de coragem lhes pediu para que dominassem as emoções.

O efeito do veneno cedo se fez sentir, começando por anestesiar os pés e subindo daí pelo corpo acima. Estava deitado e com a face coberta. Mas antes que o último sopro de vida se ausentasse do seu coração, descobriu-a e disse estas derradeiras e imemoriais palavras:

«Ó Críton, nós devemos um galo a Asclépio.
Satisfaz esta dívida e não te descuides!».

Significava, com elas, que se curava da doença da vida e tal como o galo é o arauto da aurora, assim ele entrava pelos portões da vida que não fenece, saudando o sol da imortalidade.

Avelino de Sousa

UM PEDIDO DE DIVULGAÇÃO

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

«CADERNOS» APRESENTADOS EM LISBOA

18 horas. Eis a hora definida para a realização da sessão de apresentação dos Cadernos de Filosofia Extravagante que terá lugar no próximo dia 22 de Março, domingo, na Galeria Matos-Ferreira, em Lisboa, e que contará com a participação de António Telmo, Pedro Martins e Renato Epifânio. Depois da sessão de lançamento, agendada para o dia anterior, 21 de Março, pelas 15 horas, na Biblioteca Municipal de Sesimbra, esta é já a segunda sessão dedicada à apresentação do novo projecto da Serra d’Ossa.

Cumpre registar que o agendamento desta sessão se tornou possível graças ao empenhamento de Renato Epifânio, um dos directores da revista Nova Águia, que, num gesto de grande simpatia, propôs à Serra d’Ossa que fizesse a divulgação, naquele espaço, das suas novidades editoriais, cedendo, para o efeito, uma data inicialmente destinada a um evento da Zéfiro, editora que publica aquela revista. Este é um gesto invulgar, a merecer o nosso público reconhecimento, e um exemplo louvável de sã convivência entre projectos culturais distintos, mas com algumas afinidades.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

SIMPÓSIO SOBRE OS TEOREMAS DO «57»

Alteração. É já no próximo domingo, dia 1 de Março, pelas 15 horas, na Livraria Fonte de Letras, em Montemor-O-Novo, que se inicia o ciclo de simpósios 12 Teoremas do 57 – Actualidade dos Teoremas do Movimento de Cultura Portuguesa.

Há uma alteração ao programa do simpósio inaugural, que, como os restantes, é promovido pelos Cadernos de Filosofia Extravagante. Assim, e diversamente do que fora anunciado, será Isabel Xavier, e não Pedro Sinde, a apresentar o teorema relativo à poesia. No mais, tudo se mantém igual: António Telmo apresentará o teorema relativo ao romance; e Elísio Gala fará o mesmo quanto ao teorema relativo à antropologia.

A PONTA DO VÉU, 4

Diálogo. Ou de como a filosofia portuguesa, partindo de aspectos comuns, pode con-versar com distintas orientações de pensamento, preservando, todavia, com serenidade e firmeza, o que lhe é próprio – eis um entendimento possível para a reflexão – Repensar o Problema da Filosofia Portuguesa – que Elísio Gala nos propõe no primeiro número dos Cadernos de Filosofia Extravagante, e da qual revelamos agora os parágrafos iniciais.
Elísio Gala nasceu em Lisboa em 1965 e formou-se em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, leccionando presentemente esta disciplina na Escola Secundária do Redondo. É autor de diversas obras, entre as quais destacamos As Linhas Míticas do Pensamento Português (coordenação, com Paulo Samuel, das actas do colóquio, Fundação Lusíada, 1995), A Filosofia Política de Álvaro Ribeiro (Fundação Lusíada, 1999) e Santo Agostinho na Cultura Portuguesa – Contributo Bibliográfico (com Joaquim Domingues e Pinharanda Gomes, Fundação Lusíada, 2000). Traduziu e anotou para a Guimarães Editores o Fédon e A República, de Platão, contando ainda este último diálogo com um prefácio da sua autoria.
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REPENSAR O PROBLEMA DA FILOSOFIA PORTUGUESA
(Álvaro Ribeiro, José Marinho e o Padre Manuel Antunes)

O título escolhido para encabeçar esta reflexão decorre de uma constatação e de uma associação. Começando por esta última, quais os elementos explícitos ou implícitos desta associação? Explícitos são os títulos da obra de ensaios “de reflexão e de prospecção” denominada Repensar Portugal da autoria do Padre Manuel Antunes e da obra de “natureza programática e didáctica” de Álvaro Ribeiro intitulada O Problema da Filosofia Portuguesa. Implícitos, são os artigos do Padre Manuel Antunes «Haverá Filosofias Nacionais?», «Da situação da Filosofia», «Filosofia da Cultura: sua necessidade»; de Álvaro Ribeiro «A Filosofia Portuguesa não é como a de outros povos na Europa moderna e obriga-nos a difíceis e demoradas investigações históricas», «O problema da Filosofia Portuguesa perdeu já a actualidade»; e de José Marinho «Filosofia Portuguesa e Universalidade da Filosofia». Eis o horizonte de textos e reflexões que nos suscitaram o título.

A constatação que inspirou a titular deste modo esta reflexão foi a repetida insistência por alguns publicistas e literatos, de uma frase do Padre Manuel Antunes que responde, segundo eles, de modo conclusivo ao problema da existência ou não de filosofias nacionais. A resposta resume-se na seguinte frase retirada do artigo «Haverá Filosofias Nacionais?»: “se é nacional não é filosofia e se é filosofia não é nacional.” O alvo das suas críticas é sempre Álvaro Ribeiro, tão pouco lido e meditado quão injustamente tratado. Ora, quanto a nós, o problema formulado pelo Padre Manuel Antunes tem mais o carácter de uma interrogação, do que o de uma pergunta. Para as perguntas há respostas, o que já não sucede com as interrogações. Embalados e adormecidos na resposta esquecemo-nos da interrogação. O pensado é substituído pelo achado. “Acho” que não há filosofia portuguesa, eis o que exprimem as afirmações de tais publicistas e literatos, que em boa verdade há muito deixaram, ou mesmo nunca pararam, para “pensar” se há filosofia portuguesa. Quanto a nós, o Padre Manuel Antunes manteve viva a interrogação, como se pode depreender pelo título e conteúdo da obra Repensar Portugal. Eis o que pretendemos demonstrar.

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Elísio Gala

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

EXTRAVAGÂNCIAS, 1

Uma das vertentes do projecto dos Cadernos de Filosofia Extravagante consiste na edição, na Internet, da página (vulgo blogue) que o visitante está a ler. Nela se divulga a edição em papel da publicação e se dá notícia das iniciativas que são promovidas sob a sua égide. Por outro lado, pretende-se que este espaço esteja à disposição de todos aqueles que, de uma ou de outra forma, integram ou venham a integrar o círculo dos Cadernos, de forma a que nele possam publicar os seus escritos (apontamentos, crónicas, perfis, reflexões, recensões, etc.) ou as suas imagens. De alguma sorte, trata-se de prolongar, com carácter de permanência, a presença e a actualidade dos Cadernos junto dos seus leitores. Assim nasce a rubrica Extravagâncias, abarcando as colaborações que, pelo menos no imediato, extravasam a publicação em papel. O texto inaugural, testemunho de homenagem a Dalila Pereira da Costa, é de Cynthia Guimarães Taveira.
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Dalila Pereira da Costa, Oração e Invocação
por Cynthia Guimarães Taveira

Detida e retida no primeiro livro da autora que teve nas mãos, A Nau e o Graal. Detida pelos seus imaturos dezassete anos. Retida por essa estranha forma de escrever e pela complexidade da disposição de palavras. Em suspensão esteve nessas primeiras duas páginas, não sabendo se iria progredir nessa viagem, não sabendo como ler. “Como ler isto?”, perguntava-se. Como ler Dalila? E, suspirando, avançou nas páginas, como se avança no mar, sem querer saber de monstros marinhos, sem querer saber se entendia ou não o que ali estava. Avançava simplesmente. E nesse texto descobriu a fórmula da leitura. Primeiro sentir esse compasso das ondas, nos ritmos, nas cadências, nos silêncios. Tantos silêncios. Depois, ver nascer a pouco e pouco a oração. Dádiva dessas letras ao céu, devolução a Deus dessa serenidade. E eis que o texto agora se projectava para cima, em voz alta, em gratidão. Lia páginas da Dalila para os anjos ouvirem. Como uma sinfonia desmultiplicada em sentidos, agudos pela intensidade, e por vezes graves e firmes como as rochas do Porto. E eis que essa oração sem pedidos, exigências, por nada disso constar no texto, apenas louvor, se transmutava em evocação. Evocações infinitas do Belo, do Bom, da Bem-aventurança. Cada autor tem uma forma de ser lido, um tom interior ajustado ao tom das palavras, das cadências, da música. Em Dalila descobria a revelação a cada passo e um novo mundo surgia, nascido do velho e do gasto. O próprio mundo mas desocultado. O misticismo já não fazia sentido como corrente, como devaneio. Era enfim vivido, despoletado pela força da palavra-oração. E não era solitário: de um lado a terra inteira, espreitando no mais simples pássaro; do outro, Deus, num aceno de um simples anjo. A evocação foi o resultado da sua leitura, o desapego intelectual a sua condição. Palavras-anjos que nos conduzem:


“Mas para que cada homem, num certo espaço e tempo da terra, e neste, como pátria, possa colaborar nessa nova redenção, como assunção, transfiguração sua e do mundo, necessário se torna que, por uma gnose amante, todos os estados sucessivos, e sucessivamente vividos, ultrapassados, sejam conhecidos e esgotados, em todas as suas virtualidades. O corpo e a alma terão de ser, no amor, totalmente assumidos e iluminados pelo espírito (ou o inferno e a terra pelo céu). Até ao seu mais recôndito interior e seus extremos.

Então também por essa ignição derradeira (por ele operada) todas as escórias cairão e corpo e alma (ou inferno e terra) delas libertadas, puras, possuirão a sua vera natureza, primeira, gloriosa.

Assim se assumirá, ultrapassando-as pela união da complementaridade, para além da oposição (aparente): noite e dia, corpo e alma, vigília e sonho, terra e céu, mundo visível e invisível, morte e vida.

Assumindo aí o homem a sua vera posição teológica, no cosmos - como o seu ponto de Manifestação.

E então também, para transcender-se e servir, ele fará transcender todas as suas possibilidades latentes, todas as suas forças inclusas, escondidas e não usadas em si (depois da sua idade primeva, paradisíaca). E de si um novo homem (de novo o primevo), de si desconhecido e não suspeitado até agora, depois dessa idade surgirá.

Do seu interior mais fundo, que agora ele verá que se une e identifica ao exterior mais remoto, como o Real, ele fará erguer-se as forças de seu conhecimento amor: e então de uma forma nova usará a poesia, a mística e a filosofia: enlaçada, multiplicada, global e vertiginosamente.”

in A Nau e o Graal, Dalila L. Pereira da Costa, Lello & Irmãos Editores, 1978 (pág. 18/19).

A PONTA DO VÉU, 3

Segredo. Eis, seguramente, a tónica d’A Noz, um escrito da autoria de António Carlos Carvalho. Foi um dos primeiros textos que nos chegaram com destino aos Cadernos. E, de entre os que integram a nova publicação da Serra d’Ossa, será o primeiro a que iremos levantar a ponta do véu, através de um excerto. Por ele se evidenciam as marcas, profundíssimas, que a influência da tradição hebraica deixou na cultura portuguesa.

António Carlos Carvalho nasceu em Lisboa em 1947. Licenciou-se em Ciências Religiosas, com uma tese sobre O Espírito Santo no Pensamento e Obras dos Padres da Igreja. Foi profissional de jornalismo entre 1968 e 2004 (A Capital, Diário de Notícias) e autor de programas de rádio na Rádio Comercial e na RDP (Antena 2). Colaborou em diversos programas e séries da RTP, tendo sido consultor (livros e autores) do programa Acontece (RTP2), desde a sua primeira emissão, em 1994, até à última, em 2003.
Dirigiu a colecção «Janus» da editorial Vega (de 1976 a 1978), prefaciando todos os volumes. É autor de diversos livros, entre os quais destacaremos Para a História da Maçonaria em Portugal, 1913-35 (Vega, 1976), O Triângulo Místico Português (Liber, 1980), Os Judeus do Desterro de Portugal (Quetzal, 1999), Prisioneiros da Esperança – Dois Mil Anos de Messias e Messianismos (Âncora, 2000) e Vieira e os Judeus (Contexto, 2001). Actualmente é tradutor.

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A NOZ

Eles partiram, quase todos, desterrados da terra que era a sua. Quando falavam de si mesmos, diziam «os senhores do desterro de Portugal». Eram os judeus portugueses, isto é, aqueles portugueses que eram diferentes.
Partiram, na sua maioria, impelidos pelo ódio, pela calúnia, pela inaceitação do que é diferente de nós, pela sua incapacidade de continuarem a viver numa terra que consideravam pátria sua mas onde denúncia e perseguição se transformaram em modo de vida ou de sobrevivência para outros.
Partiram mas deixaram marcas. Marcas tão profundas que se tornaram invisíveis, secretas, segredos. Deixaram-nos o segredo. O gosto e a necessidade do segredo. É um paradoxo. O segredo ama-se, cultiva-se, alimenta-se, porque afinal «é do segredo que tudo depende», «o mundo só pode subsistir pelo segredo» -- lê-se numa passagem do «Zohar», o «Livro do Esplendor» (Zohar III, 145 a), esse imenso tratado de hermenêutica judaica que perscruta os segredos da tradição secreta de Israel.
Ou como dizia um kabbalista peninsular do séc. XIV, Joseph de Hamadan, «cada palavra da Torah, sem excepção, é um segredo dissimulado e profundo». Falava da Torah no texto original, hebraico, evidentemente, não das traduções, que nos enganam com a sua linearidade, a ilusão de que está tudo contido no sentido literal passado para as outras línguas. Ora na leitura do texto da Torah tudo é mistério... mesmo o sentido literal. Os exegetas judeus, tal como os cristãos, medievais sabiam que o texto sagrado tinha três ou quatro níveis de interpretação: Pshat (simples ou literal), Remez (metáforas, alegorias e parábolas), Drash (analítico) e Sod (secreto), cujas iniciais formam o acrónimo Pardes, jardim, vergel, paraíso.

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António Carlos Carvalho